A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTÍMULO À PERSEVERANÇA

O aprendizado envolve a repetição por um período de tempo e fazer isso nos games leva o cérebro a criar novas conexões nervosas ligadas à atividade cerebral

Estímulo à perseverança

Jogos de videogame são feitos de desafios. O sucesso é medido quase que totalmente pela destreza do jogador, sobretudo a coordenação.

Se alguém acredita que jogar videogame é uma atividade passiva, pode ser que desconheça ou subestime o poder ativo do cérebro necessário para integrar todas as ações e configurar a vitória do jogador sobre os desafios criados pelo designer do game. Acredite, jogar videogames é a nova academia para nossos cérebros.

A Neurociência tem se posicionando como o principal advogado de defesa dos games. Pesquisas recentes mostram um efeito positivo dos jogos sobre as funções cognitivas. Essa influência tem sido relacionada a mudanças de massa cinzenta dos jogadores, especialmente no córtex pré-frontal. Em estudo publicado na revista Plos One, 152 adolescentes foram   submetidos à ressonância magnética enquanto jogavam videogame. O experimento estimou a espessura cortical e relacionou com o tempo (horas) de jogatina dos participantes por semana. Os cientistas observaram uma correlação positiva entre a espessura cortical e o tempo em contato com os jogos no córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo (DLPFC, sigla em inglês para dorsolateral pré-frontal córtex) e o campo visual do lobo frontal esquerdo (FEF, sigla em inglês para left frontal eye lelds). Nenhuma região mostrou perda da espessura cortical em associação com o uso dos jogos.

O DLPFC é uma das áreas do córtex pré-frontal mais recentes do cérebro primata, que sofre mudanças estruturais e funcionais por um longo período – até o início da vida adulta. Relaciona-se às funções executivas, como a memória de trabalho, flexibilidade cognitiva, o planejamento, a inibição comportamental e o raciocínio abstrato. Estudos anteriores mostraram que essa área desempenha um papel importante na forma como processamos decisões complexas, tais como aquelas que envolvem opções que incluem a realização de objetivos de curto prazo com implicações a longo prazo. O FEF é responsável pela elaboração de julgamentos sobre como lidar com os estímulos externos. Também é importante na tomada de decisão, uma vez que permite ao cérebro atentar ao tipo de reação mais adequada frente a um estímulo específico.

Juntos, DLPFC e FEF são cruciais no sistema de tomada de decisão executivo do nosso cérebro. Maior espessura nessas áreas do cérebro (em outras palavras, mais conexões entre as células cerebrais) indica maior capacidade de lidar com diversas variáveis e as implicações dessas de forma imediata e a longo prazo. Resultados de estudos como esse podem representar a base biológica e os efeitos da sociedade gamer sobre nossos cérebros. É como se estivéssemos descobrindo uma nova academia e encarando o cérebro como um novo músculo que precisa ser exercitado e desafiado. Assim sendo, se hoje o personal trainer é o profissional mais adequado para elaborar exercícios para o corpo, pode ser que no futuro o designer de games seja o profissional mais adequado para elaborar exercícios para nossos cérebros. As escolas devem ser as próximas instituições a absorverem esse novo perfil profissional capaz de criar um ambiente de aprendizagem mais eficaz e divertido.

Porém, segundo um artigo publicado na revista Neurology Now, o contato excessivo com jogos causa mudanças no comportamento dos adolescentes.

Essa modificação se deve ao excesso de produção de dopamina pelo cérebro, neurotransmissor relacionado à dependência em jogos, inclusive os eletrônicos. A estrutura de recompensa dos games é similar ao de máquinas de um cassino. O jogador insiste em bater um recorde, a solucionar um quebra-cabeça, matar um inimigo, coletar um item raro, conquistar mais territórios, passar aquela fase difícil. A vitória e a conquista fazem o cérebro produzir dopamina enquanto joga. A produção de dopamina aumenta quando o jogador vê a possibilidade de conquistar um desafio maior ainda. Não é à toa que o level design dos jogos segue uma lógica universal: aumento gradativo da dificuldade. Nosso cérebro adora ser desafiado e a resposta neuroquímica será mais efetiva quando as tarefas tendem a se tornar mais difíceis com a progressão do jogo. Como o cérebro gosta de dopamina, não é difícil compreender a preferência das pessoas pelos bons games que exigem mais do jogador paulatinamente.

