A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O CONFORTO DE SER COMPREENDIDO

O respeito oferece o suporte social necessário para sermos livres. Mas é a compreensão que nos resgata da solidão e nutre o sentimento de pertencimento

O conforto de ser compreendido

Sentir-se compreendido é diferente de se sentir respeitado. Respeito está entre os deveres, entre o que deve ser aprendido, ensinado e exercitado pela autoridade racional que controla as reações. A compreensão não se impõe: surge das estruturas geralmente escondidas nas profundidades do inconsciente; da disposição de se desprender dos conceitos e definições que moldam o ego enquanto se oferecem ao outro, de forma generosa, tempo e atenção.

Identificar aquele que compreende é também uma capacidade que escapa das análises do intelecto. Exige, da mesma forma, tempo, atenção e entrega: só nos sentimos compreendidos quando nos mostramos por inteiro, sem o desgaste de sustentar o que planejamos ser. Nos sentimos compreendidos quando temos a coragem de revelar as fraquezas para descobrir que, refletidas no outro, elas parecem menores e menos estranhas.

O respeito oferece o suporte social necessário para sermos livres. Mas só a compreensão, encontrada nesses espaços entre nosso ideal e nossas falhas, nos resgata da solidão, possibilitando conexões mais gratificantes. E solidão não significa estar sozinho – uma condição fundamental para se chegar ao nível de introspecção necessário para o autoconhecimento e capacidade de sustentar relacionamentos saudáveis. Significa não se sentir compreendido, não pertencer, estar desconectado de um mundo visto a partir de uma perspectiva em que ele se apresenta pouco acolhedor. Essa solidão pode ser necessária em uma certa dose, para que nos fique evidente a necessidade de aprimorarmos as relações. Mas pode ser também a fonte dos estados depressivos mais devastadores e de diversos problemas de saúde. Segundo pesquisa recente publicada no Perspectives on Psychological Science, o isolamento social, seja real ou percebido subjetivamente, aumenta em 29% a chance de mortalidade precoce. A distorção da realidade provocada pelo isolamento nos leva a interpretar muitas reações alheias como rejeição, o que torna difícil a quebra desse ciclo.

Mas se nos permitirmos correr riscos é possível descobrir que, de uma forma tão antagônica como qualquer grande verdade, é justamente nesses momentos de maior vulnerabilidade que as mais valiosas relações de amizade se constroem ou fortalecem.

O escritor irlandês John O’Donohue, em seu livro The Book Of Love, lembra que a amizade verdadeira é a “que melhor reflete a tua alma”, aquela que traz o conforto da compreensão, uma das formas que o amor assume. “Quando você se sente compreendido, você está em casa. A compreensão nutre o sentimento de pertencimento. (…). O amor é a única luz que pode ler verdadeiramente a assinatura secreta da individualidade do outro.” Talvez a mais vital forma de conexão, justamente por oferecer compreensão, a amizade pode não ganhar o valor que merece em um mundo que, cada vez mais, cultua as manifestações românticas do amor e amplia a definição da palavra amigo para muito além das relações significativas e engrandecedoras.

Para o escritor Andrew Sullivan, em Love Undetectable: Notes on Friendship, Sex and Survival, essa espécie de negligência da nossa cultura com relação à amizade, a falha no reconhecimento desse vínculo como instituição social crítica e como experiência moral enobrecedora, possivelmente se dá pelo fato de se desenrolar, quase sempre, de forma silenciosa e gradativa. Silêncio que se quebra quando sofremos a perda inesperada de um amigo. “Quando somos forçados a pensar sobre aquilo o que realmente importa é que começamos a considerar o que a amizade significa de verdade”, escreve.

Assim como nas relações românticas, esperar que um amigo compreenda todos os lados da nossa individualidade é sustentar a amizade sobre a delicada balança que traz a expectativa de um lado e a frustração do outro – um equilíbrio que depende mais do nosso próprio amadurecimento que dos acontecimentos externos. A vantagem da amizade é que ela se distribui livre e levemente entre cada pessoa que, em determinados momentos e situações da vida, nos enxerga como realmente somos. Quando damos a esse amor o valor que ele merece, temos sempre um amigo que nos revela, sem precisar declarar, que explicações são desnecessárias: ele compreende.

 

MICHELE MÜLLER – é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências, Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no site www.michelemuller.com.br

OUTROS OLHARES

DÓI MUITO?

