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BEM PIOR QUE VIDEOGAME

Os adolescentes brasileiros bebem cada vez mais cedo – e em muitos casos como aval dos pais. Pela primeira vez, o consumo é maior entre as meninas

Bem pior que videogame

Faltam poucos minutos para tocar o tão esperado sinal da última aula de sexta-feira numa escola de classe média alta da Zona Oeste de São Paulo. A aluna de 15 anos cria um grupo de WhatsApp com dezenove colegas da classe, com o nome “Social da Pê hoje à noite”. Pê é o apelido pelo qual os amigos a chamam desde a infância. “Social” é o nome do evento que ela vai organizar em casa. Em menos de quinze minutos, seis garotas e quatro garotos confirmam a presença. O esquema é definido on-line: “10 reais para cada um”. A vaquinha é coletada para o “sucão, uma mistura de vodca e suco em pó adocicado (metade de um, metade do outro, na receita mais comum), que ela vai preparar e servir na jarra de água.

Com o valor arrecadado, Pê compra quatro garrafas de vodca, dois saquinhos de suco de laranja em pó e pacotes de salgadinho. Dois dos vasilhames são usados na mistura – os outros dois ficam na mesa, à disposição para quem quiser reabastecer o copo. Às 19 horas, os amigos começam a chegar. Os pais de Pê estão jantando fora. Alguns levam garrafinhas de cachaça adocicada. Uns conversam, outros namoram, dançam sob luzinhas coloridas. Todos bebem. Quatro horas depois, começam a ligar para os pais para ir pegá-los na portaria do prédio.

Cenas como essa se multiplicam pelo Brasil. Ao longo de duas semanas, conversamos com dezenas de jovens em três estados do país, São Paulo, Rio de Janeiro e Acre, acompanhamos – os nas ruas, à noite, em bares e em ambientes domésticos. A constatação: debaixo do guarda-chuva paterno, supostamente protegido e saudável, ou fora dele, os adolescentes estão bebendo muito precocemente, e como adultos. É problema recorrente, que atravessa gerações e nunca saiu do olhar das entidades de controle da saúde e de vigilância policial, mas que agora ganha as cores fortes de levantamentos minuciosos.

Estudo realizado pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), com base em dado do IBGE, mostrou que 25,1% das garotas com idade entre 13 e 15 anos bebem ao menos uma dose por mês – há, uma década, eram 20%.

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O COMECO COM UMA BEBIDA TIPO ICE, QUE PARECE REFRIGERANTE

“Bebo desde os 13 anos, em geral na casa dos meus amigos. Minha mãe foi a primeira pessoa a me oferecer álcool. Ela preferiu que eu aprendesse a beber com ela do que fora de casa. Comecei com aquela bebida tipo ice, docinha, que parece refrigerante. Não achei ruim. Hoje gosto de bebida com fruta. Minha mãe sabe de tudo. É muito melhor do que fazer escondido. Eu me acho responsável. Tenho um irmão de 14 anos que não bebe. Ele nem curte sair. Ele é um pouco infantil ainda.” T. A., de 15 anos, estudante

A FACILIDADE DO RG FALSIFICADO

“Minha primeira vez foi na festa junina do prédio, eu tinha 11 anos. Minha amiga, um ano mais velha, pegou uma vodca doce na casa dos pais. Depois vieram as férias e bebi de novo. Gostei. No começo a gente bebe para ficar louco. Hoje bebo menos, mas bebidas mais amargas, como uma cerveja. Dá para beber na maioria dos lugares. Todo mundo tem RG falso. Quando eu tinha 14 anos, cheguei meio grogue em casa e minha mãe descobriu que eu gostava de beber. Conversamos, e hoje ela sabe.” A.H., de 15 anos, estudante

Entre os garotos, o índice é de 22,5% – dez anos atrás, batia nos 28%. A mudança ilumina um novíssimo problema: elas bebem mais do que eles. Com uma agravante, a título de comparação: os índices nacionais ultrapassaram os dos Estados Unidos. Entre os americanos com idade até 15 anos, o consumo não passa de 10 % para ambos os sexos, de acordo com o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos.

“Tomei meu primeiro gole com 11 anos de idade, na festa junina dentro do meu prédio. Uma amiga minha desceu com uma vodca docinha que ela pegou na casa dos pais. Gostei de cara do sabor e da sensação”, diz A.H., de 15 anos, de São Paulo. ”Aos 15 já bebia com os amigos da escola, sempre na casa de alguém da turma. Fazíamos isso pelo menos uma vez por semana. Rolava todo tipo de bebida”, afirma S.N., de 17 anos, do Acre.