O córtex pré-frontal é um dos principais alvo da dopamina. No entanto, em excesso, pode desativá-lo. Como essa região é ligada à tomada de decisões, julgamentos e autocontrole, o aumento de dopamina no pré-frontal faz com que os jogadores percam a noção de tempo, de- dicando-se horas a fio ao game e deixando de lado outras tarefas. Ainda, como essa região do cérebro completa sua formação apenas quando a pessoa tem entre 25 e 30 anos, esse tipo de problema é ainda mais preocupante nos jovens.

Mesmo diante desse desafio, não é a melhor estratégia proibir os jovens de jogar videogames. Isso porque eles também trazem benefícios. Jogos são uma ótima ferramenta de aprendizado e de estímulo à perseverança.

OUTROS OLHARES

SOBRE O SEXO

Uma análise do encontro sexual fracassado que reavivou a discussão sobre consentimento na era das redes sociais

Sobre o sexo

Em 1991, o ex-campeão mundial dos pesos­ pesados Mike Tyson foi preso sob a acusação de estupro de uma menina de 18 anos, em um quarto de hotel em Indianápolis, no estado de Indiana, Estados Unidos. A defesa tentou desqualificar a acusação da jovem Desiree Washington, alegando que a relação sexual teria sido consensual e que a moça teria se juntado a Tyson voluntariamente em sua limusine e depois seguido ao quarto dele, de madrugada. “Para ver televisão?”, ironizou o advogado. No julgamento, que só ocorreria no ano seguinte, Tyson, então com 25 anos, foi condenado a seis anos de prisão. O resultado se deu sob protesto dos fãs, da bancada religiosa negra e de Donald Trump – que apareceu em entrevista à TV dizendo que o amigo pugilista fora injustiçado.

Meses antes, naquele mesmo ano, William Kennedy Smith, então estudante de medicina, estava num bar em Palm Beach, no estado da Flórida, na companhia de seu tio, o senador Ted Kennedy, e de seu primo Patrick, quando conheceu a jovem Patrícia Bowman, que estava acompanhada de uma amiga. Depois de alguns drinques, os cinco seguiram para uma casa de praia nas redondezas, de propriedade dos Kennedys. William e Bowman caminharam pela orla. Naquela noite, ela alegou ter sido estuprada por William, que se defendeu dizendo que o sexo fora consensual. Ao final do processo, ele foi inocentado de todas as acusações.

Ambos são casos clássicos de acusação de date rape, o estupro que se origina a partir de um encontro social ou amoroso. É de date rape também a acusação feita contra Neymar pela modelo Najila Trindade na semana passada – o episódio de repercussão planetária gerou milhões de comentários apressados e irrefletidos, mas também reacendeu a necessária discussão em torno de sexo, consentimento e feminismo.

Se nunca houve espaço para dúvida nos casos de estupro perpetrado por um desconhecido, não se pode dizer o mesmo dos casos em que o agressor e um pessoa próxima ou está no contexto de um encontro. É possível que o veredito de Tyson tenha ajudado a consolidar o entendimento de que, mesmo em um encontro amoroso, independentemente das circunstâncias, não deve haver presunção de consentimento sexual. Nas palavras do promotor do caso: “O crime de estupro no contexto de um encontro social ou amoroso não é meio crime. É um crime violento contra a mulher que todo homem deve reconhecer”.

O tema date rape já vinha sendo amplamente discutido nos Estados Unidos antes da eclosão desses dois estrepitosos affaires. Havia um ambiente de intenso debate sobre estupro e consentimento, originado na universidade e depois levado a todas as esferas de discussão pública pelas intelectuais feministas. Ficou famosa a “lista do estupro”, em que alunas da Universidade Brown escreviam nomes de colegas, supostos agressores sexuais, nas paredes dos banheiros femininos. A lista original dizia: “Cuidado com, ele não aceita NÃO como resposta”. O desdobramento desse episódio fez com que as universidades abrissem fóruns de discussão, revisassem suas políticas e normas de conduta e passassem a legislar sobre o tema.

