A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A ARTE DE QUEBRAR ROTINAS

O hábito de sair de férias com a família vai muito além de um simples tempo de lazer e descanso. Esse ócio pode representar renovação nas relações sociais e de maior produtividade

Um sistema não é, apenas, a soma de partes, é a integração delas. O desequilíbrio em uma parte pode abalar as outras. Uma mudança mexe com um sistema: um elo que se rompe e uma corrente perde sua unidade, se transforma. Reverte-se em sofrimento, cada mudança incerta, visto que seguimos as rotinas como situações acomodadas, alheias à necessidade de esforço, porque naturalmente seguem o modelo conhecido, que se repete. Isso dá tranquilidade, segurança e… Desejo de desafios diferentes!

O ser humano é mesmo contraditório, não é? Precisamos de rotinas… E precisamos de férias! Precisamos de um lugar para chamar de “nosso” e de um lugar “não nosso”, com gosto de “descobertas”. Que sejam boas as duas opções, tão opostas que parece ser uma arte de quebrar rotinas, ao criar ferias que não sejam frustrantes ou mais cansativas que o próprio dia a dia.

Como os desafios não vêm sozinhos, nem sempre as férias da família coincidem. Nesse caso, as férias das crianças representam mais problemas do que soluções: reunir paz e alegria, proximidade familiar, sem alterar o tempo livre disponível dos adultos? Bem, férias merecem reflexão!

Férias são convites a uma quebra no trabalho que convém ser pensada com arte. Às vezes, nas férias, o plano dos adultos é vencer a perturbação que as crianças representam para eles ao ter mais tempo livre em casa e até oferecem presentes para isso, em vez de imaginar, realmente, como aproveitar esse momento tão importante para toda a família.

É a organização e a habilidade conjunta de planejamento que caracterizam o pensamento como fonte de grandes ideias. As estratégias e ações resultam de processos que não ocorrem por acaso: seguem por caminhos desvendados pela neurociência, com conquistas que permitem ir além de uma meta inicial, quando há integração de propostas.

As férias devem seguir os processos de resolver problemas e convém pensar em prevenção, ou seja, é interessante planejar com cuidado e gosto, considerando as idades, as preferências e as possibilidades dos integrantes desse tempo “diferente”, incomum. Não se trata de quantidade, mas de qualidade do tempo despendido em conjunto com seus pares. Aquele lugar divertido pode ser uma praça que nunca dá tempo de todos explorarem juntos, onde se tiram fotos e se brinca até perder o fôlego. Os programas podem até ser diferentes para cada um, desde que haja um momento de real interesse para reunir as experiências e compartilhar os momentos.

O pressuposto adotado pelas organizações de trabalho aponta que organizações saudáveis são construídas para reduzir riscos psicossociais e a família é uma organização onde pessoas trabalham (ou estudam, o que é uma ação correspondente para os mais jovens).

As características dos riscos associados ao estresse no trabalho (dos quais as crianças não estão livres na escola) estão ancoradas em fato­ res que atravessam desde o âmbito individual, microssocial, ao macro­ estrutural. Em um ponto intermediário entre essas instâncias está a família, sujeita a potentes forças que lhe são externas, mas ela, em si, é de suma importância neste processo de adoecimento (o estresse é um fator de risco para adoecimento).

Quando se diz que as interações humanas dão origem a modos de pensar, sentir e agir idiossincráticos, a referência é posta na ideologia que prevalece no grupo. Em suma, podemos argumentar que aproveitar as férias equivale a entender a cultura familiar: história, regras, estrutura, políticas, estratégias, processos operacionais, contexto e assim por diante. Em outras palavras, se for difícil desenvolver a arte de quebrar rotinas, saiba que existem livros com propostas que seguem até a atividade ideal para cada idade, pensadas para tornar proveitoso esse tempo livre. Esse ócio com certeza se torna processo produtivo lá na frente.

Se valores estão no alicerce das relações familiares, das estratégias, das tomadas de decisão, dos planejamentos e das execuções revelados nas práticas ou procedimentos de vivência familiar, uma pergunta se torna forçosa: o que representam a saúde, inclusive a saúde mental, a alegria, a convivência, enquanto valores familiares?

Sem dúvida, é ilusório concluir que é fácil responder tal pergunta, mas podem ser oportunidades de diferentes graus de liberdade de expressão, de novas experiências de empatia (pensar no outro, não em si, apenas), de formas de chegar à concordância. Restrições insensatas, repressões injustificadas ou falta de limites são fortes indicadores de práticas propícias a danos psicossociais que desencadeiam o estresse patológico e transformam momentos de lazer em sacrifício, não importando o custo financeiro que o evento signifique.

O primeiro passo, como é comum cm processos similares, é identificar os estressores e discutir como lidar com eles – regras são sempre bem-vindas para o sucesso de uma arte, uma expressão, sem ser agressiva a ninguém. Não há exagero em afirmar que o relacionamento humano está cada vez mais ameaçado e que as boas práticas começam em casa. É ótimo planejar os rumos para a arte de quebrar rotinas, no contexto democrático de decisões, que servirão para a prática da rotina diária, após as férias de toda a família, em qualquer tempo.

LUIZA ELENA L. RIBEIRO DO VALLE – é psicóloga, doutora em Ciências no Departamento de Psicologia Social {USP/SP). Mestre em Psicologia Escolar e Educacional {PUC-Campinas). MBA Executivo em Psicologia Organizacional (AVM-Brasília), extensão em Gestão de Pessoas (FGV). Formação em Coaching (Lambent), especialização em Psicologia Clínica (CFP) na linha Cognitivo-Comportamental, consultora em Psicopedagogia, autora de livros

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.