A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PREPARO PARA A MORTE

A extrema dificuldade em lidar com a morte por medo do desconhecido varia de acordo com as culturas e o momento histórico

O tema morte suscita, além do medo, um tipo de curiosidade que nunca será satisfeita, pois nos remete a emoções e vivências de estranheza: estamos diante do desconhecido. Segundo a Psicanálise, isso ocorre porque as experiências vivenciadas pelo ser humano, desde a vida intrauterina, deixam traços, marcas profundas que serão reativadas no decorrer do tempo, quando nos depararmos com situações semelhantes àquelas já vividas. Nesses momentos seremos remetidos às mesmas emoções das experiências primordiais, das quais geralmente não conseguimos resgatar lembranças. Para Freud, essa era a razão da vivência de estranheza diante da morte. Uma das maiores dores emocionais do ser humano é a perda de alguém amado, e o processo de metabolização emocional dessa perda é doloroso e longo, durando em torno de dois anos nas estimativas mais otimistas. O pranto pelo ser amado perdido contém inconscientemente as angústias pela perda da própria vida.

A atitude e convivência do ser humano para com a morte varia de acordo com as culturas e o momento histórico. Há cerca de 50 anos, a maioria das pessoas morria em casa, pelos mais variados motivos, como velhice ou doenças. Nesse contexto havia a oportunidade para quem se despedia da vida de poder conviver com seus familiares até os últimos instantes, o que permitia que o afeto pudesse fluir entre todos, as despedidas podiam acontecer, amor e ódio serem elaborados e reparações realizadas. Assim, podíamos dizer que havia um ambiente acolhedor ao processo da morte, às dores das perdas dos que ficavam, mas, principalmente, daquele que vivenciava o processo da despedida. Era uma morte afetiva, acolhida. O morrer era vivenciado por todos como um processo triste, porém natural, como mais um ciclo da vida que se encerrava. Entretanto, esse contexto deixou de existir na atualidade ou pode ser encontrado somente entre algumas civilizações.

Ao traçar uma comparação com a maneira como se lida com a morte no momento atual, observamos que na grande maioria dos casos a morte ocorre em hospitais. Graças ao desenvolvimento cada vez mais acelerado da medicina surgiram condutas muito eficazes para o tratamento de doenças graves, traumas, e muitas situações que eram letais possuem resolução e devolvem o ser humano à vida.

Porém, nosso interesse aqui é refletir sobre o prolongamento da vida, principalmente nas unidades de terapia intensiva, de pessoas muito idosas ou com patologias graves irreversíveis que são mantidas vivas artificialmente, por meio de aparelhos que não deixam que o corpo pare de funcionar, mesmo que a vida esteja suspensa nas demais áreas.

Uma das consequências de a morte ter sido descontextualizada do aconchego do lar e do envolvimento afetivo familiar é ter se tornado “asséptica”. Os familiares são mantidos afastados e privados de terem a oportunidade de realizar uma despedida digna do ser amado que se vai. Afastar quem se vai do aconchego do lar e do contato afetivo com familiares é condenar a pessoa a morrer antes da chegada da morte de fato. Com as práticas recentes para se lidar com a iminência da morte houve praticamente a corroboração dos preconceitos que sempre existiram no imaginário do ser humano a respeito da morte, ao deixar de ser vivenciada como um processo natural, um fato da vida, para se tornar muitas vezes um segredo, ser envolta em desconhecimento, se tornando mais ameaçadora e persecutória. A luta contra a morte traz inserido um preconceito de que a morte é errada, que não deveria acontecer, quando na realidade trata-se de um dos ciclos da vida.

Com muita frequência há adoecimentos súbitos e graves de pessoas ativas, mas que não tiveram oportunidade de conversar com a família sobre atitudes que deveriam ser tomadas, decisões relacionadas a negócios ou mesmo até que ponto gostaria de ser mantido vivo.

