A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

INFÂNCIA AMEAÇADA

Falta de rotina, excesso de estímulos, ruptura do ciclo sono-vigília eprescrição muitas vezes indiscriminada de antidepressivos podem antecipar a expressão dos sintomas maníacos em crianças e adolescentes

Apesar da constatação de que a maioria dos pacientes com o transtorno bipolar (TB) manifesta sintomas da doença ainda na infância, a forma precoce o distúrbio foi frequentemente sub- diagnosticada durante quase todo o século XX e só ganhou relevância depois dos anos 70. Hoje, embora sua ocorrência entre crianças e adolescentes seja indiscutível, dúvidas e polêmicas ainda cercam os índices epidemiológicos, as características clínicas, o curso da doença e os prognósticos. Uma revisão das pesquisas com as doenças afetivas nessa faixa etária mostra que as maiores dificuldades são a falta de especificação, a utilização não-padronizada de critérios de diagnóstico para crianças e a variedade da população estudada.

Evidências sugerem que a prevalência do TB aumentou em gerações mais recentes e que isso não se deve apenas ao maior número de casos diagnosticados.

Entretanto, tudo indica que esse crescimento tenha sido provocado por mudanças ambientais: falta de rotina, acesso a estímulos durante 24 horas do dia, maior ruptura do ciclo sono- vigília e prescrição de estimulantes e antidepressivos podem antecipar a expressão dos sintomas maníacos.

O uso precoce de álcool e drogas agrava os sintomas do TB em pessoas predispostas ao distúrbio. Mas, se tais fatores podem elevar o risco de desenvolver a doença, também possibilitam que estratégias preventivas e fatores de proteção sejam adotados.

A falta de dados evolutivos, porém, impede qualquer conclusão segura a respeito da influência desses fatores, porque o aparente aumento da taxa de mania pode refletir práticas diagnósticas, mudanças dos fatores da morbidade inerentes à época e disponibilidade da amostra.

Atualmente, diversos aspectos sobre o transtorno antes da fase adulta continuam em discussão e aguardam consenso entre especialistas: os critérios de inclusão e exclusão de pesquisas são pouco definidos; há desnível no treinamento dos pesquisadores de campo; existe deficiência de instrumentos de apoio diagnóstico e controle de evolução clínica; protocolos de pesquisa não são específicos e nota-se grande variação de prevalência e/ou incidência de TB na infância e na adolescência.

Em relação ao primeiro aspecto, alguns trabalhos mostram não ser necessário desenvolver um critério específico para transtornos afetivos dos 7 aos 16 anos, mas é sabido que o nível de desenvolvimento psicológico de uma criança tem papel importante na expressão de sinais e manifestações clínicas. Também variam com a idade a prevalência, o curso da doença e a relação com os transtornos manifestados na fase adulta. A tendência é que sejam estipulados critérios universais adaptados para diagnóstico nas diferentes fases de desenvolvimento, com sintomas equivalentes ou substitutivos para crianças e adolescentes.

Variam muito a prevalência e a incidência de TB precoce. As diferenças entre as populações estudadas – crianças da comunidade, pacientes ambulatoriais psiquiátricos, pacientes ambulatoriais pediátricos ou pacientes internados, pediátricos ou psiquiátricos – influenciaram os resultados. As baixas prevalência e incidência ou a variação de índices também podem decorrer do fato de que as manifestações consideradas exceções em adultos são comuns em crianças. Por isso, muitos profissionais nem incluem o T B entre as possibilidades de diagnóstico infantil – o que termina por dificultar o tratamento.

Para complicar, o que não é tão comum em adultos pode aparecer com mais frequência em crianças: estados mistos, ciclos rápidos, presença de sintomas psicóticos, altas taxas de comorbidade e prejuízo psicossocial severo. Crianças com TB são com frequência identificadas como se tivessem transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e adolescentes com doença bipolar são muitas vezes confundidos com portadores de transtorno de personalidade ou esquizofrenia. Essa dificuldade por parte dos profissionais é compreensível, uma vez que sintomas presentes em transtornos disruptivos (hiperatividade, agressividade e comportamentos anti sociais) podem ocorrer em crianças com TB. A confusão aumenta quando os adolescentes se mostram particularmente explosivos ou desorganizados e consequentemente mais vulneráveis a agressões físicas e a problemas sociais.

