A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O QUE HÁ POR TRÁS DA DISLEXIA?

Um transtorno específico de leitura, que traz dificuldades na aprendizagem ou desenvolvimento dessa habilidade. Não se trata de um problema comportamental ou educacional, ainda que esses possam dificultar a identificação e melhora

O que há por trás da dislexia

Dislexia é um transtorno específico de leitura, e disortografia um transtorno específico de escrita. A dislexia vem acompanhada da disortografia, mas essa última pode vir sozinha (ou seja, problema de escrita, mas com leitura adequada). Não se trata de uma dificuldade comportamental, apesar de ser possível que coexista ou apareça em consequência de suas dificuldades escolares. É importante também destacar que, para ser considerado dislexia, o nível de leitura não pode ser compatível nem com o nível de leitura de seus colegas que tiveram as mesmas oportunidades educacionais nem com o nível do seu próprio desenvolvimento em outras áreas, como potencial cognitivo, por exemplo. Não custa reforçar que não se trata de um déficit intelectual. O potencial para aprender está totalmente intacto.

As pessoas com dislexia têm consciência das dificuldades que apresentam, mas não necessariamente do diagnóstico. E sofrem muito por isso. A dúvida do que têm, do porquê dessa aparente limitação, fora as pressões externas, que fazem com que ele próprio questione suas possibilidades, impacta muito sua autoestima. Não é incomum serem chamados de pouco inteligentes ou pouco esforçados, o que se reflete diretamente na motivação e em sua autoimagem.

Talvez por essa razão existam vários estudos internacionais mostrando que a população com transtornos de aprendizagem que não tem apoio terapêutico, familiar e/ou educacional torna-se mais vulnerável à criminalidade, provavelmente pela saída mais precoce do sistema escolar ou pela menor possibilidade de emprego. Em compensação, aqueles bem estimulados, com ambiente favorável e/ou resilientes, apresentam todas as possibilidades de desenvolvimento e sucesso, apesar de um certo esforço inicial.

A questão passa a ser a seguinte: se é um déficit específico, por que esses estudantes apresentam outras dificuldades? A leitura, há anos, vem sendo a base do ensino formal. Ela é boa parte do acesso à informação, e sua limitação pode atrapalhar o rendimento em outras matérias. Vale lembrar que não há uma dificuldade para aprender. O problema é que se o único caminho para o conteúdo for a leitura, ela pode servir como um gargalo ou funil, limitando o acesso. Além disso, o erro na leitura de enunciados pode provocar respostas aparentemente sem nexo, o que não aconteceria na linguagem oral. Outro exemplo são os problemas matemáticos, que podem ser um grande desafio, mesmo quando não há dificuldade em cálculo, pois é necessário ler e interpretar a questão. A escrita também pode ser um limitador, visto que nem tudo o que pensa, o que é elaborado mentalmente, consegue ser explicitado através desse instrumento. Como se fala no dia a dia: fica difícil colocar as ideias no papel.

 DÉFICIT LINGUÍSTICO

A dislexia, definitivamente, não tem origem na má qualidade da educação. Mesmo em países em que a educação apresenta altos índices de sucesso a dislexia existe, e apresenta a mesma porcentagem de países onde estes não são uma realidade. Trata-se de um déficit linguístico, fortemente associado a uma tendência familiar. O processamento fonológico está prejudicado, bem como sua relação com o processamento visual. Mas é claro que uma má qualidade da educação prejudica. Ela pode ou potencializar as dificuldades dos disléxicos ou causar dificuldades de aprendizagem de outra ordem (que podem até parecer em um primeiro momento, mas não são casos de dislexia realmente).

