A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESVENDANDO MITOS SOBRE DISLEXIA

Existem muitos equívocos a respeito desse distúrbio, mas os mais comuns são questões relacionadas à hereditariedade, à troca de letras e à possível maior incidência em meninos, em função do excesso de testosterona da mãe

Desvendando mitos sobre dislexia

Há anos tem sido divulgada uma série de equívocos sobre dislexia e isso torna não só o entendimento falho como confunde os leigos e até os profissionais que tratam o distúrbio. São três os principais mitos, que precisam ser explicados a respeito do transtorno: hereditariedade, troca de letras e a questão da testosterona. Há alguns meses um programa de TV entrevistou supostos especialistas abordando dislexia. Na sequência, muitos outros veículos de comunicação passaram a abordar o tema e os vídeos na internet viralizaram. Isso continua repercutindo de forma negativa pelos diversos erros que foram veiculados. Daí a necessidade de esclarecimento.

A questão da hereditariedade/genética tem sido amplamente difundida. Não se pode negar que exista um tipo de dislexia possivelmente hereditária/genética, que faz com que algumas famílias sejam propensas ao distúrbio, ou seja, se o pai ou a mãe tem dislexia, os filhos têm mais probabilidade de apresentarem o problema. Mas é preciso frisar que este é apenas um dos tipos de dislexia. Há outras classificações que dependem, inclusive, da linha de pesquisa adotada pela Neuropsicologia, pela psicopedagogia, pela multiterapia e outras linhas de pesquisa que classificam os diversos tipos de dislexia.

De todos os tipos, o que gera mais confusão tem sido o causado por trauma, ou seja, a dislexia adquirida. Essa dislexia quase sempre é renegada e, quando citada, geralmente é de forma equivocada. Em certo debate televisivo, um médico citou fatores que podem causar dislexia adquirida, mas omitiu o principal que é anoxia perinatal/hipoxia neonatal. Em 1998, diversos sites de Saúde e/ou Educação e também meu portal publicaram essa pesquisa na íntegra, tanto no Brasil quanto na Europa, onde se comprova a aquisição de distúrbios, especificamente dislexia e disgrafia, por anoxia. Inúmeras pesquisas fizeram com que a dislexia adquirida fosse oficialmente reconhecida pela Ciência da Saúde, a partir de 2011/2012. Lamentável que esse tipo de desconhecimento ou omissão ainda exista.

Já em relação à troca de letras, trata-se de outro equívoco que tem sido amplamente difundido, classificando o problema como sendo supostamente característica da dislexia. Baseado em pesquisas, posso afirmar que o distúrbio não provoca troca de letras. O que ocorre com o cérebro do disléxico é uma dificuldade de entender os sinais das letras, ele não identifica o que é letra, ele apenas não distingue uma letra de outra e acaba não conseguindo ser alfabetizado ou perdendo a capacidade de leitura, no caso da dislexia adquirida.

Isso é muito diferente de trocar “p” por “b” ou “d” por “q”, ou seja lá qual for a troca. Quando uma criança faz essas trocas de letras, o mais provável é que tenha uma dificuldade auditiva e, ao passar por ditado, escute errado e, na sequência, escreva errado. Pode também ser uma dificuldade visual, que a faz inverter letras ou enxergá-las de forma espelhada. Nessa forma de escrita espelhada, deve-se citar também que é comum a quase todas as crianças em fase de alfabetização inverterem letras e, com a continuidade dos estudos, passarem a escrever de forma normal. Portanto, trocar letras não pode ser classificado como “dislexia”.

MAIS POLÊMICA

Outro ponto polêmico é no que se refere à possível maior incidência em meninos, em função do excesso de testosterona da mãe durante a gestação, o que já há tempos se descartou. Essa linha de raciocínio iniciou-se em 1982, com a publicação de The Testosterone Hypothesis: Assessment since Geschwind and Behan, de Albert M. Galaburda. O resumo dessa publicação é o seguinte: “A hipótese de Geschwind propõe uma interação causal entre imparcialidade não direita, doenças imunológicas e deficiência, inclusive dislexia, através da ação intrauterina do hormônio masculino (testosterona). Alguns estudos epidemiológicos têm apoiado, pelo menos, uma associação estatística entre os três traços; outros não têm. As associações entre distúrbios de aprendizagem e doença imune e entre os transtornos de aprendizagem e lateralidade direita não parecem ser mais bem apoiadas do que entre doenças imunológicas e imparcialidade não direita. No entanto, nenhum dos dados acumulados até o momento é conclusivo, porque não é claro que as amostras estudadas foram verdadeiramente representativas. A evidência neuropatológica, tanto em estudos de autópsia em disléxicos humanos e em modelos animais de anormalidades corticais de desenvolvimento, é coerente, mas não um diagnóstico de patologia imunológica. Mecanismos são discutidos porque um sistema imunitário anormal poderia, assim, ferir o cérebro em desenvolvimento, com ênfase nas interações materno-fetais anormais, incluindo doença autoimune materno e incompatibilidade materno-fetal. Uma origem genética também possível em que o papel materno é menos significativo”.

