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O SILICONE QUE DÁ CÂNCER

Seguindo os passos dos Estados Unidos, a Anvisa retirou do mercado próteses mamárias associadas a linfoma. A medida, tardia, foi comemorada pelas mulheres já diagnosticadas

Elena Greene, enfermeira de 53 anos, recebeu aliviada a notícia de que a Anvisa eliminou no Brasil a comercialização das próteses mamárias Biocell, da marca Natrelle, produzida pela empresa Allergam. O anúncio seguiu os passos da U.S. Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora dos EUA. “Pelo menos novas mulheres não terão risco de passar pelo que passei”, diz Elena. A enfermeira sentiu na pele as consequências da falta de informação sobre os riscos de desenvolver câncer em decorrência de uma prótese mamária. Em 2017, ela, que era maratonista e tinha feito há sete anos um implante de silicone da marca condenada, resolveu trocar a prótese porque o seio esquerdo estava inchado e atrapalhava seu desempenho na corrida. Na época, Elena se sentia cansada e possuía manchas na perna e no braço, mas não associava esses sintomas ao inchaço da mama. Por coincidência, seu marido, que é clínico geral, entrou na sala de cirurgia de troca das próteses e pediu para o seroma, ou seja, o líquido que o corpo desenvolve em volta da prótese, fosse analisado. Poucos dias depois, eles voltaram para apanhar o resultado. “Quando o médico falou que eu tinha linfoma, o chão se abriu. Em cinco segundos passei de uma paciente estética para uma paciente oncológica”, diz ela.

O caso de Elena ilustra bem como esse problema pode estar sendo subdiagnosticado no Brasil e no mundo. Se o seu marido não estivesse na sala de operações, o seroma não teria sido analisado. Essa é justamente a suspeita de especialistas que atuam na área. “Trocar a prótese faz parte do tratamento. Os médicos podem estar tratando o linfoma sem saber que ele existe”, diz Vanderson Rocha, professor de hematologia, hemoterapia e terapia celular da USP. O FDA já registrou 573 relatos de linfomas relacionados à prótese mamária e 33 mortes. Apesar do alto número de letalidade, a comunidade médica ainda afirma que são casos muito raros, já que a quantidade de implantes é grande – nos Estados Unidos, por exemplo, apenas em 2017 foram 281 mil. “De um modo geral, quem quer o implante aceita riscos que são de cem a mil vezes mais frequentes que esse, como alergias e infecções. O linfoma não é mais grave, a única diferença é a palavra câncer”, diz Bernardo Nogueira Batista, cirurgião plástico do Hospital Sírio Libanês.

PESQUISAS E MARCAS

As pacientes que desenvolveram a doença lamentam a falta de informação. Muitas delas, quando diagnosticadas, foram às redes sociais para alertar outras pessoas. Profissionais da área afirmaram à reportagem, sob a condição de não serem identificados, que a falta de pesquisas e a demora no reconhecimento do problema, inclusive por conceituadas associações médicas, são fruto da força econômica da indústria farmacêutica. Agora as mulheres esperam que o reconhecimento das agências seja apenas o pontapé inicial para o desenvolvimento de mais pesquisas e informações sobre o tema, inclusive a respeito de problemas relacionados a outras marcas.

OUTROS OLHARES

A TERCEIRA GUERRA, VIRTUAL

A imagologia se sofisticou e se transformou em fake news. Na terceira guerra haverá uma tempestade de fake news, ainda maior do que a que temos agora. Tudo pode ser fotografado, filmado e distorcido indefinidamente