Legislar sobre o tema significava estabelecer regras sobre o que podia e o que não podia durante um encontro. Significava predeterminar padrões e predefinir o espaço das peças pretas e brancas na arena do sexo. Logo, em muitas faculdades, os códigos estabeleceram que uma relação sexual, dentro ou fora do campus, só seria legítima se houvesse consentimento verbal expresso. Mediar e disciplinar todas as relações pelo discurso, esse era o espírito.

“Estupro não, não exatamente, mas indesejado mesmo assim, profundamente indesejado. Como se ela tivesse resolvido ficar mole, morrendo por dentro enquanto aquilo durava, como um coelho quando a boca da raposa se fecha em seu pescoço.” Esta é uma passagem de Desonra – o monumental romance em que o autor sul-africano J. M. Coetzee captura o espírito da década de 90 – , uma história em que o protagonista, um professor de literatura, inicia um caso com uma aluna e cai em desgraça depois que ela o denuncia por estupro na universidade.

Havia a incômoda ideia de que o território do sexo era menos um tabuleiro de xadrez e mais um campo movediço com diversas gradações de cinza. “Estupro é um ultraje que não pode ser tolerado em uma sociedade civilizada”, escreveu Camille Paglia em um de seus mais polêmicos artigos sobre o tema. “Mas o feminismo, que tem travado uma cruzada para fazer com que o problema seja levado mais a sério, põe as jovens em perigo ao ocultar-lhes a verdade sobre o sexo.”

Paglia destoava estridentemente do coro das feministas nos Estados Unidos. Era então a mais incensada das intelectuais, estava no auge, onipresente na grande mídia, tinha acabado de lançar sua ambiciosa obra Personas sexuais, sucesso de público e crítica. Em pouco tempo, construiu a reputação de polemista demolidora. “A garota no caso do estupro de Kennedy é uma idiota. Você vai à propriedade dos Kennedys tarde da noite e fica surpresa com o que acontece? Ela é que deveria ser acusada – de ignorância. Todo mundo sabe que Kennedy se soletra S-E-X-0. Isso não é estupro de fato”, disse em entrevista a David Talbot, do San Francisco Examiner.

“Os homens na universidade estão no pique hormonal. Acabaram de deixar as mães e estão em busca de sua identidade de macho. Em grupos, são perigosos. A mulher que vai a uma festa numa fraternidade estudantil está indo à Baixada da Testosterona, cheia de cactos espinhosos e armas fumegantes. Se vai, deve ir armada de decidida prontidão. Deve chegar com amigas e sair com elas. A garota que se deixa embebedar numa festa de rapazes é uma tola. As feministas chamam isso de ‘culpar a vítima’. Eu chamo isso de senso prático.”

A passagem acima, contida em um de seus artigos, resume a visão que a mais influente feminista americana dos anos 90 tinha sobre date rape. Lida nos dias de hoje, fora de contexto, num país em que são registrados números alarmantes de casos de violência contra a mulher, a provocação de Paglia soa anacrônica e completamente desconectada da realidade. Será mesmo? Por razões e com finalidades distintas, em diferentes níveis de elaboração, o cerne do argumento parece ter sido usado por muitas das pessoas que, na semana passada, reagiram nas redes à divulgação da acusação de estupro feita ao jogador brasileiro.

É na década de 90 que surge a internet comercial, o começo de uma revolução que logo reformataria a lógica de produção e difusão de informação e inaugurar ia a era da sociedade organizada em redes. A tecnologia também mudou a dinâmica dos relacionamentos em família, no trabalho e na vida afetiva. O feminismo foi dramaticamente impactado pelo avanço do digital e pela democratização dos meios.

