A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

GÊNERO E CONFLITOS FAMILIARES

A família é o primeiro lugar de acolhimento e de segurança do ser humano, mas no campo da identidade de gênero ainda há muito o que aprender a respeitar

Dentro de uma visão sistêmica, a família nuclear nasce quando nasce uma criança. Para essa abordagem, casal não é família e sim duas pessoas que iniciam a conjugalidade. Com a chegada de uma criança, seja por nascimento ou por adoção, nascem dois tipos de casais, o casal conjugal que pode perdurar por toda a vida, até chegar à fase do ninho vazio, quando os filhos saem de casa e constroem suas próprias vidas, ou terminar com o divórcio ou a viuvez. Já o casal parental é eterno, mesmo que haja a separação. O vínculo entre o casal permanece pela existência dos filhos que fazem parte do núcleo familiar e pelos vários papéis parentais que são inaugurados. Quem era apenas sogra passa a ocupar o lugar de avó, quem era apenas marido passa a ser pai, os cunhados, tios, eassim por diante. O poder do nascimento de uma criança é muito grande, pois modifica e hierarquiza a família.

Antes de um filho existir concretamente, ele já é elaborado no universo simbólico e muitos planos são feitos para ele. Quando perguntamos se a grávida prefere menino ou menina, é comum escutar (embora às vezes haja uma preferência no seu íntimo) “tanto faz, contanto que venha com saúde será bem-vindo”.

A realidade não costuma confirmar a frase da prioridade da saúde sobre o gênero, especialmente quando na construção da sexualidade um filho é homossexual. Comportamento ultrapassado? Vivemos tempo de aceitação plena das diferenças de toda ordem? Não é esse o relato dos adolescentes e adultos quando têm a oportunidade de conversar sobre o assunto. No decorrer de minha experiência em escolas, trabalhando diretamente com adolescentes e também na prática clínica como psicopedagoga, tive a oportunidade de acompanhar inúmeros casos e fazer reflexões sobre o tema.

Primeiramente, durante a formação da sexualidade, o adolescente, na maioria das vezes, costuma viver muitos conflitos internos e experimentar muito sofrimento por ter dúvidas sobre a sua identidade. Até se definirem, esses conflitos vão desde a insegurança, apego extremo à religiosidade como forma de lutar contra o seu devir, afastamento total de ambientes religiosos, afastamento de familiares da família ampliada, dificuldades de aprendizagem, dificuldades de relacionamento com os pares nos ambientes sociais, doenças psicossomáticas e mesmo tentativas de suicídio. Não ter um lugar, sentir-se excluído, faz com que muitos tenham ideação suicida e quadros depressivos.

Os jovens e adultos relatam sobre a dificuldade que tiveram quando os pais “descobriram” a sua verdadeira identidade sexual ou a angústia que sentiram quando revelaram aos seus familiares. Começam pela consciente e clara declaração que um filho hétero não precisa sentar para conversar com seus pais e fazer a “grande revelação”, e os filhos homossexuais, sim. A estranheza e a certeza de que a aceitação da diversidade de gênero começa a partir dessa reflexão. Se fosse natural, não precisaria ser anunciado, revelado. O ideário de ter decepcionado as expectativas dos pais e o fato de não se sentir plenamente inserido nos eventos familiares estão nas declarações mais comuns. Afirmam também que, via de regra, quando não são expulsos de casa, há uma aceitação maior por parte das mães do que dos pais, e algumas condições são colocadas para a convivência, tais corno não levar em casa a pessoa com quem se relaciona, “respeitar” o ambiente familiar evitando falar sobre sua vida particular, assumir tarefas domésticas antes não realizadas, dentre outras situações que colocam o sujeito em um lugar de menor valor.

A violência simbólica ou declarada ocorre também nos espaços escolares e profissionais, além da própria família, que costuma fazer o primeiro movimento de exclusão, seja mantendo a questão velada ou com ofensas diretas. As mães costumam responder que aceitaram porque amam seus filhos incondicionalmente, mas temem a violência externa, a homofobia e o sofrimento que os filhos terão na sociedade por toda a vida. Os pais declararam de forma mais enfática a recusa e o lamento de que não poderão ser avós, ignorando a possibilidade de que no futuro uma união homoafetiva poderia trazer um neto através da adoção. Os conflitos entre os pais também são comuns quando um culpa o outro pela criação, pelas ausências ou comportamento opressor, na busca de uma resposta sobre o porquê da identidade do filho diferir dos seus sonhos e planos.

Vamos encontrar outros dados muito curiosos. Filhos gays costumam sair da casa dos pais e habitar sozinhos ou dividindo moradia com amigos muito mais cedo que filhos héteros, uma forma de se distanciar do mal-estar vivido dentro da própria casa. Em vários casos ouvem os pais se perguntando claramente “onde nós erramos na educação dele?”. Esse desconforto traz afastamento, mágoas e o sentimento que causa vergonha e humilhação aos familiares.

Os amigos também costumam ser, na grande maioria, pessoas com a mesma identidade sexual para evitar a rejeição, bem como os lugares escolhidos para o lazer. Assim constroem uma rede de segurança e empoderamento para a conquista de direitos civis e encontrar forças para seguirem em frente assumindo quem realmente são.

DAYSE SERRA – é doutora em Psicologia pela PUC- Rio, mestre em Educação Inclusiva pela UERJ, professora da Universidade Federal Fluminense. Escritora, terapeuta de família e casal pela Logos Psi, membro da Comissão Científica da Abenepi, membro do Conselho Editorial do Colégio Pedro II.

OUTROS OLHARES

A BANALIZAÇÃO DA MORTE

A morte é um tabu sempre presente em nossas vidas. Mas os que sonham com a imortalidade podem agora imaginar possibilidades mais concretas, mostradas na ficção científica e que, quem sabe, serão concretizadas pelos avanços da tecnologia

Uma das descobertas mais importantes do homem foi a morte. Nunca saberemos quando ela ocorreu. Foi uma descoberta avassaladora: a morte como algo universal, predestinado. Tudo que vive é um prefácio de uma morte certa, o tempo de vida é muito curto. Uma descoberta traumática. A inescapável mortalidade. O homem é o animal que sabe que será derrotado pela morte.

Com a descoberta da morte, vieram as tentativas de driblá-la. As religiões inventaram a vida após a morte. Ensinaram-nos a não valorizar tanto a vida, para não sofrermos tanto com a perspectiva da morte. “Quem quiser salvar sua vida a perderá”, diz o Evangelho. E sugere que Deus expulsou Adão e Eva do paraíso pois, ao comerem o fruto da Árvore do Conhecimento, poderiam querer se tornar imortais. A promessa da ressurreição da carne é o coroamento da vida eterna para os cristãos. Curiosamente, o Velho Testamento não faz referência, em nenhuma de suas passagens, à vida após a morte.

“O nosso destino é a escuridão”, proclamou Shakespeare na sua peça Antônio e Cleópatra (ato V, cena lI). A morte é um terna sempre presente na literatura e na Filosofia. Há uma longa estirpe de filósofos que se dedicaram a ele, passando por Agostinho, Pascal, Schopenhauer, Kierkegaard e muitos outros. No século passado, Heidegger foi um dos filósofos que mais se preocuparam com esse tema. Para ele, a morte é o Nada, o abismo cardinal, a fonte de toda inquietação humana e do pensamento. Seguindo as pegadas de Heidegger, alguns pensadores existencialistas como Camus e Sartre se debruçaram sobre o significado da morte e da finitude do homem.

O homem do século XXI continua a se debater com o horror absoluto da morte e da extinção de sua espécie. A biologia moderna é a nova narrativa sobre a vida e a morte. A imortalidade da alma é a ancestralidade da vida, sua reprodução indefinida como estratégia para triunfar sobre a morte. O código genético é praticamente o mesmo em todos os seres vivos e é sempre reeditado através das gerações.

Em seu livro mais famoso, O gene egoísta, o zoólogo Richard Dawkins defende que nossos corpos são apenas portadores de genes sobreviventes que, por meio de sucessivas gerações, garantiram otriunfo da vida nos últimos 3,5 bilhões de anos. Todas as espécies que existem são ramificações que surgiram de uma única linhagem primordial. A morte de uma pessoa pode ser um a tragédia individual, mas a espécie humana continuará por mais alguns milhões de anos. Nossa missão, como seres vivos, é transmitir genes.

Mas a biologia não consola ninguém. Quando a questão é a morte de um ser humano, ela serve, no máximo, para que o refrão “e a vida continua” possa ser repetido. A engenharia genética, o transplante de órgãos e até o transplante de cabeças estão a serviço do prolongamento da vida. Mas não nos contentamos com apenas prolongar a vida. Queremos a imortalidade, queremos uma ciência que negue que ela está reservada apenas para os deuses e não para os homens.

Atualmente, alguns gurus do Vale do Silício tentam nos convencer de que é possível fazer uma cópia digitalizada do cérebro das pessoas, com todos os seus circuitos neurais e lembranças. Essa cópia poderia ser enviada para a nuvem, na qual ela duraria indefinidamente. Quem lê esses gurus acaba se convencendo de que a ciência poderá, em breve, burlar a morte. Mas a estratégia para nos convencer de que a ciência poderá lidar com a morte é resultado de uma manobra sutil nas entrelinhas desses textos. Para laicizar a morte, esvaziá-la de todo sentido trágico, é preciso torná-la cada vez mais banal.

O sintoma dessa manobra aparece na ficção científica. Na novela Carbono alterado, livro de estreia de Richard Morgan (que se tornou um seriado de TV), o autor descreve um mundo no qual todas as pessoas têm um “cartucho”, um chip extraordinariamente poderoso que contém uma cópia digitalizada do cérebro. O corpo de uma pessoa pode ser destruído, mas se o cartucho ficar intacto, ele poderá ser implantado em um outro corpo no futuro, que o autor chama de “capa”. Todos passam a vida economizando para comprar uma capa. A única exceção são os católicos, que se recusam a viver novamente e, por isso, assinam um documento registrado no Vaticano para que seus cartuchos não sejam reimplantados.

O cenário descrito por Morgan é bizarro. Nessa sociedade, ninguém teme morrer, pois a morte pode acontecer várias vezes para uma pessoa e ela continuará a viverse o cartucho for reimplantado em outra capa. Uma ameaça de morte não surte efeito. A destruição do corpo e do cartucho não amedronta ninguém. O corpo pode ser substituído por uma nova capa e para o cartucho sempre haverá um backup, que poderia ficar armazenado na nuvem. A morte não é apenas secularizada. Ela é banalizada.

No seriado Westworld há, também, personagens que dizem não temer a morte pois já morreram e voltaram à vida várias vezes. A morte é algo trivial, pois se tornou um problema científico que em breve será solucionado.

Mas o que significa a banalização da morte? Morgan nos fornece a resposta em uma passagem de sua novela, na qual ele afirma: “Mas gente? Pessoas se reproduzem como células cancerosas, são abundantes […) A carne humana é mais barata que uma máquina. É a verdade axiomática de nossos tempos”

JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA – é paulistano, formado em filosofia na USP. Viveu e estudou na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Escreveu mais de uma dezena de livros sobre filosofia da mente e tecnologia. Lecionou na UNESP, na UFSCAR e na PUC-SP.

GESTÃO E CARREIRA

O QUE VALE NO VALE VALE AQUI?

Área rica, com uma abundância de jovens talentos com ideias disruptivas, no vale do silício existe uma cultura organizacional que serve de exemplo

O Vale do Silício não é um território demarcado no mapa com linhas precisas. Ocupa, na Califórnia, uma área que começa no sul da baía de São Francisco e inclui muitas cidades como: Redwood City, Menlo Park, Palo Alto, Los Altos, Mountain View, Sunnyvale, Cupertino, Santa Clara e San Jose. Nelas estão as maiores (e mais prósperas) empresas desta era de inovação digital. O aparente centro gravitacional de tudo isso é a Universidade de Stanford, em Palo Alto.

Com uma abundância de jovens talentos com ideias disruptivas, lá existe uma cultura organizacional, aparentemente única. Se isso é um fato que pode ser transformado em um protocolo de ação, por que o mesmo sucesso não ocorre em outras áreas no mundo?

Não é por falta de tentativas. Muitas cidades criaram modelos semelhantes com incentivos a startups de tecnologia, mas o resultado ficou longe de ser igual. Segundo o Global Startup Ecosystem Report 2019, elaborado pela Startup Genome, o perfil de hoje coloca o Vale em primeiro lugar seguido, de muito longe, por Nova York, Londres, Pequim, Boston, Tel Aviv e Los Angeles. São Paulo aparece na lista como um ecossistema promissor, mas em uma posição distante das demais.

Todos os indicadores, incluindo o número de empresas e os resultados financeiros do Vale do Silício, destoam de forma significativa de quaisquer outras áreas que, teoricamente, competem pelo primeiro lugar em agrupamento de startups de tecnologia. Pelo que se pode notar, mesmo que sejam replicadas as mesmas condições de apoio técnico e financeiro, pela parte governamental, o resultado não se repete.

O segredo do que se observa hoje, como sucesso alcançado, faz parte de uma cultura organizacional impossível de ser transcrita como um protocolo de uma única empresa, pois é a própria estrutura mental do Vale. Podemos tentar desmembrar em alguns itens:

1. QUALQUER IDEIA DEVE SER VALIDADA: Em uma reunião em 14 de junho/2019, na The Vault, em São Francisco (CA-EUA), com Fernando Figueiredo, brasileiro que é cofounder e CEO da Oaktech, empresa de estratégia global e internacionalização, ficou claro que a cultura aceita qualquer ideia nova desde que possa ser validada. Um exemplo disso é LiLou, o porquinho terapêutico do aeroporto de São Francisco. Alguém teve a coragem de apresentar um projeto que afirmava a importância de um porco circulando pelo aeroporto para acalmar os passageiros nervosos, e o gestor teve a coragem de colocar essa ideia em prática para ser validada. Hoje é um sucesso!

2. DESENVOLVIMENTO DE GRUPOSPARA TROCAS DE IDEIAS: Laís de Oliveira, brasileira que desponta como diretora de Desenvolvimento de Comunidades na Startup Genome (essa mesma que faz o levantamento dos ecossistemas de startups), com sede em São Francisco, nos fala da importância da criação de grupos com origens diversas. As comunidades podem, pela sua miscigenação, gerar ideias novas, parcerias produtivas e, além de tudo, financiamentos mútuos. Os projetos podem se intercambiar – sinergia -, gerando desafios impossíveis de serem alcançados por uma só pessoa: parceria é tudo nesse ambiente.

3. PARA TER ABUNDÂNCIA DEVE-SE COMPARTILHAR: Bruno Solis, da Kong lnc., hoje executivo de Contas para a América Latina com sólida experiência em vendas de sucesso, fala com orgulho dos mais de 600 mil usuários de seu sistema que não pagam um centavo sequer. No entanto, o faturamento da Kong é de vários milhões de dólares. Sua base é oferecer plataformas de código aberto e serviços em nuvem para quem deseja gerenciar, monitorar e escalar interface de programação de aplicativos e microservices. A base do pensamento é que quando você distribui o mercado pagador retorna aceitando o preço da credibilidade alcançada.

4. O TALENTO DEVE SER VALORIZADO: Vinícius Depizzol, brasileiro do estado do Espírito Santo, um dos principais designers no escritório da Microsoft Corporation na Market St., em São Francisco, disse que hoje, na cultura do Vale, há um grande cuidado das empresas para manter seus colaboradores o mais seguros e confortáveis possível. Não é o horário de saída ou entrada no prédio da empresa que vai trazer a solução da demanda. Muitos colaboradores passam mais tempo trabalhando em casa do que na empresa e, com responsabilidade e engajamento, apresentam os resultados em seus devidos prazos.

5. NÃO DISPENSAR O PASSADO POR CONTA DO FUTURO: Com Martin Spier, arquiteto de performance da Netflix, numa conversa no Steins Beer Garden em Cupertino, CA – EUA, sobre cultura organizacional e a liberdade que deve ser colocada à disposição dos colaboradores, foi ressaltado algo muito interessante: a Netflix ainda entrega DVDs mensalmente a 1mlhões de usuários. Como uma empresa que é líder mundial em streaming ainda carrega esse peso? A resposta foi direta: é um mercado de milhões de dólares. Embora a tecnologia esteja à disposição, muitas pessoas, por motivos quaisquer, preferem o velho DVD. A Netflix, que começou dessa forma, não abre mão desses clientes e mantém toda estrutura para atendê-los, mesmo que o retorno não seja o mesmo do modelo atual.

6. PENSAR DIFERENTE SEMPRE: A consultora sobre o ecossistema do Vale, Mariangela Smania, quando conduz o seu treinamento “Path to lnnovation” pelo campus da Universidade de Stanford, reforça a estrutura valiosa do Design Thinking, olhar o todo e os detalhes para inovar. Não basta apenas saber da necessidade e ter a solução, muitas pessoas desenvolveram produtos e serviços fantásticos que não tiveram êxito ou foram ultrapassados rapidamente pela concorrência. O pensamento disruptivo é um talento, mas pode e deve ser replicado com a utilização de técnicas apropriadas. São apenas alguns pontos que podemos extrair da cultura reinante no Vale que, pelo que vemos, apresenta resultados. Este texto trata de um pequeno resumo das principais ideias que nos foi possível colher no mês de junho de 2019, quando estivemos imersos nesse ambiente do Vale do Silício e tivemos a oportunidade de ter encontros- verdadeiras aulas – com muitosexecutivos de várias empresas. Esta coluna retrata um pouco do que pude apreender deles sobre a cultura organizacional do Vale. Não é a chave do segredo, mas uma porta importante que vem dando resultados significativos na inovação de grandes e pequenas empresas.

JOÃO OLIVEIRA – é doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br).Entre seus livros estão Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam Tenha as Soluções, Jogos para Gestão de Pessoas: Maratona para o Desenvolvimento Organizacional, Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida, e Saiba Quem Está à sua Frente Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora)

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 13 – A BRIGA: A HISTÓRIA DE JOHN

Houve um tempo no nosso casamento em que ficamos magoados um com o outro por cerca de dezoito meses seguidos. A mesma discussão vinha à tona repetidas vezes. Chegávamos até a implicar sutilmente um com o outro na frente dos nossos filhos. Os mais velhos percebiam o que estava acontecendo, e faziam comentários do tipo “Vocês podem fazer o favor de não falar sobre isso durante o jantar?” Nossa dor e desunião eram uma fonte de tensão constante em nosso lar, e estavam corroendo nosso casamento e nossa família.

Uma noite, depois de trocarmos acusações como de costume, eu (John) saí de casa como um furacão. Estava furioso com Lisa e imediatamente comecei a reclamar com Deus. Eu lamentava as imperfeições de Lisa e sua falta de visão. Tinha a sensação de que Deus havia me prendido a uma esposa que não me dava apoio e que era desnecessariamente crítica. Eu me perguntava se podia continuar vivendo com uma esposa assim.

Nunca me esquecerei de como Deus respondeu. O Espírito Santo não me disse uma palavra sobre o quanto Ele lamentava por mim, nem tratou da dor que eu estava sentindo. Em vez disso, Ele simplesmente sussurrou: “Filho, quero que pense em algo que você aprecia em Lisa e depois Me agradeça por isso”.

Levei algum tempo para responder, mas finalmente resmunguei: “Ela é uma boa mãe”. Enquanto as palavras escapavam da minha boca, senti como um sopro de vida em minha alma. Deus me impeliu a continuar. Eu disse: “Senhor, obrigado porque Lisa é uma ótima cozinheira”. Depois disse: “Obrigado porque ela é linda”. Mais palavras começaram a fluir, e eu continuei enumerando com gratidão as qualidades de Lisa sem parar, como uma metralhadora.

A essa altura eu não estava mais irritado com ela; estava irritado comigo mesmo. Pensei: Você é um completo idiota! Sua esposa é maravilhosa, e você tem sido um estúpido com ela. O que há de errado com você? Fiquei dolorosamente ciente do quanto eu havia tratado Lisa de modo horrível. Ela era a esposa que eu havia escolhido e a mãe dos nossos filhos, uma absoluta bênção de Deus, e eu a havia tratado como uma inconveniência para o meu chamado.

Quando saí de casa, Lisa estava extremamente aborrecida comigo e eu com ela. Mas agora eu só queria ir para casa e dizer o quanto era grato por ela. Enquanto corria para casa, pensei comigo mesmo: Posso não ser bem recebido, mas preciso dizer o quanto sou grato por ela.

Quando cheguei em nossa casa, encontrei Lisa e exclamei: “Lisa, sinto muito! Tenho sido um estúpido. Por favor, perdoe-me. Você é uma mãe incrível e uma esposa excelente, você é o desejo do meu coração”. Contei a ela o que Deus havia trazido à minha lembrança e depois comecei a elogiá-la por todas as suas características, qualidades e dons magníficos. As palavras se derramavam do meu coração como um rio.

Enquanto eu falava, Lisa abrandou-se e começou a chorar. Sem que eu soubesse, enquanto eu estava fora, ela havia orado: “Deus, se Tu trouxeres John de volta e ele me disser que sente muito, abrirei meu coração outra vez”.

A BRIGA: A HISTÓRIA DE LISA

As coisas haviam ficado tão ruins durante aqueles dezoito meses que deixei de usar meu anel de casamento. Eu dizia a John que estávamos casados, mas não comprometidos, seja lá o que isso queira dizer. Comecei a acreditar que não amava mais o John. Minha recusa em perdoar havia feito meu coração se esfriar, e o nosso relacionamento corria um grande risco.

Naquela época, John estava viajando muito, então comecei a gostar mais do tempo que ficava sozinha do que dos momentos que ele estava em casa. A vida é mais fácil quando ele não está, eu pensava. Ele em casa só serve para me enlouquecer, com todas aquela brigas e tensão.

Desesperada, comecei a clamar ao Senhor: “Deus, estamos em um impasse. John não está sendo nada bom comigo! Pai, sei que Tu deves estar zangado com o comportamento dele!”

E eu continuava falando sem parar, expondo a minha causa diante do Pai quase que diariamente. Mas quando finalmente me calei, eu O ouvi dizer:

  • Lisa, diga-Me que Eu sou suficiente para você.

A princípio fiquei um pouco assustada. Se eu dissesse que Deus era suficiente, isso significava que John não iria mudar? Devolvi as palavras:

  • Pai, Tu és suficiente para mim. Então me vi repetindo a pergunta:
  • Mas e quanto ao John? Novamente ouvi:
  • Diga-Me que Eu sou suficiente para você.
  • Tu és suficiente para mim.5

Aquelas palavras se tornaram meu refrão. Todas as vezes que o conflito ou a decepção surgiam, eu orava “Jesus, Tu és suficiente para mim”. Com o tempo, a revelação criou raízes em meu coração e minhas orações se transformaram. O que começou com uma confissão quebrantada (“Jesus, Tu és suficiente para mim”) se transformou em um transbordar de satisfação em Deus: “Jesus, Tu és mais do que suficiente para mim!”

Pouco tempo depois, Deus havia feito a Sua obra nos nossos corações. John voltou para casa de uma viagem e fui apanhá-lo com satisfação no aeroporto (uma tarefa que eu havia permitido que outros realizassem durante os meses em que preferia que ele não voltasse para casa). Estava feliz em saudar meu marido, e descobri que ele havia me trazido um lindo presente.

Aquele instante marcou um novo começo para o nosso casamento. É interessante que mesmo antes da mudança acontecer, Deus abriu o coração de cada um de nós por meio da gratidão.

No casamento, se nos comprometermos em imitar o exemplo de Jesus, perdoando mesmo quando somos maltratados, veremos nossa união permanecer estável e até florescer. Sem que soubéssemos naquela época, um dos maiores exemplos que demos aos nossos filhos foi dizer um ao outro que sentíamos muito e depois perdoarmos um ao outro. Nossos filhos passaram a entender que somos habitantes imperfeitos habitando em um mundo imperfeito, mas o perdão perfeito de Deus em nossos corações pode cobrir uma multidão de pecados. Esses pecados, destinados a gerar o caos e destruir nossa união, na verdade acabaram se tornando lições de vida para nossos filhos do amor, da graça e do perdão de Deus. Vimos estas palavras de sabedoria se cumprirem em nossa família:

Aquele que cobre uma ofensa promove amor… Provérbios 17:9

Se você opta por ficar preso à ofensa, todos perdem porque o amor vai morrendo aos poucos. Entretanto, quando você opta por perdoar, todos na sua família ganham porque o amor floresce.

O MEDO

A próxima coisa a ser tratada no seu relacionamento é o medo. Durante os dez primeiros anos do nosso casamento, eu (Lisa) lutava contra o medo do abandono. Meu pai e meu primeiro pastor haviam deixado suas esposas por mulheres mais jovens. Por causa do que vivi, permiti que pensamentos de medo permanecessem em minha mente sem qualquer controle. Eles não gritavam; eles sussurravam: Mais cedo ou mais tarde, todos os homens partem. Não deixe que eles se aproximem demais. Assim não poderão decepcioná-la. Esse tipo de pensamento fazia com que eu até mesmo resistisse a pequenas demonstrações de afeto. Quando John me abraçava, não demorava muito e eu começava a dar tapinhas nele para poder me afastar.

Um dia, depois de um de meus “tapinhas de afastamento”, John perguntou- me diretamente:

— Será que só depois que formos velhos você vai perceber que nunca vou abandoná-la? Você vai esperar até termos setenta anos?

Fiquei perplexa.

— Vou esperar o tempo que for preciso — ele continuou — mas enquanto isso vamos perder muito tempo de diversão.

Entendi que estava fazendo John pagar pelas decepções que eu havia tido com outros homens. Pensei: Por que John tem de pagar pelos erros deles? Isso não é justo. No esforço de me proteger, estou sabotando nosso relacionamento. Meu medo de perder John no futuro estava roubando de nós dois o nosso presente. Decidi então que eu preferia amar John completamente, mesmo correndo o risco de perdê-lo, a amá-lo pela metade e olhar para trás com remorso pelo que poderia ter vivido com ele.

O medo e a desconfiança nos impedem de florescer no casamento, pois o medo se agarra tenazmente ao passado enquanto se recusa a crer que algo melhor pode surgir no futuro. Se quisermos que Deus faça algo novo em nosso casamento, precisamos escolher abandonar o medo e aceitar o que o amor poder vir a projetar para o nosso futuro. A expectativa do medo é o fracasso, ao passo que o amor definitivamente nunca falha.

O medo é uma força espiritual que se opõe diretamente ao amor e à proteção de Deus em nossas vidas. Ele é o oposto do amor, porque tanto o amor quanto o medo atuam tendo como base a crença no desconhecido. O amor nos desafia a duvidar do que vemos e a crer no que não podemos ver. O medo nos impulsiona a crer no que vemos e a duvidar do que não vemos. Quando nos deparamos com o medo do fracasso ou com a esperança do amor, podemos escolher crer em um ou no outro, mas não em ambos. O medo desaloja o amor; o amor lança fora o medo.

… No amor não há medo antes o perfeito amor lança fora o medo; porque o medo envolve castigo; e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor. 1 João 4:18-19, AA

A capacidade transformadora do amor é maior que a capacidade que o medo tem de nos enlaçar. O amor perfeito que lança fora o medo só é encontrado na experiência do amor de Deus. Através do poder do Seu amor, podemos abandonar a preocupação com nós mesmos, porque sabemos que Deus cuidará fielmente das nossas necessidades. Mas se não passamos tempo na presença de Deus, não podemos ter um conhecimento íntimo da Sua natureza amorosa; pois Sua fidelidade se manifesta na Sua presença.

Sem conhecimento da verdadeira natureza de Deus, viveremos com medo constante de sermos abandonados por Ele ou por nossos cônjuges, o que é uma forma deturpada de castigo. À medida que nos tornamos cada vez mais seguros no amor de Deus por nós, podemos ser livres do medo e oferecer um amor altruísta aos nossos cônjuges. A Palavra de Deus diz:

Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. 1 João 4:7-8

A fortaleza do medo é o que faz com que digamos: “Se meu cônjuge algum dia me trair, nunca o perdoarei”. Essas promessas, cujo propósito é nos proteger no futuro, impedem-nos de abraçar o poder do amor de Deus hoje. Precisamos aprender a confiar em Deus para cuidar do nosso coração, ainda que um cônjuge nos rejeite, fira ou traia. Deus nos pediu para entregarmos nossos temores a Ele. A recusa em fazer isso diz a Deus que não acreditamos que Ele é capaz de dirigir nossas vidas. Não podemos nos submeter ao senhorio de Jesus sem entregarmos nossos medos

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

EU SOU PORQUE NÓS SOMOS

Como o bem-estar comunitário pode contribuir para uma vida mais feliz em sociedade, com influência direta sobre o bem- próprias vidas estar subjetivo, ou seja, a forma como avaliamos as nossas

Há uma expressão na sabedoria africana do ubuntu que diz “eu sou porque nós somos”, ou estamos todos conectados, não podemos ser nós mesmos sem comunidade, ou ainda, em um sentido mais filosófico, “a crença em um vínculo universal de compartilhamento que conecta toda a humanidade”. Esse jogo de palavras traduz de maneira muito precisa a necessidade humana de nos relacionarmos com outras pessoas desde que nascemos e por toda a nossa existência, assim como a interdependência do florescimento e do bem-estar comunitário.

Com base nas pesquisas do Instituto Gallup, os autores Tom Rath e Jim Harter elencaram os cinco elementos essenciais do bem-estar, entre os quais figura o bem-estar das comunidades. Mas a que exatamente se refere essa categoria? Segundo eles, o bem-estar comunitário está ligado ao senso de envolvimento com o ambiente social no qual vivemos, à habilidade de interagirmos com as pessoas ao nosso redor, saber comunicar-nos com elas e criar relacionamentos significativos baseados no respeito e na harmonia. De forma ampla, o bem-estar comunitário se refere à qualidade dos nossos relacionamentos e à coesão entre os cidadãos, afetando as diversas esferas da existência. Em outras palavras, o florescimento concomitante de indivíduos e comunidades, nutrindo-se mutuamente.

Sob esse aspecto, o bem-estar comunitário tem influência direta sobre o bem-estar subjetivo, ou seja, a forma como avaliamos as nossas próprias vidas. De acordo com os pesquisadores Ed Diener e Robert Biswas-Diener, no livro Happiness: Understandzng the True Health (Felicidade: entendendo a verdadeira saúde, em tradução livre), os seres humanos precisam de outras pessoas para florescer, porque funcionamos melhor quando somos apoiados por uma rede de conexões significativas, verdadeiramente preocupadas   com o que somos e desempenhamos. À parte as pesquisas científicas, essa constatação pode ser averiguada ordinariamente no nosso próprio cotidiano, mais especificamente no uso quase ininterrupto que fazemos dos smartphones. Basta observar o horário de pico no transporte público: mesmo em meio ao estresse e às de­ mandas do dia a dia, estamos sempre em busca de um outro rosto, um comentário, alguém que valide o que somos, que reconheça nossa existência no mundo. Essa necessidade de contato, de apego, de nos sentirmos íntimos de alguém é o que impulsiona a maior parte de nossas atitudes, mesmo quando preferimos acreditar que não. Trata-se de um mecanismo biológico determinante para a sobrevivência humana.

De fato, segundo vários pesquisadores, a quantidade e a qualidade de relacionamentos próximos estão intimamente relacionadas à felicidade. Os pesquisadores James Fowler e Nicholas Christakis, autores de Connected: the Surprzsz’ng Power of our Social Networks and how they Shape our Lives (Conectado: o poder surpreendente de nossas redes sociais e como formam nossas vidas, em tradução livre), validam esse conceito ao afirmarem que, entre outros fatores, a felicidade de uma pessoa está ligada à felicidade das pessoas emocionalmente próximas. Isso significa que, quanto mais conectados estamos a uma rede de amigos ou família, maiores são as chances de alcançarmos a felicidade no futuro – uma afirmação especialmente poderosa quando inserida no contexto de promoção de uma infância saudável e próspera, por exemplo. Quanto mais apoio social nós recebemos, mais temos bem-estar; por isso, é perceptível que quanto mais uma pessoa aprecia a convivência social, mais feliz ela parece ser, e mais engajada se mantém em seus relacionamentos, assim como mais força ela demonstra ter para lidar com questões prementes do mundo moderno, como violência, crises e demais vulnerabilidades.

A Psicologia Positiva, nesse sentido, traz em seus diversos enfoques o poder de transformação e florescimento que emana do indivíduo para o grupo – e vice-versa. Segundo o professor Christopher Peterson, conhecido mundialmente por seu trabalho a respeito das forças de caráter, a Psicologia Positiva poderia, inclusive, ser resumida em três palavras: “os outros importam”. Isso quer dizer que a ciência do bem-estar tem como um dos seus pilares fundamentais o fato de que não podemos atingir a felicidade autêntica isoladamente. Nas palavras do poeta inglês John Donne, “nenhum homem é uma ilha”.

De acordo com Peterson, a função dos nossos relacionamentos, por um ponto de vista biológico, ultrapassa a de ser um mero veículo para a obtenção de alimentos, sexo ou outros elementos primários. Essa função, na verdade, é essencial: interações sociais consistentes e construtivas fortalecem o sistema imunológico, aceleram a recuperação do organismo (após cirurgias, por exemplo), reduzem os riscos de depressão e transtornos de ansiedade e são diretamente relacionadas à felicidade e à satisfação. Por outro lado, lacunas no campo dos relacionamentos interpessoais estão ligadas a um impacto negativo no tocante à saúde.

Assim, nas relações direcionadas à valorização da alteridade, ou seja, a concepção que parte do pressuposto básico de que todo ser humano social interage e interdepende do outro, prezar pela empatia ao próximo e agir para tornar a vida comunitária mais empoderada são o caminho para transformar e impactar positivamente a sua vida e a das pessoas ao seu redor.

FLORA VICTORIA – é presidente da SBCoaching Training, mestre em Psicologia Positiva Aplicada pela Universidade da Pensilvânia, especialista em Psicologia Positiva aplicada ao coaching. Autora de obras acadêmicas de referência. Ganhou o título de embaixadora oficial da Felicidade no Brasil por Martin Seligman. É fundadora da SBCoaching Social.

OUTROS OLHARES

UM HOSPITAL FLUTUANTE

O barco do projeto Doutores das Águas passa vinte dias percorrendo rios e igarapés da Amazônia para levar assistência a brasileiros esquecidos pelo poder público

O barco deixara Manaus fazia apenas uma hora, e ainda faltavam 35 para chegar a seu primeiro destino, a comunidade de Bom Jardim, mas já então não havia mais sinal de internet ou celular. A embarcação seguiu noite adentro, sob a luz da lua, a uma velocidade de 15 quilômetros por hora, desviando-se de troncos e passando por igapós, áreas de vegetação alagadiça — tudo para levar atendimento médico e odontológico às populações desassistidas da região amazônica. A riqueza natural da maior floresta do planeta contrasta com a carência de infraestrutura das comunidades ribeirinhas visitadas pelo projeto Doutores das Águas, que todo ano percorre o mesmo caminho de precariedades — 1 000 quilômetros pelos rios Amazonas, Negro, Madeira e afluentes. Nas comunidades atendidas pelos médicos e dentistas voluntários, a energia elétrica é rara, a educação, precária, e o saneamento básico inexiste. Acompanhamos a excur­são do barco-hospital por sete dias — de seus vinte de viagem — e testemunhamos a dedicação desses profissionais a brasileiros em geral esquecidos pelo poder público.

As barreiras físicas têm sua parte na falta de assistência às comunidades à beira dos rios: poucas embarcações conseguem navegar por igarapés, os canais estreitos, de baixa profundidade, rodeados pela mata fechada. Apesar de grande — 22 metros de comprimento por 7 metros de largura, e três andares de consultórios e instalações médicas —, o barco dos doutores foi projetado para acessar lugarejos afastados. O calado (profundidade mínima para navegação) é só de 1 metro, o que permite singrar áreas rasas.

São cerca de 2.000 ribeirinhos atendidos todo ano. Eles vivem da pesca e da caça, cultivam mandioca, colhem castanhas e vendem madeira extraída ilegalmente. Uma família ganha, em média, 300 reais por mês. Embora a Amazônia seja considerada o bioma com a maior disponibilidade de água per capita, a região concentra as piores taxas de saneamento básico. Só 52,3% da população brasileira conta com rede de esgoto, e no Norte esse índice é bem pior: 10,2%. Entre os atendidos pelo barco, 60% usam fossa como banheiro e 23% o mato; 75% moram em palafita; 46% não são alfabetizados. Antes do projeto, não era incomum uma família inteira dividir a mesma escova de dentes.

A infecção por vermes é o problema mais frequente entre os ribeirinhos. Sete em cada dez pessoas atendidas pelos médicos voluntários têm pelo menos um parasita no organismo. “As crianças são as que mais sofrem. Se não têm tratamento, vivem com anemia e desnutrição, o que prejudica o desenvolvimento”, explica o médico Francisco Leão, um dos coordenadores do projeto. Além do tratamento com vermífugos, os doutores desenvolveram um programa educacional para ensinar medidas higiênicas e prevenir parasitas. Outros problemas comuns são doenças de pele e picadas de bichos como o micuim, um tipo de carrapato característico da região. Gravidez precoce também costuma ocorrer entre as ribeirinhas. Não é raro ver jovens de 20 e poucos anos que já são mães de até cinco crianças pequenas. Entre os homens, o problema mais comum é a dor lombar, decorrência de atividades cotidianas: carregar madeira, colher castanhas ou remar.

O barco tem quatro consultórios médicos, salas para exames, incluindo ultrassom, e quatro consultórios odontológicos com seis profissionais que atendem crianças e adultos que às vezes nunca viram um dentista antes. “Precisamos vencer o medo, ganhar a empatia e a confiança dos pacientes”, expli­ca o chefe da equipe, o dentista Luciano Moura. Quem chega ao ano seguinte sem nenhuma cárie recebe uma medalha, forma criada pelos doutores para incentivar o cuidado com a saúde bucal. A bordo do barco, um protético faz dentaduras. Neste ano foram 211 próteses — ou “chapas”, como dizem os ribeirinhos. A produção é em tempo recorde: em doze horas são feitos o molde, a prótese e a prova.

Para grande parte dos ribeirinhos, a visita do barco Doutores das Águas é o único momento em que eles encontram um médico ou dentista. A assistência à saúde na região é centralizada na zona urbana dos municípios. Em casos de necessidade, a viagem ao posto médico pode levar até três dias — e nem sempre o doente consegue atendimento. Poucos têm voadeira, um pequeno bote com motor rápido, que atinge a velocidade de 40 quilômetros por hora. É mais comum que usem a rabeta, barquinho que chega só a 10 quilômetros por hora.

Nas cidades, os ribeirinhos também buscam açúcar e óleo, que eles consomem em excesso. Neste ano, os médicos flutuantes começaram uma pesquisa, em parceria com a Universidade Santo Amaro, para avaliar a nutrição da população atendida. O cardápio dos ribeirinhos é baseado em peixes e animais caçados (anta, tatu e aves), mas há ainda um prato popular, nada saudável, chamado “fritinho” — um bolinho de açúcar e farinha. Muitas famílias compram até 30 quilos de açúcar e doze latas de óleo por mês.

A expedição dos Doutores das Águas é totalmente voluntária. A organização arrecada fundos de doadores particulares e empresas para custear a viagem. Todos os profissionais, de instituições renomadas, pagam a própria passagem para Manaus. “Percebemos que podemos mudar a vida das pessoas com ações muito simples. Não podemos parar”, diz Rubens Almeida Prado, consultor de pescaria esportiva e coordenador-geral do projeto. No fim da visita, os ribeirinhos recebem kits com sacos para guardar mantimentos, escova e pasta de dentes, anzol e linha para pescar, talheres, óculos para enxergar de perto e roupas.

Aliás, é durante a visita dos doutores que os moradores locais usam suas melhores roupas. O barco-hospital tornou-se um evento na região. Acompanhamos uma família de três adultos e quatro crianças que levou quarenta minutos, numa lancha rápida, para chegar ao ponto em que a embarcação estava atracada. “Onde é São Paulo?”, perguntou Raquel, 5 anos, quando a reportagem lhe disse de onde vinha. A menina teve dificuldade para figurar um lugar tomado de prédios e carros. Talvez por isso tenha querido saber se há pelo menos um elemento comum entre a metrópole e a floresta: “Tem árvore em São Paulo?”.

GESTÃO E CARREIRA

DO NICHO PARA AS MASSAS

Moda nas grandes cidades brasileiras, as hamburguerias artesanais começam a se estruturar para virar redes nacionais. Dá para crescer sem deixar de ser descolado?

Sempre que tinha uma folga no trabalho, o administrador alagoano Mauricio Coutinho, de 35 anos, dava um pulo até a Praia de Ponta Verde, uma das mais famosas de Maceió. Ele não era tão fã do mar. O que ele queria mesmo era comer um hambúrguer preparado pelo chef Deco Sadivursky, dono de um food truck na orla. De tanto frequentar o lugar, ele e o chef tornaram-se sócios e abriram a lanchonete Black Beef em 2015. Coutinho é um entre muitos. O Brasil vive uma febre de hamburguerias artesanais. A imensa maioria nasce para atender os clientes do bairro, sem grande pretensão de expansão. Mas Coutinho também é um entre poucos. A Black Beef já tem 26 lojas, em cidades como Brasília, Belo Horizonte, Maceió e São Paulo, e uma expectativa de faturamento de mais de 50 milhões de reais neste ano.

Há um punhado de hamburguerias que passaram de uma única unidade para uma rede estruturada, com ambições que ultrapassam o bairro e a cidade de origem. Além da Black Beef, outras novatas ambiciosas são a Bullguer, fundada há quatro anos em São Paulo, e a Cabana, criada no final de 2016, também na capital paulista. Elas ainda são pequenas se comparadas a gigantes como o McDonald’s, que fatura 320 milhões de dólares por ano no Brasil, com mais de 2.000 unidades. Juntas, as três redes faturaram 130 milhões de reais em 2018, com 40 restaurantes. Elas esperam fechar este ano com um crescimento de pelo menos 40%, e pretendem manter o ritmo. A ambição vem chamando a atenção de investidores. A Cabana recebeu investimento recente do fundo TMG; a Bullguer negocia um aporte com a empresa de refeições coletivas Sapore; a Black Beef tem como sócio o ator Caio Castro, que tem 17 milhões de seguidores nas mídias sociais. Hoje, o mercado de restaurantes especializados em lanches fatura mais de 20 bilhões de reais por ano no Brasil, e cresce 7% ao ano. “Há nichos que podem ser mais bem explorados, como o de sanduíches gostosos a preços razoáveis e com lojas bem arrumadas”, diz Enzo Dorma, fundador da consultoria de gastronomia ECD.

Para passar do nicho para as massas, as hamburguerias que montam as próprias redes seguem uma receita parecida: uma decoração descolada (com um ou outro detalhe autoral por loja) e um cardápio com sanduíches por preços camaradas (cerca de 20 reais) e cervejas artesanais. Em geral, há um mix de lojas de rua, onde o aluguel é mais em conta, com lojas em shoppings. Além disso, essas empresas bolaram estratégias para manter os custos baixos e oferecer um atendimento rápido. A Black Bleef compra carne fresca e monta o hambúrguer na própria loja, diminuindo o custo em até 20%. A equipe de funcionários também costuma ser enxuta: de 12 a 18 por loja, enquanto no mercado são mais de 20 empregados, em média. Outra característica é que, em geral, não há garçons. O pedido é feito no caixa e o consumidor é chamado para pegar o sanduíche no balcão, num modelo parecido com o de redes como a Starbucks, de café.

Na Bullguer, boa parte dos executivos veio de grandes empresas. A diretora-geral, Regina Baleli, havia atuado como executiva na IMC, dona dos restaurantes Viena e Frango Assado, e na britânica GR, de restaurantes corporativos. Outros diretores e gerentes passaram por redes de fast- food, como Taco Bell, americana, e Giraffas, nascida em Brasília. “Precisamos de gente acostumada a escala e a processos”, diz Thiago Koch, de 35 anos, dono de uma pizzaria em São Paulo e um dos fundadores da Bullguer. Na Black Beef, o diretor de expansão, Erisvaldo Oliveira, era gerente comercial da Raízen, do ramo de energia. A empresa está instalando software de gestão da SAP, empresa alemã acostumada a atender clientes grandes, e contratou uma agência de recrutamento para encontrar um novo presidente.

ATÉ ONDE CRESCER?

Comprar de fornecedores conhecidos ou exclusivos para garantir a padronização dos principais ingredientes é outro aspecto importante da estratégia. A rede Bullguer já tem números grandiosos. Mais de 400.000 pães são comprados por mês, além de 40 toneladas de carne e 12 toneladas de queijo. Com isso, Koch consegue descontos de cerca de 30%. Na Cabana, do empreendedor Paulo Assarito, dono também da incorporadora Mint, e de outros dois sócios, as carnes são moldadas em discos de 100 gramas na cozinha central, de onde são encaminhadas às lojas. O principal fornecedor de carne é a VPJ Alimentos, fundada há 30 anos, conhecida pelos cortes da raça angus, considerada uma das mais nobres para hambúrgueres. Os molhos são feitos internamente.

A Black Beef optou por uma estratégia parecida, com fornecedores com capacidade de atender lojas em todo o país. O histórico de expansão também é similar. Os investimentos iniciais foram feitos com recursos próprios. Conforme o negócio foi se estruturando, alguns dos empreendedores lançaram franquias, como ocorreu com a Bullguer e a Black Beef, para impulsionar a abertura de novas lojas. Nesse modelo, o franqueado toca a operação e entra com um investimento – na casa dos 500.000 reais. É uma maneira encontrada para crescer com menos custos e mais velocidade. A inspiração não vem do McDonald’s, mas de outra rede de hambúrgueres americana. Os três empreendedores contam que se inspiraram na rede Shake Shack, reverenciada como um exemplo no mercado de fast­ food mais arrumadinho. O negócio começou com um food truck em frente ao ginásio Madison Square Garden, em Nova York, em 2001, e cresceu a ponto de hoje ter mais de 240 lojas, nos Estados Unidos e em outros 11 países, com um faturamento anual de quase 600 milhões de dólares. Um dos segredos da marca é cobrar pouco – o cheeseburguer custa menos de 7 dólares – e manter ambientes descolados, que servem até vinho. Como o volume de compras é grande, dá para negociar com fornecedores e competir com as redes de lanchonetes tradicionais. Outros pontos a favor são o cardápio enxuto, que facilita o trabalho dos cozinheiros, e os hambúrgueres pequenos, com cerca de 100 gramas, e bem crocantes, outra moda entre as novas redes brasileiras. Coutinho, da Black Beef, e Koch, da Bullguer, estiveram nos Estados Unidos na mesma época, em 2014 e 2015 – Coutinho foi fazer MBA em administração na Universidade Harvard e Koch viajou a passeio -, conheceram o Shake Shack e resolveram trazer o modelo para o Brasil. “Há espaço no Brasil para hamburguerias que ofereçam um meio-termo entre opções refinadas e caras e o fast- food tradicional”, diz Ana Paula Gilsogamo, especialista em comida e bebida da consultoria britânica Mintel, que realiza estudos mundiais sobre alimentação e hábitos de consumo.

É possível manter o ar descolado mesmo com centenas de unidades? Cabana, Bullguer e Black Beef estão neste momento de reflexão: até onde dá para ir sem perder a essência que gerou o crescimento recente. A Cabana deverá dobrar o número de lojas até 2020, com pelo menos mais oito endereços em São Paulo e no Rio de Janeiro. A Bullguer planeja fechar o ano com 25 unidades, o dobro do fim de 2018, chegando a cidades menores, como Santos, no litoral paulista. A Black Beef, com 20 lojas no fim do ano passado, quer ter 38 até dezembro. Não há muitas referências brasileiras de limite para a expansão. A fórmula dessas hamburguerias relativamente baratas segue um modelo diferente de redes como o Madero, que cresceram com uma estratégia baseada em lojas bem decoradas, com garçons e uma clientela disposta a pagar mais de 50 reais por um sanduíche com um refrigerante. As novatas querem pegar clientes que topem comer sem garçom e sem luxos, mas que aceitem pagar um pouco a mais do que no fast- food tradicional. Segundo consultores, o que vai fazer a diferença será a capacidade de ganhar escala e continuar inovando nos cardápios, no atendimento e na decoração, com lojas próprias ou franquias. Será a chave para as redes competirem entre si ou superarem novatos ou redes tradicionais que investem cada vez mais em sanduíches com carnes, pães e molhos especiais. Para o consumidor, quanto mais opções de qualidade por preços convidativos, melhor.

QUERO SER REDE

As maiores hamburguerias artesanais do Brasil e sua inspiração americana

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 12 – A OFENSA

Perdoar é libertar um prisioneiro e descobrir que o prisioneiro era você. Lewis B. Smedes

A primeira coisa que precisa ser retirada do convés do seu casamento é a ofensa. Pelo fato de a ofensa ser tão tóxica, passaremos grande parte deste capítulo discutindo esse único tema.

A recusa em perdoar rouba nossa liberdade e impede a paixão. Ao agir assim você alimenta o desejo de vingança, em uma busca interminável na qual sua única companheira é a infelicidade. O ato de perdoar é um ato de libertação tanto para o ofensor quanto para o ofendido.

Muitos acreditam que o perdão deve ser retido até obtermos uma reparação adequada. Quantos de nós já dissemos: “Só vou perdoar quando vir alguma mudança”? Mas no Reino de Deus, o perdão não é opcional. Ele é o único modo de vida. Quanto mais perdoamos, mais nos tornamos como nosso Pai celestial. Se quisermos ser agentes da Sua grandeza, precisamos abraçar o poder do perdão.

Paulo nos ordenou:

Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou. Colossenses 3:13

Isso costuma ser difícil de engolir. É uma ordem, não uma sugestão. E não existem condições ou exceções. Deus nos diz para perdoar qualquer um que nos ofenda. Fim de papo.

Costumamos tolerar e criar justificativas para nossos próprios erros, e esperamos que os outros façam o mesmo. No entanto, achamos muito mais difícil perdoar os erros dos outros, principalmente os dos nossos cônjuges.

