A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

GÊNERO E CONFLITOS FAMILIARES

A família é o primeiro lugar de acolhimento e de segurança do ser humano, mas no campo da identidade de gênero ainda há muito o que aprender a respeitar

Dentro de uma visão sistêmica, a família nuclear nasce quando nasce uma criança. Para essa abordagem, casal não é família e sim duas pessoas que iniciam a conjugalidade. Com a chegada de uma criança, seja por nascimento ou por adoção, nascem dois tipos de casais, o casal conjugal que pode perdurar por toda a vida, até chegar à fase do ninho vazio, quando os filhos saem de casa e constroem suas próprias vidas, ou terminar com o divórcio ou a viuvez. Já o casal parental é eterno, mesmo que haja a separação. O vínculo entre o casal permanece pela existência dos filhos que fazem parte do núcleo familiar e pelos vários papéis parentais que são inaugurados. Quem era apenas sogra passa a ocupar o lugar de avó, quem era apenas marido passa a ser pai, os cunhados, tios, eassim por diante. O poder do nascimento de uma criança é muito grande, pois modifica e hierarquiza a família.

Antes de um filho existir concretamente, ele já é elaborado no universo simbólico e muitos planos são feitos para ele. Quando perguntamos se a grávida prefere menino ou menina, é comum escutar (embora às vezes haja uma preferência no seu íntimo) “tanto faz, contanto que venha com saúde será bem-vindo”.

A realidade não costuma confirmar a frase da prioridade da saúde sobre o gênero, especialmente quando na construção da sexualidade um filho é homossexual. Comportamento ultrapassado? Vivemos tempo de aceitação plena das diferenças de toda ordem? Não é esse o relato dos adolescentes e adultos quando têm a oportunidade de conversar sobre o assunto. No decorrer de minha experiência em escolas, trabalhando diretamente com adolescentes e também na prática clínica como psicopedagoga, tive a oportunidade de acompanhar inúmeros casos e fazer reflexões sobre o tema.

Primeiramente, durante a formação da sexualidade, o adolescente, na maioria das vezes, costuma viver muitos conflitos internos e experimentar muito sofrimento por ter dúvidas sobre a sua identidade. Até se definirem, esses conflitos vão desde a insegurança, apego extremo à religiosidade como forma de lutar contra o seu devir, afastamento total de ambientes religiosos, afastamento de familiares da família ampliada, dificuldades de aprendizagem, dificuldades de relacionamento com os pares nos ambientes sociais, doenças psicossomáticas e mesmo tentativas de suicídio. Não ter um lugar, sentir-se excluído, faz com que muitos tenham ideação suicida e quadros depressivos.

Os jovens e adultos relatam sobre a dificuldade que tiveram quando os pais “descobriram” a sua verdadeira identidade sexual ou a angústia que sentiram quando revelaram aos seus familiares. Começam pela consciente e clara declaração que um filho hétero não precisa sentar para conversar com seus pais e fazer a “grande revelação”, e os filhos homossexuais, sim. A estranheza e a certeza de que a aceitação da diversidade de gênero começa a partir dessa reflexão. Se fosse natural, não precisaria ser anunciado, revelado. O ideário de ter decepcionado as expectativas dos pais e o fato de não se sentir plenamente inserido nos eventos familiares estão nas declarações mais comuns. Afirmam também que, via de regra, quando não são expulsos de casa, há uma aceitação maior por parte das mães do que dos pais, e algumas condições são colocadas para a convivência, tais corno não levar em casa a pessoa com quem se relaciona, “respeitar” o ambiente familiar evitando falar sobre sua vida particular, assumir tarefas domésticas antes não realizadas, dentre outras situações que colocam o sujeito em um lugar de menor valor.

A violência simbólica ou declarada ocorre também nos espaços escolares e profissionais, além da própria família, que costuma fazer o primeiro movimento de exclusão, seja mantendo a questão velada ou com ofensas diretas. As mães costumam responder que aceitaram porque amam seus filhos incondicionalmente, mas temem a violência externa, a homofobia e o sofrimento que os filhos terão na sociedade por toda a vida. Os pais declararam de forma mais enfática a recusa e o lamento de que não poderão ser avós, ignorando a possibilidade de que no futuro uma união homoafetiva poderia trazer um neto através da adoção. Os conflitos entre os pais também são comuns quando um culpa o outro pela criação, pelas ausências ou comportamento opressor, na busca de uma resposta sobre o porquê da identidade do filho diferir dos seus sonhos e planos.

Vamos encontrar outros dados muito curiosos. Filhos gays costumam sair da casa dos pais e habitar sozinhos ou dividindo moradia com amigos muito mais cedo que filhos héteros, uma forma de se distanciar do mal-estar vivido dentro da própria casa. Em vários casos ouvem os pais se perguntando claramente “onde nós erramos na educação dele?”. Esse desconforto traz afastamento, mágoas e o sentimento que causa vergonha e humilhação aos familiares.

Os amigos também costumam ser, na grande maioria, pessoas com a mesma identidade sexual para evitar a rejeição, bem como os lugares escolhidos para o lazer. Assim constroem uma rede de segurança e empoderamento para a conquista de direitos civis e encontrar forças para seguirem em frente assumindo quem realmente são.

DAYSE SERRA – é doutora em Psicologia pela PUC- Rio, mestre em Educação Inclusiva pela UERJ, professora da Universidade Federal Fluminense. Escritora, terapeuta de família e casal pela Logos Psi, membro da Comissão Científica da Abenepi, membro do Conselho Editorial do Colégio Pedro II.

OUTROS OLHARES

A BANALIZAÇÃO DA MORTE

A morte é um tabu sempre presente em nossas vidas. Mas os que sonham com a imortalidade podem agora imaginar possibilidades mais concretas, mostradas na ficção científica e que, quem sabe, serão concretizadas pelos avanços da tecnologia

Uma das descobertas mais importantes do homem foi a morte. Nunca saberemos quando ela ocorreu. Foi uma descoberta avassaladora: a morte como algo universal, predestinado. Tudo que vive é um prefácio de uma morte certa, o tempo de vida é muito curto. Uma descoberta traumática. A inescapável mortalidade. O homem é o animal que sabe que será derrotado pela morte.

Com a descoberta da morte, vieram as tentativas de driblá-la. As religiões inventaram a vida após a morte. Ensinaram-nos a não valorizar tanto a vida, para não sofrermos tanto com a perspectiva da morte. “Quem quiser salvar sua vida a perderá”, diz o Evangelho. E sugere que Deus expulsou Adão e Eva do paraíso pois, ao comerem o fruto da Árvore do Conhecimento, poderiam querer se tornar imortais. A promessa da ressurreição da carne é o coroamento da vida eterna para os cristãos. Curiosamente, o Velho Testamento não faz referência, em nenhuma de suas passagens, à vida após a morte.

“O nosso destino é a escuridão”, proclamou Shakespeare na sua peça Antônio e Cleópatra (ato V, cena lI). A morte é um terna sempre presente na literatura e na Filosofia. Há uma longa estirpe de filósofos que se dedicaram a ele, passando por Agostinho, Pascal, Schopenhauer, Kierkegaard e muitos outros. No século passado, Heidegger foi um dos filósofos que mais se preocuparam com esse tema. Para ele, a morte é o Nada, o abismo cardinal, a fonte de toda inquietação humana e do pensamento. Seguindo as pegadas de Heidegger, alguns pensadores existencialistas como Camus e Sartre se debruçaram sobre o significado da morte e da finitude do homem.

O homem do século XXI continua a se debater com o horror absoluto da morte e da extinção de sua espécie. A biologia moderna é a nova narrativa sobre a vida e a morte. A imortalidade da alma é a ancestralidade da vida, sua reprodução indefinida como estratégia para triunfar sobre a morte. O código genético é praticamente o mesmo em todos os seres vivos e é sempre reeditado através das gerações.

Em seu livro mais famoso, O gene egoísta, o zoólogo Richard Dawkins defende que nossos corpos são apenas portadores de genes sobreviventes que, por meio de sucessivas gerações, garantiram otriunfo da vida nos últimos 3,5 bilhões de anos. Todas as espécies que existem são ramificações que surgiram de uma única linhagem primordial. A morte de uma pessoa pode ser um a tragédia individual, mas a espécie humana continuará por mais alguns milhões de anos. Nossa missão, como seres vivos, é transmitir genes.

Mas a biologia não consola ninguém. Quando a questão é a morte de um ser humano, ela serve, no máximo, para que o refrão “e a vida continua” possa ser repetido. A engenharia genética, o transplante de órgãos e até o transplante de cabeças estão a serviço do prolongamento da vida. Mas não nos contentamos com apenas prolongar a vida. Queremos a imortalidade, queremos uma ciência que negue que ela está reservada apenas para os deuses e não para os homens.

Atualmente, alguns gurus do Vale do Silício tentam nos convencer de que é possível fazer uma cópia digitalizada do cérebro das pessoas, com todos os seus circuitos neurais e lembranças. Essa cópia poderia ser enviada para a nuvem, na qual ela duraria indefinidamente. Quem lê esses gurus acaba se convencendo de que a ciência poderá, em breve, burlar a morte. Mas a estratégia para nos convencer de que a ciência poderá lidar com a morte é resultado de uma manobra sutil nas entrelinhas desses textos. Para laicizar a morte, esvaziá-la de todo sentido trágico, é preciso torná-la cada vez mais banal.

O sintoma dessa manobra aparece na ficção científica. Na novela Carbono alterado, livro de estreia de Richard Morgan (que se tornou um seriado de TV), o autor descreve um mundo no qual todas as pessoas têm um “cartucho”, um chip extraordinariamente poderoso que contém uma cópia digitalizada do cérebro. O corpo de uma pessoa pode ser destruído, mas se o cartucho ficar intacto, ele poderá ser implantado em um outro corpo no futuro, que o autor chama de “capa”. Todos passam a vida economizando para comprar uma capa. A única exceção são os católicos, que se recusam a viver novamente e, por isso, assinam um documento registrado no Vaticano para que seus cartuchos não sejam reimplantados.

O cenário descrito por Morgan é bizarro. Nessa sociedade, ninguém teme morrer, pois a morte pode acontecer várias vezes para uma pessoa e ela continuará a viverse o cartucho for reimplantado em outra capa. Uma ameaça de morte não surte efeito. A destruição do corpo e do cartucho não amedronta ninguém. O corpo pode ser substituído por uma nova capa e para o cartucho sempre haverá um backup, que poderia ficar armazenado na nuvem. A morte não é apenas secularizada. Ela é banalizada.

No seriado Westworld há, também, personagens que dizem não temer a morte pois já morreram e voltaram à vida várias vezes. A morte é algo trivial, pois se tornou um problema científico que em breve será solucionado.

Mas o que significa a banalização da morte? Morgan nos fornece a resposta em uma passagem de sua novela, na qual ele afirma: “Mas gente? Pessoas se reproduzem como células cancerosas, são abundantes […) A carne humana é mais barata que uma máquina. É a verdade axiomática de nossos tempos”

JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA – é paulistano, formado em filosofia na USP. Viveu e estudou na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Escreveu mais de uma dezena de livros sobre filosofia da mente e tecnologia. Lecionou na UNESP, na UFSCAR e na PUC-SP.

GESTÃO E CARREIRA

O QUE VALE NO VALE VALE AQUI?

Área rica, com uma abundância de jovens talentos com ideias disruptivas, no vale do silício existe uma cultura organizacional que serve de exemplo

O Vale do Silício não é um território demarcado no mapa com linhas precisas. Ocupa, na Califórnia, uma área que começa no sul da baía de São Francisco e inclui muitas cidades como: Redwood City, Menlo Park, Palo Alto, Los Altos, Mountain View, Sunnyvale, Cupertino, Santa Clara e San Jose. Nelas estão as maiores (e mais prósperas) empresas desta era de inovação digital. O aparente centro gravitacional de tudo isso é a Universidade de Stanford, em Palo Alto.

Com uma abundância de jovens talentos com ideias disruptivas, lá existe uma cultura organizacional, aparentemente única. Se isso é um fato que pode ser transformado em um protocolo de ação, por que o mesmo sucesso não ocorre em outras áreas no mundo?

Não é por falta de tentativas. Muitas cidades criaram modelos semelhantes com incentivos a startups de tecnologia, mas o resultado ficou longe de ser igual. Segundo o Global Startup Ecosystem Report 2019, elaborado pela Startup Genome, o perfil de hoje coloca o Vale em primeiro lugar seguido, de muito longe, por Nova York, Londres, Pequim, Boston, Tel Aviv e Los Angeles. São Paulo aparece na lista como um ecossistema promissor, mas em uma posição distante das demais.

Todos os indicadores, incluindo o número de empresas e os resultados financeiros do Vale do Silício, destoam de forma significativa de quaisquer outras áreas que, teoricamente, competem pelo primeiro lugar em agrupamento de startups de tecnologia. Pelo que se pode notar, mesmo que sejam replicadas as mesmas condições de apoio técnico e financeiro, pela parte governamental, o resultado não se repete.

O segredo do que se observa hoje, como sucesso alcançado, faz parte de uma cultura organizacional impossível de ser transcrita como um protocolo de uma única empresa, pois é a própria estrutura mental do Vale. Podemos tentar desmembrar em alguns itens:

1. QUALQUER IDEIA DEVE SER VALIDADA: Em uma reunião em 14 de junho/2019, na The Vault, em São Francisco (CA-EUA), com Fernando Figueiredo, brasileiro que é cofounder e CEO da Oaktech, empresa de estratégia global e internacionalização, ficou claro que a cultura aceita qualquer ideia nova desde que possa ser validada. Um exemplo disso é LiLou, o porquinho terapêutico do aeroporto de São Francisco. Alguém teve a coragem de apresentar um projeto que afirmava a importância de um porco circulando pelo aeroporto para acalmar os passageiros nervosos, e o gestor teve a coragem de colocar essa ideia em prática para ser validada. Hoje é um sucesso!

2. DESENVOLVIMENTO DE GRUPOSPARA TROCAS DE IDEIAS: Laís de Oliveira, brasileira que desponta como diretora de Desenvolvimento de Comunidades na Startup Genome (essa mesma que faz o levantamento dos ecossistemas de startups), com sede em São Francisco, nos fala da importância da criação de grupos com origens diversas. As comunidades podem, pela sua miscigenação, gerar ideias novas, parcerias produtivas e, além de tudo, financiamentos mútuos. Os projetos podem se intercambiar – sinergia -, gerando desafios impossíveis de serem alcançados por uma só pessoa: parceria é tudo nesse ambiente.

3. PARA TER ABUNDÂNCIA DEVE-SE COMPARTILHAR: Bruno Solis, da Kong lnc., hoje executivo de Contas para a América Latina com sólida experiência em vendas de sucesso, fala com orgulho dos mais de 600 mil usuários de seu sistema que não pagam um centavo sequer. No entanto, o faturamento da Kong é de vários milhões de dólares. Sua base é oferecer plataformas de código aberto e serviços em nuvem para quem deseja gerenciar, monitorar e escalar interface de programação de aplicativos e microservices. A base do pensamento é que quando você distribui o mercado pagador retorna aceitando o preço da credibilidade alcançada.

4. O TALENTO DEVE SER VALORIZADO: Vinícius Depizzol, brasileiro do estado do Espírito Santo, um dos principais designers no escritório da Microsoft Corporation na Market St., em São Francisco, disse que hoje, na cultura do Vale, há um grande cuidado das empresas para manter seus colaboradores o mais seguros e confortáveis possível. Não é o horário de saída ou entrada no prédio da empresa que vai trazer a solução da demanda. Muitos colaboradores passam mais tempo trabalhando em casa do que na empresa e, com responsabilidade e engajamento, apresentam os resultados em seus devidos prazos.

5. NÃO DISPENSAR O PASSADO POR CONTA DO FUTURO: Com Martin Spier, arquiteto de performance da Netflix, numa conversa no Steins Beer Garden em Cupertino, CA – EUA, sobre cultura organizacional e a liberdade que deve ser colocada à disposição dos colaboradores, foi ressaltado algo muito interessante: a Netflix ainda entrega DVDs mensalmente a 1mlhões de usuários. Como uma empresa que é líder mundial em streaming ainda carrega esse peso? A resposta foi direta: é um mercado de milhões de dólares. Embora a tecnologia esteja à disposição, muitas pessoas, por motivos quaisquer, preferem o velho DVD. A Netflix, que começou dessa forma, não abre mão desses clientes e mantém toda estrutura para atendê-los, mesmo que o retorno não seja o mesmo do modelo atual.

6. PENSAR DIFERENTE SEMPRE: A consultora sobre o ecossistema do Vale, Mariangela Smania, quando conduz o seu treinamento “Path to lnnovation” pelo campus da Universidade de Stanford, reforça a estrutura valiosa do Design Thinking, olhar o todo e os detalhes para inovar. Não basta apenas saber da necessidade e ter a solução, muitas pessoas desenvolveram produtos e serviços fantásticos que não tiveram êxito ou foram ultrapassados rapidamente pela concorrência. O pensamento disruptivo é um talento, mas pode e deve ser replicado com a utilização de técnicas apropriadas. São apenas alguns pontos que podemos extrair da cultura reinante no Vale que, pelo que vemos, apresenta resultados. Este texto trata de um pequeno resumo das principais ideias que nos foi possível colher no mês de junho de 2019, quando estivemos imersos nesse ambiente do Vale do Silício e tivemos a oportunidade de ter encontros- verdadeiras aulas – com muitosexecutivos de várias empresas. Esta coluna retrata um pouco do que pude apreender deles sobre a cultura organizacional do Vale. Não é a chave do segredo, mas uma porta importante que vem dando resultados significativos na inovação de grandes e pequenas empresas.

JOÃO OLIVEIRA – é doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br).Entre seus livros estão Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam Tenha as Soluções, Jogos para Gestão de Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional, Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida, e Saiba Quem Está à sua Frente Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora)

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 13 – A BRIGA: A HISTÓRIA DE JOHN

Houve um tempo no nosso casamento em que ficamos magoados um com o outro por cerca de dezoito meses seguidos. A mesma discussão vinha à tona repetidas vezes. Chegávamos até a implicar sutilmente um com o outro na frente dos nossos filhos. Os mais velhos percebiam o que estava acontecendo, e faziam comentários do tipo “Vocês podem fazer o favor de não falar sobre isso durante o jantar?” Nossa dor e desunião eram uma fonte de tensão constante em nosso lar, e estavam corroendo nosso casamento e nossa família.

Uma noite, depois de trocarmos acusações como de costume, eu (John) saí de casa como um furacão. Estava furioso com Lisa e imediatamente comecei a reclamar com Deus. Eu lamentava as imperfeições de Lisa e sua falta de visão. Tinha a sensação de que Deus havia me prendido a uma esposa que não me dava apoio e que era desnecessariamente crítica. Eu me perguntava se podia continuar vivendo com uma esposa assim.

Nunca me esquecerei de como Deus respondeu. O Espírito Santo não me disse uma palavra sobre o quanto Ele lamentava por mim, nem tratou da dor que eu estava sentindo. Em vez disso, Ele simplesmente sussurrou: “Filho, quero que pense em algo que você aprecia em Lisa e depois Me agradeça por isso”.

Levei algum tempo para responder, mas finalmente resmunguei: “Ela é uma boa mãe”. Enquanto as palavras escapavam da minha boca, senti como um sopro de vida em minha alma. Deus me impeliu a continuar. Eu disse: “Senhor, obrigado porque Lisa é uma ótima cozinheira”. Depois disse: “Obrigado porque ela é linda”. Mais palavras começaram a fluir, e eu continuei enumerando com gratidão as qualidades de Lisa sem parar, como uma metralhadora.

A essa altura eu não estava mais irritado com ela; estava irritado comigo mesmo. Pensei: Você é um completo idiota! Sua esposa é maravilhosa, e você tem sido um estúpido com ela. O que há de errado com você? Fiquei dolorosamente ciente do quanto eu havia tratado Lisa de modo horrível. Ela era a esposa que eu havia escolhido e a mãe dos nossos filhos, uma absoluta bênção de Deus, e eu a havia tratado como uma inconveniência para o meu chamado.

Quando saí de casa, Lisa estava extremamente aborrecida comigo e eu com ela. Mas agora eu só queria ir para casa e dizer o quanto era grato por ela. Enquanto corria para casa, pensei comigo mesmo: Posso não ser bem recebido, mas preciso dizer o quanto sou grato por ela.

Quando cheguei em nossa casa, encontrei Lisa e exclamei: “Lisa, sinto muito! Tenho sido um estúpido. Por favor, perdoe-me. Você é uma mãe incrível e uma esposa excelente, você é o desejo do meu coração”. Contei a ela o que Deus havia trazido à minha lembrança e depois comecei a elogiá-la por todas as suas características, qualidades e dons magníficos. As palavras se derramavam do meu coração como um rio.

Enquanto eu falava, Lisa abrandou-se e começou a chorar. Sem que eu soubesse, enquanto eu estava fora, ela havia orado: “Deus, se Tu trouxeres John de volta e ele me disser que sente muito, abrirei meu coração outra vez”.

A BRIGA: A HISTÓRIA DE LISA

As coisas haviam ficado tão ruins durante aqueles dezoito meses que deixei de usar meu anel de casamento. Eu dizia a John que estávamos casados, mas não comprometidos, seja lá o que isso queira dizer. Comecei a acreditar que não amava mais o John. Minha recusa em perdoar havia feito meu coração se esfriar, e o nosso relacionamento corria um grande risco.

Naquela época, John estava viajando muito, então comecei a gostar mais do tempo que ficava sozinha do que dos momentos que ele estava em casa. A vida é mais fácil quando ele não está, eu pensava. Ele em casa só serve para me enlouquecer, com todas aquela brigas e tensão.

Desesperada, comecei a clamar ao Senhor: “Deus, estamos em um impasse. John não está sendo nada bom comigo! Pai, sei que Tu deves estar zangado com o comportamento dele!”

E eu continuava falando sem parar, expondo a minha causa diante do Pai quase que diariamente. Mas quando finalmente me calei, eu O ouvi dizer:

  • Lisa, diga-Me que Eu sou suficiente para você.

A princípio fiquei um pouco assustada. Se eu dissesse que Deus era suficiente, isso significava que John não iria mudar? Devolvi as palavras:

  • Pai, Tu és suficiente para mim. Então me vi repetindo a pergunta:
  • Mas e quanto ao John? Novamente ouvi:
  • Diga-Me que Eu sou suficiente para você.
  • Tu és suficiente para mim.5

Aquelas palavras se tornaram meu refrão. Todas as vezes que o conflito ou a decepção surgiam, eu orava “Jesus, Tu és suficiente para mim”. Com o tempo, a revelação criou raízes em meu coração e minhas orações se transformaram. O que começou com uma confissão quebrantada (“Jesus, Tu és suficiente para mim”) se transformou em um transbordar de satisfação em Deus: “Jesus, Tu és mais do que suficiente para mim!”

Pouco tempo depois, Deus havia feito a Sua obra nos nossos corações. John voltou para casa de uma viagem e fui apanhá-lo com satisfação no aeroporto (uma tarefa que eu havia permitido que outros realizassem durante os meses em que preferia que ele não voltasse para casa). Estava feliz em saudar meu marido, e descobri que ele havia me trazido um lindo presente.

Aquele instante marcou um novo começo para o nosso casamento. É interessante que mesmo antes da mudança acontecer, Deus abriu o coração de cada um de nós por meio da gratidão.

No casamento, se nos comprometermos em imitar o exemplo de Jesus, perdoando mesmo quando somos maltratados, veremos nossa união permanecer estável e até florescer. Sem que soubéssemos naquela época, um dos maiores exemplos que demos aos nossos filhos foi dizer um ao outro que sentíamos muito e depois perdoarmos um ao outro. Nossos filhos passaram a entender que somos habitantes imperfeitos habitando em um mundo imperfeito, mas o perdão perfeito de Deus em nossos corações pode cobrir uma multidão de pecados. Esses pecados, destinados a gerar o caos e destruir nossa união, na verdade acabaram se tornando lições de vida para nossos filhos do amor, da graça e do perdão de Deus. Vimos estas palavras de sabedoria se cumprirem em nossa família:

Aquele que cobre uma ofensa promove amor… Provérbios 17:9

Se você opta por ficar preso à ofensa, todos perdem porque o amor vai morrendo aos poucos. Entretanto, quando você opta por perdoar, todos na sua família ganham porque o amor floresce.

O MEDO

A próxima coisa a ser tratada no seu relacionamento é o medo. Durante os dez primeiros anos do nosso casamento, eu (Lisa) lutava contra o medo do abandono. Meu pai e meu primeiro pastor haviam deixado suas esposas por mulheres mais jovens. Por causa do que vivi, permiti que pensamentos de medo permanecessem em minha mente sem qualquer controle. Eles não gritavam; eles sussurravam: Mais cedo ou mais tarde, todos os homens partem. Não deixe que eles se aproximem demais. Assim não poderão decepcioná-la. Esse tipo de pensamento fazia com que eu até mesmo resistisse a pequenas demonstrações de afeto. Quando John me abraçava, não demorava muito e eu começava a dar tapinhas nele para poder me afastar.

Um dia, depois de um de meus “tapinhas de afastamento”, John perguntou- me diretamente:

— Será que só depois que formos velhos você vai perceber que nunca vou abandoná-la? Você vai esperar até termos setenta anos?

Fiquei perplexa.

— Vou esperar o tempo que for preciso — ele continuou — mas enquanto isso vamos perder muito tempo de diversão.

Entendi que estava fazendo John pagar pelas decepções que eu havia tido com outros homens. Pensei: Por que John tem de pagar pelos erros deles? Isso não é justo. No esforço de me proteger, estou sabotando nosso relacionamento. Meu medo de perder John no futuro estava roubando de nós dois o nosso presente. Decidi então que eu preferia amar John completamente, mesmo correndo o risco de perdê-lo, a amá-lo pela metade e olhar para trás com remorso pelo que poderia ter vivido com ele.

O medo e a desconfiança nos impedem de florescer no casamento, pois o medo se agarra tenazmente ao passado enquanto se recusa a crer que algo melhor pode surgir no futuro. Se quisermos que Deus faça algo novo em nosso casamento, precisamos escolher abandonar o medo e aceitar o que o amor poder vir a projetar para o nosso futuro. A expectativa do medo é o fracasso, ao passo que o amor definitivamente nunca falha.

O medo é uma força espiritual que se opõe diretamente ao amor e à proteção de Deus em nossas vidas. Ele é o oposto do amor, porque tanto o amor quanto o medo atuam tendo como base a crença no desconhecido. O amor nos desafia a duvidar do que vemos e a crer no que não podemos ver. O medo nos impulsiona a crer no que vemos e a duvidar do que não vemos. Quando nos deparamos com o medo do fracasso ou com a esperança do amor, podemos escolher crer em um ou no outro, mas não em ambos. O medo desaloja o amor; o amor lança fora o medo.

… No amor não há medo antes o perfeito amor lança fora o medo; porque o medo envolve castigo; e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor. 1 João 4:18-19, AA

A capacidade transformadora do amor é maior que a capacidade que o medo tem de nos enlaçar. O amor perfeito que lança fora o medo só é encontrado na experiência do amor de Deus. Através do poder do Seu amor, podemos abandonar a preocupação com nós mesmos, porque sabemos que Deus cuidará fielmente das nossas necessidades. Mas se não passamos tempo na presença de Deus, não podemos ter um conhecimento íntimo da Sua natureza amorosa; pois Sua fidelidade se manifesta na Sua presença.

Sem conhecimento da verdadeira natureza de Deus, viveremos com medo constante de sermos abandonados por Ele ou por nossos cônjuges, o que é uma forma deturpada de castigo. À medida que nos tornamos cada vez mais seguros no amor de Deus por nós, podemos ser livres do medo e oferecer um amor altruísta aos nossos cônjuges. A Palavra de Deus diz:

Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. 1 João 4:7-8

A fortaleza do medo é o que faz com que digamos: “Se meu cônjuge algum dia me trair, nunca o perdoarei”. Essas promessas, cujo propósito é nos proteger no futuro, impedem-nos de abraçar o poder do amor de Deus hoje. Precisamos aprender a confiar em Deus para cuidar do nosso coração, ainda que um cônjuge nos rejeite, fira ou traia. Deus nos pediu para entregarmos nossos temores a Ele. A recusa em fazer isso diz a Deus que não acreditamos que Ele é capaz de dirigir nossas vidas. Não podemos nos submeter ao senhorio de Jesus sem entregarmos nossos medos

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EU SOU PORQUE NÓS SOMOS

Como o bem-estar comunitário pode contribuir para uma vida mais feliz em sociedade, com influência direta sobre o bem- próprias vidas estar subjetivo, ou seja, a forma como avaliamos as nossas

Há uma expressão na sabedoria africana do ubuntu que diz “eu sou porque nós somos”, ou estamos todos conectados, não podemos ser nós mesmos sem comunidade, ou ainda, em um sentido mais filosófico, “a crença em um vínculo universal de compartilhamento que conecta toda a humanidade”. Esse jogo de palavras traduz de maneira muito precisa a necessidade humana de nos relacionarmos com outras pessoas desde que nascemos e por toda a nossa existência, assim como a interdependência do florescimento e do bem-estar comunitário.