Exatamente por essa razão, os manuais diagnósticos mais modernos, como o DSM-5, propõem que, para um diagnóstico seguro de dislexia, haja um teste terapêutico ou proposta de resposta à intervenção (RTI). O que, em um país de tanta diversidade como o nosso, torna-se ainda mais importante. A proposta é a seguinte: estratégias na escola para que todas as crianças consigam aprender (camada 1), estimulações em pequenos grupos para aquelas que estão apresentando dificuldades (camada 2). Então, será possível observar dois grupos: aquele das crianças que superaram as dificuldades iniciais (podem ser descartados diagnósticos como dislexia) e aquele com dificuldades persistentes, o que pode se confirmar como dislexia, e deve seguir para atendimento especializado (Veja quadro esquema simplificado de RTI).

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CONFIRMAÇÃO

Para confirmar a presença da dislexia ou dificuldades similares são necessárias avaliações clínicas, mas é possível desconfiar através de alguns sinais. Tanto na leitura quanto na escrita há impasses que fazem parte do processo. Mas a persistência deles pode indicar dificuldade.

No caso da leitura, por exemplo, ler sob esforço no início é comum, mas manter um ritmo muito devagar por um tempo prolongado não é esperado.

Crianças sem dificuldade vão ganhando fluência progressivamente, o que não acontece com quem tem dislexia. O estalo, ou o clique, como alguns chamam, não acontece sem uma ajuda adicional. E tem mais: a leitura laboriosa prejudica secundariamente a compreensão do texto lido, mesmo que a compreensão oral seja boa. Isso acontece porque a criança lê em pedaços, segmentando muito, e no final não consegue mais lembrar do que leu. É possível imaginar melhor vendo o quadro Diferença de leitura.

ESCRITA

Na escrita há algumas trocas que, mesmo precocemente, são sinais de alerta. Não que indiquem 100% uma dislexia ou disortografia, mas, em alta porcentagem, sim. E são trocas raras para a maior parte dos escolares. Como exemplo há a substituição entre letras que representam os fonemas homorgânicos, como P/B, T/D, K/G, F/V, S/Z, X/J. Mesmo em palavras regulares, ou seja, que se escrevem exatamente como se fala, as primeiras a serem dominadas, os erros se mantêm. As inversões nas sequências das letras também são comuns, especialmente em sílabas mais longas (cravo para carvo, por exemplo).

As regras ortográficas, que são dominadas progressivamente por todos os escolares, tornam-se um grande desafio para quem tem dislexia. Para ilustrar, é possível falar de M antes de P e B, S – ou R – RR entre duas vogais ou G e C antes de A, O e U, que têm som diferente de quando colocado antes de E e I. A dificuldade do disléxico não é entender as regras, e sim aplicá-las, pois é necessário prever o som que vem depois, antes de optar pelo que vem antes. Então, ele consegue completar lacunas para completar M ou N antes das consoantes, já que as visualiza e conhece a regra. Mas na hora de escrever ele deve recuperar a letra que vem depois, para optar pela que vai colocar antes.

Já fazer opções que explicitam dificuldades ortográficas do português, sem nenhuma regra que explique (um som com várias possibilidades de grafia), como X ou CH, por exemplo, demanda um tempo ainda maior. Essa demora se dá, pois é necessária experiência de leitura para que se estruture o tal vocabulário mental que foi explicado acima, o léxico. Mas continuar errando ao longo da escolaridade, sem que isso nem cause ao menos alguma estranheza, pode ser um sinal.

Além das questões ortográficas, sempre considerando que apenas a persistência em padrões anteriores é problemática, podem existir falhas no nível da frase, truncadas, sem pontuação ou sem letra maiúscula iniciando, ou ainda no nível do texto, que parece restrito se compararmos com o potencial de linguagem oral e tempo de escolarização.

