A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

JOIA DILAPIDADA

A Esposa é aparentemente despretensioso, mas evidencia as batalhas das mulheres para afirmarem seus diferentes talentos em um mundo ainda comandado pelos homens

Dirigido pelo sueco Bjorn Runge e baseado na obra homônima de Meg Wolitzer, o filme em tempos de discussões acaloradas sobre salários equivalentes na glamourosa Hollywood é uma verdadeira e sutil bofetada com luvas de pelica. Glenn Close mereceu o prêmio Globo de Ouro por essa atuação que lhe exigiu uma contenção que talvez lhe tenha sido bastante difícil se pensarmos na trajetória dessa atriz. Fez lembrar sua magnífica interpretação em Albert Nobbs (2011), quando assim como por esse desempenho foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz, mereceria o prêmio pelas duas atuações.

QUESTÕES DA HUMANIDADE

O espectador é apresentado aos poucos a Joan Castleman (Glenn Close) e seu marido, o escritor Joe Castleman (Jonathan Pryce), que fica sabendo que ganhou o Nobel de Literatura por seu comovente conjunto de obras que tocam a humanidade em questões fundamentais, isso dito por seu anfitrião na cerimônia de entrega do prêmio. O filme acompanhará justamente todo o período que cobre o comunicado da vitória e a ida à cerimônia de entrega na Suécia.

Para ajudar a pensar sobre a escolha que Joan Castleman supostamente encaminha para sua vida, talvez seja bom ter em mente que em 114 premiações do Nobel de Literatura, apenas 14 foram dados para escritoras. “A necessidade é de ser lida”, diz uma outra escritora personagem do filme, Elaine Mozell, interpretada pela nossa conhecida Lady Crawley de Downton Abbey, Elizabeth McGovern. O filme encaminha com muita competência a questão central, capturando o espectador com a trama na qual se apoia, bem envolvente mesmo. Para colaborar ainda mais um pouco para pensar no debate que ele propõe, poderemos sugerir a busca de dados sobre as inúmeras mulheres escritoras que para terem suas obras publicadas, ou mesmo para que não fossem declaradas loucas, adotaram nomes masculinos, porque praticamente até o início do século XX não era bem recebido pela sociedade que uma mulher desejasse escrever outra coisa que não cartas de amor e de amizade. Há um filme excelente para abordar isso, Ópio: Diário de uma Louca / Opium:Egy Elmebeteg no Naplója [2007], de János Szász.

Há muitas escritoras que só tiveram seus nomes femininos levados a público depois de falecidas, como, por exemplo, Amantine Dupin, que escrevia como George Sand e foi amiga de muitos escritores influentes de sua época, como Balzac, Flaubert, amante de Chopin e do poeta Alfred de Musset. Embora tivesse apoio de todos, permaneceu publicando com o seu pseudônimo masculino. Muitas outras, como a hoje muito famosa Jane Austen, recorriam a publicações anônimas, que foi o caso da sua consagrada obra Orgulho e Preconceito, onde na autoria no original lia-se: “Escrito por uma dama”. Muitas recorreram a esse artificio como temos aqui no Brasil como exemplo o caso de Maria Firmina dos Reis, autora do romance Úrsula (1859), considerado por alguns historiadores como o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira, o qual assina como “uma maranhense”. As irmãs Bronte, que publicaram com nomes masculinos Currer (Charlote), Ellis (Emily) e Acton Bell (Anne). Esses são apenas alguns casos dos mais conhecidos. Após ver o filme, resta inevitável pensarmos em quantos casos não conhecidos poderão ainda se ocultar por detrás de autores reconhecidos. Vale a curiosidade, já há sites e pesquisas publicadas buscando dar sustentação à descoberta dos nomes de muitas dessas escritoras.