Cientistas de uma universidade americana liderados por um brasileiro desenvolvem óculos de realidade virtual que determinam a localização e a intensidade do incômodo de pacientes

Dói muito

“De 1 a 10, qual o seu nível de dor?” A pergunta é frequentemente dirigida, já no setor de triagem, aos pacientes que chegam a um hospital. Apesar da base numérica, tanto a indagação como qualquer resposta passam longe da objetividade. Até hoje não havia, de fato, um modo eficiente e rápido de medir a sensação incômoda, persistente, que toma conta muitas vezes de corpos enfermos. Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Michigan (EUA), recém-publicado na revista científica americana Journal of Medical Internet Research, acena com a possibilidade de resolver essa questão.

O trabalho, coordenado pelo odontologista fluminense Alexandre Da Silva, professor de sua área de atuação na prestigiosa instituição de Michigan, resultou na criação de um algoritmo capaz de interpretar funções cerebrais que indicam a localização e, sobretudo, a intensidade da dor. O diagnóstico é exibido ao médico nos visores de óculos de realidade virtual (RV) adaptados para a tarefa.

A tecnologia foi testada em um experimento realizado com 21 voluntários. Da Silva e seus colegas aplicaram um jato de ar a O grau nos dentes dos indivíduos, o que provoca desconforto. Um capacete com 36 sensores mapeou como se traduziu essa sensação de acordo com o fluxo sanguíneo detectado no cérebro. Assim foi possível começar a desenhar um, digamos, mapa da dor, segundo a intensidade e a localização de cada área afetada da massa cefálica. “Elaboramos o que chamamos de ‘assinaturas’, que apontam o momento no qual o paciente passa do incômodo ao sofrimento”, afirma Da Silva. “A dor é um fruto cognitivo, antecipado pelo comportamento do cérebro”, acrescenta ele.

A região afetada do corpo chega aos óculos de RV como se fosse um holograma da anatomia humana. Quanto mais avermelhada a cor na figura, mais intenso é o incômodo. Quando há atenuação, em razão, por exemplo, da aplicação de analgésicos, a coloração torna-se azul.

A odontologia deverá ser a área médica que desfrutará mais rapidamente os resultados da novidade, tendo em vista a facilidade de rastrear dores em regiões mais próximas do cérebro. A expectativa dos cientistas, porém, é expandir a detecção para todo o organismo – e de forma cada vez mais precisa e minuciosa. “Até agora, se se quisesse aferir com detalhes a dor, era necessário apelar para procedimentos demorados, custosos e, ironicamente, muitas vezes doloridos – como a ressonância magnética”, diz Da Silva. Caso evolua, a tecnologia desenvolvida pela equipe do odontologista brasileiro poderá se espalhar por várias modalidades da medicina e, consequentemente, dos hospitais, respondendo em segundos, e com espetacular precisão, quanto sofre um enfermo.

Dói muito. 2

GESTÃO E CARREIRA

ELAS SÃO O FUTURO

Ao anunciar o lançamento de sua moeda digital, o Facebook chancela as criptomoedas e deve revolucionar o sistema financeiro global

Elas são o futuro

Lançada em meados de junho passado, a criptomoeda do Facebook, a libra, representa o turning do sistema financeiro global. “Nossas moedas vão desaparecer”, avalia o mexicano Arturo Bris, professor de finanças e diretor do IMD World Competitiveness Center de Lausanne, na Suíça. “Nossa economia monetária e transformando em uma economia de token.” O dinheiro da forma como o conhecemos e lidamos com ele, nunca mais será o mesmo. Em breve, prevê Arturo, haverá apenas um único meio de pagamento global. Ao entrar para a indústria de ativos digitais, a empresa de tecnologia, com seus 2,7 bilhões de usuários, pode faze que as criptomoedas deixem de ser apenas um conceito inovador, mas com pouca utilidade prática, para leva-las de fato ao mundo real. “Até o ano passado, havia incerteza sobre as criptomoedas”, lembra Arturo. o investimento de uma gigante como o Facebook mostra que elas são o futuro.”

