A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O PROCESSO PSICOSSOMÁTICO DO CÂNCER

Transtornos como estresse, depressão, perda do sentido da vida, individualismo e consumismo ganham um papel mais frequente na sociedade moderna e todos esses fatores levam à desarmonia e desencadeiam a doença

O processo psicossomático do câncer

Ao entrar na realidade da doença do câncer, muitas perguntas surgem, tais como: como o conteúdo do câncer se manifesta? Qual seria a sua origem? Hoje, essa doença tem ocupado e preocupado grande parte da população. Desde pesquisadores da área, médicos a leigos e pessoas com o devido sintoma. O que se percebe é o número crescente de casos. Apesar dos avanços na área, ainda não se conseguiu uma cura definitiva dessa realidade assustadora.

A humanidade na atualidade está passando por vários transtornos. Estresse, depressão, a perda do sentido da vida, individualismo, consumismo e o descartável. Todas essas realidades levam à desarmonia do humano, desencadeando a doença.

O artigo pretende levantar a discussão de uma verdade tão atual e silenciosa como é o câncer. Diante de sua natureza destrutiva, o humano encontra-se sem saída, no vazio de sua existência. Esse sintoma tem uma linguagem e um conteúdo manifesto que necessita ser decifrado e entendido.

A Psicanálise busca um novo entendimento para essa realidade. Olha para a doença para buscar aquilo que está escondido e latente. Ao investigar a sua história, se defronta com o fato de que esse sintoma necessita de um impulso para se manifestar sobre o organismo humano. A atitude analítica surge como ponto de partida frente a essa verdade.

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CONTEÚDO MANIFESTO

A doença psicossomática do câncer tem seu simbolismo e sua linguagem, os quais se manifestam de maneira autodestrutiva no organismo humano. O sintoma do câncer, muitas vezes, nasce de uma realidade de sofrimento, dor, ódio, os quais a pessoa inconscientemente introduziu em sua vida. Como um sinal de que algo não está bem, como afirma Rüdiger Dahlke, “o sintoma é um sinal que atrai a atenção, o interesse e a energia, pondo simultaneamente em risco o fluxo natural dos processos”.

A medicina tem estudado e pesquisado muito diante dessa realidade. No entanto, não se tem chegado à raiz do problema. O que realmente acontece para que o câncer possa se manifestar? Ou, ainda, o que torna essa doença tão fatal? Partindo dessa verdade, Dahlke diz que “a doença é um estado do ser humano que indica que, na sua consciência, ela não está mais em ordem, ou seja, sua consciência registra desarmonia”.

Ao faltar a consciência, o sintoma do câncer começa a se manifestar. A pessoa, na realidade, dá vida e existência para ele. Para o psicanalista Salézio Plácido Pereira, “toda doença, indiretamente, tem uma função simbólica para representar um desejo inconsciente, o corpo é a expressão das sequelas e cicatrizes adquiridas durante a sua existência”.

Nesse caso, o câncer, que em sua essência necessitou da falta de algo para se manifestar. Esse algo foi introduzido pela própria pessoa que a criou, quando lhe faltou a consciência. Assim, podemos entender que ele se manifesta no organismo humano quando a consciência está em falta. Nessa falta, o que se concretiza são as raízes autodestrutivas do câncer. Esse sintoma psicossomático desencadeia uma reação no organismo aniquilando com tudo o que gera a vida.

Não tendo consciência disso, a pessoa vai se apagando, se autodestruindo. No entanto, quando se toma consciência deste, se abre a possibilidade de se livrar dessa realidade de doença e morte.

 ORIGEM DO CÂNCER

Freud, ao estudar os primórdios da Psicanálise, descobriu que os sintomas se manifestam no conteúdo latente. Isto é, aquilo que está guardado e escondido, que ainda não chegou à consciência. O sintoma expressa uma linguagem própria e única, aquilo que está faltando. Ao mergulhar no conteúdo do câncer, depara-se sobre a realidade da sua origem. De que modo e como este se manifesta?

A medicina realiza um diagnóstico sob a etiologia naquilo que já se manifestou, esquecendo-se de entrar no conteúdo emocional de sua origem. A Psicanálise, porém, procura olhar para essa realidade escondida e latente. Quando alimenta-se uma vida de estresse, raiva, depressão, desamor e solidão, o caminho poderá ser a criação de um câncer. Para Bolzan, “tanto a saúde quanto o amor são pilares muito fortes na sustentação do instinto de vida, enquanto que a doença e o ódio são fundações consolidadas no instinto de morte”. Todos esses processos vão introduzir-se no organismo humano, causando alguma alteração em algum órgão.