Com base nas pesquisas do Instituto Gallup, os autores Tom Rath e Jim Harter elencaram os cinco elementos essenciais do bem-estar, entre os quais figura o bem-estar das comunidades. Mas a que exatamente se refere essa categoria? Segundo eles, o bem-estar comunitário está ligado ao senso de envolvimento com o ambiente social no qual vivemos, à habilidade de interagirmos com as pessoas ao nosso redor, saber comunicar-nos com elas e criar relacionamentos significativos baseados no respeito e na harmonia. De forma ampla, o bem-estar comunitário se refere à qualidade dos nossos relacionamentos e à coesão entre os cidadãos, afetando as diversas esferas da existência. Em outras palavras, o florescimento concomitante de indivíduos e comunidades, nutrindo-se mutuamente.

Sob esse aspecto, o bem-estar comunitário tem influência direta sobre o bem-estar subjetivo, ou seja, a forma como avaliamos as nossas próprias vidas. De acordo com os pesquisadores Ed Diener e Robert Biswas-Diener, no livro Happiness: Understandzng the True Health (Felicidade: entendendo a verdadeira saúde, em tradução livre), os seres humanos precisam de outras pessoas para florescer, porque funcionamos melhor quando somos apoiados por uma rede de conexões significativas, verdadeiramente preocupadas   com o que somos e desempenhamos. À parte as pesquisas científicas, essa constatação pode ser averiguada ordinariamente no nosso próprio cotidiano, mais especificamente no uso quase ininterrupto que fazemos dos smartphones. Basta observar o horário de pico no transporte público: mesmo em meio ao estresse e às de­ mandas do dia a dia, estamos sempre em busca de um outro rosto, um comentário, alguém que valide o que somos, que reconheça nossa existência no mundo. Essa necessidade de contato, de apego, de nos sentirmos íntimos de alguém é o que impulsiona a maior parte de nossas atitudes, mesmo quando preferimos acreditar que não. Trata-se de um mecanismo biológico determinante para a sobrevivência humana.

De fato, segundo vários pesquisadores, a quantidade e a qualidade de relacionamentos próximos estão intimamente relacionadas à felicidade. Os pesquisadores James Fowler e Nicholas Christakis, autores de Connected: the Surprzsz’ng Power of our Social Networks and how they Shape our Lives (Conectado: o poder surpreendente de nossas redes sociais e como formam nossas vidas, em tradução livre), validam esse conceito ao afirmarem que, entre outros fatores, a felicidade de uma pessoa está ligada à felicidade das pessoas emocionalmente próximas. Isso significa que, quanto mais conectados estamos a uma rede de amigos ou família, maiores são as chances de alcançarmos a felicidade no futuro – uma afirmação especialmente poderosa quando inserida no contexto de promoção de uma infância saudável e próspera, por exemplo. Quanto mais apoio social nós recebemos, mais temos bem-estar; por isso, é perceptível que quanto mais uma pessoa aprecia a convivência social, mais feliz ela parece ser, e mais engajada se mantém em seus relacionamentos, assim como mais força ela demonstra ter para lidar com questões prementes do mundo moderno, como violência, crises e demais vulnerabilidades.

A Psicologia Positiva, nesse sentido, traz em seus diversos enfoques o poder de transformação e florescimento que emana do indivíduo para o grupo – e vice-versa. Segundo o professor Christopher Peterson, conhecido mundialmente por seu trabalho a respeito das forças de caráter, a Psicologia Positiva poderia, inclusive, ser resumida em três palavras: “os outros importam”. Isso quer dizer que a ciência do bem-estar tem como um dos seus pilares fundamentais o fato de que não podemos atingir a felicidade autêntica isoladamente. Nas palavras do poeta inglês John Donne, “nenhum homem é uma ilha”.

De acordo com Peterson, a função dos nossos relacionamentos, por um ponto de vista biológico, ultrapassa a de ser um mero veículo para a obtenção de alimentos, sexo ou outros elementos primários. Essa função, na verdade, é essencial: interações sociais consistentes e construtivas fortalecem o sistema imunológico, aceleram a recuperação do organismo (após cirurgias, por exemplo), reduzem os riscos de depressão e transtornos de ansiedade e são diretamente relacionadas à felicidade e à satisfação. Por outro lado, lacunas no campo dos relacionamentos interpessoais estão ligadas a um impacto negativo no tocante à saúde.

Assim, nas relações direcionadas à valorização da alteridade, ou seja, a concepção que parte do pressuposto básico de que todo ser humano social interage e interdepende do outro, prezar pela empatia ao próximo e agir para tornar a vida comunitária mais empoderada são o caminho para transformar e impactar positivamente a sua vida e a das pessoas ao seu redor.

FLORA VICTORIA – é presidente da SBCoaching Training, mestre em Psicologia Positiva Aplicada pela Universidade da Pensilvânia, especialista em Psicologia Positiva aplicada ao coaching. Autora de obras acadêmicas de referência. Ganhou o título de embaixadora oficial da Felicidade no Brasil por Martin Seligman. É fundadora da SBCoaching Social.

OUTROS OLHARES

UM HOSPITAL FLUTUANTE

O barco do projeto Doutores das Águas passa vinte dias percorrendo rios e igarapés da Amazônia para levar assistência a brasileiros esquecidos pelo poder público

O barco deixara Manaus fazia apenas uma hora, e ainda faltavam 35 para chegar a seu primeiro destino, a comunidade de Bom Jardim, mas já então não havia mais sinal de internet ou celular. A embarcação seguiu noite adentro, sob a luz da lua, a uma velocidade de 15 quilômetros por hora, desviando-se de troncos e passando por igapós, áreas de vegetação alagadiça — tudo para levar atendimento médico e odontológico às populações desassistidas da região amazônica. A riqueza natural da maior floresta do planeta contrasta com a carência de infraestrutura das comunidades ribeirinhas visitadas pelo projeto Doutores das Águas, que todo ano percorre o mesmo caminho de precariedades — 1 000 quilômetros pelos rios Amazonas, Negro, Madeira e afluentes. Nas comunidades atendidas pelos médicos e dentistas voluntários, a energia elétrica é rara, a educação, precária, e o saneamento básico inexiste. Acompanhamos a excur­são do barco-hospital por sete dias — de seus vinte de viagem — e testemunhamos a dedicação desses profissionais a brasileiros em geral esquecidos pelo poder público.

As barreiras físicas têm sua parte na falta de assistência às comunidades à beira dos rios: poucas embarcações conseguem navegar por igarapés, os canais estreitos, de baixa profundidade, rodeados pela mata fechada. Apesar de grande — 22 metros de comprimento por 7 metros de largura, e três andares de consultórios e instalações médicas —, o barco dos doutores foi projetado para acessar lugarejos afastados. O calado (profundidade mínima para navegação) é só de 1 metro, o que permite singrar áreas rasas.

São cerca de 2.000 ribeirinhos atendidos todo ano. Eles vivem da pesca e da caça, cultivam mandioca, colhem castanhas e vendem madeira extraída ilegalmente. Uma família ganha, em média, 300 reais por mês. Embora a Amazônia seja considerada o bioma com a maior disponibilidade de água per capita, a região concentra as piores taxas de saneamento básico. Só 52,3% da população brasileira conta com rede de esgoto, e no Norte esse índice é bem pior: 10,2%. Entre os atendidos pelo barco, 60% usam fossa como banheiro e 23% o mato; 75% moram em palafita; 46% não são alfabetizados. Antes do projeto, não era incomum uma família inteira dividir a mesma escova de dentes.

A infecção por vermes é o problema mais frequente entre os ribeirinhos. Sete em cada dez pessoas atendidas pelos médicos voluntários têm pelo menos um parasita no organismo. “As crianças são as que mais sofrem. Se não têm tratamento, vivem com anemia e desnutrição, o que prejudica o desenvolvimento”, explica o médico Francisco Leão, um dos coordenadores do projeto. Além do tratamento com vermífugos, os doutores desenvolveram um programa educacional para ensinar medidas higiênicas e prevenir parasitas. Outros problemas comuns são doenças de pele e picadas de bichos como o micuim, um tipo de carrapato característico da região. Gravidez precoce também costuma ocorrer entre as ribeirinhas. Não é raro ver jovens de 20 e poucos anos que já são mães de até cinco crianças pequenas. Entre os homens, o problema mais comum é a dor lombar, decorrência de atividades cotidianas: carregar madeira, colher castanhas ou remar.

O barco tem quatro consultórios médicos, salas para exames, incluindo ultrassom, e quatro consultórios odontológicos com seis profissionais que atendem crianças e adultos que às vezes nunca viram um dentista antes. “Precisamos vencer o medo, ganhar a empatia e a confiança dos pacientes”, expli­ca o chefe da equipe, o dentista Luciano Moura. Quem chega ao ano seguinte sem nenhuma cárie recebe uma medalha, forma criada pelos doutores para incentivar o cuidado com a saúde bucal. A bordo do barco, um protético faz dentaduras. Neste ano foram 211 próteses — ou “chapas”, como dizem os ribeirinhos. A produção é em tempo recorde: em doze horas são feitos o molde, a prótese e a prova.

Para grande parte dos ribeirinhos, a visita do barco Doutores das Águas é o único momento em que eles encontram um médico ou dentista. A assistência à saúde na região é centralizada na zona urbana dos municípios. Em casos de necessidade, a viagem ao posto médico pode levar até três dias — e nem sempre o doente consegue atendimento. Poucos têm voadeira, um pequeno bote com motor rápido, que atinge a velocidade de 40 quilômetros por hora. É mais comum que usem a rabeta, barquinho que chega só a 10 quilômetros por hora.

Nas cidades, os ribeirinhos também buscam açúcar e óleo, que eles consomem em excesso. Neste ano, os médicos flutuantes começaram uma pesquisa, em parceria com a Universidade Santo Amaro, para avaliar a nutrição da população atendida. O cardápio dos ribeirinhos é baseado em peixes e animais caçados (anta, tatu e aves), mas há ainda um prato popular, nada saudável, chamado “fritinho” — um bolinho de açúcar e farinha. Muitas famílias compram até 30 quilos de açúcar e doze latas de óleo por mês.

A expedição dos Doutores das Águas é totalmente voluntária. A organização arrecada fundos de doadores particulares e empresas para custear a viagem. Todos os profissionais, de instituições renomadas, pagam a própria passagem para Manaus. “Percebemos que podemos mudar a vida das pessoas com ações muito simples. Não podemos parar”, diz Rubens Almeida Prado, consultor de pescaria esportiva e coordenador-geral do projeto. No fim da visita, os ribeirinhos recebem kits com sacos para guardar mantimentos, escova e pasta de dentes, anzol e linha para pescar, talheres, óculos para enxergar de perto e roupas.

Aliás, é durante a visita dos doutores que os moradores locais usam suas melhores roupas. O barco-hospital tornou-se um evento na região. Acompanhamos uma família de três adultos e quatro crianças que levou quarenta minutos, numa lancha rápida, para chegar ao ponto em que a embarcação estava atracada. “Onde é São Paulo?”, perguntou Raquel, 5 anos, quando a reportagem lhe disse de onde vinha. A menina teve dificuldade para figurar um lugar tomado de prédios e carros. Talvez por isso tenha querido saber se há pelo menos um elemento comum entre a metrópole e a floresta: “Tem árvore em São Paulo?”.

GESTÃO E CARREIRA

DO NICHO PARA AS MASSAS

Moda nas grandes cidades brasileiras, as hamburguerias artesanais começam a se estruturar para virar redes nacionais. Dá para crescer sem deixar de ser descolado?

Sempre que tinha uma folga no trabalho, o administrador alagoano Mauricio Coutinho, de 35 anos, dava um pulo até a Praia de Ponta Verde, uma das mais famosas de Maceió. Ele não era tão fã do mar. O que ele queria mesmo era comer um hambúrguer preparado pelo chef Deco Sadivursky, dono de um food truck na orla. De tanto frequentar o lugar, ele e o chef tornaram-se sócios e abriram a lanchonete Black Beef em 2015. Coutinho é um entre muitos. O Brasil vive uma febre de hamburguerias artesanais. A imensa maioria nasce para atender os clientes do bairro, sem grande pretensão de expansão. Mas Coutinho também é um entre poucos. A Black Beef já tem 26 lojas, em cidades como Brasília, Belo Horizonte, Maceió e São Paulo, e uma expectativa de faturamento de mais de 50 milhões de reais neste ano.

Há um punhado de hamburguerias que passaram de uma única unidade para uma rede estruturada, com ambições que ultrapassam o bairro e a cidade de origem. Além da Black Beef, outras novatas ambiciosas são a Bullguer, fundada há quatro anos em São Paulo, e a Cabana, criada no final de 2016, também na capital paulista. Elas ainda são pequenas se comparadas a gigantes como o McDonald’s, que fatura 320 milhões de dólares por ano no Brasil, com mais de 2.000 unidades. Juntas, as três redes faturaram 130 milhões de reais em 2018, com 40 restaurantes. Elas esperam fechar este ano com um crescimento de pelo menos 40%, e pretendem manter o ritmo. A ambição vem chamando a atenção de investidores. A Cabana recebeu investimento recente do fundo TMG; a Bullguer negocia um aporte com a empresa de refeições coletivas Sapore; a Black Beef tem como sócio o ator Caio Castro, que tem 17 milhões de seguidores nas mídias sociais. Hoje, o mercado de restaurantes especializados em lanches fatura mais de 20 bilhões de reais por ano no Brasil, e cresce 7% ao ano. “Há nichos que podem ser mais bem explorados, como o de sanduíches gostosos a preços razoáveis e com lojas bem arrumadas”, diz Enzo Dorma, fundador da consultoria de gastronomia ECD.

Para passar do nicho para as massas, as hamburguerias que montam as próprias redes seguem uma receita parecida: uma decoração descolada (com um ou outro detalhe autoral por loja) e um cardápio com sanduíches por preços camaradas (cerca de 20 reais) e cervejas artesanais. Em geral, há um mix de lojas de rua, onde o aluguel é mais em conta, com lojas em shoppings. Além disso, essas empresas bolaram estratégias para manter os custos baixos e oferecer um atendimento rápido. A Black Bleef compra carne fresca e monta o hambúrguer na própria loja, diminuindo o custo em até 20%. A equipe de funcionários também costuma ser enxuta: de 12 a 18 por loja, enquanto no mercado são mais de 20 empregados, em média. Outra característica é que, em geral, não há garçons. O pedido é feito no caixa e o consumidor é chamado para pegar o sanduíche no balcão, num modelo parecido com o de redes como a Starbucks, de café.

Na Bullguer, boa parte dos executivos veio de grandes empresas. A diretora-geral, Regina Baleli, havia atuado como executiva na IMC, dona dos restaurantes Viena e Frango Assado, e na britânica GR, de restaurantes corporativos. Outros diretores e gerentes passaram por redes de fast- food, como Taco Bell, americana, e Giraffas, nascida em Brasília. “Precisamos de gente acostumada a escala e a processos”, diz Thiago Koch, de 35 anos, dono de uma pizzaria em São Paulo e um dos fundadores da Bullguer. Na Black Beef, o diretor de expansão, Erisvaldo Oliveira, era gerente comercial da Raízen, do ramo de energia. A empresa está instalando software de gestão da SAP, empresa alemã acostumada a atender clientes grandes, e contratou uma agência de recrutamento para encontrar um novo presidente.

ATÉ ONDE CRESCER?

Comprar de fornecedores conhecidos ou exclusivos para garantir a padronização dos principais ingredientes é outro aspecto importante da estratégia. A rede Bullguer já tem números grandiosos. Mais de 400.000 pães são comprados por mês, além de 40 toneladas de carne e 12 toneladas de queijo. Com isso, Koch consegue descontos de cerca de 30%. Na Cabana, do empreendedor Paulo Assarito, dono também da incorporadora Mint, e de outros dois sócios, as carnes são moldadas em discos de 100 gramas na cozinha central, de onde são encaminhadas às lojas. O principal fornecedor de carne é a VPJ Alimentos, fundada há 30 anos, conhecida pelos cortes da raça angus, considerada uma das mais nobres para hambúrgueres. Os molhos são feitos internamente.

A Black Beef optou por uma estratégia parecida, com fornecedores com capacidade de atender lojas em todo o país. O histórico de expansão também é similar. Os investimentos iniciais foram feitos com recursos próprios. Conforme o negócio foi se estruturando, alguns dos empreendedores lançaram franquias, como ocorreu com a Bullguer e a Black Beef, para impulsionar a abertura de novas lojas. Nesse modelo, o franqueado toca a operação e entra com um investimento – na casa dos 500.000 reais. É uma maneira encontrada para crescer com menos custos e mais velocidade. A inspiração não vem do McDonald’s, mas de outra rede de hambúrgueres americana. Os três empreendedores contam que se inspiraram na rede Shake Shack, reverenciada como um exemplo no mercado de fast­ food mais arrumadinho. O negócio começou com um food truck em frente ao ginásio Madison Square Garden, em Nova York, em 2001, e cresceu a ponto de hoje ter mais de 240 lojas, nos Estados Unidos e em outros 11 países, com um faturamento anual de quase 600 milhões de dólares. Um dos segredos da marca é cobrar pouco – o cheeseburguer custa menos de 7 dólares – e manter ambientes descolados, que servem até vinho. Como o volume de compras é grande, dá para negociar com fornecedores e competir com as redes de lanchonetes tradicionais. Outros pontos a favor são o cardápio enxuto, que facilita o trabalho dos cozinheiros, e os hambúrgueres pequenos, com cerca de 100 gramas, e bem crocantes, outra moda entre as novas redes brasileiras. Coutinho, da Black Beef, e Koch, da Bullguer, estiveram nos Estados Unidos na mesma época, em 2014 e 2015 – Coutinho foi fazer MBA em administração na Universidade Harvard e Koch viajou a passeio -, conheceram o Shake Shack e resolveram trazer o modelo para o Brasil. “Há espaço no Brasil para hamburguerias que ofereçam um meio-termo entre opções refinadas e caras e o fast- food tradicional”, diz Ana Paula Gilsogamo, especialista em comida e bebida da consultoria britânica Mintel, que realiza estudos mundiais sobre alimentação e hábitos de consumo.

É possível manter o ar descolado mesmo com centenas de unidades? Cabana, Bullguer e Black Beef estão neste momento de reflexão: até onde dá para ir sem perder a essência que gerou o crescimento recente. A Cabana deverá dobrar o número de lojas até 2020, com pelo menos mais oito endereços em São Paulo e no Rio de Janeiro. A Bullguer planeja fechar o ano com 25 unidades, o dobro do fim de 2018, chegando a cidades menores, como Santos, no litoral paulista. A Black Beef, com 20 lojas no fim do ano passado, quer ter 38 até dezembro. Não há muitas referências brasileiras de limite para a expansão. A fórmula dessas hamburguerias relativamente baratas segue um modelo diferente de redes como o Madero, que cresceram com uma estratégia baseada em lojas bem decoradas, com garçons e uma clientela disposta a pagar mais de 50 reais por um sanduíche com um refrigerante. As novatas querem pegar clientes que topem comer sem garçom e sem luxos, mas que aceitem pagar um pouco a mais do que no fast- food tradicional. Segundo consultores, o que vai fazer a diferença será a capacidade de ganhar escala e continuar inovando nos cardápios, no atendimento e na decoração, com lojas próprias ou franquias. Será a chave para as redes competirem entre si ou superarem novatos ou redes tradicionais que investem cada vez mais em sanduíches com carnes, pães e molhos especiais. Para o consumidor, quanto mais opções de qualidade por preços convidativos, melhor.

QUERO SER REDE

As maiores hamburguerias artesanais do Brasil e sua inspiração americana

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 12 – A OFENSA

Perdoar é libertar um prisioneiro e descobrir que o prisioneiro era você. Lewis B. Smedes

A primeira coisa que precisa ser retirada do convés do seu casamento é a ofensa. Pelo fato de a ofensa ser tão tóxica, passaremos grande parte deste capítulo discutindo esse único tema.

A recusa em perdoar rouba nossa liberdade e impede a paixão. Ao agir assim você alimenta o desejo de vingança, em uma busca interminável na qual sua única companheira é a infelicidade. O ato de perdoar é um ato de libertação tanto para o ofensor quanto para o ofendido.

Muitos acreditam que o perdão deve ser retido até obtermos uma reparação adequada. Quantos de nós já dissemos: “Só vou perdoar quando vir alguma mudança”? Mas no Reino de Deus, o perdão não é opcional. Ele é o único modo de vida. Quanto mais perdoamos, mais nos tornamos como nosso Pai celestial. Se quisermos ser agentes da Sua grandeza, precisamos abraçar o poder do perdão.

Paulo nos ordenou:

Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou. Colossenses 3:13

Isso costuma ser difícil de engolir. É uma ordem, não uma sugestão. E não existem condições ou exceções. Deus nos diz para perdoar qualquer um que nos ofenda. Fim de papo.

Costumamos tolerar e criar justificativas para nossos próprios erros, e esperamos que os outros façam o mesmo. No entanto, achamos muito mais difícil perdoar os erros dos outros, principalmente os dos nossos cônjuges.

Mas qualquer pessoa que seja incapaz de perdoar se esqueceu do que lhe foi perdoado. Muitos de nós nos sentimos cheios de justiça própria e nos esquecemos de que todos nós merecíamos passar a eternidade no inferno. Nossa ofensa a Deus foi tão grave que Ele teve de sacrificar o Seu único Filho para reverter seus efeitos. Cristo declarou Seu perdão na Cruz, quando a amargura teria sido uma escolha muito mais fácil. Ele nos perdoou antes que o nosso comportamento fosse digno do Seu perdão, e nós devemos fazer o mesmo pelos outros.

Provavelmente não temos de convencer você de que seu cônjuge não é perfeito. Ninguém é! Mas os erros geram oportunidades para estendermos a graça de Deus a outros. Nossa disposição de perdoar é uma das maiores evidências de que Cristo habita em nós.

LIBERANDO AS MÁGOAS

Quando nos casamos, eu (Lisa) estava entre aqueles que costumam dizer: “Só vou perdoá-lo quando você mudar”. Até que John mudasse seu comportamento, minha lista de queixas contra ele continuaria a crescer. Eu pensava que reter o perdão o motivaria a se transformar, mas isso apenas fazia com que ele se sentisse condenado, desesperançado e impotente.

Tudo mudou quando Deus me mostrou a maneira como Ele perdoa. O perdão Dele não é uma recompensa pela nossa mudança de comportamento. É um voto de confiança. Quando Deus renovou minha compreensão do perdão, Ele substituiu as palavras da minha boca por outras que refletiam o coração Dele: “Eu creio que você deseja mudar, e eu o perdoo”.

Naquela época, eu não entendia o quanto era importante perdoar John. Mais tarde entendi que a amargura que eu guardava contra meu marido estava guerreando contra sua capacidade de mudar, pois Jesus disse:

Se perdoarem os pecados de alguém, estarão perdoados; se não os perdoarem, não estarão perdoados. João 20:23

Durante séculos esse versículo foi mal empregado e distorcido, tornando-se uma ferramenta para propagar o medo e a opressão. Essa não era a intenção de Jesus. Quando estudamos Seu ministério como um todo, podemos entender o propósito e o significado dessas palavras. Jesus, mais do que qualquer outro, entende o poder do perdão, pois Ele reconciliou o irreconciliável por meio dele.

Lembre-se de que, de acordo com 2 Coríntios 5:17-20, nós somos os ministros da reconciliação por intermédio de quem Deus faz Seu apelo ao mundo. Devemos afirmar e estender o perdão oferecido em Cristo. Quando escolhemos em vez disso guardar mágoa, deixamos de declarar a esperança de Deus e passamos a concordar com aquele chamado de “o acusador dos nossos irmãos”. Proferimos condenação contra aqueles a quem Deus quer oferecer um novo começo. Em seu comentário sobre as palavras de Jesus, G. L. Borchert afirma o seguinte: “É preciso haver um reconhecimento do papel significativo que as declarações de perdão podem ter na libertação das pessoas e em ajudá-las a colocar de lado seus pecados passados e sentimento de culpa, bem como chamar a atenção delas para a alegria de viver com o Cristo ressuscitado sob a direção do Espírito Santo”.

O perdão é um ato divino. Nenhuma outra virtude requer tão grande sacrifício do eu. Ele é uma escolha consciente pela vulnerabilidade em vez da vingança. Mas no sacrifício do eu encontramos o abraço de Deus. Escolhendo o perdão, nos recusamos a enaltecer nossos sentimentos e em vez disso nos submetemos à verdade de Deus. E perdoando nossos cônjuges, criamos a oportunidade para eles reconhecerem e receberem o convite de Deus para serem remodelados pela Sua graça.

Quando vamos a Deus em arrependimento, a resposta Dele não é: “Eu sou Deus, e sei que você vai fazer a mesma coisa de novo daqui a duas semanas”. Ele simplesmente diz: “Eu perdoo você”, e nos oferece a capacitação para mudar. Deus não declara fracasso sobre o nosso futuro; Ele declara esperança e promessa sobre cada dificuldade. Vamos fazer o mesmo uns pelos outros.

ABRINDO SEU ESPÍRITO

A ofensa faz com que fechemos o nosso espírito. Em nossos esforços para não sermos feridos novamente, construímos muros ao redor do nosso coração. Talvez achemos que esses muros nos protegem, mas na verdade eles nos impedem de receber e dar o amor de Cristo. Sem o amor Dele, nossas vidas estarão destituídas de propósito e poder. Nosso objetivo será a autopreservação e nossos atos serão cheios de egoísmo. Finalmente, nossos corações se tornarão como pedra e nossas vidas serão marcadas pela indiferença para com os outros. Isso é a antítese da mensagem do Evangelho.

Você já deve ter ouvido falar no Mar da Galileia e no Mar Morto. Eles são duas das maiores e mais conhecidas extensões de água de Israel. O Mar da Galileia recebe água do norte e a libera para o sul. Esse fluxo constante torna o Mar da Galileia um ambiente propício para a vida, e diversos habitantes aquáticos florescem nas suas profundezas. O Mar Morto, em contrapartida, só recebe água. Tudo que ele recebe, ele retém. Por não ter saída, nada além de pequenas bactérias ou fungos podem sobreviver no ecossistema salgado do Mar Morto – daí seu nome.

Quando retemos a ofensa, nos tornamos como o Mar Morto. Nosso espírito fechado faz com que nosso casamento se torne um ambiente onde nada bom pode florescer ou mesmo sobreviver. Por meio do perdão, reabrimos nossos corações para que o poder de Deus possa fluir em nós e através de nós.

A recusa em dar e receber perdão leva inevitavelmente ao envenenamento da alma. Não somos autossuficientes. Só o nosso Deus é. Nossa vitalidade requer uma troca harmoniosa com aqueles com quem vivemos; precisamos dar e receber liberalmente.

OS LIMITES DO PERDÃO

Você deve estar pensando: Sinto que meu cônjuge precisa constantemente ser perdoado. Meu perdão não é uma fonte inesgotável. Deve haver um limite! Os discípulos pensavam do mesmo modo:

Então Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?”

Jesus respondeu: “Eu lhe digo: Não até sete, mas até setenta vezes sete”. Mateus 18:21-22

Quando Pedro fez essa pergunta, ele estava tentando ser o mais magnânimo possível. Pedro cresceu sob a Lei, que dizia: “Não tenham piedade. Exijam vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” (Deuteronômio 19:21). Assim, quando Pedro se ofereceu para perdoar até sete vezes, ele esperava que Jesus dissesse: “Sim, Pedro, você entendeu!”

Sabemos, por outra passagem do Novo Testamento, que a oferta de Pedro de sete perdões se referia ao número de vezes que ele achava que precisava perdoar alguém em um dia (ver Lucas 17:3-4). Assim, a resposta de Jesus – perdoar “setenta vezes sete” – não foi meramente uma ordem segundo a qual se deveria perdoar o suficiente para cobrir uma vida inteira de ofensas. Jesus estava comunicando a Pedro que o perdão deveria ser dado sem medida.