O que precisa ser frisado e entendido é que, além do próprio autor citar que não havia nenhum dado conclusivo e considerar o fator genético isentando as características da mãe, esses estudos americanos foram feitos em autópsias de humanos disléxicos e em animais e, além da crueldade a que se expunham animais que sequer têm o mesmo organismo e reações humanas, as pesquisas “mais avançadas” nessa época (1982) eram feitas em cérebros de disléxicos mortos. Enquanto isso, países como a Alemanha já estudavam casos de pacientes.

A teoria do excesso de testosterona seguiu até que, em 2007, outro estudo – “No relation between 2D : 4D fetal testosterone marker and dyslexia – Boets, Barta b”, de Smedt, Berta; Wouters, Janb; Lemay, Katriena; Ghesquière, Pola (Neuroreport, v. 18, n. 14, p. 1487-1491, 17 September, 2007) – publicou o seguinte: “Tem sido sugerido que os níveis elevados de exposição pré-natal à testosterona estão implicados na etiologia da dislexia e seus frequentes problemas sensoriais. Este estudo examinou 2D: 4D relação dígitos (um marcador de exposição à testosterona fetal) em crianças disléxicas e normais de leitura. Foram observadas 4D: há diferenças entre os grupos em 2D. Mas não mostraram a relação postulada com leitura, escrita, habilidade fonológica, a percepção da fala, processamento auditivo e processamento visual. Esses resultados desafiam a validade das teorias que atribuem um papel proeminente à exposição à testosterona fetal na etiologia da dislexia e suas deficiências sensoriais.

 ORIGEM

A identificação da dislexia ocorreu pela primeira vez em 1881, pelo médico alemão Oswald Berkhn. O termo dislexia foi oficialmente utilizado por um oftalmologista, também alemão, Rudolf Berlin, em 1887. Apesar da descoberta e do termo ser citado na Alemanha desde 1881, demorou a ser usado em outros países, especialmente no Brasil, onde, até algumas décadas atrás, ainda se intitulava “cegueira verbal” e até hoje há quem defenda apenas a causa hereditária/genética, negando-se a aceitar a evolução das pesquisas de diversos profissionais e pesquisadores de dislexias no mundo todo.

O termo “cegueira verbal” surgiu em 1896, com W. Pringle Morgan, que descreveu a “cegueira de palavra congenital”, publicado em British Medical Journal. De 1890 a 1900, James Hinshelwood publicou vários artigos sobre dislexia e sugeriu que o maior problema no distúrbio era a deficiência na memória visual de palavras e letras. Lesão cerebral era outra causa muito estudada, mas, em 1925, Samuel T. Orton escreveu que a dislexia não dependia de lesão ou dano cerebral. Orton, em parceria com a psicóloga Anna Gillingham, desenvolveu as intervenções educacionais que formaram a base do ensino multissensorial, que, até hoje, são usadas para ensinar crianças disléxicas.

Já em 1951, G. Mahec fez experimentos em que percebeu que crianças sem dislexia leram da esquerda para a direita mais facilmente e crianças disléxicas leram na mesma velocidade, independentemente do sentido, e 10% dos disléxicos leram melhor da direita para a esquerda. Isso deu início à ideia do hemisfério direito ser maior nos portadores de dislexia. Essa ideia seguiria por muitos anos, mas, na verdade, após muitos anos de pesquisas teóricas e práticas, consegui comprovar que o que ocorria com o cérebro dos disléxicos (assim como de outros distúrbios) era uma maior excitação no hemisfério direito e maior inibição no hemisfério esquerdo. E isso nada tinha a ver com o tamanho dos hemisférios.

Nos anos 70, enfim, entendeu-se a importância da consciência fonológica na dislexia. Como portadora de dislexia adquirida, a partir de um afogamento, eu mesma defendia a tese do surgimento do distúrbio por meio de um acidente em que ocorra diminuição ou ausência de oxigênio no cérebro, o que inclui AVC, anoxia por afogamento, por enforcamento, entre outros.

