A PSIQUE E AS PSICOLOLGIAS

O MEDO DE AMAR

Para iniciar um relacionamento temos que ter suficiência narcísica para as nuances que envolvem o processo de ficar exposto a uma nova experiência sempre ameaçadora

O medo de amar

A dor de um amor não correspondido é um dos grandes sofrimentos na vida humana. Perder alguém que se ama é um pesadelo. Quase sempre altera diretamente o equilíbrio emocional do indivíduo afetando sua auto­estima. Difícil encontrar alguém que nunca passou por essa dor. Quando se vive essa experiência, o medo de amar aumenta.

Freud em O Mal-estar da Civilização escreveu: “[sendo] dependentes do objeto do amor escolhido, (…) nós nos expomos à mais forte das dores se somos desprezados por ele ou se o perdemos por motivo de infidelidade ou de morte”.

Já o psicanalista norte-americano Alexandre Lowen em seu livro Medo da Vida registra: “Quando abrimos o coração ao amor, ficamos vulneráveis ao risco da mágoa; quando estendemos os braços à frente, nos arriscamos à rejeição (…). Por termos medo da vida procuramos controlá-la, dominá­la”. Amar alguém é algo que, de certa forma, nos tira parte do domínio sobre nós mesmos. Junte-se a isso o fato de não termos controle sobre atitudes e sentimentos da outra pessoa. Por idealização excessiva corre-se o risco de achar o outro perfeito, e acredita-se que nossas necessidades serão adivinhadas, priorizadas e supridas. Isso não só pode não se realizar assim como quando acontece não sucede de imediato, é uma conquista que depende de: negociação, sensibilidade, comunicação e flexibilidade.

Muitas pessoas por idealizar demais as relações ou por extrema carência falham em sua capacidade de fazer avaliações sobre o outro e sobre o andamento do relacionamento que se inicia. A realidade, o medo, a fantasia e expectativas se entrelaçam, dificultando uma clara visão de quem é o parceiro.

Para Winnicott, essa capacidade de dosar as idealizações de maneira não patológica se encontra no início da vida “quanto mais se estabeleceu nas fases iniciais do desenvolvimento do indivíduo a formação do seu Eu verdadeiro, melhor condição terá o indivíduo de considerar o Outro.

Seria bom “medir a temperatura da água” antes de dar um mergulho, mas não é o que geralmente acontece. Muitas pessoas que conhecem alguém que as agrade podem alterar o desenvolvimento natural da relação precipitando-se por ansiedade e inseguranças. Querem garantir que não haverá rejeição. Importante lembrar que em uma relação nunca há garantias. Se por acaso o interesse e a paixão não são correspondidos, o medo de se entregar é reforçado, gerando um círculo vicioso.

O tempo para conhecer o outro, os desencontros e todo o caminhar que envolve o início de um relacionamento podem ser ameaçadores para algumas pessoas. O risco é grande e temos que estar prontos para qualquer resultado. A relação que se inicia pode não durar e as decepções podem aparecer como parte da experiência. Qualquer situação nova, em muitos aspectos da vida, é imprevisível. Nunca saberemos ao certo se aquele emprego novo vai ser bom, ou se uma mudança de cidade nos fará felizes. Temos a ilusão do controle das situações, e sem uma boa quantidade de princípio de realidade a tarefa de ficar exposto a uma nova experiência é ameaçadora, principalmente nas relações afetivas. A ansiedade para se assegurar de que se é amado, ou que se está em um terreno seguro nos tempos iniciais, pode antecipar o fim. É difícil conter a ansiedade e deixar que o relacionamento cresça ao seu próprio tempo. Não podemos pressionar uma criança a falar ou andar antes da hora. E o tempo para cada coisa acontecer é pessoal.

As vivências pessoais desde o nas­ cimento serão determinantes para garantir que a pessoa tenha uma estrutura psíquica que não a faça desestruturar-se na ocorrência do rompimento de um vínculo amoroso. A tristeza e o luto por algo que se findou são esperados, mas em alguns casos a vida pode ficar paralisada. Os mecanismos de defesa neuróticos constituídos ditam o comportamento das pessoas na hora de se relacionar. Quanto mais consolidado o mecanismo de defesa maiores o medo e as dificuldades para estabelecer relações. O medo inconsciente da rejeição faz as pessoas comportarem-se com ambiguidade. Apesar de desejarem um relacionamento, podem estabelecer uma defesa neurótica, por exemplo, adotando uma postura extremamente crítica cm relação ao outro, impossibilitando o convívio, antecipando-se a uma possível rejeição.

Se houve traumas e insuficiência ambiental recorrentes na formação primária do indivíduo, ele pode estacionar na linha do desenvolvimento do amadurecimento. Em seu livro Abismos Narcísicos, o psicólogo PhD Roberto Rosas Fernandes diz: “O indivíduo imaturo possui um narcisismo que não foi elaborado nem integrado em seu processo de amadurecimento. Ele dá respostas emocionais muito primitivas em seus conflitos afetivos, já que possui uma expectativa irrealista em relação ao outro, que invariavelmente será quebrada, como um espelho que se parte”.

O trabalho psicanalítico deve ser um campo afetivo e seguro, que com sucesso possa resgatar o desenvolvimento emocional do indivíduo onde ele ficou estagnado. Espaço onde a pessoa possa olhar para seus medos e defesas e fortalecer-se a ponto de aos poucos abrir destes.