No entanto, faz algum tempo começaram a existir intervenções médicas que criam a possibilidade de uma humanização do processo da morte. Por isso é importante compreendermos no que consistem os cuidados paliativos.

DIÁLOGO

Em minha experiência cuidando de pacientes, ajudando-os a tomarem a melhor decisão em cada caso, tenho percebido que, quando inicio o diálogo com o paciente e familiares, eles ficam muito agradecidos pela oportunidade de terem seus questionamentos resolvidos. É gratificante perceber a calma, tranquilidade e harmonia, especialmente nas despedidas, no caso de pacientes que optam por cuidados de conforto e morte natural. Quando a decisão vem do paciente ao invés de um familiar, em realidade ele está ajudando seus sobreviventes a terem um luto saudável. É mais fácil honrar uma decisão do que tomar a decisão por alguém.

Para que decisões sejam tomadas com antecedência, é importante saber mais sobre o assunto e conhecer as opções existentes em termos de cuidados, no final da vida. Há muito que aprender sobre o ciclo da vida. Quanto mais nos interessamos, melhor podemos ajudar nossos semelhantes.

CONFORTO AOS DOENTES TERMINAIS

Hospice são os cuidados de apoio às pessoas na fase final de uma doença terminal e concentra-se no conforto e qualidade de vida, ao invés de curar. Então, o objetivo principal é controlar a dor para que os pacientes possam viver cada dia da melhor maneira possível. Esse cuidado pode ser oferecido em casa, em clínicas ou até mesmo em hospitais. A filosofia do hospice é oferecer apoio para as necessidades emocionais, sociais e espirituais do paciente, bem como o controle dos sintomas físicos. Tratamos o doente e não a doença. Geralmente, esse tipo de cuidado é oferecido para as pessoas que têm uma expectativa de vida de seis meses ou menos. O hospice geralmente usa uma abordagem de equipe multidisciplinar, incluindo os serviços de um enfermeiro, médico, psicólogo e apoio espiritual prestado de acordo com a preferência de cada um. Esse apoio é extensivo à família.

NECESSIDADE HUMANITÁRIA

Durante minha vida profissional tenho visto muito sofrimento, especialmente em algumas especialidades. Como enfermeira em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por 25 anos, presenciei mortes horríveis, que poderiam ter sido evitadas. Pacientes recebem tratamentos agressivos quando viver naturalmente já não era mais uma opção. Muitas vezes o próprio paciente já não tinha mais condições de tomar decisão alguma, e essa responsabilidade era delegada aos seus entes queridos. Na grande maioria dos casos eles não estavam preparados para aceitar cuidados paliativos ou cuidados de conforto (hospice). Por quê? Falta de conhecimento. Falta de oportunidade de conversar sobre o assunto.

Os cuidados paliativos são essencialmente um plano de cuidado que visa controlar os sintomas, oferecer apoio físico, psicossocial e espiritual ao paciente, melhorando assim a

qualidade de vida durante o período em que ele se encontra com problemas de saúde e recebe tratamento através da medicina tradicional – a que busca curar a doença.

Os cuidados paliativos podem ser associados a tratamentos curativos. Existem vários equívocos comuns sobre esse cuidado. Muitos confundem “cuidados paliativos” e “cuidados de conforto ou hospice”.

Nos cuidados paliativos, os pacientes simplesmente têm mais controle sobre os tratamentos curativos recebidos. Os pacientes devem ser capazes de escolher a proporção de cuidados curativos e de alívio de sintomas que recebem.

A equipe de cuidados paliativos é multidisciplinar, incluindo os serviços de um enfermeiro, médico, psicólogo e apoio espiritual prestado de acordo com a preferência de cada um.

Como os profissionais de saúde, principalmente enfermeiros e médicos, não receberam educação nessa área enquanto estavam na faculdade, os médicos não se sentem à vontade para recomendar cuidados paliativos para seus pacientes. Da mesma forma, o público em geral precisa ser educado sobre a existência desses cuidados e saber que, dessa forma, terá qualidade de vida e dignidade até o fim. Isso é um direito humano que está em nossa Constituição Federal.

