A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESAFIOS DA COMUNICAÇÃO

O papel da linguagem influencia na forma como nos relacionamos e enxergamos o mundo, e o seu exercício envolve capacidades que não são esquecidas

Desafios da comunicação

Não foi a necessidade de aprender sofisticadas fórmulas matemáticas ou de construir espaçonaves que obrigou a evolução a nos privilegiar com um cérebro tão complexo. Foi a necessidade de conviver e de interagir com tantas mentes diferentes da nossa. A natureza sabiamente poupou espécies mais individualistas ou que vivem em grupos pequenos de carregar o peso de um cérebro volumoso e que consome tanta energia. E nos diferenciou com um equipamento biológico que permite criar vínculos e resolver conflitos, ao custo de incontáveis desafios psicológicos, como ansiedade, solidão, perdas afetivas e rejeição.

Com a ajuda de uma nova tecnologia, conhecida como agent based modeling, foi finalmente possível comprovar que espécies que vivem em grupos precisam de cérebros maiores e as que vivem em grupos muito grandes e complexos precisam de um que comporte recursos altamente sofisticados, como a linguagem. A investigação foi feita por pesquisadores da Universidade de Oxford para avaliar a demanda cognitiva das decisões sociais, simuladas por uma ferramenta que reproduz situações com muitas variáveis e que não podem ser explicadas com a precisão de uma fórmula.

Nossa extraordinária habilidade de comunicação, resultado de uma necessidade vital de conexão, é um dos aspectos mais fundamentais daquilo que nos faz humanos. A linguagem, assim como a capacidade de interpretar a mente do outro, partindo dos mais sutis e inconscientes sinais, é uma derivação da nossa interdependência, da busca pelo amor, aceitação e aprovação.

A comunicação representa a busca fundamental pelo conforto de termos testemunhas da nossa experiência nesse mundo. Mas mesmo com toda a sua complexidade, transforma apenas uma pequena parte desse filme mental caótico e subjetivo em informações que podem ser compartilhadas e que façam sentido aos outros. Muitos dos nossos pensamentos e sentimentos continuam desordenados, incomunicáveis e, muitas vezes, indecifráveis. Outros são desfigurados por uma comunicação não apenas incompleta, mas suscetível a inúmeras falhas, sendo que muitas delas estão fora do nosso controle e jamais serão esclarecidas.

A linguagem pode não nos salvar da condição solitária de perceber o mundo de uma perspectiva única. Mas nos oferece o alívio de compreender e ser compreendido em um nível que, mesmo dando acesso à beirada do mar de percepções da nossa mente, favorece conexões profundas e significativas.

Além disso, ao tornar mais nítido aquilo que percebemos e sentimos, nos permite ter um maior domínio sobre as emoções e ações. Sobre esse poder das palavras, a psicóloga e escritora americana Tara Brach, uma das mais populares professoras de mindfulness no Ocidente, ensina, em uma de suas meditações guiadas: “Aquilo que você nomeia passa a ter menos controle sobre você. Nomeie um medo e será mais forte que ele. Dê nome a uma reflexão e você sairá do meio da nuvem de pensamento e estará aberto a algo maior”.

Ao ganharmos familiaridade com determinados conceitos, eles passam a fazer parte da forma como operamos. Se integram aos pensamentos, oferecem novas formas de interpretar o mundo e modificam ou formam os padrões de expectativas que temos em relação aos outros e a nós mesmos. Somam-se à nossa própria essência, que a fluidez da língua tem o poder de remodelar. “(…) as palavras têm por característica fundamental serem um reflexo generalizado do mundo. Este aspecto da palavra conduz-nos ao limiar de um tema muito mais profundo e mais vasto – problema geral da consciência. As palavras desempenham um papel fundamental, não só no desenvolvimento do pensamento, mas também no desenvolvimento histórico da consciência como um todo. Cada palavra é um microcosmos da consciência humana”, coloca Vygotsky em Linguagem e Pensamento.

Passamos a enxergar injustiças e desigualdades, a identificar melhor sentimentos como mágoa e remorso e a entender comportamentos movidos pelo orgulho ou ganância depois que esses conceitos são incorporados ao nosso vocabulário. Essa compreensão não ocorre de uma forma restrita e dentro de um tempo limitado. Depende de conhecimentos dominados em níveis variados – mesmo dentro de uma mesma faixa etária e contexto cultural – e aprimorados no decorrer de toda a vida, nas diversificadas formas de interação social e troca de informações. E por não se reduzirem a um conjunto de regras que podem ser transmitidas por meio de métodos sistemáticos, com resultados facilmente medidos, acabam trabalha- dos no meio acadêmico apenas de forma indireta e não planejada.

