A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO A BARRIGA AFETA O CÉREBRO – I

Cientistas comprovam que bactérias da flora intestinal – presentes em alimentos como iogurte, queijo e bebidas lácteas – podem influenciar fortemente a memória, o humor e a saúde mental, participando até de mecanismos que deflagram o estresse

Há um fervilhar de vida dentro da sua barriga. Os milhares de hóspedes silenciosos instalados em seu intestino chegam a pesar juntos até dois quilos. Algo considerável, ainda que cada inquilino seja tão minúsculo que só possa ser visto ao microscópio. Essa comunidade que mora dentro de nós é extremamente diversificada: só no cólon existem mais de 400 espécies de microrganismos. E, segundo as estimativas, até hoje foi descoberta apenas uma pequena parte dessas criaturas.

Antigamente os médicos consideravam que essas formas de vida eram a causa de diversas doenças depois que, em 1876, o médico e microbiólogo alemão Robert Koch demonstrou que as bactérias provocam doenças infecciosas. Na ocasião falava-se em “toxiemia intestinal” e “intoxicação intestinal”. Para combater as supostas doenças, alguns profissionais aconselhavam aos pacientes a retirada do cólon.

Hoje sabemos que os microscópicos organismos residem no trato digestivo. Os lactobacilos e as bifidobactérias – presentes em alimentos comuns, como iogurte, queijo e bebidas à base de leite – constituem a flora intestinal, uma população absolutamente natural – e necessária. Instalam-se ali logo após o nascimento e impedem que eventuais agentes patogênicos, absorvidos pelos recém-nascidos através do próprio alimento, se propaguem no organismo. Estes micro-organismos contribuem para a digestão, estimulam a motilidade intestinal, nos protegem de substâncias prejudiciais e reforçam o sistema imunológico. Produzem, entre outras coisas, diversas vitaminas e fornecem energia às células da mucosa intestinal. Enfim, as bactérias das nossas vísceras são vitais para o nosso bem-estar.

As vantagens não se limitam ao organismo. Há fortes indícios de que o fervilhamento visceral influencie também o humor e até processos cognitivos. O pesquisador Emeran Mayer, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, estudioso das interações entre intestino e cérebro, escreveu um artigo panorâmico, no qual afirma que “micróbios intestinais influenciam na formação das lembranças e no estado emotivo”.

Sabemos hoje que os seres microscópicos se comunicam entre si e com o organismo por intermédio de diversos tipos de “mensageiros”. Milhares de células nervosas recebem sinais dos organismos unicelulares e os retransmitem ao cérebro através do nervo vago.  Desse modo, os microrganismos influenciam processos inflamatórios e algumas bactérias produzem o triptofano, aminoácido precursor da serotonina, o “hormônio da felicidade”, que pode ser acumulado no intestino. Assim, tudo leva a crer que esse microbioma afete o nosso bem-estar. “Se os micróbios intestinais de fato influenciam problemas psicológicos, é possível estabelecer as bases de uma terapia dirigida”, espera Mayer.  Ele reconhece, porém, que ainda há muito a compreender sobre essa correlação e, certamente, esse fator não pode ser considerado isoladamente.


CONHEÇA O SEU INTESTINO

FLORA INTESTINAL

Mais de 400 espécies de bactérias habitam nosso intestino, ao lado de outros micro-organismos. Além de contribuírem para a digestão, elas nos defendem dos agentes patogênicos. Alguns desses seres microscópicos produzem aminoácidos e vitaminas, fundamentais para a sobrevivência.

NERVO VAGO

Os micro-organismos se comunicam também fora do intestino, com outras partes do corpo. O nervo vago recebe os sinais e os retransmite ao cérebro, mas regula também a atividade do intestino, para o qual envia informações do cérebro.