 

ELAINE CRISTINA SIERVO – é psicóloga. Pós-graduada na área Sistémica- Psicoterapia de Família e Casal pela PUC-SP. Participa do Núcleo de Psicodinâmica e Estudo Transdisciplinares da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica – SBPA Atuou na área de dependência de álcool e drogas com indivíduos, grupos e famílias

OUTROS OLHARES

O ESPAÇO É LOGO ALI

Abrir a Estação Espacial Internacional a missões comerciais é o próximo passo da Nasa rumo ao seu maior objetivo: transferir os custos das viagens para a iniciativa privada

O espaço é logo ali

Em 1967, dois anos antes de Neil Armstrong pôr os pés na Lua, e logo depois de os soviéticos pousarem uma sonda, a Lunik-9, em seu chão rochoso, Gilberto Gil escreveu uma de suas mais bonitas composições, celebrando o feito, mas preocupado com o futuro. “A mim me resta disso tudo uma tristeza só / Talvez não tenha mais luar para clarear minha canção/ O que será do verso sem luar? O que será do mar, da flor, do violão?” Ao alcançarmos o inalcançável, talvez tenhamos perdido um pouco de poesia, vá lá, mas deu-se um imenso salto cientifico – doze astronautas pisaram na Lua, 561 foram ao espaço. O encanto agora é outro, o cosmo deixou de ser algo apenas ao alcance de uma estrofe lírica para o comum dos mortais. Na sexta-feira 7, a Nasa, a agência espacial americana, anunciou que abrirá as portas da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) a missões privadas, a qualquer pessoa. Ou seja: a partir do ano que vem será possível reservar assento numa das viagens tripuladas rumo à ISS, que viaja a 28.000 quilômetros por hora na órbita terrestre.

Só terá chance de embarcar quem for aprovado numa bateria rigorosa de testes de capacidade física e de saúde – quase nada, em comparação com o salgado preço da aventura. O voo de ida e volta sairá por 50 milhões de dólares por passageiro. A diária chegará a 35.000 dólares – e como cada visita prevê no mínimo trinta dias de estada, somando-se adaptação e permanência, acrescente-se aí pouco mais de 1 milhão de dólares. Estão incluídas amenidades como oxigênio, água e pensão completa. Haverá internet disponível, mas cada gigabyte enviado e recebido custará 50 dólares. O preço exorbitante da empreitada evidencia não se tratar de um destino meramente turístico, embora a Nasa deixe aberta essa possibilidade. O anúncio envolve outro grande passo para a humanidade (ou melhor, para os Estados Unidos): a ideia central é acelerar a transição da exploração espacial dos cofres públicos para a iniciativa privada.

Desde a aposentadoria do programa de ônibus espaciais, em 2011, o governo americano não tem meios próprios para mandar novos astronautas à ISS. Há contratos assinados com dois fornecedores privados para enviar carga e tripulantes ao espaço, ao custo estimado de 7 bilhões de dólares. Um deles é a divisão espacial da Boeing, a fabricante de jatos comerciais, em parceria com a Lockheed Martin, gigante do setor de defesa. O outro é a SpaceX, companhia criada pelo empresário sul-africano Elon Musk, que fundou o PayPal e hoje comanda a montadora de carros elétricos Tesla. O britânico Richard Branson, dono do conglomerado Virgin, é outro magnata que investe no setor. Sua intenção é promover voos na fronteira da Terra para os interessados em desembolsar cerca de 25.0000 dólares pelo passeio. Não bastasse a vista espetacular a 100 quilômetros de altitude, haverá a experiência de alguns minutos em gravidade zero, quando as pessoas poderão flutuar livremente pela aeronave.

O incentivo ao dinheiro das empresas, para além de evitar rombos suplementares ao contribuinte em troca de promessas futuras, pouco palpáveis, encaixa- se perfeitamente na nova estratégia da Nasa. Ao dividir os custos operacionais da ISS (4 bilhões de dólares anuais) com marcas comerciais, a agência espacial pretende destinar seus recursos a voos mais longos, num aceno à conquista de cinquenta anos atrás. No ano passado, Donald Trump anunciou uma nova missão tripulada à Lua até o ano 2028 – prazo encurtado pelo vice-presidente Mike Pence para 2024. Em seu estilo, misturando alhos e bugalhos, um tanto no mundo da lua, quase incompreensível, Trump tuitou no dia seguinte ao do anuncio do turismo espacial na ISS: “Eles (a Nasa) deveriam estar focados em coisas muito maiores, incluindo Marte (de que a Lua já faz parte), defesa e ciência!”. Lua, parte de Marte? Críticas a uma iniciativa que vai poupar recursos públicos e concentrá-los no real objetivo? Só no peculiar universo de Donald Trump

O espaço é logo ali. 2

GESTÃO E CARREIRA

NA COLA DO INIMIGO

A dona das marcas Casas Bahia e Pontofrio adota estratégia que deu certo para o Magazine Luiza – e até tira executivos do concorrente 

