GESTÃO E CARREIRA

CRÉDITO, DÉBITO E SMARTPHONE

A tecnologia de pagamento por aproximação, disponível na maioria dos sistemas operacionais, permite que você saia de casa somente com o celular ou com uma pulseira que substitua o cartão de crédito

O empresário Frank MacNamara estava com alguns executivos do mercado financeiro em um restaurante da cidade de Nova York quando percebeu que havia esquecido seu talão de cheques e não tinha dinheiro vivo para pagar a conta. Era o começo dos anos 50 e, embora alguns estabelecimentos oferecessem crédito aos clientes mais fiéis, as duas formas de pagamento anteriores eram as únicas existentes. Por sorte, o empresário conseguiu sair da situação constrangedora com a ajuda de sua esposa, que foi socorrê-lo e evitou um calote. Um ano depois do episódio, MacNamara, ao lado de um sócio, fundou a primeira empresa de cartão de crédito do mundo, o Diners Club Card, e mudou a forma como compraríamos nas próximas décadas. Mas, se há meio século os cartões de plástico revolucionaram os meios de pagamento e chegaram a prometer o fim elo dinheiro de papel, há quem diga que ele também está com os dias contados.

No mundo altamente conectado, sair sem a carteira começa a deixar de ser um problema. Por meio do celular é possível pedir comida, chamar um táxi, pagar contas e transferir dinheiro para outra pessoa. E, se até um tempo atrás comprar um sorvete ou ir à padaria ainda dependia de uma cédula ou de um cartão, agora as carteiras virtuais, ou wallets, no termo em inglês, prometem substituir o dinheiro (de papel e de plástico). “Vivemos no mundo da experiência do usuário. Wallets são formas de facilitar a vida”, afirma Leonardo Militelli, presidente da IBliss, consultoria em segurança digital.

As carteiras virtuais, ou sistemas de pagamento por aproximação, funcionam com a tecnologia near field communication (NFC), que consiste na troca de informações entre dispositivos com chips compatíveis, sem o uso de cabos ou fios. É algo semelhante ao sistema Bluetooth, disponível há algum tempo no mercado. Na hora de pagar a conta, se houver compatibilidade, basta aproximar o celular da máquina de cartão, a uma distância de até 10 centímetros, e pronto. Embora pareça algo futurista ou restrito a pessoas altamente conectadas, essa inovação faz parte da vida de mais gente do que se imagina. Segundo dados da Mastercard, em 2018 cerca de 1,3 milhão dos 18,8 bilhões de transações com cartões magnéticos foram realizadas utilizando-se a opção de pagamento por aproximação no Brasil – crescimento de 344% no primeiro semestre de 2018 em comparação com o segundo semestre do ano anterior. Especialistas acreditam que cerca de 90% das maquininhas disponíveis nos estabelecimentos brasileiros sejam compatíveis com a NFC.

A Apple foi a primeira empresa a permitir a opção de pagamento por aproximação em seus dispositivos, com o lançamento do Apple Pay em 2014. Mas não demorou e as concorrentes Samsung e Google também entraram nessa briga. E, enquanto o Apple Pay chegou ao Brasil apenas em 2018, os rivais Samsung Pay e Google Pay ficaram disponíveis em território brasileiro bem antes, em 2016 e 2017, respectivamente. “Nossa missão é trazer facilidade e praticidade a nossos clientes nas compras realizadas tanto no mundo físico como no online”, afirma Felipe Cunha, diretor de parcerias do Google Pay para a América Latina.

PÁREO DURO

Os gigantes de tecnologia perceberam há muito tempo a influência que passaram a ter na vida das pessoas (e o potencial de lucro que podem obter) e têm ampliado a oferta de serviços para as mais diversas áreas, incluindo o mercado financeiro. Em março deste ano, por exemplo, a Apple fechou uma parceria com o banco Goldman Sachs e a Mastercard para lançar o Apple Card, seu primeiro cartão de crédito próprio. Em fase de testes pelos funcionários da empresa, o serviço deverá estrear para os americanos até o terceiro trimestre deste ano. Outro que pretende se aventurar pelos serviços financeiros é o Facebook. Em junho, a empresa anunciou que lançará uma criptomoeda própria que permitirá que os usuários façam transferências de quantias para outras pessoas pelo WhatsApp. Por causa da promessa, a Comissão de Assuntos Financeiros da Câmara dos Estados Unidos exigiu que o Facebook interrompesse o desenvolvimento do projeto até que o Congresso americano compreendesse do que se trata. Polêmicas à parte, o fato é que a tecnologia mudou completamente a forma como nos comportamos, consumimos, fazemos sexo, trabalhamos. Não é de se espantar que ela mude também o que conhecemos por dinheiro.

E, mesmo que os bancos tradicionais, que já sentem os impactos dessas transformações por causa das fintechs, não enxerguem a tecnologia por aproximação necessariamente como um perigo – já que um número de cartão de crédito e uma conta no banco ainda são necessários em quase todos os casos -, isso não quer dizer que eles não estejam se mexendo. Para diferenciar-se das empresas do Vale do Silício, a saída foi ousar e apostar em soluções mais disruptivas, como pulseiras que também permitem o pagamento apenas com contato. Em 2017, por exemplo, o Santander lançou a Santander Pass, pulseira digital que se conecta diretamente com a conta bancária do cliente. “Fizemos os primeiros testes com motociclistas que passavam pelos pedágios. É muito difícil pegar a carteira no bolso da jaqueta com as luvas. E a experiência foi bem-sucedida”, afirma Rodrigo Cury, diretor de cartões do Santander. O produto hoje conta com 500.000 usuários. “O número de transações dobrou, e acreditamos que os clientes ficam satisfeitos quando damos mais possibilidades”, diz.

