A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DO QUE OS BEBÊS SE LEMBRAM

A maior capacidade de memorização coincide com a aquisição progressiva das noções de tempo, espaço e de eu, por volta dos 9 meses; para pesquisadora, os pequenos captam e entendem grande parte de informações que recebem, mas não as absorvem por completo

Crianças pequenas memorizam. Se não se lembram de nada antes dos 3 anos é devido à dificuldade de reter as informações nesse período. Esse fenômeno intriga pesquisadores e tem suscitado pesquisas como as da neurocientista americana Patrícia Bauer, da Universidade Duke, e da psicóloga Lisa Oakes, da Universidade da Califórnia.

Os estudos revelam que na amnésia infantil o processo de esquecimento supera a capacidade de formação de memórias. Segundo Bauer, memórias são constituídas com base em complexa rede de estruturas cerebrais que se desenvolvem aos poucos, em diferentes regiões do cérebro infantil.

Entre 6 e 18 meses essas estruturas vão se ligando umas às outras. Nesse período os bebês adquirem grande habilidade para formar memórias de curto e longo prazo. Até os 9 meses, porém, as recordações são frágeis; perdem-se logo devido à imaturidade cognitiva. Já as crianças de 2 anos memorizam eventos por mais tempo. No lugar de lembranças de apenas um dia, recordam coisas experimentadas um ano antes. A maior capacidade de memorização coincide com a aquisição progressiva das noções de eu (aos 8, 9 meses), de tempo e espaço. Para Oakes, bebês captam e entendem grande parte de informações que recebem, mas não as absorvem por completo.

Os experimentos de Bauer incluíram testes com blocos ilustrados e medições eletrofisiológicas. Após observar como eram montados, os bebês imitavam a tarefa. A partir de então, recebiam os mesmos objetos. O objetivo era testar a duração da memória e até que ponto retinham a informação sobre a montagem do jogo. Já Oakes, levando em consideração que os bebês tendem a se ater mais a coisas novas que a conhecidas, mediu o interesse por objetos; quanto tempo retinham na mente aqueles anteriormente apresentados.

Segundo Lia Bevilaqua, do Centro de Memória do Instituto de Pesquisas Biomédicas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), isso demonstra que, ao contrário do que se acreditava, crianças com menos de 1 ano têm capacidade de evocar memórias episódicas e autobiográficas, e ao final do segundo ano de vida a habilidade para formar e expressar memórias de longa duração já está quase completamente desenvolvida.

OUTROS OLHARES

CONHECER PARA RESPEITAR

Um grande desafio para banir a desigualdade e a discriminação do cotidiano escolar

Nas considerações de Paulo Freire, “você, eu, um sem-número de educadores sabemos, que a educação não é a chave das transformações do mundo, mas sabemos também que as mudanças do mundo são um quefazer educativo em si mesmas. Sabemos que a educação não pode tudo, mas pode alguma coisa. Sua força reside exatamente na sua fraqueza. Cabe a nós pôr sua força a serviço de nossos sonhos.”

Faz-se necessário compreender a educação como transformação social, oportunizar aos nossos al unos desde a educação infantil serem sujeitos construtores da própria história. A escola deve educar para a vida desde bem cedo, daí a importância de se trabalhar na escola questões como: a desigualdade social, a discriminação racial e a diversidade cultural; oportunizando aos alunos a quebra de paradigmas desde cedo, reconstruindo valores e verdades a respeito do outro, respeitando as diferenças sociais, culturais e raciais no seu cotidiano.

É imprescindível, a escola atual, trabalhar de maneira eficaz a matriz africana no seu currículo. Pois a História africana, sua formação e delineamento da identidade cultural afro-brasileira, é de suma importância no cenário educacional, pois será interpretando e recriando as práticas de outras culturas, que os alunos irão ter possibilidades de conhecer e assim respeitar o outro.

Herdeiros de uma escola que sempre privilegiou, em grande parte de sua trajetória, conteúdos eurocêntricos, vivemos hoje a urgência de rever conteúdos e temas formativos em nossos bancos escolares. Dessa maneira, conhecer e refletir sobre os costumes e tradições, as práticas e as representações culturais, a mitologia e a religião, a linguagem e as escritas, a resistência e as lutas, a memória e a história do povo africano; assim ensinar, aprender, refletir e debater sobre as identidades, é um exercício fundamental para o combate à intolerância, à discriminação, à xenofobia, ao racismo.