OUTROS OLHARES

ELA ATÉ FALA

Projeto em Montreal propõe a humanização dos centros urbanos

Durante uma caminhada à noite por Montreal, no Canadá, o smartphone toca. Quem quer falar? A cidade. Após um toque na tela para aceitar a chamada, a parede lateral de um edifício antigo se transforma numa colossal tela de cinema, enquanto sons chegam pelo fone de ouvido. São as vozes dos personagens anônimos que contam a história de cada lugar: o trabalho dos colonos franceses, a vida noturna, revoltas populares, o protesto deitado de John Lennon e Yoko Ono num quarto de hotel ou mesmo o tempo em que tudo aquilo era mar. Trata-se do projeto Cité Memoire, inaugurado em 2016 como a maior instalação do mundo, hoje presente em 25 pontos.

As paredes sempre tiveram ouvidos e olhos, mas, para falar, precisaram de tecnologia. Mais de cem quilômetros de cabos de fibra óptica foram enterrados, a fim de permitir a comunicação entre a cidade e os smartphones. Para transformar prédios, ruas e árvores em telas de cinema, foram embutidos no mobiliário urbano 89 projetores por raio laser. Mais de 600 profissionais – entre cenógrafos, coreógrafos, atores, malabaristas e engenheiros – se envolveram na gravação das imagens. Ao todo, foram cinco anos de trabalho.

A instalação funciona como uma simbiose: os filmes de curta metragem só passam na presença do público, e o público não pode assistir de casa, pois o sistema está atrelado ao GPS do telefone. O interessado precisa ir para a rua, caminhar. A iniciativa atraiu moradores – e novos turistas – ao centro antigo, que andava ocioso. Aumentou a autoestima da cidade e aproximou gerações. ”Você mostra um livro para esses jovens, e eles acham chato”, diz o artista multimídia canadense Michel Lemieux, coautor da instalação. “Mas um dia um garoto de 14 anos engatou comigo uma conversa animada sobre a era medieval. ‘Como você entende tanto desse assunto?’, perguntei, e ele respondeu que jogava um game de batalhas. A gente precisa encontrar formas de contar histórias. “Além de acionar a projeção de vídeos pela cidade, à noite, durante o dia o aplicativo usa realidade aumentada para acrescentar informações a 13 pontos turísticos. Ao transformar o smartphone em aliado, Michel conseguiu atenção para o material didático, complementar, que foi distribuído às escolas. “Acho que a smart city não deve parecer uma cidade computadorizada”, diz. “A tecnologia deve aproximar as pessoas, e não afastar.”

GESTÃO E CARREIRA

EM EXCESSO

A Síndrome de Burnout acaba de ser reconhecida pelo Ministério da Saúde como doença associada ao esgotamento pelo trabalho. Saiba como lidar com o problema na sua empresa!

Chorar no banheiro do escritório. Dores fortes na cabeça. Cansaço maior que o normal. Não, não é frescura – muito menos preguiça. O excesso de atividades pode causar esgotamento e um transtorno mental chamado Síndrome de Burnout, que acaba de ser oficializado como doença ligada ao trabalho pela Organização Mundial da Saúde (CID-11). A nova classificação entrará em vigor em 2022. O distúrbio vinculado ao estresse crônico no trabalho já estava na edição anterior do catálogo (1990), porém incluso em um item vago – problemas relacionados com dificuldades no controle da vida.

A mudança merece destaque porque dá visibilidade a um assunto sério, ficando mais fácil gerenciar afastamentos e incapacidades. “A Síndrome de Burnout envolve nervosismo, sofrimentos psicológicos e problemas físicos, como dores de barriga, cansaço excessivo e tonturas.

