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NIETZSCHE, O CRISTIANISMO E O “MIMIMI”

As tendências da doutrina cristã hoje se mostram representantes de um forte conservadorismo de cunho moralista, ligado à condenação de excluídos, e assim aproximam do discurso que denomina as lutas de minorias como ”mimimi”, como vitimismo. Ironicamente, tal prática aproxima o cristianismo das críticas feitas por Nietzsche ao próprio cristianismo, com sua moral ressentida, do que da mensagem solidária de Jesus

O Cristianismo se impôs na história da humanidade como uma religião que prega o amor incondicional dos seres humanos uns aos outros, buscando suscitar em seus fieis uma prática de solidariedade para gerar um novo mundo, sendo este nosso mundo uma antessala do paraíso eterno destinado àqueles que foram amados por Deus e buscaram viver retamente. Baseado na mensagem de Jesus de Nazaré, que segundo a crença cristã é o Messias, o Ungido de Deus, Salvador prometido desde o Antigo Testamento para mostrar a essência da mensagem do Deus de Israel e leva-la a todos os homens, o Cristianismo traz uma mensagem inovadora para seu tempo, pois o amor, traduzido na prática pela solidariedade dos cristãos para todos os homens, é colocado como essência da pregação cristã. A própria definição dada por Jesus de que “Deus é amor” é uma demonstração de como a mensagem cristã é acima de tudo uma mensagem de pacificação e de união dos homens, levando-os a se irmanarem em todo o mundo e buscarem construir vínculos profundos e sinceros de solidariedade.

Da pregação do Jesus histórico até os tempos atuais, quase 2000 anos se passaram. A mensagem cristã passou por diversas transformações, principalmente devido ao fato de ter ultrapassado seu contexto histórico e local. Se Jesus foi um judeu da Palestina do século I, sua mensagem não ficou restrita ao seu contexto cultural, mas foi levada a diversas regiões do mundo, passando por um processo chamado de inculturação. Assim, ao entrar na Europa, a mensagem cristã originaria, mais próxima ao judaísmo, fundiu-se com a tradição filosófica grega, bebendo muito principalmente do platonismo e do estoicismo. Além dessas influências alheias à cultura original da mensagem cristã, houve uma mudança no status político do cristianismo. De religião perseguida e marginalizada, o cristianismo passou a ser religião oficial e dominante.

Por mais de três séculos, o cristianismo foi perseguido por trazer uma pregação ameaçadora à propaganda oficial do Império Romano, a do imperador como um deus. Sendo os cristãos monoteístas, recusavam-se a adorar o imperador, pois para os mesmos só existe um senhor, Jesus, o Cristo. O cristianismo nasce com um discurso de oposição à propaganda imperial romana, e por isso a perseguição foi tão cruel por tantos séculos, sendo que muitos tombaram nas arenas dos circos romanos, entre outras punições da época. Porém, com os imperadores Constantino e Teodósio, o cristianismo ganhou o status de religião oficial, e com a queda do Império Romano, a Igreja cristã tornou-se o único fator que deu unidade política à Europa. Tinha início a cristandade, na qual poder político e religioso confluíam em uma única instituição, a Igreja Católica, e com isso, a mensagem de amor incondicional de Cristo aos poucos foi se tornando cada vez mais em um corpo doutrinário extremamente rígido, e mais do que isso, marcado pela proibição e condenação de condutas consideradas erradas, contrárias ao Evangelho, e muitas vezes se defendendo a morte daqueles que eram vistos como hereges, pecadores.

O presente artigo busca, a partir de uma retomada da filosofia nietzschiana e de forma especial sua crítica ao cristianismo como uma religião de ressentidos, mostrar como a mensagem cristã em tempos de conservadorismo acaba por se distanciar da solidariedade e por se aproximar das críticas feitas por Nietzsche. Não raro vê-se hoje instituições religiosas colocando maior peso na tradição mora­ lista do cristianismo do que na mensagem solidária. Desta forma, a religião cristã torna-se mais um ele­ mento de condenação e de justificação dos diversos preconceitos e discriminações existentes na sociedade contemporânea. Sendo o Brasil um país ainda marcadamente cristão, tanto pela força da Igreja Católica em sua história como pela crescente força do neopentecostalismo, a mensagem pregada pelo cristianismo reverbera com força na mentalidade do povo brasileiro. O grande problema encontra-se na força das tendências mais conservadoras e moralistas, que não pregam uma mensagem de amor e misericórdia, mensagem esta que poderia ser traduzida em uma sociedade mais inclusiva e solidária, o que se vê é um cristianismo que acirra as diferenças, que julga e condena práticas e ações vistas como pecado ou contrárias ao evangelho. Há um cristianismo que justifica o conservadorismo e o obscurantismo brasileiro. E ironicamente um cristianismo que se aproxima muito do que dizia um de seus maiores críticos, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