Desde 2008 renasce o feminismo militante que guarda semelhanças com aquele dos anos 60, responsável, em grande parte, pelas mais importantes conquistas de liberdades individuais da mulher. Já havia sinais de que algo novo surgia nos protestos estudantis dos EUA e do Reino Unido em 2010.. Em 2011 surge a Marcha das Vadias, protesto internacional contra a crença de que as mulheres que são vítimas de estupro provocam a violência por causa de seu comportamento ou modo de vestir. Na Índia, manifestações em massa condenaram o estupro coletivo de Jyoti Pandey, em 2012, e flashmobs feministas interromperam as operações da polícia fundamentalista No Brasil, 30 mil mulheres invadiram Brasília em 2015 para protestar contra a violência sexual e o racismo. No início daquele ano, a Marcha das Margaridas trouxe mais de 50 mil mulheres da zona rural à capital brasileira. Na Argentina, ativistas feministas contra a violência doméstica organizaram protestos em Buenos Aires. Na Polônia, protestos das mulheres forçaram o governo a rever a lei do aborto. A Itália, a Espanha e Portugal fizeram marchas contra a violência doméstica e a precariedade econômica.

A erupção do #MeToo, em outubro de 2017, e os desdobramentos que se seguiram são apenas os mais recentes de uma série de eventos de massa em todo o mundo. Na era das redes sociais, o feminismo deixa o gabinete e ganha as ruas. As palavras de ordem são hashtags: #MeuCorpoMinhasRegras #NaoENao #NiUnaAMenos #MexeuComUma­MexeuComTodas  #NaoMerecoSerEstuprada#PrimeiroAssedio #EleNão.

Um dos contos mais lidos nos Estados Unidos nos últimos dois anos foi “Cat Person”, da escritora americana Kristen Roupenian, que viralizou depois de ser publicado no site da revista The New Yorker. A história é uma narrativa em terceira pessoa sobre o breve relacionamento entre Margot e Robert, narrado do ponto de vista dela, uma estudante universitária de 20 anos que trabalha em um cinema independente. Robert é um homem de 30 e poucos. O namoro começa por mensagens de texto e o desenrolar da trama mostra como as mensagens de texto permitem fazer projeções imaginárias da outra pessoa, que se desintegram quando ambos se encontram pessoalmente. Na prática, o conto é sobre um encontro sexual ruim, de duas pessoas que não se conhecem nem se gostam, mas acabam na cama – naquele instante Margot conjectura se teria ido longe demais ou se seria razoável desistir na hora H.

Neste exato momento, se você digitar a palavra estupro no Google, as primeiras ocorrências serão todas relacionadas não a Margot e Robert, mas a Neymar e à modelo Najila Trindade, que alega ter sido sexualmente agredida pelo jogador num quarto de hotel em Paris. O que se sabe é que se conheceram no Instagram. Ela era um dos 120 milhões de seguidores que ele tem atrelados a seu perfil na rede. Depois de trocarem mensagens românticas, ele enviou as passagens e o voucher do hotel para que ela voasse de São Paulo e o encontrasse em Paris. Há farta documentação digital do que ocorreu antes, durante e depois, em textos, fotos e vídeos.

A brutal exposição do caso deflagrou nas tribunas sociais duas correntes de opinião nitidamente distintas. De um lado, a ala conservadora – majoritária, que torce o nariz para os movimentos igualitários e a defesa das minorias – desqualificou a acusação de estupro e criticou a postura da modelo. Do outro lado, a ala progressista identificou machismo na atitude do jogador em divulgar o conteúdo íntimo e acolheu a moça como vítima. O que também se sabe é que o encontro romântico de Najila e Neymar fracassou miseravelmente. As versões da história, expostas ao escrutínio público, de lado a lado, revelam diferentes expectativas, motivações e visões de mundo. Antes de qualquer conclusão precipitada, o caso deveria ser tomado pelo que ele traz de mais didático: sexo, desde tempos imemoriais, contém muitos matizes de sensações, imprecisões e desentendimentos – e consentimento é algo que é comunicado e entendido nessa torrente de acontecimentos.