A personagem Joan era uma tímida aluna universitária (Annie Starke) do já reconhecido professor Joe Castleman, ao escrever um conto para a matéria dele que frequentava, acabará por chamar sua atenção. Ali ele já percebe nela um grande talento natural para a escrita. Aos poucos eles se aproximarão amorosamente e ele deixará seu casamento para ficar com ela. Ele finaliza seu primeiro livro e Joan o criticará pedindo para editá­lo, no que ele após uma crise acabará consentindo. Ele fará muito sucesso a partir dessa obra e sua carreira brilhará. Joan se apresentando socialmente sempre ao lado de Joe e fornecendo a ele toda a sustentação funcional que se costuma exigir de uma boa esposa. Eles têm dois filhos, uma filha grávida prestes a dar à luz, Susannah (Alix Wilton Regan), e David (Max Irons), que também é escritor e busca angustiadamente a aprovação de seu pai. Durante a estadia de Joan e Joe em Estocolmo para a cerimônia do Nobel, o jornalista Nathanial Bone (Christian Slater) se aproximará de Joan dizendo a ela que está escrevendo uma biografia sobre Joe Castleman e lhe fala sobre suas desconfianças sobre a verdadeira autoria da obra dele. Oficialmente está posto que Joan deixara de escrever após seu casamento com Joe, sendo ele o escritor da família. O jornalista tem como pista o único conto assinado por Joan que fora publicado em um jornal da universidade.

EXTRAVAGÂNCIAS

A perspectiva de Joan pode ser abordada de pelo menos duas maneiras, uma a vitimiza e a outra a coloca como uma mulher que resolveu se adequar passivamente aos ditames de lugar social, tirando disso sua gratificação. O enredo mostra o quanto a premiação do Nobel pela obra de seu marido desarrumará um acordo até então vivido como se fosse algo assentado e tranquilo. Joan viveu até então voltada para a organização de sua família, enfrentando ao longo das décadas de sua união com Joe inúmeras vivências de infidelidade do marido que mantinha casos extraconjugais com colegas e alunas. Em determinado trecho, Nathanial Bone dirá a ela que tomava isso apenas como extravagância muito comum em homens geniais, fica como ironia diante do que o filme revelará. O discurso de poder é sempre abordado a partir de uma ordem falocêntrica, ao comportamento masculino tudo ganhará contornos de enaltecimento e não de crítica ou questionamento. A Joan que Glenn Close construiu é absurdamente convincente, faz pensar em tantas mulheres cuja inteligência ficou guardada como segredo de família. Toda opressão a qual ela é submetida é como uma “doce prisão” que tantos romances escritos por homens quiseram convencer as mulheres a “ser” o lugar que lhes cabia, abnegadas e amorosas servindo ao bem maior da família e em primeiro lugar ao marido. O dote, hábito adotado até o século XX, que entregava a herança das filhas para administração e gasto de seus maridos, assume no longa um entendimento amplo e metafórico.

As mulheres não pertencentes à classe operária ganharam o mundo do trabalho mais fortemente a partir da Segunda Grande Guerra, e de lá em diante não quiseram retornar passivamente ao lugar que lhes era destinado antes disso. Com a chegada da pílula anticoncepcional, a liberdade sexual marcou bastante da nova subjetividade que ela podia construir, dona de seu corpo e prazer, trazia como correlato a isso uma exigência em ser mais amplamente reconhecida. Foram aos poucos deixando de passar adiante a assinatura por suas obras, descobertas, invenções, produções etc. Na história do cinema temos a polêmica em torno do nascimento do filme ficcional, não mais documental fotográfico. É comum atribuir a Geórges Mélies o surgimento dessa forma de fazer filmes, porém hoje sabemos que a diretora francesa Alice Guy Blaché já fazia filmes dessa maneira ao que se tem notícia em 1896 (La Fée aux Choux/A Fada do Repolho) muito antes de Mélies, que mereceu até urna belíssima e merecida homenagem feita por Martin Scorsese em seu Hugo (2011), embora talvez sua posição na história possa ser revisitada.

Todos os anos as grandes premiações do cinema voltam a ter que enfrentar o questionamento não somente sobre equiparação salarial entre atores e atrizes, mas também pela baixa presença feminina em postos de comando, assim como no recebimento de prêmios que marcadamente têm sido dados aos seus colegas homens. O talento feminino ainda mais incomoda do que é objeto de admiração, a linguagem propriamente feminilizada ainda é bastante estranha a todo um entendimento construído a partir de premissas bem condizentes ao poder másculo predominante; nesse sentido, a personagem de Joan Castleman, em todo seu vigor discreto e aparentemente bem combinado com o dito de que “por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”, é um convite a profundas reflexões, contém um tremendo toque de ironia. Nossa anti-heroína ensina mais que produções de um protótipo de Mulher Maravilha. Revela o que se oculta ainda como uma resistência a entender a igual possibilidade de sujeitos, independentemente da marcação de gênero produzir o que há de melhor na humanidade.

