A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ALCOOLISMO – DE QUEM É O PODER DE DECISÃO?

Estudo mostra que área do cérebro responsável por decidir apresenta menor atividade antes de começar a beber. Resultado aponta uma nova abordagem para o tratamento de transtornos por uso de álcool

Quem tem histórico familiar de abuso de álcool apresenta um menor poder de decisão antes de consumir bebidas alcoólicas. Este foi o resultado do estudo feito por pesquisadores da Society for Neuroscience (Sociedade para Neurociência) e publicado na eNeuro, revista científica da instituição.

No trabalho foi observado que o córtex pré-frontal — região do cérebro responsável pela tomada de decisão — daqueles que tinham histórico familiar de consumo excessivo de álcool era menos ativo — portanto dava menos oportunidade de negar bebidas — do que naqueles que não possuíam o histórico.

Os pesquisadores compararam a atividade do córtex pré-frontal antes e durante o consumo de bebidas em dois tipos de ratos. Um modelou um histórico familiar de abuso de álcool, enquanto o outro não apresentava este registro. A região cerebral era ativa durante o consumo de bebidas alcoólicas em ambos os tipos de ratos, mas a atividade pré-consumo só foi vista naqueles que não tinham história familiar de consumo compulsivo. 

“Uma pessoa criada em um ambiente de consumo de álcool abusivo tem maior propensão a desenvolver ansiedade, depressão e vícios. O material genético passado pelos pais apresentam alguns defeitos que impossibilitam que os filhos criem resistência ao álcool. Eles ficam sem limites para o consumo”, explica o psiquiatra Jorge Jaber, especialista em dependência de drogas. 

Esses achados sugerem que o córtex pré-frontal codifica diretamente a intenção de consumir álcool. Mas este processo acontece de maneira menos eficiente naqueles com maior risco de abuso alcoólico. Restaurar a atividade do córtex pré-frontal em indivíduos com predisposição ao excesso de bebida pode ser uma nova abordagem para o tratamento de transtornos por uso de álcool.

“É importante ressaltar que esses dados destacam ainda mais a necessidade de considerar o risco herdado ou genético ao desenvolver estratégias de tratamento para o consumo de álcool excessivo”, afirma David N. Linsenbardt, do departamento de psicologia da Universidade de Indiana e do Centro de Pesquisas de Álcool de Indiana.

LIVRE-SE DO VÍCIO

ALCOÓLICOS ANÔNIMOS (AA)

Este é um grupo de ajuda mutua entre pessoas que são viciadas em bebidas. É possível encontrar grupos pelo site da organização:www.aa.org.br

AJUDA PSIQUIÁTRICA

A especialidade médica que trata de vícios é a psiquiatria. Procure por um especialista para dar início ao tratamento

AUXÍLIO PSICOLÓGICO

A terapia com um psicólogo pode ajudar a entender os motivos que levam você a beber e como controlar estes impulsos. Este é um tratamento complementar ao psiquiatra

BUSQUE PELA ESPIRITUALIDADE

Conectar-se a sua espiritualidade ajuda a se libertar de vícios por estabelecer um novo propósito de vida  

OUTROS OLHARES

NIETZSCHE, O CRISTIANISMO E O “MIMIMI”

As tendências da doutrina cristã hoje se mostram representantes de um forte conservadorismo de cunho moralista, ligado à condenação de excluídos, e assim aproximam do discurso que denomina as lutas de minorias como ”mimimi”, como vitimismo. Ironicamente, tal prática aproxima o cristianismo das críticas feitas por Nietzsche ao próprio cristianismo, com sua moral ressentida, do que da mensagem solidária de Jesus

O Cristianismo se impôs na história da humanidade como uma religião que prega o amor incondicional dos seres humanos uns aos outros, buscando suscitar em seus fieis uma prática de solidariedade para gerar um novo mundo, sendo este nosso mundo uma antessala do paraíso eterno destinado àqueles que foram amados por Deus e buscaram viver retamente. Baseado na mensagem de Jesus de Nazaré, que segundo a crença cristã é o Messias, o Ungido de Deus, Salvador prometido desde o Antigo Testamento para mostrar a essência da mensagem do Deus de Israel e leva-la a todos os homens, o Cristianismo traz uma mensagem inovadora para seu tempo, pois o amor, traduzido na prática pela solidariedade dos cristãos para todos os homens, é colocado como essência da pregação cristã. A própria definição dada por Jesus de que “Deus é amor” é uma demonstração de como a mensagem cristã é acima de tudo uma mensagem de pacificação e de união dos homens, levando-os a se irmanarem em todo o mundo e buscarem construir vínculos profundos e sinceros de solidariedade.