E se um dia as superpotências mundiais resolverem iniciar uma terceira guerra mundial? Algumas pessoas afirmam que ela já está ocorrendo, com focos de violência crônica, guerras civis intermitentes, escassez de alimentos em algumas regiões e hordas migratórias. São múltiplas guerras em bora com um objetivo comum: o genocídio. É uma grande guerra que envolve todas as outras, uma guerra que ninguém declarou, mas que todos os governos praticam. É preciso diminuir a população. Sem mencionar nunca a palavra “superpopulação” que é um tabu para as religiões e para aqueles que acreditam tanto no poder da justiça distributiva que a confundem com o milagre da multiplicação dos peixes. Se um a terceira guerra mundial fosse declarada, não saberíamos quem a começou e porque, quem a ganhou ou quem a perdeu. Seria uma guerra travada na infosfera, uma guerra de fake news. Sucumbiríamos confinados em um casulo de informações desencontradas e falsas. Tudo se passaria como a invasão de marcianos transmitida por Orson Welles que em 1938 conseguiu, com uma simples transmissão radiofônica, fazer com que a população dos Estados Unidos acreditasse estar sendo invadida por alienígenas. A transmissão durou menos de uma hora, mas o pânico se espalhou.

O quarteirão no qual moramos seria arrasado por uma bomba. Mas a mídia continuaria declarando que estamos ganhando em outras frentes de batalha. Conhece a história do cidadão assaltado perto de casa, mas que, ao ligar a TV ouve que o crime no seu bairro diminuiu? Milan Kundera chamava isso de imagologia.

A imagologia se sofisticou e se transformou em fake news. Na terceira guerra haverá uma tempestade de fake news, ainda maior do que a que temos agora. Tudo pode ser fotografado, filmado e distorcido indefinidamente. O real pode se transformar em fake. Consequentemente, o fake pode se transformar na única realidade de que dispomos. Todos poderão enganar a todos, seja para tranquilizar, seja para desassossegar. A era da informação acabou.

Nunca vivemos um período no qual a troca de mensagens fosse tão rápida, eficiente e barata como nos últimos anos. Mas, paradoxalmente, as redes sociais estão nos arrastando para o grau zero da informação e a sociedade da informação se transformou na sociedade do ruído. Quando todos falam, ninguém consegue escutar. Poluímos a infosfera com informações incorretas ou inúteis. Criamos a poluição mental e, agora, não sabemos como nos livrar dela.

As fake news são um dos mais sérios problemas ecológicos da nossa era. Fábricas de fake news são um problema ecológico tão sério quanto a crescente emissão de C02 na atmosfera. Ele não será resolvido com meia dúzia de técnicas e com o desejo de ser um bom samaritano como apregoa Mark Zuckerberg, presidente do Facebook.

Transformamos o mundo em um cenário cinematográfico, o real em imaginário e o imaginário em real. É a época do apocalipse, palavra que originalmente significa “revelação”, mas que, por conta de mistificações, passou a significar “o fim do mundo”. Poderemos ver tudo, ver todas as versões do mundo, tudo estará escancarado diante dos nossos olhos, mas não saberemos o que é real ou o que é fake. Um sonho dentro do qual sonhamos e sabemos que estamos sonhando, mas do qual é impossível acordar. É o que os neurocientistas chamam de sonho lúcido, a forma mais sutil da alucinação.

Ao longo da história, as sociedades humanas sempre definiram suas políticas da experiência, ou seja, determinaram o que pode ser percebido, sonhado ou dito na composição do que se convenciona serem estados normais de consciência. As políticas da experiência têm o papel de uma espécie de tribunal que decide o que existe. Na Idade Média o mundo era habitado por milhares de bruxas e espíritos que eram considerados tão reais como nós. Hoje em dia, a política da experiência é decidida pelas tecnologias da consciência, que passaram a regular a percepção e a introspecção a partir de critérios determinados pela mídia, pela internet e pela psicofarmacologia.

As fake news afetam radicalmente a cognição. No longo prazo, perderemos a capacidade de distinguir entre o real e o imaginário. Um animal que não sabe distinguir entre o real e o imaginário não sabe distinguir entre comida e veneno, entre o certo e o errado, na política, na ciência e na ética. É um animal em extinção. Um animal apocalíptico que morrerá pela fome que ele produziu, pela radiação que ele produziu ou pelas doenças que ele produziu.

Mas é possível que a internet encolha muito antes de algo como uma guerra virtual acontecer. Há um grande gargalo que precisa ser enfrentado: a geração de energia. Atualmente, a quantidade de energia para rodar os servidores internacionais que mantêm a internet funcionando lançam na atmosfera, anualmente, mais C02 do que o produzido pela aviação mundial. E, sem a energia limpa, o aquecimento global será acelerado. As consequências, todos já sabemos.

