A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SATISFAÇÃO DO EU

As ações altruístas veiculadas nas redes sociais exigem uma leitura psicanalítica dessa que é uma questão atual, pois a sociedade contemporânea, cada vez mais, observa a espetacularização das ações cotidianas

Satisfação do eu

Apontar as origens da violência não é tarefa fácil. A genética e a teoria evolucionista indicam que a agressividade é um traço característico do homem, e que a história da vida de cada indivíduo está intimamente ligada a um conjunto de sentimentos bons ou maus, originados na infância e evocados quando nos indagam sobre nossa conduta familiar.

A sociedade contemporânea se vê cada vez mais às voltas com a espetacularização das ações cotidianas. No seu clássico A Sociedade do Espetáculo (La Société du Spetacle, de 1967), o escritor Guy Debord já apontava para essa teatralização da vida (incentivada pelo espírito capitalista), alertando-nos sobre uma realidade intermediada por imagens, na qual o caráter mercantil se espraiava para todos os âmbitos da existência. O que diria então Guy Debord sobre a internet e as redes sociais?

As redes sociais fazem parte do dia a dia de uma grande parcela da população e possibilitam o “com- partilhar” de momentos vividos que consideramos especiais – ou apenas corriqueiros, banais. Se por um lado as redes sociais aproximam-nos daqueles com quem, não fossem elas, talvez não teríamos contato, por outro indicam-nos um fenômeno bastante intrigante: se aquilo que é postado é uma mensagem ao outro, enviesada pela espetacularização, o que dizer do trabalho voluntário e das ações ditas “altruístas” de forma geral, quando essas aparecem vinculadas a um perfil nas redes sociais? Para tentar esclarecer esses questionamentos, um bom caminho é a teoria psicanalítica e os conceitos com os quais ela pode nos auxiliar a pensar sobre esse tema.

As redes sociais e os aplicativos de telefones celulares (atualmente chamados de smartphones) fazem parte da vida comum atual, como dito acima, tratando-se de fenômenos com um caráter próximo ao de instituições sociais, de insistência e de relevância bastante acentuadas. As mensagens e os posts veiculados nessas redes e aplicativos podem levantar uma série de questionamentos, dentre os quais aquele que se refere ao papel exercido por tais redes no viver coletivo moderno, qual seja, o papel de formadoras de imagens pessoais. Ainda a esse respeito, cabe ressaltar o surgimento de identificações (que ali, nos meios “virtuais”, aparecem via likes e “curtidas”), bem como identificar os percalços e os embaraçamentos que as redes sociais podem produzir, revelando algo que, muitas vezes, está além daquilo que as mensagens veiculadas querem (ou quereriam) dizer.

Até que ponto esses instrumentos digitais de compartilhamento da vida localizam as ações no nível narcísico dos sujeitos, em detrimento de atos genuinamente (ou apenas) altruístas? Relembremos o mito grego de Narciso, que inspirou o pai da Psicanálise, Sigmund Freud, a elaborar sua teoria sobre o narcisismo, ou, dito de outro modo, sobre o complexo de Narciso que habita cada um de nós.

O que inspirou Freud foi o enamoramento de Narciso por si mesmo, que metaforiza um tipo especial de investi- mento do aparelho psíquico, no qual ele direciona – ainda que sem saber, como Narciso – energia (libido) em direção ao Eu, via imagem refletida no outro, imagem que parte do próprio Eu.

Em Sobre o Narcisismo: uma Introdução, Freud introduz a ideia de que a energia psíquica serve sempre a dois senhores: aos objetos externos e ao Eu. Mais tarde, em O Eu e o Isso (1923), o autor aprofunda tal questão, postulando a teoria de que a dinâmica do aparelho psíquico é enviesada por ideais, construídos socialmente e interiorizados via identificação. Assim, é possível, por exemplo, que uma criança entenda o tipo de ação que é valorizada socialmente (ideal) e aquela que não é. Dessa forma, essa criança buscará agir (ou demonstrar aos outros que age) de acordo com esse ideal, uma vez que está em jogo o amor do outro, agir como o outro espera (ideal) ou como o outro age (identificação) “garante” de alguma forma que eu seja amado ou no mínimo amável. É com base nesses elementos que Freud postula uma posição do sujeito em que esse investe a si mesmo de libido, ainda que esse “si mesmo” seja apenas uma “imagem de si”.

 VALORAÇÃO SOCIAL

Voltando ao problema inicial, isto é, o ato de postar, de publicar em redes sociais algo a respeito de uma ação altruísta. O engodo e a contradição aqui residem no fato de que, ao mesmo tempo em que tal ação deveria ser indicativa de um investimento libidinal no outro, ela alimenta, também, uma imagem de si. Assim, seria possível imaginar um altruísmo pleno, total (sem ganhos para o Eu) nos termos da Psicanálise? Podemos dizer que, a partir da formulação da “segunda tópica do aparelho psíquico” (que contém os conceitos de “Eu”, de “Isso” e de “Supereu”, bem como suas relações e desdobramentos) – na qual Freud dá lugar ao estudo do narcisismo secundário (ideal do Eu) –, torna-se praticamente improvável a existência de um altruísmo que não tenha lucros para o Eu, que não alimente o Narciso que há em nós.