O Santander não foi pioneiro em trazer para o Brasil a tecnologia de pagamentos atrelada a um acessório. Um ano antes, a fintech Atar, de São Paulo, lançou a Atar Band, pulseira com sistema NFC. Integrado a uma conta digital de pré-pagamento, na qual o usuário insere créditos, o acessório pode ser usado em estabelecimentos que aceitem a bandeira Mastercard. Apesar de não abrir números, Orlando Purim, CEO da Atar, afirma que o negócio tem prosperado. “Registramos o uso da nossa pulseira em mais de 8.000 locais em 15 países. E, desde janeiro, aumentamos nove vezes o volume transacionado”, diz. Embora a tecnologia de pagamento por aproximação tenha crescido, ainda existem muitos entraves na adoção desse método em larga escala. O principal é a questão de acesso. Cerca de 28% da população brasileira é desbancarizada, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (IBGE). Isso quer dizer que 60 milhões de cidadãos não têm sequer uma conta-     corrente em alguma instituição financeira. “Essas novas opções podem gerar uma inclusão dessa camada que hoje não é representada”, afirma Rafael Pereira, presidente da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD).

VANTAGENS E DESVANTAGENS

Para os usuários, fora a comodidade, especialistas apontam que a principal vantagem desses métodos é a segurança. Isso acontece porque, além da ausência de contato do cartão com a maquininha, a cada compra realizada com a tecnologia NFC é gerado um cartão virtual criptografado, com dados diferentes do original, dificultando a clonagem. “Adotamos um sistema de segurança com várias camadas para proteger a conta e os dados pessoais de maneira automática e contínua”, afirma Felipe, do Google.

Foi exatamente depois de uma experiência ruim que o advogado Theo Santos Cabral da Hora, de 29 anos, trocou o cartão de crédito pelo pagamento por aproximação. Ele, que teve o cartão clonado depois de usá-lo em um bar na região central de São Paulo, não gosta nem de relembrar a dor de cabeça para provar que não havia realizado as compras, que totalizavam mais de 600 reais. “Foram inúmeras ligações para o banco e muito tempo perdido. Isso tudo sem contar os dias em que eu fiquei sem cartão”, diz Theo, que agora utiliza o Google Pay. De acordo com o advogado, embora grande parte dos estabelecimentos tenha uma máquina compatível com esse método, não é todo mundo que sabe como operar a função. “Já paguei de conta no posto de gasolina a dentista, mas geralmente tenho de ensinar como a ferramenta funciona”, diz. Contudo, Theo afirma que não se arrepende de ter adotado a NFC e não pensa tão cedo em voltar a usar apenas os métodos tradicionais. “Além da segurança e da facilidade, tenho um histórico organizado das minhas compras. Sem contar a principal vantagem: não preciso andar com minha carteira o tempo todo”, diz.

Mas essa opção não está isenta de fraudes. “A NFC é uma tecnologia de comunicação como qualquer outra e permite que dispositivos mal-intencionados coletem informações. No Reino Unido, ataques de radiofrequência aumentaram 40% os golpes com cartões que utilizavam o pagamento por aproximação”, afirma Leonardo Militelli, presidente da IBliss. Segundo ele, até mesmo a proximidade não é garantia de seguridade. “Já tivemos alguns casos de fraude de Bilhete Único, que também usa a tecnologia NFC, com saldo roubado por dispositivos maliciosos que simplesmente ficam próximos do cartão”, diz Leonardo. Diante dessa realidade, o especialista em segurança digital ressalta que os mesmos cuidados recomendados para cartões de plástico devem ser tomados por quem usa o pagamento por aproximação. “Os cartões devem ser usados apenas em locais confiáveis. Algumas máquinas podem conter o que chamamos de chupa-cabra, um dispositivo que coleta os dados do cartão e os repassa a terceiros que cometem as fraudes”, afirma. E, mesmo que em casos de roubo ou perda o acesso à NFC requeira senha, o que dificultaria um golpe, Leandro aconselha se prevenir. “O ideal é habilitar padrões de autenticação do telefone e redobrar essa barreira de proteção”, afirma.

A inovação é grande, mas não pense que haverá a extinção do dinheiro de papel ou do cartão de crédito físico. “Apesar de nos grandes centros existir uma adoção das novas tecnologias de forma acelerada, isso muda para cidades menores ou mesmo outros contextos”, afirma Ségio Biagini, líder da área de serviços financeiros da Deloitte. Isso é um fato. Segundo o IBGE, cerca de 22% dos brasileiros, por exemplo, não possuem um smartphone. “Ao longo do tempo as coisas podem mudar, mas não acredito que as formas de pagamento existentes hoje sumam. Ocorrerá uma coexistência de opções”, diz o executivo. Por via das dúvidas, é bom saber que existe uma alternativa para a próxima vez que tiver esquecido a carteira na hora de pagar a conta (e não quiser parecer caloteiro).

PASSA NA NFC?

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.