NIETZSCHE, MORAL DOS ESCRAVOS E MORAL DOS SENHORES

Friedrich Nietzsche (1844 – 1900) é um filósofo marcante na história da humanidade, principalmente por se propor a filosofar “com o martelo”. Sua grande obsessão é destruir as bases intelectuais da civilização ocidental. Estando o pensador na segunda metade do século XIX, é importante ressaltar que este período é marcado pelo surgimento de questionamentos profundos dos rumos que a humanidade vinha tomando. Há uma longa tradição vinda desde o século XVII, de forma especial a partir de Descartes, que supervalorizava a capacidade racional do ser humano. Descartes com seu cogito colocou a razão como a essência maior da humanidade, e tudo o que se opunha a ela na constituição humana devia ser minimizado o quanto possível pois só a razão poderia levar o homem ao seu melhor em todos os sentidos. Tal ideia ecoa nos iluministas no século XVIII, sendo potencializada por estes, e se assenta na formação da sociedade secular nascida das revoluções burguesas do fim do século XVIII e começo do XIX. Desta forma, a sociedade que surge na segunda metade do século XIX na Europa é uma sociedade marcadamente raciona­ lista bem como cientificista. O desenvolvimento da ciência e as benesses que a mesma traz à humanidade trazem um grande otimismo em relação ao futuro da humanidade. É a chamada belle époque.

Nietzsche representa a chamada desconstrução, um dos primeiros pensadores a buscar opor o instinto, a vontade, a hybris, a essa extrema racionalização valorizada pela tradição europeia. Desta forma, ele simboliza essa tensão que existe no homem entre razão e instinto animal nas figuras mitológicas de Apollo e Dionísio. Enquanto a tradição europeia vigente de sua época supervalorizava o apolíneo, o equilíbrio, o racional, aquilo que representa a beleza e a harmonia, o dionisíaco, que também faz parte do ser humano, é deixado de lado e não só desvalorizado, mas abafado. E isso se deve a dois principais fatores da história ocidental: a tradição socrática e o cristianismo.

Com a mensagem de Sócrates, a cultura grega passa a valorizar mais a razão do que o instinto. Assim, a virtude grega, a areté, a partir do pensamento socrático, passa a ser vista o comportamento ético, que visa fazer o bem, já trazendo consigo a base da regra de ouro (“aquilo que não quero para mim não devo fazer ao outro”). A virtude socrática se opõe à noção de virtude homérica, por exemplo, da qual Aquiles, o grande herói da Ilíada é símbolo. O herói dionisíaco, a virtude dionisíaca, em outras palavras é a virtude dos vencedores, do guerreiro forte que vence e se impõe pela força de sua vitória, o conquistador. O que a tradição socrática fez foi anular esse potencial humano, pois desvalorizou a força e passou a valorizar a razão. Em um período de racionalidade extremada, como o século XIX, a visão do homem como ser racional e a virtude como a plena vivência da razão são pontos fortemente criticados por Nietzsche, pois impedem os homens de serem mais, de chegarem ao Übermensch.

O conceito de Übermensch, próprio da filosofia nietzschiana, é um dos conceitos mais difíceis de ser definido, ainda mais porque o filósofo escreve por meio de aforismos. Porém, tendo em mente seu pensamento, podemos traçar algumas linhas para o compreender. Nietzsche é contra todo o moralismo imposto pela tradição ocidental, não por simplesmente defender o hedonismo e uma vida sem regras. O problema maior para Nietzsche encontra-se no que ele chama de moral de rebanho, e aqui passamos a falar mais claramente de sua crítica ao cristianismo e ao judaísmo. O filósofo faz grande parte de suas críticas à tradição judaico-cristã em sua obra A Genealogia da Moral. Nesta obra, ele se propõe a mostrar como o povo hebreu, um povo constantemente dominado pelas potências estrangeiras da Antiguidade, criou um discurso que perverteu a realidade. Os vencedores tornaram-se os vencidos e os vencidos os vencedores a partir da pregação de um julgamento além-mundo material. Assim, aqueles que venceram o povo hebreu, que os dominaram e escravizaram, serão julgados e punidos por Deus, afinal, trata-se do povo escolhido por Deus para a salvação da humanidade. Da mesma forma, o povo hebreu, escolhido por Deus, será recompensado em uma realidade futura. A ira de Deus se volta contra os dominantes e recompensa os dominados. Este discurso do judaísmo, que será não só herdado, mas aprofundado pelo cristianismo, cria a moral do ressentimento de acordo com Nietzsche, na qual aqueles que não foram capazes de vencer por sua própria força, mas também não foram capazes de aceitar sua derrota, colocam toda sua esperança na salvação metafísica. Mais importante que isso, o efeito dessa inversão feita pelo discurso judaico-cristão é colocar o sentimento de culpa naqueles que foram dignos de vitória. Para Nietzsche, tal discurso é marcado por forte covardia, pois os derrotados, os incapazes entre os povos, fazem os vencedores se sentirem culpados, vistos como os vilões, os que atentam contra tudo o que é certo, pois atentam contra a solidariedade e contra o amor ao próximo, na sua sanha de conquistar, escravizar, dominar, sempre pensando no aumento de seu poder. Os poderosos da Terra, em sua ganância, são culpados por serem vitoriosos, sendo que o natural seria eles serem saudados, elogiados, por sua capacidade vencedora.