FATOR DE CRESCIMENTO NEURAL BDNF

O fator de crescimento BDNF (brain derived neurotrophic factor) é um mensageiro produzido pelo organismo, uma espécie de “fertilizante do cérebro”. Essa molécula se liga a receptores específicos da membrana celular, conectando células nervosas entre si e contribuindo para a defesa e a formação das redes neurais.

TRIPTOFANO E SEROTONINA

Algumas bactérias intestinais produzem o aminoácido triptofano, o precursor da serotonina, mais conhecida como o “hormônio da felicidade”. No organismo humano, a serotonina está presente, sobretudo, no aparelho digestivo.

INTERLEUCINA 6 (IL-6)

Este mensageiro do sistema imunológico tem um papel importante nas reações inflamatórias. Os valores de IL-6 resultam mais elevados no sangue no caso de doenças autoimunes e no curso de infecções bacterianas e virais.

LACTOBACILOS E BIFIDOBACTÉRIAS

Fazem parte dos micróbios intestinais, e fermentam o açúcar produzindo o ácido lático. Ambos estão presentes no iogurte e são importantes pelo efeito probiótico, reforçando a flora intestinal. Lactobacilos e bifidobactérias acidificam o ambiente intestinal e previnem a instalação de outras bactérias, potencialmente prejudiciais.

RECEPTORES DE GABA

Estes pontos de ancoragem nas membranas das células nervosas ligam em particular o ácido gama-aminobutírico (GABA), um mensageiro cerebral. Quando são ativados, inibem a excitabilidade dos neurônios.

OUTROS OLHARES

ONDE A TERRA É CONVEXA

Comunidade no interior de Mato Grosso do Sul constrói pirâmide de 63 metros, contesta ciência e se prepara para o dia do Apocalipse

Os viajantes desavisados que chegam à vila de Zigurats, em Corguinho, no interior de Mato Grosso do Sul, não sabem que nem todos os seus habitantes podem ser vistos a olho nu. Entre as dezenas de casinhas redondas do povoado, erguido num matagal e contornado por uma vista privilegiada do Cerrado, há uma residência em especial que não foi destinada a um ser humano. O nome desse morador é Bilu, o extraterrestre que se popularizou depois de ser retratado por programas de TV a partir de 2009 e que ajudou a projetar o lugar.

A exposição midiática, em geral de forma jocosa, tirou do anonimato os moradores de Zigurats, um tipo de condomínio com 30 residentes fixos e outros 40 temporários que começou a ser construído na virada do século por uma associação chamada Dakila Pesquisas, cujos membros estudam, entre outros assuntos, alienígenas e civilizações antigas. Desde os primeiros programas de TV, cresceu o número de curiosos que visitam o lugar, a cerca de 100 quilômetros de Campo Grande.

O mais novo grande projeto da Dakila foi o lançamento no ano passado de um documentário (link do documentário no final do post) que coloca em xeque o fato de a Terra ser esférica. Para os moradores de Zigurats, nosso planeta é plano em sua superfície e convexo na “base”. O mundo como o conhecemos, dizem eles, estaria limitado a uma imensa borda de gelo, a Antártida, além da qual existiria uma região ainda inexplorada pela humanidade. Os membros da Dakila a chamam de “Norte Maior”, o continente onde nenhum desbravador jamais colocou os pés.

Urandir Fernandes de Oliveira, considerado o “pai do ET Bilu”, fundador da Dakila, pode ter uma teoria diferente das ideias convencionais do terraplanismo, que não defendem a existência de novos continentes inexplorados. Em comum, Oliveira concorda que a Terra não tem o formato comprovado pela ciência. E ele não está só. Sete por cento da população brasileira acredita que a Terra seja plana, segundo a mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada em julho. Assim como outros terraplanistas, os membros da Dakila apresentam como principal evidência para comprovar a teoria a ideia de planicidade das superfícies aquáticas. Segundo eles, se a Terra fosse de fato curva, um objeto que se afastasse demais ao longo de um plano aquático, como no mar ou num lago extenso, sumiria no horizonte. “Nós fomos no Lago Titicaca (no Peru), numa época em que a água está muito gelada, para ela não evaporar, e a gente via a rua lá do outro lado, a 180 quilômetros de distância. Cadê a meleca da curvatura? Não tem. A água é plana, você pode ter certeza”, disse o engenheiro civil Paulo Parra, de 72 anos, membro da Dakila. “Agora imagina chegar para mim, que sou engenheiro civil, baseado na ciência, e falar que a Terra não é redonda? Ô, gente, eu sofri demais.” Alessandro Drago de Oliveira, também autointitulado “pesquisador”, disse que a descoberta da Dakila “acaba com tudo que se sabia sobre astronomia no mundo” e prova que “todos os astrônomos estavam muito, muito errados”.