Na cola do inimigo

Era uma terça-feira, 25 de junho de 2019. Uma nova loja das Casas Bahia estava sendo inaugurada em Morro Agudo, cidade com cerca de 30.000 habitantes localizada no Estado de São Paulo. Os alto-falantes reproduziam o Tema da Vitória – aquele que embalava as conquistas de Ayrton Senna na Fórmula 1 -, enquanto um palhaço abordava populares na rua. Talvez não fosse a intenção, mas a cena remetia a um passado glorioso da varejista – o de campeã de vendas de eletrodomésticos no país. Como a loja de Morro Agudo, mais de 120 outras foram inauguradas nos últimos dezoito meses, numa estratégia da dona das Casas Bahia, a Via Varejo – comandada pelo Grupo Pão de Açúcar (GPA) até um mês atrás -, para tentar manter a dianteira nas vendas perante o concorrente Magazine Luiza. Não deu certo. A empresa ficou sem caixa e sem lucro, enquanto a “Magalu” deslanchava com seu comércio eletrônico e ganhava a atenção – e o dinheiro – de investidores e consumidores.

Exatos onze dias antes daquela festa no interior, os fundadores das Casas Bahia, a família Klein, tomaram a Via Varejo do GPA, e agora estão reformulando toda a estratégia de crescimento. A companhia precisa voltar a gerar lucro – o que já não acontece há um ano – sem que seus clientes tenham de pagar a mais por isso.

Ao assumir o conselho de administração da Via Varejo, Michael Klein (filho do criador da empresa, Samuel Klein) demitiu doze diretores. Para ocupar o lugar deles, buscou profissionais que já haviam trabalhado com ele. Os nomes mais alardeados são Roberto Fulcherberguer, presidente executivo, e Sérgio Leme, vice-presidente administrativo. De todos que Klein trouxe, ele não conhecia em profundidade apenas um – ou melhor, uma. Ilca Sierra passou dez anos no Magazine Luiza e era a diretora de marketing do concorrente –   foi a responsável pela criação da mascote Magalu. A custosa contratação de Sierra escancarou a tática de Klein de roubar nomes do principal concorrente para absorver o que lhe permitiu se valorizar tanto. Aguarda-se no momento o anúncio do novo diretor de e-commerce –   e o mais cotado é um ex-diretor do Magazine Luiza, exatamente para replicar a integração entre o varejo on-line e o físico que fez sucesso no inimigo. “Vendemos 10 bilhões de reais a mais que o nosso concorrente (Magazine Luiza) em 2018, porém ele vale 34 bilhões de reais a mais que nós. Vamos corrigir isso”, ressaltou Fulcherberguer, em vídeo distribuído aos funcionários.

Na segunda-feira 8, a Via Varejo – que registrou prejuízo de 49 milhões de reais no primeiro trimestre para vendas de 7,4 bilhões – valia 8,7 bilhões de reais. Em comparação, o Magazine Luiza, comandado por Frederico Trajano, lucrou 132 milhões no começo do ano em cima de um faturamento de apenas 4,3 bilhões, entretanto está avaliado em 43,7 bilhões de reais. A distância já foi maior. Desde que Klein comprou as ações do GPA, os papéis da Via Varejo subiram quase 40% – o mercado está em frenesi com a expectativa de que, com a troca de comando, ela se porte novamente como a líder do setor. “A empresa só deve voltar a ser lucrativa no último trimestre, mas o mercado vem gostando da história que está sendo contada”, diz Pedro Galdi, analista da corretora Mirae. Essa história, contudo, pode se complicar. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o xerife do mercado financeiro, suspeita que a forma como Klein comprou a participação do GPA tenha prejudicado acionistas minoritários. Dias antes da aquisição, uma assembleia feita às pressas autorizou uma mudança no estatuto da Via Varejo que permitiu que o GPA – o maior acionista até então – vendesse sua parte sem estender a oferta aos minoritários. Klein, que se associou a cinco fundos e vendeu 33 imóveis comerciais para pagar 2,3 bilhões de reais, poderia ter de desembolsar até 6,3 bilhões de reais sem a alteração. A investigação, aberta em 17 de junho, pode gerar sanções à companhia.

Samuel Klein fundou as Casas Bahia em 1952, em São Caetano do Sul, São Paulo. O que impulsionou a empresa – o crédito e o aumento da renda do consumidor – não cresce mais como antes. Em cinco anos, o varejo físico encolheu 12%, segundo a consultoria Euromonitor International. Em contrapartida, o on-line cresceu 70%. Além de focar no e-commerce, a Via Varejo vai apostar em um relacionamento estreito com fornecedores – outra estratégia adotada por Trajano. Um importante executivo da maior fornecedora da Via Varejo afirmou que espera uma forte pressão para baixar preços. Casas Bahia e Pontofrio, que também integra o grupo, somados, são os maiores clientes de fornecedores como Whirlpool, Samsung e LG. Todavia, o que nos anos 1990 representava mais da metade das vendas dessas marcas equivale hoje a um quarto. “Concorrentes como Magazine Luiza, Lojas Americanas e Mercado Livre permitem que fornecedores endureçam as negociações”, disse o executivo. Klein sabe bem que ser o maior não é sinônimo de ser líder. Será difícil tirar esse rótulo do Magazine Luiza – o inimigo a ser batido.