Joe Castleman surge como a própria denúncia do ilusionismo alimentado sobre a superioridade masculina, mais aparência que essência, mais jogo de cena do que visceralidade, mais virtualidade do que honesta exposição, o rasgar-se que toda boa escrita necessariamente inclui.

MERCADO FEMININO

Toda pena é feminina, não importa o gênero que a sustenta. Desnudar-se nas letras que compõem o que nos forma nas palavras, ou como diria Dider Anzieu em sua obra O Eu Pele: “A palavra do outro, se oportuna, viva e verdadeira, permite ao destinatário reconstituir seu envelope psíquico (…]. Isto assim funciona na amizade, na cura psicanalítica, na leitura literária”. O que Joan introduz nas histórias criadas por Joe é essa coisa viva e verdadeira. Um casamento que poderia ser perfeito, mas que se perde justamente na capacidade masculina de oprimir e se apropriar de tudo que lhe confere poder. O ouro da pena.

Os filhos do casal talvez representem a tensão que sustenta essa trama familiar, filhos que foram afastados do convívio da mãe, que passava horas trancada no escritório produzindo as joias da família. Joan, a certa altura, quando enfim explode o não dito desse grupo, falará sobre isso com muita dor. O filho, David, estupefato, perguntará ao pai como pôde fazer isso à sua mãe, dilapidá-la de tal forma…Joe sofre quando tem que enfrentar a provável ausência de sua sustentação, da farsa que seria enfim denunciada, seu coração não resiste e assina o derradeiro acordo. O espectador atento poderá se perguntar ao final se Joan será capaz de silenciar-se, já que entende que quem escreve o faz como necessidade quase igual a alimentar-se, ter algo a dizer ao mundo não é uma coisa da qual se possa abrir mão. A continuação da história se dará após os créditos na imaginação de cada um que for tocado por essa bela e potente produção.

OUTROS OLHARES

GRAÇAS A DEUS EXISTEM ANTIDEPRESSIVOS

A ideia de que basta ser um bom cristão e ter fé para vencer a depressão é um tabu perigoso que as igrejas e seus líderes precisam superar

Historicamente, as igrejas cristãs são conduzidas por movi­ mentos e doutrinas, que diferem entre si e se baseiam em interpretações bíblicas. Algumas são demasiadamente delicadas: em vez de ajudarem as pessoas, elas podem ferir. É muito difundida hoje nos Estados Unidos, por exemplo, a teologia da prosperidade, um movimento segundo o qual, se você amar a Deus e fizer por merecer, Ele dará tudo o que você pedir. Para mim, isso é uma leitura errônea da Bíblia – que afirma, em Lucas 12:48: “A quem muito é dado, muito será cobrado”. Diversos outros trechos do livro sagrado ressaltam a necessidade de o cristão trabalhar em favor dos imigrantes, pobres, órfãos e viúvas, em vez de acumular bens para si.

Nesse mesmo caminho, existe uma cobrança exagerada, em variadas igrejas, para que seus membros sejam perfeitos, exalando prosperidade e, de preferência, uma perfeita saúde mental – que estaria diretamente atrelada a uma adequada vida espiritual. Por muitos anos acreditei nisso e tentei ser perfeita para ter o amor de Deus. Até o dia em que me vi internada em um hospital psiquiátrico.

Cresci em uma família cristã na Escócia, onde nasci. Meio sem querer, eu me envolvi com a música e acabei me tornando uma cantora de certo prestígio na Inglaterra e nos Estados Unidos. Durante cinco anos, entre 1987 e 1992, fui apresentadora de um programa matinal diário chamado The700 Club, produzido pela Christian Broadcasting Network (CBN). Na época, enquanto eu fingia ter a tal vida cristã invejável, escondia sintomas de depressão. Não dormia, não comia. Eu me sentia contínua e profundamente triste. Minha memória começou a esvair-se, mal lembrava a senha do banco. Até que um dia, durante o programa, dei início a uma entrevista e meu convidado me questionou: “Sheila, você sempre pergunta como estamos, mas e você? Como você está?”. Eu congelei. Não consegui responder. Senti tontura. Após longos segundos de absoluto silêncio no ar, ao vivo, chamaram os comerciais. Corri para meu camarim. Tranquei-me e comecei a tremer e a chorar compulsivamente. Liguei para um amigo que é psiquiatra e pedi ajuda. Foi quando me internei numa clínica para pessoas com distúrbios mentais. Fui diagnosticada com depressão severa e transtorno de stress pós-traumático, motivados pelo suicídio do meu pai, que morreu aos 34 anos, a mesma idade em que tive o ataque na televisão.