A precocidade na idade é espantosa. O estudo do Cisa revelou que a meninada começa a beber aos 12 anos e meio. Os riscos para a saúde são imensos. Os órgãos ainda estão em formação, em especial o cérebro, a caminho da organização neuronal. “Expor o cérebro do adolescente à bebida alcoólica faz com que ele supervalorize o prazer químico do álcool”, diz

Ludmila Abrhão Hajar, intensivista do Hospital Sírio-Libanês e do Instituto do Coração em São Paulo. Trabalhos científicos mostram que uma pessoa que passa a beber regularmente antes dos 15 anos corre risco cinco vezes maior de se tornar dependente em relação a quem começa a beber aos 21 anos. A vulnerabilidade feminina, nesse aspecto, é notória. O organismo da mulher tem quantidades menores de enzimas responsáveis pela metabolização do álcool, o que faz com que a substância demore mais tempo para ser eliminada.

Invariavelmente, a porta de entrada para o consumo de álcool são as bebidas doces – e baratas. Garrafas de 900 mililitros de vodca com sabor de maracujá, frutas vermelhas, uva, limão, têm 13,5% de teor alcoólico e custam 15 reais, em média. A cachaça adocicada com mel de 500 mililitros (também com 13,5% de álcool) é vendida a menos de 4 reais. “As bebidas alcoólicas adocicadas e com gás são naturalmente palatáveis aos jovens, e elas estão sendo lançadas em profusão”, diz Luiza Amorim, gerente de comunicação da ONG internacional Vital Strategies, especializada em criar estratégias para desenvolver políticas de saúde pública. A explicação é fisiológica. O gosto amargo é sentido mais intensamente por quem é jovem. Isso acontece porque na infância e na adolescência a língua possui uma quantidade enorme de glândulas responsáveis pelo gosto. Nessa fase somos mais sensíveis ao amargo, portanto. É por volta dos 20 anos que o paladar está preparado para apreciar todos os sabores. Traduzindo para o universo alcoólico: somente na idade adulta o paladar absorve com mais gosto o amargo da cerveja, do vinho e do destilado sem a adição de açúcar.

O descaso e a inépcia parecem conspirar a favor da epidemia de consumo de álcool entre os jovens. Apesar de a legislação proibir a venda, faz-se de conta que o veto não existe. O eleito na turma para comprar qualquer tipo de marca e produto alcoólico é o “cara com cara de mais velho”, mas, se o lugar exigir um documento, o adolescente mostra um RG falsificado. O valor de um documento adulterado vai de150 a 300 reais. Quanto mais alto o preço, mais aprimorada é a falsificação.

O estudo do Cisa revelou outro dado impressionante: há adolescentes que começam a beber com o aval da família. “Minha mãe foi a primeira pessoa a me oferecer álcool. Ela preferiu que eu aprendesse a beber com ela do que fora de casa”, diz T.A., de15 anos. Os médicos refutam a ideia veementemente. Em 2012, o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, uma das maiores referências em saúde do país, inaugurou um programa pioneiro nos cuidados de adolescentes: o paciente com idade até 16 anos que dava entrada pelo pronto-socorro por causa de álcool passava por um protocolo especial. Além de o jovem receber atendimento clinico, ele e os pais eram orientados sobre os riscos do consumo de bebida na adolescência. O serviço fechou quatro anos depois. O motivo: a maioria dos pais refutou o programa – ou porque eles não queriam falar do assunto ou porque negavam o problema do filho). Diz o psiquiatra Ronaldo Laranajeira, da Universidade Federal de São Paulo, especialista no tema:

“Não há uma causa para o aumento do consumo de álcool entre os adolescentes. Há várias. Pais omissos, venda facilitada de bebidas e, no caso das meninas, para piorar, a ilusão de que, se beberem, estarão se equiparando socialmente aos homens”.  Parece inofensivo, mas trata-se de um sinal de alerta. Se muitos adultos não conseguem controlar o exagero e os efeitos nocivos do álcool, a situação fica ainda mais perigosa com crianças.

OS ADOLESCENTES E O ÁLCOOL

O consumo de bebidas aumentou só entre as meninas nos últimos anos

Bem pior que videogame. 3

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.