Hoje em dia há no mundo 4 bilhões de pessoas sem acesso à internet. Quase 10% desse número são jovens e crianças. Será que teremos de migrar para as áreas pré-tecnológicas do planeta para sobrevivermos? Seremos os futuros migrantes que fugirão para essas paragens que, atualmente, correspondem às áreas pobres e semi­povoadas na Terra?

JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA – épaulistano, formado em filosofia na USP. Viveu e estudou na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Escreveu mais de uma dezena de livros sobre Filosofia da Mente e Tecnologia. Lecionou na UNESP, na UFSCAR e na PUC-SP.

GESTÃO E CARREIRA

PROFISSIONAIS RADICAIS

Praticar atividades esportivas de risco elevado auxilia no desenvolvimento de competências como liderança e tomada de decisões, além de aliviar o estresse

Estado de alerta, pupilas dilatadas, mãos suadas, frio na barriga e coração acelerado. Essas são algumas das sensações que ocorrem quando se praticam esportes radicais. Por mais que a ideia de pular de um avião a cerca de 4.000 metros de altura, torcendo para o paraquedas abrir, seja assustadora para alguns, muitos profissionais estão deixando de lado as tradicionais aulas de yoga, meditação e lutas em busca de esportes que aumentem o nível de adrenalina no corpo. Além de relaxar, as atividades de alto risco auxiliam no desenvolvimento de habilidades importantes para o dia a dia. de trabalho, como liderança, autocontrole, comunicação e gerenciamento de tempo. “É como uma válvula de escape. Ajuda a reconectar com o próprio corpo e a liberar hormônios que trazem bem-estar”, diz Bruno da Matta Machado, sócio e diretor da consultoria de recursos humanos Upside Group.

É difícil encontrar números exatos sobre a popularidade dos esportes radicais, principalmente porque muitos adeptos são amadores e não há um controle por parte das associações. Mas alguns dados mostram um aumento da prática de atividades de aventura. O Ministério do Turismo do Nepal, por exemplo, registrou em abril um número recorde de 381 autorizações para escalada do Monte Everest. A procura foi tanta que no mês de maio houve um engarrafamento de alpinistas, causando a morte de pelo menos 11 pessoas. Além disso, um estudo divulgado em 2017 pela Allied Market Research prevê crescimento de 200% no mercado global de turismo de aventura até 2023 – o nicho movimentou 683 bilhões de dólares em 2018, segundo a Adventure Travel Trade Association.

Entender por que algumas pessoas se aventuram a ponto de colocar a vida em risco não é fácil. Nem a literatura médica tem um consenso sobre isso. Um estudo publicado em 2014 por Cynthia Thomson, da Universidade British Columbia, Ph.D. em cinesiologia (ciência que estuda o movimento corporal), sugere que indivíduos atraídos por esportes mais arriscados podem ter uma predisposição genética que modifica os receptores da dopamina – basicamente, quanto mais receptores a pessoa possui, mais hormônio precisa ser liberado para que ela se sinta estimulada. Além disso, com mais receptores e mais dopamina, o indivíduo sente mais prazer em situações de estresse. Outras pesquisas indicam que altos níveis de testosterona durante o pré-natal podem influenciar na redução do medo ao risco. A psicóloga e psicanalista Michele Silveira ressalta que qualquer escolha na vida envolve questões conscientes, inconscientes e experiências. E isso vale também para os esportes. “Esse tipo de atividade não é para qualquer um e não acredito que seja algo que possa ser desenvolvido. Quando você se identifica com um esporte de risco, já existe uma predisposição”, afirma.

CORPO, MENTE E UM POUCO MAIS

Além dos clássicos benefícios da prática de esportes, como melhora do condicionamento físico, equilíbrio, flexibilidade, emagrecimento e ganho de resistência, estudos mostram que os esportes radicais podem resultar em melhorias nos casos de ansiedade, depressão, hiperatividade e déficit de atenção graças à liberação de hormônios neurotransmissores de bem-estar, como dopamina, serotonina e endorfina. Uma pesquisa feita em 2004 por Irwin Lucki, professor de psiquiatria e farmacologia na Universidade da Pensilvânia Medical Center, na Filadélfia, descobriu que a adrenalina pode provocar no cérebro o mesmo efeito dos antidepressivos.