ALIMENTO DIÁRIO

A CASA FAVORITA DE DEUS

A Casa Favorita de Deus - Tommy Tenney

CAPÍTULO 1 – A CASA FAVORITA DE DEUS

Eu nunca havia percebido que Deus tinha uma casa favorita, até aquele verão em que levei minha família em uma excursão para onde tinha sido meu lar na infância. Tínhamos de ir para a minha cidade natal, West Monroe, Louisiana, para ver meu avô de qualquer maneira. Como já estávamos na cidade, certa tarde quente de Louisiana, coloquei minha família em nossa ‘van’ para um tour na vizinhança da casa onde eu fora criado.

Algumas pessoas diriam que não há nada demais em West Monroe, mas ela é especial para mim, porque ali era o meu lar. Vivíamos numa casa branca, coberta de madeira, na rua Slack, 114. A enorme árvore de magnólia, numa das extremidades do jardim de frente, ainda está lá (elas são as melhores árvores para garotinhos escalarem). O carvalho da outra extremidade, porém, já se fora há muito tempo (estas não são tão boas para escalar). Cada esquina parecia armazenar outra memória comovente que eu, fascinado, tinha de compartilhar com a minha família à medida que lá passávamos. Mostrei o lugar pelo qual ia à escola e descrevi tudo o que acontecia ao longo da nossa rota (completamente inconsciente dos bocejos mal escondidos da minha plateia).

Quando saímos do carro em frente à casa, mostrei o córrego onde o valentão da vizinhança, Clint, e eu, tivemos uma briga depois que ele chamou minha irmã de um nome feio. Na época, ela parecia uma batalha de proporções bíblicas, mas a curta versão dela é que eu dei um soco no nariz do Clint, e ele me atingiu “com um no estômago, e ambos fomos para casa chorando.

Eu amava a casa onde vivi e fui criado. Naturalmente, presumi que meus filhos a amariam também. Era óbvio para mim que ninguém estaria em casa naquela tarde, mas cidades do norte da Louisiana compartilham uma camaradagem e um tradicional código que abre espaço para um “tour da herança”. Eu não sabia quem era o atual dono da casa, mas, realmente, não achei que alguém ficaria aborrecido se a “equipe dos Tenney” excursionasse pela propriedade.

EU TINHA MEMÓRIAS PODEROSAS DA MINHA CASA FAVORITA

A grande excursão começou com histórias sobre o jardim da frente, suficientes para gastar pelo menos trinta minutos. Eu tinha muitas memórias nostálgicas sobre o que acontecera na minha casa favorita, e queria que meus filhos tivessem o próprio senso de tradição e uma conexão histórica com aquela casa.

Vagarosamente, fizemos nossa trajetória ao redor da casa, enquanto eu mostrava os locais históricos mais importantes e relembrava velhas histórias sobre a vida no “paraíso”. À medida que passamos pelo portão da varanda dos fundos, contei para os meus filhos sobre o dia em que o cachorro mordeu o entregador. Eu nunca tinha visto um entregador dançar tão habilmente com pacotes nos braços. Meu cachorro não era, na verdade, um grande cachorro, mas ele inspirou aquele homem suficientemente para motivá-lo a fazer uma dança rápida, digna de um prêmio, atravessando aquele quintal. Pessoalmente, achei hilário, mas o entregador não ficou nada feliz.

MINHA FAMÍLIA TINHA ME ABANDONADO

Eu descrevi a casa de brinquedo no quintal e o meu balanço caseiro feitos na árvore sobre a qual minha irmã conseguira cumprir a profecia da minha mãe, dizendo que ela quebraria o braço. Eu estava realmente começando a me sentir bem com aquela excursão quando, aproximadamente a três quadras do caminho ao redor da casa, olhei para trás e percebi que ninguém estava lá. Pensei: bem, eles encontraram algo realmente interessante e ainda estão espantados com o que viram. Tinha acabado de mostrar o local da sepultura onde minha irmã e eu enterrávamos nossos animais de estimação quando morriam, limão, pensei que talvez eles estivessem tristes ou teriam se encantado com a jardineira onde minha mãe me ensinara a plantar flores.

Quando refiz o mesmo caminho, percebi que minha família havia me abandonado. Eu admito que estávamos no meio de um dia quente da Louisiana, 35 graus lá fora e 100% de umidade; mas será que eles não entendiam que aquele era o pequeno preço que tinham de pagar para entrar no “paraíso”? A verdade é que estavam convencidos de que eu falava um “blábláblá”. Eles haviam voltado para a ‘van’ onde o ar condicionado estava ligado no máximo. Seus rostos demonstravam estado de absoluto tédio enquanto argumentavam sobre qual fita cassete ouvir “enquanto o papai fazia sua pequena viagem de memórias”.

Eu estava ofendido. Não, eu me encontrava mais que ofendido. Sentia-me bravo. “O que há com vocês?” – eu perguntei. “Estou tentando mostrar todas as coisas…”

“Estamos entediados…” interrompeu Andréa, minha filha mais nova. “Papai, esta casa não significa nada para nós”, replicou Natasha, minha filha do meio.

Por um momento, esperei ver raios saindo da nossa ‘van’. Afinal de contas, não se fala de um “terreno sagrado” daquela maneira. Era quase um sacrilégio! Então, minha irreverente filha mais velha disse: “Papai, a única razão pela qual esta casa significa alguma coisa para você é por causa das suas memórias. Nós não temos nenhum passado relacionado a ela”.

