A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

IMPERADORES DOMÉSTICOS

Ao longo dos anos foi surgindo uma geração de crianças mimadas e autoritárias, sem limites definidos, que está intimidando e exaurindo pais e educadores

Imperadores domésticos

Gritos, birra, jogar-se no chão, mandar e bater encorpam a trama de comportamentos das crianças sem limites definidos. A presença dessas crianças na prática clínica vem aumentando, encaminhadas pela escola ou trazidas pelos pais, que se encontram exauridos emocionalmente. Mas o que de fato está acontecendo com as crianças para se comportarem de maneira autoritária, mandona e desrespeitosa com os pais e professores?

Um dos fatores apontados por psicólogos e pedagogos são as mudanças socioculturais da última década, que levaram os pais a terem menos tempo para permanecer com os filhos e, por isso, ficam mais propensos a aceitar as birras e a superproteger, compensando, assim, a sua ausência. Outro condicionante é o modelo de educação autoritária, na qual os pais foram submetidos, ou seja, ambientes de muita repressão, mágoas e culpa. Para fugir dessa matriz e não replicá-la, muitos pais acabam afrouxando as rédeas e tornam-se reféns emocionais dos filhos ao serem lenientes com caprichos e birras deles. Quando os pais são indulgentes, os filhos desenvolvem a crença de que tudo podem e transformam-se em imperadores domésticos, cujo comportamento é transferido para a sala de aula e na relação com demais colegas.

O médico psiquiatra e referência em matéria de comportamento humano no Brasil, Içami Tiba, afirma: “Os pais, não sabendo ser pais, estão sendo dominados por crianças temperamentais, que querem fazer o que querem, e os pais não têm condições de impor limites e disciplina, porque temem perder o amor dos filhos. Isso não é pai que se preze, porque ele se torna refém do seu medo e o filho pequeno acostuma a reinar, a mandar nos pais”.

Pode-se imaginar que quando a criança não aprende com os progenitores que ela não pode ter tudo o que deseja, no seu tempo e ao seu modo, terá dificuldade em assimilar as regras sociais inerentes à convivência. Com isso, a probabilidade desse infante infringir as regras sociais será alta. É possível observar isso na escola, a exemplo de a criança xingar o professor, roubar brinquedos, não aceitar as orientações, bater nos colegas, não querer fazer as tarefas, mentir e outros tantos comportamentos muitas vezes negligenciados pelos pais. Tais pais têm dificuldade em dizer “não” e inserir consequências para os comportamentos errados da criança com medo de ferir ou traumatizar emocionalmente. O efeito para essa falta de limite é que os pais estão ensinando ao filho que ele pode ter tudo e que os outros vão servi-lo para suprir suas necessidades, tornando-os verdadeiros imperadores domésticos. O médico Içami Tiba ressalta: “Os filhos dessa geração foram criados sem noção de padrões de comportamento e limites, formando uma geração de “príncipes” e “princesas” com mais direitos do que deveres, mais liberdade do que responsabilidade, mais “receber” do que “dar” ou “retribuir”, colocando voz de mando na casa, na escola, com os amigos e na sociedade”.

O termo síndrome do imperador ou imperador doméstico tornou-se popular pelos profissionais da área da saúde, principalmente por psicólogos, pedagogos e pediatras, para elucidar os comportamentos de mando, birra e agressividade de algumas crianças, que submetem os pais aos seus caprichos. O sistema diagnóstico mais amplamente utilizado pelos profissionais, o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), classifica esse repertório de comportamentos disfuncionais (padrão frequente e persistente de humor raivoso/irritável, questionador/desafiante ou de índole vingativa, com duração de pelo menos seis meses, preenchendo ao menos quatro sintomas de qualquer das categorias descritas no manual) como transtorno desafiador de oposição (TDO), compondo a classe dos transtornos disruptivos.

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TRANSGRESSÃO DE NORMAS

Os transtornos disruptivos são conhecidos pelos profissionais da área da saúde como sendo os comportamentos associados à transgressão de normas, desafiadores e antissociais, que causam muito incômodo nas pessoas por serem problemas externalizantes, de grande impacto no ambiente social, em geral com implicações severas. Dessa maneira, crianças disruptivas geram sentimentos negativos muito fortes nos outros, como raiva, frustração e ansiedade, ocasionando prejuízos sociais graves.

Os imperadores domésticos lideram a casa, xingam os pais, babás e professores, escolhem a comida que vai ser feita, definem o que deve ser assistido na TV, a hora de ir dormir e acordar, as atividades do dia, se querem ou não fazer a tarefa da escola e estudar para a prova. Também mandam nas brincadeiras fazendo com que as demais crianças obedeçam às suas ordens, choram e se atiram ao chão, batem a cabeça na parede, jogam os alimentos ou cospem no rosto dos pais, agridem e ameaçam psicologicamente os progenitores quando seus caprichos não são atendidos.