A importância de se discutir tais questões no âmbito da educação é atestada pela amplitude e incidência de crimes e violência no Brasil. Estes ocorrem no contexto de uma história e uma cultura que favorece a violências de todo tipo. Tratar a discussão sobre a cultura afro-brasileira, como matéria/disciplina, significa dar um passo importante para reduzir as desigualdades e a violência que marcam nosso país e o cotidiano escolar. A luta contra o preconceito é tanto política quanto acadêmica.

Para a Unesco, debater essas questões em sala de aula é fundamental, é primordial que ensinem aos estudantes que todas as pessoas são iguais, independentemente da cultura ou até mesmo de sua cor. Um dos compromissos dos países-membros da Organização das Nações Unidas é garantir o cumprimento da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, adotada pelo Brasil e todos os outros Estados – membros da ONU em 2015. Entre os 17 objetivos globais da agenda, está a garantia de ambientes de aprendizagem seguros e não violentos, inclusivos e eficazes, e a promoção da educação para a igualdade e os direitos humanos.

A Carta Magna Brasileira prevê, no Art. 3.0, inciso IV, que constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, dentre outros, promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Prevê, ainda, em seu Art. 206, no que tange ao direito à educação:

I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;

III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino.

Neste sentido, a política de educacional é imprescindível, é na educação básica que as crianças podem tornar-se seres mais esclarecidos e livres para entender o mundo, sem imposições. Para o alcance dessas propostas, é necessário, implementar a educação sobre os temas dos direitos humanos e da diversidade na formação inicial e continuada, oferecida por faculdades e universidades; disponibilizar material didático-pedagógico para auxiliar os profissionais de educação na abordagem destes temas; e realizar pesquisas para o monitoramento e avaliação desse trabalho. Penso que os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) [BRASIL, 1997] são propostas do Ministério da Educação e do Desporto (MEC), datadas de 1997, 1998 e 1999, para a abordagem curricular da educação básica, com o objetivo de serem um referencial comum para a educação de todos os Estados do Brasil, não é suficiente, pois muitos professores têm tido dificuldades em aplicar as sugestões apresentadas por eles, o trabalho interdisciplinar ainda é um desafio no cotidiano escolar, sendo necessário políticas educacionais que atendam a regionalidade de cada lugar no Brasil. Desse modo, verifica-se que a Nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996, como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de 1997, enfatizam a ideia de diversidade cultural, múltiplos olhares sobre a cultura e a História do patrimônio material e imaterial do Brasil. Nos permitindo, como professores ampliar estes temas, incorporando leituras críticas de textos em sala de aulas, resgates de lendas e tradições regionais, pesquisas de fontes históricas, estudo de textos literários, possibilitar discussões a respeito da diversidade cultural, narrativas cotidianas. Mas isso só será viável pedagogicamente, se Escola, Docentes e Alunos estiverem abertos para a realidade da comunidade escolar, pelo saber adquirido a partir das vivências e tradições da mesma.

Quando a escola aborda a questão racial, cultura afro-brasileira, numa perspectiva plural, ela mostra ao aluno que tudo o que existe na nossa sociedade são construções culturais, e que elas mudam ao longo do tempo. Dar essa perspectiva histórica ao aluno, de que nem sempre foi assim e nem sempre vai ser assim, faz com que eles reflitam e aí, sim, se tem um ganho progressivo de liberdade, de autonomia, que são características importantes. Nesta perspectiva, os PCN’s oportunizam à escola refletir sobre o seu currículo, sobre as necessidades de sua comunidade escolar quanto à realidade de diversificar as práticas pedagógicas, pois rompem a limitação da atuação dos educadores em relação às atividades formais e ampliam um leque de possibilidades para a formação do (a) educando (a).

A escola pode e deve contribuir na construção de princípios de igualdade e justiça, culminando assim no desenvolvimento de uma cultura democrática e participativa. Se queremos uma sociedade mais justa e igualitária, é sem dúvida na escola que iremos reverter o quadro desolador de desigualdade. E atitudes preconceituosas e discriminatórias somente podem ser mudadas por meio da educação – em todos os níveis e modalidades – em direitos humanos e de respeito à diversidade humana, em todas suas manifestações.