Quando existem as emoções de raiva e ódio, todo o organismo vai receber essa informação; assim, cada órgão vai sofrer com esse impacto. Não existindo consciência, o sintoma do câncer começa a se manifestar.

Jung usou o termo sombra para designar todos os termos rejeitados, isto é, aquilo que se rejeita tende a se transformar em sombra. “A sombra é o maior perigo para as pessoas, pois elas a têm sem conhecê-la e sem saber que existe”.

A sombra se manifesta mediante a uma realidade que foi rejeitada pela pessoa. O que faz adoecer é a sombra, ir ao encontro da mesma é o processo da cura. Quando se tem consciência daquilo que foi rejeitado, o sintoma começa a perder força sobre o organismo.

 EMOÇÕES E PULSÃO

A Psicanálise procura fazer uma interpretação diante da realidade do câncer. Ao mergulhar no sintoma, busca aquilo que está latente e escondido, para fazer com que se traga à consciência. Os sintomas são recursos que o inconsciente utiliza para manifestar o seu desejo, isto é, denuncia aquilo que a pessoa rejeitou. Para Pereira, “a Psicanálise que estuda a dimensão inconsciente da expressão das emoções e pulsões, o sintoma é a manifestação de uma energia recalcada ou reprimida”.

Ao interpretar esses sintomas, leva a pessoa a entender e compreender o que realmente aconteceu para que o câncer pudesse se manifestar. Para curar uma ferida emocional, é necessário que se tome consciência da realidade dela. Assim, acontece o mesmo com o sintoma do câncer. Ao tomar consciência deste, ao levar a busca do desejo de vida e não de morte, se cria a possibilidade da cura. Uma cura que acontece de maneira gradual, na qual, em análise, o paciente vai ouvindo e entendendo as suas dores.

Na verdade, aquilo que não se consegue expressar por palavras aparece como sintoma. Quanto mais se guardam mágoas, ódio e raiva… são essas emoções que poderão desencadear o sintoma do câncer. Por isso que toda manifestação dele não é fruto do acaso, mas sim de um método que se criou para a sua origem. Quanto mais olharmos para a realidade, nas quais o amor, o afeto e a alegria são o motor imóvel da existência, mais o humano terá uma visão diferente de si próprio.

 O ENFOQUE DA PSICANÁLISE

É no corpo físico que se manifestam os desajustes daquilo que não está bem. Por isso, ao entrar na realidade do câncer, se percebem esse desequilíbrio e desarmonia, que se introjetam sobre o organismo. É no corpo humano que se manifestam as emoções autodestrutivas, ódio, raiva, medo e angústia, que desenvolvem um processo destrutivo, causando, nesse caso, o câncer.

Ao desejar a vida, estão se desejando a biofilia, o amor, a felicidade e a saúde. Ao desejar a morte, se desejam a necrofilia, raiva, inveja, revolta, ódio e a doença. Estes desencadeiam uma reação negativa em cada órgão do corpo. Para Chris Griscom, “não somos apenas um organismo físico concreto. Somos uma tapeçaria viva e dinâmica de diversos corpos entrelaçados para facilitar uma integração de realidades experienciais, sensoriais e dedutivas muito complexas. São os corpos físicos, mental, espiritual e emocional”.

A somatização das doenças no corpo, especialmente o câncer, está condicionada a diversos fatores, tais como modo de vida, estresse, solidão, raiva, ódio, inveja e depressão; são realidades que poderão condicionar o sintoma do câncer. Por isso que “a doença se manifesta nessa circunstância, porque não está havendo o equilíbrio e harmonia no eixo energético do pensar, sentir e agir”.

Como a Psicanálise poderá tratar a doença do câncer? Quando o paciente na clínica vem com esse sintoma, o primeiro passo é buscar a sua origem. O que se quer firmar é que, para desencadear a doença, necessitaram-se de um impulso e um método, este criado inconscientemente pela pessoa. Assim, ao mergulhar nessa realidade, na qual ela se predispuser a fazer um trabalho profundo e buscar no seu inconsciente os motivos que a levaram a criar essa doença, com certeza vai realizar o processo de harmonia e equilíbrio de sua energia psíquica.