A pista para a descoberta da Terra convexa, afirmou a professora aposentada Vera Pedrosa, de 70 anos, que largou a vida no Rio de Janeiro para viver na comunidade em Mato Grosso do Sul, pode ter vindo como uma revelação do próprio ET Bilu, durante um contato com uma equipe de TV que foi a Corguinho para tentar captar imagens do ser de outro mundo. “Um repórter veio aqui e ouviu do Bilu que a Terra não era redonda, que a gente tinha de pesquisar mais. O Bilu queria se mostrar para ele, mas o repórter recuou, ficou com medo e não publicou a matéria. Ele tinha a oportunidade de ganhar o prêmio mundial de jornalismo. Era uma notícia que mudaria o mundo”, declarou a ex-professora. “O Bilu disse para buscarem conhecimento, e hoje a internet toda fala sobre isso.”

A frase que se tornou quase um mote do extraterrestre foi levada a sério pelos membros da Dakila. Eles se definem como “buscadores de conhecimento”, e a mensagem foi até estampada nos caminhões que trabalham nas obras do local. “Nós somos o legado de Bilu”, afirmou Paulo Vieira, de 23 anos, que largou a faculdade de engenharia e foi morar em Zigurats há dois anos. “Eles são erroneamente chamados de ETs, porque são muito mais parecidos com a gente do que os filmes mostram. O termo correto é ser extradimensional. São seres de outra dimensão que simplesmente vibram numa faixa de frequência diferente”, completou.

Acreditar que a Terra não é esférica é tão estranho quanto acreditar em extraterrestres. O conhecimento do formato de nosso planeta é anterior ao nascimento de Jesus Cristo. Defender o contrário requer sair do campo da ciência e de princípios fundamentais da geografia comprovados por mais de dois milênios e entrar num pensamento mágico. Para Vera Jatenco, professora do Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), a teoria terraplanista e da Terra convexa não tem pé nem cabeça. “Que a superfície da água não é plana pode muito facilmente ser comprovado, observando um navio que se afasta perpendicularmente ao continente. Primeiramente o casco começa a desaparecer e, aos poucos, o navio todo desaparece, sendo o mastro a última parte a desaparecer. Embora os terraplanistas digam que isso não acontece, esse fenômeno já foi, e tem sido observado, milhares de vezes”, disse.

ser uma pirâmide de 63 metros. A localização escolhida não foi por acaso. Segundo Oliveira, o fundador, o terreno se encontra no paralelo que está 19 graus a sul do plano equatorial da Terra, “um dos vórtices mais poderosos de energia hoje em dia”. Ele afirmou que nessa faixa são abundantes as aparições de fenômenos não naturais. E também disse acreditar que a imagem de extraterrestres como criaturas macabras foi inventada pelas “lideranças mundiais” para assustar a população.

Pensada para perdurar por mais de 1.000 anos, segundo os membros da comunidade, a vila terá até mesmo um “sistema antiapocalipse”. Quando estiverem prontas, planeja-se que as casas, quase todas em formato de iglus, vão ser interligadas por galerias e corredores subterrâneos, por onde será possível se deslocar sem precisar subir à superfície e estocar comida para longos períodos de crise. A ocupação do lugar tem outras propriedades, disseram alguns moradores. “Até a arquitetura das casas promove um acréscimo de energia”, disse a ex-atriz gaúcha Lígia Rigo, que mora na comunidade com o marido Telmo Flores, de 68 anos.