O currículo escolar também é uma outra ação necessária, pois deveriam dar maior ênfase ao cotidiano escolar, permitir estudos de Histórias regionais, locais, que incentivassem a formação de uma identidade cultural e consequentemente nacional; dar ênfase as tradições, valores, memórias, vivências e uma nova percepção do tempo e do espaço. Levar esta discussão para o universo escolar é abrir-se para uma educação que vai além da reprodução de valores, é entender que se deve educar para a crítica às reproduções culturais, tornar prioridade nas políticas curriculares. Os professores podem oportunizar, por meio de atividades pedagógicas, a busca pelas raízes culturais junto aos alunos, através de projetos pedagógicos que trabalhem educação e cultura. No que se refere à contribuição africana é evidente, principalmente, na culinária, dança, religião, música e língua. Deste intercâmbio cultural formou-se a cultura afro-brasileira, sendo visível à influência africana em todos os aspectos da sociedade brasileira, em diálogo com valores humanos de várias etnias e grupos sociais, imprimimos valores civilizatórios de matriz africana à nossa brasilidade que é plural. É imprescindível trabalhar esses temas no cenário educacional, iniciando desde a educação infantil até ao Ensino Médio; além do Ensino superior. Para assim edificarmos valores essenciais para a vida e na vida! E assim, estarmos contribuindo por uma educação crítico social no cumprimento das leis: 10.639/03 e 11.645/08.

É cumprir nosso papel social, enquanto professores, fortalecendo nossa identidade social, para que nossos alunos conheçam e reconheçam o espaço em que vivem, proporcionando mudanças no seu modo de entender a si mesmo, entender os outros, as relações sociais e a própria História; entendendo que saber sua história é saber narrar a si mesmo e ao outro; é ser sujeito de sua própria história, um agente ativo na sociedade, um sujeito capaz de pensar e transformar, exercendo sua plena cidadania. A ideia de educação deve estar intimamente ligada às de cultura, liberdade, democracia e cidadania.

É importante refletir esta questão, como a Cultura se traduz em experiências escolares? Qual a imagem que os alunos têm de si mesmos, de seu lugar, de seu país, do mundo em que vivem? É preciso, enquanto professores, buscarmos esse olhar, essa identidade, esse sujeito capaz de transformar a sua realidade a partir do conhecimento obtido. Oportunizar ao aluno a busca de suas raízes, em relembrar coisas do passado, seja na família ou comunidade, na cidade ou região, tornando a história viva; tornando-se sujeitos de sua própria História, sendo capaz de transformá-la de maneira crítica e consciente, propiciando a sociedade cidadãos críticos, transformadores e sensíveis ao meio em que vivem.

A cultura é plural, implica sujeitos, valores, manifestações artístico-culturais e materiais, imaginário social, identidade, conhecimento, relações de poder, religião, etc. ; possibilitando assim várias possibilidades de projetos interdisciplinares, girando em torno de grandes temas, como: Identidade e Pluralidade; Cultura de massa e Consumo; Patrimônio e Herança Cultural; Cultura e Cidadania. Todos estes temas estão interligados, valorizando a cultura no cenário educacional. Assim sendo, a cultura configura um mundo de símbolos, que atribui significados e delimita a forma como se lê, se sente, se vive; definindo a maneira de ser e de agir do indivíduo.

Nessa perspectiva, o ensino­ aprendizagem oportuniza um espaço – tempo de reflexão crítica acerca da realidade social e, sobretudo, referência para o processo de construção das identidades destes sujeitos e de seus grupos a qual pertence, o que é determinante na construção da leitura de mundo deste aluno. Para uma boa prática, é necessário conhecer e fortalecer a identidade social, possibilitando ao aluno conhecer e reconhecer o espaço onde vivem, pertencer e se apropriar do mesmo no decorrer da sua História, promovendo a troca de significados e vivencias. Incentivar a diversidade cultural, o conhecimento e respeito a cultura do outro, fortalecer a memória e novos saberes, conhecer tradições e o lugar em que vive. Conhecer para respeitar! Aprender a ser, só é possível quando existem trocas de saberes, partilha de experiências e situações instigadoras. Assim, vamos gerar cidadãos capazes de mudar e transformar o lugar em que vivem, sem precisar mudar de lugar.