Para alguém pecar da maneira como Jesus descreveu, teria de cometer 490 ofensas em um dia! Para pecar tão intensamente, seu cônjuge teria de ofender você a cada três minutos – se nenhum dos dois fosse dormir. Isso é pecar muito, mais do que qualquer um provavelmente conseguirá. Mas ainda que seu cônjuge pudesse pecar contra você mais de 490 vezes em um dia, isso não significa que você pode parar de perdoá-lo depois da ofensa número 490.

Na Bíblia, o número sete simboliza a totalidade, especificamente entre a Terra e o Céu. Jesus usou o número 490, um múltiplo de sete, para transmitir a ideia de que devemos perdoar completamente, seguindo o padrão do nosso Pai celestial. Perdoar generosamente só é possível porque fomos restaurados para Deus por intermédio de Cristo. Nele, há harmonia entre o Pai e Seus filhos. Portanto, somos capacitados a perdoar porque somos novas criaturas com novos corações. Nossos corações receberam liberalmente o Seu perdão e, para permanecermos espiritualmente saudáveis, precisamos oferecer perdão liberalmente a outros.

Sabemos que Jesus quer que nossa capacidade de perdoar seja inesgotável porque depois da Sua conversa com Pedro, Ele contou uma parábola sobre um rei que perdoou e um servo que se recusou a perdoar, concluindo com esta explicação:

Irado, seu senhor entregou-o aos torturadores até que pagasse tudo o que devia. “Assim também lhes fará Meu Pai celestial se cada um de vocês não perdoar de coração a seu irmão.” Mateus 18:34-35Não receberemos perdão se nos recusarmos a perdoar. Não há exceções. Por que é tão importante para Deus perdoarmos? Porque no perdão descobrimos e imitamos a Sua natureza. Transcendemos os limites da indignidade humana que nos é inerente e nos conformamos à semelhança do nosso Pai. Por intermédio do perdão de Deus somos curados e somos convidados – e até encarregados – de estender Sua cura àqueles a quem perdoamos. Se seu cônjuge pede perdão frequentemente, então Deus abençoou você com a oportunidade de ser um agente do Seu poder, que cura

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CONSTRUÇÃO ABSTRATA NA MENTE

Conceitos abstratos são construídos por um conjunto de relações que só fazem sentido quando essa rede está bem trançada. Ela envolve uma série de elementos concretos

A linguagem cumpre um papel fundamental não apenas na comunicação, como na interpretação do ambiente e na identificação das próprias emoções, o que possibilita a formulação consciente de respostas mais apropriadas.

Se, por um lado, a ampliação do vocabulário permite a ampliação da própria consciência e modifica a forma como as pessoas processam suas experiências no mundo, por outro são as próprias experiências que dão sentido à palavra, em uma relação recíproca e interdependente. No entanto, a educação não leva em consideração a forma como a linguagem é compreendida e desenvolvida ao trabalhar uma série de conteúdos que, no decorrer no ensino fundamental, vão ficando cada vez mais abstratos e distantes do universo dos alunos.

As apostilas e livros didáticos esperam que crianças de menos de 10 anos entendam que, na época do descobrimento, havia “características comuns” aos povos indígenas, apesar da “grande diversidade” entre eles, como o fato de não “considerarem a terra uma propriedade particular”. Também devem entender que a “subsistência” era o “produto do trabalho” e não o lucro. Nesse caso, o domínio desses conceitos é um pré-requisito para a compreensão desta pequena parte de um conteúdo, que vai muito além dos fatos citados. O problema é que, em geral, as crianças não têm. Isso não quer dizer que nessa idade não seja possível compreender conceitos complexos: significa que o conteúdo de disciplinas como história, geografia e ciências ainda é totalmente voltado a fatos e pressupõe que os alunos irão, naturalmente, absorver o significado – ou, normalmente, os muitos significados – de um vocabulário abstrato, muitas vezes relacionado a práticas longe da realidade delas. Aprender história sem entender profundamente o sentido de palavras como “subsistência”, “propriedade particular”, “influência” e “diversidade” é como assistir a um filme em baixa resolução e numa língua estrangeira: se tem uma ideia vaga e muitas vezes distorcida do que acontece.

As abstrações, como no caso de “subsistência”, a terra, a plantação, o alimento, os animais – e outros abstratos, como “o lucro, a propriedade, o consumo, o essencial -, estão, por sua vez, ligadas a outros conceitos, em uma série de incontáveis relações. A aprendizagem só ocorre quando o novo elemento é encaixado nessas redes já existentes. Se não é relacionado, não faz sentido, e se não faz sentido, será descartado pelo cérebro.

Essas relações permitem que o novo conceito seja visualizado, ou seja, que o cérebro crie uma imagem mental para ele, o que geralmente ocorre de forma inconsciente. Tanto é que o fato de a mente dar forma a palavras abstratas não era amplamente aceito até recentemente, quando estudos com neuroimagens passaram a amparar essa teoria. Muitas teorias no início do século passado já relacionavam os processos cognitivos às sensações físicas, mas até pouco tempo atrás, a visão mais aceita era de que corpo e mente agiam de forma separada, de que o pensamento envolvia certas partes do cérebro e as percepções envolviam outras. Hoje sabemos que essa divisão não é bem definida.

Temos consciência de uma parte muito pequena – estima-se que 1% – do que se passa em nossa mente. Enquanto esses processos conscientes são lineares, geralmente seguindo – uma sequência lógica, a mente segue vários caminhos paralelos simultaneamente, que caracterizam a forma como as pessoas interpretam e passam por movimentos, imagens e outras percepções.

Investigações neurocientíficas mostram que quando pensamos sobre conceitos amplos – como fracasso, inspiração, ambição, comodismo, rejeição, confiança – ativamos áreas visuais e motoras do cérebro, ou seja, associamos a abstração a elementos concretos. Pode parecer difícil identificar essa relação, por ser inconsciente, mas o mais provável é que o cérebro crie sentido às palavras de forma metafórica.

Quando falamos em afeto, por exemplo, ativamos no cérebro regiões associadas ao conforto e ao calor. Visualizamos o futuro como algo que está à frente; sentimentos negativos são universalmente compreendidos como “para baixo”; descrevemos etapas da vida como caminhos; relações são descritas em termos de percursos e direções. O linguista George Lakoff, autor do termo corporização cognitiva – em bodied cognition -, ampara todo o seu trabalho na ideia de que o pensamento é, necessariamente, metafórico.

Segundo o linguista Benjamin Berger, em seu livro Louder Than Words (Mais alto que palavras), “ações imaginadas, relacionadas metaforicamente às situações, abstratas produzem melhor compreensão dos conceitos expostos”. Juntamente com Nian Liu, em um de seus estudos ele investigou se a mente cria simulações mentais de espaços quando utilizada linguagem abstrata da mesma forma como procede na linguagem concreta, medindo o tempo de resposta dos participantes com relação à locação espacial implicada na frase. Eles encontraram evidências de que mensagens abstratas também acionam simulações mentais, embora precisem de um tempo maior para serem processadas.

A utilização de metáforas e analogias no entendimento de conceitos abstratos, ao descrevê-los em termos mais concretos, está diretamente relacionada à forma corno o cérebro processa a linguagem. Muito mais que um recurso poético ou literário, ensinado de forma isolada, é essencial para se compreender mensagens que dependem de relações com o mundo físico ou que, muitas vezes, estão inconscientemente relacionadas a diferentes sensações e emoções.

MICHELE MÜLLER – é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências. Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no site www.michelemuller.com.br

OUTROS OLHARES

UM PORRE DE SOBRIEDADE

Em nome da saúde e do bem-estar, adolescentes e jovens adultos trocam os coquetéis clássicos por drinques preparados sem uma gota de álcool

Em termos de comportamento, o universo dos “baby boomers”, como são chamadas as pessoas nascidas após a II Guerra Mundial, parece outro planeta comparado ao dos millennials, a turma com idade entre 24 e 39 anos. No lugar dos guitar heroes, passaram a brilhar nos palcos os DJs e seus pickups. Saíram de cena os bólidos possantes e motos envenenadas, entraram em campo os aplicativos de transporte e as bicicletas. Os cigarros que compunham um figurino charmoso viraram sinônimo de péssimo gosto. Agora, os mais jovens podem brindar esse fosso geracional com drinques que contenham na receita xaropes, especiarias e energéticos, entre outros ingredientes. Esqueça dry martinis, mojitos e cosmopolitans: a onda virou “encher a cara” à base de misturas sem nenhuma gota de álcool. Sim, isso mesmo. Em vários bares nos Estados Unidos e na Europa, a happy hour já é movida a várias doses de sobriedade.

Chamada de mindful drinking, ou bebendo deforma consciente, em uma tradução livre, a tendência começa a chegar ao Brasil. Em um passado não muito distante, as cartas etílicas dos bons estabelecimentos daqui traziam escondidas uma ou outra opção sem álcool, em geral feitas de forma improvisada para atender um número residual de clientes. O negócio vem mudando a um ritmo veloz. Cada vez mais, os bartenders investem tempo e criatividade no desenvolvimento de drinques sem álcool. Um dos melhores bares de coquetéis de São Paulo, o Guilhotina Bar, oferece hoje quatro opções do tipo e cerca de dez com médio ou baixo teor alcoólico. “A ideia é disponibilizar alternativas para que as pessoas que não queiram ou não possam beber frequentem a casa e tenham a experiência de curtir o clima do bar”, afirma o bartender e proprietário Márcio Silva.

Vários estudos conseguiram quantificar essa mudança de comportamento. Nos Estados Unidos, uma pesquisa da Nielsen revelou que metade das pessoas com idade entre 21 e 34 anos está tentando beber menos. Na Austrália, a ingestão de álcool atingiu recentemente o seu ponto mais baixo desde o início dos anos 60. O declínio foi causado quase inteiramente pela redução do consumo entre jovens. Na Alemanha e na Inglaterra, países conhecidos pelo alto consumo de cerveja, houve uma diminuição drástica desse hábito no dia a dia dos adolescentes e dos jovens adultos. Por aqui, um levantamento realizado pela empresa de pesquisa de mercado Mintel, em 2018, mostrou que 35% dos millennials limitam a quantidade de álcool ingerida como parte de sua rotina de cuidados com a saúde e 17% trocaram o consumo de bebidas alcoólicas pelo de não alcoólicas. ”Essa geração busca formas diferentes de viver a vida”, entende a psicóloga Ceres Araújo, professora da PUC de São Paulo. “Eles sabem que o álcool faz mal e engorda, e acabam se afastando disso”.

Outra pesquisa da Nielsen ressaltou que 70% dos brasileiros com até 35 anos estabelecem como objetivo de vida ter saúde, e uma das formas de alcançar essa meta é pela mudança de hábitos. No quesito consumo de álcool, isso significa beber menos, sem necessariamente abster-se. O momento de encher o copo fica guardado para festas e ocasiões especiais (às vezes, com algum exagero na data escolhida). De acordo com dados da OrganizaçãoMundial da Saúde, a prática de beber em binge– ou seja, o consumo de pelo menos cinco doses por homens ou quatro por mulheres dentro de um período de duas horas – subiu de 12,7% para 19,4% no Brasil entre 2010 e 2016. No restante do mundo, houve uma redução de 20,5% para 18,2% entre 2000 e 2016. Crescente, o movimento dos drinques sem álcool já provoca mudanças importantes no setor de negócios etílicos. Marcas tradicionais como Heineken e Guinness lançaram recentemente no exterior versões de cerveja sem álcool. A AB InBev, dona da Budweiser e da Brahma, entre outras, assumiu o compromisso de fabricar 20% de seus rótulos com pouco ou nenhum álcool até 2025. Um dos movimentos mais emblemáticos foi protagonizado pela Diageo, a segunda maior empresa de destilados do mundo. Em 2016, a dona do uísque Johnnie Walker comprou a Seedlip, companhia britânica especializada em coquetéis sem álcool. No setor de alimentação, as grandes redes de fast-food tiveram de engolir as mudanças de comportamento e substituíram itens calóricos do cardápio por comidas mais saudáveis. A indústria de bebidas sofre agora pressão semelhante e poderá virar a bola da vez – pelo menos no que depender do gosto dos millennials

GESTÃO E CARREIRA

EXECUÇÃO OU ESTRATÉGIA?

Em muitas empresas, só se pensa no estratégico. Mas nada funciona direito sem pessoas que executem bem. É fundamental um equilíbrio entre as duas funções

Um aspecto da gestão moderna que sempre me preocupou é o endeusamento dos executivos que possuem visão estratégica. Claro que é importante, claro que ter essa habilidade ajuda muito na gestão, mas os líderes que são bons executores também precisam ser igualmente reconhecidos. Como diz o grande consultor indiano Ram Charan, “a melhor estratégia é aquela que é bem executada”.

Sabemos de muitas empresas que possuem um magnífico planejamento estratégico, mas não conseguem colocá-lo em prática, pois tratam a execução como uma disciplina menos importante. O que se ouve é: “O topo faz a estratégia e os ‘lá de baixo’ executam”. Grande erro. O executor é tão valioso quanto o formulador. Eles se complementam e devem ser tratados igualmente, com as mesmas recompensas e reconhecimento.

Existem algumas regras para o processo de execução, as quais reúnem técnicas e comportamentos. Vejamos o que Larry Bossidy e Ram Charan nos indicam em seu livro Execução (Alta Books, 69,90 reais).

1. Conheça bem seu pessoal e seu negócio. Isso parece óbvio, mas não é. Faça as seguintes perguntas: “Qual é o time que vai fazer a execução?” “Será que eu, líder, conheço bem as características de cada um?” “Até que ponto posso desafiá-los?” “Qual o nível de comprometimento de cada um?”

2. Insista no realismo. O bom executor sabe ler nas entrelinhas do plano e sacar sua viabilidade. Essa análise pragmática é fundamental para o sucesso, pois sempre é necessário ter uma dose de realismo para conduzir a execução.

3. Estabeleça metas e prioridades claras e as comunique. As famosas frases “Somos todos adultos” ou “Qualquer criança entende o que precisamos fazer” são inadequadas, desmotivadoras e sem nexo.

4. Trabalhe para concluir o que foi planejado. Não deixe pedaços para serem feitos mais tarde, não pare no meio e não procrastine.

5. Recompense quem faz. Muito cuidado para recompensar aqueles que realmente executaram, que deram o sangue, que fizeram a virada.

6. Amplie o leque de competências do time propondo desafios. Lembre-se de que as pessoas são sempre melhores do que pensam. Portanto, desafie-as, faça com que saiam de sua zona de conforto e cresçam por meio dos desafios.

7. Conheça seus limites. Muitas vezes, não é a equipe que não funciona. É você que está indo além de seus limites e de suas convicções — ou, até, contra seus valores. Por isso, entenda até onde você aguenta. Somos seres humanos com limites que devem ser respeitados.Capriche na execução e você terá a melhor estratégia funcionando

LUIZ CARLOS CABRERA – escreve sobre carreira, é professor na EAESP-FGV e diretor na PMC-Panelli Motta Cabrera & Associados

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 11 – LIMPE O CONVÉS

Limpe o convés: (verbo) Prepare-se para um evento ou objetivo específico lidando antecipadamente com qualquer coisa que possa impedir o progresso

Esse termo náutico originalmente era uma ordem dada a bordo dos navios que se aproximavam de uma batalha. Quando recebiam essa instrução, os marujos sabiam que deviam remover quaisquer ferramentas, cordas ou outros objetos que pudessem impedi-los de se movimentar livremente pela embarcação. Hoje esse termo se aplica a qualquer preparação que nos posicione para agir sem maiores embaraços.

No capítulo anterior, falamos sobre o casamento como um projeto funcional e vivo. O propósito deste capítulo é tratar de quaisquer problemas que possam impedi-lo de avançar e de experimentar a grandeza do casamento. O ato deliberado de limpar o convés de um navio serve para impedir que as cordas se emaranhem umas às outras. Se o convés estiver em desorganizado ou cheio de entulho, é fácil, em tempos difíceis ou em mares revoltos, tropeçar em alguma coisa que você poderia facilmente contornar se estivesse navegando em águas tranquilas.

Amamos a ideia de posicioná-lo para velejar rumo ao seu futuro, levando com você tudo aquilo que lhe sustentará, enquanto ao mesmo tempo lança fora qualquer coisa que possa lhe trazer peso ou deixá-lo ancorado ao passado.

Muitas pessoas não apenas “tropeçaram no convés” e se feriram, como também caíram do barco e se perderam no mar.

O projeto de Deus para o casamento é infalível. No entanto, o casamento parece colocar as falhas de cada um dos cônjuges em evidência como nenhuma outra instituição. Em vez de esperar até estar navegando em uma embarcação que esteja desesperadamente fora da rota – com velas rasgadas, carga perdida, vazamentos no casco e cordas desgastadas – queremos posicioná-lo corretamente para abrir caminho.

Ainda fazendo uso da analogia náutica, a recusa em tratar adequadamente os problemas fundamentais do relacionamento poderia ser comparada a se lançar ao mar com uma rolha tampando um buraco no casco do seu navio. Vai funcionar por algum tempo, mas quando a pressão aumentar, a rolha não irá aguentar.

Não queremos que você tropece ou afunde. Queremos que seu casamento seja uma arca que pode resistir a qualquer tempestade que você encontrar. Enquanto trabalhava no projeto do seu casamento no capítulo anterior, você talvez já tenha reconhecido alguns problemas que precisa tratar antes de poder avançar com aquilo que visualizou. Portanto, vamos procurar cada falha que pode atrapalhá-lo cujas raízes são o egoísmo, o orgulho e a ofensa. Vamos nos libertar de toda maldição que nos acorrenta e de todo medo que nos amarra e deixar que a esperança seja nossa âncora.

NOSSO COMEÇO

Sabemos que limpar o convés é importante porque não foi assim que iniciamos nossa jornada juntos. Não prestamos muita atenção durante o aconselhamento pré-nupcial. Quando nosso conselheiro tentou nos aconselhar sobre como navegar nas águas turbulentas dos conflitos, pensamos: Brigar? Nunca vamos brigar! Deus nos uniu. Este conselho é para pessoas que não estão apaixonadas como nós. Nós não somos essas pessoas. A mão de Deus está sobre nossas vidas.

Depois de apenas algumas semanas de casamento, os problemas começaram. Não demorou muito para entendermos o quanto estávamos errados. Havíamos entrado no casamento enxergando nosso cônjuge como alguém perfeito, mas logo ficamos cada vez mais conscientes de todas as falhas um do outro. Então começamos a trabalhar duro para mudar um ao outro. Em resultado disso, nosso casamento feliz se tornou um campo de batalha entre duas pessoas com muita força de vontade. As fagulhas voavam enquanto ferro tentava afiar ferro.

Ainda não tínhamos a consciência de que nossa união era na verdade fraca e frágil. Sim, estávamos profundamente comprometidos um com o outro, mas cada um de nós valorizava excessivamente o próprio caráter, especificamente nas áreas da paciência e do altruísmo. Tínhamos mais problemas do que gostaríamos de admitir, e até o que era bom precisava ser fortalecido para resistir aos desafios que estavam por vir.

Em vez de permitir que Deus limpasse nosso convés, queríamos apenas limpar um ao outro. O casal que acreditava ser um par perfeito havia acordado do sonho. Ainda fingíamos que tudo estava bem quando íamos à igreja, mas nossa vida doméstica começava a se parecer mais com uma disputa de luta livre.

Durante nosso primeiro ano de casamento, houve um dia em que estávamos envolvidos no que alguns chamariam de “comunhão intensa”. John não queria que eu (Lisa) saísse do quarto, então ele me disse para sentar na nossa cama. Eu queria sair do quarto antes que pudesse dizer qualquer outra coisa da qual me arrependeria logo de manhã. John disse para eu me sentar, e quando eu já estava me levantando para sair, ele tentou fazer com que eu me sentasse na cama para discutirmos as coisas. A combinação do meu movimento levantando e o empurrão de John me fez cair no chão.

Levantei-me e fiquei de pé, segurando um abajur na mão. John olhou para mim incrédulo, com um olhar de terror no rosto.

— O que você vai fazer com isso? — ele perguntou.

— Não sei — resmunguei.

O ridículo daquela cena criou uma oportunidade para nós dois nos acalmarmos e conversarmos sobre o problema, mas a raiz do problema continuou sem solução.

Alguns dias depois desse episódio, eu estava almoçando com uma de minhas amigas. Ela estava casada há mais tempo que eu, e me senti relativamente confortável em me abrir com ela sobre meus problemas matrimoniais. Mas em vez de contar os detalhes do incidente com o abajur, decidi fazer uma abordagem mais sutil. Perguntei de forma casual:

— Você já teve um desentendimento com seu marido e de repente se viu com um abajur nas mãos?

Ela me olhou como se a pergunta fosse absurda:

— Não!

Respondi depressa:

— Nem eu!

Obviamente, eu estava mentindo. Minha amiga provavelmente conseguiu deduzir que a minha pergunta supostamente aleatória era um grito de socorro. Mas a máscara conjugal nos impediu de levar a conversa adiante.

John e eu sentíamos como se não tivéssemos para onde ir. Sérios problemas estavam surgindo em nosso casamento, mas não sabíamos a quem recorrer. Na igreja, escondíamos nossas dificuldades e mascarávamos nossa dor. Sabíamos que o grau de conflito no nosso relacionamento estava aumentando, mas não sabíamos como responder a isso. A vergonha e falta de esperança provenientes da nossa situação fizeram com que as coisas fossem de mal a pior. Consequentemente, a tensão em nossa casa se tornou insuportável.

E então aconteceu. Nosso conflito chegou ao ápice quando eu (John) bati em Lisa. Antes desse incidente, nossas brigas eram físicas – eu já a empurrara uma vez – mas essa foi a primeira vez que dei um tapa nela. Imediatamente, percebi o que havia feito e fiquei completamente horrorizado com meu comportamento e consumido pelo remorso. Lisa revidou e depois se trancou no banheiro. Ambos fomos nos deitar naquela noite sentindo que algo havia se perdido.

Na manhã seguinte, enquanto nós dois nos preparávamos para sair para o trabalho, Lisa estava em silêncio e cada vez mais distante. Parecia que a inviolabilidade e a confiança do nosso relacionamento haviam sido rompidas. Ambos estávamos trabalhando em tempo integral, e à medida que a semana passava, a distância entre nós aumentava. Lisa estava trabalhando com vendas naquela época, e começou intencionalmente a ficar fora até tarde, olhando as vitrines da região para evitar ter contato comigo. Quando finalmente ela voltava para casa, recusava-se a falar ou a jantar comigo e ia direto para a cama ler. Eu estava esperando ansiosamente pelo fim de semana para que pudéssemos finalmente resolver o que havia acontecido.

MEU JURAMENTO

Quando era jovem, eu (Lisa) havia feito um juramento de que se meu futuro marido algum dia me batesse, eu o deixaria. Fui criada em um lar desequilibrado e ficava aterrorizada com a possibilidade de me encontrar em outra situação abusiva. Quando John me bateu, lembrei-me do meu juramento e fui confrontada com uma decisão que poderia transformar minha vida. Será que conseguiria permanecer casada? Será que conseguiria amar e me entregar a um homem que havia me batido?

As pessoas com quem eu trabalhava sabiam que algo estava me perturbando profundamente. Uma de minhas supervisoras supôs o que havia acontecido. Ela me encorajou a deixar John imediatamente, sem conversa. Eu estava esperando o fim de semana chegar para poder trancar John do lado de fora da casa. Além de falar com meus colegas de trabalho, eu estava lendo o livro do Dr. James Dobson O Amor Tem Que Ser Firme, que me inspirou a elevar a situação ao nível de uma crise.

Quando John voltou para casa naquela noite, ele não conseguiu entrar no apartamento. Eu havia trancado a porta por dentro e ele não tinha como entrar. Isso foi antes dos telefones celulares, de modo que ele ficou do lado de fora e chamou: “Lisa, cheguei. Por favor, deixe-me entrar!” Acabei abrindo uma janela para informá-lo de que eu sabia que ele havia chegado, mas que ele precisava encontrar outro lugar para passar a noite. John não conseguia acreditar. Depois de algum tempo, ele percebeu que não entraria em casa, então decidiu passar a noite com um amigo, com o pretexto de orar e jejuar.

Agora que eu tinha a casa toda para mim, decidi ter uma conversa séria com Deus. Creio que minha oração começou mais ou menos assim: “Tudo bem, Deus, tenho algumas sugestões para o Senhor. Enquanto John está fora, ele precisa ter uma revelação do quanto tem sido terrível comigo. Talvez o Senhor possa dar a ele um sonho mau ou assustá-lo com um relâmpago. Apenas não o mate porque ele não tem um seguro de vida muito bom”.

Mas por mais que eu orasse sobre John, a única pessoa a respeito de quem Deus queria falar comigo era eu mesma. Deus não estava interessado em discutir os problemas de John comigo. Ele queria falar sobre como estava o meu coração. Ele me disse: “Lisa, você precisa de uma intervenção sobrenatural no seu casamento. E se quiser uma intervenção sobrenatural no seu casamento, você terá de agir sobrenaturalmente. Isso significa que você deve perdoar mesmo achando que o perdão não é merecido”.

“Lisa”, Deus continuou dizendo, “você está guardando todas as suas mágoas contra o John”.

GUARDANDO MÁGOAS

Quando John e eu brigávamos, não brigávamos apenas sobre o problema imediato. Usávamos a munição acumulada nos nossos meses de casamento para diminuir e desacreditar um ao outro. Um registro sempre crescente de ofensas, condenação e amargura era o fundamento para todos os desentendimentos. Até as discussões menores evoluíam para o que pareciam batalhas de proporções épicas.

Eu, a maior culpada nesses longos conflitos, não estava disposta a perdoar John e suas ofensas passadas. Por causa da mágoa que eu havia trazido para o nosso relacionamento, eu temia a possibilidade de que, se eu cancelasse as dívidas dele, poria em risco minha segurança emocional e física. Mas Deus me disse que embora John estivesse longe de ser perfeito, ele merecia meu perdão.

Continuei tentando dirigir a atenção de Deus novamente para John, mas Ele não estava cooperando. Supliquei “Por que sou sempre eu que tenho de mudar? Espero que o Senhor esteja dizendo a John para fazer o mesmo porque ele não vai mudar a não ser que o Senhor diga a ele para fazer isso”.

Mas em meio a tudo isso, Deus estava revelando a corrupção do meu próprio coração. O orgulho e o egoísmo logo surgiram com suas consequências terríveis. Eu me vi pensando em como as pessoas reagiriam se John e eu não estivéssemos sentados juntos ou de mãos dadas na igreja no domingo. Decidi que permitiria que ele voltasse para casa apenas a tempo de se vestir e me levar para a igreja, para que pudéssemos manter as aparências. Eu não estava preocupada com John ou com nosso relacionamento. Estava preocupada com o que as outras pessoas pensavam a nosso respeito. Meu orgulho estava me impedindo de experimentar o efeito transformador da graça de Deus exatamente onde eu mais precisava dela.

Finalmente me quebrantei e permiti que Deus fizesse Sua vontade no meu coração. Mesmo depois do terrível erro de John, escolhi reconhecer a minha parte no que havia ocorrido. Assim que eu me humilhei, a graça de Deus se manifestou. A humildade sempre abre as comportas da graça:

“Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes.” 1 Pedro 5:5

Ficou evidente para mim que eu não podia mudar John. Só Deus poderia fazer isso. Mas eu podia permitir que Deus mudasse a mim mesma.

Depois daquele fim de semana fora, John voltou para casa um homem diferente. Depois que Deus tratou com ele nos primeiros anos do nosso casamento, ele nunca mais me bateu – e hoje fazem mais de três décadas desde que isso aconteceu. Nossa união foi transformada quando ambos respondemos com humildade diante de Deus e diante um do outro com esperança de uma restauração e reconciliação completas.

MORAL DA HISTÓRIA

Gostaríamos de poder dizer que as feridas daquele período de nossas vidas se curaram da noite para o dia, mas não foi assim. Os dois anos seguintes do nosso casamento continuaram a ser marcados por grandes lutas e dificuldades emocionais enquanto tentávamos aprender a viver juntos de uma maneira que honrava a Deus. Ouvimos todo tipo de conselhos, que variavam desde ambos sermos o chefe até Lisa desaparecer completamente tanto na sua voz quanto no seu papel.