O estresse e a falta de vontade de sair da cama ou de casa, quando constantes, podem indicar o início da doença. Outros sintomas que podem indicar a Síndrome de Burnout são: cansaço excessivo, físico e mental; dores de cabeça frequentes; alterações no apetite, insônia, dificuldades de concentração, sentimentos de fracasso e insegurança, negatividade constante, sentimentos de derrota, desesperança, fadiga, dores musculares, entre outros”, conta o médico do trabalho e diretor médico da Med Worker, especializada nessa área, Ignácio Garcia.

Obviamente, eles não aparecem de uma só vez, mas de forma leve, e muitas pessoas acabam pensando que é passageiro, não buscando auxílio profissional. “Na verdade, a síndrome é um distúrbio psíquico caracterizado pelo estado de tensão emocional e estresse provocados por condições de trabalho desgastantes. Por isso, são recomendadas atividades de entretenimento e lazer durante as pausas, ouvir as queixas do funcionário, valorizar datas comemorativas e incentivar a prática de atividades físicas, ou seja, criar uma maior aproximação que possibilite tornar o ambiente o mais salutar possível”, completa o dr. Garcia.

Tudo começa com pequenas alterações de comportamento e humor. O profissional vai ficando mais quieto, evita contatos sociais ou ainda pode se tornar mais agressivo e intolerante. Apesar dos sinais, o diagnóstico deve ser realizado por um psicólogo ou psiquiatra, que vai considerar os sintomas apresentados, história pessoal e contexto. O tratamento envolve psicoterapia e pode ou não ter medicamentos associados.

“Mas não adianta investir nessas propostas se não evitar desgastes corriqueiros, como ambientes com falta de transparência, pressões desnecessárias, situações de assédio, humilhação ou relacionamentos desgastados. O fato de o indivíduo estar preocupado com fatores externos também deve ser respeitado e levado em conta. Levar preocupações para o ambiente de trabalho, como problemas de saúde na família, necessidades de filhos ou mortes de parentes pode reduzir o desempenho do funcionário, comprometendo todo o ambiente. Talvez se a pessoa estivesse em casa, cuidando e amparando o filho, fosse mais saudável para ela e para a própria empresa. Exigir que o profissional trabalhe em situações-limite não é saudável para ninguém”, adverte o médico.

NO RADAR

Depressão, síndrome do pânico, estresse… Esqueça a máxima “de médico e louco todo mundo tem um pouco”. Determinar o problema é complexo e, para além disso, os transtornos podem vir de maneira associada. Por isso, é importante sempre lembrar que não cabe ao empreendedor fazer o diagnóstico, mas sim observar os sintomas e encaminhar para uma ajuda médica. “A pessoa sente uma exaustão emocional, a redução do senso de realização pessoal e desenvolve atitudes e sentimentos negativos em relação às pessoas com as quais trabalha”, conta a professora da Escola de Negócios da PUC-Rio, Flávia Cavazotte.

Ela destaca ainda que gestores têm um papel crucial nesse processo, mas precisam ter informações sobre a doença e uma boa comunicação com suas equipes. Dessa forma, educar os gestores do seu negócio é fundamental, bem como orientá-los sobre como atuar diante de colaboradores que precisam de ajuda. ”As áreas de recursos humanos e saúde e bem-estar no trabalho devem ter uma postura proativa para orientar gestores e aconselhar funcionários que busquem ajuda”, lembra.

A consultora de gestão, que atua no desenvolvimento de líderes e em trabalhos de coaching e mentoring, Valerya Carvalho, acredita que a maioria das ferramentas de gestão e práticas organizacionais que todas as empresas usam é ineficaz ou prejudicial. “O guru de gestão Peter Drucker escreveu: ‘90% das práticas que chamamos de gestão fazem mais nada do que impedir que as pessoas realizem seu trabalho’. Se a empresa acreditar que é preciso criar normas e procedimentos para todas as tarefas das pessoas, como metas individuais, meritocracia, remuneração variável, avaliação de desempenho/360°, planos de carreiras e outros, esse é o maior sintoma de que ela está indo para o lugar errado. Copiar modelos de sucesso de outras empresas também é sinal de lugar errado”, ressalta.

