OUTROS OLHARES

DE ONDE VIEMOS?

A ideia de que temos antepassados comuns é elegante e conveniente, porém não condiz com os dados mais recentes

De onde viemos

A origem dos humanos modernos é um dos tópicos mais populares e debatidos na história da pesquisa sobre a evolução da espécie. Pesquisadores produziram uma extensa literatura, tanto acadêmica quanto geral. Quero discordar de duas declarações contidas na narrativa paleantropológica dominante: primeiro, ela sugere que existe um ponto identificável no tempo e espaço que podemos chamar de origem; e, segundo, insinua que existe uma entidade definível chamada “humanos modernos”. Essas duas afirmações são tidas como premissas e, até recentemente, foram pouco questionadas. Novos estudos e uma nova geração de pesquisadores estão desafiando essas pressuposições no cerne da disciplina, e são muitas as evidências que sugerem que humanos modernos não têm uma origem. Em vez disso, estamos olhando para “fronteiras difusas” e “origens desordenadas”. Esses termos não são tão puros, mas é mais provável que cheguemos, com eles, mais próximos da história real da evolução humana.

Pensamos nos humanos modernos como uma espécie, Homo sapiens. Na biologia moderna, o único nível em taxonomia e classificação biologicamente real é o de espécie; todos os outros níveis, de gênero para cima, de subespécie para baixo, são vistos como conceitos abstratos, criados por cientistas e que residem apenas na mente deles. Membros de uma mesma espécie podem reproduzir crias férteis; membros de espécies diferentes, não. Veja os burros, cavalos e mulas.

Já que somos uma espécie chamada de Homo sapiens, devemos ter um ponto de partida, o momento da especiação, quando nossa linhagem começou sua própria trajetória evolucionária, separada das demais – H. sapiens como uma nova espécie protegida pelas barreiras reprodutivas.

Esse entendimento e limite podem se aplicar a exemplos em livros didáticos, mas não a todas as espécies, e certamente não a humanos modernos.

Uma posição paleantropológica comum até a década de 90 considerava que humanos modernos eram descendentes de populações “arcaicas” que viviam por toda parte do Velho Mundo, os neandertais sendo uma delas. Essa década presenciou uma mudança na narrativa predominante, com geneticistas apoiando a visão alternativa de que os humanos modernos surgiram como uma nova espécie recentemente, cerca de 150 mil anos atrás, na África. Pesquisas mostraram, várias vezes, que os africanos têm a maior diversidade genética, e o nível dessa diversidade estava diretamente ligado à profundidade do tempo. Os africanos, já que eram os mais diversificados, foram considerados os mais velhos; e a África, o lugar de origem dos humanos modernos. Houve esforços para localizar os primeiros desses humanos em algum lugar do continente. Entre os fortes candidatos estavam Jebel Irhoud, Herto Bouri e Orno Kibish.

Pesquisas novas vêm se acumulando na velocidade da luz. Extrair DNA antigo utilizável de fósseis de hominoides já não vira notícia de capa, e mal faz 20 anos da primeira análise bem-sucedida. Um trabalho recente sobre DNA antigo aponta para uma conclusão bem diferente daquela da primeira geração de pesquisas sobre o assunto. Uma publicação inovadora de 2010, de Svante Paabo e seu grupo de pesquisadores, deu início a uma onda de novos estudos que apontam para uma mistura de neandertais e humanos modernos. O campo da paleantropologia incorporou rapidamente essa “nova” descoberta – talvez deixando de lado a literatura substancial que construía exatamente o mesmo raciocínio baseada em dados de fósseis – usando o conceito de introgressão (movimento de um gene de uma espécie para o acervo genético de outra). A disciplina admitiu que havia uma mistura entre populações arcaicas – como os neandertais – e modernas, mas em nível desprezível e insignificante.

Na verdade, pesquisas genéticas confirmaram que a mistura entre o arcaico e o moderno era mais significativa, e os genes trocados e introgredidos eram funcionais, não triviais. Neandertais e denisovanos fortaleceram o sistema imunológico dos humanos modernos. Modernos cruzaram com neandertais, com denisovanos e ainda com uma outra população misteriosa; e todas elas cruzaram umas com as outras. Genes introgredidos foram importantes para a sobrevivência nos ambientes difíceis e desafiadores que caracterizaram o Pleistoceno.

Um cínico pode observar essa mudança de pensamento recente sobre humanos modernos e declarar que o pêndulo balança novamente. O que estamos vendo agora é mais parecido com uma espiral do que com o movimento de um pêndulo.

Humanos modernos surgiram em tempos e lugares diferentes, não como uma espécie separada, mas como uma continuação das populações indígenas. Eles não surgiram como uma espécie separada, e não houve uma origem única em um ponto específico no espaço-tempo; houve traços modernos cuja origem estava espalhada por vários pontos espaçotemporais. Não houve uma nova espécie por causa de um fluxo gênico entre populações através do tempo e do espaço. Perguntar onde e quando humanos modernos se originaram numa escala global não é somente uma pergunta sem resposta – pode calar vozes que precisam ser ouvidas.

Essa ideia, que não é recente, abre espaço para novas maneiras de pensar e dá importância a novos tópicos. Um exemplo são as pesquisas sobre hibridização. Como o conceito de limite de espécies é quase uma santidade, espécies híbridas foram consideradas uma teoria marginal: por definição, espécies não hibridizam. Pesquisas recentes demandam que consideremos a possibilidade de espécies híbridas terem mais chances de ser encontradas na natureza do que achávan1os anteriormente – e humanos modernos podem ser um dos exemplos. Ao longo da história, os humanos se moveram pelo mundo. Fizeram sexo e tiveram bebês. Trocaram ideias e culturas.