A seguir é possível observar um texto, na versão digitada, de uma menina de 10 anos, filha de professores. É relevante lembrar que o perfil pode ser bastante heterogêneo, portanto, nem todos apresentarão exatamente os mesmos tipos de erros:

“Mamãe agetou (ajeitou) a cossinha (cozinha) e o cão pagunsol (bagunçou) A a mamãe gegou (chegou) na cosinha (cozinha) e viu duto (tudo) Bagusado (bagunçado) e viu o cão ali Bagusado (bagunçando) a mamãe não codou (acordou) e Pegol (pegou) o cão E pretel (prendeu) o cão mais (mas) o cão coziquil (conseguiu) fugir e vodo (voltou) Para a cossinha (cozinha) mais (mas) como a mamãe esdava (estava) na cozinha ele não gozegel (conseguiu) fim”.

 PROVIDÊNCIAS

Valorizar os pontos fortes do aluno com dislexia (raciocínio científico, habilidade matemática ou dom artístico, por exemplo) e evitar colocá-lo em evidência em suas fragilidades, como ler alto diante do grupo ou colocar sua produção de texto em um mural, são orientações que parecem ser de senso comum. Mas, além disso, há condutas importantes tanto no que se trata do sistema de avaliação quanto das estratégias para favorecer a aprendizagem na escola. Em sala de aula muitos são os recursos que o professor pode lançar mão. A realização de gráficos ou organogramas para auxiliar na compreensão de textos ou na organização da informação, o uso frequente de recursos visuais, o acesso à informação para além da leitura. Recursos que a família também pode usar em casa. Além desses, os horários fora da escola podem ser aproveitados para visita a museus, para assistir a filmes e documentários, além de animações sobre os assuntos tratados na escola.

Adaptações das avaliações escolares devem ser consideradas, e minimizadas, à medida que a criança vai evoluindo. Por exemplo, em um primeiro momento, um ledor (alguém que leia a prova para ele) é útil. Mais à frente, ela já poderá ler sua própria prova (se ouvindo, de preferência), pedindo auxílio quando necessário, e com mais tempo para sua realização, tendo em vista que sua leitura é mais lenta. Depois, apenas um prazo mais flexível de prova pode ser suficiente. No que diz respeito à escrita, deve-se considerar o que é o mais importante para aquela avaliação específica: o conteúdo ou a forma. Não parece justo um aluno com dislexia, que acerte uma resposta, perder pontos superiores ao valor de uma questão, que acertou, por conta de falhas na ortografia. Às vezes, a prova oral pode ser mais eficiente como forma de medir a aprendizagem de alguns, em determinadas disciplinas. Ou seja, por mais que existam orientações gerais, essas adaptações são sob medida. Elas não servem para favorecer um escolar com dislexia, mas para lhe dar as mesmas oportunidades de seu colega em determinada fase do seu desenvolvimento.

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DIFERENÇA DE LEITURA

mesma frase pode ser lida de forma diferente por dois escolares. No primeiro caso a criança tem que recuperar sete informações, sendo várias delas palavras com significado, o que facilita muito a memória: A segunda, em contrapartida, tem que tentar lembrar quase do dobro, sendo que esses 13 segmentos não têm significado: Isso sobrecarrega o que se chama de memória de trabalho, aquela de curto prazo, mas que é indispensável para o sucesso de algumas tarefas. E fica realmente difícil interpretar uma informação que simplesmente não pode ser lembrada. Quando pessoas com dislexia conseguem melhorar esse padrão, elas passam a entender o que leem quando ouvem, pois o canal auditivo ainda é necessário para intermediar esse processo. A leitura silenciosa exige um acesso direto ao léxico, nosso dicionário mental. É quando conseguimos ler de forma automática, reconhecendo globalmente as palavras escritas.