Sob o comando de David Marcus, vice-presidente do Facebook, a libra deve entrar em circulação em 2020. A ideia é a de que ela seja utilizada em aplicativos como o Messenger e o WhatsApp. Para isso acontecer, porém, é imprescindível fazer o que nenhuma empresa de cripto jamais fez. De modo a dar credibilidade à iniciativa, o Facebook criou a Libra Association, uma organização sem fins lucrativos, com sede em Genebra, na Suíça, já chamada de Cripta Valley. Responsável pela governança da moeda, essa aliança é formada por companhias como Uber, Visa Mastercard e Booking.com, entre outras. Quanto custa o ingresso para esse seleto grupo de apoiadores? US$ 10 milhões, para dar lastro à moeda e evitar flutuações pouco convidativas como as observadas pelas primeiras criptas como o bitcoin, a pioneira e a mais famosa delas.

No documento de apresentação da libra, o Facebook é bastante claro sobre seu público-alvo – os desbancarizados com acesso à internet. Globalmente, 1,7 bilhão de adultos estão fora do sistema bancário. Deles, 1 bilhão tem telefone móvel, e a metade acessa a internet por esses dispositivos. Para Arturo Bris, as criptomoedas devem afetar sobretudo os mercados emergentes, os que mais necessitam de soluções em massa. “Em vez de gerar mais poder aos poderosos”, diz ele, “a tecnologia deve ser uma ferramenta de inclusão”.

Ao Wall Street Journal, o analista Ross Sandler disse que a operação do Facebook no setor das criptomoedas tem potencial de entregar, em 2021, USS 19 bilhões em receita – ironicamente, esse mesmo valor foi pago por Mark Zuckerberg, em 2014, pelo WhatsApp. um dos vetores da nova empreitada. Até lá, no entanto, o caminho não será fácil. Com o Facebook sob investigação federal, a libra acendeu o alerta das agências regulatórias. Órgãos ao redor do mundo como o americano Fed e a Autoridade de Conduta Financeira britânica, já avisaram: eles estão de olho.

Desde os seus primórdios, as criptomoedas estiveram cercadas por desconfiança. Seriam instáveis demais para o uso como meio de troca, especulativas demais para se­ rem consideradas um investimento sério, desreguladas demais para contribuir com as autoridades no combate a práticas criminosas, como a lavagem de dinheiro. Nos últimos dois anos, por exemplo, o bitcoin embarcou em uma verdadeira montanha-russa. Em 2017, alcançou o pico histórico de cotação, USS ,19 6 mil, para encerrar 2018 a USS 3,12 mil – uma queda acumulada de 80%. Ethereum, XRP e boa parte das 2.093 criptomoedas em circulação na rede também escorregaram feio, segundo a plataforma Coinmarketcap. Não faltou quem ligasse o alerta de bolha, e uma parcela considerável de economistas, investidores e autoridades globais – do megainvestidor Warren Buffett ao fundador do Alibaba, Jack Ma, renovaram as críticas a esses a1ivos digitais.

O paradoxo é que os julgamentos ocorrem em um momento em que a tecnologia por trás das criptomoedas, o blockchain, ganha tração e elogios pela transparência, confiabilidade e possibilidade de vários usos, além das transações financeiras. Com isso, fica uma dúvida no ar: há redenção para as criptomoedas? “Ainda estamos no início dessa história”, resume Tatiana Revoredo, especialista em blockchain pelo MIT e pela Universidade Oxford e representante do European Law Observatory on New Technologies no Brasil. “É como comparar com a internet na década de 80. Quase ninguém tinha ideia no que ela iria se transformar.”

Nos últimos dois anos, entusiastas das criptomoedas deflagraram uma verdadeira cruzada para emplacar seu uso para além do campo do investimento meramente especulativo. Um exemplo é a captação de recursos por meio dos ICOs (ofertas iniciais de moedas, na sigla em inglês. Com o instrumento, uma empresa cria tokens (fichas ou cotas digitais) que são distribuídos aos investidores em troca de funding para o negócio – sistemática que emula a captação de recursos via oferta pública inicial de (IPO, na sigla em inglês). Foram US$ 21, 5 bilhões captados em 2018 nessa modalidade, alta de 227% sobre 2017, segundo a plataforma CoinSchedule.

Em outra seara, a bolsa de Chicago lançou um m do futuro de bitcoins em 2017. A Nasdaq, segunda bolsa de valores do mundo, promete seguir o mesmo caminho em 2019. Em setembro de 2018, a Comissão de Val Mobiliários (CVM), autarquia que regula o mercado de capitais no país, publicou oficio liberando fundos brasileiros para comprar cotas de fundos estrangeiros que compõe ou sejam compostos em parte por criptomoedas.