Os moradores de Zigurats levam a sério a sustentabilidade. Além de evitar ao máximo o consumo de produtos industrializados, dizem se esforçar para plantar a própria comida ou comprá-la das três comunidades quilombolas existentes na região, que produzem alimentos diversos sem agrotóxicos ou demais produtos químicos. Tetos solares ajudam na economia de energia, o lixo orgânico é separado para compostagem e o demais é selecionado para reciclagem.

Nascida no Paraguai, Amanda Riveros, de 60 anos, largou tudo para se mudar para a vila. Ela afirmou que vivia viajando pelos Estados Unidos, fazendo compras para sua loja de perfumes, até que parou para pensar em si mesma. “Minha vida deu uma reviravolta. Perdi família, amigos, trabalho, quando conheci isto aqui. Me chamaram de louca, mas hoje não troco (Zigurats) por nada. Se eu pudesse recomeçar minha vida conhecendo isto aqui, seria outra pessoa. Quando você vem para cá, você se conhece. Conquistei uma família aqui. A gente acaba pensando igual, querendo as coisas da mesma forma”, disse a ex- comerciante, antes de começar a chorar, emocionada.

A vida saudável é outra regra seguida à risca. Paulo Vieira, que trabalha no CTZ e monitora os visitantes, declarou que uma das metas da Dakila é alcançar a máxima longevidade da vida humana — talvez até a vida eterna, dizem eles. “A gente se aprofunda, além daquilo que a gente chama de lacunas da ciência, na questão da alimentação, de atividades físicas e do prolongamento da vida. Chegar a 80, 90, 100 anos com saúde”, afirmou Vieira, citando a argila “mágica” da região como uma das promessas para alcançar esse objetivo. O engenheiro Parra vai além. Ele indagou se haveria surpresa caso ele, daqui a três anos, se encontrasse rejuvenescido, décadas mais jovem. “No futuro, me vejo cabeludo de novo”, comentou ele, tateando a careca.

A argila de Zigurats é o produto xodó da Dakila, que até abriu uma nova empresa, a Kion Cosmetics, só para vender os cremes de beleza, cuja propaganda está sendo estampada em revistas da região. “Essa argila não tem em outro local. Ela tem uma substância que não é conhecida pela ciência ainda”, afirmou Oliveira, orgulhoso. “Para cosmético, rejuvenescimento da pele, ela é especial, porque tem propriedades eletromagnéticas. Mandamos o material para fora do país. Lá no Canadá eles não conseguiram registrar todos os minerais que ela contém. São mais de 123 elementos, que fogem da tabela periódica que conhecemos”, sustentou Oliveira.

Além da Kion, a comunidade tem outras 12 empresas, entre as quais uma fábrica de cerâmica — para economizar na construção de Zigurats —, uma atacadista de produtos alimentícios, uma varejista de bebidas e uma companhia de construção civil. O capital social de todas as empresas soma cerca de R$ 700 mil, mas Oliveira não dá detalhes de como chegou a essa cifra. Ele jura que todo o financiamento da Dakila vem das mensalidades de R$ 150 pagas pelos 4.500 associados.

Além do grande apreço pela vida saudável, da desconfiança no governo e nas grandes companhias e da descrença num planeta Terra esférico, os moradores de Zigurats compartilham experiências próprias com Bilu e outros seres de outra dimensão. Oliveira disse que a criatura tem 1,40 metro. Já Vieira deparou com uma versão um pouco mais alta, de aproximadamente 1,70 metro. O aspecto comum, eles concordam, fica por conta da voz, um tanto infantilizada, cuja gravação pode ser encontrada no YouTube.