Meu pai sofreu uma forte hemorragia cerebral que alterou a vida da minha família. Na época, eu tinha 5 anos. Sua personalidade mudou, e eram comuns os episódios de raiva. Eu, que era muito próxima dele, me tornei alvo de pequenas violências. Um dia eu estava brincando no chão da sala e ele tentou me acertar com a bengala. Não lembro como me livrei, mas ele caiu no chão. Minha mãe chamou a polícia, e meu pai foi internado em um hospital psiquiátrico – na época, na Escócia, o nome dado a instituições do tipo era asilo para lunáticos. Pouco tempo depois, ele conseguiu escapar durante a noite e foi encontrado na manhã seguinte, afogado num riacho ao fundo do hospital, onde tirou a própria vida.

Corria a década de 60, e os estigmas dos distúrbios mentais e do suicídio eram ainda maiores do que hoje. Os membros da nossa igreja se afastaram da minha família. Tivemos de nos mudar de cidade. Falar sobre a morte do meu pai era um grande tabu na minha casa, então nos calamos. Interiorizei meus sentimentos e fingi o máximo possível para mostrar que estava sempre bem. Tudo isso culminou na minha internação.

Fiquei no hospital por um mês. Na primeira noite, achei que iria morrer. Na minha mente, meu pai não sobreviveu à mesma experiência. Fui medicada e comecei afazer psicoterapia individual e em grupo. Como era uma unidade hospitalar de cunho cristão, conheci outras pessoas com a fé e a psique abaladas. Em determinado ponto do tratamento, percebi que eu não era perfeita, e que meu relacionamento com Deus não exigia que eu o fosse. Depois desse episódio, quando voltei à ativa, muitas pessoas me disseram: “Você não pode contar sobre isso a ninguém, pois nunca mais vão confiar em você para falar em igrejas ou em um programa na TV para cristãos”. Mas lembrei que manter em segredo o que tinha acontecido na minha família foi o que me levou ao limite das minhas emoções e agravou minha doença. Optei pela verdade.

Atualmente, existe uma vertente de cristãos que entende a importância do tratamento clínico da saúde mental. Mas há quem diga: “Se você tiver mais fé, se acreditar mais em Deus, a depressão irá embora”. Isso e ridículo. É o mesmo que dizer para alguém que quebrou a perna: “Tenha mais fé, levante-se e ande”. Acredito que todos os mecanismos que temos para tratar transtornos mentais são bênçãos de Deus. Agradeço a Deus, todos os dias, por meus antidepressivos. Não espero ser curada, pois entendo a depressão como uma doença de tratamento contínuo. Já tive vergonha disso, mas não tenho mais. Comecei a falar abertamente sobre depressão nas igrejas por onde passo, e encontro muitas pessoas, especialmente mulheres, que me dizem que sofrem de sintomas parecidos, ou que, envergonhadas, tomam remédios controlados.

Líderes religiosos pegam trechos bíblicos fora de contexto e afirmam coisas como: “Você não deve tomar remédios, pois Deus é quem dá forças, afinal, “tudo posso naquele que me fortalece” – famoso versículo que consta em Filipenses 4:13. Ao longo das minhas viagens, já passei por igrejas do Brasil, da Austrália, da África, e sinto que os dilemas são parecidos ao redor do mundo: somos muito duros conosco. Especialmente as mulheres, tão cobradas no ambiente religioso, como se pudessem ser a própria Mulher-Maravilha, do tipo que faz tudo: cuida da casa, da família, do trabalho, da igreja, da beleza. Mas é impossível.

Espero que cheguem ao fim a vergonha e o estigma de quem sofre com a saúde mental. Por esse motivo passei a escrever livros sobre o tema, como Tudo Bem Não Estar Bem (Thomas Nelson). É a frase que tem me guiado: nem sempre estamos bem, e tudo bem. Se você luta com transtornos mentais, saiba que não está sozinho, e que não é um cristão inferior. Não é um problema com sua espiritualidade. É a química do seu cérebro, e existe ajuda para isso.