DIREITOS E DEVERES

Se você está se perguntando o que fazer quando detectar sinais da doença em um colaborador, o médico Ignácio Garcia explica que cada regime de trabalho tem suas próprias regras, mas, no geral, uma boa forma de iniciar o cuidado é por meio do diálogo aberto, sem margem a interpretações enviesadas, de forma a realmente entender quão preocupante é a enfermidade. Para Garcia, “a empatia tem que existir de ambos os lados, planos para compensar a falta do profissional devem ser pensados para o caso de uma folga ou um dia ausente ser necessário. Soluções pontuais que ajudam a minimizar o impacto da falta. E isso deve ser combinado pelas partes envolvidas. Contar com a ajuda do grupo é fundamental”.

O mais importante é sugerir um médico ao colaborador. Após o reconhecimento da doença e o diagnóstico sendo realizado por profissional da área, o colaborador terá seu tratamento garantido por lei, com suporte integral e gratuito do Sistema Único de Saúde (SUS). Basta procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e o caso será encaminhado aos centros especializados. Em situações de afastamento prolongado, a situação será analisada por um médico perito do INSS, com acesso aos direitos previdenciários. A legislação previdenciária dispõe que, em caso de doença, o empregado poderá se afastar do emprego, sem prejuízo quanto aos salários, por até 15 dias consecutivos – o empregador é obrigado a remunerar o empregado como se ele estivesse trabalhando (§ 3°do art. 60 da Lei 8.213/91). Após esse período, os encargos trabalhistas ficam com o INSS.

“Dado que o Burnout é caracterizado como uma doença ocupacional, cabe às empresas desenvolver políticas que ajudem na sua prevenção. Não é infrequente que práticas abusivas e o desequilíbrio nas cargas e demandas de trabalho sejam associadas ao Burnout. Empreender esforços para mitigar os fatores situacionais e ocupacionais que podem provocar o problema, evitando assim danos à saúde, é uma forma de assegurar a rigidez do corpo funcional de uma empresa, mas também de prevenir a exposição do empreendimento a possíveis ações trabalhistas e seus desdobramentos”, alerta o médico.

Além de estar atento ao que se passa, é importante entender junto ao colaborador quais são os gatilhos geradores do problema, como explica a gerente de RH da Feegow Clinic, Carolina Brito. Ela destaca que, a partir daí, é essencial respeitar os movimentos da equipe e promover o necessário para a melhoria do indivíduo e da equipe. “Resultado é essencial, mas sem pessoas, que são o motor da energia, motivação e realização, é impossível alcançá-lo. Propicie uma cultura de feedback, de reconhecimento de resultados e ofereça oportunidades para o seu time. Não tenha um olhar frontal, mas de 360°. Observe e conheça! Importe-se com os sonhos do seu colaborador e o ouça”, aconselha.

Valerya concorda com Carolina e ressalta que a obsessão por resultados pessoais dentro das organizações acaba por desconsiderar a interação entre os indivíduos. Às vezes, concentrar-se em ações individuais pode gerar efeito contrário, de desânimo e desmotivação. Assim, o indicado é descentralizar ao invés de delegar. ”A descentralização vai além da delegação. Enquanto a delegação ocorre em um nível individual, em que um superior decide passar um poder ou tarefa para um subordinado, a descentralização ocorre quando uma diretoria (ou equivalente) decide instituir como princípio transferir o poder de decisão para as equipes, como um todo. A descentralização tipicamente envolve a descentralização de atividades, para providenciar maior autonomia às equipes. A questão é como equipes que interagem são conectadas entre si”, explica.