Questões envolvendo Bilu continuam perseguindo a comunidade até mesmo nessa nova fase, mais voltada para o formato da Terra. Existe uma disputa entre os terraplanistas e o grupo liderado por Oliveira, contou uma moradora de Zigurats. “Alguns até entraram para nossas pesquisas e continuam defendendo a Terra plana”, disse ela. A explicação para a teimosia em não aceitar a teoria de Oliveira seriam feridas religiosas da época em que o ET Bilu ganhou notoriedade na imprensa. “Como eles (terraplanistas) são muito ligados à religião, e a maioria é evangélica, eles acham que ET é demônio. Então eles não aceitam de jeito nenhum. Tem gente que acha que é farsa, você acredita?”

A casa em construção em formato de pirâmide será destinada a Urandir Fernandes de Oliveira, o fundador de Zigurats.

https://www.youtube.com/watch?v=Nk0C_1xey54

GESTÃO E CARREIRA

GADGET, GADGET MEU

Tecnologia e inovação estão movimentando o mercado de beleza no Brasil e no mundo. Saiba quais oportunidades podem surgir com essas transformações

Se os contos de fadas fossem atualizados para os tempos modernos, a madrasta da Branca de Neve provavelmente perguntaria para uma tela espelhada, gigante, não se existe alguém mais bela do que ela, mas qual rotina de beleza ela própria deveria adotar. É isso, por exemplo, o que faz o HiMirror, um espelho inteligente capaz de analisar a pele do usuário com câmeras, avaliando a saúde dos poros e revelando, por exemplo, a presença de manchas de sol – que já estão evidentes ou que ainda vão surgir. Depois de realizada a análise, o espelho sugere quais produtos deveriam ser aplicados, além de dar dicas de maquiagem simulando vários tipos de iluminação, corno a de um escritório, de um restaurante ou do pôr do sol.

O HiMirror ainda não chegou ao Brasil, mas faz parte de uma tendência mundial: aliar tecnologia a tratamentos de beleza. Segundo a consultoria de investimento em startups CB Insights, os últimos anos têm registrado recorde de ofertas de financiamento no setor de Beauty Tech, do qual fazem parte iniciativas como o HiMirror. Em 2017, foram cerca de 150 investimentos movimentando quase 600 milhões de dólares. Mas o mercado é muito maior do que isso. De acordo com a empresa de pesquisa Orbis Research, o setor global de cosméticos terá taxa de crescimento anual superior a 7% entre 2018 e 2023, alcançando 805 bilhões de dólares. E boa parte desse crescimento se deve às transformações tecnológicas. Entre as novidades apresentadas pela indústria no último ano estão aplicativos com reconhecimento facial e realidade aumentada, produtos personalizados ou à base de ingredientes inusitados, como frutas e legumes, e gadgets específicos para deixar a pele do rosto mais lisinha e limpa.

NOVA CULTURA

Vários aspectos da era digital transformam esse setor. Entre eles estão o compartilhamento de informações sobre o assunto por meio de redes sociais, o impacto dos influenciadores sobre as marcas e a cultura da selfie, que aumenta a preocupação com a própria imagem. “A dinâmica da indústria, que era dominada por grandes players, mudou. Há a ascensão de marcas de nicho e voltadas para as novas necessidades e exigências do consumidor”, diz Julia Faria, gerente de vendas da consultoria de tendências WGSN.