O tipo de esporte escolhido também resulta em efeitos diferentes no corpo. Uma escalada, por exemplo, parece ser mais efetiva na luta contra a depressão do que esportes tradicionais, de acordo com um artigo científico publicado no periódico BMC Psychiatry. Tanto que hospitais psiquiátricos na Alemanha já usam a atividade como uma abordagem terapêutica. Um estudo francês de 2017, publicado no Frontiers in Psychology, revela que o mergulho pode se comparar à meditação por causa do controle respiratório. Os praticantes percebem redução do estresse, melhora do humor e aumento das habilidades de atenção e concentração, além da percepção sensorial.

A prática de esportes radicais ainda permite aprimorar as habilidades necessárias para lidar com a ansiedade. Isso porque os adeptos regulares sofrem uma mudança química no cérebro, o que os ajuda a permanecer calmos e concentrados por mais tempo. “As pessoas que praticam esportes radicais apresentam mudanças na produção de noradrenalina e neuroreceptores, por isso têm determinadas reações e conseguem sair mais rápido de situações estressantes ou perigosas”, diz a psiquiatra Michele. Além disso, essas atividades estimulam a leitura rápida do ambiente (quais são as condições favoráveis e desfavoráveis), a percepção de seus pontos fortes e fracos e o controle do medo. “Aprender a gerenciar e avaliar o risco assumido no esporte é similar ao ambiente de trabalho, em momentos como as tomadas de decisões importantes”, afirma Bruno, da Upside Group.

EM GRUPO

As vantagens da prática de esportes radicais não são apenas individuais. Tanto que muitas empresas passaram a usar o turismo de aventura para integrar a equipe. Giancarlo Valias, sócio-diretor da companhia de viagens e atividades de aventura para ambiente corporativo Ventura Empresarial, afirma que desde multinacionais até pequenos escritórios buscam atividades para trabalhar sincronismo, planejamento, liderança e confiança. “No rafting, por exemplo, criam-se algumas situações durante a descida do rio para trabalhar conceitos como liderança e confiança”, diz Giancarlo. “Fazemos um rodízio entre as pessoas para que cada uma se torne instrutora do bote por um período e colocamos uma venda nos olhos dos outros participantes para que eles sigam somente a instrução daquela pessoa.”

Outras atividades, como acampa­ mento e trekking, ajudam no desenvolvimento de trabalho em equipe e melhoram a comunicação, uma vez que cada integrante do grupo é responsável por um trabalho ou objeto importante para que tudo dê certo. “Um fica com a bússola, outro com a medição, outro com o cronômetro e outro com a planilha. Eles exercitam planejamento, gestão de tempo e trabalho em equipe”, afirma Giancarlo. Independentemente do esporte escolhido, o fato é que o elevado risco de morte requer mais comprometimento do atleta, exigindo que ele se desligue completamente dos problemas e esteja focado no que está fazendo. Qualquer erro pode ser o último, mas os aprendizados podem superar os receios.

VAI SE JOGAR NO RADICAL?

Se quiser praticar, é necessário se preparar com antecedência

1. CHECK- UP

Antes de começar qualquer esporte, faça um check-up médico para saber se tem alguma restrição ou problema de saúde que possa se agravar.

2. PESQUISE

Descubra qual atividade mais lhe interessa, levando em conta suas habilidades, seus medos e o que gostaria de melhorar. A insegurança com altura, por exemplo, pode ser vencida com esportes radicais.

3. SEGURANÇA

Qualquer erro pode resultar em acidentes graves e até fatais. Por isso, faça cursos de segurança, autorresgate e primeiros socorros.