Mas qualquer pessoa que seja incapaz de perdoar se esqueceu do que lhe foi perdoado. Muitos de nós nos sentimos cheios de justiça própria e nos esquecemos de que todos nós merecíamos passar a eternidade no inferno. Nossa ofensa a Deus foi tão grave que Ele teve de sacrificar o Seu único Filho para reverter seus efeitos. Cristo declarou Seu perdão na Cruz, quando a amargura teria sido uma escolha muito mais fácil. Ele nos perdoou antes que o nosso comportamento fosse digno do Seu perdão, e nós devemos fazer o mesmo pelos outros.

Provavelmente não temos de convencer você de que seu cônjuge não é perfeito. Ninguém é! Mas os erros geram oportunidades para estendermos a graça de Deus a outros. Nossa disposição de perdoar é uma das maiores evidências de que Cristo habita em nós.

LIBERANDO AS MÁGOAS

Quando nos casamos, eu (Lisa) estava entre aqueles que costumam dizer: “Só vou perdoá-lo quando você mudar”. Até que John mudasse seu comportamento, minha lista de queixas contra ele continuaria a crescer. Eu pensava que reter o perdão o motivaria a se transformar, mas isso apenas fazia com que ele se sentisse condenado, desesperançado e impotente.

Tudo mudou quando Deus me mostrou a maneira como Ele perdoa. O perdão Dele não é uma recompensa pela nossa mudança de comportamento. É um voto de confiança. Quando Deus renovou minha compreensão do perdão, Ele substituiu as palavras da minha boca por outras que refletiam o coração Dele: “Eu creio que você deseja mudar, e eu o perdoo”.

Naquela época, eu não entendia o quanto era importante perdoar John. Mais tarde entendi que a amargura que eu guardava contra meu marido estava guerreando contra sua capacidade de mudar, pois Jesus disse:

Se perdoarem os pecados de alguém, estarão perdoados; se não os perdoarem, não estarão perdoados. João 20:23

Durante séculos esse versículo foi mal empregado e distorcido, tornando-se uma ferramenta para propagar o medo e a opressão. Essa não era a intenção de Jesus. Quando estudamos Seu ministério como um todo, podemos entender o propósito e o significado dessas palavras. Jesus, mais do que qualquer outro, entende o poder do perdão, pois Ele reconciliou o irreconciliável por meio dele.

Lembre-se de que, de acordo com 2 Coríntios 5:17-20, nós somos os ministros da reconciliação por intermédio de quem Deus faz Seu apelo ao mundo. Devemos afirmar e estender o perdão oferecido em Cristo. Quando escolhemos em vez disso guardar mágoa, deixamos de declarar a esperança de Deus e passamos a concordar com aquele chamado de “o acusador dos nossos irmãos”. Proferimos condenação contra aqueles a quem Deus quer oferecer um novo começo. Em seu comentário sobre as palavras de Jesus, G. L. Borchert afirma o seguinte: “É preciso haver um reconhecimento do papel significativo que as declarações de perdão podem ter na libertação das pessoas e em ajudá-las a colocar de lado seus pecados passados e sentimento de culpa, bem como chamar a atenção delas para a alegria de viver com o Cristo ressuscitado sob a direção do Espírito Santo”.

O perdão é um ato divino. Nenhuma outra virtude requer tão grande sacrifício do eu. Ele é uma escolha consciente pela vulnerabilidade em vez da vingança. Mas no sacrifício do eu encontramos o abraço de Deus. Escolhendo o perdão, nos recusamos a enaltecer nossos sentimentos e em vez disso nos submetemos à verdade de Deus. E perdoando nossos cônjuges, criamos a oportunidade para eles reconhecerem e receberem o convite de Deus para serem remodelados pela Sua graça.

Quando vamos a Deus em arrependimento, a resposta Dele não é: “Eu sou Deus, e sei que você vai fazer a mesma coisa de novo daqui a duas semanas”. Ele simplesmente diz: “Eu perdoo você”, e nos oferece a capacitação para mudar. Deus não declara fracasso sobre o nosso futuro; Ele declara esperança e promessa sobre cada dificuldade. Vamos fazer o mesmo uns pelos outros.

ABRINDO SEU ESPÍRITO

A ofensa faz com que fechemos o nosso espírito. Em nossos esforços para não sermos feridos novamente, construímos muros ao redor do nosso coração. Talvez achemos que esses muros nos protegem, mas na verdade eles nos impedem de receber e dar o amor de Cristo. Sem o amor Dele, nossas vidas estarão destituídas de propósito e poder. Nosso objetivo será a autopreservação e nossos atos serão cheios de egoísmo. Finalmente, nossos corações se tornarão como pedra e nossas vidas serão marcadas pela indiferença para com os outros. Isso é a antítese da mensagem do Evangelho.

Você já deve ter ouvido falar no Mar da Galileia e no Mar Morto. Eles são duas das maiores e mais conhecidas extensões de água de Israel. O Mar da Galileia recebe água do norte e a libera para o sul. Esse fluxo constante torna o Mar da Galileia um ambiente propício para a vida, e diversos habitantes aquáticos florescem nas suas profundezas. O Mar Morto, em contrapartida, só recebe água. Tudo que ele recebe, ele retém. Por não ter saída, nada além de pequenas bactérias ou fungos podem sobreviver no ecossistema salgado do Mar Morto – daí seu nome.

Quando retemos a ofensa, nos tornamos como o Mar Morto. Nosso espírito fechado faz com que nosso casamento se torne um ambiente onde nada bom pode florescer ou mesmo sobreviver. Por meio do perdão, reabrimos nossos corações para que o poder de Deus possa fluir em nós e através de nós.

A recusa em dar e receber perdão leva inevitavelmente ao envenenamento da alma. Não somos autossuficientes. Só o nosso Deus é. Nossa vitalidade requer uma troca harmoniosa com aqueles com quem vivemos; precisamos dar e receber liberalmente.

OS LIMITES DO PERDÃO

Você deve estar pensando: Sinto que meu cônjuge precisa constantemente ser perdoado. Meu perdão não é uma fonte inesgotável. Deve haver um limite! Os discípulos pensavam do mesmo modo:

Então Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?”

Jesus respondeu: “Eu lhe digo: Não até sete, mas até setenta vezes sete”. Mateus 18:21-22

Quando Pedro fez essa pergunta, ele estava tentando ser o mais magnânimo possível. Pedro cresceu sob a Lei, que dizia: “Não tenham piedade. Exijam vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” (Deuteronômio 19:21). Assim, quando Pedro se ofereceu para perdoar até sete vezes, ele esperava que Jesus dissesse: “Sim, Pedro, você entendeu!”

Sabemos, por outra passagem do Novo Testamento, que a oferta de Pedro de sete perdões se referia ao número de vezes que ele achava que precisava perdoar alguém em um dia (ver Lucas 17:3-4). Assim, a resposta de Jesus – perdoar “setenta vezes sete” – não foi meramente uma ordem segundo a qual se deveria perdoar o suficiente para cobrir uma vida inteira de ofensas. Jesus estava comunicando a Pedro que o perdão deveria ser dado sem medida.

Para alguém pecar da maneira como Jesus descreveu, teria de cometer 490 ofensas em um dia! Para pecar tão intensamente, seu cônjuge teria de ofender você a cada três minutos – se nenhum dos dois fosse dormir. Isso é pecar muito, mais do que qualquer um provavelmente conseguirá. Mas ainda que seu cônjuge pudesse pecar contra você mais de 490 vezes em um dia, isso não significa que você pode parar de perdoá-lo depois da ofensa número 490.

Na Bíblia, o número sete simboliza a totalidade, especificamente entre a Terra e o Céu. Jesus usou o número 490, um múltiplo de sete, para transmitir a ideia de que devemos perdoar completamente, seguindo o padrão do nosso Pai celestial. Perdoar generosamente só é possível porque fomos restaurados para Deus por intermédio de Cristo. Nele, há harmonia entre o Pai e Seus filhos. Portanto, somos capacitados a perdoar porque somos novas criaturas com novos corações. Nossos corações receberam liberalmente o Seu perdão e, para permanecermos espiritualmente saudáveis, precisamos oferecer perdão liberalmente a outros.

Sabemos que Jesus quer que nossa capacidade de perdoar seja inesgotável porque depois da Sua conversa com Pedro, Ele contou uma parábola sobre um rei que perdoou e um servo que se recusou a perdoar, concluindo com esta explicação:

Irado, seu senhor entregou-o aos torturadores até que pagasse tudo o que devia. “Assim também lhes fará Meu Pai celestial se cada um de vocês não perdoar de coração a seu irmão.” Mateus 18:34-35Não receberemos perdão se nos recusarmos a perdoar. Não há exceções. Por que é tão importante para Deus perdoarmos? Porque no perdão descobrimos e imitamos a Sua natureza. Transcendemos os limites da indignidade humana que nos é inerente e nos conformamos à semelhança do nosso Pai. Por intermédio do perdão de Deus somos curados e somos convidados – e até encarregados – de estender Sua cura àqueles a quem perdoamos. Se seu cônjuge pede perdão frequentemente, então Deus abençoou você com a oportunidade de ser um agente do Seu poder, que cura

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CONSTRUÇÃO ABSTRATA NA MENTE

Conceitos abstratos são construídos por um conjunto de relações que só fazem sentido quando essa rede está bem trançada. Ela envolve uma série de elementos concretos

A linguagem cumpre um papel fundamental não apenas na comunicação, como na interpretação do ambiente e na identificação das próprias emoções, o que possibilita a formulação consciente de respostas mais apropriadas.

Se, por um lado, a ampliação do vocabulário permite a ampliação da própria consciência e modifica a forma como as pessoas processam suas experiências no mundo, por outro são as próprias experiências que dão sentido à palavra, em uma relação recíproca e interdependente. No entanto, a educação não leva em consideração a forma como a linguagem é compreendida e desenvolvida ao trabalhar uma série de conteúdos que, no decorrer no ensino fundamental, vão ficando cada vez mais abstratos e distantes do universo dos alunos.

As apostilas e livros didáticos esperam que crianças de menos de 10 anos entendam que, na época do descobrimento, havia “características comuns” aos povos indígenas, apesar da “grande diversidade” entre eles, como o fato de não “considerarem a terra uma propriedade particular”. Também devem entender que a “subsistência” era o “produto do trabalho” e não o lucro. Nesse caso, o domínio desses conceitos é um pré-requisito para a compreensão desta pequena parte de um conteúdo, que vai muito além dos fatos citados. O problema é que, em geral, as crianças não têm. Isso não quer dizer que nessa idade não seja possível compreender conceitos complexos: significa que o conteúdo de disciplinas como história, geografia e ciências ainda é totalmente voltado a fatos e pressupõe que os alunos irão, naturalmente, absorver o significado – ou, normalmente, os muitos significados – de um vocabulário abstrato, muitas vezes relacionado a práticas longe da realidade delas. Aprender história sem entender profundamente o sentido de palavras como “subsistência”, “propriedade particular”, “influência” e “diversidade” é como assistir a um filme em baixa resolução e numa língua estrangeira: se tem uma ideia vaga e muitas vezes distorcida do que acontece.

As abstrações, como no caso de “subsistência”, a terra, a plantação, o alimento, os animais – e outros abstratos, como “o lucro, a propriedade, o consumo, o essencial -, estão, por sua vez, ligadas a outros conceitos, em uma série de incontáveis relações. A aprendizagem só ocorre quando o novo elemento é encaixado nessas redes já existentes. Se não é relacionado, não faz sentido, e se não faz sentido, será descartado pelo cérebro.

Essas relações permitem que o novo conceito seja visualizado, ou seja, que o cérebro crie uma imagem mental para ele, o que geralmente ocorre de forma inconsciente. Tanto é que o fato de a mente dar forma a palavras abstratas não era amplamente aceito até recentemente, quando estudos com neuroimagens passaram a amparar essa teoria. Muitas teorias no início do século passado já relacionavam os processos cognitivos às sensações físicas, mas até pouco tempo atrás, a visão mais aceita era de que corpo e mente agiam de forma separada, de que o pensamento envolvia certas partes do cérebro e as percepções envolviam outras. Hoje sabemos que essa divisão não é bem definida.

Temos consciência de uma parte muito pequena – estima-se que 1% – do que se passa em nossa mente. Enquanto esses processos conscientes são lineares, geralmente seguindo – uma sequência lógica, a mente segue vários caminhos paralelos simultaneamente, que caracterizam a forma como as pessoas interpretam e passam por movimentos, imagens e outras percepções.

Investigações neurocientíficas mostram que quando pensamos sobre conceitos amplos – como fracasso, inspiração, ambição, comodismo, rejeição, confiança – ativamos áreas visuais e motoras do cérebro, ou seja, associamos a abstração a elementos concretos. Pode parecer difícil identificar essa relação, por ser inconsciente, mas o mais provável é que o cérebro crie sentido às palavras de forma metafórica.

Quando falamos em afeto, por exemplo, ativamos no cérebro regiões associadas ao conforto e ao calor. Visualizamos o futuro como algo que está à frente; sentimentos negativos são universalmente compreendidos como “para baixo”; descrevemos etapas da vida como caminhos; relações são descritas em termos de percursos e direções. O linguista George Lakoff, autor do termo corporização cognitiva – em bodied cognition -, ampara todo o seu trabalho na ideia de que o pensamento é, necessariamente, metafórico.

Segundo o linguista Benjamin Berger, em seu livro Louder Than Words (Mais alto que palavras), “ações imaginadas, relacionadas metaforicamente às situações, abstratas produzem melhor compreensão dos conceitos expostos”. Juntamente com Nian Liu, em um de seus estudos ele investigou se a mente cria simulações mentais de espaços quando utilizada linguagem abstrata da mesma forma como procede na linguagem concreta, medindo o tempo de resposta dos participantes com relação à locação espacial implicada na frase. Eles encontraram evidências de que mensagens abstratas também acionam simulações mentais, embora precisem de um tempo maior para serem processadas.

A utilização de metáforas e analogias no entendimento de conceitos abstratos, ao descrevê-los em termos mais concretos, está diretamente relacionada à forma corno o cérebro processa a linguagem. Muito mais que um recurso poético ou literário, ensinado de forma isolada, é essencial para se compreender mensagens que dependem de relações com o mundo físico ou que, muitas vezes, estão inconscientemente relacionadas a diferentes sensações e emoções.

MICHELE MÜLLER – é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências. Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no site www.michelemuller.com.br

OUTROS OLHARES

UM PORRE DE SOBRIEDADE

Em nome da saúde e do bem-estar, adolescentes e jovens adultos trocam os coquetéis clássicos por drinques preparados sem uma gota de álcool

Em termos de comportamento, o universo dos “baby boomers”, como são chamadas as pessoas nascidas após a II Guerra Mundial, parece outro planeta comparado ao dos millennials, a turma com idade entre 24 e 39 anos. No lugar dos guitar heroes, passaram a brilhar nos palcos os DJs e seus pickups. Saíram de cena os bólidos possantes e motos envenenadas, entraram em campo os aplicativos de transporte e as bicicletas. Os cigarros que compunham um figurino charmoso viraram sinônimo de péssimo gosto. Agora, os mais jovens podem brindar esse fosso geracional com drinques que contenham na receita xaropes, especiarias e energéticos, entre outros ingredientes. Esqueça dry martinis, mojitos e cosmopolitans: a onda virou “encher a cara” à base de misturas sem nenhuma gota de álcool. Sim, isso mesmo. Em vários bares nos Estados Unidos e na Europa, a happy hour já é movida a várias doses de sobriedade.

Chamada de mindful drinking, ou bebendo deforma consciente, em uma tradução livre, a tendência começa a chegar ao Brasil. Em um passado não muito distante, as cartas etílicas dos bons estabelecimentos daqui traziam escondidas uma ou outra opção sem álcool, em geral feitas de forma improvisada para atender um número residual de clientes. O negócio vem mudando a um ritmo veloz. Cada vez mais, os bartenders investem tempo e criatividade no desenvolvimento de drinques sem álcool. Um dos melhores bares de coquetéis de São Paulo, o Guilhotina Bar, oferece hoje quatro opções do tipo e cerca de dez com médio ou baixo teor alcoólico. “A ideia é disponibilizar alternativas para que as pessoas que não queiram ou não possam beber frequentem a casa e tenham a experiência de curtir o clima do bar”, afirma o bartender e proprietário Márcio Silva.

Vários estudos conseguiram quantificar essa mudança de comportamento. Nos Estados Unidos, uma pesquisa da Nielsen revelou que metade das pessoas com idade entre 21 e 34 anos está tentando beber menos. Na Austrália, a ingestão de álcool atingiu recentemente o seu ponto mais baixo desde o início dos anos 60. O declínio foi causado quase inteiramente pela redução do consumo entre jovens. Na Alemanha e na Inglaterra, países conhecidos pelo alto consumo de cerveja, houve uma diminuição drástica desse hábito no dia a dia dos adolescentes e dos jovens adultos. Por aqui, um levantamento realizado pela empresa de pesquisa de mercado Mintel, em 2018, mostrou que 35% dos millennials limitam a quantidade de álcool ingerida como parte de sua rotina de cuidados com a saúde e 17% trocaram o consumo de bebidas alcoólicas pelo de não alcoólicas. ”Essa geração busca formas diferentes de viver a vida”, entende a psicóloga Ceres Araújo, professora da PUC de São Paulo. “Eles sabem que o álcool faz mal e engorda, e acabam se afastando disso”.

Outra pesquisa da Nielsen ressaltou que 70% dos brasileiros com até 35 anos estabelecem como objetivo de vida ter saúde, e uma das formas de alcançar essa meta é pela mudança de hábitos. No quesito consumo de álcool, isso significa beber menos, sem necessariamente abster-se. O momento de encher o copo fica guardado para festas e ocasiões especiais (às vezes, com algum exagero na data escolhida). De acordo com dados da OrganizaçãoMundial da Saúde, a prática de beber em binge– ou seja, o consumo de pelo menos cinco doses por homens ou quatro por mulheres dentro de um período de duas horas – subiu de 12,7% para 19,4% no Brasil entre 2010 e 2016. No restante do mundo, houve uma redução de 20,5% para 18,2% entre 2000 e 2016. Crescente, o movimento dos drinques sem álcool já provoca mudanças importantes no setor de negócios etílicos. Marcas tradicionais como Heineken e Guinness lançaram recentemente no exterior versões de cerveja sem álcool. A AB InBev, dona da Budweiser e da Brahma, entre outras, assumiu o compromisso de fabricar 20% de seus rótulos com pouco ou nenhum álcool até 2025. Um dos movimentos mais emblemáticos foi protagonizado pela Diageo, a segunda maior empresa de destilados do mundo. Em 2016, a dona do uísque Johnnie Walker comprou a Seedlip, companhia britânica especializada em coquetéis sem álcool. No setor de alimentação, as grandes redes de fast-food tiveram de engolir as mudanças de comportamento e substituíram itens calóricos do cardápio por comidas mais saudáveis. A indústria de bebidas sofre agora pressão semelhante e poderá virar a bola da vez – pelo menos no que depender do gosto dos millennials

GESTÃO E CARREIRA

EXECUÇÃO OU ESTRATÉGIA?

Em muitas empresas, só se pensa no estratégico. Mas nada funciona direito sem pessoas que executem bem. É fundamental um equilíbrio entre as duas funções

Um aspecto da gestão moderna que sempre me preocupou é o endeusamento dos executivos que possuem visão estratégica. Claro que é importante, claro que ter essa habilidade ajuda muito na gestão, mas os líderes que são bons executores também precisam ser igualmente reconhecidos. Como diz o grande consultor indiano Ram Charan, “a melhor estratégia é aquela que é bem executada”.

Sabemos de muitas empresas que possuem um magnífico planejamento estratégico, mas não conseguem colocá-lo em prática, pois tratam a execução como uma disciplina menos importante. O que se ouve é: “O topo faz a estratégia e os ‘lá de baixo’ executam”. Grande erro. O executor é tão valioso quanto o formulador. Eles se complementam e devem ser tratados igualmente, com as mesmas recompensas e reconhecimento.

Existem algumas regras para o processo de execução, as quais reúnem técnicas e comportamentos. Vejamos o que Larry Bossidy e Ram Charan nos indicam em seu livro Execução (Alta Books, 69,90 reais).

1. Conheça bem seu pessoal e seu negócio. Isso parece óbvio, mas não é. Faça as seguintes perguntas: “Qual é o time que vai fazer a execução?” “Será que eu, líder, conheço bem as características de cada um?” “Até que ponto posso desafiá-los?” “Qual o nível de comprometimento de cada um?”

2. Insista no realismo. O bom executor sabe ler nas entrelinhas do plano e sacar sua viabilidade. Essa análise pragmática é fundamental para o sucesso, pois sempre é necessário ter uma dose de realismo para conduzir a execução.

3. Estabeleça metas e prioridades claras e as comunique. As famosas frases “Somos todos adultos” ou “Qualquer criança entende o que precisamos fazer” são inadequadas, desmotivadoras e sem nexo.

4. Trabalhe para concluir o que foi planejado. Não deixe pedaços para serem feitos mais tarde, não pare no meio e não procrastine.

5. Recompense quem faz. Muito cuidado para recompensar aqueles que realmente executaram, que deram o sangue, que fizeram a virada.

6. Amplie o leque de competências do time propondo desafios. Lembre-se de que as pessoas são sempre melhores do que pensam. Portanto, desafie-as, faça com que saiam de sua zona de conforto e cresçam por meio dos desafios.

7. Conheça seus limites. Muitas vezes, não é a equipe que não funciona. É você que está indo além de seus limites e de suas convicções — ou, até, contra seus valores. Por isso, entenda até onde você aguenta. Somos seres humanos com limites que devem ser respeitados.Capriche na execução e você terá a melhor estratégia funcionando

LUIZ CARLOS CABRERA – escreve sobre carreira, é professor na EAESP-FGV e diretor na PMC-Panelli Motta Cabrera & Associados

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 11 – LIMPE O CONVÉS

Limpe o convés: (verbo) Prepare-se para um evento ou objetivo específico lidando antecipadamente com qualquer coisa que possa impedir o progresso

Esse termo náutico originalmente era uma ordem dada a bordo dos navios que se aproximavam de uma batalha. Quando recebiam essa instrução, os marujos sabiam que deviam remover quaisquer ferramentas, cordas ou outros objetos que pudessem impedi-los de se movimentar livremente pela embarcação. Hoje esse termo se aplica a qualquer preparação que nos posicione para agir sem maiores embaraços.

No capítulo anterior, falamos sobre o casamento como um projeto funcional e vivo. O propósito deste capítulo é tratar de quaisquer problemas que possam impedi-lo de avançar e de experimentar a grandeza do casamento. O ato deliberado de limpar o convés de um navio serve para impedir que as cordas se emaranhem umas às outras. Se o convés estiver em desorganizado ou cheio de entulho, é fácil, em tempos difíceis ou em mares revoltos, tropeçar em alguma coisa que você poderia facilmente contornar se estivesse navegando em águas tranquilas.

Amamos a ideia de posicioná-lo para velejar rumo ao seu futuro, levando com você tudo aquilo que lhe sustentará, enquanto ao mesmo tempo lança fora qualquer coisa que possa lhe trazer peso ou deixá-lo ancorado ao passado.

Muitas pessoas não apenas “tropeçaram no convés” e se feriram, como também caíram do barco e se perderam no mar.

O projeto de Deus para o casamento é infalível. No entanto, o casamento parece colocar as falhas de cada um dos cônjuges em evidência como nenhuma outra instituição. Em vez de esperar até estar navegando em uma embarcação que esteja desesperadamente fora da rota – com velas rasgadas, carga perdida, vazamentos no casco e cordas desgastadas – queremos posicioná-lo corretamente para abrir caminho.

Ainda fazendo uso da analogia náutica, a recusa em tratar adequadamente os problemas fundamentais do relacionamento poderia ser comparada a se lançar ao mar com uma rolha tampando um buraco no casco do seu navio. Vai funcionar por algum tempo, mas quando a pressão aumentar, a rolha não irá aguentar.

Não queremos que você tropece ou afunde. Queremos que seu casamento seja uma arca que pode resistir a qualquer tempestade que você encontrar. Enquanto trabalhava no projeto do seu casamento no capítulo anterior, você talvez já tenha reconhecido alguns problemas que precisa tratar antes de poder avançar com aquilo que visualizou. Portanto, vamos procurar cada falha que pode atrapalhá-lo cujas raízes são o egoísmo, o orgulho e a ofensa. Vamos nos libertar de toda maldição que nos acorrenta e de todo medo que nos amarra e deixar que a esperança seja nossa âncora.

NOSSO COMEÇO

Sabemos que limpar o convés é importante porque não foi assim que iniciamos nossa jornada juntos. Não prestamos muita atenção durante o aconselhamento pré-nupcial. Quando nosso conselheiro tentou nos aconselhar sobre como navegar nas águas turbulentas dos conflitos, pensamos: Brigar? Nunca vamos brigar! Deus nos uniu. Este conselho é para pessoas que não estão apaixonadas como nós. Nós não somos essas pessoas. A mão de Deus está sobre nossas vidas.

Depois de apenas algumas semanas de casamento, os problemas começaram. Não demorou muito para entendermos o quanto estávamos errados. Havíamos entrado no casamento enxergando nosso cônjuge como alguém perfeito, mas logo ficamos cada vez mais conscientes de todas as falhas um do outro. Então começamos a trabalhar duro para mudar um ao outro. Em resultado disso, nosso casamento feliz se tornou um campo de batalha entre duas pessoas com muita força de vontade. As fagulhas voavam enquanto ferro tentava afiar ferro.

Ainda não tínhamos a consciência de que nossa união era na verdade fraca e frágil. Sim, estávamos profundamente comprometidos um com o outro, mas cada um de nós valorizava excessivamente o próprio caráter, especificamente nas áreas da paciência e do altruísmo. Tínhamos mais problemas do que gostaríamos de admitir, e até o que era bom precisava ser fortalecido para resistir aos desafios que estavam por vir.

Em vez de permitir que Deus limpasse nosso convés, queríamos apenas limpar um ao outro. O casal que acreditava ser um par perfeito havia acordado do sonho. Ainda fingíamos que tudo estava bem quando íamos à igreja, mas nossa vida doméstica começava a se parecer mais com uma disputa de luta livre.

Durante nosso primeiro ano de casamento, houve um dia em que estávamos envolvidos no que alguns chamariam de “comunhão intensa”. John não queria que eu (Lisa) saísse do quarto, então ele me disse para sentar na nossa cama. Eu queria sair do quarto antes que pudesse dizer qualquer outra coisa da qual me arrependeria logo de manhã. John disse para eu me sentar, e quando eu já estava me levantando para sair, ele tentou fazer com que eu me sentasse na cama para discutirmos as coisas. A combinação do meu movimento levantando e o empurrão de John me fez cair no chão.

Levantei-me e fiquei de pé, segurando um abajur na mão. John olhou para mim incrédulo, com um olhar de terror no rosto.

— O que você vai fazer com isso? — ele perguntou.

— Não sei — resmunguei.

O ridículo daquela cena criou uma oportunidade para nós dois nos acalmarmos e conversarmos sobre o problema, mas a raiz do problema continuou sem solução.

Alguns dias depois desse episódio, eu estava almoçando com uma de minhas amigas. Ela estava casada há mais tempo que eu, e me senti relativamente confortável em me abrir com ela sobre meus problemas matrimoniais. Mas em vez de contar os detalhes do incidente com o abajur, decidi fazer uma abordagem mais sutil. Perguntei de forma casual:

— Você já teve um desentendimento com seu marido e de repente se viu com um abajur nas mãos?

Ela me olhou como se a pergunta fosse absurda:

— Não!

Respondi depressa:

— Nem eu!

Obviamente, eu estava mentindo. Minha amiga provavelmente conseguiu deduzir que a minha pergunta supostamente aleatória era um grito de socorro. Mas a máscara conjugal nos impediu de levar a conversa adiante.

John e eu sentíamos como se não tivéssemos para onde ir. Sérios problemas estavam surgindo em nosso casamento, mas não sabíamos a quem recorrer. Na igreja, escondíamos nossas dificuldades e mascarávamos nossa dor. Sabíamos que o grau de conflito no nosso relacionamento estava aumentando, mas não sabíamos como responder a isso. A vergonha e falta de esperança provenientes da nossa situação fizeram com que as coisas fossem de mal a pior. Consequentemente, a tensão em nossa casa se tornou insuportável.

E então aconteceu. Nosso conflito chegou ao ápice quando eu (John) bati em Lisa. Antes desse incidente, nossas brigas eram físicas – eu já a empurrara uma vez – mas essa foi a primeira vez que dei um tapa nela. Imediatamente, percebi o que havia feito e fiquei completamente horrorizado com meu comportamento e consumido pelo remorso. Lisa revidou e depois se trancou no banheiro. Ambos fomos nos deitar naquela noite sentindo que algo havia se perdido.

Na manhã seguinte, enquanto nós dois nos preparávamos para sair para o trabalho, Lisa estava em silêncio e cada vez mais distante. Parecia que a inviolabilidade e a confiança do nosso relacionamento haviam sido rompidas. Ambos estávamos trabalhando em tempo integral, e à medida que a semana passava, a distância entre nós aumentava. Lisa estava trabalhando com vendas naquela época, e começou intencionalmente a ficar fora até tarde, olhando as vitrines da região para evitar ter contato comigo. Quando finalmente ela voltava para casa, recusava-se a falar ou a jantar comigo e ia direto para a cama ler. Eu estava esperando ansiosamente pelo fim de semana para que pudéssemos finalmente resolver o que havia acontecido.

MEU JURAMENTO

Quando era jovem, eu (Lisa) havia feito um juramento de que se meu futuro marido algum dia me batesse, eu o deixaria. Fui criada em um lar desequilibrado e ficava aterrorizada com a possibilidade de me encontrar em outra situação abusiva. Quando John me bateu, lembrei-me do meu juramento e fui confrontada com uma decisão que poderia transformar minha vida. Será que conseguiria permanecer casada? Será que conseguiria amar e me entregar a um homem que havia me batido?

As pessoas com quem eu trabalhava sabiam que algo estava me perturbando profundamente. Uma de minhas supervisoras supôs o que havia acontecido. Ela me encorajou a deixar John imediatamente, sem conversa. Eu estava esperando o fim de semana chegar para poder trancar John do lado de fora da casa. Além de falar com meus colegas de trabalho, eu estava lendo o livro do Dr. James Dobson O Amor Tem Que Ser Firme, que me inspirou a elevar a situação ao nível de uma crise.

Quando John voltou para casa naquela noite, ele não conseguiu entrar no apartamento. Eu havia trancado a porta por dentro e ele não tinha como entrar. Isso foi antes dos telefones celulares, de modo que ele ficou do lado de fora e chamou: “Lisa, cheguei. Por favor, deixe-me entrar!” Acabei abrindo uma janela para informá-lo de que eu sabia que ele havia chegado, mas que ele precisava encontrar outro lugar para passar a noite. John não conseguia acreditar. Depois de algum tempo, ele percebeu que não entraria em casa, então decidiu passar a noite com um amigo, com o pretexto de orar e jejuar.

Agora que eu tinha a casa toda para mim, decidi ter uma conversa séria com Deus. Creio que minha oração começou mais ou menos assim: “Tudo bem, Deus, tenho algumas sugestões para o Senhor. Enquanto John está fora, ele precisa ter uma revelação do quanto tem sido terrível comigo. Talvez o Senhor possa dar a ele um sonho mau ou assustá-lo com um relâmpago. Apenas não o mate porque ele não tem um seguro de vida muito bom”.

Mas por mais que eu orasse sobre John, a única pessoa a respeito de quem Deus queria falar comigo era eu mesma. Deus não estava interessado em discutir os problemas de John comigo. Ele queria falar sobre como estava o meu coração. Ele me disse: “Lisa, você precisa de uma intervenção sobrenatural no seu casamento. E se quiser uma intervenção sobrenatural no seu casamento, você terá de agir sobrenaturalmente. Isso significa que você deve perdoar mesmo achando que o perdão não é merecido”.

“Lisa”, Deus continuou dizendo, “você está guardando todas as suas mágoas contra o John”.

GUARDANDO MÁGOAS

Quando John e eu brigávamos, não brigávamos apenas sobre o problema imediato. Usávamos a munição acumulada nos nossos meses de casamento para diminuir e desacreditar um ao outro. Um registro sempre crescente de ofensas, condenação e amargura era o fundamento para todos os desentendimentos. Até as discussões menores evoluíam para o que pareciam batalhas de proporções épicas.

Eu, a maior culpada nesses longos conflitos, não estava disposta a perdoar John e suas ofensas passadas. Por causa da mágoa que eu havia trazido para o nosso relacionamento, eu temia a possibilidade de que, se eu cancelasse as dívidas dele, poria em risco minha segurança emocional e física. Mas Deus me disse que embora John estivesse longe de ser perfeito, ele merecia meu perdão.

Continuei tentando dirigir a atenção de Deus novamente para John, mas Ele não estava cooperando. Supliquei “Por que sou sempre eu que tenho de mudar? Espero que o Senhor esteja dizendo a John para fazer o mesmo porque ele não vai mudar a não ser que o Senhor diga a ele para fazer isso”.

Mas em meio a tudo isso, Deus estava revelando a corrupção do meu próprio coração. O orgulho e o egoísmo logo surgiram com suas consequências terríveis. Eu me vi pensando em como as pessoas reagiriam se John e eu não estivéssemos sentados juntos ou de mãos dadas na igreja no domingo. Decidi que permitiria que ele voltasse para casa apenas a tempo de se vestir e me levar para a igreja, para que pudéssemos manter as aparências. Eu não estava preocupada com John ou com nosso relacionamento. Estava preocupada com o que as outras pessoas pensavam a nosso respeito. Meu orgulho estava me impedindo de experimentar o efeito transformador da graça de Deus exatamente onde eu mais precisava dela.

Finalmente me quebrantei e permiti que Deus fizesse Sua vontade no meu coração. Mesmo depois do terrível erro de John, escolhi reconhecer a minha parte no que havia ocorrido. Assim que eu me humilhei, a graça de Deus se manifestou. A humildade sempre abre as comportas da graça:

“Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes.” 1 Pedro 5:5

Ficou evidente para mim que eu não podia mudar John. Só Deus poderia fazer isso. Mas eu podia permitir que Deus mudasse a mim mesma.

Depois daquele fim de semana fora, John voltou para casa um homem diferente. Depois que Deus tratou com ele nos primeiros anos do nosso casamento, ele nunca mais me bateu – e hoje fazem mais de três décadas desde que isso aconteceu. Nossa união foi transformada quando ambos respondemos com humildade diante de Deus e diante um do outro com esperança de uma restauração e reconciliação completas.

MORAL DA HISTÓRIA

Gostaríamos de poder dizer que as feridas daquele período de nossas vidas se curaram da noite para o dia, mas não foi assim. Os dois anos seguintes do nosso casamento continuaram a ser marcados por grandes lutas e dificuldades emocionais enquanto tentávamos aprender a viver juntos de uma maneira que honrava a Deus. Ouvimos todo tipo de conselhos, que variavam desde ambos sermos o chefe até Lisa desaparecer completamente tanto na sua voz quanto no seu papel.

Na nossa imaturidade, frequentemente atacávamos um ao outro verbalmente enquanto Deus estava fazendo uma obra em nossas vidas individuais. Saímos dos nossos quatro primeiros anos de casamento nos sentindo extremamente quebrantados. Em alguns aspectos, vivíamos as consequências dos nossos erros. Havia até mesmo evidências físicas ao nosso redor dos fracassos que vivemos, inclusive uma geladeira amassada e uma janela substituída. Mas Deus não perdeu a esperança em nós. Ele estava redimindo os nossos erros transformando-os em oportunidades de limpar o convés. O que o inimigo havia preparado para destruir nosso casamento, Deus usou como alicerce para o que estava por vir.

Embora sempre tenhamos dito que tivemos dificuldades, nunca entramos em tantos detalhes assim nos nossos ensinamentos. Estamos compartilhando mais informações agora não como uma desculpa para o nosso comportamento, mas para encorajar você a saber que a mudança pode acontecer. Ao mesmo tempo, sabemos que nem todo abuso tem final feliz, e não estamos incentivando nenhuma mulher ou homem a permanecer em uma situação onde eles ou seus filhos não estejam em segurança. Se você está nessa situação, vá para um lugar seguro. Não se envergonhe. Fique em segurança e procure a ajuda que necessitar. Falaremos mais sobre isso em breve.

Durante esses anos desafiadores, nosso casamento parecia completamente destituído de esperança. Trinta anos depois, porém, estamos desfrutando a vida juntos mais do que nunca. Nosso casamento é maravilhoso, o que é verdadeiramente um testemunho do poder de Deus de operar milagres. Isso não quer dizer que não passamos por outros vales ao longo do caminho. Mas de uma coisa sabemos: à medida que escolhemos amar, Deus foi fiel para nos fazer atravessar cada um deles.

Não sabemos como está seu relacionamento hoje, mas podemos lhe garantir que há esperança! Volte seu coração para Deus e permita que Ele trate com você. Você não pode mudar seu cônjuge, mas Ele pode. Entregue a responsabilidade a Ele. Deus começará uma linda mudança se você permitir.

UMA PALAVRA SOBRE ABUSO

Queremos deixar isto claro: marido, nunca é aceitável que você parta para o embate físico com sua esposa. A Bíblia diz que você deve honrá-la como o vaso mais frágil (ver 1 Pedro 3:7). Os ataques emocionais ou até físicos de sua esposa não lhe dão o direito de reagir da mesma maneira. Afaste-se se for preciso. Não reaja fisicamente, ainda que seja apenas em retaliação aos ataques dela, ou você perderá a confiança de sua esposa. Ela não se sentirá mais segura nos seus braços. Se você cometeu abuso contra sua esposa, arrependa-se imediatamente diante de Deus e peça perdão a ela.

Esposa, o desejo natural do seu marido é protegê-la. Deus deu a muitos homens uma força superior com esse propósito específico. Você pode considerar ataques físicos a seu marido como ataques de raiva banais e inofensivos, já que eles não causam danos físicos a ele. Mas para seu marido, seus ataques são devastadores. Certo ou errado, os homens foram feitos para reagir fisicamente quando são atacados. Não queremos provocar ou despertar o pior um no outro; queremos trazer para fora o melhor. Se você cometeu abuso contra seu marido, arrependa-se e pare imediatamente com esse comportamento.

Talvez você tenha crescido dentro de uma cultura familiar violenta. Talvez em sua família o abuso verbal, emocional ou físico fosse algo normal. Queremos que você saiba que essa nunca é uma maneira saudável de resolver os conflitos. O aconselhamento cristão pode lhe dar as ferramentas necessárias para resolver os desafios de sua vida pessoal e familiar de forma saudável. Muitas igrejas oferecem pequenos grupos de estudo sobre esses temas. Jamais sinta vergonha de procurar ajuda profissional e espiritual.

E isso vale tanto para maridos quanto esposas: se seu cônjuge se sente inseguro com relação a você, saia de perto dele e trabalhe para recuperar essa confiança. Não tente forçar uma conversa em qualquer ambiente onde ele ou ela se sinta em risco. Se fizer isso, as coisas só irão piorar, e você provavelmente fará algo que lamentará mais tarde.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS DIMENSÕES DA PAIXÃO

A ideia de se apaixonar provoca desejo e medo. Não é um terreno seguro. Ainda que a paixão seja correspondida, gera fragilidade, pois o objeto de amor pode ou não suprir as expectativas

Há uma supervalorização das ações e significados de tudo que envolve o ser amado. Por isso o medo das pessoas de se verem enredadas nas garras da paixão. Evitar a todo custo relacionar- se por medo da paixão e do amor é um indício de grande bloqueio e revela mecanismos de defesa muito consolidados, provocados geralmente por vivências traumáticas.

Como escreve o psiquiatra Renato Mezan no livro Os Sentidos da Paixão: “A defesa – qualquer defesa – tem a finalidade óbvia: evitar o desprazer. Isso não a impede de gerar, por vezes, um intenso desprazer; mas esse último será sempre fantasiado como um mal menor, se comparado com aquilo que sucederia caso a defesa fosse abandonada. Boa parte do trabalho psicanalítico, aliás, consiste no reexame das fantasias e das angústias que povoam a vida psíquica do paciente”. Entregar-se à paixão é antes de tudo um ato de coragem.

Baixar as defesas que impedem o contato com o outro e o risco da paixão como possível consequência é iniciar uma jornada de heroísmo. O que enfrentaremos nessa empreitada é um mistério. Quando se está aberto à vida e às experiências, estamos sujeitos ao apaixonamento. Esse processo geralmente revela a nossa “sombra”. Sombra é um conceito da psicologia junguiana que designa conteúdos arquetípicos tanto destrutivos como construtivos, que foram recalcados e esquecidos e assim passíveis de projeções. A revelação da nossa sombra e de nossos complexos, através da relação com o outro, pode ser equiparado simbolicamente aos 12 Trabalhos de Hércules, ao enfrentamento da Medusa e das sereias na jornada de Ulisses e seus companheiros ou aos desafios de Psique para reencontrar o amor de Eros. Metáforas da mitologia que podemos considerar como os desafios de viver e amadurecer. Todos os seres assustadores desse caminho estão dentro de todos e podem ser despertados. Não há melhor forma de conhecermos nossas fragilidades psíquicas e inseguranças do que na relação com o outro. Após algum tempo de relação, as idealizações iniciais começam a colapsar e a realidade se apresenta. Se os parceiros avançaram pouco na senda do amadurecimento e autoconhecimento, podem surgir muitos conflitos e o relacionamento pode tornar-se um campo de disputas. Por questões narcísicas arcaicas pode não ser fácil para o indivíduo reconhecer a parte que lhe cabe nos conflitos, gerando mágoa e ressentimento no parceiro. Principalmente se houve interrupções em seu processo de amadurecimento afetivo.

Amar talvez seja a tarefa mais complexa da existência humana. Desde que nascemos, de uma forma ou de outra, estamos nos preparando para amar. “Talvez seja o trabalho para o qual todos os outros trabalhos não sejam mais do que a preparação”, disse o psiquiatra Ronald Laing (1954). O amor diferentemente da paixão exige um grau de maturidade a ponto de se ter condições de considerar o outro e suas necessidades, diferentemente da paixão que é permeada por questões mais narcísicas e autocentradas. Na busca de alcançar a maturidade para que a paixão possa evoluir para um sentimento verdadeiro e compartilhado em que o outro é tão igualmente importante e1n seus desejos e necessidades, existe um árduo caminho.

Esse caminho é descrito por Carl Jung nos estudos alquímicos e o processo de individuação. Transformar nossas mazelas na “pedra filosofal” como desejavam tanto os alquimistas é tarefa nobre. Não alcançaremos o Opus sem antes passar por todos os processos de transformação, tão bem descritos por Edward F. Edinger em seu livro Anatomia da Psique. Nesse livro o autor descreve as etapas do processo alquímico a que são submetidos os materiais e a sua correspondência ao processo de autoconhecimento. Esses processos incluem: submeter-se ao fogo, à água, ao ressecamento, à dissolução para que ocorra a verdadeira transformação do “metal bruto” em “ouro”. Tudo isso simbolicamente pode acontecer quando estamos apaixonados e sujeitos a todas as intempéries que isso significa. Não vamos ganhar os louros sem antes enfrentar nossas batalhas internas.

Neste momento, esse trajeto pode ser feito com muito mais conforto e profundidade se o indivíduo estiver disposto ao processo psicanalítico. A situação transferencial da análise também é de certa forma uma relação amorosa, que pode reproduzir em seu contexto os enfrentamentos reais do paciente em seu cotidiano. A análise se propõe a propiciar local adequado e seguro para que as defesas sejam aos poucos identificadas e afrouxadas, enquanto outros recursos mais saudáveis estão sendo alicerçados no trabalho conjunto com o analista.

ELAINE CRISTINA SIERVO – é psicóloga. Pós-graduada na área Sistêmica- Psicoterapia de Família e Casal pela PUC- SP. Participa do Núcleo de Psicodinâmica e Estudos Transdisciplinares da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica – SBPA. Atuou na área de dependência de álcool e drogas com indivíduos, grupos e famílias.

OUTROS OLHARES

AMEAÇA DEVASTADORA

Relatório da ONU revela que se o aquecimento global não for contido antes do fim do século, com a proteção de florestas, por exemplo, será mais difícil produzir alimentos para a humanidade

“Dada a causa, a natureza produz o efeito no modo mais breve em que ele pode ser produzido.” A máxima, de autoria do gênio italiano Leonardo da Vinci, que morreu há cinco séculos, caberia bem como epígrafe do novo relatório do IPCC, o órgão da ONU que trata de mudanças climáticas, divulgado na quinta-feira 8. Nele, mais de 100 cientistas de 52 nações fazem um alerta sobre os riscos à produção de alimentos representados pelo aquecimento global – a causa em questão que pode levar a natureza a produzir seus efeitos, danosos, no mais breve período possível. Ao tratar de alimentação, um aspecto pouco observado nas discussões sobre a elevação da temperatura terrestre, o documento do IPCC pode ser classificado – metafórica ou literalmente – como um autêntico soco no estômago.

O estudo foi produzido com o propósito de, mais uma vez, chamar atenção para as providências que têm de ser tomadas a fim de que se cumpram as metas fixadas pelo Acordo de Paris, definidas em 2015, que teve a adesão de 195 países. O tratado estabeleceu um limite de aumento de 1,5 grau na temperatura do planeta até 2100. Mas, para que isso aconteça, cada nação deve adotar medidas capazes de reduzir as emissões de gases do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global. Para se ter uma ideia da gravidade do problema no que tange aos alimentos, a elevação de 1 grau na temperatura da Terra significará a redução de 7,4% na produção mundial de milho até o fim do século. Diante disso, o relatório do IPCC lista as saídas para evitar o pior. Para começar, será preciso conciliar as atividades agropecuárias que recorrem ao desmatamento com a perspectiva da necessidade de alimentar quase 10 bilhões de pessoas em pouco mais de três décadas (estima-se que essa será a população do globo em 2050). Ao mesmo tempo, as áreas de plantio terão de dividir espaço com a produção de biocombustíveis, como o etanol, para zerar de vez o uso de fósseis como fonte de energia. Em resumo, a forma de conservar e utilizar o solo precisará ser transformada radicalmente para evitar o aumento da temperatura no planeta.

O relatório dividiu a discussão do problema em quatro pilares: a redução do desmatamento de florestas tropicais (para a pecuária e a mine ração, por exemplo), como a Amazônia; a necessidade de investir em reflorestamento, visando à retenção de C0 2 e à segurança hídrica; a produção sustentável de alimentos; e a adoção definitiva, e com urgência, dos biocombustíveis. Em seu documento, o IPCC costurou dados da literatura científica publicados até 2016 – a última data em que se consolidam informações sobre o assunto – e apontou as ameaças para a população de toda a Terra. O estudo não especificou as ações que devam ser adotadas em cada país. Os dados estão postos para que os governos definam o melhor modo de agir, de acordo com a sua realidade.

Segundo o IPCC, as atividades humanas têm algum tipo de impacto sobre mais de 70% da superfície terrestre – são as áreas onde as populações se estabeleceram para produzir comida e encontrar água doce, por exemplo. Cerca de 25% do solo é usado para cultivar alimentos e madeira e gerar energia, o que acaba aumentando em 23% os gases do efeito estufa. A terra é tanto causa como solução para o problema dessas emissões. O sequestro de dióxido de carbono da atmosfera ocorre durante a fotossíntese, na qual os vegetais tiram o C02 do ar e expelem oxigênio. Por isso derrubar florestas para abrir lavouras e pastos reduz a área que auxilia no combate ao aumento da temperatura global. Há aproximadamente 1,4 bilhão de cabeças de gado em todo o mundo, responsáveis por nada menos que 40% da emissão anual de gás metano – que pode causar desequilíbrio no efeito estufa. Ou seja: os animais que alimentam a população também atacam o meio ambiente.

Para a diretora executiva da seção brasileira do World Resources Institute (WRI), instituição americana dedicada ao estudo do clima, Rachel Biderman, o relatório põe em xeque a segurança alimentar da humanidade – e o Brasil está diretamente ligado à questão. “O país é um dos maiores emissores de gases e está caminhando na direção contrária do que foi proposto em 2015, em Paris. O Brasil possui exemplos de produção sustentável, e temos de colaborar mais para resolver o desafio das mudanças climáticas”, afirmou ela.

A controversa posição brasileira no que diz respeito ao meio ambiente tem um sinônimo: Jair Bolsonaro. Ainda quando candidato ao Planalto, ele deu a entender que poderia sair do Acordo de Paris, a exemplo do que fizera o presidente americano Donald Trump. Contudo, nem mesmo a ala ruralista apoiou os planos do então presidenciável, o que o levou, depois de eleito, a manter a Pasta dedicada à área e o compromisso climático assinado quatro anos atrás. Entretanto, os primeiros meses de seu governo foram repletos de decisões equivocadas no setor ambiental. Na sexta-feira 2, o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão, foi exonerado em consequência das críticas que fizera a Bolsonaro quando ele questionou os números da instituição sobre o desmatamento no Brasil – que revelaram um aumento de 68% na devastação da Floresta Amazônica na primeira quinzena de julho, em comparação com o mesmo período do ano anterior. O presidente considera que, nesse assunto, o Brasil é vítima de números mentirosos e tem de se defender do interesse internacional na Amazônia. Por sua vez, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, recomendou a criação de outro sistema de monitoramento do desmatamento. A revista científica Nature, uma das mais prestigiadas do planeta, citou o episódio do Inpe e defendeu a tese de que os cientistas não trabalham para a esquerda ou para a direita, e sim pela sobrevivência e pela prosperidade da própria humanidade.

O relatório do IPCC também chamou atenção para a emergência da transformação de certos comportamentos. Atualmente, algo entre 25% e 30% dos alimentos produzidos no mundo são desperdiçados. Mudanças nos padrões de consumo contribuíram para que cerca de 2 bilhões de adultos estejam obesos ou com sobrepeso, ao mesmo tempo que 821 milhões de pessoas estão subnutridas. Uma das recomendações do IPCC é adaptar a dieta. De acordo com o órgão, uma alimentação mais equilibrada, saudável e sustentável será essencial.