Entre as novatas que movimentam o setor está a Foreo, empresa sueca fundada em 2013 que desembarcou no Brasil em julho do ano passado e produz as escovas de limpeza facial eletrônicas que qualquer seguidor de blogueiras de beleza já viu em algum vídeo. O carro-chefe da companhia é a escova Luna, feita de silicone, que massageia, limpa e promete combater o envelhecimento da pele. O produto foi criado por Filip Sedie, fundador da empresa. Engenheiro, ele teve a ideia em 2012, depois que sua mulher reclamou de ter tido uma piora nas condições da pele após usar uma escova facial com cerdas de náilon. No mundo, a Foreo já ultrapassou 10 milhões de produtos vendidos e 1 bilhão de dólares em receita, tem mais de 200 patentes globais e um laboratório na China. Por aqui, a companhia deverá investir 20 milhões de reais até o fim de 2019, principalmente em marketing e operações. Desde sua inauguração no país em 2018, o crescimento nacional da empresa foi de 300%. A filial brasileira alavancou a carreira dos três profissionais que haviam sido contratados inicialmente para a abertura do escritório em São Paulo. “Hoje somos 14 e vamos chegar a 20 até o fim do ano, com mais contratações nas áreas de marketing, vendas, logística e financeira”, diz Bianca Magnani Tavares, gerente­ geral da Foreo no Brasil que teve, ela própria, uma promoção. Depois de uma breve passagem pela Cabify e de uma carreira anterior de cinco anos no Grupo Boticário, Bianca foi contratada para a área de desenvolvimento de negócio em julho de 2018. Apenas oito meses depois, quando sua chefe deixou a companhia, acabou assumindo a direção-geral. Agora sua missão é educar o consumidor. “Apesar de haver muita informação, precisamos explicar como usá-la. Não é simples romper paradigmas e vender um produto completamente novo. Por um lado, não existe concorrência; por outro, temos de mostrar o que fazemos”, diz Bianca.

RECAUCHUTANDO A IMAGEM

A Sephora, gigante do setor de beleza, presente em 34 países com 2.530 lojas – 23 delas (além de 15 pop­ up stores) no Brasil -, também percebeu as transformações e se movimentou. “A tecnologia e a globalização mudaram tudo no mercado de beleza. Com novos lançamentos de produtos e marcas, um número maior de formadoras de opinião [como as blogueiras] e mais acesso à informação, o consumidor mudou: exige mais personalização, mais tecnologia e mais cuidado com o meio ambiente, com procura por produtos naturais e veganos”, diz Andrea Orcioli, CEO da Sephora Brasil e líder de 700 profissionais no país.

Para não ficar para trás, a Sephora começou a se envolver no ecossistema de startups de beleza. Por isso criou, em 2016, um programa global batizado de Sephora Accelerate, que ajuda mulheres empreendedoras a desenvolver seus negócios. Todos os anos, a companhia seleciona algumas participantes que, durante seis meses, ganham treinamentos e mentoria de especialistas do mercado. No final do projeto, cada empreendedora recebe 5.000 dólares e tem a oportunidade de fazer um pitch para investidores – e conseguir mais dinheiro para aplicar no negócio. Pollini Jorão, de 36 anos, primeira brasileira a participar de uma edição, em 2017, fez carreira na área de marketing da Nivea e havia criado, junto com um sócio, um software para ajudar as pessoas a encontrar o produto ideal para seu tipo de pele ou cabelo. Sua empresa, a Brand Lovers, começou com um investimento pessoal de 300.000 reais. Depois que Pollini passou pelo programa da Sephora, sua tecnologia foi vendida para a Natura por 2 milhões de reais. “Comecei a empreender na área de beleza porque identifiquei uma oportunidade, mas, no fim das contas, continuo trabalhando com a mesma coisa: tecnologia”, diz Pollini, que fundou outra startup, desta vez voltada para práticas de gestão de pessoas. No programa, ela foi mentorada justamente por Andrea Orcioli, CEO da Sephora.

CUIDADO COM O AMBIENTE

Da edição mais recente do Sephora Accelerate estão participando a advogada Patrícia Camargo, de 35 anos, fundadora da Care Natural Beauty, e sua sócia, a administradora de empresas Luciana Navarro, de 37. Depois de um momento de questionamento sobre a vida pessoal e profissional delas, as paulistanas identificaram uma paixão em comum pelo universo da beleza natural. “Luciana estava passando por um tratamento de quimioterapia e não podia usar m1ritos dos produtos disponíveis, porque tinha alergia. Eu, que trabalhei muito tempo em farmacêutica e sempre me interessei pela composição dos produtos, notava que a indústria não tinha esse cuidado com ingredientes. Vimos a oportunidade”, diz Patrícia. Com os pilares de sustentabilidade, performance e responsabilidade social, a Care usa o argumento de produção consciente. “Queremos desmistificar que produtos com ativos naturais e orgânicos são, necessariamente, artesanais – não são. Há muita pesquisa, estudo e tecnologia”, diz.