A História das populações indígenas e afro brasileira, é de suma importância de ser compreendida e vivida na atualidade; como meio de conscientização e valorização do passado dos povos indígenas e africanos, oportunizando ao aluno a reflexão e o respeito às diferenças culturais em nosso país. A promulgação da Lei 10.639/03, alterando a LDB, estabeleceu a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira” no currículo oficial da rede de ensino da educação básica, oportunizando a visibilidade e o reconhecimento da cultura e memória do povo africano e suas experiências, na sociedade brasileira ao longo da História. A mesma lei foi novamente alterada pela de n. 11.645/08, com a inclusão da temática indígena nas escolas, em uma abordagem que possibilita ao aluno dos ensinos fundamental, médio e superior, ter uma visão crítica à imagem dos povos indígenas, sua diversidade étnico-cultural, sua história e presença na atualidade.

Desta forma, a escola deve reconhecer e valorizar a história e a cultura africana, a afro-brasileira e a indígena, que são imprescindíveis para o ensino da diversidade cultural no Brasil. Trata-se de um momento em que a educação brasileira busca valorizar devidamente a história e a cultura de seu povo afrodescendente e indígena, buscando assim desconstruir paradigmas racistas e eurocêntricos da memória e História desses povos, que devem ser reconhecidos e respeitados. A escola deve educar para a vida e na vida, desde bem cedo, entendendo a sociedade como um espaço de realizações instigando no aluno a formação de uma consciência crítica e cidadã. Para isso, será necessário, que a escola tenha clareza de seu currículo, de sua proposta pedagógica, de seu sistema de avaliação no processo de ensino e de aprendizagem, na ação educativa; discutindo-a, e colocando como perspectiva a possibilidade de mudar essa realidade, repensar a formação de homens capazes de transformar, caracterizada pela ação transformadora do mundo.

Compreender que o homem é um ser histórico, capaz de construir sua história participando ativamente com os outros no mundo. Uma educação transformadora, é capaz de promover mudanças por meio da leitura do espaço; o qual traz em si todas as marcas da vida dos homens, construído cotidianamente e que expressa tanto as nossas utopias, como os limites que nos são postos; é oportunizar a reflexão sobre o papel de sujeitos de nossa História, mobilizando para os caminhos de acesso ao conhecimento, associada a cultura, leitura crítica da realidade, desafiando-nos para que percebamos que o mundo pode ser mudado, transformado, reinventado.

A escola tem como desafio nos dias atuais, a formação do cidadão, para que este tenha conscientemente participação social, política e atitudes críticas diante da realidade que vive, oportunizando uma atuação e transformação da realidade histórica na qual está inserido. É imprescindível, que a sociedade e o Estado, percebam e assumam que a escola é uma instituição social plural, que se educa para a vida e para a cidadania. Se fazendo necessário, repensar o significado da transformação social no cenário educacional e assim buscar para o nosso país. Assim, um dos desafios da educação é inspirar, criar e recriar possibilidades de lutas contra o preconceito, a violência, a alienação, o autoritarismo, enfim uma nova ressignificação da atuação pedagógica para aceitar e incluir as diferenças do outro, das nossas próprias diferenças e assumir uma postura diante das diferenças produzidas ao longo da História da Humanidade.

GESTÃO E CARREIRA

LÁ DE CASA

O home office é uma alternativa para conciliar maternidade e carreira. Mas tocar os negócios da sala de jantar requer cuidados específicos

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Trabalhar em casa era algo que não passava pela cabeça de Nathana Lacerda, de 34 anos. Fundadora, há 15 anos, da Sigma Six, empresa especializada em construção de imagem e reputação, de segunda a sexta ela se arrumava para ir até a sede do escritório, a 15 minutos de sua casa, no bairro Padre Bento, em Itu, a 100 quilômetros de São Paulo. Lá, passava de 7 a 9 horas diárias. “Nunca havia pensado em home office, achava que isso era para quem estava começando”, diz Nathana. Mas tudo mudou há dois anos, quando ela deu à luz a seu primeiro filho, Bento. Após a maternidade, a empreendedora se deu conta de que sua antiga rotina não funcionava. “Vivia correndo para cima e para baixo, era um caos”, diz. Da desorganização surgiu a necessidade de otimizar o tempo, e Nathana chegou à conclusão de que trabalhar remotamente diminuiria a correria. “Percebi que poderia fazer meu trabalho de qualquer lugar.” Mas o começo não foi fácil. No primeiro dia, ela chorou muito. “Era como se estivesse abrindo mão de minha segurança. Ir para um local trabalhar gera uma sensação de estabilidade.” Nos dias seguintes, porém, notou que antes vivia em um ritmo impossível de aguentar por muito tempo. “Perdia horas e energia nos deslocamentos. Hoje, almoço com calma, ao lado do meu filho. Com o pai e a mãe mais tempo em casa, Bento está mais tranquilo. E a mudança de comportamento dele me ajudou a entender que tomei a decisão certa.”

