A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

REFLEXOS DA INFÂNCIA

O ser humano vive de sofrimentos advindos do seu próprio processo humanizatório. muitos distúrbios são gerados no desenvolvimento do sujeito. Assim é com o transtorno de personalidade esquiva

Pesquisas médicas apontam que 1 a 5,2% da população brasileira têm transtorno de personalidade esquiva (TPE), ou também denominado como evitativa, é mais comum nas mulheres e não há muita divulgação nem muitos trabalhos publicados sobre o tema. É que o transtorno citado geralmente vem acompanhado de outros transtornos depreciativos, como ansiedade, pânico, fobia social, que são comorbidades mais comuns.

Ele caracteriza-se principalmente por um sentimento de tensão, apreensão, insegurança e inferioridade. A pessoa que tem esse transtorno apresenta um forte desejo de ser amado e aceito, tem hipersensibilidade à críticas e muito medo da rejeição, e para evitar enfrentar tais situações se isola, fechando-se em seu próprio mundo, tornando-se antissocial e solitária. Esse tipo de comportamento pode afetar a vida social, profissional, familiar, porque o sujeito que é acometido por esse distúrbio pode evitar reuniões sociais, profissionais e familiares. Sofre com isso porque deseja estabelecer laços e não consegue, é insuportável para ele a ideia de não ser aceito, de ser olhado e rejeitado.

Esses sintomas definidos como um transtorno de personalidade foram descritos no final do século XX pelos psiquiatras Breuler e Kretschmer. Ainda é pouco conhecido, e o diagnóstico médico se dá pelos manuais. Seguindo os critérios de diagnóstico médico, o paciente que apresentar quatro ou mais sintomas descritos pelo DSM-5 será portador de transtorno de personalidade esquiva. Sendo estes os principais:

1) esquivar-se de atividades relacionadas ao trabalho que envolvam contato interpessoal, porque teme ser criticado ou rejeitado;

2) falta de vontade de estar com pessoas, mesmo em envolvimentos amorosos, por medo de ser rejeitado; precisa ter a certeza de ser amado;

3) reserva em relacionamentos íntimos;

4) Isolamento e solidão, por medo de relacionar-se com as pessoas;

5) relutância em assumir riscos pessoais ou participar de qualquer nova atividade;

6) ver-se como incompetente, desagradável ou inferior.

O tratamento indicado pela psiquiatria é medicação que inclui inibidores da monoaminaoxidase (IMAOS), ansiolíticos, terapia cognitiva comportamental focada nos aspectos sociais, terapia de suporte (breve); e a psicodinâmica, que trabalha conflitos.

A Psicanálise tem uma outra forma de compreensão e de tratamento. Para começar, não se faz diagnóstico por classificação de sintomas, pois considera-se o sujeito e não a doença. Os sintomas são defesas psíquicas contra representações inconscientes oriundas de vivências danosas na primeira infância (O a 9 anos). A criança é um ser totalmente dependente de cuidados de um adulto, ela é assujeitada ao Outro, não tem condições de sobreviver sozinha. É nesse núcleo primário que se constitui o que Sigmund Freud, criador da Psicanálise chama como psiquismo. O psiquismo, que nos dará uma estrutura, que norteará a nossa vida adulta, se organiza por fases: oral (até 1 ano e meio de idade); anal (entre 1,5 a 3 anos), física (3 a 4,5), genital (5 a 9 anos). Essas fases determinam um tipo de organização que influenciará nossos comportamentos e sentimentos. Esse longo período de vivência entre um infante e um adulto definirá nossos traços de caráter e um tipo de estrutura que apresentarão seus sintomas como uma defesa, ou seja, como a única possibilidade de manter-se vivo.

As vivências infantis que expõem a criança a situações constrangedoras e vergonhosas contribuirão de forma decisiva na organização de defesas contra o mal-estar. No caso específico dessa reflexão, e sem colocar o sujeito em um quadradinho, pode-se inferir que a infância foi caracterizada por relações de desamparo, de negligência, de violência às quais a criança foi provavelmente exposta, envergonhada e amedrontada, e acabou criando um mundo particular onde busca pela proteção e sobrevivência que se deu pelos próprios meios que foi isolar-se das pessoas e do meio ameaçador. O meio familiar é decisivo para a constituição de um sujeito, seja ele mal equilibrado psiquicamente ou não.

O tratamento indicado pela Psicanálise é diferente do proposto pela Medicina. mas deixa-se claro que há sintomas que precisam de tratamento médico especializado para diminuir o sofrimento do paciente. Os tratamentos terapêuticos também têm sua valia, mas a Psicanálise trabalha olhando para os sintomas como uma organização defensiva e que às vezes o paciente precisa do sintoma para viver, mesmo que seja doloroso. O que se faz é trabalhar o sujeito, suas experiências passadas e presentes de uma forma cuidadosa para que ele possa historiocizar-se no tempo e através da técnica analítica entrar em contato com conflitos inconscientes que estão originando os seus sintomas. A técnica analítica se vale de procedimentos clínicos que fazem com que as representações adquiridas na primeira infância venham à tona para serem compreendidos e ressignificados pelo paciente junto com o analista. É necessário que as técnicas terapêuticas que trabalham com os sintomas sejam olhadas com muito cuidado, senão o método pode se tornar perigoso, pois o inconsciente existe. A neurociência hoje admite que o inconsciente freudiano é uma realidade.

Portanto, os sintomas precisam ser considerados como um mal necessário para o sujeito viver até então. E para mudá-lo é preciso primeiro enxergá-lo e posteriormente refletir e compreender. A Psicanálise é um processo eficaz, que permite que o sujeito se conheça e reconheça suas potencialidades. Pela complexidade do sujeito é necessário que os saberes se conversem, que trabalhem juntos na tentativa de ajudar esse sujeito a viver melhor.

ARACELI ALBINO – é doutora em Psicologia pela Universidad del Salvador (Buenos Aires- Argentina). Presidente do Sindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo – Sinpesp. Psicóloga e psicanalista, pós-graduada na PUC. Possui especializações em Psicoterapia/Psicodinâmica de adultos e adolescentes/ Psicopatologia Psicanalítica e Clínica Contemporânea; professora e coordenadora do curso de Formação em Psicanálise do Núcleo Brasileiro de Pesquisas Psicanalíticas.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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