A educação formal, em geral, espera que estudantes ganhem naturalmente a capacidade de compreensão necessária para assimilar uma quantidade de informações crescente em volume e complexidade. Desconsidera que a comunicação, com suas possibilidades ilimitadas, representa um desafio para muitos e envolve capacidades que podem ser exercitadas no ambiente escolar. Práticas que estimulam o desenvolvimento das habilidades verbais são fundamentais na superação de dificuldades acadêmicas. Mais que isso, ajudam na formação do pensamento crítico e da consciência da intenção por trás dos discursos. E, mesmo entre aqueles que não se intimidam com a flexibilidade que a linguagem exige, exercem um grande impacto na forma como se relacionam com o mundo.

 

MICHELE MÜLLER – é especialista em Neurociências e Neuropsicologia da Educação. Pesquisa e cria ferramentas para o desenvolvimento da linguagem. É autora do blog www.leituraesentido.blogspot.com

GESTÃO E CARREIRA

PODE CONFIAR

O caminho para a inovação e para a construção de equipes de alta performance passa pela segurança psicológica – um conceito em que o RH deve prestar atenção.

Pode confiar

Em 2013, o Google começou a pesquisar o que, afinal, faz uma equipe ser eficiente. A empresa estudou todas as combinações de times passiveis, passando por variações demográficas, étnicas, de gênero e de performance. Depois de anos de estudo, concluiu que não importava se a equipe estava no mesmo lugar, nem o grau de extroversão, nem os resultados individuais, nem o tamanho do time. O que influenciava de verdade era a equipe ter propósito, clareza nos papéis de cada um, responsabilidade e – mais importante do que tudo – segurança psicológica. Esse termo foi cunhado pela pesquisadora Amy Edmondson, da Harvard Business School, em 1999, que o definia como o apoio e a liberdade para que as pessoas façam suas próprias escolhas. Agora, 20 anos depois, ela  afirma que esse talvez não seja o melhor nome “porque dá a sensação de conforto, mas é justamente o oposto. Pode ser, inclusive, muito desconfortável. É sobre franqueza, sobre ser direto, tomar riscos e poder pedir ajuda quando precisar”, afirma em entrevista para a Harvard Business Review IdeaGast.

SEM CULPA

Quando Amy começou a estudar o conceito, ela estava avaliando equipes hospitalares para saber quais cometiam mais erros. Ao contrário da percepção comum, ela descobriu que os times com melhores resultados eram os que mais admitiam os erros e estavam mais abertos a falar de suas falhas e aprender com elas. Apesar de tornar as equipes muito mais produtivas, a segurança psicológica é um conceito ainda pouco difundido porque, segundo Amy, vai contra o instinto humano de “livrar-se da culpa e concordar com o chefe a qualquer custo”. Para garantir que o ambiente seja seguro, o RH e a liderança devem:

1) preparar o cenário e ser transparente quanto ao trabalho e as funções de cada um;

2) convidar os funcionários para o engajamento e questioná-los sobre o que pode ser melhorado; e 3) responder de forma produtiva, ouvindo as sugestões, mudando o que for preciso e ajustando cursos.

Na empresa de soluções anti­fraude ClearSale, não se falava do conceito de segurança psicológica. Mas ele já era praticado internamente. “Esse ambiente seguro foi construído  e ainda é, todos os dias – desde o começo da empresa. Faz parte de nossa cultura permitir que as pessoas se sintam confortáveis para ser quem são, correr riscos e ocupar os espaços que cabem a elas”, diz André Bergel, analista de desenvolvimento humano da ClearSale. Desde a fundação da companhia, nos anos 2000, uma das práticas é a reunião semanal ou quinzenal das equipes, nas quais a hierarquia não existe. “É um espaço para que sejam criadas relações entre as pessoas. Nesses encontros, todas as ideias são válidas e fica claro que não importa só o resultado. É o momento para ser o mais honesto possível”, diz André. A empresa também organiza atividades para trabalhar a colaboração e tem, como um de seus valores, a inovação. “Para que isso aconteça, sabemos que a tolerância ao erro é necessária. Só permitindo e encorajando que as falhas sejam divididas, todo mundo pode aprender e cada um assume seu papel de protagonista.” Os resultados ficam claros na pesquisa de clima: 70% dos funcionários afirmam que sentem, recorrentemente, confiança; e que têm liberdade com responsabilidade; 61% sentem empatia e 67% que a empresa é um ambiente de inovação. Outros 63% concordam que podem expor sua opinião a qualquer momento, de modo a não ser julgado negativamente; 73% dizem ser incentivados a sugerir e apresentar novas opções e formas de realizar as atividades na empresa e 80% concordam que podem ser eles mesmos na empresa Ainda: 66% afirmam confiar em seus colegas e 73% nas decisões tomadas por seu imediato superior.