Partindo dessa verdade, Maria Margarida M. J. de Carvalho afirma que, “segundo Hunghes (1987), o câncer provavelmente não tem uma única causa, mas uma etiologia multifatorial, isto é, vários fatores precisam operar juntos na mesma pessoa para produzir a doença”.

Assim, é possível entender que o sintoma do câncer necessita de muitos fatores para que possa se manifestar. Como um processo psicossomático, introduz um desejo autodestrutivo sobre o organismo, causando, com isso, o desequilíbrio.

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DESARMONIA

A doença se manifesta quando o humano perde a harmonia. Mas que harmonia? Essa desarmonia seria quando não se tem consciência de si e de sua própria realidade. Quando a consciência está em falta, o sintoma começa a se manifestar. O que equivale é a sua realidade, na qual se elabora um método para criar uma doença. Segundo Dahlke, “essa doença se manifesta no corpo como um sintoma. Então, o que se tem é a comprovação de que algo nos falta. Falta consciência, e, portanto, tem-se o sintoma”.

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DEPRESSÃO

A depressão, muitas vezes, é confundida com uma tristeza profunda. No entanto, quando o sentimento de tristeza se torna intenso, dura períodos longos e interfere decisivamente na vida cotidiana da pessoa, este é o sinal para a procura de ajuda profissional. A depressão já é o mais comum dos transtornos mentais, embora seja tratável. A Organização Mundial da Saúde calcula que, em vinte anos, a depressão ocupará o segundo lugar no ranking dos males que mais matam.

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O CAMINHO DA CURA INTRAPSÍQUICA

Conhecer a veracidade do sintoma do câncer é trilhar um caminho na busca da cura intrapsíquica, isto é, quando o paciente escuta a própria dor, entende e conhece o sintoma. Para que o mesmo possa se manifestar, necessita de um método que a própria pessoa inconscientemente assimilou na essência de cada emoção e pulsão: O que se quer afirmar é que o câncer é um impulso autodestrutivo que nasceu mediante uma emoção que não foi elaborada. Ao conhecer a sua história, o câncer se torna menos agressivo; assim, quando existe a resistência, provoca uma pressão maior levando à proliferação dele. O câncer é um processo que necessita de um trauma emocional para se manifestar. Nesses últimos anos o mundo vem mudando rapidamente. A ciência, a tecnologia, a web e o mundo virtual vêm ganhando cada vez mais espaço. Nessa conjuntura de transformações abruptas e repentinas o humano permanece desorientado. Nesse horizonte de possibilidades, a Psicanálise surge como uma voz e um alerta para a reflexão profunda sobre a doença do câncer, que cresce de maneira apavorante. Não obstante, o desenvolvimento e o cultivo integral do humano partem, antes de tudo, da busca da saúde psíquica-física-emocional, que seja a chave para o contato consigo mesmo e com o Outro.

OUTROS OLHARES

SERVIÇO HARMONIZADO

Nos melhores restaurantes do mundo, uma nova etapa se anuncia: a próxima revolução da comida será no salão, com atendimento, objetos e entrosamento diferenciados

Serviço harmonizado

Está na enciclopédia Larousse Gastronomique: o restaurante, tal qual o conhecemos, com salão, cardápio e garçons, foi inventado em Paris, em 1782, por Antoine Beauvilliers, cozinheiro do futuro rei Luís XVIII. De lá para cá, a arte de cozinhar profissionalizou-se e a nouvelle cuisine francesa e a gastronomia molecular espanhola mudaram o conteúdo e o visual das receitas. Fora da cozinha, porém, tudo continuou relativamente igual desde aquele início da belle époque. “Mesmo na alta gastronomia, o serviço ainda é menos valorizado”, disse Josep Roca, sócio, junto com os irmãos Joan e Jordi, do restaurante espanhol El Celler de Can Roca, o segundo melhor no renomado ranking da revista inglesa The Restaurant. Mas isso está mudando, avisa Roca, com conhecimento de causa – maitre e sommelier, ele é o responsável pela vida fora do fogão na sua casa. “A revolução gastronômica seguinte vai acontecer dentro do salão”, sentenciou o espanhol durante o Nam, no Chile, um dos maiores congressos internacionais da área.