Assim sendo, comecei a perceber que minha filha estava certa. Minha família não precisava, necessariamente, se interessar por aquela casa da mesma maneira que eu. Posso contar histórias sobre minha vida quando lá morei, pois estes contos são reais para mim; uma vida. Eles são minha vida guardada nas memórias da minha casa favorita.

POR QUE DEUS QUER RECONSTRUIR AQUELA CASA?

Poucos dias depois, estava olhando vários versos da minha Bíblia quando minha atenção se voltou para esta passagem em Atos 15:16. – (referindo-se a Amós 9:11-12).

“Cumpridas estas coisas, voltarei e reedificarei o tabernáculo caído de Davi; e, levantando-o de suas ruínas, restaurá-lo-ei.”

Pensei comigo mesmo: Por que Deus quer reconstruir aquela “casa”? Por que Ele não deseja construir o tabernáculo de Moisés com toda sua originalidade? Afinal de contas, aquele foi o primeiro lugar de habitação sagrado construído por mãos humanas. E mais do que isso, por que Deus não iria querer reconstruir o templo de Salomão em todo seu esplendor! Por que Deus disse que Ele queria reconstruir o tabernáculo de Davi?

Naquele momento, era como se eu ouvisse a voz do Senhor sussurrar para mim: “Porque esta é a minha casa favorita.” Que declaração! Por que Ele disse aquilo? – Perguntei a mim mesmo. Deus parecia responder pela minha experiência: Por causa das memórias. Eu acredito que Deus tenha algumas memórias de eventos preciosos naquele tabernáculo que não aconteceram em nenhum outro lugar.

Este livro não é sobre uma reprodução mecânica do tabernáculo de Davi, mas discorre a respeito do renascimento da paixão que fez com que ele fosse construído em primeiro lugar. O tabernáculo de Davi era menos estrutura e mais “acontecimentos”. A igreja, hoje, é mais estrutura e menos “acontecimentos”. Essa é a diferença entre uma “casa” e um “lar”. Isso também é o que fez a rua Slack, 114, tão viva para mim e sem importância para minhas filhas.

Se a paixão do coração de Davi pôde ser restaurada, então o próprio Deus vai ajudar no processo de reconstrução do tabernáculo (lugar de habitação). Ele disse isso!

De todos os edifícios, estruturas, tendas e templos que já foram construídos e dedicados a Deus, por que Ele distinguiu o abrigo provisório de Davi no Monte Sião e disse: Este é o que Eu vou reconstruir? A resposta para esta pergunta desafia muitas das nossas ideias mais queridas a respeito do papel da Igreja, transformando minha vida e gerando a mensagem contida neste livro.

O ABRIGO PROVISÓRIO DE DAVI MAL SE QUALIFICA COMO TABERNÁCULO

Como mencionei anteriormente, é curioso como Deus não escolheu reconstruir o tabernáculo ermo de Moisés. Esta é a receita original. O tabernáculo de Moisés é o começo; é o conceito de tabernáculo revelado na sua forma mais primitiva e pura. Por outro lado, muitos de nós iríamos escolher o templo de Salomão com todo o seu esplendor de multibilhões de dólares. Por que Deus não disse que reconstruiria aquela residência real para Ele mesmo?

O abrigo provisório de Davi mal se qualifica como tabernáculo quando comparado com o tabernáculo de Moisés, e, certamente, quando comparado com o templo de Salomão. Este reunia pouco mais que uma lona estendida sobre algumas varas de tenda, para proteger a arca do sol e dos elementos da natureza. Mesmo assim, Deus disse: “Eu vou reconstruí-lo”. Evidentemente, o que impressiona Deus e o que impressiona os homens são duas coisas diferentes.

Ao dizer, “Eu voltarei e reconstruirei o tabernáculo de Davi que estava caído; reconstruirei suas ruínas e o levantarei”, Deus deixa claro que Ele não o derrubou. Este caiu por si mesmo. Isto também indica que o tabernáculo de Davi fora escorado de certa forma pelo homem. Como é que eu sei disso? Pela certeza de que nada que está apoiado ou sustentado pelo Deus Eterno pode cair, porque Ele nunca fica fraco ou cansado.

Deus parecia estar dizendo: “Eu sei que o tabernáculo de Davi era um tabernáculo de homem, e que as mãos do homem se tornaram fracas e cansadas. Então, Eu vou começar um processo que fortalece a raça humana e a traz de volta à mesma casa que Davi tinha. Aquela é a Minha casa favorita.”

DEUS NUNCA SE IMPRESSIONOU COM CONSTRUÇÕES

Por alguma razão, o mundo cristão se esqueceu de que Deus nunca se impressionou com construções. Pastores e membros que se reúnem em estruturas simples, ou abrigos, constantemente batalham por reconhecimento terreno, para serem reconhecidas como uma igreja legítima na cidade.