O MELHOR É EVITAR

De acordo com Flávia Cavazotte, o Burnout tende a ocorrer mais em atividades que envolvem contato e demandas de terceiros, como nas áreas da saúde, educação e no atendimento ao público em geral. Levando isso em consideração, é importante saber detectar em que funções ou atividade da empresa as pessoas estão mais sujeitas ao problema, como áreas com excesso de demandas de trabalho em relação ao tempo disponível para realizá-lo, quando há demandas conflitantes ou ausência de informações suficientes sobre o trabalho. “Há também algumas características pessoais que fazem com que alguns indivíduos estejam mais ou menos propensos ao Burnout. Pessoas mais autoconfiantes, otimistas e resilientes estão mais protegidas. Então, conhecer bem o perfil das pessoas que atuam nas equipes é importante”, lembra.

“Hoje, as empresas pensam muito no perfil do cliente: como conquistar o cliente, agradar o cliente, mas, por outro lado, pensam muito pouco no perfil do seu funcionário: como ter um ambiente correto, amigável e saudável para seus colaboradores. Além disso, também pensam muito pouco no comportamento dos funcionários, em como a mente deles está. Esse resultado a qualquer custo faz com que as pessoas fiquem doentes e não produzam o que devem produzir, ou seja, é um círculo vicioso que adoece as pessoas e torna as empresas menos produtivas”, completa a mentora especializada em acelerar pessoas e negócios e fundadora da empresa B-Have, Erika Linhares.

PREVINA-SE!

As áreas de recursos humanos e saúde e bem-estar no trabalho devem iniciar o trabalho com campanhas de conscientização. O suporte social de líderes e colegas ajuda muito e pode facilitar o enfrentamento de crises e a adaptação em situações de estresse. Redes e comunidades internas também podem ser de grande auxílio para apoiar tanto quem vivencia o problema como os líderes que precisam lidar com tal situação em suas equipes.

CUIDE-SE!

O autocuidado é fundamental. Fazer exercícios, atividades relaxantes e garantir as horas necessárias de sono são medidas essenciais. A autoconsciência é outro ponto – o automonitoramento é uma medida básica para saber se está chegando ao seu limite ou precisa de ajuda.

Discutir o assunto com sua chefia é muito importante para buscar soluções e entrar em um acordo sobre medidas temporárias que possam contribuir. Buscar o apoio de colegas de trabalho, amigos ou entes queridos ajuda a lidar com o problema. Se você tiver acesso a um programa de assistência ao funcionário na empresa, use!

VALE A LEITURA!

O neurologista Leandro Teles aborda em seu novo livro, Depressão não é fraqueza, a depressão e suas variações, considerando que o transtorno já afeta mais de 11 milhões de brasileiros, segundo a Organização Mundial da Saúde. Ao longo dos capítulos, o autor demonstra a diferença entre tristeza e depressão e ensina o leitor a reconhecer em si e nas pessoas que estão ao seu redor os sintomas da doença.

ALIMENTO DIÁRIO

CAPÍTULO DOZE – ARMADILHAS PARA IMPEDIR A BUSCA DA EXCELÊNCIA

“O homem é o único tipo de animal que arma sua própria armadilha, coloca a isca e então pisa sobre ela.” — John Steinbeck

Pensamento-chave: Há substitutos e falsificações para a excelência. Conheça-os e evite-os.

Existem alguns que jamais encontrarão certas armadilhas que estão associadas à busca pela excelência, simplesmente porque eles nunca aspiram reconhecer a alta qualidade que Deus deseja. Eles não estão correndo para ganhar, como Paulo descreveu em 1 Coríntios 9:24, nem tampouco “lutam para serem coroados”, como descritos em 2 Timóteo 2:5. Eles podem servir a Deus, mas apenas parcialmente e no final da carreira, eles estão mais dispostos a ouvir “Bem, você está fazendo algo”, do que “Muito bem”.

