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SOBRE O SEXO

Uma análise do encontro sexual fracassado que reavivou a discussão sobre consentimento na era das redes sociais

Sobre o sexo

Em 1991, o ex-campeão mundial dos pesos­ pesados Mike Tyson foi preso sob a acusação de estupro de uma menina de 18 anos, em um quarto de hotel em Indianápolis, no estado de Indiana, Estados Unidos. A defesa tentou desqualificar a acusação da jovem Desiree Washington, alegando que a relação sexual teria sido consensual e que a moça teria se juntado a Tyson voluntariamente em sua limusine e depois seguido ao quarto dele, de madrugada. “Para ver televisão?”, ironizou o advogado. No julgamento, que só ocorreria no ano seguinte, Tyson, então com 25 anos, foi condenado a seis anos de prisão. O resultado se deu sob protesto dos fãs, da bancada religiosa negra e de Donald Trump – que apareceu em entrevista à TV dizendo que o amigo pugilista fora injustiçado.

Meses antes, naquele mesmo ano, William Kennedy Smith, então estudante de medicina, estava num bar em Palm Beach, no estado da Flórida, na companhia de seu tio, o senador Ted Kennedy, e de seu primo Patrick, quando conheceu a jovem Patrícia Bowman, que estava acompanhada de uma amiga. Depois de alguns drinques, os cinco seguiram para uma casa de praia nas redondezas, de propriedade dos Kennedys. William e Bowman caminharam pela orla. Naquela noite, ela alegou ter sido estuprada por William, que se defendeu dizendo que o sexo fora consensual. Ao final do processo, ele foi inocentado de todas as acusações.

Ambos são casos clássicos de acusação de date rape, o estupro que se origina a partir de um encontro social ou amoroso. É de date rape também a acusação feita contra Neymar pela modelo Najila Trindade na semana passada – o episódio de repercussão planetária gerou milhões de comentários apressados e irrefletidos, mas também reacendeu a necessária discussão em torno de sexo, consentimento e feminismo.

Se nunca houve espaço para dúvida nos casos de estupro perpetrado por um desconhecido, não se pode dizer o mesmo dos casos em que o agressor e um pessoa próxima ou está no contexto de um encontro. É possível que o veredito de Tyson tenha ajudado a consolidar o entendimento de que, mesmo em um encontro amoroso, independentemente das circunstâncias, não deve haver presunção de consentimento sexual. Nas palavras do promotor do caso: “O crime de estupro no contexto de um encontro social ou amoroso não é meio crime. É um crime violento contra a mulher que todo homem deve reconhecer”.

O tema date rape já vinha sendo amplamente discutido nos Estados Unidos antes da eclosão desses dois estrepitosos affaires. Havia um ambiente de intenso debate sobre estupro e consentimento, originado na universidade e depois levado a todas as esferas de discussão pública pelas intelectuais feministas. Ficou famosa a “lista do estupro”, em que alunas da Universidade Brown escreviam nomes de colegas, supostos agressores sexuais, nas paredes dos banheiros femininos. A lista original dizia: “Cuidado com, ele não aceita NÃO como resposta”. O desdobramento desse episódio fez com que as universidades abrissem fóruns de discussão, revisassem suas políticas e normas de conduta e passassem a legislar sobre o tema.

Legislar sobre o tema significava estabelecer regras sobre o que podia e o que não podia durante um encontro. Significava predeterminar padrões e predefinir o espaço das peças pretas e brancas na arena do sexo. Logo, em muitas faculdades, os códigos estabeleceram que uma relação sexual, dentro ou fora do campus, só seria legítima se houvesse consentimento verbal expresso. Mediar e disciplinar todas as relações pelo discurso, esse era o espírito.

“Estupro não, não exatamente, mas indesejado mesmo assim, profundamente indesejado. Como se ela tivesse resolvido ficar mole, morrendo por dentro enquanto aquilo durava, como um coelho quando a boca da raposa se fecha em seu pescoço.” Esta é uma passagem de Desonra – o monumental romance em que o autor sul-africano J. M. Coetzee captura o espírito da década de 90 – , uma história em que o protagonista, um professor de literatura, inicia um caso com uma aluna e cai em desgraça depois que ela o denuncia por estupro na universidade.

Havia a incômoda ideia de que o território do sexo era menos um tabuleiro de xadrez e mais um campo movediço com diversas gradações de cinza. “Estupro é um ultraje que não pode ser tolerado em uma sociedade civilizada”, escreveu Camille Paglia em um de seus mais polêmicos artigos sobre o tema. “Mas o feminismo, que tem travado uma cruzada para fazer com que o problema seja levado mais a sério, põe as jovens em perigo ao ocultar-lhes a verdade sobre o sexo.”

Paglia destoava estridentemente do coro das feministas nos Estados Unidos. Era então a mais incensada das intelectuais, estava no auge, onipresente na grande mídia, tinha acabado de lançar sua ambiciosa obra Personas sexuais, sucesso de público e crítica. Em pouco tempo, construiu a reputação de polemista demolidora. “A garota no caso do estupro de Kennedy é uma idiota. Você vai à propriedade dos Kennedys tarde da noite e fica surpresa com o que acontece? Ela é que deveria ser acusada – de ignorância. Todo mundo sabe que Kennedy se soletra S-E-X-0. Isso não é estupro de fato”, disse em entrevista a David Talbot, do San Francisco Examiner.