Segundo o físico brasileiro Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), que participou da elaboração do documento, a questão da produção de alimentos é crucial. “O setor da agricultura é responsável por 23% das emissões de gases do efeito estufa. Quando as populações com menor renda, como africanos e asiáticos, puderem consumir carne, a demanda vai aumentar. Precisamos encontrar o equilíbrio”, disse ele.

Desde o período pré-industrial – que vai de 1850 a 1900 – a temperatura nos continentes, onde a maior parte da população da Terra está concentrada, aumentou mais do que a média global. Em terra, os termômetros já ultrapassaram desde então o acréscimo de 1,5 grau, a previsão otimista estabelecida no Acordo de Paris. Quando se considera o planeta como um todo, a elevação da temperatura, no mesmo recorte temporal, foi de 1 grau. Durante a mais recente onda de calor na Europa, Paris atingiu o seu pico em 25 de julho, data em que os termômetros marcaram 41 graus e o governo francês declarou, pela segunda vez em menos de um mês, um alerta vermelho de calor – o nordeste do país estava com máximas previstas de 43 graus.

Ao mesmo tempo que o cenário internacional preocupa, há chance de reverter o caos que se desenha no horizonte. Todavia, para além do esforço político, será preciso investir muito em tecnologia. “Ainda não temos meios técnicos para reduzir a emissão de metano na produção de carne, por exemplo”, explicou Paulo Artaxo.

A ONU reconhece a relevância do papel de comunidades tradicionais e indígenas como aliadas no trabalho da conservação ambiental. No mundo, elas são responsáveis por manter em pé cerca de 40% de todas as áreas protegidas e mais de 65% das terras mais remotas e menos habitadas do planeta. Assim, a parceria entre ciência e tradição pode ser a chave para a contenção de uma resposta que a natureza, tendo como causa a humanidade, pode nos dar muito em breve.

FOME E SEDE

O cenário desolador apontado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)

** Entre 7% e 40% da superfície da Terra Já está degradada. A ação humana é a principal responsável por isso

** No caso do Brasil, 8% do território se encontra atingido por alguma forma de degradação

** A piora do solo deve reduzir a produção global de alimentos em 12% até 2100

** A cada elevação de 1 grau na temperatura do planeta haverá redução de 7,4% na produção de milho, 6% na de trigo, 3,2% na de arroz e 3,1% na de soja ** As áreas secas em todo o mundo devem aumentar 10% antes que o século termine. levando 700 milhões de pessoas a viver em regiões

GESTÃO E CARREIRA

O GUIA DO AUTOCONHECIMENTO – II

PROCURAM-SE LÍDERES MAIS HUMANOS

Por que o autoconhecimento é importante para a boa gestão

Um estudo, divulgado neste ano, em parceria entre a consultoria em desenvolvimento de lideranças Green Peak e a Universidade Cornell, ambas nos Estados Unidos, analisou a experiência, o estilo de gestão e os resultados de 72 executivos de empresas públicas e privadas e revelou o seguinte: os profissionais capazes de construir boas relações com e entre o time entregaram melhores resultados financeiros do que os que eram vistos como tiranos. Entre as explicações dos pesquisadores, a habilidade de compreender como se dá a interação dentro do time e a consciência das potencialidades e fraquezas de cada um (incluindo a si mesmo) permitiria ao líder montar uma equipe equilibrada e produtiva. Além disso, a curiosidade de olhar além das experiências pessoais e de se interessar pela realidade do cliente favoreceria a tomada de decisões assertivas e focadas em resultado.

Nas organizações, espera-se que o líder pratique e propague a cultura criando significados para os subordinados produzirem se sentindo engajados e valorizados em sua individualidade. Ser acessível, saber se comunicar e agir com transparência — inclusive em relação ao que não sabe e precisa de apoio do time —, em vez de distribuir e fiscalizar ordens e processos, são atributos de uma gestão moderna e autoconsciente. Porém, nem sempre há empenho por parte das chefias para olhar além de si mesmo, muito menos admitir a própria vulnerabilidade. Pesquisas mostram que, quanto maior o poder de um gestor, mais ele tende a superestimar suas capacidades (em comparação com a opinião dos subordinados).Ainda assim, o futuro aponta para profissionais conscientes de que o aprimoramento como pessoa é condição para criar e inspirar culturas organizacionais mais saudáveis e estafes mais eficientes. Em escolas de educação executiva de referência no mundo, como Harvard, Stanford e Yale, a arte vem sendo usada há algum tempo como recurso na formação desse tipo de liderança. A ideia não é exatamente usar pintura, escultura, teatro e música de forma lúdica ou para entretenimento, mas como objetos de análise e interpretação para levantar discussões sobre ética, racionalidade, inovação e liberdade. “A arte estimula novas formas de pensar, permite olhar as situações além do óbvio, desenvolver pensamento crítico e resgatar valores humanos, como generosidade, respeito e sensibilidade, tão importantes nos ambientes de trabalho”, explica o professor e pesquisador Ricardo Carvalho, especialista em arte e gestão da Fundação Dom Cabral

ALTO IMPACTO

Saber mais sobre você mesmo faz muita diferença nos assuntos abaixo

VALORES: Entender que há condições inegociáveis e esforços que você não está disposto a fazer quando o assunto é trabalho é um bom ponto de partida para tomar decisões com menos desgaste mental e emocional. O emprego permite trabalhar home office, mas a carga horária inclui fins de semana e feriados? O salário é bom, mas são muitas conduções e horas no trânsito para chegar ao escritório? Com autoconhecimento fica mais fácil dizer “não, obrigado” com convicção e evitar agir levado por motivações de curto prazo.

COMPETÊNCIAS: Após muito tempo numa função ou quando se está operando no piloto automático, é comum achar que você é bom apenas em certas tarefas ou que sabe fazer as coisas de um único jeito. Só que não. Manter o olhar atento e generoso para suas habilidades é uma forma de ampliar a visão que tem de si mesmo e seguir sempre estimulado. Inclua nessa investigação capacidades que tem fora do ambiente de trabalho — muitas delas podem ser empregadas no contexto profissional —, assim como a opinião de terceiros sobre suas qualidades. Aprenda também a separar o que você realmente é do que gostaria de ser — eis uma cilada frequente. Ter essa imagem clara a seu respeito é útil, inclusive na hora de preparar uma descrição realista em um currículo ou entrevista de emprego.

PRODUTIVIDADE: Conhecer sua personalidade e seus interesses é chave para desenhar uma rotina de trabalho fluida e eficiente. Serve, por exemplo, para descobrir se você desempenha com mais disposição e foco de manhã ou à tarde, na tranquilidade do home office ou interagindo no coworking, entre tantas outras escolhas que influenciam diretamente a rotina profissional.

RELAÇÕES: Quem enxerga bem a si mesmo, aceitando e acolhendo as próprias falhas, dúvidas e inseguranças sem cair no excesso de autocrítica, tende a ser mais tolerante com os erros e as inseguranças dos outros. Isso melhora a colaboração na equipe, aumenta o bem-estar e se reflete em resultados positivos. Mas não se trata de forçar o entrosamento ou achar que precisa se dar bem com todos daqui para a frente. Em ambientes com muitas personalidades é normal que nem todos os santos batam. E tudo bem, desde que o esforço seja pela civilidade e pelo respeito.

SAÚDE: Conhecer (e respeitar) os próprios limites, saber dizer não, ajustar expectativas em relação a si mesmo e aos outros. Essas atitudes, que vêm com a maturidade e o autoconhecimento, nem sempre são fáceis de colocar em prática, mas demonstram autocuidado e previnem males tão presentes no cotidiano profissional quanto nocivos para a saúde e a autoestima, como ansiedade, insônia, abuso de medicamentos, depressão e burnout.

VOCÊ SABE QUEM É DE VERDADE?

Reflita sobre as afirmações abaixo e, deixando o julgamento de lado, marque sim (S) ou não (N) de acordo com a percepção que tem de si mesmo. Peça a uma pessoa em quem confia e que considera que o conheça bem para também responder às questões com base na percepção que tem de você (e não dela mesma). Em seguida, compare os resultados. Aproveite as discordâncias para saber mais sobre a imagem e as impressões que vem transmitindo e detectar possíveis fontes de conflito (interno e no ambiente). Você deve usar   as informações como ponto de partida para definir mudanças de comportamento e caminhos para desenvolver o autoconhecimento

  1. Quando erro, sou capaz de reconhecer o erro. S ( ) N ( )
  2. Tenho clareza sobre o que me faz feliz. S ( ) N ( )
  3. Sei o que me faz bem e mal em meu ambiente de trabalho. S ( ) N ( )
  4. Sou flexível e adaptável a mudanças. S ( ) N ( )
  5. Tenho clareza sobre minhas metas pessoais e profissionais. S ( ) N ( )
  6. Reconheço padrões em meu comportamento. S ( ) N ( )
  7. Tenho consciência do impacto de minhas ações nos outros. S ( ) N ( )
  8. Meus valores e crenças orientam minhas atitudes. S ( ) N ( )
  9. Gosto de analisar a situação antes de tomar decisões. S ( ) N ( )
  10. Me relaciono bem com a maioria das pessoas no trabalho. S ( ) N ( )
  11. Sei quais são meus sabotadores de produtividade. S ( ) N ( )
  12. Não tenho dificuldade em pedir ajuda. S ( ) N ( )

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 10ESCREVENDO SUA VISÃO

Escreve a visão, grava-a sobre tábuas, para que a possa ler até quem passa correndo.Habacuque 2:2, ARA

Mais uma vez, nunca é tarde demais para escrever a visão que você tem para seu casamento. Sinta-se livre para escrevê-la e reescrevê-la até ter algo que seja nítido e fácil de entender. Uma visão clara lhe dará a energia que você precisa para correr até a linha de chegada.

Dedique algum tempo para conversar com seu cônjuge (ou futuro cônjuge) sobre a visão que vocês compartilham para seu casamento. Se você é solteiro, comece a documentar o seu lado da visão agora. Encontre um lugar onde possa sonhar. Seja específico quanto aos seus desejos e expectativas. Determine aquilo do qual não abre mão, e não tenha medo de sonhar grande! Essa visão será a estrela que o guiará nos dias que se seguirão.

O casamento é como uma corrida de longa distância na qual décadas separam a linha de saída e a linha de chegada. Muitos casais sonham em curto prazo. Eles sonham em comprar uma casa e criar uma família, o que são grandes alvos, mas nenhum deles os levará muito longe. Há muito mais. Continue sonhando!

Tenha em mente que você e seu cônjuge estão correndo juntos, e não competindo um com o outro. Você não pode completar sua corrida sozinho, por isso vocês precisam trabalhar como uma equipe. Se tiveram um começo difícil, sintam-se consolados por saber que a maneira como terminarão importa muito mais do que a maneira como vocês começaram. Escrever seu plano é uma maneira de definir sua linha de chegada. Você precisa ter a visão à sua frente, para ter algo em direção ao qual possa correr.

Porque a visão ainda está para cumprir-se no tempo determinado, mas se apressa para o fim e não falhará; se tardar, espera-o, porque, certamente, virá, não tardará… o justo viverá pela sua fé. Habacuque 2:3-4, ARA

Sua visão inspirada por Deus irá adiante de vocês para forjar um caminho para sua realização. Se mantiverem seus olhos na visão, ela certamente irá se cumprir. Talvez, em alguns momentos, possa parecer que as palavras ditas por Deus não podem ser verdadeiras. O caminho trilhado por vocês pode levá-los a lugares onde não queriam ou esperavam ir. Confiem no processo. Deus sabe o que precisa ser retirado de vocês para que completem a jornada. O poder Daquele que inspirou sua visão os fortalecerá nos momentos de necessidade. Mas vocês precisam manter a visão diante de vocês.

Seu plano deve ser um documento vivo, que respira, que cresce com o tempo. Isso significa que ele deve incluir duas coisas:

UMA DEFINIÇÃO CLARA DO QUE NÃO SE PODE ABRIR MÃO

Certas convicções e compromissos proporcionarão a estrutura necessária para sua visão, coisas como “nosso casamento honrará a Deus” ou “colocaremos as necessidades do outro antes da nossa própria necessidade”. Essas são as coisas que vocês consideram inegociáveis. Elas nunca mudarão e não se deve fazer concessões sobre elas.

ESPAÇO PARA CRESCER

Ter um bom plano não significa ter respostas para todas as perguntas. Ele ajuda a dar clareza, mas somente Deus sabe tudo o que está diante de vocês. No entanto, vocês podem gradualmente descobrir aspectos do plano de Deus através da orientação do Seu Espírito. Com o tempo sua visão deverá se tornar mais clara e definida, adaptando-se para acomodar as vantagens e desafios de cada estação. Essas mudanças podem incluir a quantidade de tempo que investem na criação de seus filhos à medida que crescem ou as maneiras como vocês apoiam a carreira e o chamado um do outro.

EIS CINCO PASSOS PRÁTICOS QUE SUGERIMOS QUE VOCÊS DEEM PARA ESCREVER SEU PLANO DE CASAMENTO:

1. OREM

Peçam a Deus para preencher suas conversas, pensamentos e aspirações com o Seu Espírito.  Peçam a Ele para fornecer a estrutura de esperança que Ele deseja ver preenchida pela fé de vocês.

2. REÚNAM INSPIRAÇÃO

Colecionem versículos, artigos, histórias, fotos, letras de músicas, recortes de revistas e qualquer outra coisa que fale ao coração de vocês.

3. VÃO A UM LUGAR ONDE POSSAM SONHAR

Esse lugar não precisa ser refinado ou caro. Ele pode ser tão simples quanto o restaurante no fim da rua ou o banco do parque no seu bairro.

4. IDENTIFIQUEM SEUS OBJETIVOS

Sonhem grande! Não permitam que as circunstâncias atuais ou o passado limitem vocês.

Os tópicos a serem considerados incluem: finanças, criação de filhos, dinâmica familiar, desenvolvimento pessoal, crescimento espiritual, comunicação, descanso e recreação,     carreiras, responsabilidades domésticas, envolvimento na igreja, comunidade e muito mais.

5. DETERMINEM COMO ALCANÇÁ-LOS

Depois que tiverem estabelecido sua visão, façam uma análise: onde vocês estão agora em relação a onde querem chegar? Avaliem seu estado atual e montem uma estratégia dos padrões, passos ou mudanças que os colocarão – ou os manterão – no seu rumo.

Seu plano abrangerá diferentes estações da vida. Tendo seus objetivos em mente, responda a estas perguntas:

Como será nosso casamento quando estivermos… Casados sem filhos?

Criando nossos filhos? Criando adolescentes? Morando em um ninho vazio? Desfrutando nossos netos?

Em nossa última estação juntos?

Se você é solteiro, está namorando ou é noivo, como você pode se posicionar deliberadamente para ter o casamento que deseja no futuro?

Vocês estabeleceram objetivos quanto a finanças, criação de filhos e muito mais. Eles são objetivos maiores, mas serão sustentados pelos seus padrões, escolhas e hábitos do dia a dia. Pense nestas perguntas:

Como e quando vocês lidarão com seu orçamento mensal? Que tipo de férias vocês terão, e como vocês as planejarão?

Que tipos de atividades e entretenimento vocês desfrutarão juntos? Como você continuará a namorar seu cônjuge?

Como você resolverá as diferenças com seu cônjuge? Como vocês passarão tempo com seus filhos?

Como vocês disciplinarão seus filhos?

Vocês dois querem seguir carreiras fora de casa? Se for esse o caso, isso terá um impacto diferente nas diferentes estações do seu casamento?

Como vocês apoiarão a carreira um do outro ou outros objetivos maiores?

Que tipos de oportunidades educacionais vocês buscarão para si mesmos? E para seus filhos?

Que tipos de oportunidades recreativas estarão disponíveis para seus filhos? Como vocês apoiarão os interesses e talentos deles?

Como vocês investirão no seu bem-estar físico? (Exercício, descanso, nutrição, etc.)

Como vocês investirão no seu bem-estar espiritual?

Como vocês criarão seus filhos no conhecimento de Deus?

Como seu casamento e sua família beneficiarão o mundo que os cerca? (Sua igreja, sua comunidade, seu bairro, seus locais de trabalho, etc.)

Como mencionamos anteriormente, as especificidades do seu plano provavelmente mudarão e evoluirão à medida que vocês amadurecerem em sabedoria e adquirirem experiência. Não há problema algum nisso. Mas é essencial que estabeleçam uma estrutura para o plano de vocês e se comprometam com os padrões e valores que serão o alicerce para o que está por vir.

ESCALANDO O EVEREST

Imagine um casal entrando em um avião. Eles estão empolgados com sua viagem, mas não fazem ideia de para onde estão indo. Tudo que eles sabem é que esse avião os levará para uma grande aventura. Eles supõem que estão indo para um lugar quente, então só estão levando roupas de praia e alguns casacos leves caso esfrie à noite. Depois de muitas horas de voo, eles chegam ao seu destino – e descobrem que aterrissaram no Nepal. O que eles pensavam ser uma excursão tropical acabou sendo uma subida gelada ao Monte Everest. Está claro que eles não estão preparados para empreender uma jornada tão traiçoeira e arriscada, de modo que eles imediatamente voltam para casa.

Muitos encaram o casamento como uma viagem à praia, mas ele é mais parecido com escalar uma montanha: é recompensador e estimulante, mas é preciso trabalhar arduamente. E embora a ilustração possa parecer um pouco absurda, vale considerar que a taxa de mortalidade dos casamentos é vinte e cinco vezes mais alta que a dos alpinistas que escalam o Everest.

Por que os escaladores do Everest são muito mais bem-sucedidos do que os casados? Porque eles têm uma visão para sua jornada e sabem o que esperar. Eles não ficam chocados quando encontram ar rarefeito, temperaturas congelantes e ventos implacáveis. Infelizmente, muitos casamentos fracassam por causa das expectativas não realistas e da falta de visão. Vale a pena dedicar tempo agora para estabelecer seu plano para o futuro.

FAÇA BEM FEITO

À medida que sua história se desenrolar, Deus expandirá a estrutura da sua visão e acrescentará lindos enfeites a ela, mas Ele nunca profanará a vida que você está construindo com o seu cônjuge. As provações podem parecer tentativas de Deus destruir sua história, então você pode ser tentado a atacá-Lo verbalmente em meio à ira ou às frustrações. Mas saiba que Deus não é o autor das suas provações, e Ele faz com que todas as coisas cooperem para o seu bem (ver Romanos 8:28). Sua graça e Seu Espírito nunca o deixarão, e Ele prometeu que nunca permitirá que você passe por uma provação que não possa vencer.

…Deus é fiel; Ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar. Mas quando forem tentados, Ele mesmo lhes providenciará um escape, para que o possam suportar. 1 Coríntios 10:13

Talvez você às vezes se sinta como se tudo estivesse desmoronando, mas se você se agarrar à esperança, poderá resistir às tempestades. No fim de tudo, você ouvirá as palavras do Mestre dizendo:

“Muito bem, servo bom e fiel! …” Mateus 25:23

Não é interessante que o Mestre diga “muito bem”, e não “perfeito”? Nenhum de nós faz nada nesta vida com perfeição. Mas podemos ter uma vida e um casamento que sejam muito bem vividos. Isso significa termos casamentos saudáveis e marcados pela humildade, aprendendo com nossos erros e prosseguindo na graça de Deus para receber o Seu melhor. Se você escolher andar nesse caminho, seu casamento fará mais do que simplesmente sobreviver. Ele florescerá. Deus o ajudará.

Desejamos que cada um de vós mostre o mesmo zelo até ao fim, para completa certeza da esperança; para que não vos torneis indolentes, mas sejais imitadores dos que pela fé e paciência herdam as promessas. Hebreus 6:11-12, ACFDeus quer que você receba as promessas que Ele tem para seu casamento. Reivindique a esperança concedida pelo Espírito Santo. Seja paciente com seu cônjuge e tenha fé naquilo que seu casamento pode se tornar. Você ficará impressionado com o que Deus pode fazer em duas pessoas imperfeitas e através delas. Deus tem paixão por construir casamentos cujas maiores histórias estão relacionadas à maneira como terminam, e não à maneira como começam

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O HOMO DEMENS NA REDE

Usando a inteligência artificial (IA) para colocar o rosto de uma pessoa no corpo de outra, os vídeos deepfake já são uma ameaça a demandar intervenções governamentais

Os vídeos são absolutamente convincentes, num amplo espectro. Estrelas de cinema já tiveram seus rostos adicionados a outros corpos em filmes pornô, políticos foram e ainda são utilizados em filmagens e discursos falsos.

A realidade aumentada, por sua vez, é uma tecnologia que cria um ambiente de imersão, mesclando elementos computacionais e a realidade, onde se realizam atividades. Não é o mesmo que realidade virtual. O jogo Pókemon Go é um exemplo. Após o lançamento, o jogo alcançou rapidamente mais de 100 milhões de downloads!

“O homem é um animal racional”, aprendemos cedo na escola. É o único dotado de logos, segundo Aristóteles. A mítica da nossa racionalidade já foi duramente atingida pelo pensamento freudiano e sua postulação da sexualidade e das determinações inconscientes, e a era da computação lança mais luz sobre a força de captura do desejo que tem a virtualidade em suas muitas formas. Pois o que importa aqui não é o valor da tecnologia, mas seu poder. O de ser usada para afetar e manipular sentimentos e comportamentos.

Analistas têm destacado como a mídia digital vem matando a democracia com seus bots, animadores digitais etc. O debate entre o valor da de1nocracia direta (via mobilização das redes sociais pelos populistas) e democracia representativa seria exaustivo. O que cabe aqui examinar mais uma vez é como o Homo sapiens é igualmente o Homo demens.

Imagens, notícias, afirmações jogadas na rede tornam-se rapidamente “verdades”, independentemente de sua veracidade, por razões de aceitação sem senso crítico por parte do “consumidor usuário” das mesmas. É como um efeito manada. Assim é porque o usuário é capturado a funcionar como consumidor, a partir do seu desejo.

O místico e filósofo Gurdjief apontava que estaríamos todos numa espécie de estado de “adormecimento ” parcial, do qual seria necessário acordar. Nos anos 60 e 70, a psicologia da Gestalt sublinhava o trabalho na condição de Awereness, um aqui e agora pleno. W. Reich examinou a relação entre a neurose e a capacidade de contato. Ou seja, a nossa relação com a realidade e como esta é afetada pelas circunstâncias históricas – a nossa, pessoal, e as da sociedade – são antigas questões. Se o que vem acontecendo na política e na vida pessoal é parâmetro para se avaliar o nosso futuro, então o que temos pela frente é sombrio. A alienação, no sentido mais amplo, é o principal obstáculo à nossa sobrevivência. Sobrevivência como indivíduos.

NICOLAU JOSÉ MALUF JR. – é psicólogo, analista reichiano, doutor em História das Ciências, Técnicas e Epistemologia (HCTE/ UFRJ). Contato: nicolaumalufjr@gmail.com

OUTROS OLHARES

CORTINA DE FUMAÇA

O Brasil discute a regulamentação do cigarro eletrônico, visto como uma epidemia nos Estados Unidos

No ano em que completaria uma década como fumante, a radialista e executiva na área de audiovisual Luísa Campos, de 34 anos, moradora do Rio de Janeiro, descobriu o cigarro eletrônico — por meio da amiga de uma amiga que presenteou esta última com o produto. “Fui olhar aqui no Rio onde eu poderia comprar, não achei nada. Achei na internet”, contou Campos.

Havia vários motivos para a troca do tabaco enrolado em papel — que libera nicotina por meio da combustão e tem milhares de toxinas — pelo vaporizador — que prescinde da combustão para liberar a nicotina, substância responsável tanto pela sensação de prazer e alívio proporcionada pelo cigarro como pela dependência. “O cheiro do cigarro me incomoda muito. Quem fuma tem de fazer algumas adaptações na vida”, disse a radialista.

O outro fator era a saúde. Campos havia fumado por cinco anos, até 2013. Parou e voltou a fumar em 2015. Em janeiro de 2018 aderiu ao cigarro eletrônico como forma de reduzir danos. “Logo que comecei a usar o cigarro eletrônico não usei mais o normal. Foi um meio de parar de fumar quase instantâneo. Não quero dizer que é um milagre. Tenho amigos que não substituíram.”

O cigarro eletrônico, produto que começou a ser comercializado no final da década passada em países como os Estados Unidos e a Inglaterra, pode funcionar por meio de um vaporizador que libera a nicotina ou do tabaco aquecido, inserido no objeto por meio de cápsulas ou tubos. Números da Public Health England, agência de saúde pública ligada ao governo inglês, mostram que o cigarro eletrônico tem um potencial de danos de 5% em relação ao cigarro comum. Embora não conte com a mesma quantidade de toxinas de um cigarro comum e não precise de combustão, que, no cigarro comum, libera as substâncias tóxicas, sua comercialização é proibida no Brasil desde 2009 — quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um princípio de precaução, uma forma de “garantia contra os riscos potenciais que, de acordo com o estado atual do conhecimento, não podem ser ainda identificados”. Os termos para uma regulamentação do produto serão discutidos em 8 de agosto durante audiência pública em Brasília.

“Considerando que a toxicidade dos cigarros já é tão elevada, é relativamente fácil alguma coisa ser menos tóxica que os cigarros convencionais, mas nem por isso quer dizer que não represente ameaça à saúde humana”, afirmou o médico Alberto José de Araújo, coordenador da Comissão de Combate ao Tabagismo da Associação Médica Brasileira. “A enorme variedade de sabores, as diferentes composições e emissões tóxicas dos cigarros eletrônicos e aquecidos indicam que uma eventual liberação de sua comercialização deveria ser realizada caso a caso, e não de forma ampla, sem considerar as diversas formulações, tipos e voltagens aplicadas.” Para Araújo, “os benefícios dessa proibição (da Anvisa) foram maiores e mais significativos que os supostos e não comprovados benefícios da liberação desses produtos”.

Ainda assim, o cigarro eletrônico vem sendo utilizado como forma de redução de danos no combate ao tabagismo, ao lado de outras estratégias, como os adesivos que liberam nicotina. Um estudo publicado em 2019 na revista científica The New England Journal of Medicine , realizado por pesquisadores do Reino Unido e dos EUA, mostrou que entre aqueles que utilizaram o cigarro eletrônico como um meio de abandonar o cigarro 18% tiveram sucesso, enquanto entre os que usaram outros métodos para substituir a nicotina, como os adesivos e chicletes, o sucesso foi de 10%. No entanto, 80% dos que utilizaram cigarro eletrônico continuaram a consumi-lo, enquanto apenas 9% daqueles que usaram outros produtos permaneceram com eles. “É uma questão que a literatura médica ainda discute”, disse André Nathan, especialista em tabagismo e médico no Hospital Sírio-Libanês. Segundo o pesquisador, embora o cigarro eletrônico seja “uma via mais limpa” que o cigarro comum, deve-se atentar para seu uso como forma de reduzir danos do tabagismo. “Ainda não temos dados que provem que ele seja efetivo.”

Nos EUA o cigarro eletrônico é hoje considerado uma epidemia entre os jovens. De acordo com um levantamento feito a partir de seis estudos com mais de 91 mil participantes, adolescentes e jovens adultos que usam cigarros eletrônicos têm duas vezes mais chances de fumar cigarros comuns em comparação com aqueles que nunca usaram o produto. Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), órgão ligado ao governo americano, mostram que, entre adolescentes em idade escolar, o consumo de cigarros eletrônicos aumentou 900% entre 2011 e 2015. Entre adolescentes no ensino médio, o uso cresceu 78%, de 11,7% para 20,8%, em dois anos. Em 2018, mais de 3,6 milhões de jovens americanos usavam o cigarro eletrônico.

Na Alemanha, pesquisadores também constataram maior incidência no consumo de cigarro convencional entre jovens que experimentaram o cigarro eletrônico. Segundo pesquisa feita com estudantes na faixa dos 12 aos 17 anos, os que experimentaram o cigarro eletrônico tiveram 2,2 vezes mais chances de se tornarem fumantes.

A professora Gisele Birman Tonietto, do Departamento de Química do Centro Técnico Científico da PUC-Rio, vê esse risco para o Brasil, caso a regulamentação do cigarro eletrônico, por exemplo, não atinja a propaganda ao produto, como no caso dos cigarros tradicionais. “O que a gente está vendo no mundo é uma epidemia. O jovem que não fumava está suscetível ao apelo. Nós (brasileiros), que somos referência em antitabagismo, não queremos jogar fora o trabalho (voltado à redução do tabagismo).”

Para a gerente sênior de Relações Científicas da Souza Cruz, Analúcia Saraiva, “o maior risco que o Brasil está assumindo é não regular a categoria”. Ela citou o caso americano como exemplo das consequências da falta de regulamentação. “Quando (a substância) não é regulada, quando não existe, por exemplo, uma idade mínima para adquirir esses produtos, aí sim esse risco (de epidemia) existe”, afirmou. “O vapor do cigarro eletrônico não é um vapor de água. Ele contém nicotina. Se não tiver nicotina, o consumidor não vai migrar para esse produto. O benefício é, justamente, que o fumante deixe de consumir o cigarro tradicional, que traz essa série de substâncias geradas durante a combustão, e migre para um produto de menor risco.”

Na opinião de Fernando Vieira, diretor de assuntos externos da Philip Morris Brasil, é preciso “ter uma regulamentação que não exponha os não fumantes e os menores a esse tipo de produto. A Anvisa, ao regulamentar, pode ser bem proativa nesse sentido”. A Philip Morris anunciou no ano passado que deixará, futuramente, de produzir os cigarros comuns e terá como um de seus focos os cigarros eletrônicos.

Luísa Campos, que fumava de sete a oito cigarros por dia e, sempre que viajava, levava uma mala três vezes maior que a que leva hoje, devido ao cheiro da fumaça do cigarro, pretende, ainda, deixar de fumar. “O ideal é não ter nada que nos amarre. Não podemos negligenciar a questão do cigarro.”

A discussão em torno do uso do cigarro eletrônico como forma de reduzir danos do tabagismo ocorre em um momento em que a redução de danos deixa de ser a diretriz do Ministério da Saúde para o combate ao uso abusivo de drogas e à dependência química, voltando-se, novamente, à busca pela abstinência — por meio da internação.

Para o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que trabalha com redução de danos desde 1991, a atual política do governo federal é “um retrocesso” que coloca o Brasil em uma situação comparável à de países islâmicos. “Na melhor das hipóteses, 30% (dos dependentes) conseguem realmente largar a droga. A redução de danos entra justamente para esses 70% que não conseguiram a abstinência”, disse. “Quando você coloca um indivíduo num programa de redução de danos a médio prazo, ele consegue a abstinência. A redução de danos não se contrapõe à abstinência. É um jeito de dar mais tempo para a pessoa consegui-la.”

O psicólogo Maurício Cotrim, especialista em dependência química, vê na redução de danos um meio para chegar à abstinência, e não um fim para o combate do uso abusivo de drogas e outras substâncias. “Trabalho buscando a abstinência. Senão ficamos enxugando gelo. Os casos de sucesso que conheço são das pessoas que tentaram a abstinência. Senão vira prorrogação de danos.”

Dependente químico “em eterna recuperação”, Cotrim, filho de pai alcoólatra, experimentou álcool ainda na infância. Foi a porta de entrada para substâncias ilícitas, que usou a partir dos 10 anos. Passou por diversas tentativas de tratamento — inclusive religiosas. “Aos 17, pedi ajuda, fui internado.” Deixou a clínica seis meses depois. Teve recaídas. “Fiquei limpo de vez aos 18 anos.” Mantém-se assim há 24 anos.

GESTÃO E CARREIRA

O GUIA DO AUTOCONHECIMENTO – I

A competência essencial para ser feliz e realizado no trabalho está dentro de você, à espera de ser explorada. Veja por onde começar essa jornada e descubra como ela pode ser transformadora

Muitas qualidades e competências são fundamentais para pavimentar o caminho até o sucesso profissional. Acima de todas, porém, existe uma habilidade da qual as outras dependem para serem colocadas em prática de forma efetiva: o autoconhecimento. Ele é indispensável para o profissional do século 21. De acordo com o relatório mais recente do Fórum Econômico Mundial sobre o futuro do trabalho, aptidões como criatividade, colaboração, flexibilidade, pensamento crítico, capacidade de trabalhar sob pressão e resolver problemas complexos serão obrigatórias para evoluir na carreira daqui para a frente. E o autoconhecimento é o ponto de partida para o desenvolvimento dessas e outras soft skills, como são chamadas as habilidades comportamentais. Não que algum dia ele tenha deixado de ser importante. Mas as transformações pelas quais o mundo do trabalho vem passando e as demandas das novas gerações de profissionais — trabalho remoto, freelancer e sem carga horária fixa, por exemplo — cada vez mais vão exigir boa capacidade de gestão de si próprio. “A responsabilidade pelos rumos da carreira está mais do que nunca nas mãos do indivíduo e menos sob responsabilidade da empresa”, afirma Wilma Dal Col, diretora do ManpowerGroup. “Ampliar a visão de si mesmo dentro e fora do ambiente de trabalho permite fazer escolhas mais alinhadas com o que você quer para a vida.”

O problema é que a maioria das pessoas não tem boa percepção de si mesma. Foi o que descobriu a psicóloga organizacional Tasha Eurich no livro “Insight — Por que não nos conhecemos tão bem quanto pensamos e como ter clareza de quem somos ajuda a alcançar o sucesso na vida e no trabalho” (numa tradução livre; ainda sem edição brasileira). Tasha ouviu quase 5.000 pessoas e descobriu que apenas de 10% a 15% acreditam se conhecer bem. Um índice preocupante, já que mais autoconhecimento está associado a índices mais elevados de satisfação no trabalho e nos relacionamentos, produtividade, autoconfiança e felicidade, além de menos estresse, ansiedade e depressão.

AS ETAPAS DA JORNADA

Alguns têm interesse natural por si mesmos e fazem da busca pelo autoconhecimento uma constante na vida. Outros podem ser surpreendidos por alguma situação difícil envolvendo saúde, dinheiro, família ou trabalho que os leve a querer ver sentido e encontrar saídas para o problema. “Ao mesmo tempo, a rotina automatizada, o excesso de estímulos no dia a dia e a ideia de que é preciso acelerar para se adaptar a tantas mudanças não poupa quase ninguém e leva à perda de consciência da própria vida e do que é preciso de fato para se sentir realizado”, afirma Edwiges Parra, psicóloga organizacional, coach executiva e fundadora da Emind Mente Emocional. Resultado: uma multidão de seres desconectados de quem são, do que estão fazendo aqui e do que desejam. Conhecer a si mesmo é uma investigação que tem início, mas nunca acaba. A seguir, mostramos quais são as cinco principais etapas para conhecer a si mesmo.

FAÇA AS PERGUNTAS CERTAS

O primeiro passo para tomar as rédeas de sua vida fazer questionamentos do tipo: “Estou feliz fazendo que faço?”, “Que atenção estou dando à saúde e a meus relacionamentos?”, “O que me dá prazer hoje?”, “Quanto espaço estou reservando para isso no meu dia a dia?” “Preferia estar fazendo outras coisas?”, “O que me deixa desmotivado?” O objetivo é conectar-se, focar o que está acontecendo no presente e detectar possíveis conflito e fontes de insatisfação. Mas vale saber que não é preciso estar passando por uma crise para decidir buscar autoconhecimento — ao contrário, saber mais sobre si mesmo é uma forma de evitar que a crise apareça.

Nesse exercício, a psicóloga Tasha Eurich sugere que evitar se perguntar o porquê — por exemplo, “por que não consigo me dar bem com meu chefe?” ou “por que insisto em procrastinar?” — pode ser produtivo. Ela explica: “Primeiro, porque dificilmente se chega a respostas úteis, já que o mais provável é que, inconscientemente, acabemos ‘inventando’ explicações que no pareçam satisfatórias”, diz. “Além disso, tentar entende os porquês tende a gerar pensamentos ruminativos, que levam mais para o passado do que ajudam a entende o que está ocorrendo no presente. É por isso que pessoas com perfil muito analítico tendem a sofrer mais de ansiedade e depressão.”

PEÇA FEEDBACK

Somos o resultado da soma do que sabemos sobre nós mesmos com a maneira como o mundo (formado por nosso círculo de relações pessoais e profissionais) nos enxerga. Dar ouvidos ao feedback externo, portanto, leva a uma consciência maior de quem somos — afinal, todos temos pontos cegos na personalidade, que dificilmente enxergamos sozinhos. Além disso, o exercício nos torna mais empáticos, ou seja, capazes de compreender o outro e ver as coisas pela perspectiva dele.

Observar nossas reações diante da opinião de terceiros também é parte da autoanálise e geralmente revela bastante sobre nós. Mas é importante acolher a visão do outro e olhar para si mesmo com menos julgamento e mais curiosidade e gentileza, tendo em mente que não é porque você age de determinada maneira hoje, por mais nociva que seja, que precisa ser assim para sempre. “Pensar desse modo diminui o impacto negativo que você gera sobre si mesmo”, diz a coach e psicóloga Edwiges Parra.

DEFINA O QUE PRECISA MUDAR

Com uma visão mais nítida de quem você é, do que deseja e de como vem agindo, é mais fácil definir quais aspectos deveriam ser desenvolvidos ou modificados no comportamento ou na rotina. Nessa fase, prepare-se para analisar hábitos, reações, convicções e modos de realizar suas tarefas. Questionar e se desapegar de atitudes e mentalidades que se tornaram padrões e já não servem a seu momento atual ou à meta que está buscando tem o mesmo efeito de tirar obstáculos do caminho de sua evolução.

Observar se seu “sistema operacional” interno possibilita, por exemplo, perceber se precisa mesmo madrugar para frequentar a academia todo dia (e morrer de sono antes do fim do expediente) ou se dormir mais e malhar à noite não o deixaria mais bem disposto e produtivo. Também ajuda a descobrir se precisa aprender a ouvir mais, se vem guardando boas ideias para você por falta de autoconfiança ou se está deixando de lado a vida social em nome da profissional. Em resumo, se está levando uma vida que faz sentido. Escolha uma meta por vez e trabalhe nela, celebrando seus avanços e avaliando o impacto real na rotina, em vez de querer mudar a vida inteira de uma vez — e acabar se frustrando e voltando à estaca zero.

ESCOLHA SEUS RECURSOS

A busca por autoconhecimento é pessoal e intransferível, mas contar com ajuda profissional durante o percurso, em vez de dar esse mergulho por conta própria (ou com auxílio de livros e aplicativos apenas), faz diferença. É mais ou menos como aprender a tocar um instrumento: você até pode conseguir sozinho, mas talvez demore mais e deixe de absorver lições importantes de quem tem mais experiência do que você no assunto.

Seu perfil e suas metas individuais devem orientar quais estratégias e ferramentas usar para descobrir mais sobre si mesmo. O coaching é uma alternativa quando o foco das mudanças é a carreira. Se a queixa for uma rotina desorganizada e improdutiva, dificuldade para se adaptar a mudanças no trabalho — como explorar com mais profundidade seus talentos ou organizar a vida financeira —, cliente e coach podem trabalhar juntos para detectar possíveis obstáculos, traçar metas e avaliar sua evolução ao longo das sessões (de dez a 15, em média).

É certo que não dá para evitar que dramas da vida pessoal afetem o dia a dia profissional e vice-versa, mas, quando os conflitos internos têm mais a ver com questões emocionais e me- nos com a performance no trabalho, o melhor é considerar a psicoterapia. Os prejuízos emocionais (tristeza, impaciência) e cognitivos (falta de foco, lapsos de memória) desencadeados por uma separação ou uma doença na família impactam a rotina no escritório, mas devem ser tratados no consultório do psicólogo ou psiquiatra. Questões como assédio e bullying também são caso de psicoterapia.

Meditar, praticar esportes, manter um hobby ou atividade que tragam prazer, e cuidar das relações próximas são estratégias que, além de aliviar tensões do dia a dia, favorecem a conexão consigo mesmo e com os outros e ajudam a compreender nossos padrões de pensamento e de comportamento.

REPITA O CICLO

O processo de autoconhecimento é uma investigação permanente. “O tempo e as experiências transformam nosso comportamento, necessidades e anseios, de modo que é importante revisitar nossas reflexões de tempos em tempos e nunca perder o interesse em nós mesmos”, destaca Rafael Nunes, psicólogo, coach de carreira e líder de inteligência emocional na escola Conquer. Mudanças de cargo ou função no trabalho, assim como novos ciclos na vida pessoal tornam ainda mais importante voltar a se perguntar se você está satisfeito onde se encontra ou se é hora de refazer a rota.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 9 – O RESTAURANTE CHINÊS

Quando nos casamos, tínhamos um lugar especial aonde íamos para conversar sobre o nosso futuro. Era um pequeno restaurante chinês não muito longe do nosso apartamento. Havíamos terminado a faculdade há pouco tempo, e nosso orçamento era tão apertado que dividíamos um único prato de “frango mu shu” com uma panqueca extra e molho extra. Era um ambiente tranquilo e humilde, apesar de estrangeiro, que encorajava um jovem casal a ousar sonhar com terras e esperanças distantes enquanto tomavam chá.

Naquela época não sabíamos muito, mas tínhamos certeza de uma coisa: queríamos servir a Deus juntos com todo o nosso coração, nossa mente e nossa força. Desejávamos apaixonadamente viver bem e cuidar bem de nossa família. Posso dizer que não sabíamos ao certo para onde iriamos ou onde nossa vida terminaria, mas sabíamos o quanto queríamos viajar. Queríamos viver de tal maneira que Deus pudesse estabelecer um novo legado através de nós.

Eu (John) venho de um ótimo contexto familiar. Meus pais estão casados há mais de sessenta e cinco anos. Meu pai amou e supriu fielmente nossa família, e minha mãe é uma dona de casa clássica. Meus pais serviram de modelo para mim em relação a coisas maravilhosas, tanto no que diz respeito ao casamento quanto à vida, e serei eternamente grato pelo exemplo deles.

Eu (Lisa) venho de uma dinâmica familiar muito diferente. Os pais de John parecem perfeitos quando comparados à minha família, que foi arruinada por alcoolismo, adultério, comportamento abusivo, traição, ganância, perda e divórcio. Quando John e eu começamos nossa vida juntos, ficou óbvio que eu não tinha nenhuma compreensão prática do que era uma família saudável; mas eu tinha um anseio desesperado por fazer parte de uma família assim.

Enquanto conversávamos naquele restaurante chinês, sabíamos que queríamos ter um tipo de casamento diferente. Embora tivéssemos um respeito absoluto pela maneira como os pais de John conduziram seu casamento, aquele não era o modelo certo para nós. Ambos sabíamos que havia mais no casamento do que havíamos visto; havia um chamado divino sobre a própria instituição do casamento. O casamento não se resumia apenas a ficarmos juntos até o fim de nossas vidas; ele dizia respeito a construir um legado eterno através da nossa união. É claro que isso incluiria nossos filhos e os filhos de nossos filhos, mas também incluiria impactar inúmeras outras vidas.

Começamos a pintar uma visão para o nosso casamento. Fazíamos perguntas um ao outro, estabelecíamos parâmetros e sonhávamos tão grande quanto possível. Concordamos que nosso objetivo principal era servir a Deus juntos e honrá-lo com nossas escolhas. Tudo o mais teria de passar por esse filtro.

Ao longo de trinta e dois anos de casamento, passamos por estações nos quais o único motivo pelo qual escolhemos ficar juntos foi nosso compromisso de honrar a Deus. Houve um período em que eu (Lisa) não sentia amor algum por John, e John chegou a me dizer que não sentia amor por mim. Ele se lançou em uma agenda de viagens intensa enquanto eu ficava para trás, em casa, com nossos filhos pequenos.

Para ser sincera, eu não via esperança para o amor no futuro. Minha alma estava marcada por um período no qual fui muito ferida. Eu me sentia completamente abandonada tanto emocional quanto fisicamente. Se tivesse considerado o divórcio uma opção, eu teria tomado esse caminho com satisfação. Eu não tinha uma visão para o futuro do nosso casamento, apenas uma sombra desbotada do que ele poderia ter sido. A certa altura, cheguei a pensar: Deus, vou ficar neste casamento desde que Tu me prometas que não terei de viver com John no Céu. Eu me sentia muito só, e é difícil para as esposas de pastores compartilharem sua dor com qualquer pessoa.

Eu (John) também lutava naquela época contra a falta de esperança. Sentia que nada que eu fizesse estaria certo aos olhos da Lisa, e acreditava estar certo nesse pensamento devido à falta de respeito e às palavras duras que ela me dizia. Estávamos afundando rapidamente, e nenhum de nós via qualquer possibilidade do amor, do respeito e do carinho serem restaurados.

A dor emocional e espiritual daquele período parecia insuportável. Era terrível, mas foi apenas uma estação, e as estações mudam. O tempo do choro pode durar por uma noite muito longa, mas temos a promessa de Deus de que a alegria vem pela manhã (ver Salmos 30:5). Olhando para trás, aquele período parece surreal, como se tivesse acontecido com outro casal. Pela graça de Deus, permanecemos fieis ao nosso objetivo de honrar a Deus. Através do arrependimento genuíno pelo nosso egoísmo aliado à obediência à visão de Deus, vimos nosso casamento e nosso amor crescerem até se tornarem extremamente fortes.

Uma das forças motrizes que nos mantiveram seguindo em frente ao longo daquela estação difícil foi nossa visão de vida. Nós não a víamos como um período de setenta ou oitenta anos; nós a víamos através de uma perspectiva eterna. Setenta ou oitenta anos não passam de um piscar de olhos se comparados à eternidade. A Bíblia ensina que o que fazemos com a Cruz determina onde passaremos a eternidade; entretanto, a maneira como vivemos como crentes determina como passaremos a eternidade. Paulo escreve:

… Preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor… Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas, quer sejam más. 2 Coríntios 5:8, 10

Está claro que Paulo não está escrevendo sobre os incrédulos, pois quando os incrédulos estão ausentes do corpo, eles não estão na presença do Senhor. Ele está se dirigindo àqueles que entraram para a família de Deus por meio da graça salvadora de Jesus Cristo. Compareceremos perante Ele e prestaremos contas sobre as decisões que tomamos e a maneira como vivemos como crentes. O julgamento presidido por Cristo resultará em diferentes recompensas eternas ou perdas eternas, que irão variar desde termos o trabalho da nossa vida totalmente queimado pelo fogo até sermos eternamente recompensados por ele ou até mesmo reinarmos ao lado Dele por toda a eternidade. O conhecimento dessa doutrina fundamental nos manteve no caminho certo. Nenhum de nós queria prestar contas diante do trono de Jesus por ter profanado a Sua arte, que é a união do casamento. (Para saber mais sobre o Tribunal de Cristo, leia o livro de John Movido pela Eternidade.)

Depois do objetivo de honrar a Deus, nosso segundo alvo era estar mais apaixonados um pelo outro no fim de nossa jornada do que estávamos no começo. Esse objetivo nos compeliu a passarmos pelos tempos difíceis e amarmos um ao outro, mesmo quando não sentíamos vontade. C. S. Lewis escreveu:

O amor… é uma profunda unidade, mantida pela vontade e fortalecida deliberadamente pelo hábito, reforçada pela graça (nos casamentos cristãos) com a qual ambos os parceiros pedem e recebem de Deus. Assim, eles podem ter esse amor um pelo outro mesmo nos momentos em que não gostam um do outro.

Definitivamente houve momentos em que não gostávamos um do outro. Mas Deus nos deu graça para navegarmos por esses momentos difíceis, e Ele fará o mesmo por você. Gostamos um do outro e amamos mais um ao outro hoje do que no dia do nosso casamento – essa é a verdade! E esperamos crescer mais em amor a cada década que passa.

DEUS ESTÁ ANOTANDO TUDO

Enquanto escrevíamos nossos sonhos em guardanapos de restaurante, conversávamos sobre como criaríamos os filhos que não tínhamos. Discutíamos sobre como lidaríamos com a disciplina, as concessões, as tarefas e a divisão dos quartos. Falávamos sobre nosso legado e o impacto que nossas decisões teriam sobre nossos filhos e netos. Era importante para nós transmitir-lhes uma herança espiritual e financeira (ver Provérbios 13:22).

Imaginávamos nossa futura casa. Não era importante para nós ter uma casa grande ou elegante; queríamos que a nossa casa fosse aconchegante e calorosa, um lugar onde as pessoas se sentissem seguras assim que entrassem. Queríamos que ela fosse um lugar divertido aonde nossos filhos quisessem levar seus amigos.

Conversávamos ainda sobre o que acreditávamos que Deus havia nos chamado para fazer e sobre como nossos chamados afetariam a dinâmica do nosso casamento. Discutíamos os papéis desempenhados pelas mulheres e pelos homens. Determinávamos como administraríamos nosso dinheiro e ficaríamos livres de dívidas. Conversávamos sem parar até que olhávamos para o que tínhamos em nossas mãos e descobríamos que os rabiscos nos guardanapos haviam se transformado em projetos provisórios da vida que queríamos construir.

Gostamos de pensar que enquanto fazíamos nossos planos em pedaços de papel, Deus também estava escrevendo.

Depois, aqueles que temiam o SENHOR conversaram uns com os outros, e o SENHOR os ouviu com atenção. Foi escrito um livro como memorial na Sua presença acerca dos que temiam o SENHOR e honravam o Seu nome. Malaquias 3:16

Houve muitas coisas sobre as quais falávamos naqueles primeiros dias das quais Deus Se lembrou, mesmo quando já as havíamos esquecido, e Ele fez com que elas se realizassem. Deus registra as conversas que ocorrem entre aqueles que O temem. Enquanto você faz planos para um casamento que honra ao Autor da vida, o Céu toma nota.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 8 – CRENDO NO MELHOR

… Eu sou Deus… e não há nenhum como Eu. Desde o início faço conhecido o fim…Isaías 46:9-10

Parece falta de originalidade escrever que “não há outro como o nosso Deus”, mas frequentemente esquecemos o poder e a verdade dessa afirmação. Como filhos de Deus, somos convidados a nos tornarmos como Ele e a assumirmos Sua natureza. Pela fé, podemos nos tornar futuros formadores, moldando nossas vidas, nossos filhos e nossos casamentos declarando o fim desde o começo.