4. GRUPOS

As atividades de aventura costumam incentivar a interação social. Procure grupos de praticantes do mesmo esporte para compartilhar experiências e participar de excursões.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CAUSA DA DEPRESSÃO PODE ESTAR NA FRAGILIDADE DE FIBRAS NERVOSAS

Distúrbio seria consequência de problemas na estrutura neural fina

Uma equipe da Universidade Johns Hopkins descobriu que ratos medicados com Prozac não apenas apresentavam alterações na química cerebral, como também desenvolviam novas fibras nervosas em áreas estreitamente vinculadas ao estado de humor. A constatação sugere que a depressão é reflexo de problemas na estrutura neural fina e não apenas fruto de alterações na química cerebral, o que deve dar fôlego à recente “hipótese da rede neural’ na explicação dos estados de ânimo.

Nos últimos 20 anos, vigorou a ideia de que a depressão é, primariamente, um problema químico que ocorreria em grande parte porque a falta do neurotransmissor serotonina em sinapses importantes reduz sinais neurais que regulam o estado de ânimo, abrindo a porta para a depressão. Os resultados, porém, indicam que ao menos parte dos distúrbios do humor surge de estruturas sinápticas frágeis, como terminações nervosas fracas e fibras mortas, que interrompem a transmissão de sinais.

Por meio de intrincadas técnicas de coloração, os pesquisadores da Johns Hopkins descobriram que animais tratados com Prozac produziam mais axônios – terminações neurais que enviam os sinais – em neurônios :sensíveis à serotonina nas regiões cortical e frontal do cérebro, determinantes do estado de ânimo. O pesquisador Lijun Zhou sugere que esta mudança seja “o efeito estrutural de antidepressivos à base de serotonina” e ajude a explicar porque alguns tratamentos contra a depressão costumam ter sucesso. As descobertas corroboram outros estudos recentes em seres humanos que mostram que tanto drogas quanto psicoterapias, quando atingem seus resultados, aumentam os níveis de substâncias químicas importantes, chamadas neurotrofinas. A sua ausência pode contribuir para o enfraquecimento estrutural das redes neurais.

Segundo o neurocientista especializado em neurotrofinas, Eero Castrén, da Universidade de Helsinque, “essas descobertas devem indicar onde procurar, em seres humanos, indícios de mudanças similares”. Isso por sua vez, pode levar a uma compreensão mais completa sobre a depressão e a outros tratamentos.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 3 – A FONTE DO AMOR

“… O nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vocês” – Romanos 2:24

Enquanto nós, o Corpo de Cristo, não vivermos e amarmos de maneira adequada, as pessoas blasfemarão o nome de Deus. Isso não é nenhuma surpresa, pois se nos consideramos “cristãos”, afirmamos ser embaixadores de Cristo. O apóstolo Paulo escreveu:

Ou seja, que Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem da reconciliação. Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus estivesse fazendo o Seu apelo por nosso intermédio. Por amor a Cristo lhes suplicamos… 2 Coríntios 5:19-20

Um embaixador é um mensageiro ou representante autorizado.3 Como cristãos, falamos por Cristo. Que privilégio! Fomos convidados, e até mesmo encarregados, de participar no ministério da reconciliação de Deus. Falamos por Deus com nossas palavras e atos. Esse é o nosso propósito de vida. Somos colaboradores com Deus, fazendo avançar o Seu Reino na Terra.

Então o que Cristo pediu que nós, Seus embaixadores, façamos? Jesus disse: “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como Eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros” (João 13:34).

Felizmente essa missão não é algo que devemos realizar por meio da nossa própria força de vontade. A Bíblia deixa claro que, para cumprir nosso propósito, precisamos primeiramente estar em Cristo – ser herdeiros da Sua graça por intermédio da Sua obra salvadora na Cruz. Só então podemos agir pelo poder transformador do Seu Espírito, e só então podemos amar uns aos outros como Ele nos ama.