MUDAR OU MUDAR

Para Bettina Buchel, professora de estratégia e organização na escola de negócios suíça IMD, o chefe direto é o principal responsável por garantir segurança psicológica. “A palavra que vamos começar a ouvir mais é coragem. O líder precisa ter coragem para apoiar os funcionários e eles precisam ter coragem para tomar riscos”, diz Bettina. Somente assim, as companhias se desenvolverão de maneira sustentável. “Nem toda empresa está preparada para ser um ambiente aberto e muitas ainda vão conseguir crescer usando métodos antigos, como intimidação e metas agressivas, mas o resultado é uma alta rotatividade e, consequentemente, altos custos, além da falta de motivação”, diz Bettina. Embora essas organizações ainda não tenham entrado em colapso, vão perder seus talentos e sua capacidade de transformação se não mudarem o modus operandi. Uma das possibilidades para acabar com ambientes tóxicos é criar um sistema de recompensas para as lições que foram aprendidas a partir dos erros, em vez de bonificar apenas os acertos. Mas é preciso encontrar aliados na alta liderança. “Se o RH atua sozinho, leva-se, em média, três anos para mudar a forma como se enxerga o erro. Mas se os executivos abraçarem a ideia, isso é agilizado”, diz Bettina. Nessa transição, é vital garantir a tranquilidade dos funcionários por meio de canais de comunicação, como um de denúncia, para aqueles que estiverem inseguros com a chefia direta possam desabafar.

ERROS COMPARTILHADOS

A mudança nem sempre é fácil, mas é recompensadora. Pelo menos é o que afirma Júlia Fernandes, diretora de RH da farmacêutica Novartis. Presente no Brasil há mais de 80 anos, e com mais de 2.600 funcionários, a multinacional é uma das que mais investem em estudos clínicos, com mais de 1 bilhão de reais que apoiarão pesquisas até 2022. Internamente, a empresa passa por  mudanças que visam à inovação. O CEO global, Vasant Narasimhan, que assumiu em fevereiro de 2018, é o principal porta-voz desse movimento, assumindo, publicamente, os erros que ele e a empresa já cometeram. Em uma visita ao Brasil, ele discorreu sobre uma de suas decisões equivocadas para cerca de 1.000 empregados.

“Falar sobre isso é uma forma de incentivar as pessoas a tomar decisões com coragem em prol da inovação. Ninguém quer correr risco sozinho. É preciso sentir a segurança de que há uma equipe apoiando”, afirma Júlia. Segundo ela, algumas das práticas da empresa que ajudam a proporcionar a segurança psicológica são a autonomia para definição de horários e jornada, o programa de psicologia positiva, que foca os pontos fortes das pessoas para criar equipes de alta performance, e uma nova ferramenta para que os funcionários possam dar feedback para as chefias e, assim, subverter a hierarquia.

“Os líderes precisam ser os responsáveis por garantir que seus subordinados se sintam seguros na companhia. Trabalhamos com um conceito de liderança chamado unboss, que diz sobre sair do papel de controlador e de hierarquia para um caminho de colaboração, diálogo e incentivo, que elimina as barreiras e apoia os times”, a firma Júlia.