Procuramos deixar claro desde o começo que felizes para sempre não é algo que encontramos ao acaso; é algo que construímos deliberadamente. A próxima pergunta óbvia é: “Como construir meu final feliz?” Talvez você já tenha lido estes versículos muitas vezes, mas leia-os novamente:

Ora a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos… Pela fé entendemos que o universo foi formado pela Palavra de Deus, de modo que aquilo que se vê não foi efeito do que é visível. Hebreus 11:1, 3

Nosso objetivo é construir um felizes para sempre que ainda não existe, e a fé é o material de construção do que ainda não é realidade.

Deus acreditou em nós antes que fizéssemos qualquer coisa que fosse digna de crédito. Ele tem uma grande fé em você porque Ele tem uma grande fé em Si mesmo. Ele sabe que o poder Dele pode realizar qualquer coisa em sua vida. A única coisa que nos impedirá de desfrutarmos o poder engrandecedor de Deus é a incredulidade, que em última análise tem suas raízes no orgulho.

O orgulho se manifesta como arrogância ou extrema confiança na nossa própria capacidade. Também há uma forma mais sutil de orgulho, que se disfarça de autodepreciação. Em qualquer uma dessas formas, ele é uma recusa em abraçar tudo o que o poder magnífico de Deus comprou para nós através da obra consumada de Cristo na Cruz. Jesus morreu para tornar você extraordinário. “Podemos nos contentar”, escreveu C. S. Lewis, “em permanecer o que chamamos de ‘pessoas comuns’; mas Ele está determinado a colocar em prática um plano bem diferente. Recuar diante desse plano não é humildade; é preguiça e covardia. Submeter-se a ele não é arrogância ou megalomania; é obediência”.3 Abraçamos a vida fantástica que Deus nos oferece fazendo com que nossas opiniões estejam à altura da Sua provisão.

Você acredita que é digno de um grande casamento? Talvez algum dos seguintes pensamentos esteja assolando sua mente:

Tenho bagagem demais.

Não venho de uma boa família. Meus pais não venceram na vida. Já cometi erros demais.

Preciso me contentar simplesmente em sobreviver.

Caso não tenha notado, Deus ama um desafio. Mas a falta de fé limitará o alcance do poder Dele em nossas vidas. Ter uma revelação da Sua grandeza nos inspira a sermos confiantes Nele, enquanto ao mesmo tempo nos mantém humildes. A humildade abre a porta para o melhor de Deus em nossa vida. Isaías 55:8-9 declara:

“Pois os Meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os Meus caminhos”, declara o SENHOR. “Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os Meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos, e os Meus pensamentos, mais altos do que os seus pensamentos”.

Você deve aceitar que Deus é mais inteligente, mais perspicaz e mais capaz do que você. “Em Deus”, escreveu Lewis, “você encontra algo que em todos os aspectos é imensuravelmente superior a você”.4 Se deseja ter acesso aos materiais essenciais para construir um grande casamento, você precisa acreditar nisso.

Não importa qual achemos que seja o potencial do nosso casamento, Deus tem um sonho imensamente maior. Ele não apenas pensou muito a respeito dele, como também fez grandes planos.

“Porque sou Eu que conheço os planos que tenho para vocês”, diz o SENHOR, “planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro”. Jeremias 29:11

Essa promessa nos apresenta duas escolhas: crer que essa afirmação é verdadeira e abraçar a visão de Deus para o nosso casamento ou presumir que Ele é um mentiroso. Quando Deus olha para o futuro da sua união, Ele vê a expressão do Seu Filho. A única maneira dessa visão se concretizar é receber a Sua graça (capacitação) através da humildade e da fé. Embora felizes para sempre seja algo que planejamos, não é algo limitado pela nossa própria força. É uma expressão do amor de Deus consumado pelo Seu Espírito operando por meio de nós.

Talvez você esteja pensando: Tenho certeza de que Deus desistiu do meu casamento. Não existe esperança para nós. Não temos quaisquer perspectivas para o futuro. Perdemos aquele sentimento de amor.

É possível que você se sinta assim porque agiu com base em suas próprias forças? Troque seus esforços e sonhos para seu casamento pelos sonhos de Deus. À medida que você confiar o seu casamento a Ele, Ele pegará seus sonhos, os encherá de vida, e plantará uma versão celestial dentro do seu coração.

Isso significa, maridos, que Ele os capacitará a amar suas esposas assim como Cristo ama a Igreja, abandonando todo egocentrismo. Esposas, da mesma forma Ele capacitará vocês a respeitarem seus maridos. Desse modo, ambos estarão preparados para crescer até a grandeza do casamento.

A Bíblia deixa claro que sem fé é impossível agradar a Deus (ver Hebreus 11:6). Por que Deus ama tanto a fé? Porque por meio da fé Nele recebemos poder para nos tornarmos como Ele, e não existe uma existência melhor do que uma vida semelhante a Deus. Ele tem prazer no seu prazer – e não estamos falando de uma felicidade passageira. O que estamos descrevendo é alegria, satisfação e realização duradouras. Deus quer o melhor Dele para seu casamento, e o melhor Dele só pode ser alcançado em uma união que encontra sua essência Nele.

O PROJETO

Fé e esperança geralmente são confundidas como sendo a mesma coisa, mas elas são diferentes. Se a fé é o material com o qual se constrói um grande casamento, a esperança é o projeto. Em outras palavras, a esperança é como um molde, e a fé é o que o preenche. Sem esperança, a fé é uma substância sem forma, praticamente tão útil quanto materiais de construção sem um projeto.

Você deve se lembrar de que Deus escolheu Abraão a dedo como aquele que receberia uma aliança com um objetivo específico: que Abraão instruísse seus descendentes nos caminhos do Senhor. Abraão não tinha filhos quando Deus o chamou para entrar nessa promessa, mas o Senhor lhe garantiu que ele seria o pai de uma grande nação.

Abraão era um homem de uma fé extraordinária, uma fé que a Bíblia descreve assim: “… não duvidou nem foi incrédulo em relação à promessa de Deus” (Romanos 4:20). E, no entanto, em Gênesis 15, vemos que ele lutou contra o desânimo antes de entrar na dimensão da fé.

… O SENHOR falou a Abrão numa visão: “Não tenha medo, Abrão! Eu sou o seu escudo; grande será a sua recompensa!” Mas Abrão perguntou: “Ó Soberano SENHOR, que me darás, se continuo sem filhos e o herdeiro do que possuo é Eliezer de Damasco?” E acrescentou: “Tu não me deste filho algum! Um servo da minha casa será o meu herdeiro!”

Então o SENHOR deu-lhe a seguinte resposta: “Seu herdeiro não será esse. Um filho gerado por você mesmo será o seu herdeiro”.

Levando-o para fora da tenda, disse-lhe: “Olhe para o céu e conte as estrelas, se é que pode contá-las”. E prosseguiu: “Assim será a sua descendência”.

Abrão creu no SENHOR, e isso lhe foi creditado como justiça. Gênesis 15:1-6

Talvez esperássemos que Deus desse a Abraão uma nova medida de fé. Mas em vez disso, Ele deu à fé de Abraão uma visão à qual se agarrar. Isso fortaleceu a fé dele dando uma base para a sua esperança. Deus convidou Abraão a sair de sua tenda para contar as estrelas. O céu noturno pintava um projeto estelar para sua fé enquanto as inumeráveis estrelas acima dele se transformavam nos rostos de filhos na tela da sua mente. Em vez de simplesmente dizer a Abraão que seus descendentes seriam incontáveis como as estrelas, Deus deu ao seu destino uma ilustração constante, vibrante e física. Através desse processo celestial no qual algo não apenas foi mostrado a Abraão, mas também dito, a visão de Deus foi impressa na imaginação dele.

Do mesmo modo, Deus quer usar sua imaginação para transmitir a visão que Ele tem para o seu casamento, pois onde há visão há esperança. Foi por isso que Paulo nos encorajou a expulsarmos qualquer imaginação que se levanta contra o conhecimento de Deus (ver 2 Coríntios 10:4-5). Você precisa proteger a tela de sua mente porque ela determinará a natureza e o valor dos seus atos. Pense na sua imaginação como uma prancheta de desenho para a esperança.

Deus prometeu nos encher de esperança, mas como podemos ter acesso a ela? É na oração que Seu Espírito gera em nossos espíritos a esperança superior:

[Oro para] Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança Nele, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo. Romanos 15:13

Deus é a nossa fonte de esperança. Se pedirmos, Ele nos encherá de alegria e paz, que é o que todos nós queremos para nossos casamentos. À medida que formos a Ele em humildade, transbordaremos de esperança pelo poder do Seu Espírito. Que promessa!

Provérbios 29:18 nos diz que sem visão pereceremos. Realmente, os casamentos sem uma visão dada por Deus são destituídos de vida. Então nós o desafiamos a sonhar grande! À medida que você se prepara para escrever seus sonhos e objetivos, ore para que Deus desperte o seu coração para o plano Dele.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

4 ATITUDES DOS CASAIS FELIZES

Ao contrário do que prega o imaginário popular, a vida a dois não é um desses presentes do universo que, uma vez alcançado, está garantido por tempo infinito. Mesmo com muito amor envolvido é preciso investimento emocional e requer o compromisso consciente de fazer dar certo. Alguns comportamentos facilitam muito essa tarefa

Manter uma relação longa e estável é uma tarefa trabalhosa. “É preciso tempo e esforço para compreender e apreciar a pessoa ao nosso lado”, deixa claro o psicólogo John Gottman, um dos maiores pesquisadores das relações amorosas no mundo. Professor emérito da Universidade de Washington, coordenou uma equipe que entrevistou casais ao longo de vários experimentos, alguns deles filmados. A análise dessas interações resultou em modelos, escalas e fórmulas para apontar fatores relacionados à estabilidade conjugal, o que valeu o popular apelido de love lab (laboratório do amor) ao Laboratório de Pesquisa Familiar liderado por Gottman. De acordo com o psicólogo, conflitos são inerentes a todo relacionamento. O que conta é a maneira de lidar com eles. “Um dos principais determinantes da felicidade em uma relação é a capacidade que ambos têm de reparar e sair de estados negativos”, diz. A seguir, algumas sugestões de Gottman em prol de uma melhor convivência e do fortalecimento do respeito e cumplicidade.

1. PEQUENOS GESTOS

Gottman constatou que casais felizes demonstram, em média, uma proporção de cinco interações positivas para cada negativa. “Isso praticamente saltou das páginas de análise de dados”, diz, explicando que essa relação é recorrente em relacionamentos, incluindo aqueles em que os envolvidos são bastante independentes, distantes ou críticos. Interações favoráveis podem ser gestos simples: “Um sorriso, um aceno de cabeça ou apenas um som para mostrar que está ouvindo a pessoa amada”, sugere o pesquisador. Também é importante estar atento ao hábito de agradecer pelas delicadezas, seja uma carona, um copo de água ou uma massagem nos pés. Em geral expressamos gratidão em relação a pessoas de quem somos socialmente distantes, mas às vezes deixamos de lado esse comportamento com aqueles com quem temos maior proximidade. Vale lembrar que gentilezas, nas atitudes ou palavras, favorecem a sensação de bem-estar.

2. O ENCONTRO NO MEIO DO CAMINHO

O psicólogo evoca o “equilíbrio de Nash”, conceito utilizado para compreender a lógica dos processos de decisão e ajudar a resolver conflitos de interesse na economia, na ciência política e na sociologia. Por muito tempo, foi amplamente aceita a ideia de que as negociações eram, em sua maioria, situações de soma zero, ou seja, para um ganhar o outro teria de perder. Nos anos 50, porém, o matemático John Nash provou, usando a teoria dos jogos, que havia outra proposta: em um contexto em que nenhum jogador pode melhorar a sua situação dada a estratégia seguida pelo jogador adversário, a melhor estratégia é não investir no prêmio maior. O princípio, também conhecido como equilíbrio cooperativo, rendeu a Nash um Prêmio Nobel em 1994. No campo dos relacionamentos, esse equilíbrio pode ser traduzido por cooperar para encontrar soluções parcialmente vantajosas para ambos e não apenas para uma das partes. Em outras palavras, quando na maioria das vezes os interesses do casal se sobrepõem aos individuais, os dois tendem a ficar mais satisfeitos.

3. OLHAR E ESCUTAR

“Buscamos chamar a atenção e o interesse da pessoa amada o tempo todo”, diz Gottman. Em sua pesquisa, ele descobriu que os casais felizes percebem essas investidas e retribuem em 86% das vezes. Os que se divorciam respondem apenas 33% do tempo nos sete primeiros anos de convivência. “É o momento em que optamos por ouvir nosso par desabafar sobre um dia ruim em vez voltar a atenção para a televisão”, exemplifica a psicóloga Dana R. Baerger, professora assistente de psiquiatria clínica e ciências comportamentais na Escola Feinberg de Medicina da Universidade Northwestern. “Temos a escolha, em qualquer interação, de nos conectarmos com nosso parceiro ou não. A constância da segunda opção pode, ao longo do tempo, corroer lentamente o relacionamento, mesmo sem haver um conflito claro.”

4. VALORIZAÇÃO DE ASPECTOS POSITIVOS

A observação de casais em suas casas revela que os indivíduos que se concentram nos aspectos desfavoráveis não conseguem enxergar ações positivas do companheiro. Uma característica nítida dos casais felizes é que procuram relevar os aborrecimentos e focar o lado agradável da relação. Não se trata de negar o que não está bem, mas sim de não dar espaço excessivo ao que incomoda e colocar de lado as experiências satisfatórias. “Se um dos dois acorda irritadiço em uma manhã de domingo, por exemplo, isso não é motivo suficiente para estragar toda a programação do dia, o que seria pouco vantajoso para ambos”, comenta Gottman. Ele alerta também para o risco de guardar mágoas e usar o ressentimento para ferir ao outro e a si mesmo. Em seus estudos, o psicólogo constata que os casais mais satisfeitos são aqueles em que ambos se esforçam para cuidar emocionalmente do parceiro.

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TECNOLOGIA DE VESTIR

Como os novos dispositivos “wearables” estão revolucionando a forma de se relacionar com o mundo e o próprio corpo

Pessoas que caminham pelas ruas e aparentam estar falando sozinhas, mas na verdade estão se comunicando com outras por meio dos óculos escuros. Crianças que parecem estar brincando no condomínio do prédio sem a supervisão de um adulto na realidade estão sendo atentamente monitoradas pelos pais por meio de seus relógios. Roupas que aparentemente estão apenas cobrindo a pele, mas fazem muito mais do que proteger o corpo e embelezar o usuário: monitoram a saúde e emitem alertas quando o nível de estresse está acima do normal. Esses itens lembram cenas de filme futurista, porém já fazem parte do dia a dia de muita gente e protagonizam o início de mais uma revolução tecnológica e comportamental. Os novos “wearables”, dispositivos tecnológicos de vestir, estão dominando o investimento em pesquisas das empresas e chegando com tudo no mercado. Apenas no Brasil, no primeiro trimestre de 2019, o número de vendas desses dispositivos cresceu 51,6% em relação ao mesmo período do ano passado. E as expectativas são bastante otimistas: estima-se que até o final do ano a alta deve ser de 91,3%. Os dados são de uma pesquisa realizada recentemente pelo IDC Tracker Brazil.

MUDANÇA DE HÁBITOS

Enquanto esses aparelhos estão trazendo bons retornos financeiros para as empresas pioneiras, do outro lado dessa cadeia estão os usuários cujos hábitos de vida já estão sendo transformados. É o caso da administradora de empresas Daniela Cuqui. Ela comprou para a filha Lorenza, de 8 anos, um relógio que se conecta com seu smartphone. Com um só aparelhinho, ela eliminou diversas preocupações. O objeto possui função GPS, então ela sempre sabe onde a filha está e ainda recebe um alerta se ela sair da área demarcada. E o melhor: o dispositivo está sempre preso ao seu pulso. “Dei um celular há um tempo para ela, mas ela tinha de ficar carregando e acabava esquecendo. Então comprei uma bolsinha para ela carregar o celular, mas também acabava deixando o acessório esquecido em um canto. Agora não tem como esquecer, e se ela tirar do braço eu também recebo um aviso no celular”, diz Daniela. Além de mostrar a localização da filha, o aparelho, que leva um chip próprio de uma operadora de telefonia, recebe e faz ligações para números previamente autorizados e ainda conta com botão SOS. Uma mão na roda para a mãe que trabalha e não tem como acompanhar a menina o dia todo. Além de Lorenza, sua filha mais velha, de 23 anos, seu marido, sua mãe, que mora sozinha, e suas irmãs também usam relógios inteligentes. “É uma segurança, nossa família toda está conectada. Todo mundo fica mais tranquilo porque sabe que todos estão bem”, diz ela.

Outro entusiasta dessa nova tecnologia é o advogado Flávio Schmidt, de 43 anos. Ele sempre viaja a trabalho para a Europa e para os Estados Unidos e aproveita a oportunidade para voltar com o que há de mais novo na área. Uma de suas mais recentes aquisições foram óculos que funcionam como fones de ouvido. Além de proteger os olhos, o item permite que ele ande de moto e faça exercícios sem se preocupar em carregar muitos objetos. Conectado ao smartphone via bluetooth, o equipamento é utilizado para ouvir músicas e fazer ligações por meio de comandos de voz e botões presos nas próprias hastes. “Parece uma trilha sonora, porque consigo ouvir o que as pessoas estão falando com som ao fundo. A gente tem a impressão de que a vida vira um filme”, diz ele. “Também é mais seguro, porque escutar o que se passa ao meu redor é fundamental para quem gosta de passear de moto”. Apesar de adorar os novos lançamentos, ele não os adquire no Brasil, mas apenas quando viaja. Devido aos altos impostos, os dispositivos chegam muito caros no País.

Esse é um dos motivos que faz com que muitos desses aparelhos, que já fazem parte da vida das pessoas em outros países, levem um tempo para chegar por aqui. Mas existem outros. “Muitos dos ‘wearables’ estão em fase de teste e só passam a ser exportados quando realmente são aceitos pelos usuários”, diz Edney Souza, Diretor Acadêmico da Digital House. Os relógios que monitoram a saúde são um exemplo disso. Após serem vendidos com sucesso para o mercado no exterior, eles chegaram com tudo no Brasil, e com diversas marcas. Além de já incentivarem os usuários a terem hábitos mais saudáveis, como caminhar e se movimentar, eles prometem vir com funções ainda mais aprimoradas. “Os pesquisadores estão conduzindo estudos em que os dados de batimento cardíaco coletados estão sendo aceitos como eletrocardiograma para identificar quem tem mais risco de problemas no coração. Em um futuro muito próximo, teremos menos pessoas falecendo em decorrência de um infarte”, diz Edney.

Marina Toeters, designer e pesquisadora em tecnologia fashion, organizou o livro “Unfolding Fashion Tech: Pioneers of Bright Future”, que reuniu 50 projetos na área, tanto em fase de protótipo quanto já disponíveis no mercado. De acordo com ela, as principais dificuldades para comercializar esses produtos são a aceitação do público e o preço de venda. Marina desenvolveu uma blusa que, por meio de finos sensores acoplados à blusa, coletam dados como batimento cardíaco e movimentos do usuário. “Eles ajudam as pessoas a se preocuparem mais com sua saúde e a relaxarem, enquanto podem continuar fazendo suas atividades”, afirma ela. O protótipo está sendo negociado com uma marca e deve chegar ao mercado em cerca de um ano. A ideia é produzir um volume de três mil unidades ao mês.

GESTÃO E CARREIRA

UMA CORTINA DE FUMAÇA?

Multinacionais tabagistas reinventam modelo de negócio e aumentam pressão para que autoridades brasileiras liberem os cigarros eletrônicos no país. O problema é que ainda não há consenso sobre os riscos da nova categoria para a saúde

Nos anos 60, quase metade (42%) da população adulta americana fumava. O cigarro era sexy, moderno, um ato de rebeldia contra a rigidez dos costumes. De James Dean a Bette Davis. De Audrey Hepburn a Marilyn Monroe. Do lendário agente secreto James Bond, de 007, à diva Rita Hayworth. A fumaça pairava sobre Hollywood — e sobre o resto do mundo que assistia a seus filmes. Seria impossível imaginar, sob a ótica daquela época, o revés que o mercado tabagista sofreria. No ano passado, segundo dados oficiais do governo dos Estados Unidos, o número de fumantes havia caído para 14%, cenário que se assemelha ao de diversos outros países. No Brasil, uma pesquisa do Ministério da Saúde mostrou que as pessoas com hábito de fumar passaram de 15,7% da população, em 2006, para 9,3%, em 2018 — redução de 40% em 12 anos.

Mas a centenária indústria do tabaco não está derrotada. Ao contrário. Na última década, iniciou uma revolução silenciosa que agora começa a fazer barulho. No ano passado, um dos gigantes do setor assumiu, inclusive, que pretende matar o fumo enrolado no papel.

O que nasce no lugar? Uma geração de produtos muito mais auspiciosos: os dispositivos eletrônicos para fumar (os DEFs, que também respondem pelos nomes e-cigarette, e-ciggy, e-cigar e vape). De modo geral, eles são movidos a bateria, têm piteira na ponta e um pequeno reservatório interno no qual se introduzem tabaco, ervas ou capsulas líquidas, que podem ser com ou sem nicotina. Em vez de queimar as substâncias, esses cigarros high-techs as aquecem. Isso, em teoria, diminui a exposição a agentes tóxicos e faz desses apetrechos uma alternativa menos maléfica para quem não consegue — ou não quer — parar de fumar. Esse, aliás, é o pulo do gato. No fundo, a mesma indústria que criou o problema (que mata 7 milhões de pessoas por ano no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde) agora quer emplacar uma solução. E seguir lucrando no século 21.

Em um vídeo intitulado A jogada por trás dos cigarros eletrônicos, o médico Dráuzio Varella afirma que existe uma intenção oculta nesse mercado em ascensão. “A taxa de fumantes vem caindo ano a ano. Por quê? Porque o adolescente fala: ‘Não vou fumar, cigarro faz mal, dá câncer, causa um monte de problemas’. Mas o eletrônico não, é só nicotina. Ele começa a fumar e, quando vê, está dependente.” De acordo com o oncologista, além de ter um design moderno, boa parte desses aparelhinhos permite inserir também essências, como de menta, chocolate e framboesa. “Para quê?”, questiona o médico. “Para tirar o gosto aversivo da fumaça e viciar as crianças. Não entre nessa. Ao fumar cigarro eletrônico, você está fumando a nicotina. E ela vai escravizá-lo. O que vicia não é o alcatrão nem as outras substâncias. O que faz alguém precisar de 20 cigarros por dia é a nicotina. E o cigarro eletrônico é só nicotina.”

Relatórios da Euromonitor, consultoria especializada em pesquisas de mercado, dizem que a mudança na lógica tabagista tem potencial para impactar mais de 1 bilhão de fumantes no mundo. A projeção é que o segmento eletrônico movimente 34 bilhões de dólares até 2021, um aumento de 176% em cinco anos. Em países como Japão e Inglaterra, onde a venda é legalizada, as fabricantes já investem pesado na nova modalidade. Por lá, suas lojas são tão tecnológicas que ninguém diz que ali se vende cigarro — e não computadores. Mesmo assim, elas negam glamourizar o ato de fumar. A Philips Morris, dona da marca Marlboro, usa o exemplo do Japão, onde os e-cigs são vendidos há quatro anos, para contestar a ideia de que os dispositivos atraem os jovens. Segundo a própria multinacional, 98% dos japoneses usuários de cigarros eletrônicos já eram fumantes antes, o que derrubaria o argumento de que são uma porta de entrada.

Seja como for, se esse mercado estivesse fadado ao fim, gente poderosa não estaria investindo nele. Em 2013, Sean Parker, cofundador da Napster, importante conglomerado de mídia e tecnologia, e Peter Thiel, fundador do PayPal, investiram na Njoy, startup de cigarro eletrônico, 10 milhões e 65 milhões de dólares, respectivamente. No final do ano passado, outro movimento sintomático. A Altria, maior tabagista dos Estados Unidos, comprou 35% da Juul Labs, criadora do Juul, o mais famoso e-cigar do mundo, na qual investirá 12,8 bilhões de dólares. No Brasil, no entanto, a virada do negócio esbarra na legislação. A partir de 2009, medidas firmes foram adotadas no país contra o tabagismo. Além da Lei Antifumo, que censura propagandas de cigarro e o proíbe em ambientes fechados, uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desautorizou a produção, a distribuição e a comercialização de quaisquer dispositivos eletrônicos para fumar. Mas isso não significa que o setor esteja de braços cruzados. As companhias de tabaco vêm aumentando a pressão para que as autoridades revejam a proibição. Em abril de 2018, na gestão de Michel Temer (MDB), houve um painel no auditório da Anvisa, em Brasília, para discutir possíveis alterações na regulação. Embora a maioria dos participantes tenha constatado que não há evidências científicas que autorizem a comercialização do fumo digital, o lobby persiste. Até o fechamento desta edição havia uma nova audiência pública marcada para agosto com o intuito de rediscutir a questão.

QUEIMANDO O VELHO NEGÓCIO

Polêmicas à parte, as empresas avançam. A British American Tobacco, proprietária da Souza Cruz no Brasil e fabricante de marcas como Dunhill e Lucky Strike, investiu 2,5 bilhões de dólares na categoria nos últimos sete anos. De lá para cá, seus 1.500 cientistas já publicaram 109 estudos sobre a modalidade e registraram 3.300 novas patentes, como a do iSwitch, vaporizador lançado em 2018 que carrega uma lâmina de aço inoxidável tão fina quanto um fio de cabelo. “Essa tecnologia libera o vapor de nicotina de forma mais eficiente, gerando 99% menos substâncias químicas indesejadas se comparada aos cigarros convencionais”, diz Analucia Saraiva, de 52 anos. Farmacêutica e mestre em química orgânica pela Universidade Federal Fluminense, ela é hoje uma das principais executivas da organização no Brasil. “Sou cientista de carteirinha e testemunha da transformação digital dessa indústria. Comecei de jaleco, na área de P&D, e hoje percebo a ciência em todos os departamentos.” Analucia cita drones mapeando plantações de tabaco, detectores de infravermelho monitorando insumo nas fábricas e sistemas de logística modernos para acompanhar entregas em tempo real. Há 25 anos na Souza Cruz, ela já passou pelos cargos de pesquisadora científica, gerente de assuntos corporativos e gerente de ciência e regulamentação para África e Oriente Médio, trabalhando em Londres. Hoje, ocupa uma posição tática: gerente de relações científicas. A função de Analucia é fazer interlocução com autoridades médicas e governamentais. E não se sente desconfortável com isso. “Quero que a informação chegue ao consumidor brasileiro. O mercado ilegal de cigarros eletrônicos é uma realidade por aqui e precisamos de uma regulamentação adequada.”

De modo geral, a defesa da indústria é que esses produtos são menos mortais. Quando o fumante pega o isqueiro e acende um cigarro, ele queima o tabaco. Essa combustão libera uma fumaça com mais de 4.000 substâncias químicas, cerca de 50 delas cancerígenas. No novo sistema, é possível, por exemplo, colocar um bastão de tabaco dentro do vape, que esquenta o produto sem gerar combustão, fumaça ou cinza. O sabor e o tempo de consumo são os mesmos: 6 minutos para 14 tragadas. “O conceito é parecido com o da Nespresso. Uma cápsula de tabaco que vai dentro de um aquecedor. Sem sabores ou atrativos, como aromas, que são a principal crítica de organizações antitabagismo”, diz Fernando Vieira, diretor de assuntos externos da Philip Morris no Brasil. Entre outras coisas, Fernando precisa convencer as autoridades brasileiras a liberar as cigarrilhas eletrônicas. Sua missão está alinhada à estratégia da companhia, que adotou o slogan Smoke-free future (“Futuro sem fumaça”, na tradução do inglês). O executivo fala com desenvoltura sobre o assunto. E diz que a orientação da matriz é debater o tema com transparência. “Nós não escondemos nada. Nosso produto eletrônico tem a mesma quantidade de nicotina do tradicional. Nem mais nem menos. Não é inócuo, mas é uma alternativa melhor. Tenho um pai com duas safenas. Gostaria que ele parasse de fumar ou tivesse acesso a produtos menos nocivos. Isso mudou minha dinâmica. Antes era trabalho, agora virou uma motivação.”

Há três anos, Fernando dialoga com membros da Anvisa sobre a necessidade de uma regulamentação. Ele reforça que a Philip Morris não é contra o combate ao tabagismo. O objetivo é oferecer uma solução de menor impacto aos 20 milhões de pessoas que ainda fumam no Brasil. A estimativa da empresa é que cerca de 6,6 milhões de adultos fumantes no mundo já tenham parado de usar a modalidade analógica e migrado para os produtos aquecidos, como o IQOS, carro-chefe da Philip Morris, à venda em 44 mercados.

CONTROVÉRSIA

O Public Health England (PHE), departamento de saúde do Reino Unido, divulgou em 2018 estudo no qual aponta que cigarros eletrônicos podem exercer um impacto positivo na saúde pública do país, uma vez que reduzem até 95% da fumaça tóxica, principal causa de mortes e doenças relacionadas ao tabaco. E recebeu uma enxurrada de críticas. O órgão está sendo acusado de fechar os olhos e ignorar evidências científicas. Parte das autoridades médicas, que divergem sobre a tecnologia ser menos nociva, afirma que uma série de pesquisas apontam para o lado oposto, revelando que a categoria eletrônica traz, sim, perigo às funções pulmonar e cardiovascular. “Há relatos até de maior incidência de convulsões entre adolescentes usuários de cigarros eletrônicos”, diz Stella Regina Martins, membro da Comissão de Combate ao Tabagismo da Associação Médica Brasileira e organizadora do e-book Cigarros Eletrônicos: O Que Sabemos? (disponível para download no site da Anvisa). Segundo ela, o discurso sobre a redução de danos é falacioso. “As substâncias que compõem esses cigarros estão classificadas no Grupo A da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, em que não há nível seguro de exposição. Ou seja, mesmo que existisse uma diminuição de 99,9% nas concentrações, ainda assim o risco de câncer permaneceria”, afirma.

Outro ponto aventado por médicos é que as vantagens para os adultos seriam ofuscadas pelo modismo entre os adolescentes. O caso da cigarrilha Juul é emblemático. Lançada há três anos nos Estados Unidos, ela virou febre entre estudantes — e uma dor de cabeça para a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora do governo. Conhecido como o “iPhone dos cigarros”, o aparelho tinha o propósito de ser uma opção menos danosa, mas virou um problema de saúde pública. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, o uso desses dispositivos aumentou 78% em um ano entre alunos do ensino médio e 48% entre universitários. O número de jovens usuários saltou de 2,1 para 3,6 milhões de 2017 a 2018.

Na avaliação de entidades antitabagistas, o caso americano é a prova de que não se deve mexer na atual legislação brasileira. “Proibir é uma forma de regular e de proteger crianças e adolescentes”, diz o pneumologista Alberto Araújo, presidente da Comissão de Combate ao Tabagismo da Associação Médica Brasileira e coordenador do Núcleo de Estudos e Tratamento do Tabagismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O médico faz, ainda, um alerta em relação ao cigarro 2.0: o de que ele não só não ajuda os fumantes a romper o ciclo do vício como ainda leva muitos deles a fumar os dois produtos juntos. No mês passado, a Organização Mundial da Saúde reforçou suas advertências. O órgão divulgou um relatório no qual desaconselha o uso dos eletrônicos para quem deseja parar de fumar. A instituição informa que, embora não existam estudos conclusivos sobre esses novos sistemas de administração de nicotina, eles são prejudiciais à saúde. No texto, o órgão afirma que, na maioria dos países onde estão disponíveis, os usuários acabam combinando a opção eletrônica com a convencional.

Foi o que aconteceu com Igor Bento, de 38 anos. Fumante há 20 anos, ele investiu 600 reais em um e-cigar importado. O intuito era abandonar o vício. “Eu queria substituir o cigarro tradicional e, aos poucos, ir diminuindo a frequência do eletrônico usando e-liquids com 5% de nicotina”, afirma o empresário de Teresina, no Piauí. Os e-liquids, também conhecidos como juices, são os fluidos que vão dentro de alguns desses dispositivos. Foram 40 dias de tentativa. “Tossia muito e engasgava. Procurei formas de regulagem em tutoriais online, mas não me adaptei. Como um não tirava a vontade do outro, eu acabava usando os dois”, diz. Agora, Igor fuma apenas o cigarro de papel, mas acaba de adquirir, numa viagem de férias à Europa, o polêmico Juul. “Vou testar para ver se é diferente.”

Hoje, as normas em vigor condenam a comercialização desses aparelhos para fumar, mas não legislam sobre o uso ou a posse deles, o que em tese não faz do fumante um infrator. Apesar de a venda ser proibida, diversos sites oferecem vapes e vaporizadores (aparelhos onde se podem aquecer ervas e essências). A própria reportagem comprou um desses modelos num conhecido e-commerce brasileiro. A encomenda chegou em dois dias, sem burocracia. “Há um mercado ilegal em expansão por aqui e a proibição não resolve o problema”, diz o publicitário Alexandro Lucian, de 38 anos, conhecido nas redes sociais como Hazard. Em 2015, ele abandonou o vício que manteve por mais de 15 anos com o auxílio de um vape. “Fumava três maços por dia. Se eu parei, acredito que essa tecnologia possa ajudar outras pessoas.”

Hoje, Alexandro é membro ativo de grupos e comunidades online de usuários de modelos eletrônicos e tem até um canal no YouTube sobre o assunto. “Não faz sentido permitir a venda em qualquer esquina do cigarro, que é extremamente prejudicial, e não dar o direito à alternativa.” Na visão dele, mais importante do que proibir, seria manter o controle rígido da propaganda, a fiscalização dos pontos de venda e o combate ao uso por menores, como já acontece com a outra categoria. Enquanto governantes, estudiosos e indústria não chegam ao consenso, a discussão segue aquecida. Pelo sim ou pelo não.

RESSURGINDO DAS CINZAS

*** 1,1 bilhão de fumantes devem ser impactados pelos cigarros 2.0

*** 34 bilhões de dólares é quanto os dispositivos eletrônicos para fumar movimentarão até 2021

*** 6,6 milhões de fumantes no mundo já migraram dos cigarros tradicionais da Philip Morris para o produto de tabaco aquecido da marca, o IQOS

*** 8 milhões fumam o Glo, e-cigarro da British American Tobacco, da qual a Souza Cruz é subsidiária, nos 30 países em que está autorizada a vendê-los

*** 12,8 bilhões de dólares é o valor que a Altria, maior tabagista dos EUA e dona da Philip Morris, pretende investir na startup de cigarros eletrônicos Juul

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O “AZAR” DE ADOECER

A má sorte pode ser levada em conta quando se estuda a incidência de câncer na população? Por incrível que possa parecer, um grupo de respeitados cientistas acredita que sim

Ao longo dos anos, o acaso tem desafiado a ciência. Recentemente, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins e da Escola de Saúde Pública Bloomberg, nos Estados Unidos, fizeram uma afirmação polêmica. Claro, há fatores ambientais a serem levados em conta, hábitos de risco, influência da alimentação e do sedentarismo e aspectos genéticos e biológicos. Mas, segundo os cientistas, a ocorrência da maior parte dos tipos de câncer pode ser atribuída, pelo menos em parte, à “má sorte”. Em um artigo publicado no periódico científico Science, estudiosos afirmaram acreditar que a explicação para esse fator aleatório está na maneira como os tecidos do corpo se regeneram.

A pesquisa revela que dois terços de todos os tipos de câncer analisados são originados por mutações genéticas e a explicação para essa alteração pode estar na maneira como as células se regeneram. O estudo que levou a essa conclusão tem o objetivo de explicar a razão de alguns tecidos do corpo serem mais vulneráveis ao câncer do que outros.

Células mais antigas e desgastadas são constantemente substituídas por células-tronco, que se dividem para formar novas estruturas celulares. Mas em cada divisão há o risco de que ocorra uma mutação anômala, que aumenta o perigo de aparecer um câncer. O ritmo dessa renovação varia de acordo com a região do corpo, sendo mais rápida no intestino e mais lenta no cérebro, por exemplo. Os pesquisadores compararam o número de vezes que essas células se dividem em 31 tecidos do corpo durante a vida média de uma pessoa com o índice de incidência de câncer nessas partes do corpo e concluíram que dois terços dos tipos de câncer seriam causados pelo “azar” de células-tronco em processo de divisão sofrerem mutações imprevisíveis. Apesar da observação, cientistas de todo o mundo ressaltam que um estilo de vida saudável aumenta muito as chances de uma pessoa não desenvolver a doença. Ou seja, favorece “a sorte” de se manter saudável.

MELHORES AMULETOS

Para a psicanálise não existe acaso – pelo menos não da maneira como estamos acostumados a considerar essa ideia. Sigmund Freud postula que somos conduzidos por nossos desejos inconscientes sem nos darmos conta deles. E, não raro, nos sentimos completamente à mercê das situações, imersos em certo grau de alienação. Porém, por meio da análise ou do próprio processo de amadurecimento, tendemos a nos apropriar de nossa história, nos tornando mais autônomos tanto para fazer escolhas e arcar com os resultados delas, quanto para aceitar, sem grande sofrimento, que não é possível ter tudo sob nosso controle. E não se trata de abrir mão dos próprios desejos porque não podemos dominar as consequências – pelo contrário.

A capacidade de receber de bom grado os benefícios que a vida oferece – sem desvalorizar “a medalha de bronze porque não é de ouro” – costuma perpetuar a sensação de satisfação. Nesse sentido, uma das maneiras mais eficientes de atrair a sorte está na escolha no nível racional, na opinião do psicólogo inglês Richard Wiseman. Professor da Universidade de Hertfordshire, na Inglaterra, ele trabalhou como ilusionista na época da graduação e, mais tarde, conduziu um complexo estudo sobre os mecanismos possivelmente relacionados à sorte. Segundo Wiseman, desenvolver conscientemente o hábito de nos atermos àquilo que nos faz bem, sem nos apegarmos excessivamente ao que provoca dor e desconforto. Para o psicólogo, o empenho em ser saudável e a confiança de que merecemos essa oportunidade são bons amuletos contra o “azar” da doença.

OUTROS OLHARES

A EDUCAÇÃO VEGANA

O pioneirismo das escolas brasileiras em trabalhar o tema “veganismo”, com base em Filosofia, e as vertentes por detrás desse movimento

Definimos no Brasil a educação vegana como uma ação direta pedagógica crítica e autocrítica, cuja missão é levar a teoria dos direitos animais e todo o debate ético animalista, assim como sua aplicação, prática, o modo de vida vegano ao conhecimento de toda a população.

Para entendermos essa questão, é preciso dizer que tudo isso teve início em 1944, em Londres, quando um grupo de dissidentes da Vegetarian Society, funda a Vegan Society e cunha o termo “vegan” para se referir à pessoa que busca no seu dia a dia abolir tudo que advém do uso e da exploração dos animais não humanos. Essa ideologia passou a se chamar “veganism” (veganismo).

Nesses 75 anos de existência, o veganismo adquiriu uma solida fundamentação filosófica. As bases teóricas desse modo de vida tiveram seu início – poderíamos dizer – com o surgimento do Grupo de Oxford. Assim foi chamado, informalmente, o grupo de estudiosos de diversos campos que levantaram, na década de 1970, na Inglaterra, uma série de questionamentos críticos aos mais diversos usos que os humanos fazem dos animais não humanos, em especial para experimentação científica e para alimentação. Inspirados na obra de Ruth Harrison, “Animal Machines” de 1964, os membros do Grupo de Oxford começam a editar argumentos filosóficos em defesa da expansão do círculo moral para além da espécie humana.

As obras pioneiras foram, do casal Stanley e Rosalind Godlovitch e John Harris, chamada Animals, men, and Morals (1971); de Rosalind Godlovitch, Animais and Morais (1971); de Peter Singer, Animal Liberation (1973); de Richard Ryder, Victims of Science (1975); de Tom Regan, “The moral basis of vegetarianism” (é um ensaio, 1975); de Andrew Linzey, Animais Rights: a christian perspective (1976); de Tom Regan e Peter Singer, Animal Rights and Human Obligations (1976); de Stephen Clark, The moral status of animais (1977); de Michael Fox e Richard Knowles, On the fifth day: animal Rights and human ethics (1978); de Peter Singer, Practical Ethics (1979); de David Paterson e Richard Ryder, Animais Rights: a symposium (1979). Nesse mesmo período, importantes revistas acadêmicas dedicaram edições à questão do status moral dos animais não humanos: Ethics (jan/1978), Philosophy (out/1978), Inquiry (verão de 1979) e Etyka (1980).

A partir daí, durante as décadas de 1980 e 1990, a literatura sobre essa temática aumentou assustadoramente. Dentro das mais diversas correntes éticas tivemos o surgimento de filósofos escrevendo defesas da ampliação do círculo moral para incluir os animais não humanos, como pessoas, como sujeitos de suas vidas, como indivíduos conscientes de seus prazeres e sofrimentos. Filósofos utilitaristas, neokantianos, eticistas das virtudes neoaristotélicos, eticistas do cuidado, entre outras vertentes.

Diferentemente do que ocorre nos EUA e na Europa, onde a educação vegana é apenas uma frase dita em panfletos de ativistas veganos, no Brasil, de modo pioneiro, a educação vegana foi aplicada em diversas escolas. O Brasil é o único país do mundo onde professores de Filosofia, Biologia, Educação Física, Física, Matemática, Sociologia introduziram em sala de aula as questões éticas levantadas pelos filósofos animalistas. Porém, são nas aulas de Filosofia, nas quais a temática é mais desenvolvida, devido ao fato de terem sido os filósofos que a elaboraram. Isso facilita ao professor de filosofia, pois tanto no currículo escolar oriundo dos PCNs quanto no livro didático, ele encontra os principais tópicos que levam a esse debate ético contemporâneo.

Nas aulas de Filosofia no ensino médio brasileiro, nas escolas onde a temática foi trabalhada, o professor de Filosofia, ou “educador vegano” como também é chamado, pode desenvolver os debates no campo ético por três vias: primeira, por temas (conceitos); segunda, pela História da Filosofia (em ordem cronológica ou não) e, terceira, por autores (escolhendo quais pensadores apresentar).

A educação vegana demonstrará que a tradicional visão de que o humano é o único animal que pensa, que raciocina, que tem linguagem articulada, que usa instrumentos para modificar seu ambiente, que tem alma, que tem senso de justiça, que produz cultura; não se sustenta mais. Não só pelo recurso aos avançados estudos da Etologia Cognitiva pós-darwiniana, mas pelo debate ético realizado na História da Filosofia desde os gregos. As teses especistas, ou seja, as teses advindas da ideologia que defende a suposta superioridade dos animais humanos sobre os não humanos, comum em pensadores como Aristóteles, Tomás de Aquino, Descartes e Kant, serão contrapostas por vozes dissidentes do mesmo período. Por exemplo, o especismo da teoria cartesiana do “animal machine”, será contraposta pela belíssima defesa da senciência animal na “Apologia de Raymond Sebond” de Montaigne e pelas repostas de Voltaire a Descartes no Dicionário Filosófico e no Filósofo Ignorante.

Se o professor de filosofia ou educador vegano escolher ministrar suas aulas pela via temática/conceitual, podemos usar como exemplo, a questão da senciência. A senciência é o critério moral que iguala todos os animais. Para os animais que ainda não temos certeza se são sencientes, concedemos­ lhe o benefício da dúvida. Negar que os animais não humanos têm consciência da dor e do prazer, é negar a animalidade que nos configura. Em sala de aula, a senciência pode ser discutida a partir de vários filósofos e cientistas como: Pitágoras, Teofrasto, Plutarco, Montaigne, Voltaire, Primatt, Bentham, Nietzsche, Darwin, Peter Singer, Tom Regan, Bernard Rollin, Steve Sapontzis, Evelyn Pluhar, James Rachel e Antônio Damásio.

Se a forma da aula for escolhida pela via da História da Filosofia, sabemos que em todo livro didático de filosofia, temos um capítulo dedicado à Filosofia da Ciência. A partir da perspectiva da educação vegana, a problemática da experimentação animal é colocada tendo como objetivo refletir sobre os alcances e limites das ciências. Aristóteles herdou do pai que era médico na corte macedônica o fascínio pelas pesquisas zoológicas. O educador vegano não ignora o fato de que o Estagirita era um vivissector e anatomista, foto comprovado pelos detalhes com que descreve as composições dos animais em seus tratados biológicos. Em seu longo tratado, História Animalium, encontramos as bases do que denominamos hoje de Psicologia Comparada, assim como, da Etologia Cognitiva. E como falar da experimentação animal sem passar pelo “pai” da filosofia moderna: René Descartes? As aulas podem ser ilustradas com um ótimo recurso cinematográfico que é o documentário chamado “Não matarás: os homens e os animais nos bastidores da ciência’: que conta com a participação de dois importantes filósofos dos direitos animais: a brasileira Sônia Felipe e o estadunidense Tom Regan.

A educação vegana pode ser desenvolvida nas aulas de filosofia pela terceira via, a apresentação de alguns filósofos. Devido ao pouco tempo de aula de filosofia nas escolas, infelizmente, a escolha acaba privilegiando uns e deixando outros de fora, o que não quer dizer que não podem ser citados, indicados como leitura extraclasse. A escolha normalmente é feita tendo em mente os filósofos da chamada Ética Animal ou dos Direitos Animais. Por exemplo, Peter Singer, autor de duas obras fundamentais dentro da perspectiva utilitarista, que são: Libertação Animal e Ética Prática. Singer desenvolveu o “princípio da igual consideração de interesses semelhantes’: cuja base é o critério da senciência. Se um animal não humano tem os mesmos interesses básicos que o animal humano, esses interesses não podem ser negligenciados apenas por que ele não pertencer a minha espécie. Isso seria especismo, um preconceito baseado na formatação biológica do indivíduo, como é o caso do racismo e do sexismo.

Ainda nessa terceira via, a educação vegana pode ser trabalhada pela perspectiva dos direitos. Nesse caso, o filósofo mais conhecido é Tom Regan. Regan é um conhecido deontologista neokantiano, e a sua teoria dos direitos animais foi estruturada em sua obra magna: The Case for Animal Rights. Regan se funda em Kant e na Declaração dos Direitos Humanos para propor que todos os animais sencientes devem ter direitos morais básicos. Devem ser reconhecidos como pessoas que são sujeitos – de ­ suas – vidas e devem ser respeitados por isso.

E por fim, ainda nessa terceira via, os pensadores neoaristotélicos também podem ser usados para que os alunos vejam a amplitude de perspectivas em defesa da expansão do círculo moral humano. Os filósofos mais conhecidos nessa linha de pensamento são: Stephen Clark, Rosalind Hursthouse, Martha Nussbaum, Daniel Dombrowski e Bernard Rollin. Esses pensadores vão resgatar conceitos aristotélicos como eudaimonia, aretê e telos. A educação vegana a partir dessa perspectiva tem como foco a formação do caráter moral humano. Mesmo que nas escolas, contraditoriamente, encontramos uma barreira à formação de uma segunda natureza moralmente excelente, ou seja, um habitus que nos possibilite buscar a realização de nosso telos eudaimônico sem com isso, impedir que o mesmo seja alcançado pelas outras espécies animais; é nesse ambiente que a educação vegana acredita, através de uma ação direta pedagógica, que as virtudes fundamentais para o viver uma vida boa, como: prudência, temperança, coragem, justiça, fidelidade, veracidade, amabilidade, simplicidade, responsabilidade e compaixão, devem ser introduzidas e trabalhadas.

Educação vegana é um outro olhar sobre nossas relações com os animais não humanos e com o meio ambiente que nos circunda, cuja base, é o diálogo crítico com toda a milenar História da Filosofia. Educação vegana é a prática da criticidade que caracteriza a Filosofia.

GESTÃO E CARREIRA

VOANDO ALTO

A MaxMilhas, que surgiu em 2013 e hoje tem 400 funcionários, desenvolve os empregados para o futuro

Encontrar uma maneira de economizar nas viagens foi o que levou o mineiro Max Oliveira a criar, em 2013, a MaxMilhas, que conecta consumidores que estão em busca de uma passagem aérea mais barata a pessoas que querem vender suas milhas e faturar uma grana extra. A ideia fez sucesso e, até hoje, a empresa já negociou 40 bilhões em milhas e emitiu 4 milhões de passagens — o que representa 160.000 voltas ao mundo em milhagem aérea. Para dar conta da demanda, a empresa aumentou o quadro. Nos últimos três anos, dobrou o número de empregados e, atualmente, 400 funcionários trabalham juntos no escritório da startup, em Belo Horizonte.

DENTRO DE CASA

Encontrar gestores com a cara da MaxMilhas era um desafio. Por isso, a empresa criou um programa de desenvolvimento de líderes. Com duas turmas por ano e aberto para qualquer funcionário com mais de seis meses de casa, o projeto dura 12 meses e foca habilidades comportamentais

A REGRA É CLARA

Os pré-requisitos para conquistar cada um dos cargos da startup estão estampados na parede. Duas vezes ao ano, todos recebem feedbacks do RH. Em 2019, 75 pessoas mudaram de cargo ou tiveram aumento de salário.

DIVERSIDADE

Apesar de não possuir políticas formais de inclusão, a empresa tem diversidade: 52% do quadro não se considera branco; 51% são mulheres (elas compõem 43% da liderança) e 11% se declaram LBGTI+ (há três transexuais).

TODOS JUNTOS

Nas datas de alta demanda por passagens de avião, como Black Friday e o dia mundial das milhas, todas as áreas ajudam a equipe de atendimento, que tem 200 pessoas. Até Max, o fundador, emite passagens.

ENTREVISTA COMPLETA

Na hora de contratar, a empresa checa não apenas a capacidade técnica, mas os valores do candidato — para verificar o alinhamento com a cultura. Há perguntas sobre racismo, privilégios e trabalho em equipe. Os que são aprovados passam para uma segunda fase, na qual desenvolvem um case que depois é apresentado aos gestores. Por fim, o time com o qual o candidato vai trabalhar valida, ou não, a contratação. O processo leva cerca de 15 dias.

CENÁRIO

O escritório é aberto e sem distinção de hierarquia. A decoração foi pensada para ajudar os funcionários a lembrar que estão numa empresa de viagem: Há um por – do – sol na recepção, uma sala de reunião que imita uma pista de pouso e nuvens no teto do andar principal.