SHEILA WALSH, 63 anos, cantora e autora cristã, é publicada no Brasil pela editora Thomas Nelson

GESTÃO E CARREIRA

DESPRAZERES DA CARNE

A anunciada fusão entre BRF e Marfrig não animou o mercado e acabou sendo enterrada por conta de discordâncias em relação ao comando dos negócios

No dia 30 de maio, depois do fechamento do mercado, as brasileiras BRF e Marfrig anunciaram a assinatura de um memorando para estudar a fusão entre as empresas. Com potencial de criar a quarta maior companhia de carne do mundo, faturamento anual de R$ 80 bilhões e valor de mercado de R$ 26,5 bilhões, o negócio seria analisado por até 90 dias, com possibilidade de prorrogação por mais 30 dias. Não precisou de todo esse tempo. No dia 11 de julho, menos de um mês e meio depois, a fusão foi descartada. No comunicado oficial, a BRF informou “não ter sido atingido acordo quanto aos termos e condições relacionados à governança da companhia combinada”

Segundo fonte que acompanhou as negociações, cinco frentes de estudos foram abertas para debater a integração: sinergias operacionais, tributárias, financeiras, estrutura societária e modelo de negócios combinados. “Já de cara houve divergências na estrutura societária”, diz a fonte. “Tivemos muitas dificuldades de avançar nesse tema.” A BRF tinha como objetivo inegociável replicar todo o seu modelo de governança. A empresa está listada no Novo Mercado da B3 e tem ADR nível três, o mais exigente para ações negociadas em Nova York. Isso demanda atender aos requisitos da lei Sarbanes-Oxley americana, aos quais a Marfig não tem aderência. Essa decisão dos acionistas e executivos da BRF desagradou Marcos Molina, o controlador da Marfrig, que desejava ter mais voz na nova empresa.

O perfil societário das duas companhias é bastante diferente. A BRF possui controle disperso, tendo como principais acionistas os fundos de previdência Petros e Previ. A gestão é comandada por executivos de mercado como Pedro Parente, presidente do conselho, e Lorival Luz, presidente da empresa desde junho. Já a Marfrig é uma típica empresa com dono. Molina dá as cartas e toma todas as decisões mais importantes. A proposta de fusão considerava que os acionistas da BRF deteriam 84,98% das ações e os da Marfrig, 15,05%. Dessa forma, Molina seria o maior acionista da nova empresa, mas com apenas 5% do controle. Não era suficiente para definir as estratégias da nova companhia.

O fracasso das negociações não surpreendeu o mercado. Além de notícias de que Petros e Previ não se animavam com o plano, os analistas do setor não acreditavam em ganhos operacionais com fusão. “Elas não são muito complementares”, diz Oscar Malvessi, coordenador do curso de fusões e aquisições da Fundação Getúlio Vargas. “No mundo todo, as empresas estão dando foco total em seu principal negócio. Por que a BRF e a Marfrig iriam querer mudar de negócio?” A Marfrig é uma grande força mundial da venda de carne bovina. Em especial para os EUA, que representa 70% dos seus negócios. Já a BRF se destaca em aves e suínos, com produtos processados das marcas Sadia e Perdigão, consumidas em três grandes mercados: Brasil, países árabes e Ásia.

DOIS MAIS DOIS 

O negócio parecia fazer sentido do ponto de vista financeiro, mas não no operacional. O nível de endividamento da BRF diminuiria com o negócio. A empresa opera com uma alavancagem de 4,6 vezes, considerando a sua dívida líquida em relação ao Ebitda. Já a Marfrig tem índice de 2,1 vezes. “Elas somariam dívidas”, diz Malvessi. “A lógica para uma fusão é buscar uma sinergia em que, quando se soma um mais um, o resultado é mais de dois. Mas, no caso, a soma daria menos de dois.” Na BRF, no entanto, a percepção é que haveria ganhos adicionais. Além de uma presença global e diminuição do endividamento, a transação traria acesso a crédito mais barato, devido à força da Marfrig nos EUA.