Provavelmente, alguns complexos de igrejas esplendorosas e multibilionárias na mesma cidade batalham por reconhecimento celestial, para serem identificadas como uma igreja legítima. Nossa afeição por torres e vitrais pode entrar no nosso caminho e impedir a adoração verdadeira. Se for preciso escolher, Deus prefere paixão a palácio! Se você recordar, Davi queria construir um templo, mas Deus lhe disse que Ele não estava interessado. Se você observar mais atentamente nas passagens bíblicas, descrevendo a dedicação do enorme templo de Salomão, verá Deus dizendo coisas tais como:

Sucedeu, pois, que, tendo acabado Salomão de edificar a casa do Senhor […] o Senhor tornou a aparecer-lhe […] e o Senhor lhe disse: Ouvi a tua oração e a tua súplica que fizeste perante mim; santifiquei a casa que edificaste, a fim de pôr ali o meu nome para sempre; os meus olhos e o meu coração estarão ali todos os dias. Se andares perante mim como andou Davi, teu pai […] então, confirmarei o trono de teu reino sobre Israel para sempre […]. Porém, se vós e vossos filhos, de qualquer maneira, vos apartardes de mim e não guardardes os meus mandamentos e os meus estatutos, que vos prescrevi, mas fordes, e servirdes a outros deuses, e os adorardes, então, eliminarei Israel da terra que lhe dei, e a esta casa, que santifiquei a meu nome, lançarei longe da minha presença; e Israel virá a ser provérbio e motejo entre todos os povos. E desta casa, agora tão exaltada, todo aquele que por ela passar pasmará, e assobiará, e dirá: Por que procedeu o Senhor assim para com esta terra e esta casa? Responder-se-lhe-á: Porque deixaram o Senhor, seu Deus […] e se apegaram a outros deuses, e os adoraram, e os serviram. Por isso, trouxe o Senhor sobre eles todo este mal. – (1 Reis 9:1-9).

Quando os discípulos de Jesus comentaram sobre a magnificente beleza do templo de Herodes em Jerusalém, Ele profetizou: “Vedes estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada” – (Lucas 21:6).

Mas Deus nunca disse tais coisas sobre o tabernáculo de Davi. De fato, Ele falou exatamente o oposto. Ele parece não estar dizendo: “estava caído”, mas sim: “Posso ajudar a levantar as varas de sua tenda uma vez mais? Posso ajudar a restaurar o que o tempo roubou e o que a fraqueza do homem permitiu que viesse a colapso? Eu quero preservar esta casa – as memórias dos ‘encontros com os homens’, aqui, significam muito para Mim.”

Nós queremos encontros com Deus, mas Deus quer encontros com o homem, porque encontros com Seus filhos O comovem. Ele vai “rasgar véus” e interromper o tempo para ter uma visita com Seus filhos. Quando ponho meus compromissos de lado para “tomar um chá” no chão ou na casinha de brinquedo com a Andréa, isto constrói memórias vividas para ela; e isto também constrói memórias preciosas para mim.

DAVI ESTAVA INTERESSADO NA CHAMA AZUL

O componente mais poderoso do tabernáculo de Davi começou muito antes de a verdadeira tenda ser construída. Ele iniciou no coração de Davi, quando ele ainda era um menino pastor nos campos, aprendendo como adorar e comungar com Deus. E floresceu durante sua caminhada para retornar a arca da Aliança ale Jerusalém. Sua jornada é importante para nós porque também é uma figura, para a Igreja em nossos dias, da nossa marcha de retorno à presença de Deus. A passagem seguinte, extraída do meu livro Os caçadores de Deus, descreve os motivos de Davi como o último caçador de Deus dos seus dias:

“Quando Davi começou a trazer a arca da Aliança de volta para Jerusalém, ele não estava interessado na caixa coberta de ouro com os artefatos dentro dela. Ele estava interessado na chama azul que pairava entre as asas estendidas do querubim no topo da arca. Isto é o que ele queria, porque havia algo sobre a chama que significava que o próprio Deus estava presente. E aonde quer que aquela glória ou presença manifestada de Deus fosse, havia vitória, poder e bênção. Intimidade irá produzir ‘benção’, mas a busca de ‘bênção’ nem sempre irá produzir intimidade.”

DEUS FICOU INTENSAMENTE COMOVIDO COM A BUSCA DE DAVI PELA SUA PRESENÇA

De alguma maneira, Davi capturou algo na essência de Deus. Algo que ninguém mais parecia alcançar. Eu não entendo como isso funciona, mas sei que a paixão de Davi pela presença de Deus foi crucial. Somente espero que seja contagiosa. Desde aquela úmida tarde em West Monroe, Louisiana, eu ouvi um sinal do Céu: “Se você a construir, Eu virei.”

Lembre-se de que Davi é o único homem descrito nas Escrituras desta maneira: “Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade.” – (Atos 13:22).

Estou convencido de que há dois significados para esta frase: “segundo o meu coração”. A interpretação padrão é que Davi era um homem “como” o coração de Deus ou cujo coração era “como” o coração de Deus.

Eu também creio que Davi era um homem que constantemente “buscava” o coração de Deus. Ele era um caçador de Deus, um perseguidor da presença de Deus. Sua determinação de trazer a arca para Jerusalém era uma prova viva do seu intenso amor pela presença de Deus. Essa segunda interpretação é suportada, nos Salmos, pelas descrições incomparáveis de Davi em sua íntima caminhada espiritual com Deus.

Eu não vou entrar em detalhes, mas há muitas similaridades entre o tabernáculo de Davi, o templo que Salomão construiu e o tabernáculo de Moisés.3 O tabernáculo de Moisés e o templo de Salomão caracterizaram três áreas cercadas distintas: o átrio exterior, o Lugar Santo e o Santo dos Santos.