Uma das áreas mais promissoras em que as moedas digitais buscam ganhar tração é a da transferência internacional de recursos. Hoje, as remessas crossborder utilizam a plataforma Swift, um sistema bancário global completo com compliance exigente e cuja validação das operações pode levar dez dias. O gargalo para o uso das criptomoedas nessa seara é regulatório. Hoje, o envio de remessas para o exterior exige o fechamento de uma operação de câmbio e o aval das autoridades monetárias. “Temos recebido consultas de multinacionais que desejam entender a possibilidade de utilizar o bitcoin para esse tipo de tração”, diz Reinaldo Rabelo, diretor da exchange Merc Bitcoin. “A ideia é usar a criptomoeda em uma plataforma de blockchain própria que registre todos os passos da operação, auditada pelo Banco Central e com o fechamento de um câmbio simbólico da operação.” A operação levaria torno de dez minutos.

Em 2008, Satoshi Nakamoto causou barulho com manifesto Bitcoin: um sistema de dinheiro eletrônico entre pessoas físicas. Pseudônimo de um personagem cuja identidade permanece um mistério até boje, ele defendia a criação de uma moeda digital que poderia ser transferir de pessoa para pessoa com cobrança de taxas muito baixas e sem passar pelo sistema financeiro tradicional. Uma reação à crise financeira que eclodiu naquele ano.

O uso das criptas como meio de pagamento, por aqui ainda engatinha. “A volatilidade das cotações incentiva os compradores a guardá-las, em vez de usá-las no dia a dia”, diz Rosine Kadamani, cofundadora da Blockchain Academy. É a versão 2.0 do dilema do ovo e da galinha. “As pessoas só usam a moeda se a cotação for estável, e a cotação só fica estável se mais pessoas utilizarem a moeda”, diz Roger Ver, fundador da plataforma bitcoin.com.

Parte do boom na cotação da criptomoeda em conforme os especialistas, decorreu da expectativa que gigantes do e-commerce passariam a aceitar a moeda, o que não ocorreu. Em geral, o bitcoin se mostra útil para pagamentos de valores mais altos, como a compra de uma casa, sem a urgência na validação da operação. Pelas taxas atreladas e o tempo para processar uma operação, não é o meio mais eficiente para comprar uma pizza.

Como resposta ao problema, surgiram nos últimos anos as stablecoins, moedas virtuais lastreadas em ativos reais (moedas fiduciárias, ouro, commodities). “Ao buscar a paridade com o dólar, o real ou o barril de petróleo diminui-se a volatilidade, porque o que flutua é a cotação desse produto e não a moeda em si”, diz Yoshimi Matsusaki, membro da Comissão de Estudo Especial Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), sobre a padronização mundial do blockchnin. “A grande dificuldade de emplacar as criptos como meio de pagamento é porque são moedas globais, influenciadas que acontece no mundo todo. Talvez a solução esteja no surgimento de uma moeda estável ligada a nichos, uma comunidade, um bairro, uma cidade. Ao reduzir o grupo de usuários, você também reduz os riscos.” Para Tatiana Revoredo, “a solução pode ser, por outro lado, a criação de uma única moeda global, regulada por um único banco Central global”.

As stablecoins começam a proliferar – e também atraem a atenção dos grandes bancos. Estima-se que existam ao menos 20 dessas moedas em circulação grandes instituições internacionais – incluindo o Bradesco – assinaram, no início de 2019, uma carta de intenções para lançar suas próprias stablecoins. pareadas com suas moedas locais, na plataforma de pagamento em blockchain da IBM.

Em fevereiro, o JP Morgan, maior banco americano de investimentos, anunciou o lançamento de sua própria criptomoeda. A ideia é que a. JPM Coin seja pareada ao dólar. Na prática, os clientes receberão as moedas dias depois de depositar os dólares no banco. Ao usar os tokens para um pagamento, o banco destruirá as moedas e devolverá aos clientes um número proporcional de dólares

O caminho para o uso das criptomoedas para além da reserva de valor será longo e imprevisível – mas não inviável. Tende a avançar conforme medidas regulatórias, ao lado de políticas de prevenção de fraudes, sejam adotadas por governos, autoridades monetárias e comissões de valores mobiliários. uma espécie de selo de garantia de rança aos participantes do sistema. “A tecnologia e a regulação precisam andar lado a lado”, diz Tatiana Revoredo.