Sob a nova aliança da graça, Deus nunca nos dá uma ordem sem nos dar o poder para cumpri-la. Porque estamos em Cristo, Seu Espírito capacitará nossos casamentos e nossas vidas individuais para que possam revelar Sua presença e amor ao mundo. Entretanto, não podemos revelar Seu amor até que nós mesmos o experimentemos primeiro. Em Efésios, Paulo oferece a chave para recebermos o poder do amor de Cristo:

Oro para que, com as Suas gloriosas riquezas, Ele os fortaleça no íntimo do seu ser com poder, por meio do Seu Espírito, para que Cristo habite no coração de vocês mediante a fé; e oro para que, estando arraigados e alicerçados em amor, vocês possam juntamente com todos os santos, compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento, para que vocês sejam cheios de toda a plenitude de Deus. Efésios 3:16-19, grifo do autor

Para receber a revelação do amor de Cristo, primeiro temos de permitir que Deus nos fortaleça no íntimo do nosso ser com poder por meio do Seu Espírito. Mas isso não pode acontecer se você não entregou sua vida a Ele. A partir do momento em que a sua vida for Dele, você terá a oportunidade de crescer continuamente no Seu amor, uma jornada que por fim levará a uma vida plena e íntegra.

Apenas dois versículos após ter escrito sobre o poder que recebemos quando conhecemos o amor de Cristo, Paulo explica o propósito desse poder:

… rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocação que receberam. Sejam completamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos outros com amor. Façam todo esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Efésios 4:1-3, grifo do autor

Observe que Paulo escreveu “vivam de maneira digna da vocação que receberam”. Mais uma vez, ele está falando do nosso propósito: revelar o amor, a verdade e o modo de vida de Deus (Seu Reino) ao mundo. Nada disso é possível sem que se tenha experimentado o amor de Deus. O conhecimento teórico não bastará. Somente quando possuímos a experiência pessoal do amor de Deus é que somos revestidos de poder para edificar vidas – e casamentos – dignos do nosso chamado.

Nessa passagem, Paulo descreveu certos padrões comportamentais muito similares aos que são necessários a um bom casamento: ser humilde, ser dócil, ser paciente, suportar uns aos outros e fazer todo esforço para conservar a unidade por meio da paz. Não é coincidência que logo no capítulo seguinte de Efésios encontremos alguns dos versículos mais famosos da Bíblia sobre o casamento. (Lembre-se de que as designações de capítulo e versículo foram acrescentadas pela Igreja no século 13 e não apareciam na carta original de Paulo.) Seria possível que em Efésios 1 a 4 Paulo estivesse preparando o coração de seus leitores para o que ele estava prestes a compartilhar – as verdades radicais sobre o casamento que exigiriam um conhecimento radical do amor de Deus?

Então, eis a progressão: antes que você possa amar de maneira adequada (quer seja o seu cônjuge ou qualquer outra pessoa), você precisa primeiro descobrir as profundezas do amor de Deus por você. O seu conhecimento do amor de Deus não pode se basear em informações de segunda mão; você precisa experimentá-lo pessoalmente. Quando experimentar o amor de Cristo, você será “cheio de toda a plenitude de Deus”. Só então você poderá levar uma vida digna do seu chamado. O poder para viver e amar adequadamente vem do conhecimento íntimo do imenso amor de Deus por você.

O PROPÓSITO DO CASAMENTO

Se seu propósito individual é ser uma representação de Cristo na Terra, qual é o propósito do seu casamento?

Vamos começar por aqui: Deus é amor. O amor não é apenas algo que Deus faz. Não é apenas algo que Ele tem. É quem Ele é. O casamento é uma instituição de amor, a primeira instituição que Deus estabeleceu. O casamento não é apenas a primeira instituição estabelecida por Deus, é também o simbolismo poético usado por Ele para representar as profundezas do Seu amor por nós e do Seu compromisso conosco, Sua Igreja e Noiva. A noiva e o noivo são uma imagem da Igreja e de Cristo.

Por causa desse simbolismo profundo, há uma intenção ainda mais profunda e mais obscura por trás do ataque contra o casamento, um motivo que poucos reconhecem. Os ataques contra o casamento – contra sua definição, sua designação e suas raízes divinas – têm a ver com mais do que política ou progresso social. A Bíblia deixa claro que não guerreamos meramente contra carne e sangue, que nosso adversário não é um governo ou organização (ver Efésios 6:12). Há um antigo adversário – o inimigo das nossas almas – trabalhando por trás dos bastidores para distorcer e perverter a fusão divina. Ele não vai parar de atacar o casamento até ter distorcido completamente a nossa base de referência acerca da maneira como Deus ama e se relaciona com Seu povo. A última coisa que satanás quer é que descubramos e recebamos o amor transformador de Deus. Mas pela graça de Deus, podemos derrotar nosso adversário e abraçar tudo o que Deus deseja no nosso casamento e para o nosso casamento.