Geralmente, esses comportamentos costumam apresentar relevância por volta dos 7 anos de idade. Entretanto, o desrespeito e a desobediência começam a aparecer bem antes. Cabe lembrar que toda criança em algum momento de sua trajetória vai desobedecer alguma orientação. Isso faz parte da curiosidade e do ciclo de aprendizagem do infante. Quando se trata da síndrome do imperador tais comportamentos são frequentes e intensos, resultando em sérios prejuízos nas relações interpessoais, afetando a casa, a escola e os amigos.

Em crianças entre 2 e 3 anos, a desobediência é comum, pois ela é muito pequena e a percepção do real e dos próprios sentimentos ainda é inadequada. Entretanto, é justamente nesse estágio que os pais devem ajudar a criança a organizar e a administrar as emoções e os comportamentos. Para isso, os pais devem adotar algumas posturas orientativas para que a criança aprenda padrões de comportamentos mais adequados. Os pais são os primeiros exemplos para a criança, e esta molda seus comportamentos de acordo com o que absorve e assimila das pessoas e dos ambientes onde convive.

Quando os pais não orientam a criança ou até mesmo quando validam o erro, esses comportamentos ditos como disfuncionais aumentam de intensidade até chegar à desobediência total, ocasionando a síndrome do imperador. Se não corrigidos, a criança poderá desenvolver o transtorno de conduta ou mesmo se transformar em uma personalidade antissocial na adultidade.

Do ponto de vista dos teóricos psicodinâmicos, a origem dos comportamentos disfuncionais se dá pela qualidade do relacionamento da criança com seus pais. Se os pais são indulgentes, os filhos crescem acreditando que podem fazer qualquer coisa, sem responder pelos efeitos. Enquanto que se os pais são abertamente restritivos, as crianças se desenvolvem acreditando que, para satisfazer suas necessidades, devem tomar o que desejam, independentemente das consequências. Nessas situações, o elemento comum é a frustração. E, em muitos casos, a frustração leva à agressão.

Já os pesquisadores da aprendizagem sugerem que os comportamentos inadequados são aprendidos pela imitação e gratificação. Holmes comenta que diversas pesquisas em Psicologia indicam que indivíduos que observam agressão em outros, subsequentemente desempenham mais atos de agressão. Nessa mesma linha, pesquisas evidenciaram que mães que usaram comportamentos mais agressivos na educação dos filhos tiveram, em geral, crianças mais agressivas do que as que usaram métodos menos hostis. Ou seja, a punição somente pareceu promover mais agressividade em vez de reduzi-la.

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VÍNCULOS

O psiquiatra e psicólogo Bowlby comenta que todos os seres humanos estabelecem vínculos afetivos fortes uns com os outros desde os primeiros anos de vida. É por meio da qualidade desse vínculo inicial que a criança modela a percepção de si mesma, do outro e do mundo, refletindo diretamente nos modelos de relacionamentos futuros.

Para a autora Rodrigues, as pessoas que cuidam da criança transmitem de modo consciente ou inconsciente informações que darão a base ou alicerce para o desenvolvimento da personalidade do infante. Por meio do embalar, do cuidar, do pegar, do falar os adultos estão apresentando o mundo para a criança.

Se os pais são afetivos, cuidadosos e pacientes, a criança acredita que o mundo é seguro e a sensação de segurança é aprendida. Entretanto, se há negligência nos cuidados primários, falta de incentivo e afeto, olhar punitivo demasiado, ambiente agitado e falta de limites realistas, a criança aprende que o mundo é perigoso, estressante, e a instabilidade será instaurada por meio de esquemas disfuncionais.

Em síntese, os esquemas disfuncionais são padrões emocionais e cognitivos autoderrotistas iniciados no desenvolvimento desde cedo e repetidos ao longo da vida. Em grande medida, a dinâmica familiar de uma criança é a dinâmica de todo o seu mundo remoto. Outras influências, de amigos, escola e cultura ao derredor, tornam-se cada vez mais importantes à medida que a criança se desenvolve e podem contribuir para o desenvolvimento de esquemas. Entretanto, não serão tão profundos e poderosos quanto os esquemas formados no berço familiar.