A ideia de ressentimento é uma das marcas da filosofia nietzschiana, a grande crítica do filósofo à tradição ocidental, tanto no racionalismo socrático quanto na ética judaico-cristã. A ideia de virtude, tanto a areté grega quanto a virtude cristã que nesse ponto se encontram, é toda baseada no ressentimento, pois ser virtuoso é ser caridoso, solidário, buscar ajudar os mais fracos. Para Nietzsche, a moral dos senhores, a moral dos vencedores, aquela que se aproxima da virtude de Aquiles, tornou-se pecado na história da humanidade, tornou-se vício, enquanto a moral dos escravos, a moral dos derrotados, foi valorizada. Porém, tal moral não passa de ressentimento.

A moral dos escravos se impõe como moral de rebanho, pois faz todos seguirem sem questionar, com medo de uma punição na vida após a morte. Dessa forma, a vida atual se torna já uma espécie de morte, pois os instintos mais naturais do ser humano, o lado dionisíaco, o desejo de vitória e de reconhecimento, de se impor pela força e pela conquista, são condena­ dos, tornam-se pecado, pois a tradição cristã, ou melhor dizendo, socrático-cristã, não aceita que alguém queira viver sem se importar com os valores de solidariedade e amor ao próximo. Nietzsche faz ferrenhas críticas ao apóstolo Paulo, que por diversas vezes em suas cartas reforça a ideia da inversão de que aqueles que o mundo tornou sábios, Deus os vê como loucos, ao mesmo tempo que escolhe os iletrados para confundir os sábios, os fracos para confundir os fortes. Esta é a verdadeira inversão promovida pelo cristianismo, pela tradição ocidental, impondo uma solidariedade que não surge da vontade interna dos homens, mas sim de um sentimento de culpa, pelo medo da condenação eterna.

Para ajudar a esclarecer o que o filósofo tem em mente ao propor a ideia do Übermensch, a parábola dos três animais apresentada em Assim Falava Zaratustra tem relevância aqui. O profeta fictício da obra nos fala em três animais, o camelo, o leão e a criança. O camelo representa a servidão, aqueles que seguem as leis e regras da moralidade, da sociedade, sem questionar, com o peso da corcova a se impor e ser carregado o tempo todo; o leão é a ferocidade de quem se propõe a reagir contra essas regras e leis, não as aceitando, dizendo o “santo não” como o filósofo aponta, porém, ainda em uma postura reativa, simplesmente rejeitando o que é imposto; a criança é o Übermensch propriamente dito, aquele que admite por si mesmo quais serão seus valores, os cria com leveza e espontaneidade, sem necessidade de dizer não a algo, mas que age de acordo com suas convicções. Em outras palavras, para Nietzsche o cristianismo e qualquer outro corpo doutrinário que impõe ao homem o que ele deve fazer deve ser rechaçado, pois tira dele a liberdade para poder definir o que realmente seguir. A moral é uma arma covarde daqueles que não aceitam perder, buscando impor o certo e o erra­ do a todos, impondo a culpa naqueles que desprezam a solidariedade.

Vale ressaltar que Nietzsche não é propriamente um pensador que defende o egoísmo como representação da natureza humana ou que naturaliza os conflitos humanos como se fossem fruto de uma natureza desregrada, sendo assim as regras morais uma deturpação do natural humano. Na verdade Nietzsche prega um equilíbrio entre o apolíneo e o dionisíaco. Porém, é fato que ele vê com desconfiança a solidariedade, vendo nessa fortes indícios de que o ressentimento age na mentalidade, representa a moral de rebanho imposta. Nietzsche não deixa aqui de representar os valores da aristocracia, tendo características reacionárias em seu pensamento, pois ataca tanto a burguesia, ainda uma classe revolucionária no seu choque com o Antigo Regime, assim como ataca o marxismo. Não à toa são diversas as aproximações entre o pensamento de Nietzsche, não raro com equívoco, ao pensamento nazista. Assim, a noção de ressentimento aproxima-se com o que hoje é tão comumente chamado de “mimimi”.