O Japão é um dos poucos países a avançar na regulamentação dos criptoativos. Desde abril de 2017, as corretoras de moedas digitais são regulamentadas e precisam ser registradas na Agência de Serviços Financeiros. Um dos primeiros casos notórios de roubo de criptomoeda ocorreu lá. “Até por isso, o país começou a olhar de maneira formal para o ecossistema”, diz Courtnay Guimarães, diretor técnico da Associação Brasileira de Criptomoedas e Blockchain (ABCB).

A maior parte dos países, entretanto, ainda segue a “tática do avestruz”, a exemplo dos Estados Unidos. “As autoridades enfiam a cabeça na areia e fingem que o fenômeno das criptomoedas não existe”, diz Carlos Portugal Gouvêa, sócio do escritório PGLaw. O Brasil seguiu esse roteiro. Em 2018, o Banco Central emitiu um comunicado para alertar sobre os riscos de se comprar e guardar moedas virtuais com finalidade especulativa. Avisou que não regula as operações com criptomoedas e nem tem a intenção de fazê-lo no curto prazo.

Não surpreende que os grandes bancos mundo afora resistam em cooperar com as plataformas de compra e venda – o que coloca em risco o seu modelo de negócio, já que elas dependem das instituições financeiras para receber os dólares e reais dos clientes que compra m criptomoedas. Os bancos justificam alegando que o anonimato das transações pode facilitar práticas ilícitas. “Os bancos têm precauções razoáveis, considerando a falha dos reguladores em detalhar as atribuições dos agentes do ecossistema”, diz Gouvêa.

De mais avançado, há o esforço de diversas jurisdições para tributar os investimentos em moedas virtuais. Em Israel e na Bulgária, a criptomoeda é tributada como ativo financeiro. Na Suíça, como moeda estrangeira. No Brasil, elas são classificadas pela Receita Federal como ativo. Quem vende e obtém lucro encara a mordida do Leão.

ALIMENTO DIÁRIO

QUALIFICADOS

Qualificados - Tony Cooke

A VIDA QUALIFICADA

 

CAPÍTULO UM – DEUS CHAMA — NÓS RESPONDEMOS

“Não fostes vós que me escolhestes a Mim; pelo contrário, Eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto.” — João 15:16

Pensamento-chave: Deus nos chama, alicerçado em Seu plano e Seu propósito, e não fundamentado em nossa perfeição ou na falta dela. Seu chamado não é um final em si mesmo, mas deveria nos lançar para uma vida de respostas positivas à Sua vontade para nós.

Julie Andrews, no conhecido filme A Noviça Rebelde, tornou famosa a seguinte frase: Vamos começar bem do começo; é um bom lugar para começar.

Quaisquer pensamentos acerca do chamado de Deus ou do servir a Deus deveriam começar com o entendimento de que o nosso chamado foi iniciado pelo próprio Deus, e não por nós. Ele é Aquele que chama, equipa, unge e designa. Foi muito bem dito que “Deus não chama os qualificados; Ele qualifica os chamados”.

Portanto, comecemos do início e tratemos do fato de que Deus é o “iniciador” de qualquer chamado que possamos ter na vida. Se Deus, que é a fonte do nosso chamado, é um dos lados da moeda — e legalmente, o primeiro lado que deveríamos considerar — então, não vamos negligenciar o outro lado da moeda. A verdade complementar é que temos uma parte a realizar; não fomos criados como marionetes, que automaticamente obedecem toda vez que Deus move um fio. Ele nos chamou e deseja trabalhar em nossas vidas para nos qualificar para o serviço fiel a Ele, mas nós ainda temos de fazer a nossa parte e participar em um processo contínuo de crescimento e obediência.

  • Nós podemos responder ou não responder.
  • Nós podemos obedecer ou não obedecer.
  • Nós podemos cooperar ou não cooperar.
  • Nós podemos seguir completamente, parcialmente ou de modo algum.

Existe um senso comum que afirma: “Deus nos qualifica por Sua misericórdia e graça”. No entanto, há outro senso comum que diz: “Nós nos tornamos qualificados, à medida que somos fiéis e diligentes em seguir Deus e os Seus planos para as nossas vidas”. Com frequência, pondero as palavras do Senhor Jesus quando disse: “Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos” (Mateus 22:14). Qual é a diferença entre aqueles que são “chamados” e aqueles que são “escolhidos”? É possível que aqueles que são escolhidos sejam aqueles que cooperaram mais plenamente com “Aquele que chama” e seu “chamado”?