Assim como Nathana, muitas mães encontram no home office uma solução possível para conciliar a carreira e o cuidado com os filhos. Tanto que uma pesquisa feita pelas autoras Patrícia Travassos e Ana Claudia Konichi para o livro Minha Mãe É um Negócio (Saraiva, 29,90 reais) mostra que 58% das mães tocam suas empresas de dentro de casa. “O home office é o trabalho em domicílio moderno, que sempre existiu. Trabalhar de casa tem sido uma estratégia para mulheres com filhos pequenos e vontade de exercer de uma forma específica sua maternidade”, aponta Bárbara Castro, socióloga e professora da Unicamp. “Além disso, é preciso levar em conta o preço alto dos berçários e escolas e a ausência de universalidade de creches públicas para deixar a criança. Estar em casa é uma maneira de conseguir prover cuidado, já que o Estado não o faz e os serviços privados não cabem no orçamento.”

PÉS NO CHÃO

Mas é preciso tomar cuidado com a glamourização desse estilo de trabalho. É comum que a mulher que faz home office se sinta sobrecarregada, somando funções domésticas às atribuições profissionais. Isso porque, na cultura brasileira, ainda se acredita que cuidar da casa seja uma função feminina. “A inclusão das mulheres no mercado de trabalho ficou mais forte a partir da segunda metade do século passado. Entretanto, as tarefas de cuidado nunca foram redistribuídas. E, mesmo trabalhando, as mulheres continuavam com a responsabilidade do cuidado de filhos, idosos e casa, enquanto homens permaneciam na posição de provedores oficiais, sem responsabilidades domésticas”, explica Regina Madalozzo, professora e pesquisadora do Insper. Tanto é que as mulheres trabalham 20,9 horas por semana em afazeres domésticos e no cuidado de pessoas, quase o dobro das 10,8 horas dedicadas pelos homens. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2017 (Pnad Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2018.

E no home office isso fica evidente. A socióloga Bárbara Castro fez uma pesquisa qualitativa com cerca de 70 pessoas que trabalham em casa, entre homens e mulheres, e constatou que o comportamento é bem diferente entre os dois sexos. “Elas ficam no centro da casa, geralmente na mesa de jantar, acordando mais cedo para se concentrar, observando o cuidado da babá quando podem ter uma, tendo o trabalho muito interrompido e acabam se sentindo improdutivas. Já os homens trabalham em escritório com porta fechada, para que ninguém os interrompa, e se sentem mais produtivos do que na empresa”, explica a pesquisadora.

Para que o trabalho de casa realmente funcione e seja prazeroso, compartilhar as tarefas com o companheiro ou companheira é fundamental. E atenção: não se trata de ajuda, mas de divisão real de tempo e responsabilidades. “O caminho é se posicionar. Deixar claro o que espera, mostrar quando está trabalhando em algo e não pode ser interrompida”, diz Nathana, que criou uma rotina para o home office funcionar. Ela acorda antes das 6 horas para resolver questões estratégicas e poder ficar com o filho quando ele se levanta — cuida dele das 7h30 às 13 horas. À tarde, Bento fica com os avós, e Nathana pode fazer reuniões e atender os clientes. Às 19 horas, ela busca o pequeno. “O grande desafio é manter o foco, mas me sinto muito produtiva, mesmo que trabalhe menos horas”, diz.