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OUTROS OLHARES

DESEJO ANIMAL EM EXTINÇÃO

Mais de mil espécies correm risco de desaparecer justamente quando o governo tenta afrouxar a legislação ambiental, liberando a caça e até a exploração de petróleo em parques nacionais

Desejo animal de extinção

A ararinha-azul só existe em cativeiro. Está extinta na natureza desde 2001 e é um símbolo da luta conservacionista no Brasil, como a onça-pintada e o boto-cor-de-rosa, ambos ameaçados. Porém, poucos brasileiros sabem que outros três pássaros deixaram de voar desde o início do século: o gritador-do-nordeste, o limpa-folha-do-nordeste e o caburé-de-pernambuco. A vítima mais recente é o gritador, um tipo de sabiá avistado pela última vez em 2007, em um resquício de Mata Atlântica em Alagoas. Além das quatro aves, outras 1.173 espécies estão em risco no País, representando 13% dos vertebrados, informa o “Livro vermelho da fauna brasileira ameaçada de extinção”, do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Entre os que beiram o sumiço estão a baleia-azul, o pica-pau-amarelo, a preá, o bugio-marrom, o tamanduá-bandeira, a suçuarana.

Nem por isso o governo dá a mínima atenção ao assunto. Desde que assumiu, Bolsonaro defende a flexibilização da legislação, o que resulta no desmonte do sistema de proteção ambiental brasileiro, aperfeiçoado desde 1967, quando a caça de espécies nativas foi proibida. Um conjunto de cinco propostas tramita na Câmara pedindo a liberação da caça esportiva, a criação de reservas particulares de caça, a permissão para a captura, criação e comércio de animais silvestres, a proibição do porte de armas de fogo para fiscais ambientais, a eliminação de penas pesadas para crimes ambientais e poder aos municípios sobre o que pode ser abatido ou capturado. Contrariando as recomendações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, o Ibama, há até o desejo de explorar petróleo perto do Parque Nacional de Abrolhos, no sul da Bahia, que é um berçário de baleias.

“Estamos diante de um amontoado de barbaridades”, diz Warner Bento Filho, do WWF-Brasil. A ONG denuncia que as propostas estão repletas de armadilhas jurídicas. Uma delas mudaria o status dos animais nativos, que se tornariam “bens de domínio público” em vez de “propriedade do estado”. Outro caso ocorreu em abril, quando o Ministério da Agricultura pediu ao do Meio Ambiente que revisse os critérios para a definição de espécies aquáticas ameaçadas.

O tiro inicial pela liberação da caça foi dado em 2016, pelo ex-deputado Valdir Colatto (MDB-SC). No ano passado, ele perdeu sua quarta reeleição consecutiva, mas ganhou a chefia do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), que saiu da pasta do Meio Ambiente e foi parar na Agricultura. Colatto é considerado pelos ambientalistas uma raposa no galinheiro. Ele nega. “Qualquer projeto pode ser aprovado totalmente ou desfigurado”, diz, com razão. Parte dos deputados da Frente Parlamentar Ambientalista quer apenas engavetar o que tramita. É tido como certo que se aprovados, quase tudo será discutido no STF. O apoio popular é questionável. Em 22 de maio, uma pesquisa do Ibope em 142 municípios demonstrou que 93% dos brasileiros são contra a liberação. Nas grandes cidades, a rejeição é de 95%, no interior, 91%. Nas redes sociais, correm manifestos com mais de 500 mil assinaturas.

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ESPÉCIES INVASORAS

O temor é que a pressão sobre a fauna aumente apenas para cumprir promessas da campanha presidencial. De acordo com o MMA, os maiores riscos hoje estão no aumento da atividade agrícola, na derrubada de florestas e no crescimento desordenado das cidades. A caça e a captura são o quinto fator de extermínio, atrás também da produção de energia e da poluição, respectivamente. “Ninguém precisa de caça para viver. É uma irresponsabilidade”, reclama a atriz e ativista ambiental Alexia Dechamps. Questionado se haveria algum estudo de impacto, o MMA afirmou em nota que a “questão da caça em unidades de conservação é a pauta de discussões”. É só reler a sentença para perceber a lógica torta. Áreas de conservação não devem ser destinadas ao abate de animais que lá estão para serem mantidos vivos.