Ao postar algo em uma rede social a respeito de uma ação voluntária, generosa (altruísta, de uma maneira geral), passo a alimentar também uma imagem do meu Eu nessa mensagem, que faz apelo ao estético como valoração social daquela mesma ação. Desse modo, reiteramos que, no âmbito das redes sociais, ações exclusivamente altruístas seriam muito raras, se levarmos em conta as teses psicanalíticas. Digamos, por meio de uma alegoria, que uma ação altruísta que não visasse (simultaneamente) embelezar a minha própria imagem deveria ser ao mesmo tempo uma ação “escondida”, não somente do outro, mas também de mim mesmo.

Uma ação que desconhecesse a si mesma seria, como afirma o zen-budismo (bastante estudado por Jacques Lacan), uma ação “Não-Eu”; ou, ainda, sob a mesma óptica, uma “Não-ação”. Ao postar algo compartilhado em uma rede social, ao contrário de desconhecer minha própria ação, redobro, isso sim, a atenção que nela é colocada e, dessa forma, transformo aquela ação em alguma forma de ornamento do Eu, em uma formulação da minha autoimagem duas vezes replicada: a mim e ao outro. O ideal de Eu – o narcisismo – é então alimentado.

 QUAL LIMITE?

Chega-se aqui a dois caminhos diversos: o da ação altruísta que culmina em alimento do Eu pelo reconhecimento público, via rede social; e o da ação altruísta que desconhece a si mesma e que não se duplica em favor de minha autoimagem. Diante das armadilhas do amor narcísico, suspendemos a resposta de nossa questão inicial e a elevamos à qualidade de um novo questionamento: qual seria o limite entre, por um lado, me despojar do Narciso que há em mim, em direção ao outro, e (contraditória e simultaneamente), por outro lado, alimentar meu Eu com uma satisfação que pode ser mensurada por likes e por compartilhamentos?

Sem querer tachar o compartilhamento de postagens como algo que contenha em si a essência da ação narcísica, é importante apontar para as possíveis armadilhas que o Eu prepara para ele mesmo quando, por vezes, ao se direcionar a um objeto externo não percebe ser esse objeto uma duplicação de si mesmo (do Eu), que é por si só investido de energia psíquica. Essa é a principal dificuldade que se apresenta quando se tenta pensar o altruísmo psicanaliticamente, porém sem levar em conta o narcisismo. Isso porque, como vimos, de acordo com a Psicanálise, mesmo uma ação aparentemente altruísta traz ganhos psíquicos para quem a pratica (tais como o reconhecimento social, e a valoração que o outro dá à minha ação).

 O OUTRO

Psicanálise convida a uma visita ao Narciso que há em cada um para, quem sabe, poder compreender as dimensões das ações, de tal modo que elas não sejam mais apenas baseadas em imagens, mas que possam, de fato, incluir o outro nessa trama de amor de Eu para Eu. Com isso, é possível e provável que a ação ou a mensagem não se inicie e se encerre em mim, ou no Outro, mas que, em vez disso, ela possa chegar ao outro, ou seja, a outro semelhante.

Segundo Lacan, há uma diferença entre o “dito” (que se refere ao campo dos saberes enquanto enunciados – em nosso caso postados, ou seja, conscientes) e o “dizer” (que é da ordem do inconsciente e da outra cena que esse dizer implica). O dizer é pensar a ação enquanto sendo feita, e não como estando pronta, finalizada; é questionar os desdobramentos dessa ação. Mais do que encerrar (como fazem o dito, o feito, a imagem, o post), o dizer nos impele a questionar aquele a quem se diz, procurando também pelo motor daquilo que se diz, aqui no caso do que se posta.

Pois, como afirma Lacan, “um discurso que não se articula por dizer alguma coisa é um discurso de vaidade”.

Satisfação do eu. 2

A REPRESENTAÇÃO DE SI MESMO

Segundo a mitologia grega, Narciso era filho do deus Cefiso e da ninfa Liríope, e, apesar de ser muito belo e atraente, preferia viver sozinho. Ao ser alvo de mais um dos muitos amores por ele não correspondidos, Narciso acaba sendo amaldiçoado com a seguinte sina: dali em diante, o seu amor (aquele por quem ele se apaixonasse) seria tão intenso quanto impossível de se concretizar. Certo dia, ao se inclinar para beber das águas cristalinas e límpidas do lago de Eco (uma ninfa das montanhas que, anteriormente, também se apaixonara pelo belíssimo protagonista do mito), Narciso se encanta ao ver a sua imagem ali refletida – sem saber ser ela uma simples representação de si mesmo, espelhada na água – e por ela se apaixona, tentando inutilmente alcançar o próprio reflexo. O desfecho da história mostra que Narciso foi tragado pelo rio, nascendo uma flor solitária no local de sua morte, o “narciso”.

Satisfação do eu. 3

CAMPO DA VERDADE

Lacan chama o Outro de “campo da verdade”, isto é, um “lugar em que o discurso do sujeito ganha consistência, e onde ele se coloca para se oferecer e ser ou não refutado”. O conceito de “campo da verdade” não contém necessariamente em si algum efeito de verdade; ele apenas se apresenta como verdade, sem, porém, apontar para a verdade do sujeito, que é inconsciente. Assim, Lacan define o Outro como esse campo que se propõe o campo dos saberes e das verdades, enquanto que o outro (com inicial minúscula) permanece sendo o outro semelhante, a outra pessoa.

 

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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