MAIS SEGURANÇA, MAIS LUCRO

Mas garantir a segurança psicológica não depende apenas da chefia. Há outras variáveis que devem ser levadas em conta, como os resultados da empresa. Não adianta o gestor direto ser acolhedor e atuar como mentor se o futuro da organização parece sombrio. O funcionário não vai ter segurança psicológica num ambiente que ameaça seu emprego o tempo todo. Por outro lado, se na equação a empresa tem um bom ambiente, mas o líder é ruim, os colegas podem passar a ser o ponto de apoio principal do funcionário. Afinal, a segurança psicológica também está ligada com a maturidade moral da equipe, que deve ser medida por meio de perguntas diferentes das feitas na pesquisa de engajamento. Uma das mais Importantes é: “Ao longo da semana que passou, todos os processos foram tão seguros quanto você gostaria que tivessem sido?” O risco de não avaliar a segurança psicológica na empresa é grande, principalmente em tempos em que o compliance ganha mais espaço. Em um ambiente de medo, as pessoas escondem acidentes para não levar broncas. Quanto maior o receio, maior o cinismo e a possibilidade de haver fraudes. O papel do departamento de RH é fazer o diagnóstico, fortalecer os valores da empresa, dar voz a quem está na ponta da operação, ouvir e investigar denúncias e treinar pessoas que tenham comportamentos tóxicos. Pode parecer multo trabalho, mas, quando a empresa abraça esse conceito, os resultados – inclusive financeiros – são claros. Um exemplo de companhia segura psicologicamente é a Pixar, com 17 sucessos seguidos de bilheteria. Isso porque Ed Catrnull, seu cofundador e líder até julho de 2019 (quando vai se aposentar), sempre atuou para garantir esse ambiente na companhia. Sua ação se dá de duas formas: comportamental, falando dos próprios erros; e estrutural, organizando reuniões de feedback sobre as produções da Pixar. Entre suas dezenas de frases célebres sobre deslizes, ele disse que “quem não está errando, está cometendo um erro ainda pior: sendo levado pelo desejo de evitá-lo” e “erros não são um mal necessário. Errar não é ruim, mas uma consequência inevitável de fazer algo novo”. Ou seja, é hora de deixar todo mundo à vontade para ousar, se sair bem(ou mal) e aprender com isso.

Pode confiar. 2

ALIMENTO DIÁRIO

SEGREDOS DO LUGAR SECRETO

Alimento diário - livro

CAPÍTULO 33 – O SEGREDO DAS LÁGRIMAS

 

Um dos melhores presentes que você pode trazer para seu Rei é o da sinceridade absoluta. Estou falando sobre uma pureza de coração que diz: “Senhor, estou vindo diante de você, porque você realmente é o centro do meu universo. Você verdadeiramente é o motivo pelo qual eu vivo. Meu coração está total e plenamente em você”. Nada ultrapassa o deleite de poder cantar louvores de total consagração com entrega absoluta. Os sentimentos de sinceridade são rapidamente dissipados quando permitimos que a carne deixe nossa consciência pesada. Nenhum prazer terreno vale nossa consciência pesada. Os sentimentos de culpa surgem quando nos sentimos hipócritas perante o Senhor – quando desprezamos as propostas de Deus para gratificar os desejos da carne. Oh, que deleite quando podemos chegar confiadamente diante do trono de Deus com uma consciência limpa! Mesmo sem sermos perfeitos, apesar de lutarmos contra nossas fraquezas, nossos corações o alcançam com desejo ardente.

Denomino isso de “doce sinceridade”. Essa sinceridade do coração acabou com o problema de uma vez por todas: Jesus verdadeiramente é o grande amor do meu coração. Essa sinceridade é “doce”, porque quando você sabe que é totalmente sincero ao vir até Deus, sente a doçura de seu amor recíproco. Isso é “amor é sem hipocrisia” (Romanos 12.9).

Eu me dei conta de que a presença de Deus fica mais forte quando anseio por Ele de todo o meu coração. Quando minha alma anseia por Ele com uma doce sinceridade, chegando até as lágrimas, minha consciência da reciprocidade do afeto de Deus aumenta.

O verdadeiro amor deve ser totalmente sincero, sem ser dividido nem adúltero. Esse é o motivo pelo qual devemos encontrar aquelas medidas que evocam nosso senso de doce sinceridade perante o Senhor. Agora, aqui está a beleza: quando o amor é sem hipocrisia, a doçura dessa sinceridade geralmente é acompanhada por lágrimas.

Dentre os sete salmos que se referem a lágrimas, três são atribuídos à pena de Davi. O homem que teve uma vida secreta absolutamente sincera com Deus foi um homem de lágrimas. Davi chorou: “Não te cales perante as minhas lágrimas” (Salmos 39.12 -ACF). Suas lágrimas eram o endosso de sua sinceridade para com Deus. Obviamente, as lágrimas não são apenas para as mulheres.