Na nossa imaturidade, frequentemente atacávamos um ao outro verbalmente enquanto Deus estava fazendo uma obra em nossas vidas individuais. Saímos dos nossos quatro primeiros anos de casamento nos sentindo extremamente quebrantados. Em alguns aspectos, vivíamos as consequências dos nossos erros. Havia até mesmo evidências físicas ao nosso redor dos fracassos que vivemos, inclusive uma geladeira amassada e uma janela substituída. Mas Deus não perdeu a esperança em nós. Ele estava redimindo os nossos erros transformando-os em oportunidades de limpar o convés. O que o inimigo havia preparado para destruir nosso casamento, Deus usou como alicerce para o que estava por vir.

Embora sempre tenhamos dito que tivemos dificuldades, nunca entramos em tantos detalhes assim nos nossos ensinamentos. Estamos compartilhando mais informações agora não como uma desculpa para o nosso comportamento, mas para encorajar você a saber que a mudança pode acontecer. Ao mesmo tempo, sabemos que nem todo abuso tem final feliz, e não estamos incentivando nenhuma mulher ou homem a permanecer em uma situação onde eles ou seus filhos não estejam em segurança. Se você está nessa situação, vá para um lugar seguro. Não se envergonhe. Fique em segurança e procure a ajuda que necessitar. Falaremos mais sobre isso em breve.

Durante esses anos desafiadores, nosso casamento parecia completamente destituído de esperança. Trinta anos depois, porém, estamos desfrutando a vida juntos mais do que nunca. Nosso casamento é maravilhoso, o que é verdadeiramente um testemunho do poder de Deus de operar milagres. Isso não quer dizer que não passamos por outros vales ao longo do caminho. Mas de uma coisa sabemos: à medida que escolhemos amar, Deus foi fiel para nos fazer atravessar cada um deles.

Não sabemos como está seu relacionamento hoje, mas podemos lhe garantir que há esperança! Volte seu coração para Deus e permita que Ele trate com você. Você não pode mudar seu cônjuge, mas Ele pode. Entregue a responsabilidade a Ele. Deus começará uma linda mudança se você permitir.

UMA PALAVRA SOBRE ABUSO

Queremos deixar isto claro: marido, nunca é aceitável que você parta para o embate físico com sua esposa. A Bíblia diz que você deve honrá-la como o vaso mais frágil (ver 1 Pedro 3:7). Os ataques emocionais ou até físicos de sua esposa não lhe dão o direito de reagir da mesma maneira. Afaste-se se for preciso. Não reaja fisicamente, ainda que seja apenas em retaliação aos ataques dela, ou você perderá a confiança de sua esposa. Ela não se sentirá mais segura nos seus braços. Se você cometeu abuso contra sua esposa, arrependa-se imediatamente diante de Deus e peça perdão a ela.

Esposa, o desejo natural do seu marido é protegê-la. Deus deu a muitos homens uma força superior com esse propósito específico. Você pode considerar ataques físicos a seu marido como ataques de raiva banais e inofensivos, já que eles não causam danos físicos a ele. Mas para seu marido, seus ataques são devastadores. Certo ou errado, os homens foram feitos para reagir fisicamente quando são atacados. Não queremos provocar ou despertar o pior um no outro; queremos trazer para fora o melhor. Se você cometeu abuso contra seu marido, arrependa-se e pare imediatamente com esse comportamento.

Talvez você tenha crescido dentro de uma cultura familiar violenta. Talvez em sua família o abuso verbal, emocional ou físico fosse algo normal. Queremos que você saiba que essa nunca é uma maneira saudável de resolver os conflitos. O aconselhamento cristão pode lhe dar as ferramentas necessárias para resolver os desafios de sua vida pessoal e familiar de forma saudável. Muitas igrejas oferecem pequenos grupos de estudo sobre esses temas. Jamais sinta vergonha de procurar ajuda profissional e espiritual.

E isso vale tanto para maridos quanto esposas: se seu cônjuge se sente inseguro com relação a você, saia de perto dele e trabalhe para recuperar essa confiança. Não tente forçar uma conversa em qualquer ambiente onde ele ou ela se sinta em risco. Se fizer isso, as coisas só irão piorar, e você provavelmente fará algo que lamentará mais tarde.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS DIMENSÕES DA PAIXÃO

A ideia de se apaixonar provoca desejo e medo. Não é um terreno seguro. Ainda que a paixão seja correspondida, gera fragilidade, pois o objeto de amor pode ou não suprir as expectativas

Há uma supervalorização das ações e significados de tudo que envolve o ser amado. Por isso o medo das pessoas de se verem enredadas nas garras da paixão. Evitar a todo custo relacionar- se por medo da paixão e do amor é um indício de grande bloqueio e revela mecanismos de defesa muito consolidados, provocados geralmente por vivências traumáticas.

Como escreve o psiquiatra Renato Mezan no livro Os Sentidos da Paixão: “A defesa – qualquer defesa – tem a finalidade óbvia: evitar o desprazer. Isso não a impede de gerar, por vezes, um intenso desprazer; mas esse último será sempre fantasiado como um mal menor, se comparado com aquilo que sucederia caso a defesa fosse abandonada. Boa parte do trabalho psicanalítico, aliás, consiste no reexame das fantasias e das angústias que povoam a vida psíquica do paciente”. Entregar-se à paixão é antes de tudo um ato de coragem.

Baixar as defesas que impedem o contato com o outro e o risco da paixão como possível consequência é iniciar uma jornada de heroísmo. O que enfrentaremos nessa empreitada é um mistério. Quando se está aberto à vida e às experiências, estamos sujeitos ao apaixonamento. Esse processo geralmente revela a nossa “sombra”. Sombra é um conceito da psicologia junguiana que designa conteúdos arquetípicos tanto destrutivos como construtivos, que foram recalcados e esquecidos e assim passíveis de projeções. A revelação da nossa sombra e de nossos complexos, através da relação com o outro, pode ser equiparado simbolicamente aos 12 Trabalhos de Hércules, ao enfrentamento da Medusa e das sereias na jornada de Ulisses e seus companheiros ou aos desafios de Psique para reencontrar o amor de Eros. Metáforas da mitologia que podemos considerar como os desafios de viver e amadurecer. Todos os seres assustadores desse caminho estão dentro de todos e podem ser despertados. Não há melhor forma de conhecermos nossas fragilidades psíquicas e inseguranças do que na relação com o outro. Após algum tempo de relação, as idealizações iniciais começam a colapsar e a realidade se apresenta. Se os parceiros avançaram pouco na senda do amadurecimento e autoconhecimento, podem surgir muitos conflitos e o relacionamento pode tornar-se um campo de disputas. Por questões narcísicas arcaicas pode não ser fácil para o indivíduo reconhecer a parte que lhe cabe nos conflitos, gerando mágoa e ressentimento no parceiro. Principalmente se houve interrupções em seu processo de amadurecimento afetivo.

Amar talvez seja a tarefa mais complexa da existência humana. Desde que nascemos, de uma forma ou de outra, estamos nos preparando para amar. “Talvez seja o trabalho para o qual todos os outros trabalhos não sejam mais do que a preparação”, disse o psiquiatra Ronald Laing (1954). O amor diferentemente da paixão exige um grau de maturidade a ponto de se ter condições de considerar o outro e suas necessidades, diferentemente da paixão que é permeada por questões mais narcísicas e autocentradas. Na busca de alcançar a maturidade para que a paixão possa evoluir para um sentimento verdadeiro e compartilhado em que o outro é tão igualmente importante e1n seus desejos e necessidades, existe um árduo caminho.

Esse caminho é descrito por Carl Jung nos estudos alquímicos e o processo de individuação. Transformar nossas mazelas na “pedra filosofal” como desejavam tanto os alquimistas é tarefa nobre. Não alcançaremos o Opus sem antes passar por todos os processos de transformação, tão bem descritos por Edward F. Edinger em seu livro Anatomia da Psique. Nesse livro o autor descreve as etapas do processo alquímico a que são submetidos os materiais e a sua correspondência ao processo de autoconhecimento. Esses processos incluem: submeter-se ao fogo, à água, ao ressecamento, à dissolução para que ocorra a verdadeira transformação do “metal bruto” em “ouro”. Tudo isso simbolicamente pode acontecer quando estamos apaixonados e sujeitos a todas as intempéries que isso significa. Não vamos ganhar os louros sem antes enfrentar nossas batalhas internas.

Neste momento, esse trajeto pode ser feito com muito mais conforto e profundidade se o indivíduo estiver disposto ao processo psicanalítico. A situação transferencial da análise também é de certa forma uma relação amorosa, que pode reproduzir em seu contexto os enfrentamentos reais do paciente em seu cotidiano. A análise se propõe a propiciar local adequado e seguro para que as defesas sejam aos poucos identificadas e afrouxadas, enquanto outros recursos mais saudáveis estão sendo alicerçados no trabalho conjunto com o analista.

ELAINE CRISTINA SIERVO – é psicóloga. Pós-graduada na área Sistêmica- Psicoterapia de Família e Casal pela PUC- SP. Participa do Núcleo de Psicodinâmica e Estudos Transdisciplinares da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica – SBPA. Atuou na área de dependência de álcool e drogas com indivíduos, grupos e famílias.

OUTROS OLHARES

AMEAÇA DEVASTADORA

Relatório da ONU revela que se o aquecimento global não for contido antes do fim do século, com a proteção de florestas, por exemplo, será mais difícil produzir alimentos para a humanidade

“Dada a causa, a natureza produz o efeito no modo mais breve em que ele pode ser produzido.” A máxima, de autoria do gênio italiano Leonardo da Vinci, que morreu há cinco séculos, caberia bem como epígrafe do novo relatório do IPCC, o órgão da ONU que trata de mudanças climáticas, divulgado na quinta-feira 8. Nele, mais de 100 cientistas de 52 nações fazem um alerta sobre os riscos à produção de alimentos representados pelo aquecimento global – a causa em questão que pode levar a natureza a produzir seus efeitos, danosos, no mais breve período possível. Ao tratar de alimentação, um aspecto pouco observado nas discussões sobre a elevação da temperatura terrestre, o documento do IPCC pode ser classificado – metafórica ou literalmente – como um autêntico soco no estômago.

O estudo foi produzido com o propósito de, mais uma vez, chamar atenção para as providências que têm de ser tomadas a fim de que se cumpram as metas fixadas pelo Acordo de Paris, definidas em 2015, que teve a adesão de 195 países. O tratado estabeleceu um limite de aumento de 1,5 grau na temperatura do planeta até 2100. Mas, para que isso aconteça, cada nação deve adotar medidas capazes de reduzir as emissões de gases do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global. Para se ter uma ideia da gravidade do problema no que tange aos alimentos, a elevação de 1 grau na temperatura da Terra significará a redução de 7,4% na produção mundial de milho até o fim do século. Diante disso, o relatório do IPCC lista as saídas para evitar o pior. Para começar, será preciso conciliar as atividades agropecuárias que recorrem ao desmatamento com a perspectiva da necessidade de alimentar quase 10 bilhões de pessoas em pouco mais de três décadas (estima-se que essa será a população do globo em 2050). Ao mesmo tempo, as áreas de plantio terão de dividir espaço com a produção de biocombustíveis, como o etanol, para zerar de vez o uso de fósseis como fonte de energia. Em resumo, a forma de conservar e utilizar o solo precisará ser transformada radicalmente para evitar o aumento da temperatura no planeta.

O relatório dividiu a discussão do problema em quatro pilares: a redução do desmatamento de florestas tropicais (para a pecuária e a mine ração, por exemplo), como a Amazônia; a necessidade de investir em reflorestamento, visando à retenção de C0 2 e à segurança hídrica; a produção sustentável de alimentos; e a adoção definitiva, e com urgência, dos biocombustíveis. Em seu documento, o IPCC costurou dados da literatura científica publicados até 2016 – a última data em que se consolidam informações sobre o assunto – e apontou as ameaças para a população de toda a Terra. O estudo não especificou as ações que devam ser adotadas em cada país. Os dados estão postos para que os governos definam o melhor modo de agir, de acordo com a sua realidade.

Segundo o IPCC, as atividades humanas têm algum tipo de impacto sobre mais de 70% da superfície terrestre – são as áreas onde as populações se estabeleceram para produzir comida e encontrar água doce, por exemplo. Cerca de 25% do solo é usado para cultivar alimentos e madeira e gerar energia, o que acaba aumentando em 23% os gases do efeito estufa. A terra é tanto causa como solução para o problema dessas emissões. O sequestro de dióxido de carbono da atmosfera ocorre durante a fotossíntese, na qual os vegetais tiram o C02 do ar e expelem oxigênio. Por isso derrubar florestas para abrir lavouras e pastos reduz a área que auxilia no combate ao aumento da temperatura global. Há aproximadamente 1,4 bilhão de cabeças de gado em todo o mundo, responsáveis por nada menos que 40% da emissão anual de gás metano – que pode causar desequilíbrio no efeito estufa. Ou seja: os animais que alimentam a população também atacam o meio ambiente.

Para a diretora executiva da seção brasileira do World Resources Institute (WRI), instituição americana dedicada ao estudo do clima, Rachel Biderman, o relatório põe em xeque a segurança alimentar da humanidade – e o Brasil está diretamente ligado à questão. “O país é um dos maiores emissores de gases e está caminhando na direção contrária do que foi proposto em 2015, em Paris. O Brasil possui exemplos de produção sustentável, e temos de colaborar mais para resolver o desafio das mudanças climáticas”, afirmou ela.

A controversa posição brasileira no que diz respeito ao meio ambiente tem um sinônimo: Jair Bolsonaro. Ainda quando candidato ao Planalto, ele deu a entender que poderia sair do Acordo de Paris, a exemplo do que fizera o presidente americano Donald Trump. Contudo, nem mesmo a ala ruralista apoiou os planos do então presidenciável, o que o levou, depois de eleito, a manter a Pasta dedicada à área e o compromisso climático assinado quatro anos atrás. Entretanto, os primeiros meses de seu governo foram repletos de decisões equivocadas no setor ambiental. Na sexta-feira 2, o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão, foi exonerado em consequência das críticas que fizera a Bolsonaro quando ele questionou os números da instituição sobre o desmatamento no Brasil – que revelaram um aumento de 68% na devastação da Floresta Amazônica na primeira quinzena de julho, em comparação com o mesmo período do ano anterior. O presidente considera que, nesse assunto, o Brasil é vítima de números mentirosos e tem de se defender do interesse internacional na Amazônia. Por sua vez, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, recomendou a criação de outro sistema de monitoramento do desmatamento. A revista científica Nature, uma das mais prestigiadas do planeta, citou o episódio do Inpe e defendeu a tese de que os cientistas não trabalham para a esquerda ou para a direita, e sim pela sobrevivência e pela prosperidade da própria humanidade.

O relatório do IPCC também chamou atenção para a emergência da transformação de certos comportamentos. Atualmente, algo entre 25% e 30% dos alimentos produzidos no mundo são desperdiçados. Mudanças nos padrões de consumo contribuíram para que cerca de 2 bilhões de adultos estejam obesos ou com sobrepeso, ao mesmo tempo que 821 milhões de pessoas estão subnutridas. Uma das recomendações do IPCC é adaptar a dieta. De acordo com o órgão, uma alimentação mais equilibrada, saudável e sustentável será essencial.

Segundo o físico brasileiro Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), que participou da elaboração do documento, a questão da produção de alimentos é crucial. “O setor da agricultura é responsável por 23% das emissões de gases do efeito estufa. Quando as populações com menor renda, como africanos e asiáticos, puderem consumir carne, a demanda vai aumentar. Precisamos encontrar o equilíbrio”, disse ele.

Desde o período pré-industrial – que vai de 1850 a 1900 – a temperatura nos continentes, onde a maior parte da população da Terra está concentrada, aumentou mais do que a média global. Em terra, os termômetros já ultrapassaram desde então o acréscimo de 1,5 grau, a previsão otimista estabelecida no Acordo de Paris. Quando se considera o planeta como um todo, a elevação da temperatura, no mesmo recorte temporal, foi de 1 grau. Durante a mais recente onda de calor na Europa, Paris atingiu o seu pico em 25 de julho, data em que os termômetros marcaram 41 graus e o governo francês declarou, pela segunda vez em menos de um mês, um alerta vermelho de calor – o nordeste do país estava com máximas previstas de 43 graus.

Ao mesmo tempo que o cenário internacional preocupa, há chance de reverter o caos que se desenha no horizonte. Todavia, para além do esforço político, será preciso investir muito em tecnologia. “Ainda não temos meios técnicos para reduzir a emissão de metano na produção de carne, por exemplo”, explicou Paulo Artaxo.

A ONU reconhece a relevância do papel de comunidades tradicionais e indígenas como aliadas no trabalho da conservação ambiental. No mundo, elas são responsáveis por manter em pé cerca de 40% de todas as áreas protegidas e mais de 65% das terras mais remotas e menos habitadas do planeta. Assim, a parceria entre ciência e tradição pode ser a chave para a contenção de uma resposta que a natureza, tendo como causa a humanidade, pode nos dar muito em breve.

FOME E SEDE

O cenário desolador apontado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)

** Entre 7% e 40% da superfície da Terra Já está degradada. A ação humana é a principal responsável por isso

** No caso do Brasil, 8% do território se encontra atingido por alguma forma de degradação

** A piora do solo deve reduzir a produção global de alimentos em 12% até 2100

** A cada elevação de 1 grau na temperatura do planeta haverá redução de 7,4% na produção de milho, 6% na de trigo, 3,2% na de arroz e 3,1% na de soja ** As áreas secas em todo o mundo devem aumentar 10% antes que o século termine. levando 700 milhões de pessoas a viver em regiões

GESTÃO E CARREIRA

O GUIA DO AUTOCONHECIMENTO – II

PROCURAM-SE LÍDERES MAIS HUMANOS

Por que o autoconhecimento é importante para a boa gestão

Um estudo, divulgado neste ano, em parceria entre a consultoria em desenvolvimento de lideranças Green Peak e a Universidade Cornell, ambas nos Estados Unidos, analisou a experiência, o estilo de gestão e os resultados de 72 executivos de empresas públicas e privadas e revelou o seguinte: os profissionais capazes de construir boas relações com e entre o time entregaram melhores resultados financeiros do que os que eram vistos como tiranos. Entre as explicações dos pesquisadores, a habilidade de compreender como se dá a interação dentro do time e a consciência das potencialidades e fraquezas de cada um (incluindo a si mesmo) permitiria ao líder montar uma equipe equilibrada e produtiva. Além disso, a curiosidade de olhar além das experiências pessoais e de se interessar pela realidade do cliente favoreceria a tomada de decisões assertivas e focadas em resultado.

Nas organizações, espera-se que o líder pratique e propague a cultura criando significados para os subordinados produzirem se sentindo engajados e valorizados em sua individualidade. Ser acessível, saber se comunicar e agir com transparência — inclusive em relação ao que não sabe e precisa de apoio do time —, em vez de distribuir e fiscalizar ordens e processos, são atributos de uma gestão moderna e autoconsciente. Porém, nem sempre há empenho por parte das chefias para olhar além de si mesmo, muito menos admitir a própria vulnerabilidade. Pesquisas mostram que, quanto maior o poder de um gestor, mais ele tende a superestimar suas capacidades (em comparação com a opinião dos subordinados).Ainda assim, o futuro aponta para profissionais conscientes de que o aprimoramento como pessoa é condição para criar e inspirar culturas organizacionais mais saudáveis e estafes mais eficientes. Em escolas de educação executiva de referência no mundo, como Harvard, Stanford e Yale, a arte vem sendo usada há algum tempo como recurso na formação desse tipo de liderança. A ideia não é exatamente usar pintura, escultura, teatro e música de forma lúdica ou para entretenimento, mas como objetos de análise e interpretação para levantar discussões sobre ética, racionalidade, inovação e liberdade. “A arte estimula novas formas de pensar, permite olhar as situações além do óbvio, desenvolver pensamento crítico e resgatar valores humanos, como generosidade, respeito e sensibilidade, tão importantes nos ambientes de trabalho”, explica o professor e pesquisador Ricardo Carvalho, especialista em arte e gestão da Fundação Dom Cabral

ALTO IMPACTO

Saber mais sobre você mesmo faz muita diferença nos assuntos abaixo

VALORES: Entender que há condições inegociáveis e esforços que você não está disposto a fazer quando o assunto é trabalho é um bom ponto de partida para tomar decisões com menos desgaste mental e emocional. O emprego permite trabalhar home office, mas a carga horária inclui fins de semana e feriados? O salário é bom, mas são muitas conduções e horas no trânsito para chegar ao escritório? Com autoconhecimento fica mais fácil dizer “não, obrigado” com convicção e evitar agir levado por motivações de curto prazo.

COMPETÊNCIAS: Após muito tempo numa função ou quando se está operando no piloto automático, é comum achar que você é bom apenas em certas tarefas ou que sabe fazer as coisas de um único jeito. Só que não. Manter o olhar atento e generoso para suas habilidades é uma forma de ampliar a visão que tem de si mesmo e seguir sempre estimulado. Inclua nessa investigação capacidades que tem fora do ambiente de trabalho — muitas delas podem ser empregadas no contexto profissional —, assim como a opinião de terceiros sobre suas qualidades. Aprenda também a separar o que você realmente é do que gostaria de ser — eis uma cilada frequente. Ter essa imagem clara a seu respeito é útil, inclusive na hora de preparar uma descrição realista em um currículo ou entrevista de emprego.

PRODUTIVIDADE: Conhecer sua personalidade e seus interesses é chave para desenhar uma rotina de trabalho fluida e eficiente. Serve, por exemplo, para descobrir se você desempenha com mais disposição e foco de manhã ou à tarde, na tranquilidade do home office ou interagindo no coworking, entre tantas outras escolhas que influenciam diretamente a rotina profissional.

RELAÇÕES: Quem enxerga bem a si mesmo, aceitando e acolhendo as próprias falhas, dúvidas e inseguranças sem cair no excesso de autocrítica, tende a ser mais tolerante com os erros e as inseguranças dos outros. Isso melhora a colaboração na equipe, aumenta o bem-estar e se reflete em resultados positivos. Mas não se trata de forçar o entrosamento ou achar que precisa se dar bem com todos daqui para a frente. Em ambientes com muitas personalidades é normal que nem todos os santos batam. E tudo bem, desde que o esforço seja pela civilidade e pelo respeito.

SAÚDE: Conhecer (e respeitar) os próprios limites, saber dizer não, ajustar expectativas em relação a si mesmo e aos outros. Essas atitudes, que vêm com a maturidade e o autoconhecimento, nem sempre são fáceis de colocar em prática, mas demonstram autocuidado e previnem males tão presentes no cotidiano profissional quanto nocivos para a saúde e a autoestima, como ansiedade, insônia, abuso de medicamentos, depressão e burnout.

VOCÊ SABE QUEM É DE VERDADE?

Reflita sobre as afirmações abaixo e, deixando o julgamento de lado, marque sim (S) ou não (N) de acordo com a percepção que tem de si mesmo. Peça a uma pessoa em quem confia e que considera que o conheça bem para também responder às questões com base na percepção que tem de você (e não dela mesma). Em seguida, compare os resultados. Aproveite as discordâncias para saber mais sobre a imagem e as impressões que vem transmitindo e detectar possíveis fontes de conflito (interno e no ambiente). Você deve usar   as informações como ponto de partida para definir mudanças de comportamento e caminhos para desenvolver o autoconhecimento

  1. Quando erro, sou capaz de reconhecer o erro. S ( ) N ( )
  2. Tenho clareza sobre o que me faz feliz. S ( ) N ( )
  3. Sei o que me faz bem e mal em meu ambiente de trabalho. S ( ) N ( )
  4. Sou flexível e adaptável a mudanças. S ( ) N ( )
  5. Tenho clareza sobre minhas metas pessoais e profissionais. S ( ) N ( )
  6. Reconheço padrões em meu comportamento. S ( ) N ( )
  7. Tenho consciência do impacto de minhas ações nos outros. S ( ) N ( )
  8. Meus valores e crenças orientam minhas atitudes. S ( ) N ( )
  9. Gosto de analisar a situação antes de tomar decisões. S ( ) N ( )
  10. Me relaciono bem com a maioria das pessoas no trabalho. S ( ) N ( )
  11. Sei quais são meus sabotadores de produtividade. S ( ) N ( )
  12. Não tenho dificuldade em pedir ajuda. S ( ) N ( )

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 10ESCREVENDO SUA VISÃO

Escreve a visão, grava-a sobre tábuas, para que a possa ler até quem passa correndo.Habacuque 2:2, ARA

Mais uma vez, nunca é tarde demais para escrever a visão que você tem para seu casamento. Sinta-se livre para escrevê-la e reescrevê-la até ter algo que seja nítido e fácil de entender. Uma visão clara lhe dará a energia que você precisa para correr até a linha de chegada.

Dedique algum tempo para conversar com seu cônjuge (ou futuro cônjuge) sobre a visão que vocês compartilham para seu casamento. Se você é solteiro, comece a documentar o seu lado da visão agora. Encontre um lugar onde possa sonhar. Seja específico quanto aos seus desejos e expectativas. Determine aquilo do qual não abre mão, e não tenha medo de sonhar grande! Essa visão será a estrela que o guiará nos dias que se seguirão.

O casamento é como uma corrida de longa distância na qual décadas separam a linha de saída e a linha de chegada. Muitos casais sonham em curto prazo. Eles sonham em comprar uma casa e criar uma família, o que são grandes alvos, mas nenhum deles os levará muito longe. Há muito mais. Continue sonhando!

Tenha em mente que você e seu cônjuge estão correndo juntos, e não competindo um com o outro. Você não pode completar sua corrida sozinho, por isso vocês precisam trabalhar como uma equipe. Se tiveram um começo difícil, sintam-se consolados por saber que a maneira como terminarão importa muito mais do que a maneira como vocês começaram. Escrever seu plano é uma maneira de definir sua linha de chegada. Você precisa ter a visão à sua frente, para ter algo em direção ao qual possa correr.

Porque a visão ainda está para cumprir-se no tempo determinado, mas se apressa para o fim e não falhará; se tardar, espera-o, porque, certamente, virá, não tardará… o justo viverá pela sua fé. Habacuque 2:3-4, ARA

Sua visão inspirada por Deus irá adiante de vocês para forjar um caminho para sua realização. Se mantiverem seus olhos na visão, ela certamente irá se cumprir. Talvez, em alguns momentos, possa parecer que as palavras ditas por Deus não podem ser verdadeiras. O caminho trilhado por vocês pode levá-los a lugares onde não queriam ou esperavam ir. Confiem no processo. Deus sabe o que precisa ser retirado de vocês para que completem a jornada. O poder Daquele que inspirou sua visão os fortalecerá nos momentos de necessidade. Mas vocês precisam manter a visão diante de vocês.

Seu plano deve ser um documento vivo, que respira, que cresce com o tempo. Isso significa que ele deve incluir duas coisas:

UMA DEFINIÇÃO CLARA DO QUE NÃO SE PODE ABRIR MÃO

Certas convicções e compromissos proporcionarão a estrutura necessária para sua visão, coisas como “nosso casamento honrará a Deus” ou “colocaremos as necessidades do outro antes da nossa própria necessidade”. Essas são as coisas que vocês consideram inegociáveis. Elas nunca mudarão e não se deve fazer concessões sobre elas.

ESPAÇO PARA CRESCER

Ter um bom plano não significa ter respostas para todas as perguntas. Ele ajuda a dar clareza, mas somente Deus sabe tudo o que está diante de vocês. No entanto, vocês podem gradualmente descobrir aspectos do plano de Deus através da orientação do Seu Espírito. Com o tempo sua visão deverá se tornar mais clara e definida, adaptando-se para acomodar as vantagens e desafios de cada estação. Essas mudanças podem incluir a quantidade de tempo que investem na criação de seus filhos à medida que crescem ou as maneiras como vocês apoiam a carreira e o chamado um do outro.

EIS CINCO PASSOS PRÁTICOS QUE SUGERIMOS QUE VOCÊS DEEM PARA ESCREVER SEU PLANO DE CASAMENTO:

1. OREM

Peçam a Deus para preencher suas conversas, pensamentos e aspirações com o Seu Espírito.  Peçam a Ele para fornecer a estrutura de esperança que Ele deseja ver preenchida pela fé de vocês.

2. REÚNAM INSPIRAÇÃO

Colecionem versículos, artigos, histórias, fotos, letras de músicas, recortes de revistas e qualquer outra coisa que fale ao coração de vocês.

3. VÃO A UM LUGAR ONDE POSSAM SONHAR

Esse lugar não precisa ser refinado ou caro. Ele pode ser tão simples quanto o restaurante no fim da rua ou o banco do parque no seu bairro.

4. IDENTIFIQUEM SEUS OBJETIVOS

Sonhem grande! Não permitam que as circunstâncias atuais ou o passado limitem vocês.