As medidas já em andamento envolvem a forma de servir, com pratos, talheres e copos sob medida para o cardápio, a adoção de práticas sustentáveis e a valorização dos palpites “de fora” na formulação das receitas. “Garçons e maitres são os funcionários mais próximos dos clientes”, observa Roca, que os vê “tão importantes quanto o chef ou mais”. No El Celler, os funcionários têm sessões semanais com um psicólogo, para amenizar a pressão do trabalho. Trata-se de um luxo para poucos, claro, mas o conceito se espalha pelo mundo. No Rio de Janeiro, o Org Bistrô oferece ioga e meditação aos funcionários toda terça-feira, entre o turno do almoço e o do jantar. “É nosso momento de paz no dia a dia corrido. A equipe fica mais unida e preza mais o bem-estar da clientela”, diz a chef Tati Lund.

Designers dedicam-se a criar plataformas inusitadas para servir as receitas. “Além de boa comida e bebida, as pessoas buscam experiências gratificantes”, ensina Roca. No El Celler, um carrinho que lembra um robô da Nasa roda pelo salão servindo sobremesas. A criação foi inspirada na obra do artista cinético holandês Theo Jansen, e em breve um segundo garçom cibernético lhe fará companhia, com a função de oferecer café e chá.

Louças e talheres estão se adequando às criações de cada chef. Na Casa do Porco, em São Paulo, cujo menu degustação custa 125 reais (o do Celler de Can Roca sai por 865 reais), os utensílios usados para servir as nove etapas combinam com os pratos. O torresmo de pancetta com goiabada picante, versão do chef Jefferson Rueda para o clássico torresminho, vem disposto dentro de uma cabeça de porco feita em impressoras 3D. Os próprios garçons, bem treinados e envolvi­ dos no processo, estão mudando de atitude – para melhor.

“A postura servil é coisa do passado. O amplo acesso à informação reduziu muito a diferença cultural entre quem serve e quem come”, diz Gastón Acurio, o principal nome da gastronomia peruana, que também falou sobre a revolução no atendimento. Serviço simpático e bem informado – esse futuro promete, no mais harmonioso dos movimentos da arte de bem comer.

GESTÃO E CARREIRA

O CLUBE DOS UNICÓRNIOS

Com a entrada da Loggi nesse grupo, o Brasil já tem oito startups avaliadas em ao menos 1bilhão de dólares. Elas estão fazendo a revolução não só na tecnologia, mas na maneira de trabalhar

O clube dos unicórnios

No fim do expediente de quarta-feira 5 de junho, petiscos e bebidas foram servidos no andar térreo do prédio na região da Avenida Paulista onde está sediada a startup Loggi, uma plataforma que conecta 25.000 motociclistas para entregas em 36 cidades brasileiras. Enquanto um DJ tocava músicas pop, profissionais garantiam suas selfies dentro de uma piscina de bolinhas em meio a dezenas de balões coloridos. A data havia sido um marco na companhia: fundada em 2013, a Loggi anunciou que, após uma injeção de recursos de investidores liderados pelo japonês SoftBank, se tornara um unicórnio – como é chamada a startup (jovem empresa independente de tecnologia) que atinge valor de mercado de ao menos 1 bilhão de dólares. Para celebrar, a imagem da criatura mitológica se repetia por todo lado, em bonecos infláveis ou em tiaras com chifre usadas pelos funcionários.

Desde que o Instagram deixou o mundo de queixo caído ao ser vendido por exato 1 bilhão de dólares ao Facebook, em 2012, as empresas de tecnologia que atingem essa cifra mítica são comparadas aos cavalos encantados por terem se tornado lendas na selva de empreendedores. Até janeiro de 2018, quando a 99 foi arrematada pela chinesa Didi Chuxing, o Brasil não tinha ouvido falar de representante nesse seleto clube. Hoje, o momento é de efervescência – das mais de 300 representantes de startups bilionárias de que se tem notícia no mundo, oito pintaram aqui desde então. E centenas são candidatas a repetir tal cavalgada. Apenas no ano passado, o país atraiu 1,3 bilhão de dólares em investimentos, distribuídos entre 259 startups, 55% mais que no ano anterior.