Outro desafio do home office é lidar com o isolamento de ficar em casa por muito tempo. Quem sentiu isso na pele foi Débora Emm, de 35 anos, criadora da empresa Inesplorato, que promove curadoria de conhecimento. Há quatro anos, quando sua companhia já estava sólida, Débora resolveu que era hora de se tornar mãe. Nasceu Adélia. Durante seis meses após dar à luz, a empreendedora ficou afastada da rotina profissional, já que a empresa de seis sócios e 22 funcionários conseguia operar sem sua presença. Aos poucos, Débora retomou a rotina. Mas não mais em São Paulo, onde morava antes da maternidade, e sim em Aruã, perto de Mogi das Cruzes, cidade do interior paulista que fica a cerca de 100 quilômetros da capital. “Sentia falta da troca que o escritório promove e, por isso, uma vez por semana vou até São Paulo”, diz. Com a viagem, Débora se sente mais produtiva e feliz.

Em casa, ela criou um espaço dedicado ao trabalho. Embora não tenha portas ou paredes, o local é respeitado por sua filha. “Ela sabe que ali existe uma barreira para não atrapalhar minha concentração. Quando me proponho a trabalhar, fico imersa, e nenhum barulho me distrai. Acho muito interessante que minha filha observe meu dia a dia e eu o dela. Ela sabe o que significa trabalho e como conviver com isso”, afirma Débora.

E AS EMPRESAS?

Existe uma triste estatística no Brasil: após dois anos de retorno da licença-maternidade, 48% das mulheres são demitidas, de acordo com uma pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas, que aponta ainda que a maior parte dos desligamentos ocorre sem justa causa. “Não é à toa que uma mulher no ambiente formal de trabalho se sente com medo no minuto em que se descobre grávida. Ela sabe que naquele momento o risco de ser desligada por qualquer motivo aumenta. Também sabe que, ao tentar retornar ao mercado de trabalho, encontrará dificuldade e que jamais vai competir em condições iguais fora do período considerado de risco”, diz Vivian Abukater, sócia da Maternativa, rede cujo objetivo é transformar a relação entre mães e mercado de trabalho. Ela própria foi vítima de uma demissão quando retornou de sua licença-maternidade em uma multinacional.

Por isso, muitas optam por empreender — não por vontade própria, mas como alternativa. “Boa parte das companhias não está preparada para acolher mães. E, assim, grandes talentos são perdidos, pois várias têm filho quando estão no auge de suas carreiras”, diz Luciana Cattony, da consultoria Maternidade nas Empresas. Algumas companhias, no entanto, começam a entender essa questão e passam a criar ambientes mais amigáveis às mães e que estimulem o desenvolvimento de suas funcionárias. “Já identificamos no mercado empresas que têm equidade de gênero como um valor, um contexto que facilita abordarmos a maternidade”, diz Luciana.

Ao pensar em políticas para mulheres que recentemente se tornaram mães, é necessário prover flexibilidade e acolhimento. “No grupo de países que mais incentivam a participação feminina no mercado após a maternidade, há adoção de iniciativas como licença parental mais longa (licença para o pai e a mãe, com obrigatoriedade de divisão do período entre ambos) e remunerada, jornada flexível e possibilidade de trabalho remoto”, afirma Regina Madalozzo. Creches, pré-escolas e escolas em horário integral também fazem parte do pacote.

No fundo, o que falta para que as mães optem por trabalhar como preferirem é um olhar mais receptivo, como resume Luciana: “Em um mundo regido pelo valor humano, onde se pedem ambientes acolhedores e líderes mais empáticos, não faz sentido ter de escolher entre carreira e filhos”.

MÃES EMPRESÁRIAS

Mulheres com filhos encontraram no empreendedorismo uma oportunidade para se recolocar no mercado de trabalho

***Entre os novos empreendedores — aqueles que têm negócios com até 3,5 anos

—, a maioria é mulher. Elas têm 15,4% dos empreendimentos. Os homens têm 12,6%.

***O número de mulheres que abrem empresa motivadas por uma necessidade é maior do que o de homens. Entre as novas empresárias, 48% o fazem porque precisam. Já entre os homens esse número cai para 37%.

***Apesar de elas serem mais escolarizadas, ainda ganham menos: 73% recebem até três salários mínimos, ante 59% do universo masculino.

Pesquisa Global Entrepreneurship Monitor 2016, realizada pela parceria entre Sebrae e IBQP, e Consultoria Maternidade nas empresas

FAZENDO DAR CERTO

Rita Monte, criadora do Coaching em Grupo para Mães (CGM), dá dicas sobre home office

TEÇA SUA REDE DE APOIO

É fundamental se cercar de pessoas que possam compartilhar responsabilidades sobre a criação dos pequenos.