Valdir Colatto diz que seu principal objetivo quando parlamentar era o controle de espécies exóticas, como o javali, o javaporco e o lebrão, que exterminam plantações e transmitem doenças. Para a fundadora da Ampara Silvestre, Juliana Camargo, o argumento é só uma desculpa para atirar no que aparecer na frente. Ela cita que das doze suçuaranas libertadas na Mata Atlântica nos últimos quatro anos por órgãos ambientais, oito foram abatidas. Existiriam formas menos brutais de manejo, com captura e esterilização de animais exóticos. “A alternativa ética dá trabalho, mas não é injusta”, diz Juliana.

 CONSERVAR PARA QUÊ?

Há também miopia e até revanchismo. Na terça-feira 28, Bolsonaro voltou a defender a extinção da Estação Ecológica dos Tamoios, em Angra dos Reis (RJ). Para ele, o lugar deveria ser aberto ao turismo de massa. A “nossa Cancún”, disse. Cobrindo só 5% da Baía de Ilha Grande, é um dos locais mais intactos do estado do Rio. Permitir a exploração ali seria ruim até para os pescadores, já que os peixes que os sustentam não teriam onde se reproduzir. O presidente também ignorou que Tamoios é justificada pela necessidade de monitoramento dos reatores da usina nuclear de Angra. Em 2012, Bolsonaro foi multado por pesca ilegal naquelas águas. Ele brigou para não pagar até conseguir a anulação. Em 27 março, o fiscal que o flagrou foi exonerado. José Augusto Morelli perdeu o cargo de chefe de operações do Ibama e se diz perseguido por ter cumprido a lei.

 PROMESSAS INSUSTENTÁVEIS

Querer flexibilizar a legislação é uma coisa. Outra é perceber o prejuízo contra a natureza e o índice de aceitação do público.

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SENADO ENTERRA O CÓDIGO FLORESTAL

Disputas entre a Câmara e o Senado acabaram por alterar o Código Florestal, contrariando o Executivo. Como os senadores não gostam de prazos curtos para a votação das medidas provisórias vindas da Câmara, resolveram retaliar na quarta-feira 29, anunciando que vão ignorar solenemente a votação que alteraria a legislação ambiental. Como a MP que desobrigaria os produtores rurais a recuperarem áreas desmatadas ou degradadas vai perder a validade na segunda-feira 3, os ambientalistas comemoraram. A lei que caduca anistiaria o desmatamento de 5 milhões de hectares — o dobro da área do estado de Sergipe.

GESTÃO E CARREIRA

RECONHECER-SE OU SER RECONHECIDO

Reconhecer-se ou ser reconhecido

Não é um dilema para quem tem uma carreira, mas um problema para quem vive de emprego. Afinal, você tem uma carreira ou um emprego? Quem tem emprego está sempre à beira do fim, e faz parte das estatísticas de desemprego. Quem tem carreira está sempre no processo de escolhas por recomeços. Para quem só tem emprego, ser reconhecido é essencial. Para quem tem carreira, ou quer ter, o primeiro passo é se reconhecer. Bem, mas todo mundo quer ser reconhecido, seja pela conquista do emprego, seja pela excelente carreira.

Divagações à parte… O filósofo Mario Sergio Cortella afirmou em entrevista que “a ausência de reconhecimento é a grande causa da atual desmotivação nas empresas; reconhecimento é a melhor forma de estimular alguém”. Concordo e discordo a partir do que acredito ser a construção de uma carreira.

Vivemos uma era insólita, na qual “ser” não significa muito, mas “parecer ser” ou “ter” é mais valioso que realmente estar envolvido, dominar, conhecer algo em profundidade. O superficial e o incognoscível ganham tremenda força de expressão, mas não se sustentam por muito tempo. Eles se renovam automaticamente, copiando a si mesmos e se repetindo sem sentido, acrescentando outros tantos e efêmeros laços estéticos e evasivos.

Isso se vê em vários ambientes humanos, da arte ao direito, da comunicação à medicina, nas velhas profissões ou nas novas ordens mundiais de trabalho. Em muitas áreas, construir uma carreira não significa efetivamente dominar um conteúdo, mas fazer dele uma plataforma retórica desajustada, desconexa e fútil.