Mas e a crise? Bem, para essas organizações, ela por vezes mais ajuda que atrapalha, ao usarem tecnologia para a redução de custos e assim se diferenciarem da concorrência. A cearense Arco Educação, a única não paulista no grupo, é bom exemplo. Criada a partir de um conjunto de escolas de Fortaleza, a empresa oferece hoje um sistema educacional presente em 1.400 escolas brasileiras com fortes componentes de ensino a distância, como videoaulas e livros digitais. O material didático digital sai até 40% mais barato que o físico. Quanto maior o número de alunos que assistem às lições, mais a vantagem aumenta. O grande impulso para a expansão tecnológica foi a entrada, em 2014, do fundo americano General Atlantic, que detém hoje um quinto do negócio. Em setembro, a Arco captou 780 milhões de reais na bolsa eletrônica Nasdaq, pela venda de 25% de suas ações. Com o bolso cheio, comprou em maio o Sistema Positivo por 1,65 bilhão de reais.

Não à toa, a euforia é o que se respira dentro dos escritórios. A estética animada e lúdica (às vezes infantilizada, para os olhares de alguns) é a regra. Geladeiras com cervejas de graça e salas de “descompressão” com tapetes de ioga repetem-se em vários deles, mas existem particularidades. Na Loggi, há um urso de pelúcia de 1,50 metro de altura (apelidado de Loggão) e um boneco sparring no qual os mais estressados podem desferir golpes de boxe. Uma vez por semana, o CEO Fabien Mendez liga seu notebook em uma área comum e os empregados são bem-vindos para falar sobre qualquer tema.

Na sede do iFood, em Osasco, funcionários locomovem-se de patinete de um canto a outro (não é só modinha hipster; o prédio, todo térreo, tem 13.000 metros quadrados) e há vídeos no circuito interno (às vezes, ao vivo) para dividir com todos as novidades. “Tentamos fazer com que a comunicação flua como se ainda estivéssemos em uma garagem”, diz o CEO Carlos Moyses, cofundador de uma das empresas que originaram o iFood. Ex­ entregador de pizza na Austrália, ele passa dez dias por ano na China para se conectar com as inovações.

Para além da originalidade no visual, é na ação que esses negócios buscam transformar o ambiente de trabalho. Tome-se como exemplo a desenvolvedora de aplicativos Movile. Se em companhias tradicionais é incomum que uma mulher seja contratada durante a gravidez, ali sete gestantes ganharam seu crachá nos últimos doze meses. Quando voltam da licença-maternidade, elas são recebidas com foto de seu bebê em porta-retratos e um resumo das decisões importantes tomadas em sua ausência. No Nubank não existem alas específicas dentro do escritório – um engenheiro de software pode sentar­ se ao lado de alguém de recursos humanos; cada um posiciona seu notebook onde quiser. Além disso, é possível levar o cachorro para o expediente e trabalhar na varanda para deixar o pet à vontade (vez ou outra algum bichinho se perde nos nove andares e a turma sai em seu resgate).

Há alguns clichês inescapáveis no discurso dessas empresas: dizer que precisam identificar as “dores” da sociedade (problemas a ser resolvidos) e anunciar uma ”missão” mais charmosa que o simples lucro. A “missão” da Gympass, criadora de um passe que permite frequentar milhares de academias, é “combater o sedentarismo”. Isso é levado a cabo dentro do prédio na Vila Olímpia, e acontecem reuniões que começam com todos suando a camisa de forma literal, em um treino. As reuniões mensais mostram um ranking de empregados que usam com mais frequência o próprio serviço – o CEO da operação brasileira, Leandro Caldeira, costuma aparecer entre os primeiros. Ele acorda diariamente antes das 6 horas e já testou de ciclismo a escalada indoor. Dica de ouro para o participante dos processos seletivos da firma, presente em catorze países (dos Estados Unidos a San Marino): se ganhar um passe livre de um mês do RH, não deixe o brinde de lado (os recrutadores poderão monitorar o uso). Uma regra curiosa da alta gerência é não falar do trabalho de um terceiro se ele não estiver presente.