Os tópicos a serem considerados incluem: finanças, criação de filhos, dinâmica familiar, desenvolvimento pessoal, crescimento espiritual, comunicação, descanso e recreação,     carreiras, responsabilidades domésticas, envolvimento na igreja, comunidade e muito mais.

5. DETERMINEM COMO ALCANÇÁ-LOS

Depois que tiverem estabelecido sua visão, façam uma análise: onde vocês estão agora em relação a onde querem chegar? Avaliem seu estado atual e montem uma estratégia dos padrões, passos ou mudanças que os colocarão – ou os manterão – no seu rumo.

Seu plano abrangerá diferentes estações da vida. Tendo seus objetivos em mente, responda a estas perguntas:

Como será nosso casamento quando estivermos… Casados sem filhos?

Criando nossos filhos? Criando adolescentes? Morando em um ninho vazio? Desfrutando nossos netos?

Em nossa última estação juntos?

Se você é solteiro, está namorando ou é noivo, como você pode se posicionar deliberadamente para ter o casamento que deseja no futuro?

Vocês estabeleceram objetivos quanto a finanças, criação de filhos e muito mais. Eles são objetivos maiores, mas serão sustentados pelos seus padrões, escolhas e hábitos do dia a dia. Pense nestas perguntas:

Como e quando vocês lidarão com seu orçamento mensal? Que tipo de férias vocês terão, e como vocês as planejarão?

Que tipos de atividades e entretenimento vocês desfrutarão juntos? Como você continuará a namorar seu cônjuge?

Como você resolverá as diferenças com seu cônjuge? Como vocês passarão tempo com seus filhos?

Como vocês disciplinarão seus filhos?

Vocês dois querem seguir carreiras fora de casa? Se for esse o caso, isso terá um impacto diferente nas diferentes estações do seu casamento?

Como vocês apoiarão a carreira um do outro ou outros objetivos maiores?

Que tipos de oportunidades educacionais vocês buscarão para si mesmos? E para seus filhos?

Que tipos de oportunidades recreativas estarão disponíveis para seus filhos? Como vocês apoiarão os interesses e talentos deles?

Como vocês investirão no seu bem-estar físico? (Exercício, descanso, nutrição, etc.)

Como vocês investirão no seu bem-estar espiritual?

Como vocês criarão seus filhos no conhecimento de Deus?

Como seu casamento e sua família beneficiarão o mundo que os cerca? (Sua igreja, sua comunidade, seu bairro, seus locais de trabalho, etc.)

Como mencionamos anteriormente, as especificidades do seu plano provavelmente mudarão e evoluirão à medida que vocês amadurecerem em sabedoria e adquirirem experiência. Não há problema algum nisso. Mas é essencial que estabeleçam uma estrutura para o plano de vocês e se comprometam com os padrões e valores que serão o alicerce para o que está por vir.

ESCALANDO O EVEREST

Imagine um casal entrando em um avião. Eles estão empolgados com sua viagem, mas não fazem ideia de para onde estão indo. Tudo que eles sabem é que esse avião os levará para uma grande aventura. Eles supõem que estão indo para um lugar quente, então só estão levando roupas de praia e alguns casacos leves caso esfrie à noite. Depois de muitas horas de voo, eles chegam ao seu destino – e descobrem que aterrissaram no Nepal. O que eles pensavam ser uma excursão tropical acabou sendo uma subida gelada ao Monte Everest. Está claro que eles não estão preparados para empreender uma jornada tão traiçoeira e arriscada, de modo que eles imediatamente voltam para casa.

Muitos encaram o casamento como uma viagem à praia, mas ele é mais parecido com escalar uma montanha: é recompensador e estimulante, mas é preciso trabalhar arduamente. E embora a ilustração possa parecer um pouco absurda, vale considerar que a taxa de mortalidade dos casamentos é vinte e cinco vezes mais alta que a dos alpinistas que escalam o Everest.

Por que os escaladores do Everest são muito mais bem-sucedidos do que os casados? Porque eles têm uma visão para sua jornada e sabem o que esperar. Eles não ficam chocados quando encontram ar rarefeito, temperaturas congelantes e ventos implacáveis. Infelizmente, muitos casamentos fracassam por causa das expectativas não realistas e da falta de visão. Vale a pena dedicar tempo agora para estabelecer seu plano para o futuro.

FAÇA BEM FEITO

À medida que sua história se desenrolar, Deus expandirá a estrutura da sua visão e acrescentará lindos enfeites a ela, mas Ele nunca profanará a vida que você está construindo com o seu cônjuge. As provações podem parecer tentativas de Deus destruir sua história, então você pode ser tentado a atacá-Lo verbalmente em meio à ira ou às frustrações. Mas saiba que Deus não é o autor das suas provações, e Ele faz com que todas as coisas cooperem para o seu bem (ver Romanos 8:28). Sua graça e Seu Espírito nunca o deixarão, e Ele prometeu que nunca permitirá que você passe por uma provação que não possa vencer.

…Deus é fiel; Ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar. Mas quando forem tentados, Ele mesmo lhes providenciará um escape, para que o possam suportar. 1 Coríntios 10:13

Talvez você às vezes se sinta como se tudo estivesse desmoronando, mas se você se agarrar à esperança, poderá resistir às tempestades. No fim de tudo, você ouvirá as palavras do Mestre dizendo:

“Muito bem, servo bom e fiel! …” Mateus 25:23

Não é interessante que o Mestre diga “muito bem”, e não “perfeito”? Nenhum de nós faz nada nesta vida com perfeição. Mas podemos ter uma vida e um casamento que sejam muito bem vividos. Isso significa termos casamentos saudáveis e marcados pela humildade, aprendendo com nossos erros e prosseguindo na graça de Deus para receber o Seu melhor. Se você escolher andar nesse caminho, seu casamento fará mais do que simplesmente sobreviver. Ele florescerá. Deus o ajudará.

Desejamos que cada um de vós mostre o mesmo zelo até ao fim, para completa certeza da esperança; para que não vos torneis indolentes, mas sejais imitadores dos que pela fé e paciência herdam as promessas. Hebreus 6:11-12, ACFDeus quer que você receba as promessas que Ele tem para seu casamento. Reivindique a esperança concedida pelo Espírito Santo. Seja paciente com seu cônjuge e tenha fé naquilo que seu casamento pode se tornar. Você ficará impressionado com o que Deus pode fazer em duas pessoas imperfeitas e através delas. Deus tem paixão por construir casamentos cujas maiores histórias estão relacionadas à maneira como terminam, e não à maneira como começam

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O HOMO DEMENS NA REDE

Usando a inteligência artificial (IA) para colocar o rosto de uma pessoa no corpo de outra, os vídeos deepfake já são uma ameaça a demandar intervenções governamentais

Os vídeos são absolutamente convincentes, num amplo espectro. Estrelas de cinema já tiveram seus rostos adicionados a outros corpos em filmes pornô, políticos foram e ainda são utilizados em filmagens e discursos falsos.

A realidade aumentada, por sua vez, é uma tecnologia que cria um ambiente de imersão, mesclando elementos computacionais e a realidade, onde se realizam atividades. Não é o mesmo que realidade virtual. O jogo Pókemon Go é um exemplo. Após o lançamento, o jogo alcançou rapidamente mais de 100 milhões de downloads!

“O homem é um animal racional”, aprendemos cedo na escola. É o único dotado de logos, segundo Aristóteles. A mítica da nossa racionalidade já foi duramente atingida pelo pensamento freudiano e sua postulação da sexualidade e das determinações inconscientes, e a era da computação lança mais luz sobre a força de captura do desejo que tem a virtualidade em suas muitas formas. Pois o que importa aqui não é o valor da tecnologia, mas seu poder. O de ser usada para afetar e manipular sentimentos e comportamentos.

Analistas têm destacado como a mídia digital vem matando a democracia com seus bots, animadores digitais etc. O debate entre o valor da de1nocracia direta (via mobilização das redes sociais pelos populistas) e democracia representativa seria exaustivo. O que cabe aqui examinar mais uma vez é como o Homo sapiens é igualmente o Homo demens.

Imagens, notícias, afirmações jogadas na rede tornam-se rapidamente “verdades”, independentemente de sua veracidade, por razões de aceitação sem senso crítico por parte do “consumidor usuário” das mesmas. É como um efeito manada. Assim é porque o usuário é capturado a funcionar como consumidor, a partir do seu desejo.

O místico e filósofo Gurdjief apontava que estaríamos todos numa espécie de estado de “adormecimento ” parcial, do qual seria necessário acordar. Nos anos 60 e 70, a psicologia da Gestalt sublinhava o trabalho na condição de Awereness, um aqui e agora pleno. W. Reich examinou a relação entre a neurose e a capacidade de contato. Ou seja, a nossa relação com a realidade e como esta é afetada pelas circunstâncias históricas – a nossa, pessoal, e as da sociedade – são antigas questões. Se o que vem acontecendo na política e na vida pessoal é parâmetro para se avaliar o nosso futuro, então o que temos pela frente é sombrio. A alienação, no sentido mais amplo, é o principal obstáculo à nossa sobrevivência. Sobrevivência como indivíduos.

NICOLAU JOSÉ MALUF JR. – é psicólogo, analista reichiano, doutor em História das Ciências, Técnicas e Epistemologia (HCTE/ UFRJ). Contato: nicolaumalufjr@gmail.com

OUTROS OLHARES

CORTINA DE FUMAÇA

O Brasil discute a regulamentação do cigarro eletrônico, visto como uma epidemia nos Estados Unidos

No ano em que completaria uma década como fumante, a radialista e executiva na área de audiovisual Luísa Campos, de 34 anos, moradora do Rio de Janeiro, descobriu o cigarro eletrônico — por meio da amiga de uma amiga que presenteou esta última com o produto. “Fui olhar aqui no Rio onde eu poderia comprar, não achei nada. Achei na internet”, contou Campos.

Havia vários motivos para a troca do tabaco enrolado em papel — que libera nicotina por meio da combustão e tem milhares de toxinas — pelo vaporizador — que prescinde da combustão para liberar a nicotina, substância responsável tanto pela sensação de prazer e alívio proporcionada pelo cigarro como pela dependência. “O cheiro do cigarro me incomoda muito. Quem fuma tem de fazer algumas adaptações na vida”, disse a radialista.

O outro fator era a saúde. Campos havia fumado por cinco anos, até 2013. Parou e voltou a fumar em 2015. Em janeiro de 2018 aderiu ao cigarro eletrônico como forma de reduzir danos. “Logo que comecei a usar o cigarro eletrônico não usei mais o normal. Foi um meio de parar de fumar quase instantâneo. Não quero dizer que é um milagre. Tenho amigos que não substituíram.”

O cigarro eletrônico, produto que começou a ser comercializado no final da década passada em países como os Estados Unidos e a Inglaterra, pode funcionar por meio de um vaporizador que libera a nicotina ou do tabaco aquecido, inserido no objeto por meio de cápsulas ou tubos. Números da Public Health England, agência de saúde pública ligada ao governo inglês, mostram que o cigarro eletrônico tem um potencial de danos de 5% em relação ao cigarro comum. Embora não conte com a mesma quantidade de toxinas de um cigarro comum e não precise de combustão, que, no cigarro comum, libera as substâncias tóxicas, sua comercialização é proibida no Brasil desde 2009 — quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um princípio de precaução, uma forma de “garantia contra os riscos potenciais que, de acordo com o estado atual do conhecimento, não podem ser ainda identificados”. Os termos para uma regulamentação do produto serão discutidos em 8 de agosto durante audiência pública em Brasília.

“Considerando que a toxicidade dos cigarros já é tão elevada, é relativamente fácil alguma coisa ser menos tóxica que os cigarros convencionais, mas nem por isso quer dizer que não represente ameaça à saúde humana”, afirmou o médico Alberto José de Araújo, coordenador da Comissão de Combate ao Tabagismo da Associação Médica Brasileira. “A enorme variedade de sabores, as diferentes composições e emissões tóxicas dos cigarros eletrônicos e aquecidos indicam que uma eventual liberação de sua comercialização deveria ser realizada caso a caso, e não de forma ampla, sem considerar as diversas formulações, tipos e voltagens aplicadas.” Para Araújo, “os benefícios dessa proibição (da Anvisa) foram maiores e mais significativos que os supostos e não comprovados benefícios da liberação desses produtos”.

Ainda assim, o cigarro eletrônico vem sendo utilizado como forma de redução de danos no combate ao tabagismo, ao lado de outras estratégias, como os adesivos que liberam nicotina. Um estudo publicado em 2019 na revista científica The New England Journal of Medicine , realizado por pesquisadores do Reino Unido e dos EUA, mostrou que entre aqueles que utilizaram o cigarro eletrônico como um meio de abandonar o cigarro 18% tiveram sucesso, enquanto entre os que usaram outros métodos para substituir a nicotina, como os adesivos e chicletes, o sucesso foi de 10%. No entanto, 80% dos que utilizaram cigarro eletrônico continuaram a consumi-lo, enquanto apenas 9% daqueles que usaram outros produtos permaneceram com eles. “É uma questão que a literatura médica ainda discute”, disse André Nathan, especialista em tabagismo e médico no Hospital Sírio-Libanês. Segundo o pesquisador, embora o cigarro eletrônico seja “uma via mais limpa” que o cigarro comum, deve-se atentar para seu uso como forma de reduzir danos do tabagismo. “Ainda não temos dados que provem que ele seja efetivo.”

Nos EUA o cigarro eletrônico é hoje considerado uma epidemia entre os jovens. De acordo com um levantamento feito a partir de seis estudos com mais de 91 mil participantes, adolescentes e jovens adultos que usam cigarros eletrônicos têm duas vezes mais chances de fumar cigarros comuns em comparação com aqueles que nunca usaram o produto. Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), órgão ligado ao governo americano, mostram que, entre adolescentes em idade escolar, o consumo de cigarros eletrônicos aumentou 900% entre 2011 e 2015. Entre adolescentes no ensino médio, o uso cresceu 78%, de 11,7% para 20,8%, em dois anos. Em 2018, mais de 3,6 milhões de jovens americanos usavam o cigarro eletrônico.

Na Alemanha, pesquisadores também constataram maior incidência no consumo de cigarro convencional entre jovens que experimentaram o cigarro eletrônico. Segundo pesquisa feita com estudantes na faixa dos 12 aos 17 anos, os que experimentaram o cigarro eletrônico tiveram 2,2 vezes mais chances de se tornarem fumantes.

A professora Gisele Birman Tonietto, do Departamento de Química do Centro Técnico Científico da PUC-Rio, vê esse risco para o Brasil, caso a regulamentação do cigarro eletrônico, por exemplo, não atinja a propaganda ao produto, como no caso dos cigarros tradicionais. “O que a gente está vendo no mundo é uma epidemia. O jovem que não fumava está suscetível ao apelo. Nós (brasileiros), que somos referência em antitabagismo, não queremos jogar fora o trabalho (voltado à redução do tabagismo).”

Para a gerente sênior de Relações Científicas da Souza Cruz, Analúcia Saraiva, “o maior risco que o Brasil está assumindo é não regular a categoria”. Ela citou o caso americano como exemplo das consequências da falta de regulamentação. “Quando (a substância) não é regulada, quando não existe, por exemplo, uma idade mínima para adquirir esses produtos, aí sim esse risco (de epidemia) existe”, afirmou. “O vapor do cigarro eletrônico não é um vapor de água. Ele contém nicotina. Se não tiver nicotina, o consumidor não vai migrar para esse produto. O benefício é, justamente, que o fumante deixe de consumir o cigarro tradicional, que traz essa série de substâncias geradas durante a combustão, e migre para um produto de menor risco.”

Na opinião de Fernando Vieira, diretor de assuntos externos da Philip Morris Brasil, é preciso “ter uma regulamentação que não exponha os não fumantes e os menores a esse tipo de produto. A Anvisa, ao regulamentar, pode ser bem proativa nesse sentido”. A Philip Morris anunciou no ano passado que deixará, futuramente, de produzir os cigarros comuns e terá como um de seus focos os cigarros eletrônicos.

Luísa Campos, que fumava de sete a oito cigarros por dia e, sempre que viajava, levava uma mala três vezes maior que a que leva hoje, devido ao cheiro da fumaça do cigarro, pretende, ainda, deixar de fumar. “O ideal é não ter nada que nos amarre. Não podemos negligenciar a questão do cigarro.”

A discussão em torno do uso do cigarro eletrônico como forma de reduzir danos do tabagismo ocorre em um momento em que a redução de danos deixa de ser a diretriz do Ministério da Saúde para o combate ao uso abusivo de drogas e à dependência química, voltando-se, novamente, à busca pela abstinência — por meio da internação.

Para o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que trabalha com redução de danos desde 1991, a atual política do governo federal é “um retrocesso” que coloca o Brasil em uma situação comparável à de países islâmicos. “Na melhor das hipóteses, 30% (dos dependentes) conseguem realmente largar a droga. A redução de danos entra justamente para esses 70% que não conseguiram a abstinência”, disse. “Quando você coloca um indivíduo num programa de redução de danos a médio prazo, ele consegue a abstinência. A redução de danos não se contrapõe à abstinência. É um jeito de dar mais tempo para a pessoa consegui-la.”

O psicólogo Maurício Cotrim, especialista em dependência química, vê na redução de danos um meio para chegar à abstinência, e não um fim para o combate do uso abusivo de drogas e outras substâncias. “Trabalho buscando a abstinência. Senão ficamos enxugando gelo. Os casos de sucesso que conheço são das pessoas que tentaram a abstinência. Senão vira prorrogação de danos.”

Dependente químico “em eterna recuperação”, Cotrim, filho de pai alcoólatra, experimentou álcool ainda na infância. Foi a porta de entrada para substâncias ilícitas, que usou a partir dos 10 anos. Passou por diversas tentativas de tratamento — inclusive religiosas. “Aos 17, pedi ajuda, fui internado.” Deixou a clínica seis meses depois. Teve recaídas. “Fiquei limpo de vez aos 18 anos.” Mantém-se assim há 24 anos.

GESTÃO E CARREIRA

O GUIA DO AUTOCONHECIMENTO – I

A competência essencial para ser feliz e realizado no trabalho está dentro de você, à espera de ser explorada. Veja por onde começar essa jornada e descubra como ela pode ser transformadora

Muitas qualidades e competências são fundamentais para pavimentar o caminho até o sucesso profissional. Acima de todas, porém, existe uma habilidade da qual as outras dependem para serem colocadas em prática de forma efetiva: o autoconhecimento. Ele é indispensável para o profissional do século 21. De acordo com o relatório mais recente do Fórum Econômico Mundial sobre o futuro do trabalho, aptidões como criatividade, colaboração, flexibilidade, pensamento crítico, capacidade de trabalhar sob pressão e resolver problemas complexos serão obrigatórias para evoluir na carreira daqui para a frente. E o autoconhecimento é o ponto de partida para o desenvolvimento dessas e outras soft skills, como são chamadas as habilidades comportamentais. Não que algum dia ele tenha deixado de ser importante. Mas as transformações pelas quais o mundo do trabalho vem passando e as demandas das novas gerações de profissionais — trabalho remoto, freelancer e sem carga horária fixa, por exemplo — cada vez mais vão exigir boa capacidade de gestão de si próprio. “A responsabilidade pelos rumos da carreira está mais do que nunca nas mãos do indivíduo e menos sob responsabilidade da empresa”, afirma Wilma Dal Col, diretora do ManpowerGroup. “Ampliar a visão de si mesmo dentro e fora do ambiente de trabalho permite fazer escolhas mais alinhadas com o que você quer para a vida.”

O problema é que a maioria das pessoas não tem boa percepção de si mesma. Foi o que descobriu a psicóloga organizacional Tasha Eurich no livro “Insight — Por que não nos conhecemos tão bem quanto pensamos e como ter clareza de quem somos ajuda a alcançar o sucesso na vida e no trabalho” (numa tradução livre; ainda sem edição brasileira). Tasha ouviu quase 5.000 pessoas e descobriu que apenas de 10% a 15% acreditam se conhecer bem. Um índice preocupante, já que mais autoconhecimento está associado a índices mais elevados de satisfação no trabalho e nos relacionamentos, produtividade, autoconfiança e felicidade, além de menos estresse, ansiedade e depressão.

AS ETAPAS DA JORNADA

Alguns têm interesse natural por si mesmos e fazem da busca pelo autoconhecimento uma constante na vida. Outros podem ser surpreendidos por alguma situação difícil envolvendo saúde, dinheiro, família ou trabalho que os leve a querer ver sentido e encontrar saídas para o problema. “Ao mesmo tempo, a rotina automatizada, o excesso de estímulos no dia a dia e a ideia de que é preciso acelerar para se adaptar a tantas mudanças não poupa quase ninguém e leva à perda de consciência da própria vida e do que é preciso de fato para se sentir realizado”, afirma Edwiges Parra, psicóloga organizacional, coach executiva e fundadora da Emind Mente Emocional. Resultado: uma multidão de seres desconectados de quem são, do que estão fazendo aqui e do que desejam. Conhecer a si mesmo é uma investigação que tem início, mas nunca acaba. A seguir, mostramos quais são as cinco principais etapas para conhecer a si mesmo.

FAÇA AS PERGUNTAS CERTAS

O primeiro passo para tomar as rédeas de sua vida fazer questionamentos do tipo: “Estou feliz fazendo que faço?”, “Que atenção estou dando à saúde e a meus relacionamentos?”, “O que me dá prazer hoje?”, “Quanto espaço estou reservando para isso no meu dia a dia?” “Preferia estar fazendo outras coisas?”, “O que me deixa desmotivado?” O objetivo é conectar-se, focar o que está acontecendo no presente e detectar possíveis conflito e fontes de insatisfação. Mas vale saber que não é preciso estar passando por uma crise para decidir buscar autoconhecimento — ao contrário, saber mais sobre si mesmo é uma forma de evitar que a crise apareça.

Nesse exercício, a psicóloga Tasha Eurich sugere que evitar se perguntar o porquê — por exemplo, “por que não consigo me dar bem com meu chefe?” ou “por que insisto em procrastinar?” — pode ser produtivo. Ela explica: “Primeiro, porque dificilmente se chega a respostas úteis, já que o mais provável é que, inconscientemente, acabemos ‘inventando’ explicações que no pareçam satisfatórias”, diz. “Além disso, tentar entende os porquês tende a gerar pensamentos ruminativos, que levam mais para o passado do que ajudam a entende o que está ocorrendo no presente. É por isso que pessoas com perfil muito analítico tendem a sofrer mais de ansiedade e depressão.”

PEÇA FEEDBACK

Somos o resultado da soma do que sabemos sobre nós mesmos com a maneira como o mundo (formado por nosso círculo de relações pessoais e profissionais) nos enxerga. Dar ouvidos ao feedback externo, portanto, leva a uma consciência maior de quem somos — afinal, todos temos pontos cegos na personalidade, que dificilmente enxergamos sozinhos. Além disso, o exercício nos torna mais empáticos, ou seja, capazes de compreender o outro e ver as coisas pela perspectiva dele.

Observar nossas reações diante da opinião de terceiros também é parte da autoanálise e geralmente revela bastante sobre nós. Mas é importante acolher a visão do outro e olhar para si mesmo com menos julgamento e mais curiosidade e gentileza, tendo em mente que não é porque você age de determinada maneira hoje, por mais nociva que seja, que precisa ser assim para sempre. “Pensar desse modo diminui o impacto negativo que você gera sobre si mesmo”, diz a coach e psicóloga Edwiges Parra.

DEFINA O QUE PRECISA MUDAR

Com uma visão mais nítida de quem você é, do que deseja e de como vem agindo, é mais fácil definir quais aspectos deveriam ser desenvolvidos ou modificados no comportamento ou na rotina. Nessa fase, prepare-se para analisar hábitos, reações, convicções e modos de realizar suas tarefas. Questionar e se desapegar de atitudes e mentalidades que se tornaram padrões e já não servem a seu momento atual ou à meta que está buscando tem o mesmo efeito de tirar obstáculos do caminho de sua evolução.

Observar se seu “sistema operacional” interno possibilita, por exemplo, perceber se precisa mesmo madrugar para frequentar a academia todo dia (e morrer de sono antes do fim do expediente) ou se dormir mais e malhar à noite não o deixaria mais bem disposto e produtivo. Também ajuda a descobrir se precisa aprender a ouvir mais, se vem guardando boas ideias para você por falta de autoconfiança ou se está deixando de lado a vida social em nome da profissional. Em resumo, se está levando uma vida que faz sentido. Escolha uma meta por vez e trabalhe nela, celebrando seus avanços e avaliando o impacto real na rotina, em vez de querer mudar a vida inteira de uma vez — e acabar se frustrando e voltando à estaca zero.

ESCOLHA SEUS RECURSOS

A busca por autoconhecimento é pessoal e intransferível, mas contar com ajuda profissional durante o percurso, em vez de dar esse mergulho por conta própria (ou com auxílio de livros e aplicativos apenas), faz diferença. É mais ou menos como aprender a tocar um instrumento: você até pode conseguir sozinho, mas talvez demore mais e deixe de absorver lições importantes de quem tem mais experiência do que você no assunto.

Seu perfil e suas metas individuais devem orientar quais estratégias e ferramentas usar para descobrir mais sobre si mesmo. O coaching é uma alternativa quando o foco das mudanças é a carreira. Se a queixa for uma rotina desorganizada e improdutiva, dificuldade para se adaptar a mudanças no trabalho — como explorar com mais profundidade seus talentos ou organizar a vida financeira —, cliente e coach podem trabalhar juntos para detectar possíveis obstáculos, traçar metas e avaliar sua evolução ao longo das sessões (de dez a 15, em média).

É certo que não dá para evitar que dramas da vida pessoal afetem o dia a dia profissional e vice-versa, mas, quando os conflitos internos têm mais a ver com questões emocionais e me- nos com a performance no trabalho, o melhor é considerar a psicoterapia. Os prejuízos emocionais (tristeza, impaciência) e cognitivos (falta de foco, lapsos de memória) desencadeados por uma separação ou uma doença na família impactam a rotina no escritório, mas devem ser tratados no consultório do psicólogo ou psiquiatra. Questões como assédio e bullying também são caso de psicoterapia.

Meditar, praticar esportes, manter um hobby ou atividade que tragam prazer, e cuidar das relações próximas são estratégias que, além de aliviar tensões do dia a dia, favorecem a conexão consigo mesmo e com os outros e ajudam a compreender nossos padrões de pensamento e de comportamento.

REPITA O CICLO

O processo de autoconhecimento é uma investigação permanente. “O tempo e as experiências transformam nosso comportamento, necessidades e anseios, de modo que é importante revisitar nossas reflexões de tempos em tempos e nunca perder o interesse em nós mesmos”, destaca Rafael Nunes, psicólogo, coach de carreira e líder de inteligência emocional na escola Conquer. Mudanças de cargo ou função no trabalho, assim como novos ciclos na vida pessoal tornam ainda mais importante voltar a se perguntar se você está satisfeito onde se encontra ou se é hora de refazer a rota.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 9 – O RESTAURANTE CHINÊS

Quando nos casamos, tínhamos um lugar especial aonde íamos para conversar sobre o nosso futuro. Era um pequeno restaurante chinês não muito longe do nosso apartamento. Havíamos terminado a faculdade há pouco tempo, e nosso orçamento era tão apertado que dividíamos um único prato de “frango mu shu” com uma panqueca extra e molho extra. Era um ambiente tranquilo e humilde, apesar de estrangeiro, que encorajava um jovem casal a ousar sonhar com terras e esperanças distantes enquanto tomavam chá.

Naquela época não sabíamos muito, mas tínhamos certeza de uma coisa: queríamos servir a Deus juntos com todo o nosso coração, nossa mente e nossa força. Desejávamos apaixonadamente viver bem e cuidar bem de nossa família. Posso dizer que não sabíamos ao certo para onde iriamos ou onde nossa vida terminaria, mas sabíamos o quanto queríamos viajar. Queríamos viver de tal maneira que Deus pudesse estabelecer um novo legado através de nós.

Eu (John) venho de um ótimo contexto familiar. Meus pais estão casados há mais de sessenta e cinco anos. Meu pai amou e supriu fielmente nossa família, e minha mãe é uma dona de casa clássica. Meus pais serviram de modelo para mim em relação a coisas maravilhosas, tanto no que diz respeito ao casamento quanto à vida, e serei eternamente grato pelo exemplo deles.

Eu (Lisa) venho de uma dinâmica familiar muito diferente. Os pais de John parecem perfeitos quando comparados à minha família, que foi arruinada por alcoolismo, adultério, comportamento abusivo, traição, ganância, perda e divórcio. Quando John e eu começamos nossa vida juntos, ficou óbvio que eu não tinha nenhuma compreensão prática do que era uma família saudável; mas eu tinha um anseio desesperado por fazer parte de uma família assim.