Concorda? Não? Então, como explicar os VDjs cômicos de assunto nenhum? As músicas de melodias repetitivas e letras rasas? Como explicar que seu novo guru tem 27 anos e é um coach de alma? Sou contra isso? Não. Faz parte da nova sociedade em que, provavelmente, no futuro, como diria chico Buarque e já reinventado o texto, “sábios (ETs) em vão tentarão decifrar o eco de antigas palavras (onomatopeias), fragmentos de cartas (e-mails), poemas (letras do funk), mentiras (fake news), retratos (selfies), vestígios de estranha civilização”, a nossa. Mas, se você ainda não entendeu, não se preocupe: nessa nova ordem mundial, parece que você não tem de questionar e discutir e aprender.

Vamos a diante: o primeiro passo para compreender onde quero chegar com essa discussão tem a ver com propósito. Ter propósito vai além de um simples objetivo, de conquistar bens materiais ou pequenas vitórias cotidianas, como finalizar um curso, ganhar um prêmio… Ter propósito é reconhecer o significado e a relevância naquilo que você constrói no seu cotidiano e que pode mudar a sua vida e a de outras pessoas para melhor.

O segundo passo é estar cônscio de quem você é e de suas competências e habilidades, da sua força no pensar, no conhecer e no fazer diário de suas funções. O terceiro passo é caracterizar o que você sabe, dominar a técnica, ampliar os conhecimentos e desenvolver seus talentos. E o quarto passo: olhe no espelho, sem arrogância, com benevolência na alma, empatia para com o outro e se reconheça. Quem vive atrás de ser reconhecido pelos outros acaba perdendo o controle de quem é.

Ser reconhecido é bom, mas não pode ser o único estímulo da sua vida. Não esqueça: Van Gogh foi reconhecido 100 anos após sua morte, seus quadros valem milhões, e ele passou a vida querendo isso – sem imaginar o que estava realmente criando de belo e maravilhoso. Então, se ainda resta dúvida, experimente pensar todos os dias assim: “Eu me reconheço por que sei quem sou ou, pelo menos, sei o quê e quem não sou”; “Eu me reconheço porque reconheço onde estou e o que está ao meu redor”; “Eu me reconheço porque sei o que quero”; “Eu me reconheço porque sei onde vou”; “Eu me reconheço porque confio no que sei”; “Eu me reconheço porque sei fazer o que me foi destinado a fazer”; “Eu me reconheço porque me preparei para isso, há em mim mais que a superficialidade de meia dúzias de palavras que aprendi e técnicas decoradas”; “Eu me reconheço porque tenho propósito”; “Assim, nesse momento, estou totalmente preparado para ser reconhecido pelo meu valor. Eu já não espero amargurado e triste que alguém em uma empresa venha me dizer algo
positivo, me premie por eu ser bom, me promova porque sou o melhor; não ficarei angustiado e frustrado porque meu chefe não reconheceu meu talento, após anos de dedicação a essa organização. Tudo será mais leve e menos penoso porque sei que escolhi uma carreira com propósito, uma empresa com propósitos e construí uma história da qual me orgulho de verdade”.

Lembre-se: não estou dizendo que sair no jornal da firma, receber o broche de 20 anos, ganhar o prêmio de funcionário do mês, ganhar bônus não podem ser a mola propulsora da sua vida. Ser reconhecido nos causa felicidade, nos estimula, nos acalenta. Mas é como chocolate: quanto mais se come, mais se quer. E vicia, e engorda, e pode causar problemas de saúde se perdermos o controle de seu uso. Ser reconhecido tem de nos dar leveza e a certeza que fizemos o melhor; não pode ser um presente para seu ego inflado de pessoa mimada que quer o brinquedo favorito do outro.

