A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A ATENÇÃO E OS TRAÇOS DA CRIATIVIDADE

Dificuldades de prestar atenção em algo desinteressante pode ser um grande problema em determinados contextos. Pessoas que apresentam TDAH mostram dificuldades para suprimir atividade cerebral vinda da “rede da imaginação”

A atenção e os traços da criatividade

Será que as pessoas com dificuldade de atenção são mais criativas? Primeiro, vamos   procurar entender bem o que é “déficit de atenção”. Existe o TDAH, sigla com as iniciais do chamado “transtorno de déficit de atenção e hiperatividade”, que é um transtorno relacionado a três características principais: a inatentividade, a impulsividade e a hiperatividade.

Essas características nem sempre vêm juntas, podem se apresentar isoladamente. Nem sempre a presença de um desses traços envolve necessariamente o diagnóstico de TDAH. Para complicar, essas características podem surgir em diferentes condições e não fazer parte do TDAH. O diagnóstico de TDAH está relacionado à presença desses traços, ou de alguns deles, desde cedo, como um padrão recorrente na vida escolar, social e familiar. No caso do TDAH, existem estudos com gêmeos idênticos mostrando que é alta a predisposição genética, pois quando um irmão gêmeo recebe o diagnóstico, a chance do outro irmão apresentar essa mesma condição é bem alta, cerca de 90%. Portanto, acredita-se que   existam genes envolvidos na transmissão do DAH. Vários genes influenciando várias características, ou transmissão poligenética.

No entanto, a forte herdabilidade do TDAH e sua alta incidência sugerem que existem alguns traços adaptativos misturados aos negativos, o que pode explicar a perpetuação desses genes nas populações humanas ao longo da evolução. Se essa hipótese estiver correta, seria de esperar encontrar algo de bom nas pessoas que têm essa condição. Talvez a mesma configuração de traços que leve ao déficit de atenção contribua para traços positivos.

O psicólogo Scott Barry Kaufman acredita que existem características positivas que podem   acompanhar o TDAH, em especial a criatividade. O raciocínio criativo envolve a habilidade de inferir relações e perceber padrões novos e complexos. Kaufman cita estudos onde foram identificados 22 traços de personalidade recorrentes em pessoas criativas. Seis traços eram “negativos”, como a impulsividade e a hiperatividade. No entanto, existiam 16 traços “positivos”, como, por exemplo, independência, risco, alto nível de energia, curiosidade, humor, traços artísticos e emocionais.

No TDAH, muitos desses mesmos traços estão presentes, como apresentar níveis mais altos de geração de ideias espontâneas, devaneios, sonhar acordado, busca por sensação, energia e impulsividade. As pesquisas têm apoiado a noção de que as pessoas com características de TDAH têm mais probabilidade de alcançar níveis mais altos de pensamento criativo e realizações do que as pessoas sem essas características.

As realizações na vida estão associadas à habilidade de ampliar a atenção e ter um filtro mental que permite a permeabilidade, algo que as pessoas com TDAH têm abundantemente. Pesquisas recentes sobre Neurociência cognitiva também sugerem uma conexão entre o TDAH e a criatividade. Pensadores criativos e pessoas que apresentam TDAH mostram dificuldades para suprimir atividade cerebral vinda da “rede da imaginação” (rede de modo padrão, ou DMN Default Mode Network).

O vazamento de informações no filtro mental é positivo ou negativo de acordo com o contexto e as demandas existentes. A habilidade de controlar a atenção é importante em muitos contextos, pois a dificuldade em inibir o fluxo mental pode atrapalhar ao focar a atenção em uma aula chata ou se concentrar em um problema desafiador.

Mas como aponta Kaufman, a habilidade de manter a corrente de fantasias internas, a imaginação e o sonhar acordado podem ser imensamente favoráveis para a criatividade.

Alguns estudos sugerem que a rede de modo padrão que as pessoas com TDAH apresentam com maior atividade, embora causem dificuldades para controlar o foco da atenção, é a mesma rede neural que facilita o estado de fluxo criativo e o engajamento entre os músicos, incluindo músicos de jazz e os rappers. As pessoas com TDAH frequentemente são capazes   de focar melhor do que outros quando estão profundamente engajadas em uma atividade que é pessoalmente significativa para elas, o chamado hiperfoco.

Uma abordagem pedagógica interessante para esse perfil é a aprendizagem baseada em problemas (ABP), em que os estudantes usam as informações para criação de diferentes produtos como desenhos, dramatização, blogs, vídeos ou artigos, permite maior envolvimento com o material, e se tornam alunos ativos, em vez de serem submetidos somente à observação passiva.

Um conceito mais amplo sobre o papel positivo de certos traços poderia também fazer com que os estudantes com características de TDAH mostrassem suas forças criativas, incluindo a imaginação, o pensamento divergente e hiperfoco em atividades que despertam o seu interesse. Se tratarmos as características do TDAH somente como deficiências, conforme ocorre com frequência na escola, podemos deixar de reconhecer e estimular muitas crianças criativas e com potencial.

O desafio do sistema educacional é criar um ambiente que enfatize a criatividade como um caminho e ao mesmo tempo um resultado para o processo de aprendizagem. 

 

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.