 PARECE, MAS NÃO É

São diversos os distúrbios que se assemelham, mas não são dislexia. Os mais confundidos são: disgrafia – desordem de integração visual-motora. De origem grega, dys = dificuldade; difícil, e graphos = grafia, entende-se que é a dificuldade ou ausência na aquisição da escrita. Geralmente, o portador de disgrafia é desatento, pode tornar-se hiperativo e o principal é que a dificuldade se estende a todas as formas de escrita (letras, sinais e até desenhos). Por essas características, é comum diagnosticar crianças como disléxicas, sendo que seu distúrbio é, na verdade, disgrafia.

As crianças que reproduzem letras, sinais e desenhos, mas não reconhecem ou conseguem ler o que escreveram, podem ser consideradas disléxicas. Já as que não conseguem nem ler nem escrever devem ser consideradas disléxicas e disgráficas.

Outro caso passível de confusão é a disortografia – dificuldade na expressão da linguagem escrita. A ortografia é a parte da gramática que ensina a escrever palavras corretamente, portanto a disortografia é o escrever incorretamente. Esse é um distúrbio específico na aquisição e reprodução de letras (escrita de um idioma) e diferencia-se da disgrafia, que é generalizada.

 LUZ PREJUDICIAL

A síndrome de Irlen (S.I.), por sua vez, é uma alteração visuoperceptual, causada por um desequilíbrio da capacidade de adaptação à luz, que produz alterações no córtex visual e déficits na leitura. A síndrome tem caráter hereditário e se manifesta sob maior demanda de atenção visual.

Descrita em 1983 pela psicóloga Helen Irlen, a síndrome tem como manifestações, além da fotofobia, problemas na resolução visiospacial, dificuldades na manutenção do foco, estresse visual, alteração na percepção de profundidade e cefaleias.

Durante a leitura, segundo pacientes, o brilho ou reflexo do papel branco contra o texto causam irritabilidade, assim como a luz natural ou fluorescente. Eles possuem ainda sensação de movimentação das letras que “pulsam, tremem, vibram, confluem ou desaparecem”, e a leitura passa a ser fragmentada. Além disso, queixam de insegurança ao dirigir, estacionar, com esportes com bola ou em outros movimentos, como descer e subir escadas rolantes.

A questão da dislexia necessita urgentemente de uma nova abordagem. Os profissionais tanto pesquisadores quanto clínicos devem ter mais atenção ao que se publica. Em especial, os pesquisadores devem perceber a importância da informação minuciosamente verificada, devem entender que, de suas publicações, surgem republicações, fundamento de teses, dissertações, TCCs e tudo isso pode perpetuar um equívoco, como tem sido por tantos anos a troca de letras e outros nessa linha. Cabe também aos profissionais clínicos buscarem boas informações, livros e palestras de qualidade, sempre questionando as informações que chegam, de forma a entender em profundidade os distúrbios e suas características. Aos pais e professores cabe a responsabilidade de conversar com seus filhos/alunos, percebendo alterações no comportamento e/ou na aprendizagem, reconhecendo o momento de encaminhar o indivíduo a um tratamento adequado às suas necessidades.

Desvendando mitos sobre dislexia. 2

CONCEITO

Como o termo já diz, dislexia: dificuldade ou ausência da aquisição do conjunto de palavras de um determinado idioma. De forma simplista pode-se dizer que seja dificuldade na aquisição da leitura. Ou a perda da capacidade de leitura, em casos de acidentes que causem dislexia adquirida. Entre tantos dicionários e livros que pretendem definir a dislexia, a definição mais precisa e simples é a de Gutenberg: “dificuldade de ler e compreender a escrita”.

Desvendando mitos sobre dislexia. 3

COMORBIDADES

Quando dois ou mais distúrbios se manifestam no mesmo indivíduo chama-se de comorbidade. Geralmente, há um distúrbio principal e outro(s) que se desenvolve(m) em paralelo. É preciso prestar atenção, pois muitas das comorbidades acabam se manifestando após algum tempo de trata- mento, o que pode representar um procedimento errado ou ineficaz.

Desvendando mitos sobre dislexia. 4

 

 

 

 

COMO AGIR

Existem algumas indicações de como se deve agir em relação às pessoas disléxicas: não  forçar a alfabetização; encaminhar a pessoa ao psicopedagogo; incentivar sua criatividade; o acompanhamento neurológico também é fundamental; e havendo comorbidades, outros profissionais devem fazer parte da equipe de atendimento, como psiquiatra, psicólogo, fonoaudiólogo etc.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.