Sobre o sexo. 2

GESTÃO E CARREIRA

MINERADORES URBANOS

Uma nova geração de empreendedores se dedica à reciclagem de lixo eletrônico e descobre num crescente problema global a oportunidade de ganhar dinheiro ao reaproveitar materiais nobres, como o ouro

Mineradores urbanos

Ao voltar para o Brasil após um curso de neurociência na Irlanda, o paulista Marcus William Oliveira decidiu investir em um ramo totalmente diferente: a coleta e a destinação correta de lixo eletrônico. A motivação estava em dar um novo foco a um antigo empreendimento de seu pai, dedicado à reciclagem de outros materiais. No Brasil, a crescente geração de lixo eletrônico, somada à preocupação ambiental de empresas de diversos setores, parecia o cenário ideal para iniciar o negócio. Foi assim, há cerca de uma década, que Oliveira fundou o grupo Reciclo, que em 2018 processou 100 toneladas de sucata, 21% mais que o volume do ano anterior, e faturou 5 milhões de reais. “Vamos repetir o ritmo de crescimento neste ano”, afirma Oliveira.

Uma nova geração de empreendedores brasileiros — a exemplo de Oliveira — começa a transformar um problema crescente em oportunidade de negócio. Um estudo divulgado no Fórum Econômico Mundial, realizado em janeiro na cidade de Davos, na Suíça, apresentou dados alarmantes sobre o acúmulo de lixo eletrônico no mundo. Cerca de 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico são produzidas globalmente por ano. Até 2050, o volume chegará a 120 milhões de toneladas. Só o Brasil gera 1,5 milhão de toneladas desse tipo de sucata por ano. Apenas 4% desse volume tem a destinação correta, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas. Suíça e Noruega lideram o ranking de reaproveitamento, com 74% de descarte com destinação correta. Boa parte do apelo financeiro na tentativa de resolver esse problema ambiental está nos metais preciosos, como prata e ouro, presentes em diversos equipamentos. De cada tonelada de placas-mãe de computador, por exemplo, é possível extrair cerca de 50 gramas de ouro. Na maior mina do Brasil, localizada em Paracatu, Minas Gerais, a produtividade é inferior a meio grama por tonelada de terra removida. No mundo, o valor estimado da sucata eletrônica disponível é de 62 bilhões de dólares. O esforço para reaproveitar esses materiais passou a ser chamado de “mineração urbana”.

No Brasil, a atividade tem um apelo adicional: a expectativa de mudança no arcabouço regulatório que prevê a obrigatoriedade de reciclagem do lixo eletrônico por parte dos fabricantes. Um acordo entre a indústria de eletroeletrônicos e o Ministério do Meio Ambiente vai regulamentar metas de coleta e reciclagem dos produtos descartados no setor. A espera já é longa: começou em 2010, com a aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos. A lei estabelece que os fabricantes devem criar um mecanismo que torne esse reaproveitamento possível. Para se tornar efetiva, no entanto, é preciso definir os parâmetros da política e outros aspectos importantes, como quem deve arcar com os custos. A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica, representante do setor, enviou uma proposta de acordo ao ministério em outubro. Em março, o presidente da associação, Humberto Barbato, reuniu-se com o ministro Ricardo Salles para tratar do assunto. Segundo a entidade, existe a possibilidade de que um desfecho finalmente aconteça neste ano.

Trata-se, no entanto, de uma cadeia de logística reversa complexa. As placas de circuito impresso que contêm metais preciosos, por exemplo, estão presentes tanto em celulares, fáceis de transportar, quanto em geladeiras e máquinas de lavar. Isso faz com que o custo de coleta dos eletroeletrônicos seja maior do que o de outros materiais recicláveis, dificultando a criação de uma cadeia baseada em catadores, como no caso das latas de alumínio e das garrafas de plástico. Essa dificuldade explica a opção de Oliveira, fundador da Reciclo. A companhia atende sobretudo clientes corporativos interessados no descarte dos equipamentos usados nos escritórios, que são reformados e revendidos ou reciclados, com a extração de materiais preciosos. “É mais fácil ganhar dinheiro com grandes clientes do que fazer a coleta pulverizada do descarte de pessoas físicas”, diz Oliveira.