O QUE JESUS PENSA?

Deus não apenas criou o casamento; Ele também tem um plano e um propósito para ele que não mudou. Embora o debate sobre as particularidades do casamento seja um tema polêmico há milhares de anos, Deus ainda o garante como Seu plano original. Veja o que Jesus disse aos fariseus em uma de Suas mais famosas conversas com relação ao casamento:

Um dia, os fariseus vieram provocá-Lo: “É permitido um homem divorciar-se da esposa por qualquer razão?” Ele respondeu: “Vocês não leram que o Criador, no plano original, fez o homem e a mulher um para o outro, macho e fêmea? Por causa disso, um homem deixa pai e mãe e une-se à sua esposa, tornando-se uma carne com ela. Não são mais dois, mas apenas um. Deus criou uma união perfeita, que ninguém pode ter a ousadia de profaná-la, separando-os”. Mateus 19:3-6, A Mensagem

Os fariseus se contentavam em saber o que era legalmente correto, mas Jesus queria que eles compreendessem o poder do amor.

Não podemos negar o fato de que Deus originalmente planejou os homens e as mulheres uns para os outros. No casamento, eles deixam seus pais para formar uniões vivas. A partir do momento em que os dois sexos estão unidos, ninguém deveria separar essa fusão.

POR QUE DEUS SE IMPORTA COM O DIVÓRCIO?

A versão da Bíblia A Mensagem chama o divórcio de uma profanação da união perfeita que Deus criou. É o fato de o casamento ser uma união criada por Deus que torna o divórcio algo tão sério.

Profanar é tratar algo sagrado com um desrespeito violento.4 Os sinônimos de profanar incluem palavras como blasfemar, difamar, maldizer, corromper, vandalizar, insultar e violar. Todos esses termos extremos transmitem uma sensação de violência. Fizemos referência à versão parafraseada de A Mensagem, mas todas as versões transmitem a gravidade de dividir o que Deus uniu. E ao fazer um estudo contextual adequado, podemos deduzir com segurança que Jesus está falando de todos os casamentos.5

Você pode imaginar como o mundo reagiria se alguém profanasse o quadro Mona Lisa, de Leonardo da Vinci? Todas as redes de notícias transmitiriam a história. O autor do crime seria condenado pela sociedade e provavelmente passaria o resto da vida na prisão. Como alguém ousaria profanar uma das maiores obras de arte da humanidade? Leonardo rolaria no túmulo.

Bem, Deus considera o casamento como uma das maiores obras de arte a serem expressas através de Sua criação favorita. A Paixão Dele pelo casamento é evidenciada na resposta de Jesus aos fariseus. As palavras Dele eram tão poderosas que eles não sabiam como lidar com elas, de modo que simplesmente se recusaram a responder-Lhe. Incapazes de compreender o casamento à luz da intenção original de Deus, eles se escondiam atrás da Lei de Moisés – uma abordagem que lhes permitia partir em vez de lhes dar o poder e a autoridade para ficar.

Eles retrucaram: “Se é assim, por que Moisés ordenou que o marido mandasse sua mulher embora, dando-lhe uma certidão de divórcio?” Jesus disse: “Moisés deixou o divórcio apenas como concessão por causa do coração duro de vocês, mas não era parte do plano original de Deus. Estou apresentando o plano original. Assim, se alguém se divorciar de uma esposa fiel e se casar com outra pessoa, a responsabilidade do adultério recairá sobre ele. A única exceção é o caso quando uma das partes comete imoralidade sexual”. Mateus 19:7-9, A Mensagem

Sob a Lei de Moisés, eram feitas concessões por causa da dureza do coração humano. Isso era algo provisório, e não o propósito original de Deus. Não se engane; Deus odeia as consequências do divórcio. Quando um marido e sua esposa são separados, um dos mistérios da Criação de Deus (como o casamento é descrito em Efésios 5:31-32) é violado e destruído.