É comum que o TB com início precoce se manifeste primeiro por um quadro depressivo. Entre crianças e adolescentes deprimidos, 20% a 30% podem desenvolver episódios maníacos até em 24 meses seguintes. Estudos da década de 90 constataram que grandes proporções de crianças em tratamento por depressão desenvolviam sintomas variadosde TB e frequentes episódios maníacos. Segundo uma hipótese polêmica, grande parte – se não a maioria dos casos de depressão infantil – evolui para TB. O grupo de Robert L. Findling, diretor da Divisão de Psiquiatria de Crianças e Adolescentes dos Hospitais Universitários de Cleveland e professor associado de pediatria e psiquiatria da Universidade Case Western Reserve, investigou em 2001 pacientes de 5 a 17 anos portadores de TB tipo I e observou que cerca de metade deles já tinha tido episódios depressivos.

A fase depressiva do TB infantil se caracteriza por início muito precoce (antes dos 13 anos); retardo psicomotor alternado com agitação; sintomas psicóticos, reações de (hipo) mania após uso de antidepressivo; hipersonia e hiperfagia; história familiar positiva para transtorno bipolar. Essas características também são sinais preditivos e fatores de risco para posterior aparecimento deepisódio maníaco em crianças deprimidas. O estado misto depressivo é uma apresentação comum no TB tipo lI, e os pacientes com sintomas da hipomania que ocorrem durante um episódio depressivo poderiam sugerir a bipolaridade. Como os sintomas de aumento de atividade e a sensação de “estar cheio de energia” muitas vezes não são vistos como preocupantes, os episódios de hipomania podem não constituir uma queixa para o paciente ou até passar despercebidos.

A depressão que começa na adolescência parece continuar na vida adulta, e há evidências de transmissão familiar. Por ser uma patologia reconhecidamente cíclica, sabe-se hoje que a depressão de início precoce requer cuidados o quanto antes, para que se evitem prejuízos no desenvolvimento e no funcionamento global do jovem.

Alguns pesquisadores defendem a ideia de que as crianças com TB de início precoce já tinham temperamento distinto do de seus pares antes mesmo de desenvolver a doença. No estudo publicado em 2001 pelo grupo de Findling, os pais descrevem os filhos portadores de TB como cronicamente perturbados e irritados nos períodos de estado misto, hipomania ou mania, e mais irritados do que tristes em período de depressão. Manifestam tambémirritação, mesmo em momentos de humor mais equilibrado,

PERIGO DE SUICÍDIO

O profissional da saúde mental que assiste crianças e adolescentes com TB deve atentar para a presença de ideação suicida durante todo o acompanhamento desses pacientes. É importante que se avaliem os fatores de risco. Por exemplo, sintomas depressivos e hipomaníacos, com atenção especial nos estados mistos e sintomas psicóticos, tentativas prévias de suicídio, abuso físico, emocional ou sexual, abuso de substâncias psicoativas, grau de impulsividade, presença de armas de fogo em casa e fa1ta de suporte familiar.

Os pais também devem ser orientados quanto aos sinais que denunciam uma possível ideação suicida dos filhos e remover do alcance da criança todos os agentes letais como armas, venenos e medicamentos. E devem zelar pelo uso da medicação prescrita. O envolvimento da família é fundamental, sobretudo para evitar a não-aderência ao tratamento. Com o surgimento de inúmeros fatores de risco, torna-se necessário avaliar a segurança de manter a criança ou adolescente em regime de tratamento ambulatorial.

Nos últimos anos, um crescente número de crianças e adolescentes entram nas unidades de emergência com diversos quadros de intoxicação e acidentes, sem que se cogite tratar-se de tentativa de suicídio, e menos ainda que portadores de transtorno do humor, sobretudo TB. Infelizmente, a maioria das equipes que presta serviços a esses pacientes ainda está despreparada para abordar, avaliar e conduzir os casos em pronto-socorro. Poucos são os hospitais com especialistas na equipe capazes de avaliar essas ocorrências.