O portfólio da marca conta com 22 produtos, que vão desde blushes e iluminadores com esqualeno de oliva (composto orgânico que ajuda na hidratação) até um trio de batons infantis naturais.

“Não usamos ingredientes de origem animal, e os produtos são todos veganos, mas, mais do que isso, queremos mostrar que eles tratam a pele. O blush, por exemplo, não resseca o rosto, as embalagens são feitas de papel e vidro, e todos os artigos são certificados com um selo internacional de proteção aos animais. Buscamos ser bastante sustentáveis em toda a nossa cadeia”, diz Patrícia. Por isso há um trabalho de logística reversa (para receber de volta as embalagens) e parceria com ONGs focadas em vulnerabilidade social, que indicam para as empreendedoras bordadeiras e costureiras que possam produzir os nécessaires vendidos pela marca.

ALIMENTO DIÁRIO

QUALIFICADOS

CAPÍTULO 29 – DISCORDÂNCIA REDENTORA

VOCÊ ESTÁ CRIANDO PÉROLAS OU APENAS FICANDO IRRITADO?

“Aquele que aprendeu a discordar sem ser desagradável descobriu o mais valoroso segredo de um diplomata.”  — Robert Estabrook

PENSAMENTO-CHAVE: Líderes espirituais podem ser bondosos mesmo quando eles discordam. Nós podemos até mesmo aprender coisas por meio da discordância.

Existe uma grande lição em entender a formação de pérolas. Pérolas naturais são formadas quando um grão de areia ou outro objeto desliza entre as duas conchas da ostra. Devido à irritação natural provocada pela areia, a ostra encapsula o grão em camadas da secreção de madrepérola, e a pérola cresce em tamanho proporcional ao crescimento do número das camadas, formando uma joia.

Então, da próxima vez que você se encontrar discordando de alguém (ou alguém discordando de você), pergunte a si mesmo: Estou apenas ficando irritado ou estou produzindo pérolas? A sabedoria nos ensina a nos beneficiarmos das discordâncias e transformar cada incidente em uma experiência redentora de crescimento, não importando o quão irritante possa parecer a princípio.

Heráclito, o antigo filósofo grego, disse: “O improvável é unido, e das diferenças resulta a mais bela harmonia, e todas as coisas tomam lugar pelos conflitos”. Minha reação natural à palavra “conflito” é recuar diante dela como algo ruim e indesejável. Certamente existe uma forma tóxica de conflito que destrói e fere; contudo, existe outro entendimento desse princípio que é bem menos ameaçador.

Quando pessoas com bom coração discordam, mas são respeitáveis e ensináveis, isso pode ser benéfico para ambos. Esse é o tipo de vantagem que é derivada do princípio falado em Provérbios 27:17: “Como o ferro com o ferro se afia, assim, o homem, ao seu amigo”. Tenho visto homens maravilhosos em conflito a respeito de algo que discordam, mas porque eles mantiveram um coração aberto e não eliminaram um ao outro, eles se tornaram melhores amigos (ou uma grande amizade), e ambos aprenderam e foram acrescentados como um resultado do que eles aprenderam trabalhando por meio do conflito.

George Whitfield teve um conflito afiado com John Wesley a respeito da questão calvinista-arminiana, embora quando Whitfield foi perguntado (antagonicamente) se ele pensava que veria John Wesley no céu, Whitfield respondeu: “Eu temo que não, porque ele estará tão próximo ao trono eterno e nós a tamanha distância, que dificilmente teremos uma visão dele”.