Superar o gargalo logístico de chegar ao consumidor final é a meta da Gaia Greentech, criada em 2018 pela engenheira de materiais Thalita Braga, de 29 anos, com dois sócios. A ideia da empresa surgiu quando Thalita precisou descartar lâmpadas e outros equipamentos eletroeletrônicos. A startup passou por algumas aceleradoras até se estabelecer no Onovolab, um campus de inovação instalado em uma antiga indústria têxtil em São Carlos, no interior de São Paulo. Segundo Thalita, atualmente a Gaia está na primeira fase de desenvolvimento, focada na conscientização dos consumidores sobre o problema. Em parceria com a prefeitura, a empresa espalhou pontos de coleta de lixo eletrônico pela cidade. Paralelamente, a startup desenvolve um sistema de logística e uma certificação baseada em blockchain, a mesma tecnologia utilizada nas moedas virtuais. O objetivo é garantir a rastreabilidade dos produtos coletados, que será importante quando as fabricantes de eletrônicos forem de fato obrigadas a prestar contas de suas cotas de reciclagem. “Precisamos passar por essa fase de educação ambiental dos consumidores”, diz Thalita. Na mesma proposta de tornar viável a coleta pulverizada, o empreendedor Luiz Grilo montou a Residuall, em Belo Horizonte. A empresa tem sistemas que traçam as melhores rotas para as coletoras de resíduos. O software leva em consideração o tipo de equipamento que será coletado e determina o transporte adequado. A startup começou como um projeto de iniciação científica na Universidade Federal de Minas Gerais em 2017. De lá para cá, recebeu dois aportes: o primeiro foi feito pelo Sistema Mineiro de Inovação, um programa do governo estadual, no valor de 88.000 reais, e o segundo, de 120 000, veio de um investidor-anjo. A Residuall também opera em outros segmentos, como o de reciclagem de óleo de cozinha, e tem clientes como a processadora de grãos Cargill. “Muitos ainda enxergam os resíduos como problema, não como um mercado”, diz Grilo. “Mas essa percepção vai mudar.”

Embora seja uma atividade potencialmente rentável, a logística reversa pode ficar inviável em alguns rincões do país. O principal impasse relacionado à nova lei está justamente na definição de quem deve pagar a conta da cara logística reversa Brasil afora, mesmo em locais que não sejam economicamente viáveis. Por enquanto, o acordo setorial prevê que os fabricantes atuem em todos os municípios brasileiros com mais de 80.000 habitantes. Na Europa, é cobrada uma taxa dos consumidores. A proposta da associação da indústria de eletroeletrônicos é semelhante, sendo que o valor viria especificado na nota fiscal. Esse modelo enfrenta resistência no governo porque, na prática, significaria a medida impopular de criar mais um tributo.

No médio prazo, há outra dificuldade a ser enfrentada: os equipamentos eletrônicos usam uma quantidade cada vez menor de metais preciosos. Enquanto a tonelada de placas de computador Pentium 3 contém 150 gramas de ouro, a de Pentium 4 tem 50 gramas. Pesquisadores começam a estudar maneiras de tornar a mineração urbana menos custosa. No Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, baseado em Campinas e ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, o projeto Rematronic desenvolve um método mais barato de separação de metais preciosos das placas. Responsável pelo projeto, o engenheiro químico José Rocha Andrade da Silva explica que o processo tradicional da mineração urbana utiliza a piro- metalurgia, que derrete as placas. A tecnologia desenvolvida pelo CTI é baseada em processos químicos que dispensam as chamas e consomem menos energia. O Rematronic foi desenvolvido em parceria com a GRI, empresa de gestão de resíduos pertencente ao grupo Solví, dono de concessões nas áreas de saneamento e limpeza urbana, entre elas a Vega. O próximo passo é colocar o produto no mercado. Se der certo, será mais um impulso para transformar esse grave problema ambiental num negócio rentável.

Mineradores urbanos. 2

SUCATA VALIOSA

A produção de lixo eletrônico no mundo deve mais que dobrar em três décadas

Mineradores urbanos. 3

 

ALIMENTO DIÁRIO

SEGREDOS DO LUGAR SECRETO

Alimento diário - livro

CAPÍTULO 41 – O SEGREDO DE PERMANECER NA PRESENÇA DE DEUS

 

Quando você se retira para o lugar secreto, permanece no Espírito juntamente com todos os santos no mar de vidro e contempla aquele que está sentado no trono (Apocalipse 15.2). Ainda que seus olhos estejam velados de forma que você não possa vê-lo com os olhos naturais, mesmo assim permanece diretamente diante do trono!