O fim dos planos de fusão não vai, porém, afetar a relação comercial entre as empresas na distribuição de produtos para supermercados e quiosques. “Apesar do término das tratativas, o relacionamento entre a companhia e a Marfrig permanecerá inalterado e não haverá quaisquer modificações nas práticas, condições e termos previstos em contratos por elas celebrados”, disse a BRF em comunicado assinado por Lorival Luz. Isso significa que a Marfrig continuará fornecendo carne para BRF que é usada, por exemplo, nos hambúrgueres da Sadia. O casamento não saiu, mas a amizade continua.

ALIMENTO DIÁRIO

QUALIFICADOS

CAPÍTULO ONZE – CULTIVANDO A COMPETÊNCIA

“Onde quer que você esteja, seja bom.” — Abraham Lincoln

Pensamento-chave: Se vale a pena fazer, vale a pena fazer direito.

Jamais podemos superestimar a importância da integridade e caráter, e também não deveríamos minimizar a significância de sermos habilidosos e competentes.

Você se lembra do que o Salmo 78:72 diz acerca de Davi? Diz que Deus “… os dirigiu com mãos precavidas”.

Se eu tenho um problema com o meu veículo, não quero simplesmente um mecânico que ama Jesus trabalhando no meu carro; eu quero um mecânico que seja realmente habilidoso para consertar carros. Do mesmo modo, se busco socorro médico, eu não quero ver apenas um médico que seja legal e honesto; eu quero um que seja altamente competente para diagnosticar precisamente e tratar a enfermidade.

Quando se trata de servir a Deus, nosso desejo deveria ser de dar a Ele absolutamente o nosso melhor. Apesar de reconhecermos que a nossa habilidade vem Dele, deveríamos nos esforçar para seguirmos o exemplo do Senhor Jesus Cristo. Marcos 7:37 (AMP) diz: “Eles estavam esmagadoramente atônitos, dizendo: Ele fez tudo com excelência (com louvor e nobreza)”.

JESUS ERA UM CARPINTEIRO DESLEIXADO?

Eu não acredito que Jesus começou a ser comprometido com qualidade e excelência quando se tornou um pregador. Acredito que a Sua atitude e determinação era fazer todas as coisas para a glória e honra de Seu Pai Celestial, quer envolvesse construir uma mesa como um carpinteiro, ou pregar um sermão como um ministro.

Não consigo simplesmente imaginar Jesus voltando para a Sua terra natal para pregar e as pessoas não estando interessadas em ouvi-lo porque ele tinha sido um carpinteiro terrível. Acredito que Jesus fez tudo o que fez para a glória e honra de Deus. Eu simplesmente não consigo imaginá-lo como um trabalhador desleixado, apático e descuidado, produzindo artigos inferiores.

Ao longo de todo o Antigo Testamento, a apreciação de Deus por qualidade é claramente evidente:

•  Os trajes que foram feitos para o uso no tabernáculo do Antigo Testamento foram “habilidosamente tecidos” (Êxodo 28:4,39).

•  Aqueles designados para ajudar na edificação do tabernáculo foram citados como homem hábil” (Êxodo 36:1).

•  Davi, antes mesmo de ser ungido para ser rei, foi descrito como: “… sabe tocar e é forte e valente, homem de guerra, sisudo em palavras e de boa aparência; e o SENHOR é com ele” (1 Samuel 16:18).

•  Em 2 Crônicas 2, Salomão está se preparando para edificar o Templo. Nesse capítulo, palavras relacionadas à habilidade aparecem várias vezes.

•  Esdras foi descrito como “escriba versado” (Esdras 7:6).

•  “Então, o mesmo Daniel se distinguiu destes presidentes e sátrapas, porque nele havia um espírito excelente; e o rei pensava em estabelecê-lo sobre todo o reino” (Daniel 6:3).

•  Salmos 33:3 diz: “Entoai-lhe novo cântico, tangei com arte e com júbilo”.

•  E, para finalizar a ideia a respeito de qualidade: Qual é a única coisa que todos queremos ouvir quando nos colocarmos diante de Jesus? “Muito bem, servo bom e fiel” (Mateus 25:21).