Da pregação do Jesus histórico até os tempos atuais, quase 2000 anos se passaram. A mensagem cristã passou por diversas transformações, principalmente devido ao fato de ter ultrapassado seu contexto histórico e local. Se Jesus foi um judeu da Palestina do século I, sua mensagem não ficou restrita ao seu contexto cultural, mas foi levada a diversas regiões do mundo, passando por um processo chamado de inculturação. Assim, ao entrar na Europa, a mensagem cristã originaria, mais próxima ao judaísmo, fundiu-se com a tradição filosófica grega, bebendo muito principalmente do platonismo e do estoicismo. Além dessas influências alheias à cultura original da mensagem cristã, houve uma mudança no status político do cristianismo. De religião perseguida e marginalizada, o cristianismo passou a ser religião oficial e dominante.

Por mais de três séculos, o cristianismo foi perseguido por trazer uma pregação ameaçadora à propaganda oficial do Império Romano, a do imperador como um deus. Sendo os cristãos monoteístas, recusavam-se a adorar o imperador, pois para os mesmos só existe um senhor, Jesus, o Cristo. O cristianismo nasce com um discurso de oposição à propaganda imperial romana, e por isso a perseguição foi tão cruel por tantos séculos, sendo que muitos tombaram nas arenas dos circos romanos, entre outras punições da época. Porém, com os imperadores Constantino e Teodósio, o cristianismo ganhou o status de religião oficial, e com a queda do Império Romano, a Igreja cristã tornou-se o único fator que deu unidade política à Europa. Tinha início a cristandade, na qual poder político e religioso confluíam em uma única instituição, a Igreja Católica, e com isso, a mensagem de amor incondicional de Cristo aos poucos foi se tornando cada vez mais em um corpo doutrinário extremamente rígido, e mais do que isso, marcado pela proibição e condenação de condutas consideradas erradas, contrárias ao Evangelho, e muitas vezes se defendendo a morte daqueles que eram vistos como hereges, pecadores.

O presente artigo busca, a partir de uma retomada da filosofia nietzschiana e de forma especial sua crítica ao cristianismo como uma religião de ressentidos, mostrar como a mensagem cristã em tempos de conservadorismo acaba por se distanciar da solidariedade e por se aproximar das críticas feitas por Nietzsche. Não raro vê-se hoje instituições religiosas colocando maior peso na tradição mora­ lista do cristianismo do que na mensagem solidária. Desta forma, a religião cristã torna-se mais um ele­ mento de condenação e de justificação dos diversos preconceitos e discriminações existentes na sociedade contemporânea. Sendo o Brasil um país ainda marcadamente cristão, tanto pela força da Igreja Católica em sua história como pela crescente força do neopentecostalismo, a mensagem pregada pelo cristianismo reverbera com força na mentalidade do povo brasileiro. O grande problema encontra-se na força das tendências mais conservadoras e moralistas, que não pregam uma mensagem de amor e misericórdia, mensagem esta que poderia ser traduzida em uma sociedade mais inclusiva e solidária, o que se vê é um cristianismo que acirra as diferenças, que julga e condena práticas e ações vistas como pecado ou contrárias ao evangelho. Há um cristianismo que justifica o conservadorismo e o obscurantismo brasileiro. E ironicamente um cristianismo que se aproxima muito do que dizia um de seus maiores críticos, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

NIETZSCHE, MORAL DOS ESCRAVOS E MORAL DOS SENHORES

Friedrich Nietzsche (1844 – 1900) é um filósofo marcante na história da humanidade, principalmente por se propor a filosofar “com o martelo”. Sua grande obsessão é destruir as bases intelectuais da civilização ocidental. Estando o pensador na segunda metade do século XIX, é importante ressaltar que este período é marcado pelo surgimento de questionamentos profundos dos rumos que a humanidade vinha tomando. Há uma longa tradição vinda desde o século XVII, de forma especial a partir de Descartes, que supervalorizava a capacidade racional do ser humano. Descartes com seu cogito colocou a razão como a essência maior da humanidade, e tudo o que se opunha a ela na constituição humana devia ser minimizado o quanto possível pois só a razão poderia levar o homem ao seu melhor em todos os sentidos. Tal ideia ecoa nos iluministas no século XVIII, sendo potencializada por estes, e se assenta na formação da sociedade secular nascida das revoluções burguesas do fim do século XVIII e começo do XIX. Desta forma, a sociedade que surge na segunda metade do século XIX na Europa é uma sociedade marcadamente raciona­ lista bem como cientificista. O desenvolvimento da ciência e as benesses que a mesma traz à humanidade trazem um grande otimismo em relação ao futuro da humanidade. É a chamada belle époque.