O maior privilégio de toda a criação é permanecer diante do fogo vivo da presença de Deus e queimar com as afeições santas por seu Pai e Rei. Permanecer na presença de Deus é seu destino eterno e você pode provar um bocado do céu na terra ao fechar a porta e permanecer diante dele na beleza de sua santidade.

Sua programação pessoal não quer deixar que você permaneça aqui, na presença de Deus. As demandas do trabalho militam contra sua permanência. O inferno combate a sua permanência. Mas você está desperto para as belezas da santidade e agora anseia por se isolar e ficar na presença de Deus. Apenas permanecer; e fazer tudo para continuar assim!

Permanecer, apesar da batalha; permanecer, apesar da resistência; permanecer, apesar das perturbações; permanecer, apesar do cansaço; permanecer, apesar da falha e do colapso pessoal; permanecer, apesar do sofrimento; permanecer, apesar da solidão; permanecer, mesmo que acorrentado; apenas permanecer!

Permanecer, por causa da cruz; permanecer, por causa do Cordeiro; permanecer, por causa de sua afeição; permanecer, por causa de sua aceitação; permanecer, por causa do poder de Deus dentro de nós; permanecer, por causa das fontes de água da vida fluindo do seu interior; permanecer, por causa da beleza e grandeza inigualáveis de Deus; permanecer, por causa do objetivo eterno do Senhor; permanecer, por causa das misericórdias eternas do Pai; permanecer, por causa do amor; apenas permanecer!

A descrição do trabalho dos levitas ainda se aplica a nós atualmente: “Naquela ocasião o SENHOR separou a tribo de Levi para carregar a arca da aliança do SENHOR, para estar perante o SENHOR a fim de ministrar e pronunciar bênçãos em seu nome, como se faz ainda hoje” (Deuteronômio 10.8). Uma das principais responsabilidades (e privilégios!) é permanecer diante do Senhor para servi-lo. No lugar secreto, simplesmente permanecemos. Nenhuma grande agenda, nenhuma ambição poderosa, nenhuma pressa para fazer outra coisa. Apenas permanecemos diante dele e o amamos.

Há períodos em que Deus nos chama simplesmente para permanecermos. Podemos preferir a adrenalina de perseguir uma grande causa, mas às vezes Deus nos chama para pararmos com toda a atividade e apenas permanecermos. Às vezes, Ele não nos dá nenhuma escolha. Ocasionalmente, as circunstâncias nos restringem além de nossa capacidade de seguir um curso diferente, e nos tornamos prisioneiros das correntes que nos vinculam à vontade de Deus. Incapazes de nos libertar e de fazer outra coisa, tudo o que podemos fazer é permanecer e queimar no amor santo de nosso Rei.

Normalmente as pessoas dizem: “Não permaneça apenas, faça alguma coisa!”. Quando as circunstâncias estão saindo de controle, a grande tentação – quando você não sabe o que fazer – é fazer alguma coisa. “Deus não pode dirigir um veículo estacionado. Então comece a fazer alguma coisa e deixe Deus conduzir o seu curso”, elas completam.

Esta pode ser a maneira de agir em algumas situações, mas eu descobri que Deus tem trabalhado de forma diferente em minha vida ultimamente. Ele inverteu esse ditado comum e me deu outro: “Não faça nada, apenas permaneça lá!”. Isso me levou a deduzir: “Quando você não souber o que fazer, apenas não faça nada! Espere por mim, me sirva até eu falar. Quando eu falar com você, então poderá agir segundo o que lhe disser. Mas até eu falar, apenas permaneça lá”.

Como os levitas de antigamente (Deuteronômio 10.8), carrego sua presença em meus ombros, permaneço diante dele para servi-lo e abençoo outras pessoas em seu nome à medida que me fortalece. “Sempre tenho o SENHOR diante de mim” (Salmos 16.8). Portanto, permanecerei diante dele, contemplarei sua beleza e o bendirei enquanto tiver fôlego de vida.

Para permanecer diante de Deus desta maneira, podemos aprender algo com os anjos. Como exemplo, observe o anjo Gabriel. Quando Gabriel veio falar a Zacarias que ele seria pai de João Batista, foi a sua segunda aparição nas Escrituras.