INVISTA EM UM COWORKING FAMILIAR

Ou coloque a criança em uma creche ou um espaço de brincar por um período. O tempo da criança é caótico. Não ache que você vai conseguir ficar com seu filho e trabalhar no mesmo ambiente.

MAXIMIZE SUA PRODUTIVIDADE

Aquele tempo de 8 horas não vai acontecer. Organize seu fluxo de trabalho para ser concentrado e intenso em 3 horas. A gente produz muito mais em pouco tempo.

PRATIQUE O AUTOCUIDADO

Para ser produtiva, você precisa de sono e lazer. Cuidar-se significa ouvir as próprias necessidades. Aprenda a dizer não aos filhos, parceiros e chefes para dizer sim às suas próprias vontades.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 6 – COMECE COM O FIM EM MENTE

Você já percebeu que a maioria dos filmes e livros românticos só se concentra no início de uma história de amor? Pense no seu filme romântico clássico favorito. (Sabemos que isso pode ser mais fácil para alguns de vocês do que para outros.) Qual é o enredo da história? Ela é marcada pela tensão emocional expressa na primeira dança romântica entre o casal? Você fica com os olhos colados na tela enquanto o filme o instiga com voltas que impedem que os pombinhos apaixonados desfrutem o tão esperado primeiro beijo? Certamente, existem adversidades temporárias – um rival, uma discussão intensa, ou um trauma inesperado – mas todos nós sabemos como tudo acabará no fim. Apesar dos problemas que ameaçavam mantê-los separados, os pombinhos sonhadores encontram uma maneira de vencer e a história se encerra com “E viveram felizes para sempre”.

Sabemos que eles viveram felizes para sempre, mas como? Um início maravilhoso é a parte mais fácil. O trabalho árduo é construir o meio e o fim da história.

É evidente que a nossa cultura tem uma obsessão distorcida sobre a maneira como as histórias de amor devem começar. Um casal pode passar horas incontáveis planejando seu casamento, mas muito pouco tempo se preparando para os anos que virão após a cerimônia. Uma noiva pode passar muitas horas procurando o vestido perfeito, enquanto dedica apenas algumas horas ao aconselhamento pré-nupcial. Consequentemente, o casal está extremamente despreparado quando o conto de fadas se desvanece e eles se veem navegando em um relacionamento real com problemas muito reais.

O dia do casamento foi feito para ser um dia cheio de esperança, beleza e celebração. Entretanto, a esperança e a beleza de longo prazo em um relacionamento se concretizam melhor quando os casais planejam seus finais felizes com o mesmo fervor que celebram seus começos. Ser felizes para sempre não é algo que acontece por acaso; é um propósito que buscamos determinadamente e construímos cuidadosamente.

Olhe em volta e localize um objeto de beleza, um objeto habilmente fabricado pela engenhosidade humana. Talvez seja uma casa, um carro ou até a cadeira onde você está sentado. Seja o que for, é uma obra artesanal realizada com extrema habilidade. O que você talvez não perceba é que esse objeto, na verdade, foi construído duas vezes: uma quando foi projetado criativamente na mente do desenhista e outra quando foi efetivamente construído. O projeto cognitivo sempre precede a construção material. A primeira montagem requer uma visão clara do resultado pretendido; a segunda emprega materiais e trabalho para realizá-lo. Tudo que construímos, quer seja tão simples como um sanduíche ou tão complexo quanto um arranha-céu, primeiro é imaginado antes de poder se materializar.

Nem sequer passaria por sua mente construir uma casa sem um projeto. Seria um verdadeiro caos! Toda linda casa começa com um projeto habilmente calculado. A casa só pode ser construída depois que o plano é esboçado, empregando-se muito trabalho árduo e os materiais corretos.