Nietzsche representa a chamada desconstrução, um dos primeiros pensadores a buscar opor o instinto, a vontade, a hybris, a essa extrema racionalização valorizada pela tradição europeia. Desta forma, ele simboliza essa tensão que existe no homem entre razão e instinto animal nas figuras mitológicas de Apollo e Dionísio. Enquanto a tradição europeia vigente de sua época supervalorizava o apolíneo, o equilíbrio, o racional, aquilo que representa a beleza e a harmonia, o dionisíaco, que também faz parte do ser humano, é deixado de lado e não só desvalorizado, mas abafado. E isso se deve a dois principais fatores da história ocidental: a tradição socrática e o cristianismo.

Com a mensagem de Sócrates, a cultura grega passa a valorizar mais a razão do que o instinto. Assim, a virtude grega, a areté, a partir do pensamento socrático, passa a ser vista o comportamento ético, que visa fazer o bem, já trazendo consigo a base da regra de ouro (“aquilo que não quero para mim não devo fazer ao outro”). A virtude socrática se opõe à noção de virtude homérica, por exemplo, da qual Aquiles, o grande herói da Ilíada é símbolo. O herói dionisíaco, a virtude dionisíaca, em outras palavras é a virtude dos vencedores, do guerreiro forte que vence e se impõe pela força de sua vitória, o conquistador. O que a tradição socrática fez foi anular esse potencial humano, pois desvalorizou a força e passou a valorizar a razão. Em um período de racionalidade extremada, como o século XIX, a visão do homem como ser racional e a virtude como a plena vivência da razão são pontos fortemente criticados por Nietzsche, pois impedem os homens de serem mais, de chegarem ao Übermensch.

O conceito de Übermensch, próprio da filosofia nietzschiana, é um dos conceitos mais difíceis de ser definido, ainda mais porque o filósofo escreve por meio de aforismos. Porém, tendo em mente seu pensamento, podemos traçar algumas linhas para o compreender. Nietzsche é contra todo o moralismo imposto pela tradição ocidental, não por simplesmente defender o hedonismo e uma vida sem regras. O problema maior para Nietzsche encontra-se no que ele chama de moral de rebanho, e aqui passamos a falar mais claramente de sua crítica ao cristianismo e ao judaísmo. O filósofo faz grande parte de suas críticas à tradição judaico-cristã em sua obra A Genealogia da Moral. Nesta obra, ele se propõe a mostrar como o povo hebreu, um povo constantemente dominado pelas potências estrangeiras da Antiguidade, criou um discurso que perverteu a realidade. Os vencedores tornaram-se os vencidos e os vencidos os vencedores a partir da pregação de um julgamento além-mundo material. Assim, aqueles que venceram o povo hebreu, que os dominaram e escravizaram, serão julgados e punidos por Deus, afinal, trata-se do povo escolhido por Deus para a salvação da humanidade. Da mesma forma, o povo hebreu, escolhido por Deus, será recompensado em uma realidade futura. A ira de Deus se volta contra os dominantes e recompensa os dominados. Este discurso do judaísmo, que será não só herdado, mas aprofundado pelo cristianismo, cria a moral do ressentimento de acordo com Nietzsche, na qual aqueles que não foram capazes de vencer por sua própria força, mas também não foram capazes de aceitar sua derrota, colocam toda sua esperança na salvação metafísica. Mais importante que isso, o efeito dessa inversão feita pelo discurso judaico-cristão é colocar o sentimento de culpa naqueles que foram dignos de vitória. Para Nietzsche, tal discurso é marcado por forte covardia, pois os derrotados, os incapazes entre os povos, fazem os vencedores se sentirem culpados, vistos como os vilões, os que atentam contra tudo o que é certo, pois atentam contra a solidariedade e contra o amor ao próximo, na sua sanha de conquistar, escravizar, dominar, sempre pensando no aumento de seu poder. Os poderosos da Terra, em sua ganância, são culpados por serem vitoriosos, sendo que o natural seria eles serem saudados, elogiados, por sua capacidade vencedora.

A ideia de ressentimento é uma das marcas da filosofia nietzschiana, a grande crítica do filósofo à tradição ocidental, tanto no racionalismo socrático quanto na ética judaico-cristã. A ideia de virtude, tanto a areté grega quanto a virtude cristã que nesse ponto se encontram, é toda baseada no ressentimento, pois ser virtuoso é ser caridoso, solidário, buscar ajudar os mais fracos. Para Nietzsche, a moral dos senhores, a moral dos vencedores, aquela que se aproxima da virtude de Aquiles, tornou-se pecado na história da humanidade, tornou-se vício, enquanto a moral dos escravos, a moral dos derrotados, foi valorizada. Porém, tal moral não passa de ressentimento.