Estar em uma firma diferentona, claro, não é para todo mundo. “O discurso cheio de propósito, as coisinhas gostosas na geladeira, tudo é usado para fazer com que as pessoas tenham longas jornadas, muitas vezes no fim de semana”, diz um ex-funcionário da 99, que descreve um ambiente (excitante ou extenuante, você decide) de constantes mudanças. Conta ter tido meia dúzia de chefes em um ano. ”No ambiente em que se arrisca mais e se corrige o erro rápido, é necessário preparar­ se para alterar as metas do dia para a noite”. A reportagem ouviu relatos parecidos de trabalhadores dos outros unicórnios. Um engenheiro demitido da Stone por não bater as metas ainda assim recomenda o lugar, pelo acesso fácil à chefia para dar ideias.

De acordo com a consultoria Michael Page, os salários em startups são até 20% maiores que a média de mercado. Interessado? A headhunter Juliana Fiuza, especialista em inovação na Follow Recruitment, indica o caminho: “Essas empresas buscam o perfil criativo, flexível e intraempreendedor”. O último termo designa funcionários que vão além das suas obrigações e agem com cabeça de dono, criando oportunidades.

Os rostos jovens vistos ao redor do escritório não são uma impressão. Na 99, apenas 6% dos trabalhadores têm mais de 40 anos. Nas outras companhias, não é muito diferente. “Isso está relacionado ao uso de tecnologias recentes e de redes sociais, mas há espaço para pessoas mais velhas, especialmente no nível de gerência”, diz Cristina Junqueira, do Nubank, a única mulher entre os fundadores do clube do bilhão (40% de seu time é do sexo feminino; 30% do total é LGBT).

A Movile é uma das mais admiradas pelo dinamismo. Seus oito negócios principais são chamados ali dentro de transatlânticos, maiores e complexos, enquanto os projetos iniciais recebem o apelido de jet skis. “Se o profissional tem uma ideia, vai lá, implanta e apresenta os dados. O jet ski pode tombar quando vem uma onda, depois a pessoa se levanta e corrige a rota”, explica o cofundador Eduardo Henrique Lins, que hoje comanda de Miami a Wavy, braço do grupo de inteligência artificial para a comunicação das empresas com seus clientes. O aplicativo PlayKids, de vídeos e jogos para crianças, presente em 187 países, é um desses barquinhos que cresceram. Nasceu após o naufrágio de vinte tentativas para emplacar uma plataforma segmentada de vídeos, de música sertaneja a comédia stand-up.

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No Brasil, existem cerca de 12.800 startups. Mas, para entrar na elite dos unicórnios, o empreendedor tem de chamar a atenção de investidores em diversas etapas — as contrapartidas vão de sociedade a participação no conselho. Num universo em que mesmo empresas bem estabelecidas podem valer uma fortuna sem dar lucro o potencial é que aguça os apostadores. Lembra-se do exemplo do Instagram, vendido por 1 bilhão de dólares? Seis anos depois, a rede social valia 100 vezes essa cifra. “Olho mais para o sonho e o compromisso do fundador do que para o negócio”, diz Hernan Kazah, que fundou o Mercado Livre em 1999 e hoje investe em novas ideias. “Há muitas replicações com mérito do que é feito no exterior, mas estamos de olho em cases de inovação de abrangência mundial, como foram a Embraer e a Natura”, diz Bruno Rondani, da aceleradora 100 Open Startups.

No Vale do Silício brasileiro, quem quer ser patrão deve ficar de olho em Brasília. Anunciada em 1º de maio pelo presidente Jair Bolsonaro, a medida provisória da liberdade econômica, apelidada de “MP das startups”, prevê incentivos a jovens empresas, como dispensa de alvará na fase inicial. A proposta do governo precisa ser aprovada pelo Congresso até o fim de agosto para virar lei. Para Caio Ramalho, coordenador do MBA de private equity e venture capital da Fundação Getúlio Vargas, os incentivos são bem-­vindos, mas a prioridade deve ser facilitar o fechamento caso a empreitada não dê certo. “Um ambiente saudável de startups existe onde empresas possam nascer e morrer, pois a falha em um negócio pode ser uma lição para o que vem.” Enquanto o oceano burocrático seguir atrapalhando o ciclo de nascimento e morte dos pôneis brasileiros, o país terá menos unicórnios.

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ALIMENTO DIÁRIO

OS CAÇADORES DE DEUS

Os Caçadores de Deus - Tommy Tenney

INTRODUÇÃO

AQUELES QUE BUSCAM A DEUS SEMPRE EXISTIRAM

Desde que Deus existe, existem os que O buscam. A História está cheia de exemplos. O meu é somente um a mais. Histórias desse tipo são como mapas que conduzem ao Santo dos Santos ou a lugares celestiais.