Se este livro fosse escrito apenas sobre o “lado de Deus” da equação, então estaríamos ignorando a necessidade de cooperarmos com Deus. Semelhantemente, se focássemos apenas em nós mesmos e em nossa obediência, estaríamos, então, ignorando Aquele que é verdadeiramente “o Autor e Consumador da nossa fé” (Hebreus 12:2).

Não podemos reconhecer ou cumprir o nosso chamado sem a ajuda de Deus; entretanto, Ele requer certo nível de cooperação nossa para que Ele abençoe o nosso destino. Deus não exige perfeição da nossa parte (nenhum de nós jamais poderia ser usado se Ele exigisse), em vez disso Ele deseja que falemos o mesmo que Paulo disse: “… Porque de Deus somos cooperadores; lavoura de Deus, edifício de Deus…” (1 Coríntios 3:9).

PROCESSANDO O CHAMADO DE DEUS EM NOSSAS VIDAS

No Antigo e Novo Testamento, observamos que, acompanhado de qualquer chamado de Deus, existe um processo envolvido de modo a trazer esse chamado à total realização. Vejamos um exemplo desse processo na vida de Davi:

Também escolheu a Davi, seu servo, e o tomou dos redis das ovelhas; tirou-o do cuidado das ovelhas e suas crias, para ser o pastor de Jacó, seu povo, e de Israel, sua herança. E ele os apascentou consoante a integridade do seu coração e os dirigiu com mãos precavidas. — Salmos 78:70-72

As pessoas não se tornam líderes estáveis e eficazes da noite para o dia. Existe um processo envolvido e precisamos entender os elementos essenciais desse processo. Na passagem citada, há três elementos-chaves:

  • Deus escolheu Davi — isso fala do chamado soberano de Deus.
  • Integridade de coração — isso fala do desenvolvimento do caráter de Davi.
  • Aptidão de mãos — isso fala do trabalho feito com competência.

Lembre-se destes três componentes: chamado, caráter e competência. Outra maneira de se lembrar disso é: soberania, santificação e aptidão.

  • Deus “soberanamente” nos chama de acordo com a Sua vontade.
  • Existe um processo de “santificação” que ocorre, habilitando-nos para servir com integridade.
  • A “aptidão” nos capacita e desenvolve para fazermos bem o trabalho.

Todos esses elementos são essenciais para que possamos responder e cumprir eficazmente o   chamado de Deus em nossas vidas. Vejamos, especificamente, o primeiro elemento, o qual está refletido na simples declaração: “Também escolheu a Davi”.

O CHAMADO SOBERANO

A Bíblia descreve outros “chamados” soberanos. Por exemplo, Deus disse a Jeremias: “Antes que Eu te formasse no ventre materno, Eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te  consagrei, e te constituí profeta às nações” (Jeremias 1:5).

Semelhantemente, Paulo disse: “… ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela Sua graça, aprouve revelar Seu Filho em mim, para que eu O pregasse entre os gentios” (Gálatas 1:15-16). Ele também disse a Timóteo: “… que [Deus] nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a Sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” (2 Timóteo 1:9).

A ideia de um chamado soberano (relativo ao chamado inicial e ao processo que segue) também é vista no modo como Jesus convocou os Seus doze discípulos. Jesus não escolheu os grandes estudiosos da época, os grandes oradores ou os grandes empreendedores. Em vez disso, Ele escolheu homens comuns, os quais, por meio da sua união e comunhão com Ele, foram transformados para transformar o mundo.

Depois, subiu ao monte e chamou os que Ele mesmo quis, e vieram para junto Dele. Então, designou doze para estarem com Ele e para enviá-los a pregar e a exercer a autoridade de expelir demônios. — Marcos 3:13-15

Observe os mesmos três princípios que vimos no Salmo 78, acerca de Davi. Um processo começa desde o chamado inicial.

  • Chamado — Jesus chamou aqueles que Ele queria para Si.
  • Caráter — Ele designou doze, “para estarem com Ele”. A união e a comunhão dos doze com Ele os levaram a vidas transformadas e um caráter temente a Deus.
  • Competência — “… para enviá-los a pregar e a exercer a autoridade…”.