A moral dos escravos se impõe como moral de rebanho, pois faz todos seguirem sem questionar, com medo de uma punição na vida após a morte. Dessa forma, a vida atual se torna já uma espécie de morte, pois os instintos mais naturais do ser humano, o lado dionisíaco, o desejo de vitória e de reconhecimento, de se impor pela força e pela conquista, são condena­ dos, tornam-se pecado, pois a tradição cristã, ou melhor dizendo, socrático-cristã, não aceita que alguém queira viver sem se importar com os valores de solidariedade e amor ao próximo. Nietzsche faz ferrenhas críticas ao apóstolo Paulo, que por diversas vezes em suas cartas reforça a ideia da inversão de que aqueles que o mundo tornou sábios, Deus os vê como loucos, ao mesmo tempo que escolhe os iletrados para confundir os sábios, os fracos para confundir os fortes. Esta é a verdadeira inversão promovida pelo cristianismo, pela tradição ocidental, impondo uma solidariedade que não surge da vontade interna dos homens, mas sim de um sentimento de culpa, pelo medo da condenação eterna.

Para ajudar a esclarecer o que o filósofo tem em mente ao propor a ideia do Übermensch, a parábola dos três animais apresentada em Assim Falava Zaratustra tem relevância aqui. O profeta fictício da obra nos fala em três animais, o camelo, o leão e a criança. O camelo representa a servidão, aqueles que seguem as leis e regras da moralidade, da sociedade, sem questionar, com o peso da corcova a se impor e ser carregado o tempo todo; o leão é a ferocidade de quem se propõe a reagir contra essas regras e leis, não as aceitando, dizendo o “santo não” como o filósofo aponta, porém, ainda em uma postura reativa, simplesmente rejeitando o que é imposto; a criança é o Übermensch propriamente dito, aquele que admite por si mesmo quais serão seus valores, os cria com leveza e espontaneidade, sem necessidade de dizer não a algo, mas que age de acordo com suas convicções. Em outras palavras, para Nietzsche o cristianismo e qualquer outro corpo doutrinário que impõe ao homem o que ele deve fazer deve ser rechaçado, pois tira dele a liberdade para poder definir o que realmente seguir. A moral é uma arma covarde daqueles que não aceitam perder, buscando impor o certo e o erra­ do a todos, impondo a culpa naqueles que desprezam a solidariedade.

Vale ressaltar que Nietzsche não é propriamente um pensador que defende o egoísmo como representação da natureza humana ou que naturaliza os conflitos humanos como se fossem fruto de uma natureza desregrada, sendo assim as regras morais uma deturpação do natural humano. Na verdade Nietzsche prega um equilíbrio entre o apolíneo e o dionisíaco. Porém, é fato que ele vê com desconfiança a solidariedade, vendo nessa fortes indícios de que o ressentimento age na mentalidade, representa a moral de rebanho imposta. Nietzsche não deixa aqui de representar os valores da aristocracia, tendo características reacionárias em seu pensamento, pois ataca tanto a burguesia, ainda uma classe revolucionária no seu choque com o Antigo Regime, assim como ataca o marxismo. Não à toa são diversas as aproximações entre o pensamento de Nietzsche, não raro com equívoco, ao pensamento nazista. Assim, a noção de ressentimento aproxima-se com o que hoje é tão comumente chamado de “mimimi”.

O CRISTIANISMO REACIONÁRIO DO BRASIL

É fato que o pensamento cristão molda em grande parte a mentalidade brasileira. Sendo o Brasil marcado pela forte presença da Igreja Católica em sua história, e mais recentemente pelo fortalecimento de movimentos neopentecostais, a matriz religiosa brasileira é cristã, apesar do forte sincretismo existente no país. Porém, em tempos que se vê uma bancada evangélica cada vez mais ativa contra os direitos humanos de minorias, de forma especial dos homossexuais pois há uma tensão entre a doutrina bíblica e o relacionamento homoafetivo, bem como o endosso dado pelas diversas tradições cristãs à desvalorização que os setores mais conservadores fazem das lutas de minorias, pejorativamente chamando tais lutas de “mimimi”, só demonstra como a prática dos cristãos atuais tornou-se mais próxima de Nietzsche do que de Cristo. O “mimimi” atual é o ressentimento acusado por Nietzsche no século XIX, ou seja, os que são desvalidos e abandonados pela sociedade, ao lutarem por mais direitos, visando conquistas e melhorias que por séculos não tiveram, tais lutas não são combatidas, mas simplesmente desvalorizadas, como se esses grupos se vitimizassem à toa, pois afinal não querem travar a luta sadia, aquela de quem se esforça e que sempre terá seu lugar ao sol, independente se negro ou branco, homem ou mulher, homo ou heterossexual, entre tantas divisões. Nega-se que há uma estrutura divisora, que privilegia alguns e exclui a outros, e defende-se o discurso de que os grupos desprivilegiados ao lutarem simplesmente querem as coisas “de mão-beijada”, numa luta de quem se vitimiza sem motivos, pois oportunidades existem para todos.