Os caçadores de Deus não se limitam a tempo e cultura. Eles vêm dos mais variados lugares e contextos históricos: desde Abraão, o pastor errante, a Moisés, o gago adotivo, incluindo Davi, o jovem pastor de ovelhas. E, assim, no decorrer dos tempos, os nomes continuam aparecendo, desde Madame Jeanne Guyon, Evan Roberts, William Seymour do célebre avivamento de Azusa Street, até os nossos dias. (Nota do tradutor: O avivamento de Azusa Street aconteceu na cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos, durante o ano de 1906. Estudiosos relatam que este avivamento foi o mais importante da história do movimento pentecostal americano. O avivamento de Azusa Street foi liderado pelo americano de origem africana, William Seymor, e recebeu este nome porque eclodiu numa velha igreja localizada na Rua Azusa.)

Somente a História pode nos dizer os nomes de todos os caçadores de Deus. Você é um deles? Deus está esperando ser alcançado por alguém cuja fome exceda seu autocontrole.

Os caçadores de Deus têm muita coisa em comum. Primeiramente, eles não estão interessados em se acamparem ao redor de verdades conhecidas por todos, ao contrário: estão sempre atrás da doce presença do Todo-Poderoso. Sua busca pode causar espanto à Igreja, mas, geralmente, os transporta de lugares áridos até o lugar que o Senhor está. Se você é um caçador de Deus, não se contentará em, simplesmente, seguir as trilhas de Deus. Você as seguirá até que apreenda Sua presença.

A diferença entre a verdade de Deus e a revelação de Deus é muito simples. A verdade é onde Deus esteve. A revelação é onde Deus está. A verdade são as trilhas de Deus, Seu rastro, Sua trajetória, mas nos leva aonde? Conduz-nos a Ele. Talvez muitas pessoas fiquem satisfeitas se souberem onde Deus esteve, mas os verdadeiros caçadores de Deus não se contentam em somente estudar Seu rastro ou Suas verdades: eles querem conhecê-Lo, saber onde Ele está e o que Ele está fazendo agora.

Infelizmente, a maior parte da Igreja está como um detetive à procura do lugar onde Deus esteve. Um caçador, por exemplo, pode chegar a muitas conclusões estudando as trilhas de um animal. Ele pode determinar a direção em que está indo, há quanto tempo esteve ali, qual seu peso, se é macho ou fêmea e assim por diante.

A Igreja, hoje, gasta incontáveis horas e muita energia debatendo sobre onde Deus esteve, quão poderosamente Ele agiu quando estava lá e a natureza de Sua operação. Para os verdadeiros caçadores de Deus todas estas coisas são irrelevantes. Eles querem percorrer a trilha da verdade até chegarem ao ponto da revelação, o ponto onde Deus está.

Um caçador de Deus pode ser estimulado por algumas verdades e ficar emocionado em determinar o peso da glória que passou por aquele caminho, ou há quanto tempo foi. Mas é, justamente, este o problema: há quanto tempo foi? Um verdadeiro caçador de Deus não se satisfaz com a verdade passada, ele anseia pela verdade presente. O caçador de Deus não quer apenas estudar o que Deus fez, porém está ansioso para ver o que Deus está fazendo.

Existe uma grande diferença entre a verdade presente e a passada (Veja 2 Pedro 1:12). Temo que muito do que a Igreja tenha estudado seja a verdade passada, e muito pouco do que sabemos seja a verdade presente.

Se você quer reconhecer um verdadeiro caçador de Deus, imagine um cão de caça prestes a encontrar o que procura. Deixe que o caçador de Deus sinta o cheiro da proximidade de Deus e veja o que acontece. Como a Bíblia diz, o cheiro das águas faz com que muitas coisas aconteçam (Veja Jó 14:9). Como cães de caça em uma trilha, os caçadores de Deus ficarão ainda mais agitados quando alcançarem sua presa. E, neste caso, a presa é a presença do Pai.

Tudo que posso dizer é que sou um caçador de Deus. E também o são todos aqueles que têm experimentado encontros com Deus. Por que você não vem se juntar àqueles que buscam a Deus? O que queremos é somente estar com Ele.