O chamado de Deus não é um evento autoconclusivo. Ao contrário, é um trampolim para um trabalho de parceria com Deus, do qual transformação, crescimento e obediência encontram lugar em nossas vidas. A questão do chamado é o que Deus faz, é algo que cabe a Ele; entretanto, responder ao chamado é nossa responsabilidade.

Infelizmente, a História está repleta de exemplos de chamados de Deus sendo desprezados. Deus disse por intermédio de Isaías: “Estendi as mãos todos os dias a um povo rebelde, que anda por caminho que não é bom, seguindo os seus próprios pensamentos” (Isaías 65:2).

Jesus demonstrou grande tristeza e até mesmo chorou sobre a cidade de Jerusalém porque eles se recusaram a responder favoravelmente ao chamado de Deus que foi demonstrado a eles por meio do Seu ministério. “… Quantas vezes quis eu reunir teus filhos como a galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas, e vós não o quisestes!” (Lucas 13:34; ver também 19:41- 44).

O diálogo entre Deus e Isaías é uma boa ilustração de um chamado divino que é seguido de uma resposta humana favorável. Em Isaías, 6:8, lemos: “Depois disto, ouvi a voz do SENHOR, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Disse eu: eis-me aqui, envia-me a mim”.

As pessoas simplesmente não entram aleatoriamente e arbitrariamente em grande maturidade espiritual ou altos ofícios ministeriais. Elas não são automaticamente frutíferas e eficazes só porque Deus as chamou. Obediência e fidelidade são necessárias para aqueles que são chamados, de modo que eles tenham uma ótima vida espiritual e um ministério produtivo. Existem muitos exemplos de pessoas no ministério que receberam um chamado (rei Saul, Judas, Demas, etc.), mas que terminaram naufragados espiritualmente — não porque havia algo de errado com o seu chamado, mas porque eles não responderam apropriadamente a Deus naquele chamado.

Deus é um cavalheiro e não força as pessoas a responderem ao Seu chamado; entretanto, o que quer que Deus o chame para fazer é melhor do que o que você tem planejado para a sua vida. Podemos perceber o chamado de Deus como um evento (embora para alguns, isso venha mais como uma percepção gradual), no entanto, respondemos por meio de um processo de obediência e crescimento. Isso pode ser visto claramente na vida de Davi.

Quando Davi foi ungido para ser o novo rei, não foi porque ele parecia o melhor candidato. Se boa aparência e bom visual tivessem sido os fatores determinantes, então o comando teria ido para o seu irmão mais velho, Eliabe. Quando o profeta Samuel seguiu as direções do Senhor e foi ungir um dos filhos de Jessé como o novo rei de Israel, foi isto que aconteceu:

Sucedeu que, entrando eles, viu a Eliabe e disse consigo: Certamente, está perante o SENHOR o seu ungido. Porém o SENHOR disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração. — 1 Samuel 16:6-7

O Senhor vê o coração! Que declaração profunda. Os homens tendem a olhar o carisma, a escolaridade, as habilidades sociais, o talento, a eloquência, etc. — e todas essas habilidades podem ser ferramentas úteis — mas Deus vê o coração! Séculos mais tarde, o apóstolo Paulo estava revendo uma das histórias de Israel em uma mensagem e disse: “… Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a Minha vontade” (Atos 13:22).

Nos dias de Davi, Deus estava à procura de um homem segundo o Seu coração. Acredito que Deus sempre buscou tais indivíduos e ainda continua a fazê-lo nos dias de hoje.

Porque, quanto ao SENHOR, seus olhos passam por toda a terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo coração é totalmente Dele. — 2 Crônicas 16:9

Busquei entre eles um homem que tapasse o muro e se colocasse na brecha perante mim, a favor desta terra, para que eu não a destruísse; mas a ninguém achei. — Ezequiel 22:30

Você precisa reconhecer, descobrir e permitir que o chamado e o plano de Deus sejam executados em sua vida! Está tudo bem se você está nos estágios iniciais do chamado de Deus para a sua vida e ainda não sabe muito. Afinal, Deus disse: “Invoca-me, e te responderei; anunciar-te-ei coisas grandes e ocultas, que não sabes” (Jeremias 33:3). Aproveite a jornada e todas as descobertas que você fará ao longo do caminho.