O que se torna mais triste, há de se concluir aqui, é que o cristianismo, uma religião que em um passado distante foi marginalizada e perseguida, que nasce da pregação de amor incondicional e com forte caráter subversivo, pois tem seu fundador um condenado político (a morte de cruz era destinada aos piores criminosos segundo a autoridade romana, servindo de tortura inclusive e mostrando aos outros o que não se poderia fazer), alguém que morreu por pregar uma outra forma de encarar o próximo. Não farei aqui de Jesus um revolucionário, porém, é fato que sua mensagem de amor incomodou as autoridades romanas. Talvez falte às instituições cristãs brasileiras buscar retomar a ideia de um cristianismo inclusivo e solidário, menos moralista e de sinal de condenação. Pensando na realidade brasileira, um país extremamente desigual e cheio de mazelas históricas relacionadas à exclusão de certos grupos, a mensagem cristã reforçar o discurso excludente não deixa de ser assustador, não só por trair os ideais que estão em sua gênese, mas por virar as costas para aqueles que mais se voltam a eles, os mais pobres. Construímos assim um cristianismo nietzschiano, que trata os “perdedores” como ressentidos em sua luta por um mundo mais justo para eles. Em outras palavras, na essência, temos muito pouco de Jesus Cristo no cristianismo que mostra suas garras em tempos obscuros que vivemos. Não à toa, cada vez mais os grupos excluídos rechaçam o cristianismo, pois não se reconhecem em uma religião que não está ao seu lado, e identificando nele mais um elemento reacionário em nossa sociedade. Uma forte rejeição surge à Estamos longe de construir uma real sociedade solidária no Brasil. O momento atual mostra como acesso a direitos cada vez mais se mostra distante de grande parte da população, e a exploração das classes abastadas aos pobres e excluídos avança, a mensagem cristã uma vez que talvez o que esta tem de melhor, o apelo à solidariedade, é praticamente deixado de lado.

O cristianismo, por toda sua doutrina, poderia ser um elemento para o aprofundamento da consciência solidária e da necessidade de revisão das estruturas sociais do país. Porém, tem adotado uma postura intimista e alienante. Embora não possamos falar em cristianismo, sendo mais correto falar em cristianismos, o que predomina, ou pelo menos o que dá as caras, é esse cristianismo excludente. E infelizmente, como já dito, um cristianismo mais próximo de Nietzsche do que da mensagem tão revolucionária por sua simplicidade revolucionária pregada por Jesus de Nazaré.

RODRIGO DOS SANTOS MANZANO – é professor de filosofia da rede pública do estado de São Paulo, graduado em filosofia pela UNIFAI e especialista em filosofia contemporânea e história pela Universidade Metodista.

GESTÃO E CARREIRA

QUEM QUER DINHEIRO?

O Brasil já tem 95 startups que oferecem crédito com taxas mais camaradas do que as dos grandes bancos. A estrela da turma é a Creditas, que vale 750 milhões de dólares e investe na expansão internacional

O mercado de crédito já é o segundo que mais atrai fintechs no Brasil – são 95 companhias ligadas a empréstimos entre as 529 desse gênero que atuam no país, segundo o Radar Fintech Lab. A competição exige dos participantes capacidade para conquistar a confiança dos clientes, analisar riscos, oferecer juros baixos, além de propiciar condições adequadas de pagamento. Tudo isso tendo bancos e financeiras tradicionais como concorrentes. Não é por acaso que o espanhol Sergio Furio tem pressa em expandir a Creditas, empresa de crédito com garantia, fundada por ele em 2012. Em dois anos, a Creditas triplicou seu valor de mercado, passando de 250 milhões de dólares para 750 milhões, e o número de clientes cresceu quatro vezes. Se continuar nesse ritmo, a companhia deverá alcançar a marca de 1 bilhão de dólares de valor de mercado em pouco tempo, tornando-se o mais novo unicórnio (as startups avaliadas em sete dígitos) brasileiro.