A ARMADILHA DA MEDIOCRIDADE

Em vez de buscar a excelência, alguns estão contentes apenas em fazer o suficiente para sobreviver. A palavra medíocre vem de duas palavras em latim, significando: “a meio caminho da montanha”. Em outras palavras, indivíduos que funcionam com uma mentalidade de mediocridade estão satisfeitos em fazer o mínimo, viver a partir de baixos padrões e não se importam em alcançar resultados máximos.

Quais traços você percebe quando a mediocridade prevalece?

•   Uma atitude de apatia.

•   Falta de interesse quanto à qualidade e resultados.

•   Contentamento com a condição em que as coisas estão; sem qualquer desejo por melhoria.

•   Ausência de objetivos desafiadores.

•   Atraso e falta de pontualidade — e os prazos não são cumpridos.

•   Ausência de conscientização e diligência.

•   Desleixo, descuido e uma falta de continuidade.

•   Falta de foco.

•   Facilmente sucumbe a distrações e diversões.

•   Baixos níveis de energia.

•   O trabalho é visto como mundano; aqueles envolvidos estão apenas seguindo o movimento.

A ARMADILHA DA COMPULSÃO

Você não extrai boa música das cordas de um violão que estão muito soltas; do mesmo modo, você não extrai boa música das cordas de um violão que estão muito apertadas. Aqueles que são governados pela mediocridade não têm motivação para a excelência (cordas muito soltas), mas aqueles que são compulsivos são conduzidos de forma doentia (cordas muito apertadas).

Indivíduos compulsivos com frequência falam de empenhar-se pela excelência, mas eles podem estar confundindo o elevado conceito de qualidade com hiperperfeccionismo. Desfrutar de altos conceitos e resultados de qualidade é ótimo, mas quando uma pessoa está continuamente inquieta, ansiosa e com medo de fracassar, isso não é bom. Um hiperperfeccionista nunca sente como se algo estivesse bom o suficiente e está sempre à procura de falhas. Em resumo, não há qualquer alegria na jornada ou no destino.

Lembro-me de conversar com um homem que tinha uma lista de 45 coisas (tipos de orações, confissões, coisas para ler, etc.), que ele sentia que tinha que fazer toda manhã antes que o seu dia pudesse começar. Apesar de algumas dessas coisas serem boas em si mesmas, a maneira como ele as conduzia era muito rígida e legalista. Era óbvio que ele não tinha alegria ao exercitar essas disciplinas espirituais; elas eram muito árduas para ele.

Uma pessoa que serve com compulsão provavelmente desenha Deus como sendo o capataz rigoroso do Egito, que estava sempre exigindo mais (veja Êxodo 1:7-14; 5:5-14). Em vez de vê-lo como o Gentil Pastor, eles veem Deus como irado, desapontado e sempre lhes dizendo: “Vocês não estão orando o suficiente. Vocês não estão lendo a Bíblia o suficiente. Vocês não estão servindo o suficiente, etc.”. É importante manter em mente que o Bom Pastor guia as Suas ovelhas; Ele não as conduz. Deus nos guia com um senso de paz, ao passo que o inimigo (esforçando-se para imitar o Espírito Santo) tenta nos conduzir com um senso de pânico.

É importante lembrar que foi Jesus quem disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o Meu jugo é suave, e o Meu fardo é leve” (Mateus 11:28-30).

A ARMADILHA DA COMPARAÇÃO

Comparação é tipicamente fundamentada em insegurança e tende a produzir orgulho ou inferioridade. Charles Swindoll sabiamente afirmou: “Coelhos não voam. Águias não nadam. Patos parecem engraçados tentando escalar. Esquilos não têm penas. Pare de comparar. Aprecie ser você! Existe muito espaço na floresta”.

Quando minha esposa e eu terminamos o nosso primeiro ano de seminário, em 1980, viajamos para a Austrália, durante o verão, para pregar em diversas igrejas. Começamos na igreja do nosso primeiro anfitrião, o qual era um mestre da Bíblia muito produtivo. Alguns dos seus assistentes me mostraram um fichário que estava cheio de suas anotações. Eu fiquei impressionado e intimidado pelo volume de esboços de ensinos.