Enquanto conversávamos naquele restaurante chinês, sabíamos que queríamos ter um tipo de casamento diferente. Embora tivéssemos um respeito absoluto pela maneira como os pais de John conduziram seu casamento, aquele não era o modelo certo para nós. Ambos sabíamos que havia mais no casamento do que havíamos visto; havia um chamado divino sobre a própria instituição do casamento. O casamento não se resumia apenas a ficarmos juntos até o fim de nossas vidas; ele dizia respeito a construir um legado eterno através da nossa união. É claro que isso incluiria nossos filhos e os filhos de nossos filhos, mas também incluiria impactar inúmeras outras vidas.

Começamos a pintar uma visão para o nosso casamento. Fazíamos perguntas um ao outro, estabelecíamos parâmetros e sonhávamos tão grande quanto possível. Concordamos que nosso objetivo principal era servir a Deus juntos e honrá-lo com nossas escolhas. Tudo o mais teria de passar por esse filtro.

Ao longo de trinta e dois anos de casamento, passamos por estações nos quais o único motivo pelo qual escolhemos ficar juntos foi nosso compromisso de honrar a Deus. Houve um período em que eu (Lisa) não sentia amor algum por John, e John chegou a me dizer que não sentia amor por mim. Ele se lançou em uma agenda de viagens intensa enquanto eu ficava para trás, em casa, com nossos filhos pequenos.

Para ser sincera, eu não via esperança para o amor no futuro. Minha alma estava marcada por um período no qual fui muito ferida. Eu me sentia completamente abandonada tanto emocional quanto fisicamente. Se tivesse considerado o divórcio uma opção, eu teria tomado esse caminho com satisfação. Eu não tinha uma visão para o futuro do nosso casamento, apenas uma sombra desbotada do que ele poderia ter sido. A certa altura, cheguei a pensar: Deus, vou ficar neste casamento desde que Tu me prometas que não terei de viver com John no Céu. Eu me sentia muito só, e é difícil para as esposas de pastores compartilharem sua dor com qualquer pessoa.

Eu (John) também lutava naquela época contra a falta de esperança. Sentia que nada que eu fizesse estaria certo aos olhos da Lisa, e acreditava estar certo nesse pensamento devido à falta de respeito e às palavras duras que ela me dizia. Estávamos afundando rapidamente, e nenhum de nós via qualquer possibilidade do amor, do respeito e do carinho serem restaurados.

A dor emocional e espiritual daquele período parecia insuportável. Era terrível, mas foi apenas uma estação, e as estações mudam. O tempo do choro pode durar por uma noite muito longa, mas temos a promessa de Deus de que a alegria vem pela manhã (ver Salmos 30:5). Olhando para trás, aquele período parece surreal, como se tivesse acontecido com outro casal. Pela graça de Deus, permanecemos fieis ao nosso objetivo de honrar a Deus. Através do arrependimento genuíno pelo nosso egoísmo aliado à obediência à visão de Deus, vimos nosso casamento e nosso amor crescerem até se tornarem extremamente fortes.

Uma das forças motrizes que nos mantiveram seguindo em frente ao longo daquela estação difícil foi nossa visão de vida. Nós não a víamos como um período de setenta ou oitenta anos; nós a víamos através de uma perspectiva eterna. Setenta ou oitenta anos não passam de um piscar de olhos se comparados à eternidade. A Bíblia ensina que o que fazemos com a Cruz determina onde passaremos a eternidade; entretanto, a maneira como vivemos como crentes determina como passaremos a eternidade. Paulo escreve:

… Preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor… Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas, quer sejam más. 2 Coríntios 5:8, 10

Está claro que Paulo não está escrevendo sobre os incrédulos, pois quando os incrédulos estão ausentes do corpo, eles não estão na presença do Senhor. Ele está se dirigindo àqueles que entraram para a família de Deus por meio da graça salvadora de Jesus Cristo. Compareceremos perante Ele e prestaremos contas sobre as decisões que tomamos e a maneira como vivemos como crentes. O julgamento presidido por Cristo resultará em diferentes recompensas eternas ou perdas eternas, que irão variar desde termos o trabalho da nossa vida totalmente queimado pelo fogo até sermos eternamente recompensados por ele ou até mesmo reinarmos ao lado Dele por toda a eternidade. O conhecimento dessa doutrina fundamental nos manteve no caminho certo. Nenhum de nós queria prestar contas diante do trono de Jesus por ter profanado a Sua arte, que é a união do casamento. (Para saber mais sobre o Tribunal de Cristo, leia o livro de John Movido pela Eternidade.)

Depois do objetivo de honrar a Deus, nosso segundo alvo era estar mais apaixonados um pelo outro no fim de nossa jornada do que estávamos no começo. Esse objetivo nos compeliu a passarmos pelos tempos difíceis e amarmos um ao outro, mesmo quando não sentíamos vontade. C. S. Lewis escreveu:

O amor… é uma profunda unidade, mantida pela vontade e fortalecida deliberadamente pelo hábito, reforçada pela graça (nos casamentos cristãos) com a qual ambos os parceiros pedem e recebem de Deus. Assim, eles podem ter esse amor um pelo outro mesmo nos momentos em que não gostam um do outro.

Definitivamente houve momentos em que não gostávamos um do outro. Mas Deus nos deu graça para navegarmos por esses momentos difíceis, e Ele fará o mesmo por você. Gostamos um do outro e amamos mais um ao outro hoje do que no dia do nosso casamento – essa é a verdade! E esperamos crescer mais em amor a cada década que passa.

DEUS ESTÁ ANOTANDO TUDO

Enquanto escrevíamos nossos sonhos em guardanapos de restaurante, conversávamos sobre como criaríamos os filhos que não tínhamos. Discutíamos sobre como lidaríamos com a disciplina, as concessões, as tarefas e a divisão dos quartos. Falávamos sobre nosso legado e o impacto que nossas decisões teriam sobre nossos filhos e netos. Era importante para nós transmitir-lhes uma herança espiritual e financeira (ver Provérbios 13:22).

Imaginávamos nossa futura casa. Não era importante para nós ter uma casa grande ou elegante; queríamos que a nossa casa fosse aconchegante e calorosa, um lugar onde as pessoas se sentissem seguras assim que entrassem. Queríamos que ela fosse um lugar divertido aonde nossos filhos quisessem levar seus amigos.

Conversávamos ainda sobre o que acreditávamos que Deus havia nos chamado para fazer e sobre como nossos chamados afetariam a dinâmica do nosso casamento. Discutíamos os papéis desempenhados pelas mulheres e pelos homens. Determinávamos como administraríamos nosso dinheiro e ficaríamos livres de dívidas. Conversávamos sem parar até que olhávamos para o que tínhamos em nossas mãos e descobríamos que os rabiscos nos guardanapos haviam se transformado em projetos provisórios da vida que queríamos construir.

Gostamos de pensar que enquanto fazíamos nossos planos em pedaços de papel, Deus também estava escrevendo.

Depois, aqueles que temiam o SENHOR conversaram uns com os outros, e o SENHOR os ouviu com atenção. Foi escrito um livro como memorial na Sua presença acerca dos que temiam o SENHOR e honravam o Seu nome. Malaquias 3:16

Houve muitas coisas sobre as quais falávamos naqueles primeiros dias das quais Deus Se lembrou, mesmo quando já as havíamos esquecido, e Ele fez com que elas se realizassem. Deus registra as conversas que ocorrem entre aqueles que O temem. Enquanto você faz planos para um casamento que honra ao Autor da vida, o Céu toma nota.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 8 – CRENDO NO MELHOR

… Eu sou Deus… e não há nenhum como Eu. Desde o início faço conhecido o fim…Isaías 46:9-10

Parece falta de originalidade escrever que “não há outro como o nosso Deus”, mas frequentemente esquecemos o poder e a verdade dessa afirmação. Como filhos de Deus, somos convidados a nos tornarmos como Ele e a assumirmos Sua natureza. Pela fé, podemos nos tornar futuros formadores, moldando nossas vidas, nossos filhos e nossos casamentos declarando o fim desde o começo.

Procuramos deixar claro desde o começo que felizes para sempre não é algo que encontramos ao acaso; é algo que construímos deliberadamente. A próxima pergunta óbvia é: “Como construir meu final feliz?” Talvez você já tenha lido estes versículos muitas vezes, mas leia-os novamente:

Ora a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos… Pela fé entendemos que o universo foi formado pela Palavra de Deus, de modo que aquilo que se vê não foi efeito do que é visível. Hebreus 11:1, 3

Nosso objetivo é construir um felizes para sempre que ainda não existe, e a fé é o material de construção do que ainda não é realidade.

Deus acreditou em nós antes que fizéssemos qualquer coisa que fosse digna de crédito. Ele tem uma grande fé em você porque Ele tem uma grande fé em Si mesmo. Ele sabe que o poder Dele pode realizar qualquer coisa em sua vida. A única coisa que nos impedirá de desfrutarmos o poder engrandecedor de Deus é a incredulidade, que em última análise tem suas raízes no orgulho.

O orgulho se manifesta como arrogância ou extrema confiança na nossa própria capacidade. Também há uma forma mais sutil de orgulho, que se disfarça de autodepreciação. Em qualquer uma dessas formas, ele é uma recusa em abraçar tudo o que o poder magnífico de Deus comprou para nós através da obra consumada de Cristo na Cruz. Jesus morreu para tornar você extraordinário. “Podemos nos contentar”, escreveu C. S. Lewis, “em permanecer o que chamamos de ‘pessoas comuns’; mas Ele está determinado a colocar em prática um plano bem diferente. Recuar diante desse plano não é humildade; é preguiça e covardia. Submeter-se a ele não é arrogância ou megalomania; é obediência”.3 Abraçamos a vida fantástica que Deus nos oferece fazendo com que nossas opiniões estejam à altura da Sua provisão.

Você acredita que é digno de um grande casamento? Talvez algum dos seguintes pensamentos esteja assolando sua mente:

Tenho bagagem demais.

Não venho de uma boa família. Meus pais não venceram na vida. Já cometi erros demais.

Preciso me contentar simplesmente em sobreviver.

Caso não tenha notado, Deus ama um desafio. Mas a falta de fé limitará o alcance do poder Dele em nossas vidas. Ter uma revelação da Sua grandeza nos inspira a sermos confiantes Nele, enquanto ao mesmo tempo nos mantém humildes. A humildade abre a porta para o melhor de Deus em nossa vida. Isaías 55:8-9 declara:

“Pois os Meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os Meus caminhos”, declara o SENHOR. “Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os Meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos, e os Meus pensamentos, mais altos do que os seus pensamentos”.

Você deve aceitar que Deus é mais inteligente, mais perspicaz e mais capaz do que você. “Em Deus”, escreveu Lewis, “você encontra algo que em todos os aspectos é imensuravelmente superior a você”.4 Se deseja ter acesso aos materiais essenciais para construir um grande casamento, você precisa acreditar nisso.

Não importa qual achemos que seja o potencial do nosso casamento, Deus tem um sonho imensamente maior. Ele não apenas pensou muito a respeito dele, como também fez grandes planos.

“Porque sou Eu que conheço os planos que tenho para vocês”, diz o SENHOR, “planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro”. Jeremias 29:11

Essa promessa nos apresenta duas escolhas: crer que essa afirmação é verdadeira e abraçar a visão de Deus para o nosso casamento ou presumir que Ele é um mentiroso. Quando Deus olha para o futuro da sua união, Ele vê a expressão do Seu Filho. A única maneira dessa visão se concretizar é receber a Sua graça (capacitação) através da humildade e da fé. Embora felizes para sempre seja algo que planejamos, não é algo limitado pela nossa própria força. É uma expressão do amor de Deus consumado pelo Seu Espírito operando por meio de nós.

Talvez você esteja pensando: Tenho certeza de que Deus desistiu do meu casamento. Não existe esperança para nós. Não temos quaisquer perspectivas para o futuro. Perdemos aquele sentimento de amor.

É possível que você se sinta assim porque agiu com base em suas próprias forças? Troque seus esforços e sonhos para seu casamento pelos sonhos de Deus. À medida que você confiar o seu casamento a Ele, Ele pegará seus sonhos, os encherá de vida, e plantará uma versão celestial dentro do seu coração.

Isso significa, maridos, que Ele os capacitará a amar suas esposas assim como Cristo ama a Igreja, abandonando todo egocentrismo. Esposas, da mesma forma Ele capacitará vocês a respeitarem seus maridos. Desse modo, ambos estarão preparados para crescer até a grandeza do casamento.

A Bíblia deixa claro que sem fé é impossível agradar a Deus (ver Hebreus 11:6). Por que Deus ama tanto a fé? Porque por meio da fé Nele recebemos poder para nos tornarmos como Ele, e não existe uma existência melhor do que uma vida semelhante a Deus. Ele tem prazer no seu prazer – e não estamos falando de uma felicidade passageira. O que estamos descrevendo é alegria, satisfação e realização duradouras. Deus quer o melhor Dele para seu casamento, e o melhor Dele só pode ser alcançado em uma união que encontra sua essência Nele.

O PROJETO

Fé e esperança geralmente são confundidas como sendo a mesma coisa, mas elas são diferentes. Se a fé é o material com o qual se constrói um grande casamento, a esperança é o projeto. Em outras palavras, a esperança é como um molde, e a fé é o que o preenche. Sem esperança, a fé é uma substância sem forma, praticamente tão útil quanto materiais de construção sem um projeto.

Você deve se lembrar de que Deus escolheu Abraão a dedo como aquele que receberia uma aliança com um objetivo específico: que Abraão instruísse seus descendentes nos caminhos do Senhor. Abraão não tinha filhos quando Deus o chamou para entrar nessa promessa, mas o Senhor lhe garantiu que ele seria o pai de uma grande nação.

Abraão era um homem de uma fé extraordinária, uma fé que a Bíblia descreve assim: “… não duvidou nem foi incrédulo em relação à promessa de Deus” (Romanos 4:20). E, no entanto, em Gênesis 15, vemos que ele lutou contra o desânimo antes de entrar na dimensão da fé.

… O SENHOR falou a Abrão numa visão: “Não tenha medo, Abrão! Eu sou o seu escudo; grande será a sua recompensa!” Mas Abrão perguntou: “Ó Soberano SENHOR, que me darás, se continuo sem filhos e o herdeiro do que possuo é Eliezer de Damasco?” E acrescentou: “Tu não me deste filho algum! Um servo da minha casa será o meu herdeiro!”

Então o SENHOR deu-lhe a seguinte resposta: “Seu herdeiro não será esse. Um filho gerado por você mesmo será o seu herdeiro”.

Levando-o para fora da tenda, disse-lhe: “Olhe para o céu e conte as estrelas, se é que pode contá-las”. E prosseguiu: “Assim será a sua descendência”.

Abrão creu no SENHOR, e isso lhe foi creditado como justiça. Gênesis 15:1-6

Talvez esperássemos que Deus desse a Abraão uma nova medida de fé. Mas em vez disso, Ele deu à fé de Abraão uma visão à qual se agarrar. Isso fortaleceu a fé dele dando uma base para a sua esperança. Deus convidou Abraão a sair de sua tenda para contar as estrelas. O céu noturno pintava um projeto estelar para sua fé enquanto as inumeráveis estrelas acima dele se transformavam nos rostos de filhos na tela da sua mente. Em vez de simplesmente dizer a Abraão que seus descendentes seriam incontáveis como as estrelas, Deus deu ao seu destino uma ilustração constante, vibrante e física. Através desse processo celestial no qual algo não apenas foi mostrado a Abraão, mas também dito, a visão de Deus foi impressa na imaginação dele.

Do mesmo modo, Deus quer usar sua imaginação para transmitir a visão que Ele tem para o seu casamento, pois onde há visão há esperança. Foi por isso que Paulo nos encorajou a expulsarmos qualquer imaginação que se levanta contra o conhecimento de Deus (ver 2 Coríntios 10:4-5). Você precisa proteger a tela de sua mente porque ela determinará a natureza e o valor dos seus atos. Pense na sua imaginação como uma prancheta de desenho para a esperança.

Deus prometeu nos encher de esperança, mas como podemos ter acesso a ela? É na oração que Seu Espírito gera em nossos espíritos a esperança superior:

[Oro para] Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança Nele, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo. Romanos 15:13

Deus é a nossa fonte de esperança. Se pedirmos, Ele nos encherá de alegria e paz, que é o que todos nós queremos para nossos casamentos. À medida que formos a Ele em humildade, transbordaremos de esperança pelo poder do Seu Espírito. Que promessa!

Provérbios 29:18 nos diz que sem visão pereceremos. Realmente, os casamentos sem uma visão dada por Deus são destituídos de vida. Então nós o desafiamos a sonhar grande! À medida que você se prepara para escrever seus sonhos e objetivos, ore para que Deus desperte o seu coração para o plano Dele.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

4 ATITUDES DOS CASAIS FELIZES

Ao contrário do que prega o imaginário popular, a vida a dois não é um desses presentes do universo que, uma vez alcançado, está garantido por tempo infinito. Mesmo com muito amor envolvido é preciso investimento emocional e requer o compromisso consciente de fazer dar certo. Alguns comportamentos facilitam muito essa tarefa

Manter uma relação longa e estável é uma tarefa trabalhosa. “É preciso tempo e esforço para compreender e apreciar a pessoa ao nosso lado”, deixa claro o psicólogo John Gottman, um dos maiores pesquisadores das relações amorosas no mundo. Professor emérito da Universidade de Washington, coordenou uma equipe que entrevistou casais ao longo de vários experimentos, alguns deles filmados. A análise dessas interações resultou em modelos, escalas e fórmulas para apontar fatores relacionados à estabilidade conjugal, o que valeu o popular apelido de love lab (laboratório do amor) ao Laboratório de Pesquisa Familiar liderado por Gottman. De acordo com o psicólogo, conflitos são inerentes a todo relacionamento. O que conta é a maneira de lidar com eles. “Um dos principais determinantes da felicidade em uma relação é a capacidade que ambos têm de reparar e sair de estados negativos”, diz. A seguir, algumas sugestões de Gottman em prol de uma melhor convivência e do fortalecimento do respeito e cumplicidade.

1. PEQUENOS GESTOS

Gottman constatou que casais felizes demonstram, em média, uma proporção de cinco interações positivas para cada negativa. “Isso praticamente saltou das páginas de análise de dados”, diz, explicando que essa relação é recorrente em relacionamentos, incluindo aqueles em que os envolvidos são bastante independentes, distantes ou críticos. Interações favoráveis podem ser gestos simples: “Um sorriso, um aceno de cabeça ou apenas um som para mostrar que está ouvindo a pessoa amada”, sugere o pesquisador. Também é importante estar atento ao hábito de agradecer pelas delicadezas, seja uma carona, um copo de água ou uma massagem nos pés. Em geral expressamos gratidão em relação a pessoas de quem somos socialmente distantes, mas às vezes deixamos de lado esse comportamento com aqueles com quem temos maior proximidade. Vale lembrar que gentilezas, nas atitudes ou palavras, favorecem a sensação de bem-estar.

2. O ENCONTRO NO MEIO DO CAMINHO

O psicólogo evoca o “equilíbrio de Nash”, conceito utilizado para compreender a lógica dos processos de decisão e ajudar a resolver conflitos de interesse na economia, na ciência política e na sociologia. Por muito tempo, foi amplamente aceita a ideia de que as negociações eram, em sua maioria, situações de soma zero, ou seja, para um ganhar o outro teria de perder. Nos anos 50, porém, o matemático John Nash provou, usando a teoria dos jogos, que havia outra proposta: em um contexto em que nenhum jogador pode melhorar a sua situação dada a estratégia seguida pelo jogador adversário, a melhor estratégia é não investir no prêmio maior. O princípio, também conhecido como equilíbrio cooperativo, rendeu a Nash um Prêmio Nobel em 1994. No campo dos relacionamentos, esse equilíbrio pode ser traduzido por cooperar para encontrar soluções parcialmente vantajosas para ambos e não apenas para uma das partes. Em outras palavras, quando na maioria das vezes os interesses do casal se sobrepõem aos individuais, os dois tendem a ficar mais satisfeitos.

3. OLHAR E ESCUTAR

“Buscamos chamar a atenção e o interesse da pessoa amada o tempo todo”, diz Gottman. Em sua pesquisa, ele descobriu que os casais felizes percebem essas investidas e retribuem em 86% das vezes. Os que se divorciam respondem apenas 33% do tempo nos sete primeiros anos de convivência. “É o momento em que optamos por ouvir nosso par desabafar sobre um dia ruim em vez voltar a atenção para a televisão”, exemplifica a psicóloga Dana R. Baerger, professora assistente de psiquiatria clínica e ciências comportamentais na Escola Feinberg de Medicina da Universidade Northwestern. “Temos a escolha, em qualquer interação, de nos conectarmos com nosso parceiro ou não. A constância da segunda opção pode, ao longo do tempo, corroer lentamente o relacionamento, mesmo sem haver um conflito claro.”

4. VALORIZAÇÃO DE ASPECTOS POSITIVOS

A observação de casais em suas casas revela que os indivíduos que se concentram nos aspectos desfavoráveis não conseguem enxergar ações positivas do companheiro. Uma característica nítida dos casais felizes é que procuram relevar os aborrecimentos e focar o lado agradável da relação. Não se trata de negar o que não está bem, mas sim de não dar espaço excessivo ao que incomoda e colocar de lado as experiências satisfatórias. “Se um dos dois acorda irritadiço em uma manhã de domingo, por exemplo, isso não é motivo suficiente para estragar toda a programação do dia, o que seria pouco vantajoso para ambos”, comenta Gottman. Ele alerta também para o risco de guardar mágoas e usar o ressentimento para ferir ao outro e a si mesmo. Em seus estudos, o psicólogo constata que os casais mais satisfeitos são aqueles em que ambos se esforçam para cuidar emocionalmente do parceiro.

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TECNOLOGIA DE VESTIR

Como os novos dispositivos “wearables” estão revolucionando a forma de se relacionar com o mundo e o próprio corpo

Pessoas que caminham pelas ruas e aparentam estar falando sozinhas, mas na verdade estão se comunicando com outras por meio dos óculos escuros. Crianças que parecem estar brincando no condomínio do prédio sem a supervisão de um adulto na realidade estão sendo atentamente monitoradas pelos pais por meio de seus relógios. Roupas que aparentemente estão apenas cobrindo a pele, mas fazem muito mais do que proteger o corpo e embelezar o usuário: monitoram a saúde e emitem alertas quando o nível de estresse está acima do normal. Esses itens lembram cenas de filme futurista, porém já fazem parte do dia a dia de muita gente e protagonizam o início de mais uma revolução tecnológica e comportamental. Os novos “wearables”, dispositivos tecnológicos de vestir, estão dominando o investimento em pesquisas das empresas e chegando com tudo no mercado. Apenas no Brasil, no primeiro trimestre de 2019, o número de vendas desses dispositivos cresceu 51,6% em relação ao mesmo período do ano passado. E as expectativas são bastante otimistas: estima-se que até o final do ano a alta deve ser de 91,3%. Os dados são de uma pesquisa realizada recentemente pelo IDC Tracker Brazil.

MUDANÇA DE HÁBITOS

Enquanto esses aparelhos estão trazendo bons retornos financeiros para as empresas pioneiras, do outro lado dessa cadeia estão os usuários cujos hábitos de vida já estão sendo transformados. É o caso da administradora de empresas Daniela Cuqui. Ela comprou para a filha Lorenza, de 8 anos, um relógio que se conecta com seu smartphone. Com um só aparelhinho, ela eliminou diversas preocupações. O objeto possui função GPS, então ela sempre sabe onde a filha está e ainda recebe um alerta se ela sair da área demarcada. E o melhor: o dispositivo está sempre preso ao seu pulso. “Dei um celular há um tempo para ela, mas ela tinha de ficar carregando e acabava esquecendo. Então comprei uma bolsinha para ela carregar o celular, mas também acabava deixando o acessório esquecido em um canto. Agora não tem como esquecer, e se ela tirar do braço eu também recebo um aviso no celular”, diz Daniela. Além de mostrar a localização da filha, o aparelho, que leva um chip próprio de uma operadora de telefonia, recebe e faz ligações para números previamente autorizados e ainda conta com botão SOS. Uma mão na roda para a mãe que trabalha e não tem como acompanhar a menina o dia todo. Além de Lorenza, sua filha mais velha, de 23 anos, seu marido, sua mãe, que mora sozinha, e suas irmãs também usam relógios inteligentes. “É uma segurança, nossa família toda está conectada. Todo mundo fica mais tranquilo porque sabe que todos estão bem”, diz ela.

Outro entusiasta dessa nova tecnologia é o advogado Flávio Schmidt, de 43 anos. Ele sempre viaja a trabalho para a Europa e para os Estados Unidos e aproveita a oportunidade para voltar com o que há de mais novo na área. Uma de suas mais recentes aquisições foram óculos que funcionam como fones de ouvido. Além de proteger os olhos, o item permite que ele ande de moto e faça exercícios sem se preocupar em carregar muitos objetos. Conectado ao smartphone via bluetooth, o equipamento é utilizado para ouvir músicas e fazer ligações por meio de comandos de voz e botões presos nas próprias hastes. “Parece uma trilha sonora, porque consigo ouvir o que as pessoas estão falando com som ao fundo. A gente tem a impressão de que a vida vira um filme”, diz ele. “Também é mais seguro, porque escutar o que se passa ao meu redor é fundamental para quem gosta de passear de moto”. Apesar de adorar os novos lançamentos, ele não os adquire no Brasil, mas apenas quando viaja. Devido aos altos impostos, os dispositivos chegam muito caros no País.

Esse é um dos motivos que faz com que muitos desses aparelhos, que já fazem parte da vida das pessoas em outros países, levem um tempo para chegar por aqui. Mas existem outros. “Muitos dos ‘wearables’ estão em fase de teste e só passam a ser exportados quando realmente são aceitos pelos usuários”, diz Edney Souza, Diretor Acadêmico da Digital House. Os relógios que monitoram a saúde são um exemplo disso. Após serem vendidos com sucesso para o mercado no exterior, eles chegaram com tudo no Brasil, e com diversas marcas. Além de já incentivarem os usuários a terem hábitos mais saudáveis, como caminhar e se movimentar, eles prometem vir com funções ainda mais aprimoradas. “Os pesquisadores estão conduzindo estudos em que os dados de batimento cardíaco coletados estão sendo aceitos como eletrocardiograma para identificar quem tem mais risco de problemas no coração. Em um futuro muito próximo, teremos menos pessoas falecendo em decorrência de um infarte”, diz Edney.

Marina Toeters, designer e pesquisadora em tecnologia fashion, organizou o livro “Unfolding Fashion Tech: Pioneers of Bright Future”, que reuniu 50 projetos na área, tanto em fase de protótipo quanto já disponíveis no mercado. De acordo com ela, as principais dificuldades para comercializar esses produtos são a aceitação do público e o preço de venda. Marina desenvolveu uma blusa que, por meio de finos sensores acoplados à blusa, coletam dados como batimento cardíaco e movimentos do usuário. “Eles ajudam as pessoas a se preocuparem mais com sua saúde e a relaxarem, enquanto podem continuar fazendo suas atividades”, afirma ela. O protótipo está sendo negociado com uma marca e deve chegar ao mercado em cerca de um ano. A ideia é produzir um volume de três mil unidades ao mês.

GESTÃO E CARREIRA

UMA CORTINA DE FUMAÇA?

Multinacionais tabagistas reinventam modelo de negócio e aumentam pressão para que autoridades brasileiras liberem os cigarros eletrônicos no país. O problema é que ainda não há consenso sobre os riscos da nova categoria para a saúde

Nos anos 60, quase metade (42%) da população adulta americana fumava. O cigarro era sexy, moderno, um ato de rebeldia contra a rigidez dos costumes. De James Dean a Bette Davis. De Audrey Hepburn a Marilyn Monroe. Do lendário agente secreto James Bond, de 007, à diva Rita Hayworth. A fumaça pairava sobre Hollywood — e sobre o resto do mundo que assistia a seus filmes. Seria impossível imaginar, sob a ótica daquela época, o revés que o mercado tabagista sofreria. No ano passado, segundo dados oficiais do governo dos Estados Unidos, o número de fumantes havia caído para 14%, cenário que se assemelha ao de diversos outros países. No Brasil, uma pesquisa do Ministério da Saúde mostrou que as pessoas com hábito de fumar passaram de 15,7% da população, em 2006, para 9,3%, em 2018 — redução de 40% em 12 anos.