A visão de Furio encontrou um terreno fértil neste Brasil de 2019. A expectativa do Ministério da Economia é aumentar a relação entre crédito e produto interno bruto até o fim do mandato do presidente Jair Bolsonaro, passando dos atuais 45% para 60% até 2022. O Banco Central também tem uma agenda para reduzir a concentração bancária, com licenças para que empresas possam atuar como intermediadoras de empréstimo. O BC autorizou, além da Creditas, uma leva de novatas a conceder financiamento por meio de plataforma própria, como QI, HB Capital, BMP Money Plus, Ótimo e Listo. Ainda estão em análise 11 solicitações. Outras novatas, como a Mova e a Nexoos, foram autorizadas a intermediar empréstimos entre pessoas, também conhecido como peer-to-peer landing. O número deve continuar crescendo. Só o escritório de advocacia Pinheiro Neto, de São Paulo, está ajudando 36 companhias, inclusive varejistas, a montar um plano de negócios e apresentar ao regulador. “As fintechs costumam ser mais eficientes do que os bancos por ter estruturas mais enxutas e baseadas em tecnologia. É um movimento que não tem volta, que vai mudar o mercado como um todo”, afirma Fabrício Winter, sócio e líder de projetos da consultoria Boanerges & Cia.

A Creditas é uma das estrelas dessa nova geração de startups que viram a possibilidade de reestruturar a dívida das famílias e reduzir os juros cobrados em um mercado altamente concentrado. Furio decidiu explorar o nicho quando sua então namorada e atual mulher, Ana, comentou que as taxas de juro chegavam a três dígitos por ano no Brasil. Impressionado, ele desembarcou do outro lado do Atlântico e montou a Creditas. A startup chegou ao atual valor de mercado graças a um aporte de 200 milhões de dólares da gestora japonesa de investimentos Soft Bank. A rodada de investimentos contou ainda com a captação de 31 milhões de dólares dos fundos Santander Innoventures, Amadeus Capital e Vostok Emerging Finance. “Se uma empresa do nosso portfólio está entregando resultado, colocamos mais dinheiro. A Creditas é um desses exemplos”, diz o irlandês David Nangle, presidente do fundo Vostok, que também investiu nas fintechs brasileiras Guia bolso, Nibo, Magnetis e FinanZero.

Ao todo, os 231 milhões de dólares recebidos pela Creditas na rodada mais recente equivalem a quase três vezes o montante que a empresa recebeu ao longo de sua história. Os planos para o dinheiro incluem reforçar o quadro de funcionários, investir em um polo tecnológico na Espanha, abrir uma operação no México (que tem desafios parecidos com os brasileiros) e atuar de forma inovadora em novos mercados. Um deles é no financiamento imobiliário e de veículos. A ideia é colocar uma série de apartamentos e carros à disposição dos clientes, que vão pagar cerca de 20% mais nas prestações durante dois anos. Ao fim desse período, eles poderão comprar os bens descontando o total já desembolsado ou poderão devolvê-los, substituindo-os por modelos mais novos. “Por que escolher entre a compra e o aluguel quando se pode ter um produto financeiro que mistura os dois?”, diz Furio. Ainda não está definido se a Creditas terá uma carteira própria de veículos e de imóveis.

Outro segmento a ser explorado pela fintech é o de crédito consignado voltado para funcionários de empresas privadas, cuja garantia é o próprio desconto na folha de pagamentos. Para mitigar o custo de bater de porta em porta, a Creditas aposta no uso da tecnologia e na parceria com uma companhia que já atua nesse mercado. Para isso, não faltam opções. Uma possibilidade é a Creditoo, fundada pelo empreendedor Ramires Paiva, que no início das operações recebeu aporte do próprio Furio e depois ficou incubada na Creditas ao longo de 2017. A Creditoo já emprestou mais de 50 milhões de reais e tem cerca de 1.000 empresas conveniadas. “Nossa meta é dobrar o volume nos próximos meses”, diz Paiva, que está negociando mais uma rodada de investimentos. Outra fintech que vê oportunidade no consignado privado é a Paketá Crédito. Além de ofertar taxas mais competitivas, o fundador Fabian Valverde pretende levar educação financeira para os clientes e quer ajudá-los a realizar seus sonhos. Para isso, montou um marketplace que oferece desde pacotes de viagem até smartphones a preços mais acessíveis. “É o que chamo de crédito com propósito”, diz Valverde. As iniciativas ajudam a dar sustentabilidade às fintechs de crédito para além da competição por menores taxas. A ideia é oferecer a melhor experiência para os clientes. Para isso, a Creditas estuda seguir os passos do gigante de tecnologia Amazon e romper com os limites dos mundos físico e virtual. Além de receber solicitações online de financiamento, vai montar postos de atendimento itinerantes para apresentar as linhas de crédito e tirar dúvidas.