A avaliação psiquiátrica no pronto­ socorro já representa uma intervenção: a criança ou o adolescente é ouvido, e com isso pode sentir que seu pedido de ajuda foi atendido. Eventos agudos de vida também têm tido sua ocorrência associada à manifestação de uma série de distúrbios psiquiátricos, principalmente depressão, transtornos de conduta, anorexia nervosa, atos suicidas, abuso de drogas e dificuldade escolar.

Analisando uma amostra não clínica de crianças e adolescentes, constatou-se uma relação de eventos maiores repentinos, ocorridos num período de dois anos, com a mudança de comportamento e problemas emocionais explícitos, além de uma ligação significativa entre acontecimentos negativos e manifestações de problemas emocionais e comportamentais. Estudos demonstram também maior incidência geral de transtornos psiquiátricos no ambiente familiar de pessoas com problemas mentais, desvio ou predisposição a esses quadros.

ESTRESSORES EM SINERGIA

Outras pesquisas sugerem que interações disfuncionais na fase inicial da vida resultam em percepções distorcidas negativas de si mesmo, do mundo e do futuro, que persistiriam a despeito de novas experiências, predispondo o indivíduo a desenvolver transtornos depressivos. Deficiências nos relacionamentos precoces resultariam numa trajetória negativa na infância, predispondo a transtornos emocionais.

A teoria do desamparo aprendido, proposta por Martin Seligman, na década de 70, sugere que a exposição a eventos estressares, crônicos, incontroláveis e imprevisíveis, mesmo quando os cuidados parentais são adequados, predispõe os indivíduos a desenvolver quadros depressivos. Existe ainda a possibilidade de que uma parcela significativa de dificuldades vivenciadas decorra da própria vulnerabilidade causada pela depressão, como sugerido em estudos anteriores. O fato de a criança estar deprimida a torna mais vulnerável a experimentar novos estressores, piorando o estado numa espiral descendente. Em 2000, T. C. Eley e J. Stevenson estudaram 61 pares de gêmeos e encontraram correlação significativa entre eventos relacionados a perdas, stress na escola ou no trabalho, problemas de relacionamento familiar e de amizades e presença de sintomas depressivos. Essa correlação não foi encontrada com os sintomas de ansiedade.

Em 2002, o pesquisador J.A. Rice coordenou nos Estados Unidos uma pesquisa sobre a etiologia de sintomas depressivos em crianças e adolescentes examinando a influência de gênero, idade, sintomas de inquietação e depressão materna, em uma amostra de população de gêmeos com idade entre 8 e 17 anos, de 1.463 famílias. O fator genético influiu significativamente nos sintomas depressivos. Dados da literatura com frequência indicam que fatores psicossociais também tendem a afetar desfavoravelmente a evolução e o prognóstico de depressão nessas idades.

FATORES DE RISCO

A maioria das crianças e adolescentes com TB também tem estressores crônicos no ambiente familiar e social. Estudos mostram que menos da metade dos portadores do transtorno de início precoce mora com os dois pais biológicos; aproximadamente um terço já esteve hospitalizado e menos do que um terço já recebeu educação especial. Uma investigação recente chama atenção para a descoberta de que o grau de acolhimento materno pode ser um fator preditivo de recidiva após remissão dos sintomas.

É preciso considerar também que é alto o índice de transtornos mentais nos países e/ou em pessoas que convivem com a criança. Embora as limitações metodológicas do estudo impeçam que se estabeleça uma relação direta entre as duas variáveis, algumas hipóteses podem ser levantadas. Pais com transtornos mentais tendem a ser menos calorosos com os filhos, a ser mais críticos e a utilizar estratégias disfuncionais para a solução de problemas. As crianças deprimidas, por sua vez, tendem a ser mais vulneráveis a coerções e a se tornar alvos dos conflitos familiares. Um terceiro fator são predisposições genéricas pelas quais filhos herdariam a doença psiquiátrica ou, ao menos, uma vulnerabilidade dos pais. Na maioria dos estudos, os familiares acometidos por transtornos recebem diagnóstico de depressão.