Mas a centenária indústria do tabaco não está derrotada. Ao contrário. Na última década, iniciou uma revolução silenciosa que agora começa a fazer barulho. No ano passado, um dos gigantes do setor assumiu, inclusive, que pretende matar o fumo enrolado no papel.

O que nasce no lugar? Uma geração de produtos muito mais auspiciosos: os dispositivos eletrônicos para fumar (os DEFs, que também respondem pelos nomes e-cigarette, e-ciggy, e-cigar e vape). De modo geral, eles são movidos a bateria, têm piteira na ponta e um pequeno reservatório interno no qual se introduzem tabaco, ervas ou capsulas líquidas, que podem ser com ou sem nicotina. Em vez de queimar as substâncias, esses cigarros high-techs as aquecem. Isso, em teoria, diminui a exposição a agentes tóxicos e faz desses apetrechos uma alternativa menos maléfica para quem não consegue — ou não quer — parar de fumar. Esse, aliás, é o pulo do gato. No fundo, a mesma indústria que criou o problema (que mata 7 milhões de pessoas por ano no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde) agora quer emplacar uma solução. E seguir lucrando no século 21.

Em um vídeo intitulado A jogada por trás dos cigarros eletrônicos, o médico Dráuzio Varella afirma que existe uma intenção oculta nesse mercado em ascensão. “A taxa de fumantes vem caindo ano a ano. Por quê? Porque o adolescente fala: ‘Não vou fumar, cigarro faz mal, dá câncer, causa um monte de problemas’. Mas o eletrônico não, é só nicotina. Ele começa a fumar e, quando vê, está dependente.” De acordo com o oncologista, além de ter um design moderno, boa parte desses aparelhinhos permite inserir também essências, como de menta, chocolate e framboesa. “Para quê?”, questiona o médico. “Para tirar o gosto aversivo da fumaça e viciar as crianças. Não entre nessa. Ao fumar cigarro eletrônico, você está fumando a nicotina. E ela vai escravizá-lo. O que vicia não é o alcatrão nem as outras substâncias. O que faz alguém precisar de 20 cigarros por dia é a nicotina. E o cigarro eletrônico é só nicotina.”

Relatórios da Euromonitor, consultoria especializada em pesquisas de mercado, dizem que a mudança na lógica tabagista tem potencial para impactar mais de 1 bilhão de fumantes no mundo. A projeção é que o segmento eletrônico movimente 34 bilhões de dólares até 2021, um aumento de 176% em cinco anos. Em países como Japão e Inglaterra, onde a venda é legalizada, as fabricantes já investem pesado na nova modalidade. Por lá, suas lojas são tão tecnológicas que ninguém diz que ali se vende cigarro — e não computadores. Mesmo assim, elas negam glamourizar o ato de fumar. A Philips Morris, dona da marca Marlboro, usa o exemplo do Japão, onde os e-cigs são vendidos há quatro anos, para contestar a ideia de que os dispositivos atraem os jovens. Segundo a própria multinacional, 98% dos japoneses usuários de cigarros eletrônicos já eram fumantes antes, o que derrubaria o argumento de que são uma porta de entrada.

Seja como for, se esse mercado estivesse fadado ao fim, gente poderosa não estaria investindo nele. Em 2013, Sean Parker, cofundador da Napster, importante conglomerado de mídia e tecnologia, e Peter Thiel, fundador do PayPal, investiram na Njoy, startup de cigarro eletrônico, 10 milhões e 65 milhões de dólares, respectivamente. No final do ano passado, outro movimento sintomático. A Altria, maior tabagista dos Estados Unidos, comprou 35% da Juul Labs, criadora do Juul, o mais famoso e-cigar do mundo, na qual investirá 12,8 bilhões de dólares. No Brasil, no entanto, a virada do negócio esbarra na legislação. A partir de 2009, medidas firmes foram adotadas no país contra o tabagismo. Além da Lei Antifumo, que censura propagandas de cigarro e o proíbe em ambientes fechados, uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desautorizou a produção, a distribuição e a comercialização de quaisquer dispositivos eletrônicos para fumar. Mas isso não significa que o setor esteja de braços cruzados. As companhias de tabaco vêm aumentando a pressão para que as autoridades revejam a proibição. Em abril de 2018, na gestão de Michel Temer (MDB), houve um painel no auditório da Anvisa, em Brasília, para discutir possíveis alterações na regulação. Embora a maioria dos participantes tenha constatado que não há evidências científicas que autorizem a comercialização do fumo digital, o lobby persiste. Até o fechamento desta edição havia uma nova audiência pública marcada para agosto com o intuito de rediscutir a questão.

QUEIMANDO O VELHO NEGÓCIO

Polêmicas à parte, as empresas avançam. A British American Tobacco, proprietária da Souza Cruz no Brasil e fabricante de marcas como Dunhill e Lucky Strike, investiu 2,5 bilhões de dólares na categoria nos últimos sete anos. De lá para cá, seus 1.500 cientistas já publicaram 109 estudos sobre a modalidade e registraram 3.300 novas patentes, como a do iSwitch, vaporizador lançado em 2018 que carrega uma lâmina de aço inoxidável tão fina quanto um fio de cabelo. “Essa tecnologia libera o vapor de nicotina de forma mais eficiente, gerando 99% menos substâncias químicas indesejadas se comparada aos cigarros convencionais”, diz Analucia Saraiva, de 52 anos. Farmacêutica e mestre em química orgânica pela Universidade Federal Fluminense, ela é hoje uma das principais executivas da organização no Brasil. “Sou cientista de carteirinha e testemunha da transformação digital dessa indústria. Comecei de jaleco, na área de P&D, e hoje percebo a ciência em todos os departamentos.” Analucia cita drones mapeando plantações de tabaco, detectores de infravermelho monitorando insumo nas fábricas e sistemas de logística modernos para acompanhar entregas em tempo real. Há 25 anos na Souza Cruz, ela já passou pelos cargos de pesquisadora científica, gerente de assuntos corporativos e gerente de ciência e regulamentação para África e Oriente Médio, trabalhando em Londres. Hoje, ocupa uma posição tática: gerente de relações científicas. A função de Analucia é fazer interlocução com autoridades médicas e governamentais. E não se sente desconfortável com isso. “Quero que a informação chegue ao consumidor brasileiro. O mercado ilegal de cigarros eletrônicos é uma realidade por aqui e precisamos de uma regulamentação adequada.”

De modo geral, a defesa da indústria é que esses produtos são menos mortais. Quando o fumante pega o isqueiro e acende um cigarro, ele queima o tabaco. Essa combustão libera uma fumaça com mais de 4.000 substâncias químicas, cerca de 50 delas cancerígenas. No novo sistema, é possível, por exemplo, colocar um bastão de tabaco dentro do vape, que esquenta o produto sem gerar combustão, fumaça ou cinza. O sabor e o tempo de consumo são os mesmos: 6 minutos para 14 tragadas. “O conceito é parecido com o da Nespresso. Uma cápsula de tabaco que vai dentro de um aquecedor. Sem sabores ou atrativos, como aromas, que são a principal crítica de organizações antitabagismo”, diz Fernando Vieira, diretor de assuntos externos da Philip Morris no Brasil. Entre outras coisas, Fernando precisa convencer as autoridades brasileiras a liberar as cigarrilhas eletrônicas. Sua missão está alinhada à estratégia da companhia, que adotou o slogan Smoke-free future (“Futuro sem fumaça”, na tradução do inglês). O executivo fala com desenvoltura sobre o assunto. E diz que a orientação da matriz é debater o tema com transparência. “Nós não escondemos nada. Nosso produto eletrônico tem a mesma quantidade de nicotina do tradicional. Nem mais nem menos. Não é inócuo, mas é uma alternativa melhor. Tenho um pai com duas safenas. Gostaria que ele parasse de fumar ou tivesse acesso a produtos menos nocivos. Isso mudou minha dinâmica. Antes era trabalho, agora virou uma motivação.”

Há três anos, Fernando dialoga com membros da Anvisa sobre a necessidade de uma regulamentação. Ele reforça que a Philip Morris não é contra o combate ao tabagismo. O objetivo é oferecer uma solução de menor impacto aos 20 milhões de pessoas que ainda fumam no Brasil. A estimativa da empresa é que cerca de 6,6 milhões de adultos fumantes no mundo já tenham parado de usar a modalidade analógica e migrado para os produtos aquecidos, como o IQOS, carro-chefe da Philip Morris, à venda em 44 mercados.

CONTROVÉRSIA

O Public Health England (PHE), departamento de saúde do Reino Unido, divulgou em 2018 estudo no qual aponta que cigarros eletrônicos podem exercer um impacto positivo na saúde pública do país, uma vez que reduzem até 95% da fumaça tóxica, principal causa de mortes e doenças relacionadas ao tabaco. E recebeu uma enxurrada de críticas. O órgão está sendo acusado de fechar os olhos e ignorar evidências científicas. Parte das autoridades médicas, que divergem sobre a tecnologia ser menos nociva, afirma que uma série de pesquisas apontam para o lado oposto, revelando que a categoria eletrônica traz, sim, perigo às funções pulmonar e cardiovascular. “Há relatos até de maior incidência de convulsões entre adolescentes usuários de cigarros eletrônicos”, diz Stella Regina Martins, membro da Comissão de Combate ao Tabagismo da Associação Médica Brasileira e organizadora do e-book Cigarros Eletrônicos: O Que Sabemos? (disponível para download no site da Anvisa). Segundo ela, o discurso sobre a redução de danos é falacioso. “As substâncias que compõem esses cigarros estão classificadas no Grupo A da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, em que não há nível seguro de exposição. Ou seja, mesmo que existisse uma diminuição de 99,9% nas concentrações, ainda assim o risco de câncer permaneceria”, afirma.

Outro ponto aventado por médicos é que as vantagens para os adultos seriam ofuscadas pelo modismo entre os adolescentes. O caso da cigarrilha Juul é emblemático. Lançada há três anos nos Estados Unidos, ela virou febre entre estudantes — e uma dor de cabeça para a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora do governo. Conhecido como o “iPhone dos cigarros”, o aparelho tinha o propósito de ser uma opção menos danosa, mas virou um problema de saúde pública. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, o uso desses dispositivos aumentou 78% em um ano entre alunos do ensino médio e 48% entre universitários. O número de jovens usuários saltou de 2,1 para 3,6 milhões de 2017 a 2018.

Na avaliação de entidades antitabagistas, o caso americano é a prova de que não se deve mexer na atual legislação brasileira. “Proibir é uma forma de regular e de proteger crianças e adolescentes”, diz o pneumologista Alberto Araújo, presidente da Comissão de Combate ao Tabagismo da Associação Médica Brasileira e coordenador do Núcleo de Estudos e Tratamento do Tabagismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O médico faz, ainda, um alerta em relação ao cigarro 2.0: o de que ele não só não ajuda os fumantes a romper o ciclo do vício como ainda leva muitos deles a fumar os dois produtos juntos. No mês passado, a Organização Mundial da Saúde reforçou suas advertências. O órgão divulgou um relatório no qual desaconselha o uso dos eletrônicos para quem deseja parar de fumar. A instituição informa que, embora não existam estudos conclusivos sobre esses novos sistemas de administração de nicotina, eles são prejudiciais à saúde. No texto, o órgão afirma que, na maioria dos países onde estão disponíveis, os usuários acabam combinando a opção eletrônica com a convencional.

Foi o que aconteceu com Igor Bento, de 38 anos. Fumante há 20 anos, ele investiu 600 reais em um e-cigar importado. O intuito era abandonar o vício. “Eu queria substituir o cigarro tradicional e, aos poucos, ir diminuindo a frequência do eletrônico usando e-liquids com 5% de nicotina”, afirma o empresário de Teresina, no Piauí. Os e-liquids, também conhecidos como juices, são os fluidos que vão dentro de alguns desses dispositivos. Foram 40 dias de tentativa. “Tossia muito e engasgava. Procurei formas de regulagem em tutoriais online, mas não me adaptei. Como um não tirava a vontade do outro, eu acabava usando os dois”, diz. Agora, Igor fuma apenas o cigarro de papel, mas acaba de adquirir, numa viagem de férias à Europa, o polêmico Juul. “Vou testar para ver se é diferente.”

Hoje, as normas em vigor condenam a comercialização desses aparelhos para fumar, mas não legislam sobre o uso ou a posse deles, o que em tese não faz do fumante um infrator. Apesar de a venda ser proibida, diversos sites oferecem vapes e vaporizadores (aparelhos onde se podem aquecer ervas e essências). A própria reportagem comprou um desses modelos num conhecido e-commerce brasileiro. A encomenda chegou em dois dias, sem burocracia. “Há um mercado ilegal em expansão por aqui e a proibição não resolve o problema”, diz o publicitário Alexandro Lucian, de 38 anos, conhecido nas redes sociais como Hazard. Em 2015, ele abandonou o vício que manteve por mais de 15 anos com o auxílio de um vape. “Fumava três maços por dia. Se eu parei, acredito que essa tecnologia possa ajudar outras pessoas.”

Hoje, Alexandro é membro ativo de grupos e comunidades online de usuários de modelos eletrônicos e tem até um canal no YouTube sobre o assunto. “Não faz sentido permitir a venda em qualquer esquina do cigarro, que é extremamente prejudicial, e não dar o direito à alternativa.” Na visão dele, mais importante do que proibir, seria manter o controle rígido da propaganda, a fiscalização dos pontos de venda e o combate ao uso por menores, como já acontece com a outra categoria. Enquanto governantes, estudiosos e indústria não chegam ao consenso, a discussão segue aquecida. Pelo sim ou pelo não.

RESSURGINDO DAS CINZAS

*** 1,1 bilhão de fumantes devem ser impactados pelos cigarros 2.0

*** 34 bilhões de dólares é quanto os dispositivos eletrônicos para fumar movimentarão até 2021

*** 6,6 milhões de fumantes no mundo já migraram dos cigarros tradicionais da Philip Morris para o produto de tabaco aquecido da marca, o IQOS

*** 8 milhões fumam o Glo, e-cigarro da British American Tobacco, da qual a Souza Cruz é subsidiária, nos 30 países em que está autorizada a vendê-los

*** 12,8 bilhões de dólares é o valor que a Altria, maior tabagista dos EUA e dona da Philip Morris, pretende investir na startup de cigarros eletrônicos Juul

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O “AZAR” DE ADOECER

A má sorte pode ser levada em conta quando se estuda a incidência de câncer na população? Por incrível que possa parecer, um grupo de respeitados cientistas acredita que sim

Ao longo dos anos, o acaso tem desafiado a ciência. Recentemente, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins e da Escola de Saúde Pública Bloomberg, nos Estados Unidos, fizeram uma afirmação polêmica. Claro, há fatores ambientais a serem levados em conta, hábitos de risco, influência da alimentação e do sedentarismo e aspectos genéticos e biológicos. Mas, segundo os cientistas, a ocorrência da maior parte dos tipos de câncer pode ser atribuída, pelo menos em parte, à “má sorte”. Em um artigo publicado no periódico científico Science, estudiosos afirmaram acreditar que a explicação para esse fator aleatório está na maneira como os tecidos do corpo se regeneram.

A pesquisa revela que dois terços de todos os tipos de câncer analisados são originados por mutações genéticas e a explicação para essa alteração pode estar na maneira como as células se regeneram. O estudo que levou a essa conclusão tem o objetivo de explicar a razão de alguns tecidos do corpo serem mais vulneráveis ao câncer do que outros.

Células mais antigas e desgastadas são constantemente substituídas por células-tronco, que se dividem para formar novas estruturas celulares. Mas em cada divisão há o risco de que ocorra uma mutação anômala, que aumenta o perigo de aparecer um câncer. O ritmo dessa renovação varia de acordo com a região do corpo, sendo mais rápida no intestino e mais lenta no cérebro, por exemplo. Os pesquisadores compararam o número de vezes que essas células se dividem em 31 tecidos do corpo durante a vida média de uma pessoa com o índice de incidência de câncer nessas partes do corpo e concluíram que dois terços dos tipos de câncer seriam causados pelo “azar” de células-tronco em processo de divisão sofrerem mutações imprevisíveis. Apesar da observação, cientistas de todo o mundo ressaltam que um estilo de vida saudável aumenta muito as chances de uma pessoa não desenvolver a doença. Ou seja, favorece “a sorte” de se manter saudável.

MELHORES AMULETOS

Para a psicanálise não existe acaso – pelo menos não da maneira como estamos acostumados a considerar essa ideia. Sigmund Freud postula que somos conduzidos por nossos desejos inconscientes sem nos darmos conta deles. E, não raro, nos sentimos completamente à mercê das situações, imersos em certo grau de alienação. Porém, por meio da análise ou do próprio processo de amadurecimento, tendemos a nos apropriar de nossa história, nos tornando mais autônomos tanto para fazer escolhas e arcar com os resultados delas, quanto para aceitar, sem grande sofrimento, que não é possível ter tudo sob nosso controle. E não se trata de abrir mão dos próprios desejos porque não podemos dominar as consequências – pelo contrário.

A capacidade de receber de bom grado os benefícios que a vida oferece – sem desvalorizar “a medalha de bronze porque não é de ouro” – costuma perpetuar a sensação de satisfação. Nesse sentido, uma das maneiras mais eficientes de atrair a sorte está na escolha no nível racional, na opinião do psicólogo inglês Richard Wiseman. Professor da Universidade de Hertfordshire, na Inglaterra, ele trabalhou como ilusionista na época da graduação e, mais tarde, conduziu um complexo estudo sobre os mecanismos possivelmente relacionados à sorte. Segundo Wiseman, desenvolver conscientemente o hábito de nos atermos àquilo que nos faz bem, sem nos apegarmos excessivamente ao que provoca dor e desconforto. Para o psicólogo, o empenho em ser saudável e a confiança de que merecemos essa oportunidade são bons amuletos contra o “azar” da doença.

OUTROS OLHARES

A EDUCAÇÃO VEGANA

O pioneirismo das escolas brasileiras em trabalhar o tema “veganismo”, com base em Filosofia, e as vertentes por detrás desse movimento

Definimos no Brasil a educação vegana como uma ação direta pedagógica crítica e autocrítica, cuja missão é levar a teoria dos direitos animais e todo o debate ético animalista, assim como sua aplicação, prática, o modo de vida vegano ao conhecimento de toda a população.

Para entendermos essa questão, é preciso dizer que tudo isso teve início em 1944, em Londres, quando um grupo de dissidentes da Vegetarian Society, funda a Vegan Society e cunha o termo “vegan” para se referir à pessoa que busca no seu dia a dia abolir tudo que advém do uso e da exploração dos animais não humanos. Essa ideologia passou a se chamar “veganism” (veganismo).

Nesses 75 anos de existência, o veganismo adquiriu uma solida fundamentação filosófica. As bases teóricas desse modo de vida tiveram seu início – poderíamos dizer – com o surgimento do Grupo de Oxford. Assim foi chamado, informalmente, o grupo de estudiosos de diversos campos que levantaram, na década de 1970, na Inglaterra, uma série de questionamentos críticos aos mais diversos usos que os humanos fazem dos animais não humanos, em especial para experimentação científica e para alimentação. Inspirados na obra de Ruth Harrison, “Animal Machines” de 1964, os membros do Grupo de Oxford começam a editar argumentos filosóficos em defesa da expansão do círculo moral para além da espécie humana.

As obras pioneiras foram, do casal Stanley e Rosalind Godlovitch e John Harris, chamada Animals, men, and Morals (1971); de Rosalind Godlovitch, Animais and Morais (1971); de Peter Singer, Animal Liberation (1973); de Richard Ryder, Victims of Science (1975); de Tom Regan, “The moral basis of vegetarianism” (é um ensaio, 1975); de Andrew Linzey, Animais Rights: a christian perspective (1976); de Tom Regan e Peter Singer, Animal Rights and Human Obligations (1976); de Stephen Clark, The moral status of animais (1977); de Michael Fox e Richard Knowles, On the fifth day: animal Rights and human ethics (1978); de Peter Singer, Practical Ethics (1979); de David Paterson e Richard Ryder, Animais Rights: a symposium (1979). Nesse mesmo período, importantes revistas acadêmicas dedicaram edições à questão do status moral dos animais não humanos: Ethics (jan/1978), Philosophy (out/1978), Inquiry (verão de 1979) e Etyka (1980).

A partir daí, durante as décadas de 1980 e 1990, a literatura sobre essa temática aumentou assustadoramente. Dentro das mais diversas correntes éticas tivemos o surgimento de filósofos escrevendo defesas da ampliação do círculo moral para incluir os animais não humanos, como pessoas, como sujeitos de suas vidas, como indivíduos conscientes de seus prazeres e sofrimentos. Filósofos utilitaristas, neokantianos, eticistas das virtudes neoaristotélicos, eticistas do cuidado, entre outras vertentes.

Diferentemente do que ocorre nos EUA e na Europa, onde a educação vegana é apenas uma frase dita em panfletos de ativistas veganos, no Brasil, de modo pioneiro, a educação vegana foi aplicada em diversas escolas. O Brasil é o único país do mundo onde professores de Filosofia, Biologia, Educação Física, Física, Matemática, Sociologia introduziram em sala de aula as questões éticas levantadas pelos filósofos animalistas. Porém, são nas aulas de Filosofia, nas quais a temática é mais desenvolvida, devido ao fato de terem sido os filósofos que a elaboraram. Isso facilita ao professor de filosofia, pois tanto no currículo escolar oriundo dos PCNs quanto no livro didático, ele encontra os principais tópicos que levam a esse debate ético contemporâneo.

Nas aulas de Filosofia no ensino médio brasileiro, nas escolas onde a temática foi trabalhada, o professor de Filosofia, ou “educador vegano” como também é chamado, pode desenvolver os debates no campo ético por três vias: primeira, por temas (conceitos); segunda, pela História da Filosofia (em ordem cronológica ou não) e, terceira, por autores (escolhendo quais pensadores apresentar).

A educação vegana demonstrará que a tradicional visão de que o humano é o único animal que pensa, que raciocina, que tem linguagem articulada, que usa instrumentos para modificar seu ambiente, que tem alma, que tem senso de justiça, que produz cultura; não se sustenta mais. Não só pelo recurso aos avançados estudos da Etologia Cognitiva pós-darwiniana, mas pelo debate ético realizado na História da Filosofia desde os gregos. As teses especistas, ou seja, as teses advindas da ideologia que defende a suposta superioridade dos animais humanos sobre os não humanos, comum em pensadores como Aristóteles, Tomás de Aquino, Descartes e Kant, serão contrapostas por vozes dissidentes do mesmo período. Por exemplo, o especismo da teoria cartesiana do “animal machine”, será contraposta pela belíssima defesa da senciência animal na “Apologia de Raymond Sebond” de Montaigne e pelas repostas de Voltaire a Descartes no Dicionário Filosófico e no Filósofo Ignorante.

Se o professor de filosofia ou educador vegano escolher ministrar suas aulas pela via temática/conceitual, podemos usar como exemplo, a questão da senciência. A senciência é o critério moral que iguala todos os animais. Para os animais que ainda não temos certeza se são sencientes, concedemos­ lhe o benefício da dúvida. Negar que os animais não humanos têm consciência da dor e do prazer, é negar a animalidade que nos configura. Em sala de aula, a senciência pode ser discutida a partir de vários filósofos e cientistas como: Pitágoras, Teofrasto, Plutarco, Montaigne, Voltaire, Primatt, Bentham, Nietzsche, Darwin, Peter Singer, Tom Regan, Bernard Rollin, Steve Sapontzis, Evelyn Pluhar, James Rachel e Antônio Damásio.

Se a forma da aula for escolhida pela via da História da Filosofia, sabemos que em todo livro didático de filosofia, temos um capítulo dedicado à Filosofia da Ciência. A partir da perspectiva da educação vegana, a problemática da experimentação animal é colocada tendo como objetivo refletir sobre os alcances e limites das ciências. Aristóteles herdou do pai que era médico na corte macedônica o fascínio pelas pesquisas zoológicas. O educador vegano não ignora o fato de que o Estagirita era um vivissector e anatomista, foto comprovado pelos detalhes com que descreve as composições dos animais em seus tratados biológicos. Em seu longo tratado, História Animalium, encontramos as bases do que denominamos hoje de Psicologia Comparada, assim como, da Etologia Cognitiva. E como falar da experimentação animal sem passar pelo “pai” da filosofia moderna: René Descartes? As aulas podem ser ilustradas com um ótimo recurso cinematográfico que é o documentário chamado “Não matarás: os homens e os animais nos bastidores da ciência’: que conta com a participação de dois importantes filósofos dos direitos animais: a brasileira Sônia Felipe e o estadunidense Tom Regan.

A educação vegana pode ser desenvolvida nas aulas de filosofia pela terceira via, a apresentação de alguns filósofos. Devido ao pouco tempo de aula de filosofia nas escolas, infelizmente, a escolha acaba privilegiando uns e deixando outros de fora, o que não quer dizer que não podem ser citados, indicados como leitura extraclasse. A escolha normalmente é feita tendo em mente os filósofos da chamada Ética Animal ou dos Direitos Animais. Por exemplo, Peter Singer, autor de duas obras fundamentais dentro da perspectiva utilitarista, que são: Libertação Animal e Ética Prática. Singer desenvolveu o “princípio da igual consideração de interesses semelhantes’: cuja base é o critério da senciência. Se um animal não humano tem os mesmos interesses básicos que o animal humano, esses interesses não podem ser negligenciados apenas por que ele não pertencer a minha espécie. Isso seria especismo, um preconceito baseado na formatação biológica do indivíduo, como é o caso do racismo e do sexismo.

Ainda nessa terceira via, a educação vegana pode ser trabalhada pela perspectiva dos direitos. Nesse caso, o filósofo mais conhecido é Tom Regan. Regan é um conhecido deontologista neokantiano, e a sua teoria dos direitos animais foi estruturada em sua obra magna: The Case for Animal Rights. Regan se funda em Kant e na Declaração dos Direitos Humanos para propor que todos os animais sencientes devem ter direitos morais básicos. Devem ser reconhecidos como pessoas que são sujeitos – de ­ suas – vidas e devem ser respeitados por isso.

E por fim, ainda nessa terceira via, os pensadores neoaristotélicos também podem ser usados para que os alunos vejam a amplitude de perspectivas em defesa da expansão do círculo moral humano. Os filósofos mais conhecidos nessa linha de pensamento são: Stephen Clark, Rosalind Hursthouse, Martha Nussbaum, Daniel Dombrowski e Bernard Rollin. Esses pensadores vão resgatar conceitos aristotélicos como eudaimonia, aretê e telos. A educação vegana a partir dessa perspectiva tem como foco a formação do caráter moral humano. Mesmo que nas escolas, contraditoriamente, encontramos uma barreira à formação de uma segunda natureza moralmente excelente, ou seja, um habitus que nos possibilite buscar a realização de nosso telos eudaimônico sem com isso, impedir que o mesmo seja alcançado pelas outras espécies animais; é nesse ambiente que a educação vegana acredita, através de uma ação direta pedagógica, que as virtudes fundamentais para o viver uma vida boa, como: prudência, temperança, coragem, justiça, fidelidade, veracidade, amabilidade, simplicidade, responsabilidade e compaixão, devem ser introduzidas e trabalhadas.

Educação vegana é um outro olhar sobre nossas relações com os animais não humanos e com o meio ambiente que nos circunda, cuja base, é o diálogo crítico com toda a milenar História da Filosofia. Educação vegana é a prática da criticidade que caracteriza a Filosofia.

GESTÃO E CARREIRA

VOANDO ALTO

A MaxMilhas, que surgiu em 2013 e hoje tem 400 funcionários, desenvolve os empregados para o futuro

Encontrar uma maneira de economizar nas viagens foi o que levou o mineiro Max Oliveira a criar, em 2013, a MaxMilhas, que conecta consumidores que estão em busca de uma passagem aérea mais barata a pessoas que querem vender suas milhas e faturar uma grana extra. A ideia fez sucesso e, até hoje, a empresa já negociou 40 bilhões em milhas e emitiu 4 milhões de passagens — o que representa 160.000 voltas ao mundo em milhagem aérea. Para dar conta da demanda, a empresa aumentou o quadro. Nos últimos três anos, dobrou o número de empregados e, atualmente, 400 funcionários trabalham juntos no escritório da startup, em Belo Horizonte.

DENTRO DE CASA

Encontrar gestores com a cara da MaxMilhas era um desafio. Por isso, a empresa criou um programa de desenvolvimento de líderes. Com duas turmas por ano e aberto para qualquer funcionário com mais de seis meses de casa, o projeto dura 12 meses e foca habilidades comportamentais

A REGRA É CLARA

Os pré-requisitos para conquistar cada um dos cargos da startup estão estampados na parede. Duas vezes ao ano, todos recebem feedbacks do RH. Em 2019, 75 pessoas mudaram de cargo ou tiveram aumento de salário.