O caminho para ameaçar os bancões é longo, mas conhecido. As fintechs respondem por apenas 0,3% da concessão de crédito no Brasil, que somava 3,3 trilhões de reais em maio, segundo o BC. O restante fica a cargo principalmente das cinco maiores instituições do país. Nos Estados Unidos, as fintechs tornaram-se responsáveis pela maioria dos empréstimos pessoais sem garantia no ano passado, de acordo com um estudo da empresa de informações financeiras TransUnion. O Brasil é o país com o segundo maior spread bancário do mundo, com 32%, atrás de Madagascar, segundo o Banco Mundial. Isso tende a mudar com o Cadastro Positivo, que está em vigor desde 9 de julho para criar uma base de dados de bons pagadores e deve estimular a competição. A dúvida é quanto os bancos tradicionais podem reduzir suas margens para se defender dos ataques e tentar manter a fatia de mercado. As grandes instituições adotaram essa postura quando startups de meios de pagamento passaram a ameaçar o predomínio de suas credenciadoras de cartões, numa corrida por participação de mercado que tem beneficiado os consumidores. Nessa maratona por novos clientes, um risco para as novatas é formar carteiras com inadimplência excessivamente alta. O Brasil tem hoje 63 milhões de pessoas com contas atrasadas, um número que a Creditas e a nova leva de startups de crédito querem reduzir – fazendo um empréstimo por vez.

PRÓXIMO UNICÓRNIO?

Em julho, a Creditas recebeu um investimento que triplicou seu valor de mercado. A fintech em breve poderá valer 1 bilhão de dólares

ALIMENTO DIÁRIO

QUALIFICADOS

CAPÍTULO 20 – GURUS, FANÁTICOS E INGENUIDADE

“Não somos responsáveis pelo modo segundo o qual vocês vivem a fé. Não nos comportamos como inspetores, e sim como companheiros, trabalhando com vocês num ambiente de alegre expectativa. Sei que vocês permanecem firmes por sua própria fé, não pela nossa.” — 2 Coríntios 1:24 (A Mensagem)

PENSAMENTO-CHAVE: Líderes espirituais não devem cultivar a dependência de outros acerca de si mesmos; eles ensinam outros a pensar biblicamente e a descansar no Espírito Santo.

Se você é da minha idade ou um pouco mais velho, deve se lembrar da histeria envolvendo os Beatles quando eles se tornaram famosos.

Além dos sucessos Let It Be e I Want to Hold Your Hand, você pode se lembrar dos fãs que seguiam as tendências, que ficavam fora de si gritando, chorando e desmaiando na presença deles.

Esse fenômeno de ser pego e levado em um frenesi de entusiasmos irracionais não está restrito a adolescentes estrelas do rock. Às vezes, é algo bem mais sinistro com resultados morais. Adolf Hitler disse: “Que sorte para os governantes que os homens não pensem”. Um dos principais capangas de Hitler, Herman Goering, disse: “Eu não tenho consciência, Adolf Hitler é minha consciência”. Se alguém quer evitar ser enganado em assuntos grandes (ou pequenos), é essencial possuir habilidade e coragem para pensar claramente conforme o contexto da verdade.

Devemos evitar ser como as gaivotas. Afinal, as gaivotas engolem tudo o que é lançado para elas sem mastigar. Da mesma forma, uma pessoa ingênua é facilmente enganada, aceitando os pensamentos de outros sem uma inteligente consideração quanto a sua veracidade.

Os crentes, às vezes, tornam-se enamorados de certos líderes carismáticos e cegamente abraçam cada palavra dita por eles, colocando-os em pedestais e se esquecendo das admoestações da Bíblia sobre a nossa necessidade de operar com um discernimento afiado e com entendimento bíblico. Isso não apenas demanda revelação espiritual para discernir a verdade, mas também coragem de levantar-se pela verdade e não ser varrido com os desmaios em massa. É importante lembrar que nem tudo que é popular é alicerçado em princípios.

No prefácio do livro Bonhoeffer: Pastor, Mártir, Profeta, Espião, Timothy J. Keller aborda a associação da igreja germânica a Hitler: “Como ‘a igreja de Lutero’ o grande professor do Evangelho, chegou a tal lugar? A resposta é que o verdadeiro Evangelho — resumido por Bonhoeffer como a graça cara — foi perdido. Por um lado, a igreja tornou-se marcada pelo formalismo. Isso significa ir à igreja e ouvir que Deus apenas ama e perdoa a todos, então realmente não importa como você vive. Bonhoeffer chamou isso de a ‘graça barata’. Por outro lado, houve legalismo, ou salvação pela Lei e boas obras. Legalismo significa que Deus o ama porque você se recompôs e está procurando viver uma vida boa e disciplinada”.

Bonhoeffer demonstrou o que significa ser um pensador independente. Educado em meio ao extremo liberalismo teológico, ele desafiou muitos dos gigantes acadêmicos dos seus dias, e da mesma forma posteriormente resistiu ativamente aos males do nazismo. Admiro sua coragem e a deliberação de seus processos de pensamento.