Devido a esse fator, ressalta-se a importância do protagonismo e exemplarismo dos pais no cenário da família. Grande parte dos pais comete erros na educação de seus filhos, porque reforça os comportamentos inadequados da criança, muitas vezes de maneira inconsciente, na tentativa de dar proteção e afeto. Porém, tal postura é deslocada e prejudicial. Um exemplo disso é quando a mãe dá o doce que a criança deseja, enquanto esta se joga no chão e chora compulsivamente. O que a criança aprendeu com essa atitude da mãe? “É com escândalo que posso ter tudo o que quero.”

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MUDANÇA

Outra situação é quando o filho considerado travesso, um belo dia, obedece a seus pais prontamente. Por sua vez, os pais falam, “não fez mais que a obrigação” e ficam bravos pelos comportamentos anteriores. O que a criança aprendeu com essa atitude dos pais? “Não adianta me esforçar, eu nunca vou dar orgulho para os meus pais.” Quando não valorizamos as posturas positivas da criança, ela tende a não repetir os acertos. Quando os pais discutem, brigam e xingam na frente da criança, o que a criança está aprendendo com os pais? Ela aprende a ter raiva e ansiedade e replica tais impulsos nas relações com os outros.

Outro aspecto importante de mencionar é que há casos em que os pais se esforçam para orientar quanto aos valores morais e éticos, inserindo a disciplina no cotidiano, conjuntamente com o afeto. Entretanto, a criança demonstra comportamentos de maldade e crueldade. Mas como explicar isso? Estudos da Neurologia, Neurociências e Psicologia abordam que não há um único fator que leva a criança a desenvolver tais comportamentos. Mas, sim, um somatório de aspectos ambientais, mesológicos e genéticos. Ou seja, há crianças que devido à falta de orientação quanto aos limites agem assim, mas há outras que possuem essa atitude devido aos aspectos genéticos.

Diante de toda essa gama de teorias e pesquisas, cabe a seguinte reflexão: como é possível saber quais fatores estão interferindo no comportamento da criança? Primeiramente, é essencial buscar a orientação de psicólogos, pediatras e psiquiatras, pois estes possuem ferramentas terapêuticas que podem otimizar o diagnóstico preciso quanto aos fatores mencionados e, acima de tudo, darão orientações para a resolução do problema da criança e da família. Pois nenhuma criança é igual à outra e não há receita de bolo em se tratando da mente humana.

Mas é possível auxiliar essa criança? Sim. Por intermédio dos estímulos saudáveis, como o reconhecimento dos talentos da criança, a orientação quanto aos limites realistas e o fornecimento de um ambiente acolhedor, estável e estimulante. Com isso, pouco a pouco a criança vai criando novas formas de olhar a si mesma, os outros e o mundo.

Por isso é importante ter em mente que pais com ausência de limites, com posturas rígidas ou, até mesmo, que demonstram falta de envolvimento com os filhos são indicadores para a criação de imperadores domésticos.

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PAIS RECÍPROCOS

Qual tipo de pai, então, seria o ideal? Os chamados “pais recíprocos”. Eles cooperam com os filhos, compartilham suas decisões, têm limites definidos, coerência na educação e conseguem manter um relacionamento aberto com as crianças. O ideal é equilibrar dois fatores: a validação pelo bom comportamento e a aplicação de limites realistas pelo comportamento indesejado; tudo isso dentro de um ambiente terno e carinhoso.

Dessa maneira, ao serem observa- dos na criança comportamentos assíduos de birra, mando e desrespeito em diversas situações, assim como dificuldade dos pais em lidar com o filho, deve-se procurar rapidamente um psicólogo. Esse tratamento poderá realizar testes específicos, como propor psicoterapia para a criança e psicoeducação para os pais. Nesse sentido, cabe a reflexão da frase do famoso filósofo romano, Sêneca (4 a.C.): “A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida”.

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MODELOS DE PAIS

Para Rutter apud Kaplan, existem quatro modelos de pais:

1) AUTORITÁRIOS: caracterizados por posturas rígidas e regras inflexíveis.

2) PERMISSIVOS: caracterizados por posturas indulgentes e ausência de limites.

3) INDIFERENTES: caracterizados por posturas negligentes e falta de envolvimento.

4) RECÍPROCOS: caracterizados por posturas de cooperação e compartilhamento na tomada das decisões, com um comportamento dirigido de modo racional (limites definidos).

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TRANSTORNO DE CONDUTA

Conjunto de alterações comportamentais apresentado, especialmente, em adolescentes que são agressivos, desafiadores e antissociais, o transtorno de conduta também faz com que o jovem viole os direitos básicos do outro. Assume uma face mais grave quando comparado ao transtorno desafiador opositivo. Com maior incidência em pessoas do sexo masculino, acredita-se que cerca de 9% dos meninos e 4% das meninas com menos de 18 anos sofram do problema.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.