Um grande véu (uma grande cortina no nosso coloquialismo moderno) estava estendido cruzando o tabernáculo para separar o Tabernáculo Santo do Santo dos Santos onde a arca da Aliança descansava.

A arca era uma caixa de madeira, coberta de ouro, construída por Moisés de acordo com instruções recebidas por Deus. Sua tampa era equipada com sólidas figuras de querubins (duas figuras angelicais) de ouro, com asas estendidas, olhando um para o outro. O espaço entre eles era chamado: “propiciatório” (o lugar da misericórdia), e era lá que a chama azul da presença manifesta de Deus pairava (também a glória, shekinah). A arca, o lugar da misericórdia e a chama azul da presença de Deus estavam sempre escondidos atrás do tecido grosso do véu.

Deus nunca gostou daquele véu. Ele precisava tê-lo, mas não gostava dele. Quando Jesus morreu na cruz do Calvário, foi Deus quem rasgou o véu de alto a baixo no templo de Herodes, em Jerusalém. Ele o rasgou de tal forma que nunca mais poderia ser costurado de novo. Ele odiava aquele véu como um prisioneiro odeia a porta de sua cela! Ele representava a parede, a linha de divisão que O separava da humanidade. Até aquele dia no Calvário, Deus tinha de Se esconder atrás do véu para preservar a vida da humanidade caída, que vinha adorá-Lo em Sua santidade.

ESTOU CANSADO DE ESTAR SEPARADO DOS MEUS FILHOS

Talvez o ingrediente que falta é a chave do favor: o tabernáculo de Davi era o único, entre todas estas construções, que não tinha véu.

Esta chave pode começar a desenrolar um dos pedaços mais importantes da sabedoria de todos os tempos: Deus, realmente, não quer estar separado de nós. De fato, Ele fará o possível para destruir as coisas que O separam e O escondem de nós. Deus odeia o pecado porque ele traz separação. Deus foi tão longe a ponto de rasgar o “véu” da carne de Seu Filho no monte Calvário. Ao mesmo tempo, mãos invisíveis rasgaram o véu no monte Sião, para dizer: “Eu jamais quero isto costurado de novo! Estou cansado de estar separado de Meus filhos.” Deus não quer somente horas de visitas com Seus filhos. Ele quer tempo integral! Ele “quebrou a parede mediana da separação.” – (Ver Efésios 2:14).

Agora, estamos começando a coletar algumas pistas que nos dizem por que Deus gostou mais da casa de Davi do que de qualquer outra construída em Seu nome. Moisés seguiu as direções de Deus e construiu a tenda, ou tabernáculo, com paredes suspendidas de tenda, cercadas por uma parede de linho de 4,6 m de altura, numa moldura de madeira, em torno do seu perímetro externo. Em contraste, não havia véu nem paredes de qualquer tipo em torno do tabernáculo de Davi. Nada separava a humanidade da chama azul de Deus na casa da Davi. De fato, a única coisa que cercava a presença de Deus no tabernáculo de Davi eram os adoradores, que ministravam a Ele durante as vinte e quatro horas do dia, sete dias da semana, trezentos e sessenta e cinco dias do ano, por aproximadamente trinta e seis anos!

Durante aquele tempo, se o rei Davi se levantasse no meio da noite com uma insônia da realeza, ele poderia ouvir o cantar, o louvar e o tilintar dos címbalos vindos do tabernáculo. Ele podia olhar na direção da lareira próxima ao seu quarto e ver as sombras de pés se arrastando e dançando ao redor da arca, iluminadas por luzes de velas tremulantes e lamparinas.

Talvez tenha sido naquele tempo que ele escreveu:

“Bendizei ao Senhor, vós todos, servos do Senhor, que assistis na Casa do Senhor, nas horas da noite; erguei as mãos para o santuário e bendizei ao Senhor.” – (Salmos 134:1-2).

Dia e noite, os adoradores encontravam-se, dançavam e adoravam a Deus em Sua presença. Era como se eles estivessem mantendo os céus abertos com suas mãos levantadas. Se Davi olhasse diligentemente, se o ângulo estivesse bem correto e se os adoradores se movessem também desta maneira, ele veria o brilho azul da glória de Deus irradiando entre seus braços levantados e os pés dançantes.

NO TABERNÁCULO DE DAVI, A GLÓRIA DE DEUS ERA VISTA POR TODOS

O tabernáculo de Davi era único. Em todos os outros lugares de adoração onde a arca da Aliança estava abrigada, os adoradores tinham de adorar quem estava atrás do véu sem nunca saber ou ver o que estava lá. Somente o sumo sacerdote poderia se arriscar a ir atrás daquele véu – mesmo assim, apenas uma vez ao ano. Mas, no tabernáculo de Davi, a glória de Deus era vista por todos – não importava se eram adoradores, transeuntes ou ímpios. A adoração sem véu criou visão sem impedimento!