O CRISTIANISMO REACIONÁRIO DO BRASIL

É fato que o pensamento cristão molda em grande parte a mentalidade brasileira. Sendo o Brasil marcado pela forte presença da Igreja Católica em sua história, e mais recentemente pelo fortalecimento de movimentos neopentecostais, a matriz religiosa brasileira é cristã, apesar do forte sincretismo existente no país. Porém, em tempos que se vê uma bancada evangélica cada vez mais ativa contra os direitos humanos de minorias, de forma especial dos homossexuais pois há uma tensão entre a doutrina bíblica e o relacionamento homoafetivo, bem como o endosso dado pelas diversas tradições cristãs à desvalorização que os setores mais conservadores fazem das lutas de minorias, pejorativamente chamando tais lutas de “mimimi”, só demonstra como a prática dos cristãos atuais tornou-se mais próxima de Nietzsche do que de Cristo. O “mimimi” atual é o ressentimento acusado por Nietzsche no século XIX, ou seja, os que são desvalidos e abandonados pela sociedade, ao lutarem por mais direitos, visando conquistas e melhorias que por séculos não tiveram, tais lutas não são combatidas, mas simplesmente desvalorizadas, como se esses grupos se vitimizassem à toa, pois afinal não querem travar a luta sadia, aquela de quem se esforça e que sempre terá seu lugar ao sol, independente se negro ou branco, homem ou mulher, homo ou heterossexual, entre tantas divisões. Nega-se que há uma estrutura divisora, que privilegia alguns e exclui a outros, e defende-se o discurso de que os grupos desprivilegiados ao lutarem simplesmente querem as coisas “de mão-beijada”, numa luta de quem se vitimiza sem motivos, pois oportunidades existem para todos.

O que se torna mais triste, há de se concluir aqui, é que o cristianismo, uma religião que em um passado distante foi marginalizada e perseguida, que nasce da pregação de amor incondicional e com forte caráter subversivo, pois tem seu fundador um condenado político (a morte de cruz era destinada aos piores criminosos segundo a autoridade romana, servindo de tortura inclusive e mostrando aos outros o que não se poderia fazer), alguém que morreu por pregar uma outra forma de encarar o próximo. Não farei aqui de Jesus um revolucionário, porém, é fato que sua mensagem de amor incomodou as autoridades romanas. Talvez falte às instituições cristãs brasileiras buscar retomar a ideia de um cristianismo inclusivo e solidário, menos moralista e de sinal de condenação. Pensando na realidade brasileira, um país extremamente desigual e cheio de mazelas históricas relacionadas à exclusão de certos grupos, a mensagem cristã reforçar o discurso excludente não deixa de ser assustador, não só por trair os ideais que estão em sua gênese, mas por virar as costas para aqueles que mais se voltam a eles, os mais pobres. Construímos assim um cristianismo nietzschiano, que trata os “perdedores” como ressentidos em sua luta por um mundo mais justo para eles. Em outras palavras, na essência, temos muito pouco de Jesus Cristo no cristianismo que mostra suas garras em tempos obscuros que vivemos. Não à toa, cada vez mais os grupos excluídos rechaçam o cristianismo, pois não se reconhecem em uma religião que não está ao seu lado, e identificando nele mais um elemento reacionário em nossa sociedade. Uma forte rejeição surge à Estamos longe de construir uma real sociedade solidária no Brasil. O momento atual mostra como acesso a direitos cada vez mais se mostra distante de grande parte da população, e a exploração das classes abastadas aos pobres e excluídos avança, a mensagem cristã uma vez que talvez o que esta tem de melhor, o apelo à solidariedade, é praticamente deixado de lado.

O cristianismo, por toda sua doutrina, poderia ser um elemento para o aprofundamento da consciência solidária e da necessidade de revisão das estruturas sociais do país. Porém, tem adotado uma postura intimista e alienante. Embora não possamos falar em cristianismo, sendo mais correto falar em cristianismos, o que predomina, ou pelo menos o que dá as caras, é esse cristianismo excludente. E infelizmente, como já dito, um cristianismo mais próximo de Nietzsche do que da mensagem tão revolucionária por sua simplicidade revolucionária pregada por Jesus de Nazaré.

RODRIGO DOS SANTOS MANZANO – é professor de filosofia da rede pública do estado de São Paulo, graduado em filosofia pela UNIFAI e especialista em filosofia contemporânea e história pela Universidade Metodista.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.