CULTIVANDO A ARTE DO CONFLITO REDENTOR

Estou maravilhado com a graciosidade, o caráter e a maturidade que foram demonstrados por Pedro depois de ter recebido a repreensão pública de um enfurecido apóstolo, Paulo. Paulo não apenas corrigiu a Pedro em frente à congregação em Antioquia, mas ele também relatou o evento em sua epístola aos Gálatas, o que resultou nesse conflito sendo revivido repetidamente por crentes em gerações incontáveis (Gálatas 2:11-14).

Enquanto Paulo foi correto doutrinariamente, é admirável como Pedro respondeu tão humildemente. Inicialmente, ele provavelmente sentiu-se ferido e se irritou com a repreensão, mas isso é algo que nós podemos apenas especular a respeito. Contudo, nós sabemos que ele posteriormente deixou essa experiência torná-lo melhor, não o amargurou. Homens menores, que foram embaraçados, teriam provavelmente permanecido rancorosos e seriam levados a depreciar Paulo. Não obstante, Pedro permitiu que o conflito o amadurecesse e recusou deixar que ele o envenenasse.

Em vez de agir com insegurança, Pedro posteriormente honrou e defendeu a Paulo: “E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles” (2 Pedro 3:15-16).

Quando eu era jovem, era extremamente importante para mim “estar certo”. Quando eu me graduei na escola bíblica, eu era quase onisciente (ou pelo menos pensava ser), e estava alerta para derrotar qualquer crença ou ideia que não concordasse com a minha. À medida que eu cresci um pouco, é impressionante quão menos eu sei agora do que eu sabia trinta anos atrás! Continuo segurando firmemente certas crenças centrais, e acredito que isso seja importante. Contudo, aprendi a ser mais respeitoso com as crenças de outras pessoas, ideias e pontos de vista que podem não concordar com o meu. Em vez de vê-los como ameaças a derrotas, eu agora os enxergo como oportunidades de aprendizado. Tenho achado muito libertador abraçar a atitude (em muitos assuntos não essenciais relacionados a estilos, métodos, etc.): “Você não tem que estar errado para que eu esteja certo”.

Muitos indivíduos sábios têm aprendido a beneficiar-se, crescer e aprender por meio do conflito, eles têm cultivado a arte do conflito redentor. Considere o seguinte:

Nós encontramos conforto entre aqueles que concordam conosco, mas crescemos entre aqueles que discordam.  — Sydney Harris

Quando estamos debatendo uma questão, lealdade significa me dar sua opinião mais honesta, quer você pense que eu vou gostar quer não. Discordância nesse estágio me estimula. Mas uma vez que uma decisão foi tomada, o debate se encerra. Desse ponto em diante, lealdade significa executar as decisões como se elas fossem nossas.  — Colin Powell

Tenha um amigo para lhe dizer as suas falhas, ou melhor ainda, acolha um inimigo que irá assisti-lo atentamente para feri-lo selvagemente. Que bênção tal crítica irritante será para um homem sábio, e que incômodo intolerável para um tolo!  — Charles H. Spurgeon

Em seu livro O Despertar da Graça, Charles Swindoll compartilhou as seguintes orientações para moldar a graça em tempos de discordâncias:

•  Sempre abra espaço para um ponto de vista oposto.

•  Se um argumento precisa ocorrer, não o assassine.

•  Se não for da sua forma, supere isso, siga sua vida.

•  Às vezes, a melhor solução é a separação.

A respeito do quarto ponto, Swindoll citou Paulo e Barnabé, e disse: “Se eu não posso ir em frente com a forma que as coisas estão em um ministério em particular, eu preciso me resignar! Mas fazendo isso eu deveria não arrastar as pessoas para os meus conflitos não resolvidos porque as coisas não aconteceram do meu jeito. Se a separação é a melhor solução, fazer isso com graça é essencial”.