A mistura de traços arcaicos e modernos é muito observada em fósseis de hominídeos ao longo do Pleistoceno. Algumas vezes, acreditou-se que esses fósseis eram de Homo erectus ” remanescentes”, implicitamente levados à extinção por causa do clima inóspito ou dos humanos modernos. Novas pesquisas consideram a possibilidade de não serem remanescentes, porém membros dos humanos modernos que cruzaram com várias populações. Inclusive, em vez de esclarecer, a distinção entre “moderno” e “não moderno” pode limitar o argumento e dificultar nosso progresso paleantropológico.

Sabemos há muito tempo que especiação é um processo complicado. Genes de uma espécie podem ter histórias diferentes da espécie em si. Especiação é um processo gradual de solidificação das barreiras reprodutivas. Haverá troca de genes entre duas populações que estão na trajetória de divergência e especiação, principalmente no estágio inicial desta. Esse processo é chamado de classificação incompleta de linhagem.

E se esse tipo de troca de genes não for só um processo temporário que ocorre apenas em populações que estão passando por especiação? E se a troca de genes for, ela própria, um processo que ocorre ao longo da história de uma espécie? A pesquisa parece apontar para esse caminho.

No século XX, estávamos mais interessados em perguntar se neandertais eram os antepassados dos humanos modernos. No final desse século, a resposta parecia óbvia: humanos modernos surgiram como uma espécie separada durante o fim do Pleistoceno Médio, na África, e se dispersaram pelo Velho Mundo. Conforme se moviam para novas regiões, eles encontravam outras populações de hominoides. O resultado desses encontros era a substituição sem cruzamento, porque os dois pertencem a duas espécies distintas. Na virada do século XXI, estávamos nos perguntando se a introgressão de neandertais para humanos modernos era significativa. Partindo do genoma neandertal publicado em 2010, pesquisas genéticas da última década chegaram a conclusões muito contrastantes com as da geração anterior. Elas mostram interação genética entre populações humanas arcaicas; neandertais e humanos modernos de fato cruzaram entre si. No século XX, dados arqueológicos e de fósseis eram confusos e complicados, enquanto dados genéticos eram nítidos e consistentes. Agora, parece que a genética também é complicada.

Estamos agora escrevendo um novo capítulo sobre a pesquisa da evolução humana, e todos os dados apontam para a diversidade. Esse tipo de panorama completo desenhado a pinceladas largas só foi possível devido a dados irregulares. Os neandertais foram extintos? Em algumas regiões, certamente; em outras, não. Neandertais cruzaram com humanos modernos e deixaram um legado genético. A Ásia foi considerada inabitada depois que o H. erectus foi embora ou extinto. Denisovanos e novas descobertas mostram que a Ásia esteve constantemente povoada com uma nova profundidade de antiguidade. Ao fim, a ausência de dados não foi o mesmo que dados de ausência.

Novas pesquisas nos lembram de confrontar nossas tendências racistas e presentistas. Muitas discussões sobre como definir humanos modernos incluem implicitamente europeus modernos e excluem neandertais. Essa definição, quando aplicada a muitos humanos existentes, também exclui proporções de populações indígenas que não podem ser desprezadas. Além disso, hominoides diminutos da Indonésia nos desafiam a expandir aquilo que aceitamos como alcance normal de variação para humanos modernos ou a reconhecer outra espécie do gênero Homo.

Humanos antigos viveram em ambientes diferentes dos nossos, com árvores e rios diferentes, paisagens e litorais diferentes. Não havia fronteiras, apenas massas de terra pelas quais eles se moviam. Algumas populações foram extintas, levando consigo sua assinatura genética. Algumas populações interagiram com novas, trocando genes e culturas.

A ideia de que uma única população foi a antepassada de todos os seres humanos é elegante e conveniente, porém não é compatível com os dados. Já se foram os dias em que uma hipótese podia ser testada com alguns fósseis, alguns genes ou algumas ferramentas de pedra. Já se foram os dias em que um modelo global podia ser aplicado. Num artigo recente, de 2018, (a doutora Eleanor) Scerri e colegas levantam a questão de que humanos modernos não vieram de uma única população na África, um argumento que já foi apresentado inúmeras vezes antes.

Talvez nunca se consiga descobrir se neandertais e humanos modernos são uma mesma espécie ou espécies diferentes. Genes neandertais são encontrados em humanos modernos ou porque eles são da mesma espécie (fluxo gênico), ou porque são de espécies diferentes cuja genética não está completamente separada ainda (classificação incompleta de linhagem), ou porque são de espécies diferentes estabelecidas que trocaram genes (introgressão). Talvez seja hora de dizer adeus à ideia de espécie como “a única entidade com limites naturais”. Talvez seja hora de se interessar por novas perguntas, perguntas que podem ser respondidas com no­ vos dados. Talvez, como foi sugerido por Rosenberg e Wu (em estudo de 2018), seja hora de esquecer a imagem de árvores com galhos como uma metáfora para a evolução humana e considerar, no lugar dela, córregos e rios. 

 

SANG-HEE LEE – é antropóloga especializada em evolução humana e professora na Universidade da Califórnia

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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