DIVERSIDADE

Apesar de não possuir políticas formais de inclusão, a empresa tem diversidade: 52% do quadro não se considera branco; 51% são mulheres (elas compõem 43% da liderança) e 11% se declaram LBGTI+ (há três transexuais).

TODOS JUNTOS

Nas datas de alta demanda por passagens de avião, como Black Friday e o dia mundial das milhas, todas as áreas ajudam a equipe de atendimento, que tem 200 pessoas. Até Max, o fundador, emite passagens.

ENTREVISTA COMPLETA

Na hora de contratar, a empresa checa não apenas a capacidade técnica, mas os valores do candidato — para verificar o alinhamento com a cultura. Há perguntas sobre racismo, privilégios e trabalho em equipe. Os que são aprovados passam para uma segunda fase, na qual desenvolvem um case que depois é apresentado aos gestores. Por fim, o time com o qual o candidato vai trabalhar valida, ou não, a contratação. O processo leva cerca de 15 dias.

CENÁRIO

O escritório é aberto e sem distinção de hierarquia. A decoração foi pensada para ajudar os funcionários a lembrar que estão numa empresa de viagem: Há um por – do – sol na recepção, uma sala de reunião que imita uma pista de pouso e nuvens no teto do andar principal.

NO RITMO

A pedido dos empregados, a MaxMilhas fez uma parceria com o lá da favelinha, grupo de dança que dá aulas semanais a um grupo de 20 funcionários — que até já realizou apresentações na empresa.

TROCA-TROCA

Uma vez a cada quatro meses, os funcionários trabalham na área de atendimento durante 4 horas. A ideia é estimular a troca de experiências, ampliando a noção de negócio. Desse projeto também saem inovações e melhorias em processos.

PENSANDO NO FUTURO

Além do curso voltado para a preparação de líderes, a empresa tem outro programa com foco no desenvolvimento de habilidades que serão importantes para o crescimento dentro da MaxMilhas, como resiliência e empatia. a participação é voluntária, mas 270 funcionários já passaram pelo treinamento, que é trimestral e dura 3 horas.

FOCO NA FORMAÇÃO

A MaxMilhas oferece aulas de inglês e espanhol para todos os funcionários e arca com 50% do custo. Além disso, a companhia subsidia um valor correspondente a até 20% do salário do empregado para outros cursos que auxiliem na carreira. Até dois funcionários do mesmo time podem estudar ou participar de eventos ao mesmo tempo. A aprovação fica por conta do gestor.

VAGAS

Cerca de 50 vagas até o fim do ano

COMPETÊNCIAS

A MaxMilhas busca profissionais colaborativos e que sejam capazes de se colocar no lugar do outro. Ter espírito empreendedor é importante, assim como disposição para aprender e evoluir

SITE PAR A ENVIO DE CURRÍCULO

maxmilhas.com.br/trabalhe-conosco

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 7 – FILHOS DE DEUS

Foi o Eterno que fez o casamento, não você. Seu Espírito permeia até os menores detalhes dessa união. E o que ele espera do casamento? Ora, filhos de Deus. Malaquias 2:15, A Mensagem, grifo do autor

“Filhos de Deus…”. É isso que Deus espera do casamento. Mas será que significa que Ele espera que tenhamos mais bebês para povoarem a Terra? Sim e não.

A passagem de Malaquias 2:15 não diz que Deus quer que o casamento produza filhos. Diz que Ele deseja que o casamento produza filhos de Deus. Deus deseja filhos – de qualquer idade – que O glorifiquem e andem nos Seus caminhos. Lembre-se de que somos Seus embaixadores. Seu objetivo é se revelar a nós e por meio de nós.

O Breve Catecismo de Westminster diz: “O objetivo principal do homem é glorificar a Deus, e desfrutá-Lo para sempre”. Amamos isso! Glorificar não é uma palavra usada por nós em nossa linguagem diária; devido ao seu uso frequente na Bíblia ela é vista como algo espiritual e distante. Mas glorificar significa simplesmente tornar Deus conhecido. O desejo de Deus é ser conhecido através das nossas vidas, casamentos e legados. E não existe catalisador como o casamento para nos transformar em filhos de Deus.

Mesmo se você nunca criar um filho, Deus quer usar seu casamento para transformar você em um filho de Deus. Ele quer refiná-lo, transformando-o em um agente da Sua glória, e moldá-lo à semelhança de seu Pai. Compartilhar sua vida com outra pessoa cria muitas oportunidades para nos tornarmos mais semelhantes a Deus. Descobrimos que, com muita frequência, um caráter temente a Deus não é desenvolvido em meio a oceanos de bênção. Ele é forjado na fornalha do fogo matrimonial.

Eu (John) assemelho o casamento a uma fornalha e nossas vidas a uma liga, ou mistura, de metal precioso. O que uma fornalha ardente faz com uma liga? Expõe suas impurezas. Minha aliança de casamento pode parecer ser feita de ouro puro, mas aproximadamente cinquenta por cento dela é composta de outras substâncias. Se eu colocasse minha aliança dentro de uma fornalha, essas impurezas seriam expostas. Do mesmo modo, os desafios que encontramos no casamento – desde os desentendimentos triviais até os momentos extremamente difíceis – revelarão impurezas em nossas vidas. (Algumas impurezas precisam de mais calor do que outras para serem reveladas.)

Quando o casamento revela implacavelmente nossas imperfeições, é fácil culpar nossos cônjuges. Afinal, nada disso acontecia antes de nos casarmos. Quando percebermos que estamos nos sentindo frustrados porque nossos cônjuges estão agravando nossas “fraquezas”, devemos agradecer a Deus porque o casamento está nos tornando mais semelhantes a Jesus. Não é esse o objetivo final?

ENCONTRANDO PROPÓSITO NOS TEMPOS DIFÍCEIS

Sabemos que nossa analogia com a fornalha não é empolgante, mas a jornada para um final feliz está longe de ser um conto de fadas. Às vezes a sua história pode parecer mais com uma escalada ao Monte Everest do que com a cena final de um conto de fadas.

Aqueles que desbravam as ladeiras cobertas de neve dos Himalaias para fazer a rigorosa e desafiadora jornada até o pico do Everest, devem fazer isso tendo duas coisas em mente. Primeiramente, devem saber que o empreendimento testará os limites de sua capacidade física e emocional. Esses homens e mulheres ousados não conhecem todas as particularidades dos perigos iminentes, mas sabem que desafios virão. Em segundo lugar, eles precisam se lembrar do seu objetivo: subir a montanha mais alta do mundo. Para eles, a vitória é claramente alcançada quando se atinge 29.029 pés acima do nível do mar. Sem a consciência desse objetivo, esses viajantes desistiriam rapidamente assim que encontrassem seu primeiro grande obstáculo.

O mesmo se aplica ao casamento. Se reconhecermos que os desafios são parte inerente da construção das nossas histórias, então não seremos esmagados quando nossas capacidades emocionais, físicas e espirituais forem testadas. Se começarmos – e construirmos – tendo o fim em mente, não desistiremos quando encontrarmos grandes problemas.

Ao ensinar sobre maturidade espiritual, Jesus disse que tribulação e perseguição viriam sobre aqueles que creem na Palavra de Deus (ver Marcos 4:17). No original grego, essas palavras são thlipsis e diogmos. Thlipsis é “transtorno que inflige sofrimento, opressão, aflição, tribulação”.1 Diogmos é “um programa ou processo projetado para perturbar e oprimir alguém”.2 Nenhum dos dois parece ser divertido, mas essas forças facilitam o nosso crescimento em Deus. Paulo repetiu as palavras de Jesus:

Também nos gloriamos nas tribulações [thlipsis], porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança. E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou Seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que Ele nos concedeu. Romanos 5:3-5

Paulo escreveu que devemos nos gloriar, ou seja, que devemos nos alegrar nas tribulações. Por quê? As tribulações geram uma oportunidade de desenvolvermos um caráter aprovado. Os problemas nos posicionam para nos tornarmos mais semelhantes a Deus. E podemos ter esperança no conhecimento de que Deus nos ama e quer sempre o melhor para nós – a ponto de nos ter dado Seu Espírito para encher nossos corações de amor, mesmo em meio às nossas maiores lutas.

A Bíblia também deixa claro que Deus não é o autor dos nossos problemas. Satanás é aquele que está por trás da tribulação e da perseguição (ver Marcos 4:15 e Tiago 1:12-13), mas Deus usa os estratagemas do inimigo contra ele. Nas mãos do grande Redentor, o que se destina a nos afastar de Deus se torna um instrumento para nos tornar mais semelhantes a Ele.

Lembre-se de que o inimigo odeia o casamento e tudo o que ele representa. Ele fará tudo que estiver ao alcance dele para dividir nossas uniões e perturbá-las com tribulações aparentemente insuportáveis. Ter uma visão para as nossas uniões – e a fé de que Deus nos fará atravessar as dificuldades – nos dá o poder da esperança para resistir aos ataques do inimigo. Deus não quer que meramente sobrevivamos aos ataques contra o nosso casamento. Ele quer que nos tornemos mais fortes por meio deles. A chave é lembrar por que estamos lutando (o propósito de Deus), contra quem estamos lutando (satanás), e quem está do nosso lado (o Espírito de Deus). Nossa fé e esperança realmente são fortalecidas através dos desafios – desde que não desistamos antes que Ele possa completar Sua obra em nós.

O “FELIZES PARA SEMPRE” DE JESUS

Jesus sofreu mais profundamente do que qualquer outro ser humano. Ele, o Deus perfeito, tornou-se como nós para sofrer a dor e a humilhação de uma morte injusta. Ele abriu o caminho para sermos reconciliados com Deus, mas a maior parte da humanidade ainda O rejeita.

Como Jesus foi capaz de suportar tamanha dor e rejeição? A resposta é simples, mas tremendamente profunda: Ele nunca perdeu de vista Seu “felizes para sempre”. No Seu exemplo, encontramos um modelo para escrevermos nossas histórias:

Mantenham os olhos em Jesus, que começou e terminou a corrida de que participamos. Observem como Ele fez. Porque Ele jamais perdeu o alvo de vista – aquele fim jubiloso com Deus. Ele foi capaz de vencer tudo pelo caminho: a Cruz, a vergonha, tudo mesmo. Hebreus 12:2, A Mensagem

Jesus resistiu porque sabia para onde estava indo. Ele olhou através do sofrimento e viu a promessa.

A Bíblia Nova Versão Internacional traduz esse versículo do seguinte modo:

… Corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que Lhe fora proposta, suportou a Cruz…. Hebreus 12:1-2, grifo do autor

Captou a ideia? “A alegria que Lhe fora proposta.” Jesus estava entusiasmado com a ideia de suportar a Cruz? Absolutamente não. Ele estava tão angustiado que passou a noite anterior à Sua execução suplicando ao Pai por um caminho alternativo. Mas Jesus tinha algo que falta em muitos casamentos. Ele tinha uma visão extraordinária. Ele podia ver além das circunstâncias ao Seu redor e visualizar o poder e a promessa que viriam através das Suas escolhas. E a atenção de Jesus estava voltada para que? Encontramos a resposta em Efésios 5:

Cristo amou a igreja e entregou-Se por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a Palavra, e para apresentá-la a Si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável. v. 25-27, grifo do autor

Somos o final feliz de Jesus. Nós fomos a alegria que estava diante Dele. Jesus suportou a Cruz para que Ele pudesse ser reconciliado conosco, Sua Noiva. A Igreja agora pode abraçá-Lo sem se sentir envergonhada por sua antiga condição miserável, pois Nele temos uma nova identidade. Esse é o tipo de perseverança, misericórdia e amor incondicional que deveria estar presente em nossos casamentos. Mas é preciso ter uma visão – uma esperança do que o casamento poderá ser – para nos sustentar em meio aos desafios.

O escritor de Hebreus continua com esta exortação:

Cruz. Quando sua fidelidade ao seu cônjuge estiver enfraquecendo, lembre a si mesmo da fidelidade de Jesus a você. Lembre-se de tudo o que Ele suportou para Se reconciliar com você. O exemplo Dele injetará adrenalina em sua alma!

Quando se sentirem cansados no caminho da fé, lembrem-se da história Dele, da longa lista de hostilidade que Ele enfrentou. Será como uma injeção de adrenalina na alma! Hebreus 12:3, A Mensagem

Todos nós nos sentimos fracos em nossa fé de tempos em tempos. É por isso que o escritor de Hebreus diz quando e não se vocês se sentirem cansados no caminho da fé. Um grande casamento requer uma grande fé, porque é a raiz de toda fidelidade. Quando seu casamento estiver tendo dificuldades, lembre- se do que Cristo suportou. Releia a história Dele. As suas dificuldades momentâneas, por mais dolorosas que sejam, não são nada se comparadas à Cruz. Quando sua fidelidade ao seu cônjuge estiver enfraquecendo, lembre a si mesmo da fidelidade de Jesus a você. Lembre-se de tudo o que Ele suportou para Se reconciliar com você. O exemplo Dele injetará adrenalina em sua alma!

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DO QUE OS BEBÊS SE LEMBRAM

A maior capacidade de memorização coincide com a aquisição progressiva das noções de tempo, espaço e de eu, por volta dos 9 meses; para pesquisadora, os pequenos captam e entendem grande parte de informações que recebem, mas não as absorvem por completo

Crianças pequenas memorizam. Se não se lembram de nada antes dos 3 anos é devido à dificuldade de reter as informações nesse período. Esse fenômeno intriga pesquisadores e tem suscitado pesquisas como as da neurocientista americana Patrícia Bauer, da Universidade Duke, e da psicóloga Lisa Oakes, da Universidade da Califórnia.

Os estudos revelam que na amnésia infantil o processo de esquecimento supera a capacidade de formação de memórias. Segundo Bauer, memórias são constituídas com base em complexa rede de estruturas cerebrais que se desenvolvem aos poucos, em diferentes regiões do cérebro infantil.

Entre 6 e 18 meses essas estruturas vão se ligando umas às outras. Nesse período os bebês adquirem grande habilidade para formar memórias de curto e longo prazo. Até os 9 meses, porém, as recordações são frágeis; perdem-se logo devido à imaturidade cognitiva. Já as crianças de 2 anos memorizam eventos por mais tempo. No lugar de lembranças de apenas um dia, recordam coisas experimentadas um ano antes. A maior capacidade de memorização coincide com a aquisição progressiva das noções de eu (aos 8, 9 meses), de tempo e espaço. Para Oakes, bebês captam e entendem grande parte de informações que recebem, mas não as absorvem por completo.

Os experimentos de Bauer incluíram testes com blocos ilustrados e medições eletrofisiológicas. Após observar como eram montados, os bebês imitavam a tarefa. A partir de então, recebiam os mesmos objetos. O objetivo era testar a duração da memória e até que ponto retinham a informação sobre a montagem do jogo. Já Oakes, levando em consideração que os bebês tendem a se ater mais a coisas novas que a conhecidas, mediu o interesse por objetos; quanto tempo retinham na mente aqueles anteriormente apresentados.

Segundo Lia Bevilaqua, do Centro de Memória do Instituto de Pesquisas Biomédicas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), isso demonstra que, ao contrário do que se acreditava, crianças com menos de 1 ano têm capacidade de evocar memórias episódicas e autobiográficas, e ao final do segundo ano de vida a habilidade para formar e expressar memórias de longa duração já está quase completamente desenvolvida.

OUTROS OLHARES

CONHECER PARA RESPEITAR

Um grande desafio para banir a desigualdade e a discriminação do cotidiano escolar

Nas considerações de Paulo Freire, “você, eu, um sem-número de educadores sabemos, que a educação não é a chave das transformações do mundo, mas sabemos também que as mudanças do mundo são um quefazer educativo em si mesmas. Sabemos que a educação não pode tudo, mas pode alguma coisa. Sua força reside exatamente na sua fraqueza. Cabe a nós pôr sua força a serviço de nossos sonhos.”

Faz-se necessário compreender a educação como transformação social, oportunizar aos nossos al unos desde a educação infantil serem sujeitos construtores da própria história. A escola deve educar para a vida desde bem cedo, daí a importância de se trabalhar na escola questões como: a desigualdade social, a discriminação racial e a diversidade cultural; oportunizando aos alunos a quebra de paradigmas desde cedo, reconstruindo valores e verdades a respeito do outro, respeitando as diferenças sociais, culturais e raciais no seu cotidiano.

É imprescindível, a escola atual, trabalhar de maneira eficaz a matriz africana no seu currículo. Pois a História africana, sua formação e delineamento da identidade cultural afro-brasileira, é de suma importância no cenário educacional, pois será interpretando e recriando as práticas de outras culturas, que os alunos irão ter possibilidades de conhecer e assim respeitar o outro.

Herdeiros de uma escola que sempre privilegiou, em grande parte de sua trajetória, conteúdos eurocêntricos, vivemos hoje a urgência de rever conteúdos e temas formativos em nossos bancos escolares. Dessa maneira, conhecer e refletir sobre os costumes e tradições, as práticas e as representações culturais, a mitologia e a religião, a linguagem e as escritas, a resistência e as lutas, a memória e a história do povo africano; assim ensinar, aprender, refletir e debater sobre as identidades, é um exercício fundamental para o combate à intolerância, à discriminação, à xenofobia, ao racismo.

A importância de se discutir tais questões no âmbito da educação é atestada pela amplitude e incidência de crimes e violência no Brasil. Estes ocorrem no contexto de uma história e uma cultura que favorece a violências de todo tipo. Tratar a discussão sobre a cultura afro-brasileira, como matéria/disciplina, significa dar um passo importante para reduzir as desigualdades e a violência que marcam nosso país e o cotidiano escolar. A luta contra o preconceito é tanto política quanto acadêmica.

Para a Unesco, debater essas questões em sala de aula é fundamental, é primordial que ensinem aos estudantes que todas as pessoas são iguais, independentemente da cultura ou até mesmo de sua cor. Um dos compromissos dos países-membros da Organização das Nações Unidas é garantir o cumprimento da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, adotada pelo Brasil e todos os outros Estados – membros da ONU em 2015. Entre os 17 objetivos globais da agenda, está a garantia de ambientes de aprendizagem seguros e não violentos, inclusivos e eficazes, e a promoção da educação para a igualdade e os direitos humanos.

A Carta Magna Brasileira prevê, no Art. 3.0, inciso IV, que constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, dentre outros, promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Prevê, ainda, em seu Art. 206, no que tange ao direito à educação:

I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;

III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino.

Neste sentido, a política de educacional é imprescindível, é na educação básica que as crianças podem tornar-se seres mais esclarecidos e livres para entender o mundo, sem imposições. Para o alcance dessas propostas, é necessário, implementar a educação sobre os temas dos direitos humanos e da diversidade na formação inicial e continuada, oferecida por faculdades e universidades; disponibilizar material didático-pedagógico para auxiliar os profissionais de educação na abordagem destes temas; e realizar pesquisas para o monitoramento e avaliação desse trabalho. Penso que os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) [BRASIL, 1997] são propostas do Ministério da Educação e do Desporto (MEC), datadas de 1997, 1998 e 1999, para a abordagem curricular da educação básica, com o objetivo de serem um referencial comum para a educação de todos os Estados do Brasil, não é suficiente, pois muitos professores têm tido dificuldades em aplicar as sugestões apresentadas por eles, o trabalho interdisciplinar ainda é um desafio no cotidiano escolar, sendo necessário políticas educacionais que atendam a regionalidade de cada lugar no Brasil. Desse modo, verifica-se que a Nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996, como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de 1997, enfatizam a ideia de diversidade cultural, múltiplos olhares sobre a cultura e a História do patrimônio material e imaterial do Brasil. Nos permitindo, como professores ampliar estes temas, incorporando leituras críticas de textos em sala de aulas, resgates de lendas e tradições regionais, pesquisas de fontes históricas, estudo de textos literários, possibilitar discussões a respeito da diversidade cultural, narrativas cotidianas. Mas isso só será viável pedagogicamente, se Escola, Docentes e Alunos estiverem abertos para a realidade da comunidade escolar, pelo saber adquirido a partir das vivências e tradições da mesma.

Quando a escola aborda a questão racial, cultura afro-brasileira, numa perspectiva plural, ela mostra ao aluno que tudo o que existe na nossa sociedade são construções culturais, e que elas mudam ao longo do tempo. Dar essa perspectiva histórica ao aluno, de que nem sempre foi assim e nem sempre vai ser assim, faz com que eles reflitam e aí, sim, se tem um ganho progressivo de liberdade, de autonomia, que são características importantes. Nesta perspectiva, os PCN’s oportunizam à escola refletir sobre o seu currículo, sobre as necessidades de sua comunidade escolar quanto à realidade de diversificar as práticas pedagógicas, pois rompem a limitação da atuação dos educadores em relação às atividades formais e ampliam um leque de possibilidades para a formação do (a) educando (a).

A escola pode e deve contribuir na construção de princípios de igualdade e justiça, culminando assim no desenvolvimento de uma cultura democrática e participativa. Se queremos uma sociedade mais justa e igualitária, é sem dúvida na escola que iremos reverter o quadro desolador de desigualdade. E atitudes preconceituosas e discriminatórias somente podem ser mudadas por meio da educação – em todos os níveis e modalidades – em direitos humanos e de respeito à diversidade humana, em todas suas manifestações.

O currículo escolar também é uma outra ação necessária, pois deveriam dar maior ênfase ao cotidiano escolar, permitir estudos de Histórias regionais, locais, que incentivassem a formação de uma identidade cultural e consequentemente nacional; dar ênfase as tradições, valores, memórias, vivências e uma nova percepção do tempo e do espaço. Levar esta discussão para o universo escolar é abrir-se para uma educação que vai além da reprodução de valores, é entender que se deve educar para a crítica às reproduções culturais, tornar prioridade nas políticas curriculares. Os professores podem oportunizar, por meio de atividades pedagógicas, a busca pelas raízes culturais junto aos alunos, através de projetos pedagógicos que trabalhem educação e cultura. No que se refere à contribuição africana é evidente, principalmente, na culinária, dança, religião, música e língua. Deste intercâmbio cultural formou-se a cultura afro-brasileira, sendo visível à influência africana em todos os aspectos da sociedade brasileira, em diálogo com valores humanos de várias etnias e grupos sociais, imprimimos valores civilizatórios de matriz africana à nossa brasilidade que é plural. É imprescindível trabalhar esses temas no cenário educacional, iniciando desde a educação infantil até ao Ensino Médio; além do Ensino superior. Para assim edificarmos valores essenciais para a vida e na vida! E assim, estarmos contribuindo por uma educação crítico social no cumprimento das leis: 10.639/03 e 11.645/08.

É cumprir nosso papel social, enquanto professores, fortalecendo nossa identidade social, para que nossos alunos conheçam e reconheçam o espaço em que vivem, proporcionando mudanças no seu modo de entender a si mesmo, entender os outros, as relações sociais e a própria História; entendendo que saber sua história é saber narrar a si mesmo e ao outro; é ser sujeito de sua própria história, um agente ativo na sociedade, um sujeito capaz de pensar e transformar, exercendo sua plena cidadania. A ideia de educação deve estar intimamente ligada às de cultura, liberdade, democracia e cidadania.

É importante refletir esta questão, como a Cultura se traduz em experiências escolares? Qual a imagem que os alunos têm de si mesmos, de seu lugar, de seu país, do mundo em que vivem? É preciso, enquanto professores, buscarmos esse olhar, essa identidade, esse sujeito capaz de transformar a sua realidade a partir do conhecimento obtido. Oportunizar ao aluno a busca de suas raízes, em relembrar coisas do passado, seja na família ou comunidade, na cidade ou região, tornando a história viva; tornando-se sujeitos de sua própria História, sendo capaz de transformá-la de maneira crítica e consciente, propiciando a sociedade cidadãos críticos, transformadores e sensíveis ao meio em que vivem.

A cultura é plural, implica sujeitos, valores, manifestações artístico-culturais e materiais, imaginário social, identidade, conhecimento, relações de poder, religião, etc. ; possibilitando assim várias possibilidades de projetos interdisciplinares, girando em torno de grandes temas, como: Identidade e Pluralidade; Cultura de massa e Consumo; Patrimônio e Herança Cultural; Cultura e Cidadania. Todos estes temas estão interligados, valorizando a cultura no cenário educacional. Assim sendo, a cultura configura um mundo de símbolos, que atribui significados e delimita a forma como se lê, se sente, se vive; definindo a maneira de ser e de agir do indivíduo.

Nessa perspectiva, o ensino­ aprendizagem oportuniza um espaço – tempo de reflexão crítica acerca da realidade social e, sobretudo, referência para o processo de construção das identidades destes sujeitos e de seus grupos a qual pertence, o que é determinante na construção da leitura de mundo deste aluno. Para uma boa prática, é necessário conhecer e fortalecer a identidade social, possibilitando ao aluno conhecer e reconhecer o espaço onde vivem, pertencer e se apropriar do mesmo no decorrer da sua História, promovendo a troca de significados e vivencias. Incentivar a diversidade cultural, o conhecimento e respeito a cultura do outro, fortalecer a memória e novos saberes, conhecer tradições e o lugar em que vive. Conhecer para respeitar! Aprender a ser, só é possível quando existem trocas de saberes, partilha de experiências e situações instigadoras. Assim, vamos gerar cidadãos capazes de mudar e transformar o lugar em que vivem, sem precisar mudar de lugar.

A História das populações indígenas e afro brasileira, é de suma importância de ser compreendida e vivida na atualidade; como meio de conscientização e valorização do passado dos povos indígenas e africanos, oportunizando ao aluno a reflexão e o respeito às diferenças culturais em nosso país. A promulgação da Lei 10.639/03, alterando a LDB, estabeleceu a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira” no currículo oficial da rede de ensino da educação básica, oportunizando a visibilidade e o reconhecimento da cultura e memória do povo africano e suas experiências, na sociedade brasileira ao longo da História. A mesma lei foi novamente alterada pela de n. 11.645/08, com a inclusão da temática indígena nas escolas, em uma abordagem que possibilita ao aluno dos ensinos fundamental, médio e superior, ter uma visão crítica à imagem dos povos indígenas, sua diversidade étnico-cultural, sua história e presença na atualidade.

Desta forma, a escola deve reconhecer e valorizar a história e a cultura africana, a afro-brasileira e a indígena, que são imprescindíveis para o ensino da diversidade cultural no Brasil. Trata-se de um momento em que a educação brasileira busca valorizar devidamente a história e a cultura de seu povo afrodescendente e indígena, buscando assim desconstruir paradigmas racistas e eurocêntricos da memória e História desses povos, que devem ser reconhecidos e respeitados. A escola deve educar para a vida e na vida, desde bem cedo, entendendo a sociedade como um espaço de realizações instigando no aluno a formação de uma consciência crítica e cidadã. Para isso, será necessário, que a escola tenha clareza de seu currículo, de sua proposta pedagógica, de seu sistema de avaliação no processo de ensino e de aprendizagem, na ação educativa; discutindo-a, e colocando como perspectiva a possibilidade de mudar essa realidade, repensar a formação de homens capazes de transformar, caracterizada pela ação transformadora do mundo.

Compreender que o homem é um ser histórico, capaz de construir sua história participando ativamente com os outros no mundo. Uma educação transformadora, é capaz de promover mudanças por meio da leitura do espaço; o qual traz em si todas as marcas da vida dos homens, construído cotidianamente e que expressa tanto as nossas utopias, como os limites que nos são postos; é oportunizar a reflexão sobre o papel de sujeitos de nossa História, mobilizando para os caminhos de acesso ao conhecimento, associada a cultura, leitura crítica da realidade, desafiando-nos para que percebamos que o mundo pode ser mudado, transformado, reinventado.

A escola tem como desafio nos dias atuais, a formação do cidadão, para que este tenha conscientemente participação social, política e atitudes críticas diante da realidade que vive, oportunizando uma atuação e transformação da realidade histórica na qual está inserido. É imprescindível, que a sociedade e o Estado, percebam e assumam que a escola é uma instituição social plural, que se educa para a vida e para a cidadania. Se fazendo necessário, repensar o significado da transformação social no cenário educacional e assim buscar para o nosso país. Assim, um dos desafios da educação é inspirar, criar e recriar possibilidades de lutas contra o preconceito, a violência, a alienação, o autoritarismo, enfim uma nova ressignificação da atuação pedagógica para aceitar e incluir as diferenças do outro, das nossas próprias diferenças e assumir uma postura diante das diferenças produzidas ao longo da História da Humanidade.