A hipótese é que todos esses fatores se potencializem uns aos outros. Os achados do estudo mostram que a presença de estressores em grande número nas famílias de crianças com depressão maior. Esse dado pode ser um alerta para todos os profissionais que trabalham com crianças e adolescentes, e também com adultos, sobre a importância de avaliar a existência de depressão em seus pacientes ou nos filhos de pacientes com problemas familiares. Além disso, os psiquiatras de adultos, especialmente, devem estar atentos à ocorrência de quadros depressivos na descendência dos pacientes com altos índices de transtorno psiquiátrico. Finalmente, estratégias de prevenção de depressão em crianças e adolescentes devem levar em conta os aspectos individuais da criança. E também os fatores de risco para desenvolvimento de um quadro depressivo, especialmente disfunções familiares, dificuldades interpessoais e eventos agudos de vida recentes, encontrados em grande parte nas crianças e nos adolescentes das clínicas psiquiátricas.

OUTROS OLHARES

O NETFLIX DOS GAMES

Ao investir em streaming de alta performance, Google, Microsoft e Bethesda se preparam para baratear os jogos eletrônicos e faturar bilhões de dólares

A expectativa é de uma revolução no acesso aos videogames. Pena que ainda não há data para ela chegar ao Brasil. A Bethesda e o Google anunciaram que vão lançar o Orion e o Stadia, respectivamente, produto e serviço de streaming de alto desempenho. Em outubro, deve entrar no ar o xCloud, da Microsoft. O potencial desse segmento é de dezenas de bilhões de dólares. As novas plataformas vão permitir que os jogadores acessem imensos servidores operados em nuvem por meio de seus smartphones, smartTVs, tablets e computadores. Assim, poderão jogar games que antes exigiam consoles próprios e caros, como os Xbox One, Nintendo Switch e PlayStation 4 — este com versão básica em torno de R$ 1,7 mil.

Os serviços por demanda já existem, mas agora a tecnologia vai permitir que jogos melhores estejam disponíveis para quem tiver uma boa conexão, já que a “memória” e os gráficos de cada partida ficarão na rede. Outra vantagem será o acesso por meio de assinaturas ou compras específicas, sem necessidade de CDs ou downloads pesados. Na prática, serão como um Netflix, exigindo no máximo um acessório remoto ou acoplável.

AÇÃO GRÁFICA

Divulgado no domingo 9 e sem data de lançamento, o Orion é um acelerador, pois promete aumentar o desempenho em até 20% de qualquer jogo em streaming, não importando o dispositivo, sendo ideal para quem tem conexão mais lenta. Já o Stadia foi anunciado em 19 de março e deve chegar ao mercado em novembro. O xCloud surgiu no final de 2018, já teria 3,5 mil jogos em catálogo.

O Stadia vai transmitir imagens em tempo real com resolução de 4k e a 60 quadros por segundo, afirmou o chefe de engenharia do Google, Majd Bakar. Uma assinatura básica custará US$ 10 e poderá contar com títulos como “Doom Eternal”, “Assassin’s Creed Odissey” e a franquia “Tomb Raider”. Para atrair fãs, o xCloud terá uma versão gratuita para quem possuir o seu Xbox One. É quase certo que o catálogo terá “Forza Horizon 4”, “Halo 5” e “Gears of War 4”. Para Sandro Manfredini, diretor de negócios da desenvolvedora de games brasileira Aquiris, os jogos de console não vão acabar, pois ganharão gráficos ainda mais complexos.

GESTÃO E CARREIRA

O TOM DAS RELAÇÕES

A tolerância construtiva encontra algumas barreiras quando esbarramos em divergências de valores morais, em especial aqueles que afetam a ética da convivência

A tolerância construtiva é um movimento positivo em direção ao outro, apesar de pensamentos, opiniões e convicções diferentes das nossas. Essa habilidade parece ser urgente em tempos em que as divergências odiosas parecem estabelecer o tom das relações.