O milagre da “Casa favorita de Deus” pode ser esboçado no desejo de Davi pela presença de Deus. Ele disse: “Como posso pegar a arca de Deus para mim?” Ele agiu sobre este desejo com todo o seu ser. Sua primeira tentativa de trazer a arca da Aliança para Jerusalém terminou em desastre; resultou em uma completa revisão dos métodos de Davi para “lidar com o Santo”. Quando Davi e sua linhagem de levitas e adoradores finalmente chegaram a Jerusalém, após uma viagem árdua de 20 quilômetros a pé, Davi devia estar dançando tanto de alívio quanto de alegria: “Conseguimos!”

Em algum lugar no processo de transportar a arca e honrar a Deus, Davi começou a dar importância às coisas que Deus valoriza. Por outro lado, sua esposa Mical valorizou a dignidade mais do que a Divindade. Ela foi amaldiçoada com a esterilidade, embora o fato de não ter filhos pudesse ser atribuído à sua falta de intimidade com Davi.

Encontros íntimos com Deus são, às vezes, embaraçosos na vida do homem. O panorama da cristandade americana, e de várias partes do mundo, está semeado com igrejas áridas que viraram as costas para a intimidade da adoração. São as Micals dos dias modernos que também têm escolhido valorizar dignidade mais do que intimidade com a Divindade.

Lembre-se de que Davi não estava atrás do ouro; ele tinha muito ouro. Ele não andava atrás da caixa; podia ter outras caixas construídas. Davi não se interessava pelos artefatos da caixa; eles eram boas lembranças das aparições de Deus para os outros muito antes de ele nascer; mas não representavam fascinação para ele. Davi estava buscando aquela chama azul da glória de Deus. Pelas suas ações, Davi estava dizendo: “Eu tenho de aprender a carregar aquela chama azul.”

Podemos construir prédios melhores, criar corais maiores, escrever músicas melhores e pregar melhores sermões – podemos fazer tudo com mais excelência do que antes. Mas se não estivermos carregando a “chama azul”, Deus não estará se agradando. E Ele fará com que igrejas “sem chama” se tornem irrelevantes para os homens como queremos apenas o suficiente de Deus em nosso lugar de adoração para nos dar um formigamento ou fazer um calafrio subir por nossa espinha. Então dizemos: “Oh, Ele está aqui.” A questão é: “Ele ficará”? A questão não é sobre nós, mas sobre Deus.

Tem de haver mais nisto do que emoções e arrepios. Davi não se sentia contente com uma visitação temporária. Ele estava buscando mais, e esta foi a razão pela qual disse aos adoradores levitas: “Vocês não vão a lugar algum. Eu quero você e seu grupo pegando as primeiras três horas. Quanto aos outros, fiquem com a próxima vigia, e vocês, com a terceira.”

Eu anseio pelo dia em que o povo de Deus vai adorá-Lo e honrá-Lo durante vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana – “24/7”. Com raras exceções, os santuários das igrejas são as salas menos usadas nos Estados Unidos e em todo o mundo. Enquanto uma constante multidão de pessoas aflui a lojas de conveniência vinte e quatro horas para estocar necessidades terrenas e passageiras, nossas igrejas mal funcionam duas horas por semana, porque a demanda para seus “produtos” é muito baixa. Devemos cultivar o estilo de vida “24/7” antes que embarquemos em uma estrutura organizada, para que isto não se torne como todas as outras coisas que temos feito – mecânicas.

Este livro não foi escrito para defender artificialmente estacas que mantêm as portas da igreja abertas. Ele é um chamado para a paixão do coração de Davi, um adorador. Seu tabernáculo se tornou a casa favorita de Deus por causa de quem adorava ali! Assim como a rua Slack, 114 se tornou minha casa favorita, não em razão da árvore de magnólia ou da pintura branca e do carpete verde da sala de estar, mas por causa de quem morava lá – Mamãe, Papai e a família.

Deus só quer estar com Seus filhos. Estábulos serão suficientes. Funcionou em Belém e na rua Azusa.5 Qualquer coisa para se aproximar. Se Davi olhasse para o seu humilde tabernáculo e dissesse: “Algum dia, espero fazer melhor”, então Deus responderia: “Uma tenda é suficiente, Davi. Somente mantenha seu coração quente!”

Temos construído lindos santuários com quase ninguém dentro deles, porque, se não há chama, não há nada para se ver. Não há glória shekinah em nossas igrejas, pois temos perdido nossa habilidade de hospedar o Espírito Santo. Por que Deus disse que Ele iria reconstruir a casa de Davi? Eu acredito que seja porque o tabernáculo de Davi não tinha véu ou muros de separação. Deus deseja intimidade entre Ele e Seu povo; Ele quer revelar Sua glória a um mundo perdido e morto. Ele tem de reconstruí-lo, porque as fracas mãos do homem cansaram de manter abertos os portões do Céu com sua adoração e intercessão.

Será que estamos querendo redescobrir o que Davi aprendeu ou já estamos entediados com o “tour da herança” de Deus? Será que já escapamos para a ‘van’ e ligamos o ar condicionado enquanto dizemos: “Isso não significa nada para mim porque eu não tenho nenhuma memória relacionada a este lugar”?

Penso comigo mesmo o que significou para Deus, em toda a Sua glória, poder estar no tabernáculo rústico de Davi, sentar bem no meio do Seu povo, sem véus ou paredes separando-O de Sua criação, pela primeira vez desde o jardim do Éden.

Volte sua face na direção d’Ele agora e Lhe pergunte o que Ele realmente quer. A resposta vai mudar você para sempre.