Eu era muito inexperiente e senti que precisava vir com um sermão que impressionaria a congregação. Então, peguei três horas de anotações de aulas, combinei em uma mensagem e pensei ter uma verdadeira obra-prima. Entretanto, quando me levantei para falar, eu esgotei as minhas anotações em quinze minutos e eles estavam esperando uma mensagem de cinquenta minutos! Sequer estou certo se o que eu disse fez muito sentido. Eu era inexperiente e não tinha um “fichário”, então eu simplesmente parei. Eu estava muito envergonhado, mas aprendi algumas lições valiosas:

•   Abençoe as pessoas; não queira impressioná-las.

•   Não procure ser outra pessoa.

•   Não tente se medir a partir dos dons, habilidades ou nível de experiência de outra pessoa.

•   Simplesmente dê às pessoas o que você tem para lhes dar e faça isso com o seu coração.

Davi se recusou a usar a armadura de Saul; ela não cabia nele. Davi conquistou Golias não por tentar se parecer com Saul, mas por usar as ferramentas com as quais estava confortável — uma funda e algumas pedras. Quando você copia alguém, você está agindo em imitação. Em vez disso, aprenda a agir por inspiração. Sempre haverá inspiração ao fazer o que Deus o chamou para fazer — e não em imitar alguém.

Paulo deliberadamente ficou longe de fazer comparação de si mesmo com outros. Ele disse: “Não que nós [tenhamos a audácia para] nos ousemos nos classificar ou [até mesmo] comparar-nos com alguém que exalta e fornece testemunhos para si mesmos! Entretanto, quando eles medem a si mesmos, consigo mesmos, e comparam-se uns com os outros, eles estão sem entendimento e se conduzem imprudentemente. Nós, por outro lado, não nos gloriaremos sem medida, mas nos conservaremos dentro dos nossos limites [de nossa comissão] que Deus atribuiu como nossa linha de medida e que se estende e inclui até vocês” (2 Coríntios 10:12-13, AMP).

Deus jamais irá julgá-lo com base no chamado ou resultados de outra pessoa. Ele não o chamou para ser um clone de quem quer que seja ou para fazer o que outra pessoa foi designada para fazer. O seu único objetivo deveria ser fazer o melhor que você puder fazer. Aqueles que caem na armadilha da comparação com frequência terminam também em competição com outros. A nossa única competição deveria ser com o nosso próprio potencial — para maximizarmos totalmente o nosso próprio dom para a glória de Deus. Outros crentes e outras igrejas são nossos parceiros e não nossos competidores.

Os discípulos tinham uma forte questão “comparação-competição” em disputa entre eles, e isso continuou mesmo após a ressurreição. Mesmo quando Jesus disse a Pedro: “Segue-me”, Pedro não pôde deixar de imaginar como o ministério e destino de João se compararia ao seu.

Então, Pedro, voltando-se, viu que também o ia seguindo o discípulo a quem Jesus amava, o qual na ceia se reclinara sobre o peito de Jesus e perguntara: Senhor, quem é o traidor? Vendo-o, pois, Pedro perguntou a Jesus: E quanto a este? Respondeu-lhe Jesus: Se Eu quero que ele permaneça até que Eu venha, que te importa? Quanto a ti, segue-Me. — João 21:20-22

Precisamos focar nossa atenção em seguir Jesus, em vez de olhar em volta, observando os outros e perguntando: “E quanto a este, Senhor?” Se ficarmos excessivamente focados nos outros, especialmente com uma atitude crítica e comparativa, então estaremos mais propensos a começarmos a eliminar os outros e sentir como se estivéssemos em uma competição com outros membros do Corpo de Cristo. Estamos todos no mesmo time e precisamos respeitar as atribuições uns dos outros, e apoiá-los, à medida que buscamos servir a Deus de modo eficaz.