Talvez seja importante relembrar que valores morais são os conceitos, juízos e pensamentos que são considerados “certos” ou “errados” por determinada pessoa ou sociedade. Esses valores sofrem influência de diversos fatores, como cultura, tradição, cotidiano, religião e educação de determinada sociedade. Prezar os valores morais de um povo é uma das formas de garantir a convivência pacífica entre as pessoas, pois tais valores determinam como devem ser os comportamentos, funcionando como uma espécie de orientação sobre a forma de agir. Enfim, a existência de valores morais é importante para garantir a existência da ordem social.

Existe, em cada um de nós, uma escala de valores que nos coloca diante de uma gradação de atitudes perante a vida e perante os outros. Essa escala de atitudes nos põe diariamente frente a um conjunto de escolhas conscientes ou morais e nos conduz a uma escolha que é muito pessoal e precisa se tornar consciente a cada momento. Num nível básico dessa escala de valores, escolho se e como vou conviver com pessoas por exemplo, de times de futebol ou gostos culturais diferentes do meu. É um nível de divergência relativamente fácil de ser administrado no dia a dia das relações.

Num nível intermediário, escolho se vou e como vou conviver com pessoas que, por exemplo, professam outras religiões ou possuem diferentes convicções políticas. É um nível de divergência que exige de nós maior habilidade de tolerância construtiva. Nesse nível, precisamos tomar cuidado com a manutenção do diálogo produtivo, que facilmente descamba para a guerra de imposição de opiniões.

O nível maia alto e mais difícil envolve os valores morais que movem uma pessoa. Nesse nível, precisamos fazer mois uma distinção: o outro que discorda de mim apresenta apenas valores divergentes ou representa uma agressão à ética da convivência? Ética é um conjunto de valores morais e princípios que norteiam o comportamento das pessoas na sociedade. A ética visa o equilíbrio e o bom funcionamento social, possibilitando que ninguém seja prejudicado. Machismo, homofobia e racismo, por exemplo, são valores que ferem a ética das relações e, dessa forma, precisamos nos tornar defensores do convívio saudável e respeitoso. Nesse caso, não se trata de simples aceitação e respeito às diferenças, mas da manutenção da ética da convivência.

Essa manutenção exige de nós clareza e assertividade no que chamamos de nível de comunicação de discordância. Em se tratando de uma discordância em nível básico, a comunicação clara e respeitosa costuma ser suficiente para comunicar ao outro sua discordância. “Eu torço por tal time” ou “Não gosto de carnaval”, são comunicações

que ensejam o respeito às diferenças de opinião. Num contexto intermediário de divergência, a afirmação categórica da opinião e a ênfase usada cumprem esse papel e comunicam o quanto se está aberto ou não ao diálogo. “Sou umbandista”, ou “Minha ideologia é de esquerda” carregam em si partes importantes do outro que precisam de permissão para serem questionadas. Nesses casos, a simples afirmação das diferenças e o respeito a elas são enunciadores do quanto estamos dispostos a ser tolerantes.

A grande questão encontra-se nos níveis mais altos de divergência que ameaçam a ética da convivência. ”Não acho que negros devem ser líderes!” ou “As mulheres devem ser submissas aos seus maridos!”, são posicionamentos que carregam em si preconceito e desrespeito que ferem frontalmente a ética social e, como defensores desse status, precisamos comunicar nossa divergência de forma que fique claro o quanto tal postura nos atinge. Nesse momento, o nível de intimidade e importância que o outro tem em nossa vida estabelecerá o quanto estamos dispostos a tolerar tal divergência. Essa ênfase costuma ser proporcional ao nível de intimidade e importância do outro para nós, assim como a decisão de manter ou não a relação. Tendemos a ser mais breves e categóricos e menos empenhados em manter a relação com pessoas mais distantes e mais argumentativos e empenhados na manutenção da relação com pessoas mais importantes em nossa vida.

Nesse ponto, estabeleçamos alguns questionamentos que podem nortear nossas relações: Como conviver intimamente com alguém que fere minha ética de convivência? A continuidade da relação depende da mudança de opinião do outro/ Até que ponto é suficiente convencer o outro a pelo menos respeitar a ética da convivência (mesmo que não mude sua opinião)/ Enfim, o quanto balizo minhas relação pela identificação de valores e o quanto consigo conviver com as divergências de valores, uma vez respeitada a ética da convivência?