Essa leveza não o deixará sucumbir ou perecer diante das hordas odiosas de desejos malignos que podem existir na empresa que você trabalha ou diante de pessoas que não o reconhecem. Silenciosamente, talvez você tenha se boicotado por anos, culpando a população mundial, mas efetivamente não fez nada por você que vale a pena ou que tivesse propósito. Pense, repense, reflita. Se você não se reconhece como vai quer ser reconhecido.

 

JÚLIO BARBOSA – é sócio- proprietário do Núcleo Rumos de Apoio Docente, professor doutor, consultor de negócios e relações públicas e coach

ALIMENTO DIÁRIO

SEGREDOS DO LUGAR SECRETO

Alimento diário - livro

CAPÍTULO 37 – O SEGREDO DA CRUZ

 

Salmos 91.1 aponta diretamente para a cruz de Jesus Cristo: “Aquele que habita no abrigo do Altíssimo e descansa à sombra do Todo-poderoso”.

Você não pode estar mais perto da sombra do Deus Todo-poderoso do que quando está crucificado na cruz. A sombra da cruz é o lar do santo.

A cruz é o lugar mais seguro da terra. É onde os ventos mais violentos açoitam sua alma, mas também onde você usufrui da maior imunidade contra os artifícios de Satanás. Ao abraçar a cruz, você está morrendo para cada mecanismo em sua alma que Satanás pode usar contra você. A mais intensa dor produz a mais alta liberdade. Não há estratégia contra santos crucificados, porque eles não amam sua vida mesmo sob o risco de morte.

Precisamos retornar à cruz intencional e continuamente. Sabemos que estamos crucificados com Cristo (Gálatas 2.20), mas o eu tem um caminho misterioso de sair aos poucos da cruz e se firmar. A crucificação da própria vida não é uma conquista, mas um processo: morremos diariamente (1Codíntios 15.31). O jardim de oração do Getsêmani preparou Jesus para abraçar sua cruz. O lugar secreto é onde reiteramos nosso “sim” ao Pai para sofrermos segundo a vontade dele.

Em nossa peregrinação diária ao lugar secreto, abraçamos sua dura cruz, olhamos para suas feridas e mais uma vez morremos para nós mesmos. Aceitamos os cravos em nossas mãos que diminuem nossa liberdade, e nos rendemos aos cravos de nossos pés que nos imobilizam e restringem nossas opções. Permitimos sofrer em nosso corpo para romper com o pecado (l Pedro 4.1). Com dignidade, temos a honra de completar em nosso corpo o que resta das aflições de Cristo (Colossenses 1.24).

Muitas pessoas enxergam a cruz como lugar de dor e restrição, e isso é verdade. Mas ela é muito mais que isso. A cruz é o lugar do amor absoluto. A cruz é o Pai dizendo ao mundo: “Eu os amo de tal maneira!”. A cruz é o Filho dizendo ao Pai: “Isso é o quanto eu o amo!”. E a cruz é a noiva dizendo para o noivo: “Isso é o quanto eu o amo!”.

A cruz é a paixão consumada e derramada. Quando Jesus nos chama para compartilhar sua cruz, nos convida para o mais alto nível de intimidade. O madeiro que prende suas mãos, agora prende as nossas. Os cravos que prendem seus pés, para cumprir a vontade de Deus, cruzam o cravo que prende nossos pés para cumprir aquela mesma vontade. Ali estão penduradas duas pessoas que se amam em lados opostos de uma mesma cruz. Nossos corações quase se tocam, exceto pela madeira que nos separa. Esse é o nosso leito de casamento. “Aqui entrego a ti o meu amor.”

Assim que você se pendura na cruz com Ele, ainda que sua visão esteja nublada e não possa ver seu rosto, se prestar atenção ouvirá a sua voz. Com sete palavras Ele o guiará pela escuridão de sua alma.

Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo. – Lucas 23.34

Jesus começa mostrando o caminho do perdão para aqueles que erraram com você. Este será seu primeiro grande obstáculo que deverá ser superado, pois você foi realmente violado. Você foi ferido na casa de seus amigos (Zacarias 13.6). Porém, o perdão é a única maneira de você avançar em direção aos propósitos de Deus.

Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso. – Lucas 23.43

Enquanto você agoniza, o Senhor garante que seu nome está escrito no céu e somente por isso você pode se regozijar. A certeza de sua companhia eterna o carrega neste momento.

Quando Jesus viu sua mãe ali, e, perto dela, o discípulo a quem ele amava, disse à sua mãe: Aí está o seu filho, e ao discípulo: Aí está a sua mãe. – João 19.26-27

Jesus fala à igreja (representada pela mulher), quando está sofrendo, para olhar para você: “Aí está o seu filho!”. Outros cristãos olharão para você com reprovação, sem compreender, perplexos e carregados de julgamentos internos.

E, então, Ele diz para você: “Aí está a sua mãe, a igreja”. Este é o momento de você olhar para a igreja e vê-la como nunca a viu antes. Você ganhará grande sabedoria nesse período, se aceitá-la sem nenhuma raiz de amargura em seu coração. O que você vê agora ajudará quando for servi-la no futuro.

Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? – Mateus 27.46

Você acabou de suportar três horas de silêncio de Jesus na cruz, na escuridão. Agora, Jesus se dirige a você com esta oração de abandono. Você está clamando a Deus de toda a sua alma. Você pergunta o porquê de tudo. Embora tenha consciência de que Deus está tão perto de você, parece que Ele o abandonou. O mais alto nível de intimidade combinado com o mais profundo abandono. Você não compreende o motivo pelo qual a provação severa parece interminável.

“Tenho sede.” – João 19.28

Em vez de amaldiçoar a Deus em sua escuridão, você tem sede dele e anseia por Ele mais do que nunca! Você sobreviveu à crucificação e ficou até o fim e diz que ainda o deseja, que o Senhor é a sua própria vida!

“Está consumado!” – João 19.30

Este é o momento pelo qual estava ansiando, o momento em que Jesus indicaria que sua provação estava concluída, consumada. A obra que Deus planejara no calvário está concluída.

“Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.” – Lucas 23.46

Jesus gentilmente treina você para entregar-se completamente nas mãos do seu amado Pai. Assim que você entrega sua vida, Ele pega a pro­ funda morte que operou em você e a transforma em ressurreição. Você se une a Cristo em sua morte, seu enterro e em sua ressurreição!

Afeição inigualável está reservada para aqueles que compartilham esta cruz com seu Amado. Este é o lugar secreto. Aqui são trocadas as paixões insondáveis do Eterno Deus com o seu parceiro escolhido. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” João 15.13). Ele compartilha sua vida, sua morte e sua ressurreição. “Se dessa forma fomos unidos a ele na semelhança da sua morte, certamente o seremos também na semelhança da sua ressurreição” (Romanos 6.5).

Eles fazem tudo isso juntos. Nada pode separar os dois – nem a morte nem a vida, nem a altura nem a profundidade. Seus corações estão eternamente entrelaçados (vinculados) na história de paixão do universo. “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu” (Cantares 6.3). Esse é um amor extravagante – inteiro – pois a cruz capacita a entrega total. Cada “sim” deste lugar secreto abastece uma troca renovada de devoção exclusiva. Tudo por amor!

Venha para o monte desolado da crucificação. Diga “sim” mais uma vez. Sinta a câimbra, suspire e gema. Una-se ao seu Salvador sofredor. Beba do seu cálice, todo ele, e descubra o segredo do amor eterno à sombra do Todo-poderoso.

Desejo estar à sombra da cruz do Salvador;

Nenhum fulgor anseio senão o da face do meu Senhor.

Contente em viver longe das ambições e conquistas deste mundo, A não tomar conhecimento nem de ganho nem de perda.

Minha natureza pecaminosa, minha única vergonha; Minha única glória, a cruz.

Elizabeth C Clephane