NO RITMO

A pedido dos empregados, a MaxMilhas fez uma parceria com o lá da favelinha, grupo de dança que dá aulas semanais a um grupo de 20 funcionários — que até já realizou apresentações na empresa.

TROCA-TROCA

Uma vez a cada quatro meses, os funcionários trabalham na área de atendimento durante 4 horas. A ideia é estimular a troca de experiências, ampliando a noção de negócio. Desse projeto também saem inovações e melhorias em processos.

PENSANDO NO FUTURO

Além do curso voltado para a preparação de líderes, a empresa tem outro programa com foco no desenvolvimento de habilidades que serão importantes para o crescimento dentro da MaxMilhas, como resiliência e empatia. a participação é voluntária, mas 270 funcionários já passaram pelo treinamento, que é trimestral e dura 3 horas.

FOCO NA FORMAÇÃO

A MaxMilhas oferece aulas de inglês e espanhol para todos os funcionários e arca com 50% do custo. Além disso, a companhia subsidia um valor correspondente a até 20% do salário do empregado para outros cursos que auxiliem na carreira. Até dois funcionários do mesmo time podem estudar ou participar de eventos ao mesmo tempo. A aprovação fica por conta do gestor.

VAGAS

Cerca de 50 vagas até o fim do ano

COMPETÊNCIAS

A MaxMilhas busca profissionais colaborativos e que sejam capazes de se colocar no lugar do outro. Ter espírito empreendedor é importante, assim como disposição para aprender e evoluir

SITE PAR A ENVIO DE CURRÍCULO

maxmilhas.com.br/trabalhe-conosco

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 7 – FILHOS DE DEUS

Foi o Eterno que fez o casamento, não você. Seu Espírito permeia até os menores detalhes dessa união. E o que ele espera do casamento? Ora, filhos de Deus. Malaquias 2:15, A Mensagem, grifo do autor

“Filhos de Deus…”. É isso que Deus espera do casamento. Mas será que significa que Ele espera que tenhamos mais bebês para povoarem a Terra? Sim e não.

A passagem de Malaquias 2:15 não diz que Deus quer que o casamento produza filhos. Diz que Ele deseja que o casamento produza filhos de Deus. Deus deseja filhos – de qualquer idade – que O glorifiquem e andem nos Seus caminhos. Lembre-se de que somos Seus embaixadores. Seu objetivo é se revelar a nós e por meio de nós.

O Breve Catecismo de Westminster diz: “O objetivo principal do homem é glorificar a Deus, e desfrutá-Lo para sempre”. Amamos isso! Glorificar não é uma palavra usada por nós em nossa linguagem diária; devido ao seu uso frequente na Bíblia ela é vista como algo espiritual e distante. Mas glorificar significa simplesmente tornar Deus conhecido. O desejo de Deus é ser conhecido através das nossas vidas, casamentos e legados. E não existe catalisador como o casamento para nos transformar em filhos de Deus.

Mesmo se você nunca criar um filho, Deus quer usar seu casamento para transformar você em um filho de Deus. Ele quer refiná-lo, transformando-o em um agente da Sua glória, e moldá-lo à semelhança de seu Pai. Compartilhar sua vida com outra pessoa cria muitas oportunidades para nos tornarmos mais semelhantes a Deus. Descobrimos que, com muita frequência, um caráter temente a Deus não é desenvolvido em meio a oceanos de bênção. Ele é forjado na fornalha do fogo matrimonial.

Eu (John) assemelho o casamento a uma fornalha e nossas vidas a uma liga, ou mistura, de metal precioso. O que uma fornalha ardente faz com uma liga? Expõe suas impurezas. Minha aliança de casamento pode parecer ser feita de ouro puro, mas aproximadamente cinquenta por cento dela é composta de outras substâncias. Se eu colocasse minha aliança dentro de uma fornalha, essas impurezas seriam expostas. Do mesmo modo, os desafios que encontramos no casamento – desde os desentendimentos triviais até os momentos extremamente difíceis – revelarão impurezas em nossas vidas. (Algumas impurezas precisam de mais calor do que outras para serem reveladas.)

Quando o casamento revela implacavelmente nossas imperfeições, é fácil culpar nossos cônjuges. Afinal, nada disso acontecia antes de nos casarmos. Quando percebermos que estamos nos sentindo frustrados porque nossos cônjuges estão agravando nossas “fraquezas”, devemos agradecer a Deus porque o casamento está nos tornando mais semelhantes a Jesus. Não é esse o objetivo final?

ENCONTRANDO PROPÓSITO NOS TEMPOS DIFÍCEIS

Sabemos que nossa analogia com a fornalha não é empolgante, mas a jornada para um final feliz está longe de ser um conto de fadas. Às vezes a sua história pode parecer mais com uma escalada ao Monte Everest do que com a cena final de um conto de fadas.

Aqueles que desbravam as ladeiras cobertas de neve dos Himalaias para fazer a rigorosa e desafiadora jornada até o pico do Everest, devem fazer isso tendo duas coisas em mente. Primeiramente, devem saber que o empreendimento testará os limites de sua capacidade física e emocional. Esses homens e mulheres ousados não conhecem todas as particularidades dos perigos iminentes, mas sabem que desafios virão. Em segundo lugar, eles precisam se lembrar do seu objetivo: subir a montanha mais alta do mundo. Para eles, a vitória é claramente alcançada quando se atinge 29.029 pés acima do nível do mar. Sem a consciência desse objetivo, esses viajantes desistiriam rapidamente assim que encontrassem seu primeiro grande obstáculo.

O mesmo se aplica ao casamento. Se reconhecermos que os desafios são parte inerente da construção das nossas histórias, então não seremos esmagados quando nossas capacidades emocionais, físicas e espirituais forem testadas. Se começarmos – e construirmos – tendo o fim em mente, não desistiremos quando encontrarmos grandes problemas.

Ao ensinar sobre maturidade espiritual, Jesus disse que tribulação e perseguição viriam sobre aqueles que creem na Palavra de Deus (ver Marcos 4:17). No original grego, essas palavras são thlipsis e diogmos. Thlipsis é “transtorno que inflige sofrimento, opressão, aflição, tribulação”.1 Diogmos é “um programa ou processo projetado para perturbar e oprimir alguém”.2 Nenhum dos dois parece ser divertido, mas essas forças facilitam o nosso crescimento em Deus. Paulo repetiu as palavras de Jesus:

Também nos gloriamos nas tribulações [thlipsis], porque sabemos que a tribulação produz perseverança; a perseverança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança. E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou Seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que Ele nos concedeu. Romanos 5:3-5

Paulo escreveu que devemos nos gloriar, ou seja, que devemos nos alegrar nas tribulações. Por quê? As tribulações geram uma oportunidade de desenvolvermos um caráter aprovado. Os problemas nos posicionam para nos tornarmos mais semelhantes a Deus. E podemos ter esperança no conhecimento de que Deus nos ama e quer sempre o melhor para nós – a ponto de nos ter dado Seu Espírito para encher nossos corações de amor, mesmo em meio às nossas maiores lutas.

A Bíblia também deixa claro que Deus não é o autor dos nossos problemas. Satanás é aquele que está por trás da tribulação e da perseguição (ver Marcos 4:15 e Tiago 1:12-13), mas Deus usa os estratagemas do inimigo contra ele. Nas mãos do grande Redentor, o que se destina a nos afastar de Deus se torna um instrumento para nos tornar mais semelhantes a Ele.

Lembre-se de que o inimigo odeia o casamento e tudo o que ele representa. Ele fará tudo que estiver ao alcance dele para dividir nossas uniões e perturbá-las com tribulações aparentemente insuportáveis. Ter uma visão para as nossas uniões – e a fé de que Deus nos fará atravessar as dificuldades – nos dá o poder da esperança para resistir aos ataques do inimigo. Deus não quer que meramente sobrevivamos aos ataques contra o nosso casamento. Ele quer que nos tornemos mais fortes por meio deles. A chave é lembrar por que estamos lutando (o propósito de Deus), contra quem estamos lutando (satanás), e quem está do nosso lado (o Espírito de Deus). Nossa fé e esperança realmente são fortalecidas através dos desafios – desde que não desistamos antes que Ele possa completar Sua obra em nós.

O “FELIZES PARA SEMPRE” DE JESUS

Jesus sofreu mais profundamente do que qualquer outro ser humano. Ele, o Deus perfeito, tornou-se como nós para sofrer a dor e a humilhação de uma morte injusta. Ele abriu o caminho para sermos reconciliados com Deus, mas a maior parte da humanidade ainda O rejeita.

Como Jesus foi capaz de suportar tamanha dor e rejeição? A resposta é simples, mas tremendamente profunda: Ele nunca perdeu de vista Seu “felizes para sempre”. No Seu exemplo, encontramos um modelo para escrevermos nossas histórias:

Mantenham os olhos em Jesus, que começou e terminou a corrida de que participamos. Observem como Ele fez. Porque Ele jamais perdeu o alvo de vista – aquele fim jubiloso com Deus. Ele foi capaz de vencer tudo pelo caminho: a Cruz, a vergonha, tudo mesmo. Hebreus 12:2, A Mensagem

Jesus resistiu porque sabia para onde estava indo. Ele olhou através do sofrimento e viu a promessa.

A Bíblia Nova Versão Internacional traduz esse versículo do seguinte modo:

… Corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que Lhe fora proposta, suportou a Cruz…. Hebreus 12:1-2, grifo do autor

Captou a ideia? “A alegria que Lhe fora proposta.” Jesus estava entusiasmado com a ideia de suportar a Cruz? Absolutamente não. Ele estava tão angustiado que passou a noite anterior à Sua execução suplicando ao Pai por um caminho alternativo. Mas Jesus tinha algo que falta em muitos casamentos. Ele tinha uma visão extraordinária. Ele podia ver além das circunstâncias ao Seu redor e visualizar o poder e a promessa que viriam através das Suas escolhas. E a atenção de Jesus estava voltada para que? Encontramos a resposta em Efésios 5:

Cristo amou a igreja e entregou-Se por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a Palavra, e para apresentá-la a Si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável. v. 25-27, grifo do autor

Somos o final feliz de Jesus. Nós fomos a alegria que estava diante Dele. Jesus suportou a Cruz para que Ele pudesse ser reconciliado conosco, Sua Noiva. A Igreja agora pode abraçá-Lo sem se sentir envergonhada por sua antiga condição miserável, pois Nele temos uma nova identidade. Esse é o tipo de perseverança, misericórdia e amor incondicional que deveria estar presente em nossos casamentos. Mas é preciso ter uma visão – uma esperança do que o casamento poderá ser – para nos sustentar em meio aos desafios.

O escritor de Hebreus continua com esta exortação:

Cruz. Quando sua fidelidade ao seu cônjuge estiver enfraquecendo, lembre a si mesmo da fidelidade de Jesus a você. Lembre-se de tudo o que Ele suportou para Se reconciliar com você. O exemplo Dele injetará adrenalina em sua alma!

Quando se sentirem cansados no caminho da fé, lembrem-se da história Dele, da longa lista de hostilidade que Ele enfrentou. Será como uma injeção de adrenalina na alma! Hebreus 12:3, A Mensagem

Todos nós nos sentimos fracos em nossa fé de tempos em tempos. É por isso que o escritor de Hebreus diz quando e não se vocês se sentirem cansados no caminho da fé. Um grande casamento requer uma grande fé, porque é a raiz de toda fidelidade. Quando seu casamento estiver tendo dificuldades, lembre- se do que Cristo suportou. Releia a história Dele. As suas dificuldades momentâneas, por mais dolorosas que sejam, não são nada se comparadas à Cruz. Quando sua fidelidade ao seu cônjuge estiver enfraquecendo, lembre a si mesmo da fidelidade de Jesus a você. Lembre-se de tudo o que Ele suportou para Se reconciliar com você. O exemplo Dele injetará adrenalina em sua alma!

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DO QUE OS BEBÊS SE LEMBRAM

A maior capacidade de memorização coincide com a aquisição progressiva das noções de tempo, espaço e de eu, por volta dos 9 meses; para pesquisadora, os pequenos captam e entendem grande parte de informações que recebem, mas não as absorvem por completo

Crianças pequenas memorizam. Se não se lembram de nada antes dos 3 anos é devido à dificuldade de reter as informações nesse período. Esse fenômeno intriga pesquisadores e tem suscitado pesquisas como as da neurocientista americana Patrícia Bauer, da Universidade Duke, e da psicóloga Lisa Oakes, da Universidade da Califórnia.

Os estudos revelam que na amnésia infantil o processo de esquecimento supera a capacidade de formação de memórias. Segundo Bauer, memórias são constituídas com base em complexa rede de estruturas cerebrais que se desenvolvem aos poucos, em diferentes regiões do cérebro infantil.

Entre 6 e 18 meses essas estruturas vão se ligando umas às outras. Nesse período os bebês adquirem grande habilidade para formar memórias de curto e longo prazo. Até os 9 meses, porém, as recordações são frágeis; perdem-se logo devido à imaturidade cognitiva. Já as crianças de 2 anos memorizam eventos por mais tempo. No lugar de lembranças de apenas um dia, recordam coisas experimentadas um ano antes. A maior capacidade de memorização coincide com a aquisição progressiva das noções de eu (aos 8, 9 meses), de tempo e espaço. Para Oakes, bebês captam e entendem grande parte de informações que recebem, mas não as absorvem por completo.

Os experimentos de Bauer incluíram testes com blocos ilustrados e medições eletrofisiológicas. Após observar como eram montados, os bebês imitavam a tarefa. A partir de então, recebiam os mesmos objetos. O objetivo era testar a duração da memória e até que ponto retinham a informação sobre a montagem do jogo. Já Oakes, levando em consideração que os bebês tendem a se ater mais a coisas novas que a conhecidas, mediu o interesse por objetos; quanto tempo retinham na mente aqueles anteriormente apresentados.

Segundo Lia Bevilaqua, do Centro de Memória do Instituto de Pesquisas Biomédicas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), isso demonstra que, ao contrário do que se acreditava, crianças com menos de 1 ano têm capacidade de evocar memórias episódicas e autobiográficas, e ao final do segundo ano de vida a habilidade para formar e expressar memórias de longa duração já está quase completamente desenvolvida.

OUTROS OLHARES

CONHECER PARA RESPEITAR

Um grande desafio para banir a desigualdade e a discriminação do cotidiano escolar

Nas considerações de Paulo Freire, “você, eu, um sem-número de educadores sabemos, que a educação não é a chave das transformações do mundo, mas sabemos também que as mudanças do mundo são um quefazer educativo em si mesmas. Sabemos que a educação não pode tudo, mas pode alguma coisa. Sua força reside exatamente na sua fraqueza. Cabe a nós pôr sua força a serviço de nossos sonhos.”

Faz-se necessário compreender a educação como transformação social, oportunizar aos nossos al unos desde a educação infantil serem sujeitos construtores da própria história. A escola deve educar para a vida desde bem cedo, daí a importância de se trabalhar na escola questões como: a desigualdade social, a discriminação racial e a diversidade cultural; oportunizando aos alunos a quebra de paradigmas desde cedo, reconstruindo valores e verdades a respeito do outro, respeitando as diferenças sociais, culturais e raciais no seu cotidiano.

É imprescindível, a escola atual, trabalhar de maneira eficaz a matriz africana no seu currículo. Pois a História africana, sua formação e delineamento da identidade cultural afro-brasileira, é de suma importância no cenário educacional, pois será interpretando e recriando as práticas de outras culturas, que os alunos irão ter possibilidades de conhecer e assim respeitar o outro.

Herdeiros de uma escola que sempre privilegiou, em grande parte de sua trajetória, conteúdos eurocêntricos, vivemos hoje a urgência de rever conteúdos e temas formativos em nossos bancos escolares. Dessa maneira, conhecer e refletir sobre os costumes e tradições, as práticas e as representações culturais, a mitologia e a religião, a linguagem e as escritas, a resistência e as lutas, a memória e a história do povo africano; assim ensinar, aprender, refletir e debater sobre as identidades, é um exercício fundamental para o combate à intolerância, à discriminação, à xenofobia, ao racismo.

A importância de se discutir tais questões no âmbito da educação é atestada pela amplitude e incidência de crimes e violência no Brasil. Estes ocorrem no contexto de uma história e uma cultura que favorece a violências de todo tipo. Tratar a discussão sobre a cultura afro-brasileira, como matéria/disciplina, significa dar um passo importante para reduzir as desigualdades e a violência que marcam nosso país e o cotidiano escolar. A luta contra o preconceito é tanto política quanto acadêmica.

Para a Unesco, debater essas questões em sala de aula é fundamental, é primordial que ensinem aos estudantes que todas as pessoas são iguais, independentemente da cultura ou até mesmo de sua cor. Um dos compromissos dos países-membros da Organização das Nações Unidas é garantir o cumprimento da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, adotada pelo Brasil e todos os outros Estados – membros da ONU em 2015. Entre os 17 objetivos globais da agenda, está a garantia de ambientes de aprendizagem seguros e não violentos, inclusivos e eficazes, e a promoção da educação para a igualdade e os direitos humanos.

A Carta Magna Brasileira prevê, no Art. 3.0, inciso IV, que constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, dentre outros, promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Prevê, ainda, em seu Art. 206, no que tange ao direito à educação:

I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;

III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino.

Neste sentido, a política de educacional é imprescindível, é na educação básica que as crianças podem tornar-se seres mais esclarecidos e livres para entender o mundo, sem imposições. Para o alcance dessas propostas, é necessário, implementar a educação sobre os temas dos direitos humanos e da diversidade na formação inicial e continuada, oferecida por faculdades e universidades; disponibilizar material didático-pedagógico para auxiliar os profissionais de educação na abordagem destes temas; e realizar pesquisas para o monitoramento e avaliação desse trabalho. Penso que os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) [BRASIL, 1997] são propostas do Ministério da Educação e do Desporto (MEC), datadas de 1997, 1998 e 1999, para a abordagem curricular da educação básica, com o objetivo de serem um referencial comum para a educação de todos os Estados do Brasil, não é suficiente, pois muitos professores têm tido dificuldades em aplicar as sugestões apresentadas por eles, o trabalho interdisciplinar ainda é um desafio no cotidiano escolar, sendo necessário políticas educacionais que atendam a regionalidade de cada lugar no Brasil. Desse modo, verifica-se que a Nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996, como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de 1997, enfatizam a ideia de diversidade cultural, múltiplos olhares sobre a cultura e a História do patrimônio material e imaterial do Brasil. Nos permitindo, como professores ampliar estes temas, incorporando leituras críticas de textos em sala de aulas, resgates de lendas e tradições regionais, pesquisas de fontes históricas, estudo de textos literários, possibilitar discussões a respeito da diversidade cultural, narrativas cotidianas. Mas isso só será viável pedagogicamente, se Escola, Docentes e Alunos estiverem abertos para a realidade da comunidade escolar, pelo saber adquirido a partir das vivências e tradições da mesma.

Quando a escola aborda a questão racial, cultura afro-brasileira, numa perspectiva plural, ela mostra ao aluno que tudo o que existe na nossa sociedade são construções culturais, e que elas mudam ao longo do tempo. Dar essa perspectiva histórica ao aluno, de que nem sempre foi assim e nem sempre vai ser assim, faz com que eles reflitam e aí, sim, se tem um ganho progressivo de liberdade, de autonomia, que são características importantes. Nesta perspectiva, os PCN’s oportunizam à escola refletir sobre o seu currículo, sobre as necessidades de sua comunidade escolar quanto à realidade de diversificar as práticas pedagógicas, pois rompem a limitação da atuação dos educadores em relação às atividades formais e ampliam um leque de possibilidades para a formação do (a) educando (a).

A escola pode e deve contribuir na construção de princípios de igualdade e justiça, culminando assim no desenvolvimento de uma cultura democrática e participativa. Se queremos uma sociedade mais justa e igualitária, é sem dúvida na escola que iremos reverter o quadro desolador de desigualdade. E atitudes preconceituosas e discriminatórias somente podem ser mudadas por meio da educação – em todos os níveis e modalidades – em direitos humanos e de respeito à diversidade humana, em todas suas manifestações.

O currículo escolar também é uma outra ação necessária, pois deveriam dar maior ênfase ao cotidiano escolar, permitir estudos de Histórias regionais, locais, que incentivassem a formação de uma identidade cultural e consequentemente nacional; dar ênfase as tradições, valores, memórias, vivências e uma nova percepção do tempo e do espaço. Levar esta discussão para o universo escolar é abrir-se para uma educação que vai além da reprodução de valores, é entender que se deve educar para a crítica às reproduções culturais, tornar prioridade nas políticas curriculares. Os professores podem oportunizar, por meio de atividades pedagógicas, a busca pelas raízes culturais junto aos alunos, através de projetos pedagógicos que trabalhem educação e cultura. No que se refere à contribuição africana é evidente, principalmente, na culinária, dança, religião, música e língua. Deste intercâmbio cultural formou-se a cultura afro-brasileira, sendo visível à influência africana em todos os aspectos da sociedade brasileira, em diálogo com valores humanos de várias etnias e grupos sociais, imprimimos valores civilizatórios de matriz africana à nossa brasilidade que é plural. É imprescindível trabalhar esses temas no cenário educacional, iniciando desde a educação infantil até ao Ensino Médio; além do Ensino superior. Para assim edificarmos valores essenciais para a vida e na vida! E assim, estarmos contribuindo por uma educação crítico social no cumprimento das leis: 10.639/03 e 11.645/08.

É cumprir nosso papel social, enquanto professores, fortalecendo nossa identidade social, para que nossos alunos conheçam e reconheçam o espaço em que vivem, proporcionando mudanças no seu modo de entender a si mesmo, entender os outros, as relações sociais e a própria História; entendendo que saber sua história é saber narrar a si mesmo e ao outro; é ser sujeito de sua própria história, um agente ativo na sociedade, um sujeito capaz de pensar e transformar, exercendo sua plena cidadania. A ideia de educação deve estar intimamente ligada às de cultura, liberdade, democracia e cidadania.

É importante refletir esta questão, como a Cultura se traduz em experiências escolares? Qual a imagem que os alunos têm de si mesmos, de seu lugar, de seu país, do mundo em que vivem? É preciso, enquanto professores, buscarmos esse olhar, essa identidade, esse sujeito capaz de transformar a sua realidade a partir do conhecimento obtido. Oportunizar ao aluno a busca de suas raízes, em relembrar coisas do passado, seja na família ou comunidade, na cidade ou região, tornando a história viva; tornando-se sujeitos de sua própria História, sendo capaz de transformá-la de maneira crítica e consciente, propiciando a sociedade cidadãos críticos, transformadores e sensíveis ao meio em que vivem.

A cultura é plural, implica sujeitos, valores, manifestações artístico-culturais e materiais, imaginário social, identidade, conhecimento, relações de poder, religião, etc. ; possibilitando assim várias possibilidades de projetos interdisciplinares, girando em torno de grandes temas, como: Identidade e Pluralidade; Cultura de massa e Consumo; Patrimônio e Herança Cultural; Cultura e Cidadania. Todos estes temas estão interligados, valorizando a cultura no cenário educacional. Assim sendo, a cultura configura um mundo de símbolos, que atribui significados e delimita a forma como se lê, se sente, se vive; definindo a maneira de ser e de agir do indivíduo.

Nessa perspectiva, o ensino­ aprendizagem oportuniza um espaço – tempo de reflexão crítica acerca da realidade social e, sobretudo, referência para o processo de construção das identidades destes sujeitos e de seus grupos a qual pertence, o que é determinante na construção da leitura de mundo deste aluno. Para uma boa prática, é necessário conhecer e fortalecer a identidade social, possibilitando ao aluno conhecer e reconhecer o espaço onde vivem, pertencer e se apropriar do mesmo no decorrer da sua História, promovendo a troca de significados e vivencias. Incentivar a diversidade cultural, o conhecimento e respeito a cultura do outro, fortalecer a memória e novos saberes, conhecer tradições e o lugar em que vive. Conhecer para respeitar! Aprender a ser, só é possível quando existem trocas de saberes, partilha de experiências e situações instigadoras. Assim, vamos gerar cidadãos capazes de mudar e transformar o lugar em que vivem, sem precisar mudar de lugar.

A História das populações indígenas e afro brasileira, é de suma importância de ser compreendida e vivida na atualidade; como meio de conscientização e valorização do passado dos povos indígenas e africanos, oportunizando ao aluno a reflexão e o respeito às diferenças culturais em nosso país. A promulgação da Lei 10.639/03, alterando a LDB, estabeleceu a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira” no currículo oficial da rede de ensino da educação básica, oportunizando a visibilidade e o reconhecimento da cultura e memória do povo africano e suas experiências, na sociedade brasileira ao longo da História. A mesma lei foi novamente alterada pela de n. 11.645/08, com a inclusão da temática indígena nas escolas, em uma abordagem que possibilita ao aluno dos ensinos fundamental, médio e superior, ter uma visão crítica à imagem dos povos indígenas, sua diversidade étnico-cultural, sua história e presença na atualidade.

Desta forma, a escola deve reconhecer e valorizar a história e a cultura africana, a afro-brasileira e a indígena, que são imprescindíveis para o ensino da diversidade cultural no Brasil. Trata-se de um momento em que a educação brasileira busca valorizar devidamente a história e a cultura de seu povo afrodescendente e indígena, buscando assim desconstruir paradigmas racistas e eurocêntricos da memória e História desses povos, que devem ser reconhecidos e respeitados. A escola deve educar para a vida e na vida, desde bem cedo, entendendo a sociedade como um espaço de realizações instigando no aluno a formação de uma consciência crítica e cidadã. Para isso, será necessário, que a escola tenha clareza de seu currículo, de sua proposta pedagógica, de seu sistema de avaliação no processo de ensino e de aprendizagem, na ação educativa; discutindo-a, e colocando como perspectiva a possibilidade de mudar essa realidade, repensar a formação de homens capazes de transformar, caracterizada pela ação transformadora do mundo.

Compreender que o homem é um ser histórico, capaz de construir sua história participando ativamente com os outros no mundo. Uma educação transformadora, é capaz de promover mudanças por meio da leitura do espaço; o qual traz em si todas as marcas da vida dos homens, construído cotidianamente e que expressa tanto as nossas utopias, como os limites que nos são postos; é oportunizar a reflexão sobre o papel de sujeitos de nossa História, mobilizando para os caminhos de acesso ao conhecimento, associada a cultura, leitura crítica da realidade, desafiando-nos para que percebamos que o mundo pode ser mudado, transformado, reinventado.

A escola tem como desafio nos dias atuais, a formação do cidadão, para que este tenha conscientemente participação social, política e atitudes críticas diante da realidade que vive, oportunizando uma atuação e transformação da realidade histórica na qual está inserido. É imprescindível, que a sociedade e o Estado, percebam e assumam que a escola é uma instituição social plural, que se educa para a vida e para a cidadania. Se fazendo necessário, repensar o significado da transformação social no cenário educacional e assim buscar para o nosso país. Assim, um dos desafios da educação é inspirar, criar e recriar possibilidades de lutas contra o preconceito, a violência, a alienação, o autoritarismo, enfim uma nova ressignificação da atuação pedagógica para aceitar e incluir as diferenças do outro, das nossas próprias diferenças e assumir uma postura diante das diferenças produzidas ao longo da História da Humanidade.

GESTÃO E CARREIRA

LÁ DE CASA

O home office é uma alternativa para conciliar maternidade e carreira. Mas tocar os negócios da sala de jantar requer cuidados específicos

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Trabalhar em casa era algo que não passava pela cabeça de Nathana Lacerda, de 34 anos. Fundadora, há 15 anos, da Sigma Six, empresa especializada em construção de imagem e reputação, de segunda a sexta ela se arrumava para ir até a sede do escritório, a 15 minutos de sua casa, no bairro Padre Bento, em Itu, a 100 quilômetros de São Paulo. Lá, passava de 7 a 9 horas diárias. “Nunca havia pensado em home office, achava que isso era para quem estava começando”, diz Nathana. Mas tudo mudou há dois anos, quando ela deu à luz a seu primeiro filho, Bento. Após a maternidade, a empreendedora se deu conta de que sua antiga rotina não funcionava. “Vivia correndo para cima e para baixo, era um caos”, diz. Da desorganização surgiu a necessidade de otimizar o tempo, e Nathana chegou à conclusão de que trabalhar remotamente diminuiria a correria. “Percebi que poderia fazer meu trabalho de qualquer lugar.” Mas o começo não foi fácil. No primeiro dia, ela chorou muito. “Era como se estivesse abrindo mão de minha segurança. Ir para um local trabalhar gera uma sensação de estabilidade.” Nos dias seguintes, porém, notou que antes vivia em um ritmo impossível de aguentar por muito tempo. “Perdia horas e energia nos deslocamentos. Hoje, almoço com calma, ao lado do meu filho. Com o pai e a mãe mais tempo em casa, Bento está mais tranquilo. E a mudança de comportamento dele me ajudou a entender que tomei a decisão certa.”

Assim como Nathana, muitas mães encontram no home office uma solução possível para conciliar a carreira e o cuidado com os filhos. Tanto que uma pesquisa feita pelas autoras Patrícia Travassos e Ana Claudia Konichi para o livro Minha Mãe É um Negócio (Saraiva, 29,90 reais) mostra que 58% das mães tocam suas empresas de dentro de casa. “O home office é o trabalho em domicílio moderno, que sempre existiu. Trabalhar de casa tem sido uma estratégia para mulheres com filhos pequenos e vontade de exercer de uma forma específica sua maternidade”, aponta Bárbara Castro, socióloga e professora da Unicamp. “Além disso, é preciso levar em conta o preço alto dos berçários e escolas e a ausência de universalidade de creches públicas para deixar a criança. Estar em casa é uma maneira de conseguir prover cuidado, já que o Estado não o faz e os serviços privados não cabem no orçamento.”

PÉS NO CHÃO

Mas é preciso tomar cuidado com a glamourização desse estilo de trabalho. É comum que a mulher que faz home office se sinta sobrecarregada, somando funções domésticas às atribuições profissionais. Isso porque, na cultura brasileira, ainda se acredita que cuidar da casa seja uma função feminina. “A inclusão das mulheres no mercado de trabalho ficou mais forte a partir da segunda metade do século passado. Entretanto, as tarefas de cuidado nunca foram redistribuídas. E, mesmo trabalhando, as mulheres continuavam com a responsabilidade do cuidado de filhos, idosos e casa, enquanto homens permaneciam na posição de provedores oficiais, sem responsabilidades domésticas”, explica Regina Madalozzo, professora e pesquisadora do Insper. Tanto é que as mulheres trabalham 20,9 horas por semana em afazeres domésticos e no cuidado de pessoas, quase o dobro das 10,8 horas dedicadas pelos homens. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2017 (Pnad Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2018.

E no home office isso fica evidente. A socióloga Bárbara Castro fez uma pesquisa qualitativa com cerca de 70 pessoas que trabalham em casa, entre homens e mulheres, e constatou que o comportamento é bem diferente entre os dois sexos. “Elas ficam no centro da casa, geralmente na mesa de jantar, acordando mais cedo para se concentrar, observando o cuidado da babá quando podem ter uma, tendo o trabalho muito interrompido e acabam se sentindo improdutivas. Já os homens trabalham em escritório com porta fechada, para que ninguém os interrompa, e se sentem mais produtivos do que na empresa”, explica a pesquisadora.

Para que o trabalho de casa realmente funcione e seja prazeroso, compartilhar as tarefas com o companheiro ou companheira é fundamental. E atenção: não se trata de ajuda, mas de divisão real de tempo e responsabilidades. “O caminho é se posicionar. Deixar claro o que espera, mostrar quando está trabalhando em algo e não pode ser interrompida”, diz Nathana, que criou uma rotina para o home office funcionar. Ela acorda antes das 6 horas para resolver questões estratégicas e poder ficar com o filho quando ele se levanta — cuida dele das 7h30 às 13 horas. À tarde, Bento fica com os avós, e Nathana pode fazer reuniões e atender os clientes. Às 19 horas, ela busca o pequeno. “O grande desafio é manter o foco, mas me sinto muito produtiva, mesmo que trabalhe menos horas”, diz.

Outro desafio do home office é lidar com o isolamento de ficar em casa por muito tempo. Quem sentiu isso na pele foi Débora Emm, de 35 anos, criadora da empresa Inesplorato, que promove curadoria de conhecimento. Há quatro anos, quando sua companhia já estava sólida, Débora resolveu que era hora de se tornar mãe. Nasceu Adélia. Durante seis meses após dar à luz, a empreendedora ficou afastada da rotina profissional, já que a empresa de seis sócios e 22 funcionários conseguia operar sem sua presença. Aos poucos, Débora retomou a rotina. Mas não mais em São Paulo, onde morava antes da maternidade, e sim em Aruã, perto de Mogi das Cruzes, cidade do interior paulista que fica a cerca de 100 quilômetros da capital. “Sentia falta da troca que o escritório promove e, por isso, uma vez por semana vou até São Paulo”, diz. Com a viagem, Débora se sente mais produtiva e feliz.

Em casa, ela criou um espaço dedicado ao trabalho. Embora não tenha portas ou paredes, o local é respeitado por sua filha. “Ela sabe que ali existe uma barreira para não atrapalhar minha concentração. Quando me proponho a trabalhar, fico imersa, e nenhum barulho me distrai. Acho muito interessante que minha filha observe meu dia a dia e eu o dela. Ela sabe o que significa trabalho e como conviver com isso”, afirma Débora.

E AS EMPRESAS?

Existe uma triste estatística no Brasil: após dois anos de retorno da licença-maternidade, 48% das mulheres são demitidas, de acordo com uma pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas, que aponta ainda que a maior parte dos desligamentos ocorre sem justa causa. “Não é à toa que uma mulher no ambiente formal de trabalho se sente com medo no minuto em que se descobre grávida. Ela sabe que naquele momento o risco de ser desligada por qualquer motivo aumenta. Também sabe que, ao tentar retornar ao mercado de trabalho, encontrará dificuldade e que jamais vai competir em condições iguais fora do período considerado de risco”, diz Vivian Abukater, sócia da Maternativa, rede cujo objetivo é transformar a relação entre mães e mercado de trabalho. Ela própria foi vítima de uma demissão quando retornou de sua licença-maternidade em uma multinacional.

Por isso, muitas optam por empreender — não por vontade própria, mas como alternativa. “Boa parte das companhias não está preparada para acolher mães. E, assim, grandes talentos são perdidos, pois várias têm filho quando estão no auge de suas carreiras”, diz Luciana Cattony, da consultoria Maternidade nas Empresas. Algumas companhias, no entanto, começam a entender essa questão e passam a criar ambientes mais amigáveis às mães e que estimulem o desenvolvimento de suas funcionárias. “Já identificamos no mercado empresas que têm equidade de gênero como um valor, um contexto que facilita abordarmos a maternidade”, diz Luciana.

Ao pensar em políticas para mulheres que recentemente se tornaram mães, é necessário prover flexibilidade e acolhimento. “No grupo de países que mais incentivam a participação feminina no mercado após a maternidade, há adoção de iniciativas como licença parental mais longa (licença para o pai e a mãe, com obrigatoriedade de divisão do período entre ambos) e remunerada, jornada flexível e possibilidade de trabalho remoto”, afirma Regina Madalozzo. Creches, pré-escolas e escolas em horário integral também fazem parte do pacote.

No fundo, o que falta para que as mães optem por trabalhar como preferirem é um olhar mais receptivo, como resume Luciana: “Em um mundo regido pelo valor humano, onde se pedem ambientes acolhedores e líderes mais empáticos, não faz sentido ter de escolher entre carreira e filhos”.

MÃES EMPRESÁRIAS

Mulheres com filhos encontraram no empreendedorismo uma oportunidade para se recolocar no mercado de trabalho

***Entre os novos empreendedores — aqueles que têm negócios com até 3,5 anos

—, a maioria é mulher. Elas têm 15,4% dos empreendimentos. Os homens têm 12,6%.

***O número de mulheres que abrem empresa motivadas por uma necessidade é maior do que o de homens. Entre as novas empresárias, 48% o fazem porque precisam. Já entre os homens esse número cai para 37%.

***Apesar de elas serem mais escolarizadas, ainda ganham menos: 73% recebem até três salários mínimos, ante 59% do universo masculino.

Pesquisa Global Entrepreneurship Monitor 2016, realizada pela parceria entre Sebrae e IBQP, e Consultoria Maternidade nas empresas

FAZENDO DAR CERTO

Rita Monte, criadora do Coaching em Grupo para Mães (CGM), dá dicas sobre home office

TEÇA SUA REDE DE APOIO

É fundamental se cercar de pessoas que possam compartilhar responsabilidades sobre a criação dos pequenos.

INVISTA EM UM COWORKING FAMILIAR

Ou coloque a criança em uma creche ou um espaço de brincar por um período. O tempo da criança é caótico. Não ache que você vai conseguir ficar com seu filho e trabalhar no mesmo ambiente.

MAXIMIZE SUA PRODUTIVIDADE

Aquele tempo de 8 horas não vai acontecer. Organize seu fluxo de trabalho para ser concentrado e intenso em 3 horas. A gente produz muito mais em pouco tempo.

PRATIQUE O AUTOCUIDADO

Para ser produtiva, você precisa de sono e lazer. Cuidar-se significa ouvir as próprias necessidades. Aprenda a dizer não aos filhos, parceiros e chefes para dizer sim às suas próprias vontades.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 6 – COMECE COM O FIM EM MENTE

Você já percebeu que a maioria dos filmes e livros românticos só se concentra no início de uma história de amor? Pense no seu filme romântico clássico favorito. (Sabemos que isso pode ser mais fácil para alguns de vocês do que para outros.) Qual é o enredo da história? Ela é marcada pela tensão emocional expressa na primeira dança romântica entre o casal? Você fica com os olhos colados na tela enquanto o filme o instiga com voltas que impedem que os pombinhos apaixonados desfrutem o tão esperado primeiro beijo? Certamente, existem adversidades temporárias – um rival, uma discussão intensa, ou um trauma inesperado – mas todos nós sabemos como tudo acabará no fim. Apesar dos problemas que ameaçavam mantê-los separados, os pombinhos sonhadores encontram uma maneira de vencer e a história se encerra com “E viveram felizes para sempre”.

Sabemos que eles viveram felizes para sempre, mas como? Um início maravilhoso é a parte mais fácil. O trabalho árduo é construir o meio e o fim da história.

É evidente que a nossa cultura tem uma obsessão distorcida sobre a maneira como as histórias de amor devem começar. Um casal pode passar horas incontáveis planejando seu casamento, mas muito pouco tempo se preparando para os anos que virão após a cerimônia. Uma noiva pode passar muitas horas procurando o vestido perfeito, enquanto dedica apenas algumas horas ao aconselhamento pré-nupcial. Consequentemente, o casal está extremamente despreparado quando o conto de fadas se desvanece e eles se veem navegando em um relacionamento real com problemas muito reais.

O dia do casamento foi feito para ser um dia cheio de esperança, beleza e celebração. Entretanto, a esperança e a beleza de longo prazo em um relacionamento se concretizam melhor quando os casais planejam seus finais felizes com o mesmo fervor que celebram seus começos. Ser felizes para sempre não é algo que acontece por acaso; é um propósito que buscamos determinadamente e construímos cuidadosamente.

Olhe em volta e localize um objeto de beleza, um objeto habilmente fabricado pela engenhosidade humana. Talvez seja uma casa, um carro ou até a cadeira onde você está sentado. Seja o que for, é uma obra artesanal realizada com extrema habilidade. O que você talvez não perceba é que esse objeto, na verdade, foi construído duas vezes: uma quando foi projetado criativamente na mente do desenhista e outra quando foi efetivamente construído. O projeto cognitivo sempre precede a construção material. A primeira montagem requer uma visão clara do resultado pretendido; a segunda emprega materiais e trabalho para realizá-lo. Tudo que construímos, quer seja tão simples como um sanduíche ou tão complexo quanto um arranha-céu, primeiro é imaginado antes de poder se materializar.

Nem sequer passaria por sua mente construir uma casa sem um projeto. Seria um verdadeiro caos! Toda linda casa começa com um projeto habilmente calculado. A casa só pode ser construída depois que o plano é esboçado, empregando-se muito trabalho árduo e os materiais corretos.

Os projetos e plantas baixas também são essenciais para determinar o custo da construção. Você se sentiria confortável construindo uma casa sem saber primeiro quanto ela lhe custaria? Jesus fez esta pergunta quando nos ensinou como deveríamos edificar nossas vidas:

Qual de vocês, se quiser construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completa-la? Pois, se lançar o alicerce e não for capaz de termina-la, todos os que a virem rirão dele, dizendo: “Este homem começou a construir e não foi capaz de terminar”. Lucas 14:28-30

As mesmas regras que se aplicam à construção de um prédio também sem aplicam à construção de um casamento. E então, que tipo de casamento você está construindo? Você calculou o custo e está disposto a assumir o que a construção desse casamento exigirá de você?

Deus não quer que nossos casamentos terminem em dor ou vergonha. Ele não quer que desistamos antes que eles estejam concluídos. Quer o seu casamento esteja apenas começando ou esteja passando por dificuldades há anos, nunca é tarde demais para abraçar o plano de Deus. Somente Nele descobrimos a visão, as ferramentas e o poder necessários para construir casamentos que reflitam Sua grandeza. A incrível verdade é que Deus deseja que você tenha um final feliz – a construção concluída de Sua obra prima – ainda mais do que você.

Este capítulo contém verdades que o ajudarão a se preparar para planejar bem e, depois, viver bem a sua história. Compartilharemos o que fizemos no início do nosso casamento que estabeleceu um fundamento sólido capaz de resistir às tempestades da vida. E vamos equipar e comissionar vocês para criarem um plano que os leve a serem felizes para sempre. Começaremos com princípios e terminaremos com a parte prática. Este capítulo não é apenas para os recém-casados ou para os que ainda não se casaram. Veteranos no casamento, vocês também podem se beneficiar olhando o seu relacionamento sob uma nova ótica. Isso aconteceu conosco!

DEUS COMEÇA COM O FIM EM MENTE

É tolice entrar em um relacionamento de aliança sem primeiro perguntar: “Por que estamos fazendo isto e para onde estamos indo?” Toda aliança deveria ter uma visão correspondente. Veja o caso de Deus, por exemplo. Ele tinha um propósito específico em mente quando optou por fazer uma aliança com Abraão.

Por que você acha que Deus escolheu Abraão para ser o pai do Seu povo escolhido? Sempre que fazemos essa pergunta, a resposta mais comum é: “Porque Abraão tinha uma grande fé”. Embora a fé seja essencial para sermos parceiros no plano de Deus, não foi por isso que Deus escolheu Abraão. Deus o escolheu porque sabia que ele ensinaria seus descendentes a seguirem o Senhor:

Pois eu o escolhi, para que ordene aos seus filhos e aos seus descendentes que se conservem no caminho do SENHOR, fazendo o que é justo e direito, para que o SENHOR faça vir a Abraão o que lhe prometeu. Gênesis 18:19, grifo do autor

Quando Deus escolheu esse nômade sem filhos, Ele olhou além de Abraão e viu sua linhagem. Era crucial para Deus que Abraão “ordenasse a seus filhos que se conservassem no caminho do SENHOR”, porque Deus queria tecer Sua história de redenção por meio da linhagem familiar de Abraão. Ele sabia que Abraão e Sara cometeriam erros, mas também sabia que eles tinham a matéria prima certa. Sempre que Deus estabelece uma aliança conosco, Ele está pensando em termos de gerações, porque Ele já visitou o amanhã e sabe o que precisa acontecer hoje para que cheguemos até lá.

A aliança que Deus fez com Abraão se ampliou até alcançar também as nossas vidas. Por meio da fé, Abraão foi transformado de um homem sem filhos em um homem com descendentes tão numerosos quanto as estrelas. O homem que um dia fora um andarilho sem nação se tornou o pai na fé de todas as nações.

…Abraão será o pai de uma nação grande e poderosa, e por meio dele todas as nações da Terra serão abençoadas. Gênesis 18:18

Nossas vidas podem parecer diferentes da de Abraão, mas o princípio é o mesmo: Deus procura pessoas que permitam intencionalmente que Sua aliança se propague por meio delas. Sua história não se resume a apenas você e o seu cônjuge.

Só o Céu revelará o tamanho do impacto que a aliança de Deus expressa através do seu relacionamento com Ele terá. Ele deseja alcançar cada vida que passar através de você (seu legado) e toda vida que estiver dentro da sua esfera de influência. Isso significa que você precisa abraçar uma visão que não termine com você nem esteja confinada à sua compreensão limitada. A intenção de Deus com a sua história sempre incluirá as gerações que estão por vir.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

HORMÔNIO DO AMOR FAZ AUMENTAR ANSEIO POR VINGANÇA

Oxitocina não enfatiza apenas emoções pró-sociais, que entendemos como positivas; age de acordo com a situação em que a pessoa se encontra e pode incrementar sentimentos de inveja e crueldade

Conhecido como “hormônio do amor, a oxitocina favorece a criação de vínculos, deflagra sentimentos de confiança e fortalece a ligação da mãe com seu bebê. Mas também pode ter efeito bastante adverso: pode contribuir para aumentar sentimentos negativos, como inveja, desejo de vingança e satisfação com o sofrimento daquele que nos fez mal. A constatação vem de um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Haifa, em Israel.

Durante o experimento, 59 voluntários participaram de um jogo que prevê ganhos e perdas monetárias. Os pesquisadores perceberam que os participantes do experimento sentiam mais inveja depois de serem derrotados por um oponente virtual se tivessem recebido uma dose de oxitocina. Os integrantes do grupo que usou placebo tiveram essa reação bastante atenuada. A oxitocina também impulsionou sentimentos de prazer com o infortúnio alheio quando as pessoas ganharam mais dinheiro que seu oponente. “Esse hormônio não enfatiza apenas emoções pró-sociais, que entendemos como positivas; tem efeito sobre sentimentos em geral e age de acordo com a situação em que a pessoa se encontra”, diz a especialista em cognição.  Simone Shamy-Tsoory, que coordenou a pesquisa. Ela reconhece, porém, que nem sempre é fácil pesquisar o tema em razão da dificuldade das pessoas de admitir diante de um pesquisador aspectos sombrios da personalidade, como inveja e regozijo com a infelicidade alheia.

Experimentos anteriores realizados com animais já sugeriam esse “efeito duplo” da oxitocina. Fêmeas de ratos que receberam uma infusão de oxitocina em uma área do cérebro onde o hormônio age, foram mais agressivas com os intrusos da mesma espécie. A maioria das pesquisas com seres humanos, entretanto, tem mostrado que o hormônio nos torna mais propensos a confiar nos outros, a ser mais tolerantes, a avaliar as pessoas com benevolência e a se lembrar do rosto daqueles com quem interagimos. O artigo sobre o estudo realizado em Israel foi publicado no periódico científico Journal of Biological Psychiatry.

OUTROS OLHARES

UMA DOENÇA AINDA ESCONDIDA

A falta de notificações oficiais do câncer de pulmão, o mais mortal no Brasil e no mundo, dificulta a adoção de políticas públicas

No Brasil, assim como no mundo, o câncer de pulmão é o tipo mais mortal. No ano passado, 92% dos 34.511 novos casos levaram a óbito, segundo o Globocan, projeto internacional que compila dados de cada país. Esse ano, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima que essa doença dos órgãos respiratórios atingirá 31.000 novos casos. Mas, apesar da gravidade, a doença ainda é subnotificada no País. Somente 24,5% dos casos foram registrados nos dados mais recentes do Registro Hospitalar de Câncer (RHC), de 2016, segundo levantamento do Instituto Oncoguia. Das 28.220 incidências, apenas 6.915 acabaram notificadas. Para Luciana Holtz, presidente do Oncoguia, há muitos desafios ainda para se conseguir atingir dados confiáveis. Eles vão desde a falta de obrigatoriedade na notificação por parte das instituições até a demora na compilação das informações. A falta de conhecimento da realidade tem como consequência a morosidade nas decisões e a dificuldade em se adotar políticas públicas eficientes — por exemplo, a indicação de tomografias de baixa dose para pessoas de alto risco. No mundo, o câncer de pulmão é o mais frequente. No Brasil, a incidência é inferior ao de mama, próstata e colorretal, nessa ordem.

Além da subnotificação, os registros também não reportam com precisão os hábitos que podem ter contribuído para a doença. Somente metade deles (51,6%) tem dados sobre o tabagismo. É uma lacuna importante, já que o fumo é associado à maioria dos casos. Quando é conferida essa informação, a conexão é clara. 79,1% dos doentes são fumantes ou ex-fumantes, enquanto 20,9% nunca tiveram contato com tabaco.

Uma das razões para a alta taxa de mortalidade é o registro tardio. Em 86,2% dos casos apontados em 2016, a doença já estava em estágio avançado, o que compromete as chances de tratamento e cura. No entanto, os dados internacionais não desmentem o alto índice de letalidade no Brasil (92,3%). No mundo, dos 2 milhões de casos ocorridos em 2018, a mortalidade foi de 84,1%.
A melhor forma de combater a doença ainda é a prevenção: por exemplo, o combate ao tabagismo. “O Brasil está bem nisso. É um câncer evitável”, afirma Luciana. Ela aponta o risco de modismos como o uso de cigarros eletrônicos, que podem estimular o hábito nos jovens.

USO DE MICRO-ONDAS

Uma notícia positiva para o combate à doença – assim como na luta os tumores de fígado, rim e ossos – vem do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). A instituição está desenvolvendo uma técnica que utiliza radiação eletromagnética de alta frequência (micro-ondas) para tratar lesões de forma menos invasiva e mais rápida. O método já demonstrou resultados semelhantes aos obtidos nas cirurgias, mas sem remoção de tecidos sadios. Ele é indicado para tumores de até 3 cm de diâmetro e não pode ser aplicado em regiões perto de brônquios grandes. É uma boa notícia para uma doença que ainda exige toda a atenção – pública e privada.

GESTÃO E CARREIRA

PROFISSÃO: SOCIAL MEDIA

Com 140 milhões de usuários de mídias sociais na mira, empresas demandam profissional capaz de criar engajamento e ter boas conversas com os internautas

Segundo uma pesquisa da Digital Global Overview, feita neste ano, seis em cada dez brasileiros são usuários de algum tipo de rede social: 130 milhões estão no Facebook e 69 milhões no Instagram. Diante desse cenário, um profissional ganha protagonismo: o social media, ou analista de redes sociais. Sua missão é identificar temas que estão em alta na internet, criando conversas com os internautas e propagando informações das marcas de um jeito criativo. “Essas plataformas garantem um contato direto com o cliente. As oportunidades para quem sabe fazer isso são gigantes”, diz João Kluppel, diretor da consultoria de recrutamento Michael Page.