JÚLIO FURTADO – é professor palestrante e coach. É graduado em Psicopedagogia, especialista em Gestalt-terapia e dinâmica de grupo. É mestre e doutor em Educação. É facilitador de grupos de desenvolvimento humano e autor de diversos livros. www.juliofurtado.com.br

ALIMENTO DIÁRIO

QUALIFICADOS

CAPÍTULO 24 – TEMPERADO OU ENVENENADO?

“Carregar um rancor é como ser picado até a morte por uma só abelha.” — William H. Walton

PENSAMENTO-CHAVE: Viva livre da ofensa; deixe que os desafios do ministério possam torná-lo melhor, não mais amargo.

Você já percebeu quantas histórias diferentes e referências existem na Bíblia sobre o povo de Deus encontrando situações envolvendo algum tipo de envenenamento?

•  Êxodo 15 – Quando o povo de Deus encontrou as águas amargas de Mara, o Senhor mostrou a Moisés uma árvore. Quando ela foi lançada nas águas, elas se tornaram doces (a árvore prenunciava a cruz).

•  Números 21 – Serpentes no deserto que mordiam as pessoas. Deus direcionou Moisés a colocar uma serpente de bronze sobre uma haste, quem quer que olhasse para ela seria curado e viveria (veja João 3:14-15).

•  2 Reis 4 – Eliseu e os filhos dos profetas estavam comendo guisado quando gritaram: “Existe morte na panela!” Eliseu disse a eles coloquem farinha na panela, e “não havia nada nocivo na panela”.

•  Marcos 16 – Jesus disse que os Seus discípulos “pisariam em serpentes, e se eles bebessem alguma coisa mortal, não causaria dano algum”.

•  Atos 28 – Após o incidente do naufrágio, Paulo estava ajuntando gravetos para uma fogueira quando uma víbora “ficou presa em sua mão”. Os nativos esperaram Paulo morrer, mas ele sacudiu a serpente no fogo e não sofreu mal algum.

Uma das primeiras coisas que observamos é que Deus está consistentemente providenciando aos Seus servos um antídoto, protegendo-os do envenenamento, e até mesmo transformou amargura em doçura. Mas, eu tenho de perguntar, por que tantas histórias sobre amargura e envenenamento? Existem algumas lições adicionais, princípios e aplicações que podemos extrair dessas histórias?

Não quero espiritualizar em excesso essas histórias, mas estou ciente de que a vida é cheia dessas experiências que têm o potencial de nos amargar, enchendo-nos de ressentimento e nos deixando sentir a dor do arrependimento. Creio que Deus é tão interessado em sermos livres daquele tipo de envenenamento tanto quanto Ele protegeu o Seu povo nesses relatos bíblicos.

Provavelmente todos já ouvimos a frase: “A vida o tornará amargo ou o tornará melhor”. Creio que a forma como damos respostas a Deus irá determinar se acabaremos temperados ou envenenados. Se alguém teve o direito (naturalmente falando) de sentir pena de si mesmo, esse era Paulo. Ele fora fiel a Deus e ainda assim foi transportado para Roma como prisioneiro. Ele suportou a horrível e extensa tempestade no mar que resultou em um naufrágio, e teve de nadar para garantir sua sobrevivência. Estava frio e chovendo quando ele foi recolher gravetos para a fogueira, e então uma serpente o mordeu. Esse não era um bom mês para a carta de notícia do ministério de Paulo!

Nessa situação vivida por Paulo, amo o fato de que ele não apenas sacudiu a serpente da sua mão no fogo, mas que pouco depois disso, ele colocou as mãos sobre o pai de Públius e ministrou cura para ele, assim como a muitos outros naquela ilha (Atos 28:1-9). Então, em vez de ser envenenado, Paulo sacudiu a cobra e terminou usando a mesma mão, a mesma que o inimigo tentou injetar veneno, para trazer bênção a outros. Paulo era verdadeiramente temperado pela graça, não envenenado pela adversidade!

Quais são os potenciais venenos aos quais estamos expostos hoje?

•   Traição – alguém que você confiou e pensou que estava do seu lado se volta contra você.