“Os homens na universidade estão no pique hormonal. Acabaram de deixar as mães e estão em busca de sua identidade de macho. Em grupos, são perigosos. A mulher que vai a uma festa numa fraternidade estudantil está indo à Baixada da Testosterona, cheia de cactos espinhosos e armas fumegantes. Se vai, deve ir armada de decidida prontidão. Deve chegar com amigas e sair com elas. A garota que se deixa embebedar numa festa de rapazes é uma tola. As feministas chamam isso de ‘culpar a vítima’. Eu chamo isso de senso prático.”

A passagem acima, contida em um de seus artigos, resume a visão que a mais influente feminista americana dos anos 90 tinha sobre date rape. Lida nos dias de hoje, fora de contexto, num país em que são registrados números alarmantes de casos de violência contra a mulher, a provocação de Paglia soa anacrônica e completamente desconectada da realidade. Será mesmo? Por razões e com finalidades distintas, em diferentes níveis de elaboração, o cerne do argumento parece ter sido usado por muitas das pessoas que, na semana passada, reagiram nas redes à divulgação da acusação de estupro feita ao jogador brasileiro.

É na década de 90 que surge a internet comercial, o começo de uma revolução que logo reformataria a lógica de produção e difusão de informação e inaugurar ia a era da sociedade organizada em redes. A tecnologia também mudou a dinâmica dos relacionamentos em família, no trabalho e na vida afetiva. O feminismo foi dramaticamente impactado pelo avanço do digital e pela democratização dos meios.

Desde 2008 renasce o feminismo militante que guarda semelhanças com aquele dos anos 60, responsável, em grande parte, pelas mais importantes conquistas de liberdades individuais da mulher. Já havia sinais de que algo novo surgia nos protestos estudantis dos EUA e do Reino Unido em 2010.. Em 2011 surge a Marcha das Vadias, protesto internacional contra a crença de que as mulheres que são vítimas de estupro provocam a violência por causa de seu comportamento ou modo de vestir. Na Índia, manifestações em massa condenaram o estupro coletivo de Jyoti Pandey, em 2012, e flashmobs feministas interromperam as operações da polícia fundamentalista No Brasil, 30 mil mulheres invadiram Brasília em 2015 para protestar contra a violência sexual e o racismo. No início daquele ano, a Marcha das Margaridas trouxe mais de 50 mil mulheres da zona rural à capital brasileira. Na Argentina, ativistas feministas contra a violência doméstica organizaram protestos em Buenos Aires. Na Polônia, protestos das mulheres forçaram o governo a rever a lei do aborto. A Itália, a Espanha e Portugal fizeram marchas contra a violência doméstica e a precariedade econômica.

A erupção do #MeToo, em outubro de 2017, e os desdobramentos que se seguiram são apenas os mais recentes de uma série de eventos de massa em todo o mundo. Na era das redes sociais, o feminismo deixa o gabinete e ganha as ruas. As palavras de ordem são hashtags: #MeuCorpoMinhasRegras #NaoENao #NiUnaAMenos #MexeuComUma­MexeuComTodas  #NaoMerecoSerEstuprada#PrimeiroAssedio #EleNão.

Um dos contos mais lidos nos Estados Unidos nos últimos dois anos foi “Cat Person”, da escritora americana Kristen Roupenian, que viralizou depois de ser publicado no site da revista The New Yorker. A história é uma narrativa em terceira pessoa sobre o breve relacionamento entre Margot e Robert, narrado do ponto de vista dela, uma estudante universitária de 20 anos que trabalha em um cinema independente. Robert é um homem de 30 e poucos. O namoro começa por mensagens de texto e o desenrolar da trama mostra como as mensagens de texto permitem fazer projeções imaginárias da outra pessoa, que se desintegram quando ambos se encontram pessoalmente. Na prática, o conto é sobre um encontro sexual ruim, de duas pessoas que não se conhecem nem se gostam, mas acabam na cama – naquele instante Margot conjectura se teria ido longe demais ou se seria razoável desistir na hora H.

Neste exato momento, se você digitar a palavra estupro no Google, as primeiras ocorrências serão todas relacionadas não a Margot e Robert, mas a Neymar e à modelo Najila Trindade, que alega ter sido sexualmente agredida pelo jogador num quarto de hotel em Paris. O que se sabe é que se conheceram no Instagram. Ela era um dos 120 milhões de seguidores que ele tem atrelados a seu perfil na rede. Depois de trocarem mensagens românticas, ele enviou as passagens e o voucher do hotel para que ela voasse de São Paulo e o encontrasse em Paris. Há farta documentação digital do que ocorreu antes, durante e depois, em textos, fotos e vídeos.

A brutal exposição do caso deflagrou nas tribunas sociais duas correntes de opinião nitidamente distintas. De um lado, a ala conservadora – majoritária, que torce o nariz para os movimentos igualitários e a defesa das minorias – desqualificou a acusação de estupro e criticou a postura da modelo. Do outro lado, a ala progressista identificou machismo na atitude do jogador em divulgar o conteúdo íntimo e acolheu a moça como vítima. O que também se sabe é que o encontro romântico de Najila e Neymar fracassou miseravelmente. As versões da história, expostas ao escrutínio público, de lado a lado, revelam diferentes expectativas, motivações e visões de mundo. Antes de qualquer conclusão precipitada, o caso deveria ser tomado pelo que ele traz de mais didático: sexo, desde tempos imemoriais, contém muitos matizes de sensações, imprecisões e desentendimentos – e consentimento é algo que é comunicado e entendido nessa torrente de acontecimentos.

Sobre o sexo. 2

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.