A independência de Bonhoeffer me lembra da tenacidade de Paulo e sua defesa pela verdade à luz do que ele via na igreja em Antioquia. Gálatas 2:11- 13 diz: “Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe face a face, porque se tornara repreensível. Com efeito, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, comia com os gentios; quando, porém, chegaram, afastou-se e, por fim, veio a apartar-se, temendo os da circuncisão. E também os demais judeus dissimularam com ele, a ponto de o próprio Barnabé ter-se deixado levar pela dissimulação deles”.

Pedro e Barnabé eram sem dúvida bons homens, mas nesse infeliz momento, eles se tornaram “fanáticos”, simplesmente seguindo a multidão. Nessa situação em particular, faltou-lhes o discernimento ou a coragem de se levantarem em defesa do que era correto.

A Bíblia enfatiza a necessidade de não sermos ignorantes, mas de utilizarmos o estudo, a sabedoria e o discernimento em nossas vidas.

O inexperiente acredita em tudo que lhe dizem, mas o prudente escolhe e pondera cada palavra.  — Provérbios 14:15 (A Mensagem)

… quero também que sejam prudentes, afeiçoados ao bem e distantes do mal. Não se deixem enganar pelas conversas suaves e ao mesmo tempo malignas. Fiquem atentos. — Romanos 16:19 (A Mensagem)

Pois, assim como Eva foi enganada pelas mentiras da cobra, eu tenho medo de que a mente de vocês seja corrompida e vocês abandonem a devoção sincera e pura a Cristo. Porque vocês suportam com alegria qualquer um que chega e anuncia um Jesus diferente daquele que nós anunciamos. E aceitam um espírito e um evangelho completamente diferentes do Espírito de Deus e do evangelho que receberam de nós.  — 2 Coríntios 11:3-4 (NTLH)

Mas teste e prove todas as coisas [até que você possa reconhecer] o que é bom; [e a isto] se apegue.  — 1 Tessalonicenses 5:21 (AMP)

Amados, não creiam em todo espírito, mas teste os espíritos, se eles são de Deus; porque muitos falsos profetas têm entrado no mundo.  — 1 João 4:1

Tudo isso não envolve apenas conhecer a Bíblia e ser guiado pelo Espírito Santo, mas também envolve uma habilidade conhecida como “pensamento crítico”. Algumas das muitas definições de pensamento crítico incluem:

•   Ter um pensamento crítico é ser razoável, ter um pensamento reflexivo que é focado em decidir no que acreditar e o que fazer.

•   … interpretar, analisar, avaliar e sintetizar informações para formar um bom entendimento, julgamento ou solução.

•   …  uma habilidade de avaliar informação e opiniões em uma eficiente maneira, proposital e sistematicamente.

Ser um pensador crítico não significa que você seja uma pessoa crítica. Nós tipicamente pensamos sobre crítica no sentido de alguém que sempre é negativo, apreensivo, levando os outros para baixo, etc. Contudo, não é isso que estamos dizendo. Tampouco um pensador crítico significa alguém sem imaginação ou indisposto a considerar o ponto de vista de outros.

Lembro-me de um líder espiritual que compartilhou acerca de um momento em que ele estava ouvindo no rádio outro ministro pregando, e ele recorda que discordou dele em alguns pontos do seu ensino. Em vez de desligar o aparelho por causa do desacordo, o líder espiritual continuou ouvindo-o (mesmo que estivesse filtrando enquanto ouvia), e posteriormente, ele nos disse que esse ministro comunicou uma verdade marcante que respondeu a uma questão acerca da qual ele pensara por anos. Ele disse que ficou feliz por não ter desligado porque ele disse algumas coisas na mensagem com as quais ele discordou.

Jó 34:3 diz: “Porque o ouvido prova as palavras, como o paladar, a comida”. Enquanto precisamos ser cuidadosos para não exaltarmos o nosso raciocínio acima de Deus e de sua Palavra, Deus quer que usemos as nossas mentes (guiados por Sua palavra e Seu Espírito) para discernirmos a verdade. Em Isaías 1:18, Deus diz: “Vinde, pois, e arrazoemos…”. Observe que nós deveríamos arrazoar com Deus, não contra Ele. Lógica e razão certamente não são nossos deuses, mas elas são ferramentas a serem usadas para estabelecer as nossas crenças e práticas. Por isso Paulo disse: “Estude e esteja ávido ao máximo para apresentar-se a Deus aprovado (testado pelo experimento), um trabalhador que não tem do que se envergonhar, analisando corretamente e manejando com precisão

[manuseando corretamente e ensinando habilidosamente]

a palavra da verdade” (2 Timóteo 2:15, AMP). Como líderes, Deus não nos chamou para sermos gurus. Como liderados, Deus não nos chamou para sermos fanáticos. E Deus certamente não chamou qualquer um de nós para sermos ingênuos. Que Deus possa nos ajudar enquanto discernimos, abraçamos e proclamamos a verdade