RETRATOS DE EXCELÊNCIA

Martin Luther King, Jr. capturou o espírito de excelência quando disse: “Se um homem foi chamado para ser um gari, ele deve varrer as ruas do mesmo modo como Michelangelo pintou, ou Beethoven compôs músicas, ou Shakespeare escreveu poesias. Ele deve varrer as ruas tão bem que todas as hostes dos céus e da terra pararão para dizer: ‘aqui viveu um grande gari que fez o seu trabalho muito bem’”.

Aristóteles disse: “Excelência é uma arte conquistada por treino e hábito. Não agimos corretamente porque temos virtude ou excelência, mas ao contrário, nós as temos porque agimos corretamente. Nós somos o que fazemos repetidamente. Excelência, portanto, não é um ato, mas um hábito”.

O general H. Norman Shwarzkopf compartilhou a seguinte observação: “Conheci muitos líderes no exército que eram muito competentes — mas eles não tinham caráter… também encontrei muitos líderes que tinham um caráter magnífico, mas que necessitavam de competência… Para liderar no século 21, será exigido de você ambos: caráter e competência”.

Muitos ouviram a respeito de John Wooden, antigo treinador de basquete da Universidade da Califórnia. Talvez muitas das suas realizações foram devidas, pelo menos em parte, ao fato de que seu pai lhe ensinara, quando era jovem: “Faça de cada dia a sua obra-prima”.

Vejamos algumas áreas nas quais podemos desenvolver competência.

COMPETÊNCIA AO TRABALHAR COM PESSOAS

Ministério é, em sua grande extensão, um “negócio de pessoas”. É ótimo amar a Deus, adorá-lo, orar, mas também precisamos ser capazes de trabalhar bem com as pessoas, se iremos ser eficazes no ministério. Roboão é um exemplo clássico de um líder que sabotou a sua própria eficiência e potencial porque ele não sabia como estabelecer e manter bons relacionamentos com as pessoas. Quando as pessoas buscaram um pouco de alívio da fadiga que experimentaram sob o reinado de Salomão, Roboão respondeu duramente ou asperamente. Um pouco de gentileza e diplomacia teria operado maravilhas, mas Roboão perdeu dez das doze tribos, sobre as quais ele poderia ter governado (2 Crônicas 10:1-17).

“O mais importante ingrediente na fórmula do sucesso é saber conviver com as pessoas.” — Theodore Roosevelt

Existem três dimensões de relacionamentos com as quais precisamos aprender a trabalhar:

•   Devemos aprender a trabalhar bem com aqueles que estão em autoridade sobre nós — a palavra-chave aqui é submissão.

•   Devemos aprender a trabalhar bem com aqueles que são nossos iguais e cooperadores — a palavra-chave aqui é trabalho em equipe. O grande jogador Mia Hamm disse: “Sou membro de um time e eu dependo do time, submeto-me ao time e me sacrifico por ele, porque o time, e não o indivíduo, é o campeão final”.

•   Devemos aprender a trabalhar bem com aqueles que estão sob a nossa supervisão — a palavra-chave aqui é diplomacia.

A Bíblia não nos garante sucesso automático em cada relacionamento, ou que seremos capazes de conviver com todas as pessoas na terra; entretanto, devemos dar o nosso melhor. Existem livros à disposição que podem nos ajudar a desenvolvermos as nossas habilidades com as pessoas e nos ensinam a conviver com pessoas difíceis. Nós também podemos aprender a extrair o melhor dos outros, de modo a cultivarmos os melhores resultados possíveis nos diversos relacionamentos que temos.

COMPETÊNCIA AO MANUSEAR A PALAVRA DE DEUS

Paulo disse a Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a Palavra da verdade” (2 Timóteo 2:15). Paulo disse que um bispo deveria ser “… um mestre qualificado e capaz” (2 Timóteo 3:2, AMP) e que alguém em tal posição de liderança deve ser “apegado à Palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino, como para convencer os que o contradizem” (Tito 1:9).

A capacidade à qual estamos nos referindo não é meramente ter uma compreensão mental a respeito das verdades da Bíblia, mas também se aplica a ser espiritualmente sensível ao Espírito Santo e às necessidades das pessoas. Isaías disse: “O SENHOR Deus me deu língua de eruditos, para que eu saiba dizer boa palavra ao cansado. Ele me desperta todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que eu ouça como os eruditos” (Isaías 50:4). Não buscamos habilidade ao manusear os textos bíblicos apenas para que possamos ganhar argumentos, mas para que sejamos capazes de ministrar eficazmente àqueles que estão sofrendo e desencorajados.