Para ser mais exato, Gabriel é mencionado três vezes na Bíblia. Ele apareceu a primeira vez a Daniel. Quase 600 anos mais tarde visitou Zacarias e seis meses depois veio à presença de Maria para anunciar que ela estava grávida do Espírito Santo. Quanto Gabriel trouxe a Zacarias a mensagem de Deus, ele não acreditou em suas palavras. Em resposta à incredulidade de Zacarias, para garantir a veracidade do que falara, Gabriel declarou: “Sou Gabriel, o que está sempre na presença de Deus” (Lucas 1.19).

“Então o que você faz, Gabriel?”, podemos perguntar.

“Permaneço na presença de Deus.”

“Sim, entendemos isso. Mas o que você faz?” “Na verdade, permaneço na presença de Deus.”

“Sim, sim, Gabriel. Já entendemos isso! Mas o que estamos perguntando é: o que você faz??”

E mais uma vez Gabriel responderia: “É isso o que eu faço! Permaneço na presença de Deus. Fico lá, contemplando sua majestade e esplendor, ardendo com sua chama santa e aguardando até Ele falar. Se Ele não disser nada, apenas permaneço lá. Quando Ele me dá uma palavra, então ajo e a cumpro. Mas a principal coisa que faço é apenas permanecer diante de Deus esperando nele”.

Entre Daniel e Zacarias há um período de 600 anos durante o qual não ouvimos falar nada sobre Gabriel. Já entre Zacarias e Maria houve um período de seis meses. Esse foi um período agitado! O que Gabriel fez nos intervalos dessas tarefas? Ele apenas permaneceu lá.

Percebi que, às vezes, Deus é pródigo. Ele observa enquanto você cultiva seus dons, talentos e capacidades ministeriais até você se tornar um bom ministro potencial. Você está pronto para fazer explorações! Então, Ele remove a ótima máquina ministerial na qual você se tornou, e a coloca na prateleira – e diz: “Apenas fique aí”.

Foi exatamente isso que Deus fez com Elias. Elias disse o seguinte: “Juro pelo nome do SENHOR, o Deus de Israel, a quem sirvo” (1 Reis 17. 1). “Permaneço na presença de Deus, isso é o que eu faço”.

Então, Deus decidiu testá-lo, colocando-o sob prisão domiciliar por três anos. Na casa da viúva, durante o período de fome, ele não pode colocar a cabeça para fora da porta, porque toda a nação estava procurando por ele. Ele estava preso naquela pequena casa quente, abafada e desoladora. Nenhum amigo, nenhum profeta visitante, nenhuma outra voz para confortá-lo ou dar-lhe alguma perspectiva. E a comida? Bolo para o café da manhã, bolo para o almoço e mais um bocado de bolo para o jantar.

Posso até imaginar Elias pensando: “Senhor, por que você tem todo esse ministério potencial enterrado na casa desta viúva? Quero dizer que nos três últimos anos eu poderia ter me graduado em alguma disciplina da Escola dos Profetas. Estaríamos tomando as nações pela força! Mas não. Estou aqui apodrecendo!”.

Mas Elias não respondeu dessa maneira, porque Deus já tinha lhe ensinado a permanecer em sua presença. Então, quando o momento do teste chegou, Elias pôde perseverar e apenas permanecer diante da presença de Deus e servi-lo.

As Escrituras nos mostram que Deus possui anjos poderosos que permanecem em sua presença e, em alguns casos, aguardam centenas de anos por suas ordens. Com toda a sua força e poder, Deus apenas os mantém ao redor do trono aguardando por Ele! Mas não é só uma questão de força, porque Deus dispõe de toda a força no céu que precisa!

Então, o Espírito Santo sussurrou para mim: “Não preciso de sua força”. Não foi a força do Filho eterno que trouxe nossa redenção, mas o fato de Ele ter sido crucificado em fraqueza. Deus não precisa de nossa força, mas de nossa disponibilidade. Ele está procurando por nós para apenas permanecermos em sua presença, contemplando-o, amando-o e cumprindo sua palavra quando Ele fala.

Você está atarefado? Então apenas permaneça diante dele, aprecie-o e deixe-o apreciá-lo!