•   Desapontamento – alguém não faz o que você esperava que fizesse e o deixa frustrado.

•   Promessas quebradas.

•   Rejeição.

•   Desrespeito.

•   Ingratidão – você busca ajudar ou servir a outra pessoa, mas suas ações não são apreciadas e são desconsideradas.

•   Alguém é insensível a você ou falha em reconhecer as suas necessidades básicas

•   Crítica.

•   Alguém mente ou faz fofoca a seu respeito.

•   Alguém o mina, trabalhando contra você em vez de trabalharem por você.

•   Suas convicções e valores são desconsiderados.

•   Pessoas posicionam demandas irracionais e expectativas em você, e diminuem você quando não consegue cumpri-las.

•   Falsas acusações. Você é culpado por coisas que não são culpa sua.

Todas essas coisas podem nos envenenar se nós permitirmos. Quando penso sobre como podemos reagir a tais mágoas trago à memória a história a seguir, bem conhecida, que provavelmente você já ouviu. (Não conheço o autor original.)

•   Sacuda e Suba

•   Certa vez, havia um fazendeiro que tinha uma velha mula. Um dia a mula caiu no poço do fazendeiro. O fazendeiro ouviu a mula zurrar, então ele correu para ver o que havia   acontecido. Depois de cuidadosamente avaliar a situação, ele decidiu que nem a mula nem o poço valiam a pena ser salvos. Ao contrário, ele ajuntou os seus vizinhos, contou a eles o que acontecera, e os pediu para ajudá-lo a carregar terra para enterrar a velha mula no poço e acabar com seu sofrimento.

•  No início, a velha mula ficou histérica! Contudo, enquanto o fazendeiro e seus vizinhos  jogavam as pás de terra e a terra tocava as costas da mula… um pensamento lhe ocorreu.  Repentinamente ela pensou que toda vez que a areia pousasse em suas costas ela poderia sacudi-la e subir sobre ela.

•  Então foi exatamente o que ela fez, pá após pá de areia. “Sacudir e subir, sacudir e subir, sacudir e subir”, ela repetiu para encorajar a si mesma.

•  Não demorou muito até que a velha mula ferida, suja e exausta pisasse para fora do poço.  O que parecia que iria enterrá-la, na verdade, a abençoou, pela maneira como ela lidou com a adversidade.

Como sabemos se somos temperados ou envenenados? Considere alguns dos seguintes contrastes:

O QUE PODEMOS FAZER?

•  Tome uma decisão. Tome a decisão de que você deixará a vida temperá-lo, não envenená-lo!  Alguém   disse: “Você cria as suas decisões, e as suas decisões criam você”.

•  Ande no poder do perdão. Dale Carnegie disse: “Quando odiamos os nossos inimigos damos a eles poder sobre nós, poder sobre o nosso sono, o nosso apetite e a nossa felicidade. Eles dançariam de alegria se soubessem quanto nos preocupamos por causa deles. Nosso ódio não os machuca nem um pouco, mas ele transforma os nossos dias e as noites em tumultos infernais”.

•  Viva livre da inveja e abrace uma vida de gratidão. A. W. Tozer disse: “Um coração grato não pode ser cínico”.

•  Monitore as suas expectativas. Elas são realistas? Muitas vezes, o senso de decepção que experimentamos é intensificado por nossas expectativas irrealistas. Por exemplo, se nós pensamos que tudo acontecerá sempre da nossa maneira e que todos irão nos tratar de forma agradável, estamos nos condicionando para a desilusão.

•  Veja a figura completa. Charles Noble disse: “Você precisa ter longo alcance para impedi-lo   de ficar frustrado com falhas de pequeno alcance”. Em vez de focar em situações imediatas, precisamos considerar a perspectiva de longo alcance, especialmente as ramificações eternas das nossas vidas. Martin Luther King Jr. disse:

“Precisamos aceitar decepções finitas, mas nunca podemos perder a esperança infinita”.

Creio que todos esses princípios são parte de terminar o nosso curso com alegria! Que Deus ajude cada um de nós a nos tornarmos seguidores de Jesus bem temperados.