O apóstolo Paulo reconheceu que havia mais habilidade em ministrar a Palavra de Deus do que estar “tecnicamente” correto acerca de alguma coisa, especialmente se temos uma atitude legalista. Ele disse que Deus “… nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Coríntios 3:6). É importante que não ministremos apenas a verdade de Deus, mas também o coração de Deus.

COMPETÊNCIA EM SUA ÁREA DESIGNADA DE RESPONSABILIDADE

A questão deveria ser evidente para todos. Se você escreve cartas, então, escreva-as bem. Se você trabalha com som, então seja bom nisso. Se você é alguém que recepciona, então faça as pessoas realmente se sentirem bem-vindas. O que quer que você faça, faça com o mesmo nível de entusiasmo e qualidade que você demonstraria se estivesse fazendo para o próprio Jesus.

Dan Reiland disse: “Demasiadas vezes, no ambiente de trabalho da igreja, aplicamos a graça incorretamente. Alguém comete um erro ou fica aquém do padrão de excelência e nós dizemos: ‘Ah, está TUDO BEM’. Ah, não está TUDO BEM. Jesus não morreu na cruz para TUDO BEM. Ele merece o nosso melhor. Você pode ser gentil em sua comunicação e ser paciente em seu treinamento, mas não reduza as suas expectativas. A causa de Cristo é digna do melhor de cada um”.

Em muitas igrejas, voluntários (e, às vezes, funcionários) são escolhidos para trabalhar em uma área na qual eles não são altamente qualificados ou competentes. Eles deveriam se recusar a trabalhar se eles não têm um doutorado nessa área? Certamente que não! Mas deveriam aprender tudo o que podem acerca dessa área específica e adquirir toda a proficiência e competência que puderem, de modo a realizarem um bom trabalho.

Durante o meu primeiro ano de seminário, eu trabalhei como um zelador em uma igreja local. Eu sabia como manusear um aspirador de pó, e era isso o que eu fazia. Você deve estar imaginando quantos erros um zelador pode cometer se ele não for habilidoso! Bem, eu quero que você saiba que eu descobri pelo menos alguns deles!

Uma das minhas atribuições era aspirar a área da plataforma no santuário. Enquanto eu aplicava a cera e removia a poeira, sentia como se estivesse realizando um ótimo trabalho. Entretanto, jamais me ocorreu que aplicar a cera sobre o teclado do piano não era uma boa ideia. Como eu não era um músico, eu não compreendia que os pianistas não apreciam teclas escorregadias! Eu fui “gentilmente ensinado” e não cometi o mesmo erro novamente.

Empregadores e supervisores reconhecem que indivíduos necessitam de algum treinamento e instrução, e eles também admitem que um erro honesto será cometido de tempos em tempos. Entretanto, eles certamente não esperam que as pessoas cometam os mesmos erros, repetidamente.

Para que sejamos competentes e permaneçamos efetivos em nossas habilidades, é imperativo que sejamos ensináveis — sempre aprendendo — e sempre buscando nos aperfeiçoar. Às vezes, as pessoas estão em certa posição, mas elas não se mantêm por dentro das novas informações ou as mais recentes tecnologias acerca daquela posição e logo o seu trabalho as “ultrapassa”. Alguém disse: “Não seja o mesmo. Seja superior àquele que era ontem”. John Wesley foi grande ao ser um constante aprendiz. Considere estas declarações feitas por Wesley:

“Cristãos que leem são cristãos que crescem. Quando os cristãos param de ler, eles param de crescer.”

“Aquele que não lê mais deveria largar o ministério.”

“Uma vez a cada sete anos, eu queimo os meus sermões; pois é uma vergonha se eu não puder escrever melhores sermões agora do que há sete anos.”

SE VALE A PENA FAZER…

Todos ouvimos a frase: Se vale a pena fazer, vale a pena fazer direito. Oswald Chambers engrandeceu essa que já era uma grande ideia, por meio do título do seu livro clássico, Tudo Para Ele. Que belo e poderoso pensamento. Eclesiastes 9:10 também expressou esse princípio com estas palavras: “Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças”. Vamos aplicar isso a todas as áreas das nossas vidas, especialmente em nosso serviço a Deus, à medida que continuamente cultivamos a competência.