Com funções como elaborar conteúdo, desenvolver memes e compartilhar os links certos (que geram tráfego e audiência), esse profissional deve ser curioso e analítico. Precisa entender de ferramentas de engajamento, fazer leitura de métricas e ser antenado — afinal, não é qualquer coisa que funciona na internet. O desafio é ir além do óbvio. “Os algoritmos fornecem informações, mas tudo diz respeito ao humano. É preciso um olhar aprofundado e inovador”, diz Gabriel Ishida, consultor e professor de analytics e marketing de influência. Isso fez Bruno Lacerda, de 28 anos, crescer na área de marketing da Nuuvem, distribuidora brasileira de jogos digitais. Quando foi contratado como analista júnior, em 2016, sua missão era só alimentar o blog e divulgar produtos nas redes sociais. Formado em publicidade e propaganda pela PUC do Rio de Janeiro, ele tinha pouca experiência na área, mas era usuário assíduo das plataformas. Sabia que as propagandas não dariam resultado e começou a estudar por conta própria para aprender como melhorar o engajamento. “Criei o ‘Estagiário’, uma persona que deu cara à Nuuvem. As pessoas passaram a brincar e a se sentir próximas para interagir”, diz. Antes, uma postagem alcançava, em média, 25.000 internautas. Com as inovações, incluindo memes direcionados, cerca de 315.000 pessoas são impactadas. Com essa mudança, Bruno recebeu uma promoção. Hoje, gerencia as mídias digitais do Brasil, da América Latina e dos Estados Unidos.

UM DIA NA VIDA

ROTINA DE TRABALHO

Horas trabalhadas: 8 horas por dia

DIVISÃO DO TEMPO

25% – Pesquisa de assuntos quentes na internet

25% – Planejamento de ações de engajamento

25% – Produção de conteúdo

25% – Avaliação de resultados das postagens

VAGAS: 1.423**

ATIVIDADES-CHAVE

Análise e monitoramento das métricas, pesquisa de referências em páginas de empresas que possuem uma boa interação digital; produções criativas que liguem o assunto do momento à marca representada; gerenciamento das publicações com a escolha de horário, forma de interatividade (memes, vídeo, foto) e resposta aos clientes e consumidores.

PONTOS POSITIVOS

***Participar do momento de alta demanda do mercado.

***Ficar antenado ao que acontece no mundo em várias áreas, como política, entretenimento, esportes e economia.

***Ter reconhecimento diário por meio do engajamento do público e de resultados mensuráveis.

***Estar em uma posição estratégica, que possibilite exposição dentro da empresa.

PONTOS NEGATIVOS

***Por ser uma área nova, boa parte do aprendizado é autodidata.

***Pode-se concorrer com profissionais de diferentes áreas, como publicidade, marketing, jornalismo e estatística.

***As mudanças constantes de algoritmo exigem aprendizado contínuo para manter a relevância da marca e o alcance das postagens.

PRINCIPAIS COMPETÊNCIAS

Além de usuário assíduo de redes sociais, é preciso ser criativo e entender de métricas e dados. Conhecimento de programas de design gráfico (como Photoshop, Adobe Illustrator e Coreldraw) é importante. No mais, inglês é necessário, visto que as plataformas são americanas — Instagram, Facebook e YouTube —, e muitos indicadores são mais fáceis de encontrar em sites estrangeiros.

QUEM CONTRATA

Indústrias e companhias que estão passando por uma transformação digital e preocupadas com a experiência do cliente. Os setores que mais recrutam são bens de consumo, entretenimento, moda, finanças e e-commerce.

O QUE FAZER PARA ATUAR NA ÁREA

Como não há um curso próprio, a graduação mais indicada é comunicação social com foco em propaganda e marketing. É recomendado buscar especializações em Digital Analytics, além de cursos de métricas digitais e uso de ferramentas de redes sociais, como Facebook e Instagram Insights, Google Ads e YouTube Trends.

SALÁRIO

1.200 Reais (estagiário);

4.000 Reais (analista); e

6.000 Reais (coordenador) **

** Segundo consulta ao site glassdoor em 25 / 7

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 5 – A GRANDEZA DO CASAMENTO

Jesus respondeu: “Ninguém é maduro o suficiente para viver a vida de casado. É preciso ter certa aptidão e graça. Casamento não é para qualquer um. Alguns, desde que nasceram, nunca pensaram em casamento. Outros nunca propõem nem aceitam. Outros ainda decidem não se casar por causa do Reino. Mas se você é capaz de crescer até à grandeza do casamento, faça-o”. Mateus 19:11-12, A Mensagem, grifo do autor

Embora o foco dos discípulos estivesse na ideia de se sentirem sem saída, Jesus estava fazendo uma afirmação que tinha o potencial de ampliar os limites da existência deles. Jesus não vê o casamento como uma armadilha; Ele o vê como algo que pode ampliar sua vida.

Pode parecer que o casamento faz diminuir o número e o valor dos seus participantes; afinal, dois não se tornam um? Entretanto, em vez de diminuir ou dividir, o casamento gera crescimento. Quando dois se tornam um, há multiplicação em todas as áreas da vida. Somente após a criação de Eva Deus pôde dar a Adão a ordem para ser frutífero e se multiplicar – um decreto que não se limitava a fazer bebês. É impossível quantificar o verdadeiro potencial da multiplicação no casamento e ele é grande demais para ser medido.

Podemos garantir que você não estaria lendo este livro (ou qualquer livro escrito por um de nós dois) se não fosse pelo nosso casamento. Teríamos vivido vidas pequenas. Eu (John) sou quem sou hoje por causa da graça de Deus e por causa do presente que Ele me deu, Lisa Bevere. Nosso casamento sempre foi fácil? Absolutamente não! Mas Deus o usou para engrandecer a minha vida de todas as maneiras possíveis.

Eu (Lisa) sinto exatamente o mesmo e sou muito grata pela maneira como Deus expandiu a minha vida por intermédio do meu marido. Quando nos casamos, eu ficava aterrorizada diante de outras pessoas, em grande parte devido à insegurança por ter perdido um olho em consequência de um câncer aos cinco anos de idade. John conhecia meu medo, mas afirmou o dom de Deus que estava sobre a minha vida assim mesmo. O encorajamento dele me ajudou a me entregar ao plano de Deus e a uma vida mais ampla, a qual, para minha surpresa, envolvia muitas formas de ministrar às pessoas.

Como mencionamos, quando Deus nos encarregou de multiplicar, Ele não estava apenas falando sobre fazer bebês. Deus entendia que a união do homem e da mulher (o que parece ser a simples soma de um mais um) criaria a oportunidade para uma grande multiplicação. Esse princípio é verdadeiro em todas as áreas da vida: na sua carreira, na sua vida em família, na sua vida espiritual, e muito mais. No casamento, Deus nos deu algo que pode romper os nossos limites. Se você percebe que falta bênção e multiplicação em sua vida, é hora de parar de lutar e começar a honrar e amar seu cônjuge.

NÃO É FÁCIL

Um bom estrategista militar lhe dirá que um elemento-chave de toda grande batalha é ter um conhecimento íntimo do inimigo e de seus estratagemas. (Por que você acha que times de futebol passam tanto tempo assistindo a vídeos dos jogos dos seus oponentes?) Quando o inimigo ataca os casamentos, principalmente os casamentos cristãos, a intenção dele é dividir para conquistar. Esse conhecimento deveria nos dar a motivação para resistir aos seus estratagemas.

Quando lutamos pelo nosso casamento, estamos lutando por uma ideia nascida de Deus. Lembre-se de que foi Deus que criou o casamento, e não você. Satanás odeia o casamento porque ele é muito mais que uma conexão sexual – é uma união espiritual. Pelo fato de seu casamento possuir tamanha importância, ele encontrará oposição. Mas você deve prosseguir para o alvo, a fim de ganhar o prêmio (ver Filipenses 3:14). Jesus nunca disse que seria fácil. Na verdade, Ele nos desafiou com estas palavras:

… “Ninguém é maduro o suficiente para viver a vida de casado. É preciso ter certa aptidão e graça.” Mateus 19:11, A Mensagem

Uma grande parte do amadurecimento é a disposição de crescer e aprender. Em seu livro Casamento Sagrado, o escritor Gary Thomas escreve: “Se você quer se tornar mais semelhante a Jesus, não posso imaginar nada melhor a fazer do que se casar. Ser casado o obriga a encarar alguns problemas de caráter que, de outro modo, você nunca enfrentaria”.9 Jesus deixou claro que a vida de casado irá expor nossas imaturidades, mas se estivermos dispostos a crescer na Sua graça (o que requer humildade, altruísmo e paciência), finalmente desfrutaremos a grandeza do casamento.

CONTRATO OU ALIANÇA

As pessoas frequentemente consideram a aliança do casamento como um contrato. Isso é um problema. Um contrato é simplesmente um acordo criado para restringir a ação. Ele diz implicitamente: “Estes são os limites. Você não irá quebrar este acordo. Se violar os nossos termos, então terei o direito de estar liberado das minhas obrigações”. Em outras palavras: Não estou sem saída.

O verbo contratar também quer dizer, de acordo com o dicionário, “comprimir, encolher, contrair”. Ora, isso não se parece nada com o que Jesus chamou de a grandeza do casamento. O casamento deve engrandecer nossas vidas, e não torná-las menores.

Deus não vê o casamento como um mero contrato; Ele o vê como uma aliança espiritual. É um acordo no qual as partes exclamam: “Estou dando tudo de mim a tudo de você. Tudo o que sou e tudo o que tenho é seu, e tudo o que você tem agora é meu. Tudo que fizermos será multiplicado, engrandecido e aumentado por causa dessa bela troca”. Uma aliança proclama alegremente: “Estou sem saída! E estou feliz por isso!” Isso é engrandecimento!

Paulo disse aos Efésios:

Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a Igreja… Efésios 5:25, grifo do autor

Paulo encorajou os maridos a amarem suas esposas assim como Cristo ama a Igreja. Esse amor é um amor de aliança, muito mais que um contrato. Maridos, vocês não estão felizes porque Jesus ama vocês mesmo quando vocês não são muito amáveis? Vocês não estão felizes porque Jesus nunca vê o relacionamento Dele com vocês como apenas um contrato, algo do qual Ele “não tem saída”? Nosso objetivo deve ser imitar o amor de Jesus nas nossas reações e atitudes para com nossas noivas. (A propósito, Paulo não para por aí. Ele continua falando para renunciarmos às nossas vidas em favor de nossas esposas. Que mandamento!)

Tenha em mente que em Efésios 3, pouco antes de escrever essas palavras, Paulo descreveu a profundidade do amor de Deus pelo Seu povo. Apenas dois capítulos depois, ele ordenou que o mesmo tipo de amor fosse encontrado em nossos casamentos – que amemos “assim como Cristo amou a Igreja”.

Nossos casamentos devem ser um modelo do amor de Cristo pela Sua Noiva. Por que aqueles que não conhecem a Jesus iriam querer ter um relacionamento com Ele se os relacionamentos entre os que são parte do Seu povo são destituídos de amor, poder, harmonia e compromisso? Está entendendo por que o seu casamento é tão importante? Não se trata apenas de você. Trata-se do anseio de Deus por alcançar o mundo com Seu amor.

Como compartilhamos anteriormente, o verdadeiro amor pelo seu cônjuge deve ser um transbordamento do amor de Deus recebido por você. Um amor tão profundo assim não pode ser fabricado. Ele deve ser recebido Daquele cujo amor desafia a compreensão humana.

Temos de admitir que a visão de Deus para o casamento não é fácil. Houve momentos em nosso casamento nos quais tivemos vontade de cortar os laços que nos unem. Parecia não haver mais esperança. Mas depois de estarmos casados por mais de trinta anos, somos mais felizes hoje do que nunca, e aguardamos os próximos trinta anos com esperança e expectativa.

UMA ÁRVORE DE VIDA OU UMA ÁRVORE DE MORTE?

Eu (Lisa) amo jardinagem, mas John não compartilha do meu interesse. Ele gosta do que o jardim produz, mas não do trabalho que ele requer. Jardins dão muito trabalho e exigem muito tempo. Felizmente para John, temos a opção de comprar nossos legumes e verduras frescos, de modo que ele não precisa sujar as mãos.

De forma muito semelhante à jardinagem, cultivar um casamento requer muito tempo e energia. Se quisermos que nossos casamentos sejam saudáveis, não existe uma opção enlatada que nos permita evitar o trabalho necessário, o que é bom. Por quê? Porque valorizamos aquilo pelo qual trabalhamos, e precisamos valorizar nossos casamentos.

A boa (e às vezes má) notícia é que tudo que você planta no seu casamento, você colherá em diferentes áreas da sua vida. Anteriormente neste capítulo, exploramos o conceito dos nossos casamentos como árvores de vida. O contrário também é verdade. Seu casamento também pode ser uma árvore de morte.

Vamos rever a nossa descrição das duas árvores do Éden:

Ambas as árvores desfrutavam das mesmas condições imaculadas e incontaminadas. No entanto, uma delas gerava vida, e a outra morte.

A instituição do casamento feita por Deus é como a terra, e seu casamento, atual ou futuro, é como a árvore. O plano original para o casamento é a boa terra onde sua união pode crescer, mas a escolha é sua: seu casamento será uma árvore que gera vida? Seu cônjuge, sua família, seus amigos e seus colegas de trabalho experimentarão amor, alegria e paz através do fruto gerado por ele? Ou ele oferecerá desânimo, egoísmo e amargura àqueles que comerem de seu fruto?

Muitos de nós temos visto a própria instituição do casamento como a fonte dos nossos problemas. Outros procuram culpar seus cônjuges. Ambas as perspectivas expõem a recusa em reconhecer e em tratar dos nossos próprios corações corrompidos. Esperamos que esse não seja mais o seu caso.

Antes de continuar esta jornada, é preciso tomar uma decisão. Você precisa escolher crer que seu casamento pode se tornar tudo o que Deus o destinou para ser, e que assim ele será.

Talvez você esteja inclinado a pensar: Vou acreditar quando puder ver. Mas a crença na mudança sempre precede a evidência da mudança, porque todas as promessas de Deus são recebidas pela fé. A boa notícia é que seu casamento não diz respeito a você – diz respeito a Ele. Tudo que você tem de fazer é deixar a si mesmo de lado e deixar Deus ser Deus. Afinal, seu casamento é a obra de arte Dele. Se você deixar, Ele o transformará em uma bela obra prima.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DE ONDE VÊM EMOÇÕES E PENSAMENTOS

Neurocientistas recorrem a novas ferramentas para analisar o funcionamento dos circuitos neurais e desenvolver tecnologias que registrem a atividade do cérebro

Apesar de mais de um século de pesquisas ininterruptas, a dificuldade em estabelecer ligação entre a biologia e o comportamento em humanos é ainda grande. Sofisticados exames de imagem mostram atividade em locais específicos do cérebro, É o caso de quando nos sentimos rejeitados ou falamos um idioma estrangeiro, por exemplo, e essas constatações podem dar a impressão de que a tecnologia atual fornece percepções essenciais sobre o funcionamento do cérebro, mas não é bem assim.

Um exemplo notável desse descompasso é um estudo muito divulgado, que identifica uma célula do cérebro em particular capaz de disparar um impulso elétrico em resposta ao rosto da atriz Jennifer Aniston. No entanto, pesquisadores ainda são completamente ignorantes a respeito de como a atividade elétrica pulsante desse neurônio influencia nossa capacidade de reconhecer o rosto de Aniston e depois relacioná-lo a uma cena da comédia Mistério no Mediterrâneo, em cartaz na Netflix. Para que seu cérebro reconheça a atriz, provavelmente é necessária a ativação de um conjunto enorme de neurônios, todos se comunicando por um código neural que ainda não foi decifrado.

O “neurônio de Jennifer Aniston” também exemplifica a encruzilhada que a neurociência atingiu. Já temos técnicas para registrar a atividade de neurônios individuais em humanos vivos, mas, para avançar de forma significativa, a área precisa de novas tecnologias que permitirão a cientistas monitorar e também alterar a atividade elétrica de milhares ou mesmo milhões de neurônios – técnicas capazes de decifrar o que o pioneiro neuroanatomista espanhol Santiago Ramón y Cajal chamou de “a selva impenetrável, onde muitos investigadores se perderam”.

Esses métodos inovadores poderiam, em princípio, começar a preencher a lacuna entre o disparo de neurônios e a cognição: percepção, emoção, tomada de decisão e, por fim, a própria consciência. Decifrar os padrões exatos da atividade cerebral subjacente ao pensamento e ao comportamento também fornecerá percepções críticas sobre o que acontece quando circuitos neurais deixam de funcionar em distúrbios psiquiátricos e neurológicos – esquizofrenia, autismo, Alzheimer ou Parkinson.

Apelos para um salto tecnológico no estudo do cérebro começam a ser ouvidos fora dos laboratórios. Há pouco mais de três anos, o governo dos Estados Unidos anunciou o início de um projeto de grande escala: o Brain Research through Advancing Innovative Neurotechnologies Initiative, ou Iniciativa BRAIN, um grande empreendimento de pesquisa.

O projeto, com um nível de financiamento inicial de mais de US$ 100 milhões, visa o desenvolvimento de tecnologias para registrar sinais de células cerebrais em número muito maior e até de áreas completas do cérebro. O BRAIN complementa outros grandes projetos em neurociência fora dos Estados Unidos. O Human Brain Project (Projeto Cérebro Humano), financiado pela União Europeia, é uma ação de U$ 1,6 bilhão, já com mais de uma década, voltado para o desenvolvimento de uma simulação de todo o cérebro em computador. Projetos de pesquisa ambiciosos de neurociência também foram lançados na China, no Japão e em Israel.

Investigar como células cerebrais processam o conceito de Jennifer Aniston – ou algo comparável àquilo com que nos deparamos por meio da experiência subjetiva ou percepções do mundo externo – é atualmente um obstáculo intransponível. Exige deslocar a medição de um neurônio para a compreensão de como um grupo dessas células pode se envolver em interações complexas que dão origem a um todo integral maior – que cientistas chamam de propriedade emergente. A temperatura de qualquer material ou o estado magnético de um metal, por exemplo, só surge a partir de interações de uma multidão de moléculas ou átomos. Considere o elemento químico carbono: os mesmos átomos podem se ligar tanto para criar a dureza do diamante como a maciez do grafite, que se desgasta facilmente, formando palavras no papel. Dureza ou maciez, essas propriedades emergentes não dependem de átomos individuais, mas do conjunto de interações entre eles.

O cérebro provavelmente também apresenta propriedades emergentes totalmente ininteligíveis a partir de inspeção de neurônios individuais, ou mesmo de uma pintura grosseira de baixa resolução da atividade de enormes grupos de neurônios. A percepção de uma flor ou a recuperação de uma memória de infância podem ser discernidas apenas observando-se a atividade dos circuitos cerebrais que transportam sinais elétricos ao longo de cadeias complexas de centenas ou milhares de neurônios.

GESTÃO E CARREIRA

CRÉDITO, DÉBITO E SMARTPHONE

A tecnologia de pagamento por aproximação, disponível na maioria dos sistemas operacionais, permite que você saia de casa somente com o celular ou com uma pulseira que substitua o cartão de crédito

O empresário Frank MacNamara estava com alguns executivos do mercado financeiro em um restaurante da cidade de Nova York quando percebeu que havia esquecido seu talão de cheques e não tinha dinheiro vivo para pagar a conta. Era o começo dos anos 50 e, embora alguns estabelecimentos oferecessem crédito aos clientes mais fiéis, as duas formas de pagamento anteriores eram as únicas existentes. Por sorte, o empresário conseguiu sair da situação constrangedora com a ajuda de sua esposa, que foi socorrê-lo e evitou um calote. Um ano depois do episódio, MacNamara, ao lado de um sócio, fundou a primeira empresa de cartão de crédito do mundo, o Diners Club Card, e mudou a forma como compraríamos nas próximas décadas. Mas, se há meio século os cartões de plástico revolucionaram os meios de pagamento e chegaram a prometer o fim elo dinheiro de papel, há quem diga que ele também está com os dias contados.

No mundo altamente conectado, sair sem a carteira começa a deixar de ser um problema. Por meio do celular é possível pedir comida, chamar um táxi, pagar contas e transferir dinheiro para outra pessoa. E, se até um tempo atrás comprar um sorvete ou ir à padaria ainda dependia de uma cédula ou de um cartão, agora as carteiras virtuais, ou wallets, no termo em inglês, prometem substituir o dinheiro (de papel e de plástico). “Vivemos no mundo da experiência do usuário. Wallets são formas de facilitar a vida”, afirma Leonardo Militelli, presidente da IBliss, consultoria em segurança digital.

As carteiras virtuais, ou sistemas de pagamento por aproximação, funcionam com a tecnologia near field communication (NFC), que consiste na troca de informações entre dispositivos com chips compatíveis, sem o uso de cabos ou fios. É algo semelhante ao sistema Bluetooth, disponível há algum tempo no mercado. Na hora de pagar a conta, se houver compatibilidade, basta aproximar o celular da máquina de cartão, a uma distância de até 10 centímetros, e pronto. Embora pareça algo futurista ou restrito a pessoas altamente conectadas, essa inovação faz parte da vida de mais gente do que se imagina. Segundo dados da Mastercard, em 2018 cerca de 1,3 milhão dos 18,8 bilhões de transações com cartões magnéticos foram realizadas utilizando-se a opção de pagamento por aproximação no Brasil – crescimento de 344% no primeiro semestre de 2018 em comparação com o segundo semestre do ano anterior. Especialistas acreditam que cerca de 90% das maquininhas disponíveis nos estabelecimentos brasileiros sejam compatíveis com a NFC.

A Apple foi a primeira empresa a permitir a opção de pagamento por aproximação em seus dispositivos, com o lançamento do Apple Pay em 2014. Mas não demorou e as concorrentes Samsung e Google também entraram nessa briga. E, enquanto o Apple Pay chegou ao Brasil apenas em 2018, os rivais Samsung Pay e Google Pay ficaram disponíveis em território brasileiro bem antes, em 2016 e 2017, respectivamente. “Nossa missão é trazer facilidade e praticidade a nossos clientes nas compras realizadas tanto no mundo físico como no online”, afirma Felipe Cunha, diretor de parcerias do Google Pay para a América Latina.

PÁREO DURO

Os gigantes de tecnologia perceberam há muito tempo a influência que passaram a ter na vida das pessoas (e o potencial de lucro que podem obter) e têm ampliado a oferta de serviços para as mais diversas áreas, incluindo o mercado financeiro. Em março deste ano, por exemplo, a Apple fechou uma parceria com o banco Goldman Sachs e a Mastercard para lançar o Apple Card, seu primeiro cartão de crédito próprio. Em fase de testes pelos funcionários da empresa, o serviço deverá estrear para os americanos até o terceiro trimestre deste ano. Outro que pretende se aventurar pelos serviços financeiros é o Facebook. Em junho, a empresa anunciou que lançará uma criptomoeda própria que permitirá que os usuários façam transferências de quantias para outras pessoas pelo WhatsApp. Por causa da promessa, a Comissão de Assuntos Financeiros da Câmara dos Estados Unidos exigiu que o Facebook interrompesse o desenvolvimento do projeto até que o Congresso americano compreendesse do que se trata. Polêmicas à parte, o fato é que a tecnologia mudou completamente a forma como nos comportamos, consumimos, fazemos sexo, trabalhamos. Não é de se espantar que ela mude também o que conhecemos por dinheiro.

E, mesmo que os bancos tradicionais, que já sentem os impactos dessas transformações por causa das fintechs, não enxerguem a tecnologia por aproximação necessariamente como um perigo – já que um número de cartão de crédito e uma conta no banco ainda são necessários em quase todos os casos -, isso não quer dizer que eles não estejam se mexendo. Para diferenciar-se das empresas do Vale do Silício, a saída foi ousar e apostar em soluções mais disruptivas, como pulseiras que também permitem o pagamento apenas com contato. Em 2017, por exemplo, o Santander lançou a Santander Pass, pulseira digital que se conecta diretamente com a conta bancária do cliente. “Fizemos os primeiros testes com motociclistas que passavam pelos pedágios. É muito difícil pegar a carteira no bolso da jaqueta com as luvas. E a experiência foi bem-sucedida”, afirma Rodrigo Cury, diretor de cartões do Santander. O produto hoje conta com 500.000 usuários. “O número de transações dobrou, e acreditamos que os clientes ficam satisfeitos quando damos mais possibilidades”, diz.

O Santander não foi pioneiro em trazer para o Brasil a tecnologia de pagamentos atrelada a um acessório. Um ano antes, a fintech Atar, de São Paulo, lançou a Atar Band, pulseira com sistema NFC. Integrado a uma conta digital de pré-pagamento, na qual o usuário insere créditos, o acessório pode ser usado em estabelecimentos que aceitem a bandeira Mastercard. Apesar de não abrir números, Orlando Purim, CEO da Atar, afirma que o negócio tem prosperado. “Registramos o uso da nossa pulseira em mais de 8.000 locais em 15 países. E, desde janeiro, aumentamos nove vezes o volume transacionado”, diz. Embora a tecnologia de pagamento por aproximação tenha crescido, ainda existem muitos entraves na adoção desse método em larga escala. O principal é a questão de acesso. Cerca de 28% da população brasileira é desbancarizada, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (IBGE). Isso quer dizer que 60 milhões de cidadãos não têm sequer uma conta-     corrente em alguma instituição financeira. “Essas novas opções podem gerar uma inclusão dessa camada que hoje não é representada”, afirma Rafael Pereira, presidente da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD).

VANTAGENS E DESVANTAGENS

Para os usuários, fora a comodidade, especialistas apontam que a principal vantagem desses métodos é a segurança. Isso acontece porque, além da ausência de contato do cartão com a maquininha, a cada compra realizada com a tecnologia NFC é gerado um cartão virtual criptografado, com dados diferentes do original, dificultando a clonagem. “Adotamos um sistema de segurança com várias camadas para proteger a conta e os dados pessoais de maneira automática e contínua”, afirma Felipe, do Google.

Foi exatamente depois de uma experiência ruim que o advogado Theo Santos Cabral da Hora, de 29 anos, trocou o cartão de crédito pelo pagamento por aproximação. Ele, que teve o cartão clonado depois de usá-lo em um bar na região central de São Paulo, não gosta nem de relembrar a dor de cabeça para provar que não havia realizado as compras, que totalizavam mais de 600 reais. “Foram inúmeras ligações para o banco e muito tempo perdido. Isso tudo sem contar os dias em que eu fiquei sem cartão”, diz Theo, que agora utiliza o Google Pay. De acordo com o advogado, embora grande parte dos estabelecimentos tenha uma máquina compatível com esse método, não é todo mundo que sabe como operar a função. “Já paguei de conta no posto de gasolina a dentista, mas geralmente tenho de ensinar como a ferramenta funciona”, diz. Contudo, Theo afirma que não se arrepende de ter adotado a NFC e não pensa tão cedo em voltar a usar apenas os métodos tradicionais. “Além da segurança e da facilidade, tenho um histórico organizado das minhas compras. Sem contar a principal vantagem: não preciso andar com minha carteira o tempo todo”, diz.

Mas essa opção não está isenta de fraudes. “A NFC é uma tecnologia de comunicação como qualquer outra e permite que dispositivos mal-intencionados coletem informações. No Reino Unido, ataques de radiofrequência aumentaram 40% os golpes com cartões que utilizavam o pagamento por aproximação”, afirma Leonardo Militelli, presidente da IBliss. Segundo ele, até mesmo a proximidade não é garantia de seguridade. “Já tivemos alguns casos de fraude de Bilhete Único, que também usa a tecnologia NFC, com saldo roubado por dispositivos maliciosos que simplesmente ficam próximos do cartão”, diz Leonardo. Diante dessa realidade, o especialista em segurança digital ressalta que os mesmos cuidados recomendados para cartões de plástico devem ser tomados por quem usa o pagamento por aproximação. “Os cartões devem ser usados apenas em locais confiáveis. Algumas máquinas podem conter o que chamamos de chupa-cabra, um dispositivo que coleta os dados do cartão e os repassa a terceiros que cometem as fraudes”, afirma. E, mesmo que em casos de roubo ou perda o acesso à NFC requeira senha, o que dificultaria um golpe, Leandro aconselha se prevenir. “O ideal é habilitar padrões de autenticação do telefone e redobrar essa barreira de proteção”, afirma.

A inovação é grande, mas não pense que haverá a extinção do dinheiro de papel ou do cartão de crédito físico. “Apesar de nos grandes centros existir uma adoção das novas tecnologias de forma acelerada, isso muda para cidades menores ou mesmo outros contextos”, afirma Ségio Biagini, líder da área de serviços financeiros da Deloitte. Isso é um fato. Segundo o IBGE, cerca de 22% dos brasileiros, por exemplo, não possuem um smartphone. “Ao longo do tempo as coisas podem mudar, mas não acredito que as formas de pagamento existentes hoje sumam. Ocorrerá uma coexistência de opções”, diz o executivo. Por via das dúvidas, é bom saber que existe uma alternativa para a próxima vez que tiver esquecido a carteira na hora de pagar a conta (e não quiser parecer caloteiro).

PASSA NA NFC?

Saiba mais sobre os principais métodos de pagamento por aproximação

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 4 – UM NOVO CORAÇÃO

“… Estou apresentando o plano original. Assim, se alguém se divorciar de uma esposa fiel e se casar com outra pessoa, a responsabilidade do adultério recairá sobre ele…” Mateus 19:9, A Mensagem

Mais uma vez, Jesus nunca nos pedirá para fazer alguma coisa que Ele não nos capacite para realizar. Ele nos apresenta o plano original de Deus para o casamento porque Ele está disposto a nos capacitar a vivê-lo. A Lei de Moisés fez concessões para os duros de coração, mas através do sacrifício de Jesus recebemos novos corações nascidos do Espírito e não corações de pedra.

“… Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne.” Ezequiel 36:26

Vemos essa mensagem ecoar no Novo Testamento. O apóstolo Paulo nos encorajou com as seguintes palavras:

E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou Seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que Ele nos concedeu. Romanos 5:5

Esse novo coração não pode ser gerado por nós mesmos. Ele depende do poder de Deus e da força do Seu amor. Somos, no entanto, responsáveis por nos humilharmos e aceitarmos esse poder. Tenha em mente que Deus nunca lhe imporá o Seu amor. Ele é um cavalheiro que nunca Se impõe a nós.

Por termos um novo coração, capaz de receber o amor de Cristo, agora podemos abraçar a afirmação intimidadora de Jesus sobre o plano original de Deus para o casamento e o divórcio.

A versão A Mensagem em inglês usa a palavra liable (que significa “responsável perante a lei; legalmente responsável”) para descrever a condição de alguém que se divorcia de um cônjuge fiel. Sabemos que isso pode soar como uma ordem nada fácil de cumprir, mas se Deus estabelece esse padrão para nós, Ele está mais do que disposto a nos dar a graça para cumpri-lo. Mas pelo fato de a jornada não ser fácil ou automática, muitos optam por desistir quando deveriam continuar avançando.

De acordo com uma pesquisa, dois entre três casais infelizes com seus casamentos hoje estarão felizes dentro de cinco anos, desde que não se divorciem.7 Portanto, não desista! Não sabemos como está seu casamento hoje, mas ainda que você se sinta sem saída, há esperança. Sua vitória talvez esteja mais próxima do que imagina. Jesus veio para tornar os bons casamentos ainda melhores e para restaurar os casamentos destruídos.

A EXCEÇÃO

A única exceção é o caso quando uma das partes comete imoralidade sexual. Mateus 19:9, A Mensagem

Jesus deixou claro que existe uma exceção ao plano original. Mesmo em caso de adultério, porém, terminar um casamento é questão de escolha. Se seu cônjuge foi infiel, você não precisa ficar, mas também não tem de partir. Seja qual for sua decisão, você tem de perdoar.

Há uma enorme diferença entre perdão e reconciliação. Você deve perdoar alguém que o roubou, mas isso não significa que precisa convidar o ladrão para ir à sua casa. A reconciliação só é possível se a união do casal puder ser restaurada depois de uma ruptura dolorosa de aliança, fé e confiança.

Nós nunca sofremos a ruptura do adultério, mas ficamos ao lado de amigos que experimentaram seus horrores. Alguns desses casais optaram por abraçar a reconciliação. Eles trabalharam arduamente para reparar os pedaços quebrados de sua aliança. Em cada um dos casos, o cônjuge infiel chegou a um lugar de quebrantamento e arrependimento. Precisamos ser claros aqui: não pode haver reconciliação sem arrependimento. Até Deus, na Sua infinita bondade e misericórdia, exige que nos arrependamos – que passemos por uma mudança de mente e coração – antes que sejamos reconciliados com Ele.

Também conhecemos casais que não conseguiram se reconciliar. Eles não precisam sentir um peso de condenação por causa disso. Jesus compreendeu a gravidade da traição e fez uma concessão necessária. Vimos Deus abençoar esses amigos enquanto eles se recuperavam das marcas do divórcio.

Se você passou por um divórcio, nós o encorajamos a não permitir que isso o defina. Ele faz parte do seu passado, mas não precisa determinar os contornos do seu futuro.

O passado não é seu. Ele pertence a Deus. O inimigo da sua alma tentará usar seu passado para frustrar os planos de Deus para seu futuro. Lembre-se de que Deus lhe deu o hoje, e que as escolhas feitas por você hoje moldarão seu amanhã – e não o seu ontem. Se você fez escolhas erradas, abrace a sabedoria e o poder de Deus. Humilhe-se por meio do arrependimento e experimente as maravilhas da Sua graça, que tem o poder para transformar a mais sombria das circunstâncias.

SERÁ QUE ESTOU SEM SAÍDA?

A descrição de Jesus do projeto de Deus para o casamento certamente fugiu radicalmente às expectativas da época. Em vez de inspirar Seus discípulos, as palavras Dele os deixaram nervosos. Veja a reclamação deles:

Os discípulos de Jesus fizeram objeção: “Se essas são as condições do casamento, estamos sem saída. Por que se casar?” Mateus 19:10, A Mensagem, grifo do autor

Sem saída? Que perspectiva terrível da vida de casado! Porém, assim como os discípulos, muitos de nós vemos o casamento como algo que nos limita e confina. Quantos homens e mulheres solteiros são atormentados pelo medo de casar com a pessoa errada e ficar sem saída?

O que nós aprendemos é que o casamento tem muito mais a ver com ser a pessoa certa do que encontrar a pessoa certa. Não nos entenda mal, ao procurar por um cônjuge, é importante buscar a orientação de Deus e ter a paz do Espírito. Mas frequentemente acreditamos que a pessoa certa preencherá todo o vazio de nossas vidas. A questão é que nenhum ser humano está apto a cumprir essa tarefa; esse é um papel que somente Deus pode exercer. E você não tem o poder de controlar o estado em que alguém se encontra nem mudar essa pessoa para transformá-la exatamente em quem você acha que precisa ter ao seu lado. O que você pode fazer é abraçar o processo de refinamento de Deus e tornar-se um homem ou uma mulher que entrega sua vida de forma abnegada ao seu cônjuge ou futuro cônjuge. Você encontrará mais realização no processo de entrega do que buscando seus próprios interesses.

Mateus 6:22 diz que a luz do corpo são os olhos. Isso significa que suas percepções definirão sua realidade. Ao pensar “não tenho saída”, você limitará o que Deus pode fazer no seu casamento e através dele. Se você pensar em seu casamento como uma armadilha na qual não há esperança de escape, é isso que ele se tornará. Suas circunstâncias naturais sempre acabam sendo determinadas pela sua visão espiritual, e o casamento não é exceção.

Talvez você esteja pensando: John e Lisa, vocês estão pedindo demais. Vocês querem que eu entregue minha vida ao meu cônjuge? Isso é ridículo. E quanto às minhas necessidades, esperanças e sonhos? Jesus quer que eu seja feliz. O que vocês compartilharam nada mais é do que uma ideia interessante, um ideal que devemos almejar. Podemos lhe garantir que Deus de fato quer que você seja feliz – mas a verdadeira felicidade é o produto derivado de uma busca maior. A felicidade vem quando realizamos um propósito mais elevado, e qualquer propósito pelo qual valha a pena lutar exigirá que você abra mão de sua vida. Na erradicação do egoísmo, encontramos a verdadeira felicidade. O casamento oferece o ambiente perfeito para esse confronto com o egocentrismo.

Timothy e Kathy Keller escreveram: “Se ambos os cônjuges dizem: ‘Vou lidar com meu egocentrismo como se ele fosse o principal problema em meu casamento’, eles têm a chance de ter um casamento realmente maravilhoso”.8 O egocentrismo nos impede de desfrutar um casamento maravilhoso, o que significa que o sacrifício do eu é a chave para desfrutarmos o casamento em sua plenitude. Se você está tendo dificuldades no relacionamento com seu cônjuge, o egocentrismo provavelmente é a fonte do problema.

OUTROS OLHARES

O SILICONE QUE DÁ CÂNCER

Seguindo os passos dos Estados Unidos, a Anvisa retirou do mercado próteses mamárias associadas a linfoma. A medida, tardia, foi comemorada pelas mulheres já diagnosticadas

Elena Greene, enfermeira de 53 anos, recebeu aliviada a notícia de que a Anvisa eliminou no Brasil a comercialização das próteses mamárias Biocell, da marca Natrelle, produzida pela empresa Allergam. O anúncio seguiu os passos da U.S. Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora dos EUA. “Pelo menos novas mulheres não terão risco de passar pelo que passei”, diz Elena. A enfermeira sentiu na pele as consequências da falta de informação sobre os riscos de desenvolver câncer em decorrência de uma prótese mamária. Em 2017, ela, que era maratonista e tinha feito há sete anos um implante de silicone da marca condenada, resolveu trocar a prótese porque o seio esquerdo estava inchado e atrapalhava seu desempenho na corrida. Na época, Elena se sentia cansada e possuía manchas na perna e no braço, mas não associava esses sintomas ao inchaço da mama. Por coincidência, seu marido, que é clínico geral, entrou na sala de cirurgia de troca das próteses e pediu para o seroma, ou seja, o líquido que o corpo desenvolve em volta da prótese, fosse analisado. Poucos dias depois, eles voltaram para apanhar o resultado. “Quando o médico falou que eu tinha linfoma, o chão se abriu. Em cinco segundos passei de uma paciente estética para uma paciente oncológica”, diz ela.

O caso de Elena ilustra bem como esse problema pode estar sendo subdiagnosticado no Brasil e no mundo. Se o seu marido não estivesse na sala de operações, o seroma não teria sido analisado. Essa é justamente a suspeita de especialistas que atuam na área. “Trocar a prótese faz parte do tratamento. Os médicos podem estar tratando o linfoma sem saber que ele existe”, diz Vanderson Rocha, professor de hematologia, hemoterapia e terapia celular da USP. O FDA já registrou 573 relatos de linfomas relacionados à prótese mamária e 33 mortes. Apesar do alto número de letalidade, a comunidade médica ainda afirma que são casos muito raros, já que a quantidade de implantes é grande – nos Estados Unidos, por exemplo, apenas em 2017 foram 281 mil. “De um modo geral, quem quer o implante aceita riscos que são de cem a mil vezes mais frequentes que esse, como alergias e infecções. O linfoma não é mais grave, a única diferença é a palavra câncer”, diz Bernardo Nogueira Batista, cirurgião plástico do Hospital Sírio Libanês.

PESQUISAS E MARCAS

As pacientes que desenvolveram a doença lamentam a falta de informação. Muitas delas, quando diagnosticadas, foram às redes sociais para alertar outras pessoas. Profissionais da área afirmaram à reportagem, sob a condição de não serem identificados, que a falta de pesquisas e a demora no reconhecimento do problema, inclusive por conceituadas associações médicas, são fruto da força econômica da indústria farmacêutica. Agora as mulheres esperam que o reconhecimento das agências seja apenas o pontapé inicial para o desenvolvimento de mais pesquisas e informações sobre o tema, inclusive a respeito de problemas relacionados a outras marcas.

OUTROS OLHARES

A TERCEIRA GUERRA, VIRTUAL

A imagologia se sofisticou e se transformou em fake news. Na terceira guerra haverá uma tempestade de fake news, ainda maior do que a que temos agora. Tudo pode ser fotografado, filmado e distorcido indefinidamente

E se um dia as superpotências mundiais resolverem iniciar uma terceira guerra mundial? Algumas pessoas afirmam que ela já está ocorrendo, com focos de violência crônica, guerras civis intermitentes, escassez de alimentos em algumas regiões e hordas migratórias. São múltiplas guerras em bora com um objetivo comum: o genocídio. É uma grande guerra que envolve todas as outras, uma guerra que ninguém declarou, mas que todos os governos praticam. É preciso diminuir a população. Sem mencionar nunca a palavra “superpopulação” que é um tabu para as religiões e para aqueles que acreditam tanto no poder da justiça distributiva que a confundem com o milagre da multiplicação dos peixes. Se um a terceira guerra mundial fosse declarada, não saberíamos quem a começou e porque, quem a ganhou ou quem a perdeu. Seria uma guerra travada na infosfera, uma guerra de fake news. Sucumbiríamos confinados em um casulo de informações desencontradas e falsas. Tudo se passaria como a invasão de marcianos transmitida por Orson Welles que em 1938 conseguiu, com uma simples transmissão radiofônica, fazer com que a população dos Estados Unidos acreditasse estar sendo invadida por alienígenas. A transmissão durou menos de uma hora, mas o pânico se espalhou.

O quarteirão no qual moramos seria arrasado por uma bomba. Mas a mídia continuaria declarando que estamos ganhando em outras frentes de batalha. Conhece a história do cidadão assaltado perto de casa, mas que, ao ligar a TV ouve que o crime no seu bairro diminuiu? Milan Kundera chamava isso de imagologia.

A imagologia se sofisticou e se transformou em fake news. Na terceira guerra haverá uma tempestade de fake news, ainda maior do que a que temos agora. Tudo pode ser fotografado, filmado e distorcido indefinidamente. O real pode se transformar em fake. Consequentemente, o fake pode se transformar na única realidade de que dispomos. Todos poderão enganar a todos, seja para tranquilizar, seja para desassossegar. A era da informação acabou.

Nunca vivemos um período no qual a troca de mensagens fosse tão rápida, eficiente e barata como nos últimos anos. Mas, paradoxalmente, as redes sociais estão nos arrastando para o grau zero da informação e a sociedade da informação se transformou na sociedade do ruído. Quando todos falam, ninguém consegue escutar. Poluímos a infosfera com informações incorretas ou inúteis. Criamos a poluição mental e, agora, não sabemos como nos livrar dela.

As fake news são um dos mais sérios problemas ecológicos da nossa era. Fábricas de fake news são um problema ecológico tão sério quanto a crescente emissão de C02 na atmosfera. Ele não será resolvido com meia dúzia de técnicas e com o desejo de ser um bom samaritano como apregoa Mark Zuckerberg, presidente do Facebook.

Transformamos o mundo em um cenário cinematográfico, o real em imaginário e o imaginário em real. É a época do apocalipse, palavra que originalmente significa “revelação”, mas que, por conta de mistificações, passou a significar “o fim do mundo”. Poderemos ver tudo, ver todas as versões do mundo, tudo estará escancarado diante dos nossos olhos, mas não saberemos o que é real ou o que é fake. Um sonho dentro do qual sonhamos e sabemos que estamos sonhando, mas do qual é impossível acordar. É o que os neurocientistas chamam de sonho lúcido, a forma mais sutil da alucinação.

Ao longo da história, as sociedades humanas sempre definiram suas políticas da experiência, ou seja, determinaram o que pode ser percebido, sonhado ou dito na composição do que se convenciona serem estados normais de consciência. As políticas da experiência têm o papel de uma espécie de tribunal que decide o que existe. Na Idade Média o mundo era habitado por milhares de bruxas e espíritos que eram considerados tão reais como nós. Hoje em dia, a política da experiência é decidida pelas tecnologias da consciência, que passaram a regular a percepção e a introspecção a partir de critérios determinados pela mídia, pela internet e pela psicofarmacologia.

As fake news afetam radicalmente a cognição. No longo prazo, perderemos a capacidade de distinguir entre o real e o imaginário. Um animal que não sabe distinguir entre o real e o imaginário não sabe distinguir entre comida e veneno, entre o certo e o errado, na política, na ciência e na ética. É um animal em extinção. Um animal apocalíptico que morrerá pela fome que ele produziu, pela radiação que ele produziu ou pelas doenças que ele produziu.

Mas é possível que a internet encolha muito antes de algo como uma guerra virtual acontecer. Há um grande gargalo que precisa ser enfrentado: a geração de energia. Atualmente, a quantidade de energia para rodar os servidores internacionais que mantêm a internet funcionando lançam na atmosfera, anualmente, mais C02 do que o produzido pela aviação mundial. E, sem a energia limpa, o aquecimento global será acelerado. As consequências, todos já sabemos.

Hoje em dia há no mundo 4 bilhões de pessoas sem acesso à internet. Quase 10% desse número são jovens e crianças. Será que teremos de migrar para as áreas pré-tecnológicas do planeta para sobrevivermos? Seremos os futuros migrantes que fugirão para essas paragens que, atualmente, correspondem às áreas pobres e semi­povoadas na Terra?

JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA – épaulistano, formado em filosofia na USP. Viveu e estudou na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Escreveu mais de uma dezena de livros sobre Filosofia da Mente e Tecnologia. Lecionou na UNESP, na UFSCAR e na PUC-SP.

GESTÃO E CARREIRA

PROFISSIONAIS RADICAIS

Praticar atividades esportivas de risco elevado auxilia no desenvolvimento de competências como liderança e tomada de decisões, além de aliviar o estresse

Estado de alerta, pupilas dilatadas, mãos suadas, frio na barriga e coração acelerado. Essas são algumas das sensações que ocorrem quando se praticam esportes radicais. Por mais que a ideia de pular de um avião a cerca de 4.000 metros de altura, torcendo para o paraquedas abrir, seja assustadora para alguns, muitos profissionais estão deixando de lado as tradicionais aulas de yoga, meditação e lutas em busca de esportes que aumentem o nível de adrenalina no corpo. Além de relaxar, as atividades de alto risco auxiliam no desenvolvimento de habilidades importantes para o dia a dia. de trabalho, como liderança, autocontrole, comunicação e gerenciamento de tempo. “É como uma válvula de escape. Ajuda a reconectar com o próprio corpo e a liberar hormônios que trazem bem-estar”, diz Bruno da Matta Machado, sócio e diretor da consultoria de recursos humanos Upside Group.

É difícil encontrar números exatos sobre a popularidade dos esportes radicais, principalmente porque muitos adeptos são amadores e não há um controle por parte das associações. Mas alguns dados mostram um aumento da prática de atividades de aventura. O Ministério do Turismo do Nepal, por exemplo, registrou em abril um número recorde de 381 autorizações para escalada do Monte Everest. A procura foi tanta que no mês de maio houve um engarrafamento de alpinistas, causando a morte de pelo menos 11 pessoas. Além disso, um estudo divulgado em 2017 pela Allied Market Research prevê crescimento de 200% no mercado global de turismo de aventura até 2023 – o nicho movimentou 683 bilhões de dólares em 2018, segundo a Adventure Travel Trade Association.

Entender por que algumas pessoas se aventuram a ponto de colocar a vida em risco não é fácil. Nem a literatura médica tem um consenso sobre isso. Um estudo publicado em 2014 por Cynthia Thomson, da Universidade British Columbia, Ph.D. em cinesiologia (ciência que estuda o movimento corporal), sugere que indivíduos atraídos por esportes mais arriscados podem ter uma predisposição genética que modifica os receptores da dopamina – basicamente, quanto mais receptores a pessoa possui, mais hormônio precisa ser liberado para que ela se sinta estimulada. Além disso, com mais receptores e mais dopamina, o indivíduo sente mais prazer em situações de estresse. Outras pesquisas indicam que altos níveis de testosterona durante o pré-natal podem influenciar na redução do medo ao risco. A psicóloga e psicanalista Michele Silveira ressalta que qualquer escolha na vida envolve questões conscientes, inconscientes e experiências. E isso vale também para os esportes. “Esse tipo de atividade não é para qualquer um e não acredito que seja algo que possa ser desenvolvido. Quando você se identifica com um esporte de risco, já existe uma predisposição”, afirma.

CORPO, MENTE E UM POUCO MAIS

Além dos clássicos benefícios da prática de esportes, como melhora do condicionamento físico, equilíbrio, flexibilidade, emagrecimento e ganho de resistência, estudos mostram que os esportes radicais podem resultar em melhorias nos casos de ansiedade, depressão, hiperatividade e déficit de atenção graças à liberação de hormônios neurotransmissores de bem-estar, como dopamina, serotonina e endorfina. Uma pesquisa feita em 2004 por Irwin Lucki, professor de psiquiatria e farmacologia na Universidade da Pensilvânia Medical Center, na Filadélfia, descobriu que a adrenalina pode provocar no cérebro o mesmo efeito dos antidepressivos.

O tipo de esporte escolhido também resulta em efeitos diferentes no corpo. Uma escalada, por exemplo, parece ser mais efetiva na luta contra a depressão do que esportes tradicionais, de acordo com um artigo científico publicado no periódico BMC Psychiatry. Tanto que hospitais psiquiátricos na Alemanha já usam a atividade como uma abordagem terapêutica. Um estudo francês de 2017, publicado no Frontiers in Psychology, revela que o mergulho pode se comparar à meditação por causa do controle respiratório. Os praticantes percebem redução do estresse, melhora do humor e aumento das habilidades de atenção e concentração, além da percepção sensorial.