Os projetos e plantas baixas também são essenciais para determinar o custo da construção. Você se sentiria confortável construindo uma casa sem saber primeiro quanto ela lhe custaria? Jesus fez esta pergunta quando nos ensinou como deveríamos edificar nossas vidas:

Qual de vocês, se quiser construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completa-la? Pois, se lançar o alicerce e não for capaz de termina-la, todos os que a virem rirão dele, dizendo: “Este homem começou a construir e não foi capaz de terminar”. Lucas 14:28-30

As mesmas regras que se aplicam à construção de um prédio também sem aplicam à construção de um casamento. E então, que tipo de casamento você está construindo? Você calculou o custo e está disposto a assumir o que a construção desse casamento exigirá de você?

Deus não quer que nossos casamentos terminem em dor ou vergonha. Ele não quer que desistamos antes que eles estejam concluídos. Quer o seu casamento esteja apenas começando ou esteja passando por dificuldades há anos, nunca é tarde demais para abraçar o plano de Deus. Somente Nele descobrimos a visão, as ferramentas e o poder necessários para construir casamentos que reflitam Sua grandeza. A incrível verdade é que Deus deseja que você tenha um final feliz – a construção concluída de Sua obra prima – ainda mais do que você.

Este capítulo contém verdades que o ajudarão a se preparar para planejar bem e, depois, viver bem a sua história. Compartilharemos o que fizemos no início do nosso casamento que estabeleceu um fundamento sólido capaz de resistir às tempestades da vida. E vamos equipar e comissionar vocês para criarem um plano que os leve a serem felizes para sempre. Começaremos com princípios e terminaremos com a parte prática. Este capítulo não é apenas para os recém-casados ou para os que ainda não se casaram. Veteranos no casamento, vocês também podem se beneficiar olhando o seu relacionamento sob uma nova ótica. Isso aconteceu conosco!

DEUS COMEÇA COM O FIM EM MENTE

É tolice entrar em um relacionamento de aliança sem primeiro perguntar: “Por que estamos fazendo isto e para onde estamos indo?” Toda aliança deveria ter uma visão correspondente. Veja o caso de Deus, por exemplo. Ele tinha um propósito específico em mente quando optou por fazer uma aliança com Abraão.

Por que você acha que Deus escolheu Abraão para ser o pai do Seu povo escolhido? Sempre que fazemos essa pergunta, a resposta mais comum é: “Porque Abraão tinha uma grande fé”. Embora a fé seja essencial para sermos parceiros no plano de Deus, não foi por isso que Deus escolheu Abraão. Deus o escolheu porque sabia que ele ensinaria seus descendentes a seguirem o Senhor:

Pois eu o escolhi, para que ordene aos seus filhos e aos seus descendentes que se conservem no caminho do SENHOR, fazendo o que é justo e direito, para que o SENHOR faça vir a Abraão o que lhe prometeu. Gênesis 18:19, grifo do autor

Quando Deus escolheu esse nômade sem filhos, Ele olhou além de Abraão e viu sua linhagem. Era crucial para Deus que Abraão “ordenasse a seus filhos que se conservassem no caminho do SENHOR”, porque Deus queria tecer Sua história de redenção por meio da linhagem familiar de Abraão. Ele sabia que Abraão e Sara cometeriam erros, mas também sabia que eles tinham a matéria prima certa. Sempre que Deus estabelece uma aliança conosco, Ele está pensando em termos de gerações, porque Ele já visitou o amanhã e sabe o que precisa acontecer hoje para que cheguemos até lá.

A aliança que Deus fez com Abraão se ampliou até alcançar também as nossas vidas. Por meio da fé, Abraão foi transformado de um homem sem filhos em um homem com descendentes tão numerosos quanto as estrelas. O homem que um dia fora um andarilho sem nação se tornou o pai na fé de todas as nações.

…Abraão será o pai de uma nação grande e poderosa, e por meio dele todas as nações da Terra serão abençoadas. Gênesis 18:18

Nossas vidas podem parecer diferentes da de Abraão, mas o princípio é o mesmo: Deus procura pessoas que permitam intencionalmente que Sua aliança se propague por meio delas. Sua história não se resume a apenas você e o seu cônjuge.

Só o Céu revelará o tamanho do impacto que a aliança de Deus expressa através do seu relacionamento com Ele terá. Ele deseja alcançar cada vida que passar através de você (seu legado) e toda vida que estiver dentro da sua esfera de influência. Isso significa que você precisa abraçar uma visão que não termine com você nem esteja confinada à sua compreensão limitada. A intenção de Deus com a sua história sempre incluirá as gerações que estão por vir.