A prática de esportes radicais ainda permite aprimorar as habilidades necessárias para lidar com a ansiedade. Isso porque os adeptos regulares sofrem uma mudança química no cérebro, o que os ajuda a permanecer calmos e concentrados por mais tempo. “As pessoas que praticam esportes radicais apresentam mudanças na produção de noradrenalina e neuroreceptores, por isso têm determinadas reações e conseguem sair mais rápido de situações estressantes ou perigosas”, diz a psiquiatra Michele. Além disso, essas atividades estimulam a leitura rápida do ambiente (quais são as condições favoráveis e desfavoráveis), a percepção de seus pontos fortes e fracos e o controle do medo. “Aprender a gerenciar e avaliar o risco assumido no esporte é similar ao ambiente de trabalho, em momentos como as tomadas de decisões importantes”, afirma Bruno, da Upside Group.

EM GRUPO

As vantagens da prática de esportes radicais não são apenas individuais. Tanto que muitas empresas passaram a usar o turismo de aventura para integrar a equipe. Giancarlo Valias, sócio-diretor da companhia de viagens e atividades de aventura para ambiente corporativo Ventura Empresarial, afirma que desde multinacionais até pequenos escritórios buscam atividades para trabalhar sincronismo, planejamento, liderança e confiança. “No rafting, por exemplo, criam-se algumas situações durante a descida do rio para trabalhar conceitos como liderança e confiança”, diz Giancarlo. “Fazemos um rodízio entre as pessoas para que cada uma se torne instrutora do bote por um período e colocamos uma venda nos olhos dos outros participantes para que eles sigam somente a instrução daquela pessoa.”

Outras atividades, como acampa­ mento e trekking, ajudam no desenvolvimento de trabalho em equipe e melhoram a comunicação, uma vez que cada integrante do grupo é responsável por um trabalho ou objeto importante para que tudo dê certo. “Um fica com a bússola, outro com a medição, outro com o cronômetro e outro com a planilha. Eles exercitam planejamento, gestão de tempo e trabalho em equipe”, afirma Giancarlo. Independentemente do esporte escolhido, o fato é que o elevado risco de morte requer mais comprometimento do atleta, exigindo que ele se desligue completamente dos problemas e esteja focado no que está fazendo. Qualquer erro pode ser o último, mas os aprendizados podem superar os receios.

VAI SE JOGAR NO RADICAL?

Se quiser praticar, é necessário se preparar com antecedência

1. CHECK- UP

Antes de começar qualquer esporte, faça um check-up médico para saber se tem alguma restrição ou problema de saúde que possa se agravar.

2. PESQUISE

Descubra qual atividade mais lhe interessa, levando em conta suas habilidades, seus medos e o que gostaria de melhorar. A insegurança com altura, por exemplo, pode ser vencida com esportes radicais.

3. SEGURANÇA

Qualquer erro pode resultar em acidentes graves e até fatais. Por isso, faça cursos de segurança, autorresgate e primeiros socorros.

4. GRUPOS

As atividades de aventura costumam incentivar a interação social. Procure grupos de praticantes do mesmo esporte para compartilhar experiências e participar de excursões.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CAUSA DA DEPRESSÃO PODE ESTAR NA FRAGILIDADE DE FIBRAS NERVOSAS

Distúrbio seria consequência de problemas na estrutura neural fina

Uma equipe da Universidade Johns Hopkins descobriu que ratos medicados com Prozac não apenas apresentavam alterações na química cerebral, como também desenvolviam novas fibras nervosas em áreas estreitamente vinculadas ao estado de humor. A constatação sugere que a depressão é reflexo de problemas na estrutura neural fina e não apenas fruto de alterações na química cerebral, o que deve dar fôlego à recente “hipótese da rede neural’ na explicação dos estados de ânimo.

Nos últimos 20 anos, vigorou a ideia de que a depressão é, primariamente, um problema químico que ocorreria em grande parte porque a falta do neurotransmissor serotonina em sinapses importantes reduz sinais neurais que regulam o estado de ânimo, abrindo a porta para a depressão. Os resultados, porém, indicam que ao menos parte dos distúrbios do humor surge de estruturas sinápticas frágeis, como terminações nervosas fracas e fibras mortas, que interrompem a transmissão de sinais.

Por meio de intrincadas técnicas de coloração, os pesquisadores da Johns Hopkins descobriram que animais tratados com Prozac produziam mais axônios – terminações neurais que enviam os sinais – em neurônios :sensíveis à serotonina nas regiões cortical e frontal do cérebro, determinantes do estado de ânimo. O pesquisador Lijun Zhou sugere que esta mudança seja “o efeito estrutural de antidepressivos à base de serotonina” e ajude a explicar porque alguns tratamentos contra a depressão costumam ter sucesso. As descobertas corroboram outros estudos recentes em seres humanos que mostram que tanto drogas quanto psicoterapias, quando atingem seus resultados, aumentam os níveis de substâncias químicas importantes, chamadas neurotrofinas. A sua ausência pode contribuir para o enfraquecimento estrutural das redes neurais.

Segundo o neurocientista especializado em neurotrofinas, Eero Castrén, da Universidade de Helsinque, “essas descobertas devem indicar onde procurar, em seres humanos, indícios de mudanças similares”. Isso por sua vez, pode levar a uma compreensão mais completa sobre a depressão e a outros tratamentos.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 3 – A FONTE DO AMOR

“… O nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vocês” – Romanos 2:24

Enquanto nós, o Corpo de Cristo, não vivermos e amarmos de maneira adequada, as pessoas blasfemarão o nome de Deus. Isso não é nenhuma surpresa, pois se nos consideramos “cristãos”, afirmamos ser embaixadores de Cristo. O apóstolo Paulo escreveu:

Ou seja, que Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem da reconciliação. Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus estivesse fazendo o Seu apelo por nosso intermédio. Por amor a Cristo lhes suplicamos… 2 Coríntios 5:19-20

Um embaixador é um mensageiro ou representante autorizado.3 Como cristãos, falamos por Cristo. Que privilégio! Fomos convidados, e até mesmo encarregados, de participar no ministério da reconciliação de Deus. Falamos por Deus com nossas palavras e atos. Esse é o nosso propósito de vida. Somos colaboradores com Deus, fazendo avançar o Seu Reino na Terra.

Então o que Cristo pediu que nós, Seus embaixadores, façamos? Jesus disse: “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como Eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros” (João 13:34).

Felizmente essa missão não é algo que devemos realizar por meio da nossa própria força de vontade. A Bíblia deixa claro que, para cumprir nosso propósito, precisamos primeiramente estar em Cristo – ser herdeiros da Sua graça por intermédio da Sua obra salvadora na Cruz. Só então podemos agir pelo poder transformador do Seu Espírito, e só então podemos amar uns aos outros como Ele nos ama.

Sob a nova aliança da graça, Deus nunca nos dá uma ordem sem nos dar o poder para cumpri-la. Porque estamos em Cristo, Seu Espírito capacitará nossos casamentos e nossas vidas individuais para que possam revelar Sua presença e amor ao mundo. Entretanto, não podemos revelar Seu amor até que nós mesmos o experimentemos primeiro. Em Efésios, Paulo oferece a chave para recebermos o poder do amor de Cristo:

Oro para que, com as Suas gloriosas riquezas, Ele os fortaleça no íntimo do seu ser com poder, por meio do Seu Espírito, para que Cristo habite no coração de vocês mediante a fé; e oro para que, estando arraigados e alicerçados em amor, vocês possam juntamente com todos os santos, compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento, para que vocês sejam cheios de toda a plenitude de Deus. Efésios 3:16-19, grifo do autor

Para receber a revelação do amor de Cristo, primeiro temos de permitir que Deus nos fortaleça no íntimo do nosso ser com poder por meio do Seu Espírito. Mas isso não pode acontecer se você não entregou sua vida a Ele. A partir do momento em que a sua vida for Dele, você terá a oportunidade de crescer continuamente no Seu amor, uma jornada que por fim levará a uma vida plena e íntegra.

Apenas dois versículos após ter escrito sobre o poder que recebemos quando conhecemos o amor de Cristo, Paulo explica o propósito desse poder:

… rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocação que receberam. Sejam completamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos outros com amor. Façam todo esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Efésios 4:1-3, grifo do autor

Observe que Paulo escreveu “vivam de maneira digna da vocação que receberam”. Mais uma vez, ele está falando do nosso propósito: revelar o amor, a verdade e o modo de vida de Deus (Seu Reino) ao mundo. Nada disso é possível sem que se tenha experimentado o amor de Deus. O conhecimento teórico não bastará. Somente quando possuímos a experiência pessoal do amor de Deus é que somos revestidos de poder para edificar vidas – e casamentos – dignos do nosso chamado.

Nessa passagem, Paulo descreveu certos padrões comportamentais muito similares aos que são necessários a um bom casamento: ser humilde, ser dócil, ser paciente, suportar uns aos outros e fazer todo esforço para conservar a unidade por meio da paz. Não é coincidência que logo no capítulo seguinte de Efésios encontremos alguns dos versículos mais famosos da Bíblia sobre o casamento. (Lembre-se de que as designações de capítulo e versículo foram acrescentadas pela Igreja no século 13 e não apareciam na carta original de Paulo.) Seria possível que em Efésios 1 a 4 Paulo estivesse preparando o coração de seus leitores para o que ele estava prestes a compartilhar – as verdades radicais sobre o casamento que exigiriam um conhecimento radical do amor de Deus?

Então, eis a progressão: antes que você possa amar de maneira adequada (quer seja o seu cônjuge ou qualquer outra pessoa), você precisa primeiro descobrir as profundezas do amor de Deus por você. O seu conhecimento do amor de Deus não pode se basear em informações de segunda mão; você precisa experimentá-lo pessoalmente. Quando experimentar o amor de Cristo, você será “cheio de toda a plenitude de Deus”. Só então você poderá levar uma vida digna do seu chamado. O poder para viver e amar adequadamente vem do conhecimento íntimo do imenso amor de Deus por você.

O PROPÓSITO DO CASAMENTO

Se seu propósito individual é ser uma representação de Cristo na Terra, qual é o propósito do seu casamento?

Vamos começar por aqui: Deus é amor. O amor não é apenas algo que Deus faz. Não é apenas algo que Ele tem. É quem Ele é. O casamento é uma instituição de amor, a primeira instituição que Deus estabeleceu. O casamento não é apenas a primeira instituição estabelecida por Deus, é também o simbolismo poético usado por Ele para representar as profundezas do Seu amor por nós e do Seu compromisso conosco, Sua Igreja e Noiva. A noiva e o noivo são uma imagem da Igreja e de Cristo.

Por causa desse simbolismo profundo, há uma intenção ainda mais profunda e mais obscura por trás do ataque contra o casamento, um motivo que poucos reconhecem. Os ataques contra o casamento – contra sua definição, sua designação e suas raízes divinas – têm a ver com mais do que política ou progresso social. A Bíblia deixa claro que não guerreamos meramente contra carne e sangue, que nosso adversário não é um governo ou organização (ver Efésios 6:12). Há um antigo adversário – o inimigo das nossas almas – trabalhando por trás dos bastidores para distorcer e perverter a fusão divina. Ele não vai parar de atacar o casamento até ter distorcido completamente a nossa base de referência acerca da maneira como Deus ama e se relaciona com Seu povo. A última coisa que satanás quer é que descubramos e recebamos o amor transformador de Deus. Mas pela graça de Deus, podemos derrotar nosso adversário e abraçar tudo o que Deus deseja no nosso casamento e para o nosso casamento.

O QUE JESUS PENSA?

Deus não apenas criou o casamento; Ele também tem um plano e um propósito para ele que não mudou. Embora o debate sobre as particularidades do casamento seja um tema polêmico há milhares de anos, Deus ainda o garante como Seu plano original. Veja o que Jesus disse aos fariseus em uma de Suas mais famosas conversas com relação ao casamento:

Um dia, os fariseus vieram provocá-Lo: “É permitido um homem divorciar-se da esposa por qualquer razão?” Ele respondeu: “Vocês não leram que o Criador, no plano original, fez o homem e a mulher um para o outro, macho e fêmea? Por causa disso, um homem deixa pai e mãe e une-se à sua esposa, tornando-se uma carne com ela. Não são mais dois, mas apenas um. Deus criou uma união perfeita, que ninguém pode ter a ousadia de profaná-la, separando-os”. Mateus 19:3-6, A Mensagem

Os fariseus se contentavam em saber o que era legalmente correto, mas Jesus queria que eles compreendessem o poder do amor.

Não podemos negar o fato de que Deus originalmente planejou os homens e as mulheres uns para os outros. No casamento, eles deixam seus pais para formar uniões vivas. A partir do momento em que os dois sexos estão unidos, ninguém deveria separar essa fusão.

POR QUE DEUS SE IMPORTA COM O DIVÓRCIO?

A versão da Bíblia A Mensagem chama o divórcio de uma profanação da união perfeita que Deus criou. É o fato de o casamento ser uma união criada por Deus que torna o divórcio algo tão sério.

Profanar é tratar algo sagrado com um desrespeito violento.4 Os sinônimos de profanar incluem palavras como blasfemar, difamar, maldizer, corromper, vandalizar, insultar e violar. Todos esses termos extremos transmitem uma sensação de violência. Fizemos referência à versão parafraseada de A Mensagem, mas todas as versões transmitem a gravidade de dividir o que Deus uniu. E ao fazer um estudo contextual adequado, podemos deduzir com segurança que Jesus está falando de todos os casamentos.5

Você pode imaginar como o mundo reagiria se alguém profanasse o quadro Mona Lisa, de Leonardo da Vinci? Todas as redes de notícias transmitiriam a história. O autor do crime seria condenado pela sociedade e provavelmente passaria o resto da vida na prisão. Como alguém ousaria profanar uma das maiores obras de arte da humanidade? Leonardo rolaria no túmulo.

Bem, Deus considera o casamento como uma das maiores obras de arte a serem expressas através de Sua criação favorita. A Paixão Dele pelo casamento é evidenciada na resposta de Jesus aos fariseus. As palavras Dele eram tão poderosas que eles não sabiam como lidar com elas, de modo que simplesmente se recusaram a responder-Lhe. Incapazes de compreender o casamento à luz da intenção original de Deus, eles se escondiam atrás da Lei de Moisés – uma abordagem que lhes permitia partir em vez de lhes dar o poder e a autoridade para ficar.

Eles retrucaram: “Se é assim, por que Moisés ordenou que o marido mandasse sua mulher embora, dando-lhe uma certidão de divórcio?” Jesus disse: “Moisés deixou o divórcio apenas como concessão por causa do coração duro de vocês, mas não era parte do plano original de Deus. Estou apresentando o plano original. Assim, se alguém se divorciar de uma esposa fiel e se casar com outra pessoa, a responsabilidade do adultério recairá sobre ele. A única exceção é o caso quando uma das partes comete imoralidade sexual”. Mateus 19:7-9, A Mensagem

Sob a Lei de Moisés, eram feitas concessões por causa da dureza do coração humano. Isso era algo provisório, e não o propósito original de Deus. Não se engane; Deus odeia as consequências do divórcio. Quando um marido e sua esposa são separados, um dos mistérios da Criação de Deus (como o casamento é descrito em Efésios 5:31-32) é violado e destruído.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MENTIR EXIGE DECISÕES RÁPIDAS E DISCERNIMENTO

A mentira patológica pode ter origem em um desequilíbrio raro da substância cerebral, segundo cientistas da Universidade do Sul da Califórnia. Para sua pesquisa de doutorado, Yaling Yang escaneou o cérebro de 12 mentirosos confessos e de outros voluntários que não tinham histórico de mentir compulsivamente. Yang ficou surpresa ao descobrir que o cérebro dos mentirosos tinha 22% a mais de substância branca nas regiões pré-frontais, relacionadas à tomada de decisão e ao discernimento. A substância branca liga os neurônios entre si – que, em conjunto, são chamados de substância cinzenta.

A mentira patológica pode ser muito complicada. Mentirosos compulsivos precisam apresentar informações que pareçam corretas, embora falsas. “Talvez, para essas pessoas, seja apenas mais fácil mentir”, diz Yang. Segundo ela, o excesso de substância branca cria conexões abundantes entre dados que, de outra forma, seriam contraditórios e compartimentados. Por ora, mais estudos são necessários para determinar se os mentirosos nascem com mais substância branca ou se a desenvolvem como resultado de suas frequentes invenções.

Outros cientistas que realizaram escaneamentos por ressonância magnética em tempo real de pessoas no ato de mentir constataram a ativação excessiva da área dos lobos pré-frontais. Eles concordam que esses padrões de atividade podem servir como detectores de mentira bastante confiáveis. Se for assim, é possível que algum dia as imagens cerebrais saiam dos laboratórios e passem a fazer parte dos tribunais.

OUTROS OLHARES

EPIDEMIA HOMICIDA

Crimes de agressão à mulher e feminicídios disparam e mostram que o Brasil enfrenta uma grave doença social, que nem o endurecimento das leis é capaz de conter

São seis horas da tarde na cidade de São Paulo. Na avenida Sumaré, uma mulher é agredida por assaltantes que tentam levar a sua bolsa. Ela grita e pede socorro às pessoas que passam ao seu redor: “Estou sendo assaltada!”. A comoção se insinua, mas logo termina quando o assaltante investe no disfarce de marido traído. “Não é um assalto. Você me traiu, sua vagabunda”. E como se aprendeu que em briga de marido e mulher não se põe a colher, ninguém se mete e a mulher termina a noite assaltada e agredida. Nessas terras, desde que homem nasce homem e mulher nasce mulher, uma bolsa, ou um atentado à propriedade, é mais grave do que a violação de um corpo feminino. O fato de homens atacarem e matarem mulheres à luz do dia sem qualquer pudor acontece porque a violência de gênero é autorizada pela sociedade e o comportamento agressivo masculino é justificado pela culpabilização da vítima. A escalada dos feminicídios revela que o País enfrenta uma doença social em que atitudes extremas eclodem de uma hora para outra em lugares insuspeitos.

Os últimos números de violência contra a mulher deixam claro que a sociedade brasileira sofre de uma séria enfermidade. Há algo muito errado acontecendo com os homens, e atos sexistas, em que eles se impõem pela força, estão sendo cometidos em proporções alarmantes. Uma epidemia de agressões e de assassinatos passionais acomete o País. Dados do Mapa da Desigualdade Social 2019 divulgados terça-feira 5, pela Rede Nossa São Paulo, uma ONG que acolhe vítimas, mostram que os casos de feminicídio na capital paulista aumentaram 167% no ano passado. No primeiro semestre deste ano, o crime de morte por questão de gênero cresceu 44% na cidade, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública. Foram 82 casos. Em Brasília, estudos mostram que enquanto os homicídios caem, os feminicídios sobem. Registros de outros tipos de agressão contra as mulheres também crescem. O serviço “Ligue 180” do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos recebeu 60.580 denúncias de violência entre janeiro e agosto, uma a cada seis minutos.

“A maior parte dos casos de feminicídio ocorre depois da ruptura de um relacionamento, quando a mulher termina uma relação abusiva. Os homens não aceitam a nova situação e matam”, diz a psicóloga Vanessa Molina, porta-voz da Associação Fala Mulher, que oferece assistência e proteção para vítimas de violência doméstica e atendeu oito mil mulheres em 2018. “Os abusos começam antes da violência física, com manifestações de ciúmes, xingamentos e com o afastamento da mulher de familiares e amigos. É como se o homem achasse que a mulher pertence a ele, que não se conforma com a perda do controle sobre sua ‘posse’”. Para Vanessa há uma necessidade urgente de mudar a cultura machista que está por trás dos crimes de ódio, que acontecem em famílias de todas as classes sociais e, frequentemente, são cometidos dentro de casa, no lugar em que a mulher deveria se sentir mais segura. Foi o que aconteceu com Patrícia Salviano Irrthum, de 23 anos, assassinada na segunda-feira 4, em Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ela foi morta com tiros na nunca, no rosto e no peito e o principal suspeito é o marido, o sargento da PM Glaysson de Souza Costa, de 46 anos, que está foragido. Depois do crime foram publicados vários posts no WhatsApp de Patrícia, escritos pelo criminoso, e um deles dizia: “Fui trair meu marido ‘polícia’ e deu nisso”.

Apesar do endurecimento das leis que penalizam esse tipo de violência, a epidemia de crimes passionais não arrefece. A Lei Maria da Penha, que estabelece cinco formas de agressão machista (física, psicológica, moral, patrimonial e sexual) e a Lei do Feminicídio, que caracterizou o homicídio de gênero, deram proteção legal para as mulheres, aumentaram o rigor da pena para agressores e assassinos, mas não inibiram os atos extremos.

Na semana passada, em mais uma demonstração de que a sociedade tenta reagir à doença social, o Senado aprovou em primeiro e segundo turno proposta de emenda constitucional (PEC) que modifica o inciso 42 do artigo 5º da Constituição e torna inafiançável e imprescritível o crime de feminicídio. A PEC segue agora para a Câmara e tornará a cadeia inevitável para os assassinos de mulheres. O que se vê, porém, é que o feminicida, na maioria dos casos, não está preocupado com as consequências de seu ato. Age enlouquecidamente e acha que está com a razão. O ódio e o desejo de vingança são maiores do que o medo da pena. Ele mata a mulher no meio da rua ou em lugares públicos e depois foge ou se suicida. No fim de semana, quando as famílias se reúnem, há uma incidência maior desses crimes.

MEDIDAS PREVENTIVAS

“Não será só com leis que vamos resolver o problema. É preciso reeducar a sociedade, é um processo evolutivo”, afirma Larissa Schmillevitch, gerente do Mapa do Acolhimento, ONG que cuida de mulheres ameaçadas e agredidas. “Outra questão é achar que a violência contra a mulher é algo privado em que ninguém se mete. A sociedade precisa entender que se trata de algo público, que pode ser evitado”. O Mapa do Acolhimento é uma rede de solidariedade coordenada pela ONG Nossas, um laboratório de ativismo feminista. Para Larissa, o aumento das denúncias tem relação direta com o crescimento da violência, e também com o fato de as mulheres terem mais acesso às informações e estarem menos caladas e conseguindo identificar com clareza as situações abusivas de seu relacionamento. Isso permite que se tomem medidas para impedir atitudes violentas de maridos e namorados transtornados.

A medida principal que as ativistas dos direitos da mulher defendem para conter a onda de feminicídios é a prevenção. Segundo ela, esse crime pode ser inibido com uma atuação assistencial no início do ciclo da violência, quando começam os abusos. Mas mulheres que denunciam seus algozes precocemente se expõem a um risco maior e necessitam de proteção. “A lei é muito boa, mas precisa ser aplicada de forma adequada”, afirma Larissa. “A gente enfrenta problemas nas delegacias da mulher por falta de profissionais qualificados e percebe um sucateamento nos serviços públicos de atendimento.

É difícil realizar uma denúncia”. Quer dizer, as mulheres estão falando mais sobre seus dramas, mas não estão sendo ouvidas.

GESTÃO E CARREIRA

APROVEITE O DIA

Profissionais estão restringindo o uso da internet para reduzir a ansiedade de querer saber de tudo o que acontece e poder curtir mais os momentos offline

Assim que deixa o escritório do Google, em São Paulo, a primeira providência de Vinícius Malinoski é colocar o smartphone em modo avião — e o celular só vai voltar ao estado-padrão no dia seguinte, quando o diretor do The Zoo, área de criatividade do Google, sair de casa para ir ao trabalho. Sem notificações nem a necessidade de checar e responder às mensagens, Vinícius fica longe de interrupções e sentimentos como ansiedade, o que o ajuda a desopilar e a encontrar tempo para apreciar momentos em que possa se fazer presente de maneira mais intensa. Aos 37 anos, os últimos quatro dedicados à multinacional de tecnologia mais valiosa do planeta, ele adotou essa postura por notar que a hiperconectividade pode ser prejudicial. “Percebi que era mais saudável não estar conectado o tempo todo, que precisava sair um pouco desse círculo virtual e aproveitar para relaxar”, diz. “Nas manhãs corro, nado, faço ioga ou jogo tênis. Depois, vou de bicicleta até o trabalho, onde fico das 9 às 18 horas. Deixo 30 minutos do meu almoço para meditar e, à noite, depois de jantar com minha esposa, leio um livro ou estudo música”, conta. E essa postura se reflete em sua equipe, composta de quatro profissionais. “Tento preservar, pois tenho pessoas no meu time que preferem adotar um horário diferente do meu para estar com a família.”

O comportamento de Vinícius — e de outros que, como ele, estão sentindo prazer em ficar longe da internet — já tem nome: Jomo, acrônimo de joy of missing out, que significa algo como “alegria em ficar por fora”. A atitude, que surgiu dentro das empresas de tecnologia, é um contraponto ao Fomo ( fear of missing out), que, segundo o dicionário Oxford, pode ser traduzido como “ansiedade gerada pela possibilidade de um evento emocionante ou interessante estar acontecendo em outros lugares, muitas vezes despertada pelas redes sociais”.

Basicamente, enquanto o Fomo representa o desespero em saber de tudo o que acontece no mundo digital e o pavor de ficar de fora de todo o burburinho das redes sociais, o Jomo vai no caminho contrário e estimula as pessoas a se desconectarem para que possam experimentar intensamente alguma coisa no mundo offline. “Na busca pela consciência sobre os próprios desejos e com vontade de viver o momento presente e usufruir dele, as pessoas têm se questionado sobre o uso da internet e suas funções. Por estarem mais criteriosas e selecionando melhor o que fazem e as informações que consomem, elas acabam dando espaço ao Jomo”, diz Karen Vogel, psicóloga e professora da The School of Life, de São Paulo. Essas são preocupações importantes em tempos atuais. Segundo uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, o Brasil conta hoje com 230 milhões de celulares ativos. Computadores, notebooks e tablets somam 180 milhões. Já o Cetic.br, responsável pela produção de indicadores e estatísticas sobre disponibilidade e uso da internet no Brasil, aponta que, em 2017, mais da metade da população brasileira já tinha acesso à rede mundial de computadores. Os números expressivos fizeram o governo olhar o assunto com atenção. Em julho deste ano, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos anunciou um programa de “detox digital”, o Reconecte, que, além de alertar a população para os riscos do uso excessivo da tecnologia, propõe um desafio ao público: trocar, durante um dia inteiro, o tempo gasto com celulares, computadores e outros dispositivos eletrônicos por atividades offline. E o Instagram, que, segundo uma pesquisa do Reino Unido, é a rede social mais prejudicial para a saúde mental, está escondendo o número de curtidas nas fotos. Segundo a empresa, isso é feito para “aliviar a pressão” que as pessoas sentem ao postar uma imagem.

IMPACTOS NA CARREIRA

Mas nem todos parecem entender a necessidade de ter momentos de prazer fora da internet. A pressão por resultados, a facilidade de falar com subordinados e colegas em grupos corporativos do WhatsApp e do Telegram e de acessar o e-mail do trabalho pelo celular estariam dificultando o processo de desconexão por parte dos empregados não só nos fins de semana e feriados mas também nas férias. Uma pesquisa do LinkedIn realizada em 2018 demonstra isso. De acordo com o estudo, 70% dos consultados admitiram não se desligarem do emprego nas férias. A prática de não aproveitar o período de descanso para se desconectar e recarregar as energias, apesar de comum, tem consequências bem negativas: estresse, ansiedade, queda do potencial produtivo, diminuição da criatividade e baixa capacidade de inovação. “A redução da concentração e da inventividade pode afetar a produtividade em setores em que a criação é importante. O acesso digital excessivo também pode limitar vivências não previstas ou que não tenham sido filtradas por dispositivos digitais”, diz Anderson Sant’Anna, professor adjunto da FGV-Eaesp. “Daí a importância de praticar momentos de oxigenação que possam colocar o indivíduo em contato com diferenças, inovações e possibilidades de surgimento do novo, fora do controle dos algoritmos.”

Foi o que percebeu a publicitária Cláudia Gambaroni, de 40 anos. Depois de meses vivenciando uma exaustiva rotina digital, sentiu que era hora de repensar seus hábitos e suas relações pessoais após um alerta feito por sua mãe. “Ela disse que, quando eu a visitava ou estava em momentos de lazer com familiares, ficava apenas no celular. Que era como se eu não estivesse ali e que sentia falta da minha presença. Aquilo me fez refletir”, afirma a empresária.

Durante quase um ano, enquanto coordenava diversas equipes e redes sociais, Cláudia chegou a trabalhar por até 20 horas seguidas hiperconectada. Ela teve problemas de ansiedade, estresse, insônia e irritação depois de assumir a liderança de uma grande campanha de marketing político na internet. “Estava com os nervos à flor da pele. Falava com muitas pessoas, avaliava informações o tempo todo e até dormia com o celular embaixo do travesseiro para responder às mensagens da equipe. Só percebi que algo não ia bem, entretanto, quando, após o término da campanha, com o alerta da minha mãe, notei que estava condicionada a olhar a internet de maneira agressiva mesmo sem estar trabalhando”, diz. A mudança de comportamento ocorreu de forma mais drástica num primeiro momento. “Fiquei fora das redes sociais por quatro meses e passei a investir esse tempo em atividades físicas e a me dedicar a meus relacionamentos presenciais, com amigos e familiares. Não queria nada mais a distância. Também estabeleci uma meta diária e hoje uso menos a internet, apenas no escritório. Nos fins de semana, acesso a rede por apenas 15 minutos para ver coisas pessoais — e só”, diz Cláudia, que controla as horas que gasta na web depois de instalar um app com essa finalidade. “Não foi fácil no começo, mas encontrei uma maneira mais saudável de viver cuidando da mente, do corpo e do espírito. Passei a usar meu tempo para ler, praticar esportes e estar com minha família. Ganhei qualidade de vida.”

MAIS EQUILÍBRIO

De acordo com o psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do Núcleo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, o Brasil é o segundo país do mundo no ranking de navegação na internet. Segundo ele, cada usuário gasta, em média, 9 horas e 29 minutos por dia na rede. E, apesar de não haver um estudo que mostre o percentual de dependentes tecnológicos no Brasil, a premissa internacional aponta que 10% dos usuários de computadores e smartphones estão sujeitos a algum grau de vício em internet.

O impacto na saúde dos funcionários poderia ser menor, principalmente se as empresas já trabalhassem com políticas corporativas de bem-estar digital para despertar hábitos online mais conscientes nas equipes e, claro, se os profissionais não acreditassem que o comportamento multitarefa é positivo para o currículo. “Ser multitarefa não é melhor para a produtividade. Ao contrário, o cérebro não é multitarefa, é programado para focar uma coisa por vez. Ele trabalha com o único propósito de finalizar o que foi iniciado”, explica Cristiano.

Se soubesse disso, o advogado e especialista em direito do consumidor Marco Antônio Araújo Júnior, de 44 anos, teria evitado um ciclo tecnológico de 16 horas diárias na internet a partir de 2013, prática que afetou seu foco e sua produtividade. Para dar conta das duas funções que exercia na época, a de diretor executivo de um grupo educacional e a de professor de direito em um curso preparatório para o exame da OAB, e despachar o que era preciso, Marco se valeu dos benefícios da internet, mas logo passou a ter problemas. “No home office respondia a mais de 400 e-mails por dia, fazia reuniões online e, mesmo trabalhando das 7 às 23 horas, acordava de madrugada para responder a dúvidas de alunos pelas redes sociais. Eram cerca de 500 mensagens por dia”, conta.

Com um horário hiperextendido de trabalho e sem conseguir um equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, Marco passou a não se alimentar direito, permanecia longos períodos sentado e tinha menos interações com a família. A consequência veio no ano seguinte: uma hérnia, resultado de meses de uma postura indevida no uso de dispositivos digitais. Apesar dos tratamentos médicos aos quais foi submetido para o problema na coluna, o “detox” das redes, entretanto, só aconteceu anos mais tarde. “Em 2018 percebi que não estava sendo realmente produtivo por causa da internet. Foi então que comecei a aplicar algumas técnicas de coaching que aprendi no dia a dia e a mudar meus hábitos”, explica Marco, que começou a monitorar o tempo gasto na rede de computadores e estabeleceu metas pessoais. “O início foi difícil. Eu queria saber o que estava acontecendo nas redes o tempo todo, mas logo consegui organizar as tarefas com a ajuda de estratégias.”

Hoje, além da prática de exercícios e de fazer seu horário de almoço sem o celular, Marco trabalha 1h30 sem as distrações da internet faz uma pausa de 30 minutos para responder aos e-mails e às mensagens profissionais. Sua meta é chegar a 3 horas ininterruptas, o que ele garante que conseguirá em breve. A organização trouxe uma rotina diferente para sua vida. “Ganhei tempo de qualidade om minha família, fora da internet, e com base em minha experiência pude ensinar táticas a meus alunos para se concentrarem mais nos estudos fazendo menos uso do celular”, diz o profissional, que administra uma plataforma de cursos preparatórios online chamada Meu Curso.

SINAIS DE ATENÇÃO

Como identificar se é hora de dar um tempo na internet e nas redes sociais

*** Você dorme com o celular embaixo do travesseiro ou na cabeceira da cama e acorda para responder às mensagens.

*** Fica ansioso e angustiado quando percebe que a bateria está acabando e não está com o carregador.

*** Escuta o alerta de notificação e fica aflito para ler e responder às mensagens rapidamente.

*** Se pega pensando em qual momento poderá mexer no celular novamente.

*** Negligencia atividades importantes para usar o smartphone e, no fim do dia, percebe que foi improdutivo.

*** Tenta reduzir as informações que consome na internet, mas não consegue.

*** Ignora momentos com familiares e amigos e põe em risco o emprego por não se desconectar das redes.

*** Busca informações quando não precisa, muda de tela continuamente e se sente frustrado por não encontrar nada interessante.

*** Fica se comparando: acha que a vida dos outros é mais interessante e mais bem aproveitada que a sua.

SEM CONEXÃO

Dicas para se desintoxicar do mundo digital e experimentar o conceito Jomo

AVALIE O TEMPO QUE GASTA NA INTERNET

Consulte o consumo de dados de seu celular para saber quais apps mais acessa, reduza o tempo gasto nos que estiverem no topo da lista e estabeleça metas diárias de uso.

REVEJA SUA ROTINA

Escolha atividades que gostaria de incluir no dia a dia — e antes não tinha tempo — e organize para que a prioridade de sua agenda seja você.

FAÇA O QUE LHE DÁ PRAZER

Coloque em sua rotina momentos prazerosos, como música, esporte, culinária, leitura e passeios. Descubra o que lhe dá prazer e garanta que não seja incomodado nesse período.

OFFLINE E SEM CULPA

Quando estiver em seu momento pessoal, liberte-se de responder a mensagens imediatamente. Desligue o celular, deixe-o em “modo avião” ou silencie as notificações, preservando apenas grupos e contatos prioritários — como o da família.

TENHA UM DIA (OU VÁRIOS) LONGE DA INTERNET

Experimente ficar fora das redes sociais nas folgas, nos fins de semana e nas férias. use o tempo livre para ler, ver amigos, viajar e trabalhar em projetos pessoais que não exijam acesso à web.

CURTA O MOMENTO

Experiências devem ser aproveitadas na hora que acontecem, com quem está a seu lado. Por isso, desligue o celular enquanto almoça com a família ou conversa com amigos.

SEJA UM LÍDER DANDO O EXEMPLO

Evite incomodar sua equipe com assuntos profissionais fora do expediente.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 2 – QUANDO SUA HISTÓRIA É DESAFIADA

O número de anos de uma jornada não conta toda a sua história. Um casamento de cinquenta anos pode significar cinquenta anos de dificuldades, ou cinquenta anos de felicidade constante. Mas, com muito mais frequência, o casamento é um mosaico de estações variáveis e diversas.

Quando olhamos a imagem da árvore na capa deste livro, fica evidente que cada anel aumenta o diâmetro da árvore. Não importa se o ano foi de dificuldade ou abundância, ele acrescentou volume à história e significado à jornada. Será que O Peregrino, de John Bunyan – um livro que continua sendo publicado mesmo depois de três séculos – seria uma obra prima duradoura se Cristão (o personagem principal da história) tivesse chegado à Cidade Celestial (seu destino) sem ter passado pelo Pântano da Desconfiança ou sem ter triunfado sobre o gigante Desespero? Sem o enredo complexo entremeado por alegrias e desafios, sua história seria monótona e vazia de acontecimentos especiais. Os perigos que Cristão suporta e vence são o que fazem com que sua história valha a pena ser lida. Os desafios pelos quais passamos em nossos casamentos têm o potencial de acrescentar às nossas histórias empolgação e significado semelhantes.

Não despreze os momentos de desânimo. Use-os para se aproximar da graça de Deus e encontrar Sua força divina que desafiará os limites da sua capacidade emocional e espiritual. Ao longo de mais de três décadas de casamento, descobrimos que foram exatamente os momentos que pareceram ser mais sombrios que se tornaram mais tarde faróis para iluminar nosso caminho. Eles nos compeliram a nos levantarmos e nos posicionarmos. Seus problemas atuais podem se tornar alguns dos mais importantes momentos da sua história.

O ESPÍRITO DO CASAMENTO

Antes de mergulharmos na história do casamento, vamos parar por um instante e explorar seu propósito. Não há dúvidas de que o casamento é maravilhoso, mas às vezes ele é um processo doloroso. A maioria de nós tende a ter muito mais paciência com a dor envolvida em um processo quando entendemos seu propósito. Por exemplo, você pode suportar duas horas na cadeira de um dentista se souber que o procedimento cumprirá o propósito de erradicar uma dor de dente incessante. No seu casamento, você provavelmente já passou por dias que pareciam mais uma visita ao dentista do que um passeio na praia (e se ainda não passou por isso, você passará). É nesses momentos dolorosos que ter consciência do seu propósito torna-se ainda mais crucial.

Hoje em dia, o propósito do casamento está sendo questionado. Por não entenderem o propósito de suas uniões, muitas pessoas estão prontas para pular fora quando as águas turbulentas fazem seus barcos balançarem. Outros argumentam que a instituição do casamento como um todo está falida, e precisa ser revista ou eliminada. Alguns até sugerem que os contratos de casamento deveriam ser limitados a um período predeterminado – aparentemente, para sempre é muito tempo para se esperar de qualquer um de nós. Essas pessoas argumentam que é irrealista tomar decisões sobre como vamos nos sentir daqui a vinte anos, quando mal podemos controlar a maneira como vamos nos sentir amanhã.

Na conhecida canção “Mrs. Jackson”, o grupo de hip-hop OutKast expressou um sentimento popular: Eu e sua filha

Temos algo especial

Você diz que é coisa de criança Nós dizemos que é um amor maduro Espero que nos sintamos assim, que nos sintamos assim para sempre Você pode planejar um bonito piquenique Mas não pode prever se vai haver sol

A música “Mrs. Jackson” é o pedido de desculpas de um homem à mãe de uma jovem que ele engravidou, mas por quem não sente mais amor. Infelizmente, essa canção reflete perfeitamente uma visão predominante do amor e do casamento: eles devem fazer com que eu me sinta bem. Essa perspectiva se fundamenta na convicção de que nossas emoções nos dizem o que é certo e errado, e que somos incapazes de controlá-las. Se não me sinto feliz, então obviamente tenho de fazer alguma coisa para mudar isso. Afinal, não posso controlar como me sinto, assim como não posso controlar a mudança das estações. Ou, como o grupo OutKast diz, você pode planejar um bonito piquenique, mas não pode prever se vai haver sol.

Há outros que querem que a definição de casamento se adapte às diferentes épocas. Eles perguntam: “Por que não podemos ser mais flexíveis? Se esta instituição vai sobreviver, ela precisa se ampliar para incluir uniões entre dois homens e entre duas mulheres”. Certas celebridades estão até mesmo se recusando a se casarem até que os parâmetros do casamento tenham sido revistos. (Para ser claro, todo casamento deve sempre crescer e se adaptar, mas a definição e os participantes do casamento não mudam.) Então, a quem devemos ouvir? Quem tem o direito de definir – ou redefinir – o casamento? Quem tem as credenciais para nos dizer como o casamento deve impactar nossas vidas?

Acreditamos que Deus é o Único que tem esse direito. Sua Palavra declara: Foi o Eterno que fez o casamento, não você. Seu Espírito permeia até os menores detalhes dessa união… Portanto, guarde o espírito do casamento dentro de você. Malaquias 2:15, A Mensagem

Esse versículo não deixa espaço para dúvida: “Foi o Eterno que fez o casamento, não você”. Ele não apenas criou o casamento, como também Se envolveu pessoalmente no processo pelo qual duas pessoas se tornarem uma.

Todo casamento é composto de muitos elementos diferentes, alguns simples e alguns tremendamente complexos, mas, pelo Seu Espírito, Deus revigora (ou traz vida a) os detalhes mais íntimos do casamento.

Observe que Malaquias 2:15 diz: “Seu Espírito [de Deus] permeia até os menores detalhes dessa união”. Em outras palavras, Deus nos permite ter expressão criativa no casamento, mas Ele retém todos os direitos de Criador sobre o que é o casamento e a quem ele inclui. O casamento não pode ser recriado sem o consentimento e a participação de Deus, e Ele é claro quanto às questões fundamentais: “Eu sou o Senhor e não mudo” (Malaquias 3:6, NTLH).

DE VOLTA AO ÉDEN

Vamos voltar ao jardim. Você se lembra das duas árvores? Uma delas, a árvore do conhecimento do bem e do mal, era a única árvore cujo fruto era proibido a Adão e Eva. Deus os advertiu que se eles comessem de seu fruto, eles morreriam. Mas algo naquela árvore fez com que eles se recusassem a ouvir a advertência de Deus e partilhassem o fruto proibido.

E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento… Gênesis 3:6 (ACF), grifo do autor.

Certamente muitas árvores nesse jardim eram boas para se comer e agradáveis aos olhos. Mas uma árvore cujo fruto tinha o poder de elevar uma pessoa à condição de Deus era outra coisa completamente diferente! Eva pensou que houvesse algo além daquilo que já lhe havia sido dado. Achamos impressionante o fato de a mulher ter agarrado algo que não devia ter (igualdade em relação a Deus) perdendo nesse processo algo que ela já tinha o potencial para possuir (sabedoria).

Adão e Eva desejaram ser como Deus, separados de Sua influência e autoridade. Eles se agarraram a um papel que não lhes era lícito assumir. Essa decisão contrasta claramente com a escolha feita por um de seus descendentes:

[Jesus], embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se… Filipenses 2:6

Adão e Eva foram feitos à imagem de Deus, mas não iguais a Ele. A imagem de algo fala de um reflexo, e não de uma representação em sua totalidade. A falsa promessa de igualdade com Deus fez com que o homem e a mulher pensassem que estavam recebendo alguma coisa, quando na verdade ambos estavam perdendo. Eles não receberam sabedoria; eles aceitaram um engano.

O casal enganado e desobediente foi banido do jardim. Eles nunca mais teriam acesso ao fruto encontrado na árvore da vida. Sem esse fruto vivo, Adão e Eva estavam condenados à mortalidade. Eles morreram, e o jardim deles desapareceu há muito tempo. Mas, de certa maneira, eles vivem, porque somos sua descendência. Homens e mulheres não têm mais imortalidade individual nesta Terra, mas o casamento é uma maneira de dar continuidade à vida através da reprodução.

A boa notícia é que a Cruz de Cristo agora é nossa árvore da vida definitiva. Ela restaura tudo o que foi perdido no jardim. E um casamento segundo o coração de Deus pode funcionar como uma árvore que perpetua a vida. Ele tem em si a base necessária tanto para o legado quanto para a intimidade. Por isso é tão importante para Deus honrarmos o casamento, guardarmos o seu espírito e amarmos um ao outro.

Não é preciso ser um especialista em relacionamentos para perceber que algo significativo se perdeu na transição do jardim para o agora. Muitos casamentos são o oposto de uma árvore que perpetua a vida. Divórcio, adultério, decepção, infelicidade e ofensa destroem nossos casamentos e lares. Por causa desses momentos em que o amor falha, muitos não entendem o propósito do casamento – ou sequer por que eles deveriam querer se casar. Outros, que são casados, estão simplesmente tentando sobreviver ao fogo cruzado. Para eles, o casamento não é um porto seguro. É uma zona de guerra.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MULHER ELÁSTICO

Assim como a personagem do desenho animado, a mulher contemporânea tem de ser elástica para dar conta das demandas do cotidiano

Em uma tarde de domingo caía uma fina garoa paulistana. Fui despertada de meus pensamentos longínquos por uma solicitação dos meus Alunos. Eles me pediam que os levasse para assistir ao filme Os incríveis, da Disney.

Arrastada pelo entusiasmo deles, entrei numa longa fila, na companhia barulhenta de pais, avós e crianças que se acotovelavam na porta da sala do cinema, na tentativa de conseguir um bom lugar. Pipoca, Coca-Cola e chocolate! Enfim, bem instalados nas poltronas, esperamos o filme começar.

Na tela, desenhou-se a imagem do cotidiano de uma vida familiar cheia de encantos e desencantos, como todas as outras. Tarefas, alegrias e tristezas, limites e frustrações, lamentos e questionamentos são experimentados pelos personagens: um casal de ex­ super herois e seus filhos que, impedidos de exercer seus poderes, são obrigados a levar uma vida “normal”. O poder do Sr. Incrível está na força. A Sra. Incrível transforma-se na mulher -elástico. A filha mais velha, uma garota de uns 12 anos, magrinha e tímida, pode se tornar invisível. Falante e ágil, o filho do meio, tem a habilidade de correr a uma velocidade enorme. E o caçula, um bebê engraçadinho e comilão, de início parece ser o único membro da família sem capacidades extraordinárias.

À medida que me vejo interessada pela figurada mulher­ elástico, me dou conta da sutileza do filme na escolha dos poderes dos personagens. Percebo, pela reação dos meus filhos, que eles também se interessavam pelas características dos diversos personagens, identificando semelhanças e diferenças entre os protagonistas e eles próprios. Não demorou muito para trocarmos olhares de cumplicidade e risadinhas diante de algumas cenas que lembram situações conhecidas por todos nós.

Saímos do cinema comentando animadamente o filme e continuamos a discuti-lo durante toda a semana. A partir daí, a imagem da mulher-elástico, excelente representação para a mulher na contemporaneidade, não me abandonou mais. Lembrei-me de que Freud localiza o mal-estar do seu tempo na repressão da vida sexual devido à moral civilizada daquela época. Inicialmente, ele compreende que a neurose atinge mais as mulheres que os homens – embora certamente esteja presente também neles – justamente porque são elas o alvo privilegiado dessa moral repressora. Ao restringir a sexualidade ao casamento, a sociedade no início do século XX organizava-se para manter a mulher no espaço privado, longe da “tentação” do âmbito público, fonte de saber e de autonomia.

Desde a década de 50, as transformações no modo de vida das mulheres vêm se processando de maneira mais acelerada. A entrada no mercado de trabalho, o acesso à formação universitária e às novas formas de erotismo organizaram a luta feminina em defesa dos seus direitos. A pílula anticoncepcional e as mudanças nos contratos matrimoniais também foram, aos poucos, organizando a saída da mulher do  universo doméstico e do exclusivo cuidado dos filhos, conduzindo-a para o espaço público, antes reservado quase exclusivamente aos homens.

IDEAIS AMPLIADOS

A progressiva conquista de novos lugares e papéis femininos trouxe uma infinidade de ganhos que, como não poderia deixar de ser, teve seu preço. Isso solicita uma mudança na posição subjetiva da mulher, o que certamente exige a passagem pelo luto da perda de garantia das antigas posições. Caminho tortuoso e difícil, pois a estrada é em direção à autonomia, única via de acesso a novas realizações, pede que a mulher assuma o preço da responsabilidade de uma posição de sujeito, propriamente desejante.

A mudança dos tempos traz sempre consigo a transformação dos ideais, resultado de novas conquistas do ser humano no saber sobre si mesmo. Ocorrem aí o abandono de interesses antigos e a descoberta de novos interesses e necessidades. No entanto, para as mulheres essa mudança trouxe também uma ampliação dos ideais. No que diz respeito à sua inserção na cultura, elas confrontam se hoje não apenas com as modificações dos ideais, mas com um verdadeiro acúmulo deles.

Presas à necessidade de corresponder ainda aos ideais do âmbito doméstico, reinado de suas mães e avós, as mulheres se vêm hoje requisitadas pelas demandas próprias do espaço público – profissional e social. Às voltas com o difícil caminho que qualquer mudança de posição subjetiva exige as mulheres parecem ter diante de si um espectro amplo de ideais a alcançar.

Esticadas entre uma identificação passiva e materna e outra ativa e fálica, tentam lidar com o excesso que caracteriza as demandas do seu cotidiano. Resulta dar um verdadeiro acúmulo que requer uma elasticidade nunca antes sequer imaginada. Se a necessidade de perseguir ideais constrói a trajetória cultural do ser humano ao longo do tempo, o percurso das mulheres, em particular, nos permite constatar que, ao modelo de santidade e beleza, veio juntar-se também o de sucesso – tão caro à cultura contemporânea.

Assim, uma boa representação do ideal de feminino dos dias atuais é a figura da mulher-elástico. Para tentar dar conta de tantos ideais, a mulher atual – tão bem representada pela Sra. Incrível – precisa ter um funcionamento verdadeiramente elástico. Deve desempenhar com sucesso, uma gama tão variada de funções que só mesmo uma elasticidade originária poderia lhe garantir ao menos, algum êxito numa empreitada tão fantástica, própria dos super-heróis!

Se a particularidade da relação da menina com a castração, tal como destacou Freud, assinala a dificuldade de acesso à sublimação e à construção do superego, é essa mesma particularidade que parece lhe garantir a elasticidade de sua organização libidinal e, consequentemente sua diversidade de possibilidades identitárias.

Se, por um lado, a mulher pode desfrutar de inúmeras possibilidades de gozo sexual, por outro, essa diversidade lhe garante uma elasticidade considerável de interesses – e não apenas sexuais. Fala-se com frequência na capacidade feminina de fazer muitas coisas e investir simultaneamente, em campos diversos. No entanto, para além dessa elasticidade originária, não existiria também uma dimensão essencialmente conflitiva nessa amplitude de exigências?

Para corresponder às inúmeras demandas próprias de sua época, a mulher-elástico precisa não só ser ideal, mas também ter o corpo ideal. Além de mãe dedicada, compreensiva e bem-humorada, deve conservar-se sempre jovem. Amante ardente e bem-disposta, precisa ter uma diversidade de investimentos. Com igual obstinação, realiza os exercícios físicos indispensáveis à manutenção do corpo perfeito e mantém vivos seus interesses culturais nos destinos da humanidade.

Mantendo um pé na academia de ginástica e o outro na mostra de cinema do momento, a mulher­ elástico é medianamente culta. Bem informada, é capaz de falar sobre qualquer assunto, mesmo que deixe transparecer certa mediocridade em muitos deles. Além de magra, realizada e bem-sucedida profissionalmente, é bonita, bem-cuidada e economicamente independente. Assiste a filmes de Godard com o mesmo entusiasmo com que entra em uma churrascaria, embora se prive de boa parte do menu disponível. Serena e controlada, a mulher-elástico come carne – desde que acompanhada de salada!

MAGREZA EM DESTAQUE

A hipervalorização da magreza tem acentuado a relação entre a autoestima e a imagem do corpo esguio, particularmente para o sexo feminino. Há 20 anos, as modelos pesavam 8% a menos que a média das mulheres, atualmente a diferença chega a 20%. Embora a aparência física seja um elemento fundamental para a imagem feminina em diversas épocas e culturas, a magreza nem sempre foi o ideal almejado. Muito pelo contrário.

Uma breve passagem pela história da arte revela que a Renascença valorizava corpos fartos, quadris grandes e abdomens avantajados. Embora se saiba que a exigência de magreza nas mulheres tenha começado por volta dos anos 20, em sintonia com o início do movimento de liberação feminina, nas décadas de 40 e 50 as estrelas de Hollywood, como Rita Hayworth, por exemplo, exibiam seios abundantes e formas a curvilíneas, valorizadas pela sensualidade. A exigência de magreza intensificou-se nos anos 60 e acentuou-se consideravelmente na década de 70. As formas do corpo idealizado tornaram-se menos arredondadas.

Embora padrões estéticos tenham se modificado, a luta para atingir o modelo de beleza vigente marca a relação da mulher com seu corpo em todas as épocas e culturas. Em 1580, o escritor Michel de Montaigne (1533-1592) já chamava a atenção em seus ensaios para o fato de que as mulheres desprezam a dor em função da vaidade. É assim que, ao longo dos tempos, elas escravizam o corpo em nome de parâmetros ao qual aspiram em cada época.

Houve o tempo em que esfolavam a pele para adquirir a tez mais fresca, ou buscavam propositalmente desenvolver problemas estomacais para conseguir a palidez valorizada na ocasião ou, ainda, apertavam o ventre em duros espartilhos para exibir a cintura delgada. Qualquer semelhança com a submissão aos atuais tratamentos estéticos e cirúrgicos, muitas vezes bastante dolorosos, e a especial dedicação às dietas alimentares para emagrecer, algumas radicais e perigosas para a saúde, não uma mera coincidência.

O ideal de magreza domina a cena contemporânea, não somente como ícone desucesso. Constitui-se até como modelo de perfeição moral, o corpo magro é a senha para se conseguir aprovação, poder e dinheiro. A idealização de forma bem esculpidas exige da mulher-elástico disciplina e firmeza – só desse modo poderá permanecer no ringue da luta pela beleza fetichizada pela cultura.

Engajada na busca pelo valorizado corpo fino e rígido, ela se lança na corrida insana para não perder o bonde de seu tempo, Escrava da amplitude e da diversidade dos ideais, dos quais precisa ao menos conseguir se aproximar, mulher-elástico, vitimada pelo excesso e pelo cansaço diante de suas incríveis atribuições, vive culpada diante da constatação da impossibilidade de ser tudo o que se exige dela.

CONFLITO E QUESTÃO

Endividada consigo mesma e com os que a cercam, ela é, ao mesmo tempo, culpada e impotente. Experimentando frequentemente uma dolorosa sensação de que algo lhe escapou, de que alguma coisa transborda sempre do seu cotidiano assoberbado, a mulher­ elástico constata, desamparada, que seu corpo dói!

E para que tudo isso? Às vezes, é no ponto extremo da dor que se pode encontrar, ou reencontrar o próprio limite a essa espécie de tirania velada que nos leva, frequentemente, a nos posicionar como objeto no desejo do outro. Poder reinventar cada dia, os caminhos do próprio desejo e seguir construindo um discurso próprio supõe uma mudança de pergunta, para quem tudo isso? A mudança da questão supõe a existência de um sujeito a quem se destinam os esforços realizados e, certamente, também os prazeres das vitórias conquistadas. Isso exige que a mulher se pergunte se é ela mesma o destinatário desses esforços, o sujeito dessa pergunta.

Todas nós, mulheres, experimentamos na carne as diversas formas de manifestação da angústia que a exigência de elasticidade acaba por despertar no cotidiano. Se abandonar o terreno das certezas não é nem mesmo uma possibilidade para a mulher contemporânea, visto que há muito as certezas já se foram, resta reconhecer a dimensão essencialmente de conflito colocada em cena pelas próprias conquistas em direção à autonomia.

Obviamente, não se trata de nos culpar pelas conquistas e pelos avanços obtidos, muito menos de defender o retrocesso a posições anteriores. Sem ilusões ou hipocrisias, devemos admitir que o que tínhamos antes certamente não era melhor do que o que temos hoje. Devemos, ao contrário, usufruir prazerosamente de tudo que foi conquistado. Trata-se, então, de nos colocarmos no interior do conflito para problematizá-lo, para circunscrevê-lo com a circulação de perguntas e não com a enunciação de ingênuas certezas. Assim, em nosso caro mundo contemporâneo, seguiremos, todas nós, mulheres-elástico, cansadas, doloridas, culpadas e cheias de incertezas, porém sem jamais perder um certo brilho que insiste em sobreviver e clarear perguntas – uma espécie de testemunho de rebeldia que nos habita e constitui Herdeiras da Fênix, somos consumidas pelo fogo com mais frequência do que seria desejável. No entanto, renascemos das cinzas! Talvez somente por teimosia ou, simplesmente, por insistir em sustentar a esperança de viver meramente como diz Caetano Veloso, sabendo a dor e a delícia de ser o que é”.

MARIA HELENA FERNANDES – é psicanalista, doutora em psicanálise e psicopatologia pela Universidade de Paris VII, com pós-doutoramento pelo Departamento de Psiquiatria da Unifesp, professora do curso de psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae.

OUTROS OLHARES

A VEZ DOS TIKTOKERS

Aplicativo chinês de vídeos curtos vira mania entre adolescentes e cria nova leva de influencers

Há algumas semanas, em sua edição comemorativa de 10 anos, a VidCon — conferência realizada anualmente no sul da Califórnia para celebrar influenciadores e criadores de conteúdo digital — pareceu ter testemunhado o início de uma revolução. Tratados como superestrelas do evento, com direito a segurança reforçada e contato quase impossível com os fãs, os youtubers passaram a ter de dividir atenções e idolatria com uma rede de criadores praticamente desconhecida até o começo deste ano: os tiktokers. Adolescentes ou jovens adultos cujos vídeos de até 15 segundos acumulam milhões de visualizações eram tratados como astros do rock em meio à multidão juvenil que tomou a cidade de Anaheim. Acessíveis, eles distribuíram autógrafos, fizeram selfies e gravaram conteúdo com os fãs — e podem ganhar até US$ 1 milhão por publicação.

É bem provável que você desconheça a existência de uma plataforma chamada TikTok — apesar de o aplicativo ter sido o terceiro mais baixado do mundo no primeiro quadrimestre de 2019, o primeiro, se considerarmos apenas redes sociais —, mas isso é questão de tempo. Tente perguntar para um adolescente conhecido e terá uma resposta, provavelmente confusa, sobre de que se trata.

Grosso modo, o TikTok é um aplicativo baseado na criação e no compartilhamento de vídeos curtos. Ele nasceu a partir de outra plataforma, o Musical.ly, que era voltado à produção de lip syncs (dublagem performática de uma música, como um playback) e virou um fenômeno teen. Criado em 2014, o Musical.ly foi vendido para a startup chinesa ByteDance num negócio estimado em US$ 1 bilhão em novembro passado. A nova dona juntou a base de dados da aquisição com a do Douyin, nome em chinês do TikTok, e tornou global a rede social.

Hoje, o TikTok está disponível em mais de 150 países, em 75 idiomas, e conta com mais de dez escritórios espalhados pelo mundo (incluindo um em São Paulo), tendo base em Pequim. Apesar de não divulgar números oficiais, estima-se que a plataforma tenha 1,2 bilhão de usuários mensais, superando o Instagram (que afirmou ter 1 bilhão em 2018) e ficando atrás apenas do YouTube (1,9 bilhão) e Facebook (mais de 2 bilhões).

Mas, afinal, o que diferencia o TikTok de outros sistemas baseados em vídeos curtos, como o Snapchat e os stories do Instagram?

“É um lugar de vídeos curtos e autênticos. Rápidos, de pessoas reais para pessoas reais. O grande diferencial também é a narrativa que você consegue construir com as ferramentas de trilha sonora, filtros, efeitos e até mesmo usando os cortes ao gravar”, explicou Bruno Carvente, formado em sistemas de informação na Universidade de São Paulo (USP). Na rede social, onde é especializado em vídeos com efeitos especiais (fruto de um intercâmbio em Nova York), Carvente atende pelo nome de @iBugou e é um dos principais tiktokers do Brasil, com 2,4 milhões de seguidores.

Presente em mais de 150 países, em 75 idiomas, o TikTok tem cerca de 1,2 bilhão de usuários mensais, o que o coloca atrás apenas do YouTube (1,9 bilhão) e do Facebook (mais de 2 bilhões) principais tiktokers do Brasil, com 2,4 milhões de seguidores.

O TikTok disponibiliza toda uma gama de efeitos de edição rápidos e intuitivos dentro do aplicativo, além de filtros especiais e a possibilidade de procurar sons e músicas para usar como trilhas dos vídeos.

Os usuários ainda são fortemente incentivados a interagir com outros, mesmo aqueles que não estão em sua lista de seguidores — outro diferencial em relação às demais plataformas. Tanto é que, quando o usuário abre o aplicativo, a primeira coisa que vê não é um feed de publicações de amigos, mas uma página chamada “Para você”. Ela é criada por meio de um algoritmo baseado nos vídeos com os quais o usuário interagiu ou aos quais acabou de assistir. O material é interminável. A prioridade ali não é necessariamente saber o que seus amigos estão fazendo, mas estimular a criação de conteúdo a partir de vídeos que você parece ter demonstrado querer assistir. A partir deles, o usuário pode fazer vídeos de “resposta” ou criar “duetos” — duplicando um vídeo famoso e adicionando seu próprio conteúdo. Ou participar de um dos muitos desafios de hashtags (de dança, canto, esportes, memes ou o que quer que seja) propostos pelo próprio aplicativo ou por outros usuários.

“Lá podemos ser plurais: fiéis a nosso conteúdo, mas não limitados a ele”, explicou Letícia Gomes (@leticiafgomes), cujo perfil tem 1,1 milhão de seguidores. Na plataforma, ela é especialista em vídeos de transformação — seu conteúdo mais famoso, visto mais de 12 milhões de vezes, é um vídeo de 15 segundos em que, usando maquiagem e criatividade, ela se “transforma” em Michael Jackson. “Outra vantagem é que podemos postar um vídeo a qualquer momento, sem horário específico, diferente das outras redes, que possuem várias métricas. Um vídeo que você postou há uma semana, por exemplo, continua sendo entregue para as pessoas, e os números crescem cada vez mais.”

Em um artigo intitulado “O TikTok vai mudar a maneira como suas redes sociais funcionam — mesmo que você o esteja evitando”, o jornal The New York Times explica que a plataforma “responde assertivamente à pergunta ‘O que eu devo ver?’ com uma inundação de conteúdo. Da mesma forma, fornece muitas respostas para a paralisante dúvida ‘O que devo postar?’”. O resultado é um leque enorme de possibilidades que os jovens — 60% dos usuários ativos têm entre 16 e 24 anos, de acordo com pesquisa da consultoria Mediakix — não teriam capacidade de inventar sem um empurrãozinho.

Com um volume tão grande e diverso de conteúdo sendo criado, e a formação de influenciadores próprios, seguidos por milhões de usuários, o TikTok passou a pautar outras redes sociais e até a “vida real”. “Hoje o público do aplicativo está ficando mais velho, e o motivo para ter mais adultos e adolescentes são os memes, os trends e os virais criados por lá”, reforçou Yurgen Maas, outro influencer brasileiro, cujo vídeo mais famoso, em que limpa seu teclado, de onde caem farelos, moedas, canetas e até um gato de verdade, passou pelas mais diferentes redes, por fóruns de humor, por um programa da RedeTV! e até mesmo por um canal de televisão chinês. Outro exemplo é o baiano Kaique Brito, de apenas 14 anos, que fez sucesso no Twitter e no WhatsApp com um vídeo ironizando discursos sobre “racismo reverso”.

Mas talvez o mais famoso caso de meme do TikTok que ganhou o mundo esteja na música. Na última segunda-feira 22, a música “Old town road”, do rapper Lil Nas X com o cantor country Billy Ray Cyrus, igualou o recorde histórico de “Despacito” (de Luis Fonsi e Daddy Yankee) e “One sweet day” (de Mariah Carey) como canção a ocupar por mais tempo a liderança das paradas americanas — são 16 semanas consecutivas. Isso só foi possível depois de a música — lançada de forma independente pelo americano de 20 anos, que comprou a melodia de um produtor holandês pelo YouTube — ter atingido o tiktoker Michael Pelchat (@nicemichael). Com traje de caubói, ele gravou um vídeo engraçado de 15 segundos e postou para seus 123 mil seguidores na plataforma em fevereiro. O clipe inocente inesperadamente viralizou e gerou uma série de versões de outros usuários. A partir daí, Lil Nas X assinou com gravadora, lançou um EP, apresentou-se em grandes festivais, como o inglês Glastonbury, saiu da casa dos pais e vem acumulando recordes.

O TikTok não revela quantos usuários brasileiros estão em seu banco de dados, mas confirma que tem planos de expansão no país. “O Brasil é um mercado importante para o TikTok e, por ter a maior população do continente, há um potencial enorme para mais brasileiros mostrarem seu talento e criatividade. Estamos trabalhando com marcas e também com superstars brasileiros”, afirmou em nota a empresa, que não trabalha com porta-vozes.

Recentemente, a cantora Anitta fez uma parceria com a plataforma para lançar o álbum Kisses, com desafios de coreografias voltados para diferentes países. O mesmo aconteceu com o DJ Alok, cujo single Pray também foi foco de uma ação no TikTok, que premiou o melhor vídeo com um iPhone X. Segundo a revista The Atlantic, só em 2018, a ByteDance gastou mais de US$ 1 bilhão em propaganda, chegando a pagar US$ 1 milhão para um vídeo de 15 segundos. Tudo isso para expandir sua atuação e não ser só mais uma rede social passageira.

Todos os influencers procurados pela reportagem confirmam que já receberam para criar conteúdos para marcas (os famosos publieditoriais), citando empresas como Sony Pictures, Warner Music, Disney e Amaro como contratantes. “Ao contrário de outras plataformas estabelecidas, como Facebook, Twitter e Instagram, o TikTok não tem seus formatos de mídia estabelecidos. Isso pode parecer uma desvantagem para o anunciante, mas é uma vantagem do ponto de vista criativo”, defendeu Larissa Magrisso, vice-presidente de criação e conteúdo na W3haus, agência pioneira na comunicação e publicidade digital.

“A linguagem do TikTok é muito contemporânea: são vídeos curtos, com uma linguagem pop, com música, os principais territórios são humor e música, mas ele também é usado para fazer tutoriais supercriativos de maquiagem, de receitas… E as possibilidades do aplicativo, como missões, desafios de dança, humor e lip sync, permitem, do ponto de vista da publicidade, ser mais criativo que na concorrência”, afirmou Magrisso.

GESTÃO E CARREIRA

PEGA NA MENTIRA

Mentir é humano, mas tem limite. Entenda até onde e quando isso é aceitável nas relações de trabalho e quando pode ter consequências sérias

Fale a verdade: você já contou alguma mentira no trabalho? Você pode não se lembrar ou não querer admitir, mas o mais provável é que sim. Quem garante são os especialistas em comportamento, que definem a mentira como uma espécie de estratégia de defesa necessária à sobrevivência em sociedade. “Onde houver relações humanas haverá mentira”, diz Luiz Scocca, psiquiatra no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. “Falar a verdade o tempo inteiro é tão raro quanto seria contraproducente para uma boa socialização.” Há quem diga que a presença da mentira obedece ao princípio de Pareto (também conhecido como regra dos 80/20): 20% das pessoas contam 80% das lorotas e os 80% restantes falam os outros 20%. Ou seja, uns inventam mais, outros menos, mas todo mundo mente.

No contexto do trabalho não poderia ser diferente. Valorizar o currículo com experiências e habilidades e maquiar pontos fracos e deslizes na carreira são clássicos. Um levantamento recente da DNA Outplacement revelou que 75% dos brasileiros mentem no CV. Informações sobre o salário no último emprego, domínio de inglês, tempo de inatividade e qualificações de ensino são as principais inverdades. Mesmo prevista pelos recrutadores, a prática pode custar caro. Em uma pesquisa deste ano da consultoria de recolocação Robert Half, 33% dos executivos disseram ter descartado candidatos no processo seletivo ao perceberem que não falavam a verdade.

De estagiários a executivos, o que pode variar é o grau de elaboração, mas todos mentem. Nem autoridades e profissionais altamente qualificados escapam. Há pouco tempo, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, e a professora e pesquisadora Joana D’Arc Félix de Sousa viraram notícia por terem inflado o currículo com títulos que, na verdade, não têm – ele, o diploma de doutorado em direito; e ela, de pós-doutorado na área de química, ambos pela Universidade Harvard, uma das mais prestigiadas do mundo. Sem explicar muito bem a manobra, depois de flagrados, os dois apenas corrigiram a informação na plataforma de currículos na internet, mas o filme já estava queimado. Para Marcela Esteves, gerente de recrutamento da Robert Half, nenhuma mentira está liberada quando se está buscando uma vaga. “Nem o nervosismo ou a pressão pela necessidade do emprego podem justificar faltar com a verdade. A rotina profissional é repleta de situações que colocam o indivíduo sob tensão e, se ele mente na entrevista, entende-se que vai agir do mesmo modo no dia a dia de suas funções”, avalia.

Mas nem toda mentira deve ser julgada pelo viés moral. Pense naquela vez que você inventou uma pendência para escapar do almoço ou café com o colega chato. Ou quando tranquilizou o chefe dizendo que estava terminando uma tarefa que nem sequer tinha começado. Ou quando deixou de dar uma opinião sincera sobre a roupa, o corte de cabelo ou uma ideia de alguém. São exemplos de mentiras sociais, quase sempre inofensivas e necessárias para manter girando a roda dos relacionamentos.

POR QUE INVENTAMOS?

Cada um tem uma motivação: uns para obter vantagens, outros para se sentirem valorizados; uns para evitar algum conflito, outros para ser aceitos no grupo. Na maioria das vezes, o que está em jogo é a segurança e a autoestima.

Há, é claro, mentirosos mal-intencionados, que manipulam pessoas e informações de olho em objetivos pessoais. A servidora pública Ângela*, de 43 anos, chegou a ser exonerada do órgão em que atuava em um dos ministérios do governo federal por causa das invenções de uma subordinada. Há quatro anos, quando a mãe de Ângela faleceu, ela tirou o período de licença a que tinha direito. Depois de alguns dias afastada, a subordinada levou ao coordenador que a chefe não ia trabalhar há dias e que havia deixado projetos pendentes. Sem checar a situação no RH, o gestor acabou não só dispensando Ângela como promovendo a subordinada ao cargo dela. O emprego – em outra posição – foi recuperado em algumas sema nas, mas para isso foi preciso ameaçar com um processo e reunir outras vítimas das mentiras da funcionária: um estagiário acusado de furto, outra que levou fama por intriga e até a moça do cafezinho, acusada de falta de higiene quando, na verdade, era a outra, dissimulada, que a boicotava jogando sujeira na bebida.

Como agir com um colega, subordinado ou líder mentiroso vai depender da mentira, do autor dela e das consequências para as pessoas e aos interesses da companhia. O mesmo vale para a punição aplicada. No universo das corporações, o prejuízo de faltar com a verdade pode render desde uma advertência ou suspensão temporária até a dispensa do funcionário. Pelo Artigo nº 482 da CLT, atos de improbidade validam a demissão por justa causa. Ações ou omissões desonestas por parte do candidato ou empregado – como inventar uma morte ou doença para justificar falta ou apresentar documentos falsos, de atestados médicos a certificados de ensino, por exemplo – encaixam o trabalhador nessa categoria.

A punição está prevista em lei, mas a decisão de aplicá-la cabe ao empregador. De qualquer forma, sempre que uma mentira é contada no trabalho, o maior prejudicado é o autor dela. “Primeiro, porque ele sabe que mentiu, e o medo de ser desmascarado pode se transformar em estresse e insegurança, prejudicando o bem-estar e a produtividade do trabalhador”, diz Adriana Fellipelli, CEO da consultoria em desenvolvimento humano Fellipelli. Além disso, o mais comum é que equipe e gestor percebam o comportamento mentiroso, ainda mais quando é recorrente. “Isso coloca em dúvida o caráter e a credibilidade do colaborador, muitas vezes de forma irreversível. Talvez ele não seja despedido, mas poderá ser mais cobrado, rebaixado ou até excluído de projetos e processos, o que também dificultará a vida dele no ambiente profissional”, diz Nathana Lacerda, especialista em imagem e reputação. O indivíduo tem sempre a escolha entre dizer a verdade e mentir, mas os especialistas destacam que os líderes têm responsabilidade na criação de ambientes à prova de desonestidade e subterfúgios. “Culturas organizacionais pouco abertas a aceitar o erro como parte do aprendizado acabam estimulando a mentira”, afirma Maria Junior, sócio da S2, consultoria especializada em investigações corporativas e prevenção de fraudes nas empresas. Ele cita, ainda, hierarquias rígidas demais, alta pressão por resultados e gestores pouco acessíveis como fomentadores de insegurança. É claro que nada disso isenta o profissional do compromisso de ser honesto. “Valorizar a transparência e a vulnerabilidade ao erro, assim como desenvolver nas equipes a consciência de que a confiança é a base das relações de trabalho saudáveis, evitaria mentiras e desgastes causados por delas”, afirma Adriana Fellipelli.

OS DOIS LADOS DA TECNOLOGIA

Nunca se mentiu tanto quanto após o surgimento do e-mail e das redes sociais. Três vezes mais na comunicação por mensagens de texto em comparação com o olho no olho. Por e-mail, cinco vezes mais. Essa foi a conclusão de um estudo feito por psicólogos da Universidade de Massachusetts Amherst. Para os pesquisadores, a tecnologia permite uma distância psicológica maior do que a física, o que alimenta, a falsidade. Além disso, estar invisível atrás de uma tela evita ser denunciado pelos sinais não verbais, como a timidez e o nervosismo aparentes.

Por outro lado, as redes sociais podem se tornar uma armadilha para pegar mentirosos no pulo. Quem sabe bem é Gustavo*, de 31 anos, que trabalha no atendimento de uma agência de marketing esportivo. Na empresa era vetado aos empregados aceitar presentes de clientes e parceiros. Regra que a gerente de Gustavo desrespeitou algumas vezes, até que foi denunciada por si mesma ao postar uma foto durante uma viagem oferecida por um potencial cliente. Quem percebeu, e chamou Gustavo para explicações, foi o diretor-geral da companhia. “Como eu era do atendimento, primeira interface da agência com o cliente, o gestor imaginou que eu tivesse recebido e repassado o benefício, o que não havia acontecido”, lembra. A própria gerente admitiu o erro e tentou minimizá-lo dizendo que estava “fazendo relacionamento”. Enquanto Gustavo engoliu a seco a sensação de humilhação e desrespeito, ela foi demitida algum tempo depois.

AS LOROTAS MAIS CONTADAS

Nenhuma está liberada ou deve ser incentivada, mas é praticamente impossível eliminá-las do ambiente profissional. Veja a gravidade de algumas das mentiras mais repetidas no trabalho

TOLERÁVEIS

***De vez em quando, inventar uma desculpa para chegar atrasado ou sair mais cedo

***Elogiar o desempenho ou a aparência de um par ou do gestor só para agradar

***”Estou terminando”, quando nem começou ou está iniciando uma tarefa

***”Não recebi seu e-mail”, quando esqueceu ou não abriu a mensagem

***”Preciso terminar uma pendência” para escapar do almoço com um colega indesejado

PERIGOSAS

***Exagerar no currículo ou na entrevista de emprego em relação à fluência em outro idioma ou ao domínio de uma habilidade específica. Quando a competência em questão não é imprescindível à função diária ou há espaço para ser desenvolvida, é menos grave

***Agir contra as normas de conduta da empresa. Por exemplo: aceitar vantagens (materiais ou não) quando isso é vetado pela companhia

***Pegar sozinho o crédito por trabalhos feitos em parceria

IMPERDOÁVEIS

***Apresentar documentos adulterados, de atestado médico a certificados de ensino

***Mentir no currículo ou entrevista em relação à experiência anterior ou formação profissional, entre outras invenções que possam prejudicar o desempenho da função para a qual foi contratado

***Criar histórias envolvendo colegas. Por exemplo: Participação em atos lícitos ou ilícitos, envolvimento íntimo ou qualquer coisa que seja ofensivo à pessoa

***Alterar documentos ou manipular informações da companhia para fins internos, externos ou particulares

OS TIPOS DE CASCATEIRO

Nem todo mundo mente igual ou pelas mesmas razões. A seguir, listamos os principais perfis

SOCIAL

Age para despistar pequenas falhas, se valorizar, pertencer a um grupo ou forçar intimidade. Nem sempre as mentiras contadas afetam processos ou o trabalho coletivo, mas tiram pontos de credibilidade perante pares e gestores e deixam, sim, o contador com má fama. Por exemplo, distribui elogios só para agradar, está sempre a par dos assuntos e tem uma história para contar, raramente admite que comete falhas no trabalho.

CONVICTO

Exagerar, dar desculpas e simular que está por dentro é com ele mesmo. ele mente e não nega, porque crê na função social da prática, e não necessariamente por falta de caráter. Para Luiz Scocca, psiquiatra do HC-USP, mentir com eficiência não deixa de ser uma demonstração de inteligência. ” É preciso esforço mental para dominar os sinais não verbais (expressões faciais, postura, gestos) em alinhamento com a fala”, diz. Atenção para não passar dos limites e contaminar o ambiente.

MANIPULADOR

Mal-intencionados, psicopatas e pessoas com transtorno de personalidade antissocial têm consciência da dissimulação e normalmente estabelecem um objetivo específico. Agem por falta de empatia, ou seja, sem considerar o lado do outro, por isso frequentemente causam danos ou geram conflito.

PATOLÓGICO (MITÓMANO)

Não mente para conseguir alguma coisa, mas porque não consegue controlar. Pode criar de pequenas mentiras a histórias mirabolantes e é comum cair em contradição e contar versões fantasiosas de situações na frente de pessoas íntimas – o que não o faz mudar de comportamento, pois se trata de um transtorno psiquiátrico, que demanda tratamento complexo.

ALIMENTO DIÁRIO

A HISTÓRIA DO CASAMENTO

DIA 1 – O PLANO ORIGINAL

Então o SENHOR Deus fez nascer do solo todo tipo de árvores agradáveis aos olhos e boas para alimento. E no meio do jardim estavam a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. — Gênesis 2:9

Era uma vez um jardim que crescia em torno de duas árvores. Como você já deve saber, esse não era um jardim comum. Nele não havia sofrimento ou degradação. Rios cruzavam a paisagem do Éden, fornecendo água pura e cristalina a todos os que habitavam no jardim.

Imagine só o esplendor das árvores que cresciam em um ambiente como esse. Cada uma delas era um símbolo sem defeito da vida que crescia em um solo rico, despertada por cascatas de águas e nutrida por raios de sol radiantes e ao mesmo tempo amenos. Havia muitas árvores no jardim, mas a Bíblia menciona apenas duas: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Ambas as árvores desfrutavam das mesmas condições imaculadas e incontaminadas – um estado de existência que esta Terra caída jamais poderia reproduzir. No entanto, uma delas gerava vida, e a outra morte.

Você provavelmente já ouviu essa história antes, pois toda história de casamento tem sua origem nessas duas árvores do Éden. De muitas maneiras, nossos casamentos podem ser comparados a árvores de vida. Casamentos crescem em velocidades diferentes em diferentes estações, e são melhores quando estão fincados por raízes maduras. Eles experimentam tanto anos frutíferos quanto estéreis, assim como anos de crescimento excepcional e outros em que o crescimento é atrofiado. Cada casamento é afetado pelo clima local, pela mudança de estações e pelas tempestades que os açoitam, mas o casamento oferece abrigo contra os ventos da vida em constante mudança.

A imagem de capa deste livro nos dá um vislumbre do que é a vida de uma árvore. O que vemos neste agrupamento de anéis é, na verdade, a história de vida da árvore – a impressão digital de sua jornada.

Na escola, muitos de nós aprendemos um pouco sobre dendrologia (o estudo das árvores e arbustos) e podemos determinar aproximadamente a idade de uma árvore contando seus anéis. Entretanto, ainda que saibamos contar os anéis de uma árvore, estamos longe de ser especialistas em dendrologia (mesmo que a gente saiba apreciar uma bela árvore). Além da idade exata, especialistas poderiam nos dar detalhes íntimos sobre a vida de uma árvore simplesmente observando seu corte transversal. Para o olho treinado, cada anel da árvore representa uma história. As diferentes espessuras de cada faixa dizem se a árvore passou por um inverno ameno ou excepcionalmente rigoroso, revelando padrões de seca ou chuva abundante. Uma inspeção detalhada revelaria a ocorrência de lesões ou ataques de pragas. Cada anel é um ano de estações, circular na forma e único em sua natureza.

Cada ano de casamento poderia ser comparado à trajetória do anel de uma árvore: circular na forma e único em sua natureza. Os aniversários marcam o fim de um ano e o início do próximo. A data anual é uma marca evidente, mas os meses, semanas e dias que enchem o calendário anual são uma coleção de alegria, dor, trabalho e até surpresas.

SUA HISTÓRIA

Ao iniciar esta jornada conosco, lembre-se de que sua história (ou futura história) é simplesmente isto: sua história. Toda vida e todo casamento são uma coleção de alegrias, vitórias e desafios. Por tempo demais, grande parte da Igreja se contentou em oferecer receitas genéricas para os problemas que afligem nossos casamentos. Ouvimos: “Esposas, submetam-se. Maridos, amem”. Embora haja verdade e valor nessas palavras, francamente, não existe um guia para a edificação de um casamento que sirva para todos, porque cada casamento tem uma impressão digital única.

Vamos olhar as coisas do seguinte modo: o projeto de toda casa inclui uma fundação, paredes de sustentação e um teto, mas o arquiteto tem a liberdade criativa para variar o projeto de acordo com as necessidades e desejos específicos de seus moradores. O mesmo acontece com nossos casamentos. Somos livres para projetá-los a fim de que eles nos sirvam da melhor maneira possível. Cada parte deles deve ter a aparência mais conveniente e ter a liberdade de variar de acordo com o momento que se está atravessando na vida. Em nosso casamento, por exemplo, estamos entrando em um tempo no qual criar filhos não será mais nosso papel predominante dentro da família. Isso significa que não demorará muito para que nossa casa não precise de tantos quartos quanto tinha no passado. Essa mudança em nossos casamentos é tão natural quanto a mudança das estações. Tudo isso é normal.

Existem verdades e valores universais e eternos que impulsionarão seu casamento a ser tudo o que Deus o chamou para ser. Deus quer que cada casamento seja construído com amor, respeito, alegria, submissão, provisão, fidelidade, cuidado, intimidade e legado – para citar apenas alguns alicerces. Mas, a maneira como esses blocos de fundação são expressos em sua vida refletirão a singularidade da sua personalidade e a estação que o seu casamento atravessa. Deus esboça os princípios fundamentais, porém deixa espaço para que você se expresse nas particularidades.

Deus ama a diversidade. Uma olhada na Criação confirmará isso. Queremos deixar claro desde o princípio que não acreditamos que todos os casais se encaixem em um molde genérico para o casamento. Nos dias de hoje, é mais comum que ambos os cônjuges trabalhem fora de casa (em 2012, aproximadamente 60% das mulheres em idade para trabalhar nos Estados Unidos estavam empregadas),1 e uma esposa talvez ganhe mais do que seu marido. A capacidade da esposa de gerar renda não significa que ela não seja submissa ou que o marido não seja um líder. Significa simplesmente que ambos estão contribuindo para a renda familiar, o que significa que o casamento deles provavelmente parece ser diferente do casamento de seus avós.

Nosso casamento é assim. Ambos trabalhamos e ambos somos líderes fora do nosso casamento. Às vezes trabalhamos juntos (como no caso deste livro), às vezes trabalhamos separados, mas o objetivo do nosso casamento e os nossos valores essenciais não oscilam. Os papeis do marido e da mulher no relacionamento não variam de acordo com a nossa capacidade de gerar renda.

Naquele primeiro jardim, Deus disse tanto a Adão quanto a Eva para serem frutíferos e se multiplicarem. Ele não disse que Eva deveria ficar em casa e administrar a multiplicação de Adão. A mulher virtuosa de Provérbios 31 era uma administradora do lar e uma empreendedora impressionante. Se isso parece ser o certo para seu casamento, faça-o! Ou talvez um de vocês queira ficar em casa em tempo integral – tendo ou não tendo filhos. Não há nada de errado com nenhuma dessas abordagens.

A princípio parece natural presumir que o que funcionou tão bem para os outros funcionará bem para todos. Mas estamos vivendo dias únicos com desafios únicos em todas as frentes. Queremos que o nosso casamento seja forte. Isso significa que você precisa ter a liberdade para construir o casamento dos seus sonhos, e não o casamento com o qual outra pessoa sonhou.

Encorajamos você a parar por um instante e pedir ao Espírito de Deus, que é o Espírito da verdade, para revelar como as Suas verdades eternas podem transformar seu casamento em uma união especial – aquela que Ele projetou exclusivamente para vocês antes do início dos tempos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O QUE OS CACHORROS PENSAM

Exames de neuroimagem revelam o que se passa na cabeça dos cães quando ouvem um comando; seu principal foco de atenção são os seres humanos

Aquela carinha expressiva e olhinhos que parecem sempre querer dizer algo fazem com que donos de cães se perguntem o que seu bicho de estimação “imagina” quando escuta sua voz. Agora, cientistas interessados em compreender a relação entre o homem e esses animais, com base na perspectiva dos cachorros, tentam descobrir, utilizando técnicas de escaneamento cerebral, o que pensam nossos amigos caninos. Os pesquisadores divulgaram suas descobertas na revista on-line PLoS ONE.

Levando em conta que o adestramento de cães pelo exército para desempenhar funções complexas como saltar de helicópteros e aviões é uma prática comum, o neurocientista Gregory Berns, do Centro de Neuropolítica da Universidade Emory, considerou que não seria difícil treinar esses animais para entrar acordados em um tubo de ressonância magnética para que pesquisadores tentassem descobrir o que pensavam.

Berns e seus colegas ensinaram dois cães a ficar completamente imóveis dentro do aparelho: Callie, uma fox terrier de 2 anos, e McKenzie, um border collie de 3, Também os treinaram para responder a sinais – mão esquerda apontando para baixo significava receber uma recompensa; ambas as mãos direcionadas para a horizontal indicava tratamento neutro. Eles descobriram que, no momento em que os cachorros visualizavam o sinal de gratificação, a região do núcleo caudado (associada a recompensas em seres humanos) mostrava atividade. A mesma área não revelava alterações quando os cães não viam o sinal do tratamento especial. O vídeo do experimento pode ser acessado em: http://www.youtube.com/watch?v=UsJf9NwTFhw&feature=player_embedded

“Quando observamos os primeiros resultados, notamos que as imagens eram diferentes de qualquer outra obtida em estudos anteriores. Ninguém, até onde eu sei, já havia capturado fotos do cérebro de um cachorro que não estivesse sedado”, diz Berns. Os resultados também indicam que os bichos prestam muita atenção aos sinais humanos.

Segundo os pesquisadores, a descoberta abre portas para futuros estudos sobre a cognição canina e responde perguntas sobre a profunda ligação afetiva dos seres humanos com os cães. Outro objetivo do estudo é compreender como os animais processam a linguagem e de que maneira as expressões faciais são representadas em sua mente. O amor por essas criaturas de quatro patas tem raízes profundas nos primórdios da evolução humana e Berns acredita que isso pode ter moldado como os nossos ancestrais desenvolveram a linguagem e outras ferramentas da civilização. “O cérebro do cão revela algo especial sobre como homens e animais se reuniram e a história evolutiva entre ambas as espécies pode fornecer um espelho único da mente humana”, argumenta o neurocientista.

OUTROS OLHARES

DESCONSTRUIR PARA ENTENDER

Diante das possibilidades de estudo sobre o assunto, o filósofo Michel Foucault descontrói as convenções e questiona: “que saberes têm poderes para falar sobre sexualidade?”

O que é desconhecido gera sensações e reações diferentes para cada indivíduo. A predisposição de querer desvendá-lo é o que move muitas pessoas, porém, o desprezo por aquilo que não se conhece e muito menos se quer conhecer também movimenta muitas outras. Entre um tipo e outro, ainda há aquelas que ficam na coluna do meio absorvendo passivamente o significado estabelecido e posto para explicar sobre algo que se apresenta. Um exemplo: as palavras. Quando não se sabe o que determinada palavra quer dizer, algumas providências são toma­ das, a depender de quem as toma. Os interessados vão buscá-la em dicionários, nos livros, debater com o professor, conversar com pais, trocar ideias com amigos ou aguardar as mensagens transmitidas pelos meios de comunicação. Os desinteressados vão simplesmente apagá-la do cérebro mesmo sem antes ter sabido o conceito daquela junção de sílabas. E o pessoal da coluna do meio ficará exatamente ali onde sempre esteve, aguardando de qualquer emissor – de preferência, aquele que for mais ligeiro uma sopa pronta de letrinhas com temperos de significados. O que todo isso quer dizer? Que a desconstrução do muito ou pouco do que se sabe do desconhecido pode ser um bom caminho para conhecê-lo de fato.

Nos últimos anos no Brasil – e principalmente nos dias de hoje – não nos faltam palavras imbuídas de seus significados e ressignificados produzindo “verdades”. A lista é grande, mas neste artigo o foco estará em uma delas: gênero. Ela merece destaque, afinal, para milhares de brasileiros só de imaginar uma possível discussão sobre gênero, o caos instala-se.

Em novembro de 2017, vimos o episódio da filósofa norte-americana Judith Butler sendo hostilizada por grupos de manifestantes, em São Paulo, na porta do local onde foi convidada a palestrar. Nas redes sociais, Butler já estava queimando na fogueira da Inquisição online. Esses manifestantes não pouparam Buttler nem mesmo no aeroporto, quando se preparava para voltar para casa, e a estudiosa sofreu mais alguns ataques verbais raivosos.

DETALHE UM: Butler foi convidada para ministrar uma palestra sobre democracia, e não sobre gênero.

DETALHE DOIS: a intolerância ao assunto já se mostrava no Brasil muito antes de Butler.

Portanto, quando algo que está no imaginário provoca tamanha confusão e, pior, fere a existência do próximo, é hora de dar um passo para trás para desconstruir tudo aquilo que até então era uma verdade irrefutável. Paradoxalmente, é na desconstrução que pode surgir uma construção, trocando as velhas crenças por novos saberes diante de muita análise. Como muito bem aborda e debate incansavelmente o filósofo francês Michel Foucault, a produção discursiva deve ser praticamente dissecada. Quem produz? O que é produzido? Para quem é produzido? E por que é produzido?

Este artigo não propõe uma receita pronta sobre a questão, muito menos esgotar as possibilidades de reflexão sobre o assunto, mas é um convite a uma reflexão sobre o tema gênero. Historiadores (as), filósofos (as), educadores (as) e escritores (as) nos auxiliam nessa jornada. Desta forma, vamos aqui estabelecer um recorte, pois, discutir gênero é algo inesgotável.

Iniciamos nosso percurso com a historiadora Joana Maria Pedro, partindo do básico: a gramática.

Todas/os nós sabemos que, em gramática, quando perguntamos pelo gênero de uma palavra, a resposta, invariavelmente em português, é: masculino ou feminino. Em português não temos o neutro como no latim, por exemplo. Como exemplo, vamos analisar gramaticalmente a palavra cadeira: ela é substantivo, singular e feminino, não é? E a palavra mar: em português é masculino, mas em francês la mer é feminina. Em português, como na maioria das línguas, todos os seres animados e inanimados têm gênero. Entretanto, somente alguns seres vivos têm sexo. Nem todas as espécies se reproduzem de forma sexuada; mesmo assim, as palavras que as designam, na nossa língua, lhes atribuem um gênero. E era justamente pelo Jato de que as palavras na maioria das línguas têm gênero, mas não têm sexo, que os movimentos feministas e de mulheres, nos anos oitenta, passaram a usar esta palavra ‘gênero” no lugar de “sexo”. Buscavam, desta forma, reforçar a ideia de que as diferenças que se constatavam nos comporta­ mentos de homens e mulheres não eram dependentes do “sexo” como questão biológica, mas sim eram definidos pelo “gênero” e, portanto, ligadas à cultura’.

As feministas anglo-saxãs foram as primeiras, nos anos 1970 a usar o termo gender (gênero) como distinto de sex (sexo). Aqui no Brasil, gênero começou a ser timidamente utilizado pelas feministas no final dos anos 1980. Em todo mundo, a palavra ecoou e expandiu por meio de diferentes movimentos sociais como das feministas, gays, lésbicas, trans e etc. O termo gênero compõe a trajetória que acompanha a luta por direitos civis e direitos humanos de todas essas pessoas. Gênero será um conceito fundamental neste novo debate porque, como aponta Guacira Lopes Louro, é necessário demonstrar que não são propriamente as características sexuais, mas é a forma como essas características são representadas ou valorizadas, aquilo que se diz ou se pensa sobre elas que vai constituir, efetivamente, o que é feminino ou masculino em uma dada sociedade e em um dado momento histórico.

Guacira Lopes Louro completa:

Ao dirigir o foco para o caráter “fundamentalmente social”. não há, contudo, a pretensão de negar que o gênero se constitui com ou sobre corpos sexuadas, ou seja, não é negada a biologia, mas enfatizada, deliberadamente, a construção social e histórica produzida sobre as características biológicas’.

Para a educadora, gênero é construção social e cultural do feminino e masculino a partir do aspecto biológico. Não é binário (mulher e homem), é relacional. Linda Nicholson, pesquisadora que também tem sido uma grande referência para as discussões sobre o gênero, acompanha o raciocínio, mas vai além. Ela simplesmente rompe com o discurso do biológico porque em suas pesquisas – baseadas em leituras de Foucault, Laquer e Butler – ela expõe que o próprio biológico é uma produção discursiva. Para Linda, o biológico pode ser “um” discurso e não “o” discurso. Em seu denso artigo Interpretando Gênero, a historiadora aponta que separar sexo de gênero e considerar o primeiro como essencial para elaboração do segundo pode ser uma forma de fugir do determinismo biológico, mas constitui­se, por sua vez, num fundacionalismo biológico. Linda explica:

O que estou chamando de fundacionalismo biológico, mais do que uma posição única, pode ser entendido como representante de um leque de posições unidas de um lado por um determinismo biológico estrito, de outro por um construcionismo social total.”

Se gênero é relacional como aponta Guacira, se ele rompe com o biológico como diz Linda, para Joan Scott – especialista na história do movimento operário no século XIX e do feminismo na França – ele aborda relações de poder. Em seu instigante artigo Gênero: uma categoria útil de análise histórica, a professora e historiadora Scott retoma a diferença entre sexo e gênero e a articula com a noção de poder. Ela define gênero em duas partes: a primeira aponta que “o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, e a segunda de que o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder.”

Neste ponto, o conceito gênero serve como uma ferramenta analítica e também política. Em seus ensaios, a professora de Ciências Sociais no Instituto de Estudos Avançados na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, informa que “gênero significa o saber a respeito das diferenças sexuais”. Scott pontua que usa a palavra saber de acordo com o sentido dado por Michel Foucault. Scott explica:

“Tal saber não é absoluto ou verdadeiro, mas sempre relativo. Seus usos e significados nascem de uma disputa política e são os meios pelos quais as relações de poder de dominação e de subordinação são construídas. O saber não se refere apenas a ideias, mas a instituições e estruturas, práticas cotidianas e rituais específicos, já que todos constituem relações sociais. O saber é um modo de ordenar o mundo e, como tal, não antecede a organização social, mas é inseparável dela. Daí se segue que gênero é a organização social da diferença sexual. O que não significa que gênero reflita ou implemente diferenças físicas fixas e naturais entre homens e mulheres, mas sim que gênero é o saber que estabelece significados para as diferenças corporais”.

Ao interligar gênero com relações de poder, inevitavelmente Foucault é chamado para essa conversa. Scott vê sentido quando o filósofo relativiza a verdade justamente porque ele já descobriu que não existe discurso gratuito. Para o filósofo, o poder produz saber e, consequentemente, os discursos são teorias que dizem o que é verdade sobre o sujeito. Ao escrever os três volumes de A História da Sexualidade, na década de 1980, Foucault questiona o tempo todo: que saberes têm poderes para falar sobre sexualidade?

De fato, Foucault vira de ponta cabeça as concepções convencionais, que geralmente tendem a centralizar o poder. O filósofo desmistifica e diz que “o poder está em toda a parte; não porque engloba tudo e sim porque provém de todos os lugares”.

Posto isso já é possível entender porque a palavra gênero tem causado tanto alvoroço só pelo fato que ela pode começar a ser discutida, por exemplo, dentro de uma sala de aula. Seus significados e ressignificados vêm de toda parte onde haja poder. Foucault continua:

É preciso admitir um jogo com­ plexo e instável em que o discurso pode ser, ao mesmo tempo, instrumento e efeito de poder, e também obstáculo, escora, ponto de resistência e ponto de partida de uma estratégia oposta. O discurso veicula e produz poder; reforça-o, mas também o mina, expõe, debilita e permite barrá-lo. Da mesma forma, o silêncio e o segredo dão guarida ao poder, fixam suas interdições; mas, também, afrouxam seus laços e dão margem a tolerâncias mais ou menos obscuras.

Um pouco antes de sair de cena nesta vida, em 1984, Foucault começa a investigar um tema que ele dá o nome de bio­ poder, o que também traz luz para entender o conceito de gênero. Foucault escreve:

Pela primeira vez na história, sem dúvida, o biológico se refletiu no político; o fato de viver não é mais esse sustentáculo inacessível que só emerge de tempos em tempos, no acaso da morte e da sua fatalidade: cai, em parte, no campo de controle do saber e de intervenção do poder. Este não estará mais somente a voltas com sujeitos de direito sobre os quais seu último acesso é a morte, porém com seres vivos, e o império que poderá exercer sobre eles deverá situar-se no nível da própria vida; é o fato do poder encarregar-se da vida, mais do que a ameaça da morte, que lhe dá acesso ao corpo.

“O poder encarregar-se da vida, que lhe dá acesso aos corpos”, é uma fala de Foucault que certamente faz muito sentido para Judith Butler que “acha que discursos, na verdade, habitam corpos. Eles se acomodam em corpos; os corpos na verdade carregam discursos como parte de seu próprio sangue. E ninguém pode sobreviver sem, de alguma forma, ser carregado pelo discurso. Então, não quero afirmar que haja uma construção discursiva de um lado e um corpo vivido de outro”.

Daí a luta de Butler para a possibilidade de que as pessoas e seus corpos tenham vidas mais vivíveis. No final de 1989 ela publicou o livro intitulado Gender Trouble, lançado em português em 2003 como Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Na obra, ela propõe descrever o caráter performativo do gênero. Butler explica:

A cada um de nós é atribuído um gênero no nascimento, o que significa que somos nomeados por nossos pais ou pelas instituições sociais de certas maneiras. No entanto, muitas pessoas sofrem dificuldades com sua atribuição são pessoas que não querem atender aquelas expectativas, e a percepção que têm de si próprias difere da atribuição social que lhes foi dada. Algumas pessoas vivem em paz com o gênero que lhes foi atribuído, mas outras sofrem quando são obrigadas a se conformar com normas sociais que anulam o senso mais profundo de quem são e quem desejam ser. Para essas pessoas é uma necessidade urgente criar as condições para uma vida possível de viver.

O texto Como os corpos se tornam matéria: entrevista Judith Butler aprofunda sobre o que a filósofa quer dizer com corpos abjetos que, nas palavras de Butler, estão relacionados a todo tipo de corpos cujas vidas não são consideradas vidas. A entrevista foi realizada por Irene Meijer e Baukje Prins, do Departamento de Estudos da Mulher, do Instituto de Artes da Universidade de Utrecht, na Holanda. Butler diz que “a abjeção de certos tipos de corpos, sua inaceitabilidade por códigos de inteligibilidade, manifesta-se em políticas e na política, e viver com um tal corpo no mundo é viver nas regiões sombrias da ontologia”.

Para que realmente as pessoas possam ter vidas mais vivíveis e saírem de fato das sombras, Guacira Louro Lopes ressalta que “o conceito de gênero passa a exigir que se pense de modo plural, acentuando que os projetos e as representações sobre mulheres e homens são diversos. Observa-se que as concepções de gênero diferem não apenas entre as sociedades ou os momentos históricos, mas no interior de uma dada sociedade, ao se considerar os diversos grupos (étnicos, religiosos, raciais, de classe) que a constituem”.

O que importa aqui considerar é que tanto na dinâmica do gênero como na dinâmica da sexualidade as identidades são sempre construídas, elas não são dadas ou acabadas num determinado momento. Não é possível fixar um momento seja esse o nascimento, a adolescência, ou a maturidade que possa ser tomado como aquele em que a identidade sexual e/ou a identidade de gênero seja assentada ou estabelecida. As identidades estão sempre se constituindo, elas são instáveis e, portanto, passíveis de transformação.

GESTÃO E CARREIRA

O MITO DA MERITOCRACIA

Porque devemos tomar cuidado com esse conceito em um país tão desigual como o brasil e o que fazer para corrigir as distorções sociaisno mundo do trabalho