Outro salmista expressou a sinceridade do seu choro mencionando suas lágrimas: “Minhas lágrimas têm sido o meu alimento de dia e de noite, pois me perguntam o tempo todo: ‘Onde está o seu Deus?'” (Salmos 42.3).

Há algo sobre as lágrimas que é puro e autêntico. Suponho que seja possível, no sentido técnico, forjar as lágrimas, como os atores aprendem a fazer. Mas vamos ser honestos acerca disso: ninguém consegue fingir lágrimas enquanto está orando. No lugar secreto, quando vêm, as lágrimas são sinceras ou então não vêm.

Portanto, a presença das lágrimas é uma declaração profunda para seu noivo que partiu. As lágrimas são palavras líquidas. As lágrimas dizem mais do que as palavras geralmente conseguem falar. Enquanto as palavras podem, às vezes, conter a máscara de banalidades artificiais, as lágrimas vêm diretamente do coração.

Já chorou? Você é abençoado. Você se esforça para chorar? Clame por isso, pois o Senhor atenderá seu clamor graciosamente.

Choramos porque desejamos ou porque estamos sofrendo; portanto, as lágrimas são a linguagem do desejo. Nós desejamos a Deus, chegando às lágrimas. Se perdermos esse desejo, Ele o cultivará dentro de nós, se afastando, aparentemente, em sua misericórdia. É a fome que nos deixa famintos; é a sede que nos deixa sedentos. A privação gera o desejo.

Não despreze a dor que produz as lágrimas. Derrame seu coração diante de Deus. Ele é um refúgio para nós. Aqueles que “amam muito” ainda lavam os pés do Senhor com as suas lágrimas (veja Lucas 7.36-48).

O choro e as lágrimas sempre chamaram a atenção de Deus. Davi compreendia isso quando escreveu: “Recolhe as minhas lágrimas em teu odre” (Salmos 56.8). Deus não somente atenta para as nossas lágrimas, mas realmente as engarrafa e as guarda como um testemunho eterno em sua presença.

Há dois tipos de enfermidades na Bíblia que causam lágrimas. A primeira é mencionada em Provérbios 13.12: “A esperança que se retarda deixa o coração doente”. Quando a esperança do livramento de Deus é adiada, o coração fica doente. Essa doença do coração produz um gemido das profundezas do espírito e é expressa em lágrimas. Essas são as lágrimas do coração partido e não são desprezadas por Deus. A pessoa desconsolada chora: “Oh, Deus, visite-me! Venha a mim com seu poder e cumpra a sua palavra em minha vida!”.

A outra doença que gera lágrimas é vista em Cânticos dos Cânticos 5.8: “Ó mulheres de Jerusalém, eu as faço jurar: se encontrarem o meu amado, que dirão a ele? Digam-lhe que estou doente de amor!”. Doença de amor é a consequência da autorrevelação restrita de nosso Deus, que se revela para nós obscuramente como se fosse através de um véu ou de um vidro escuro.

Quando o coração é despertado para a beleza do Rei e os olhos anseiam por contemplá-lo, mas Ele se revela em uma fração de sua plenitude, o santo fica doente de amor. A pessoa que está doente de amor clama: “Mostre-me sua glória, Senhor! Desejo vê-lo, desejo conhecê-lo!”.

A doença do coração é o produto do poder não correspondido; a doença de amor é a consequência de um amor não correspondido. Davi falou sobre as duas paixões quando, durante os anos em que se escondeu no deserto, clamou: “Quero contemplar-te no santuário e avistar o teu poder e a tua glória” (Salmos 63.2). O doente do coração chora: “Mostra-me sua mão!”. O doente do amor chora: “Mostra-me sua face!”.

Contaram-me a história de certo jovem que estava procurando um grande progresso em sua vida em uma determinada área. Depois de ter feito tudo o que sabia para ganhar o grande progresso espiritual, escreveu para o General William Booth (fundador do Exército da Salvação) pedindo-lhe conselho. O General respondeu duas palavras simples: “Tente lágrimas”.

William Booth sabia o segredo. A câmara interna do orador ganha impulso a partir do poder líquido das lágrimas. Você anseia por uma realidade maior em seu caminhar com Deus? Tente as lágrimas.

OUTROS OLHARES

CIDADÃ DE SEGUNDA CLASSE

Jornalista relata a perseguição que sofre hoje na Índia após denunciar o tratamento desumano dado à comunidade muçulmana.

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Nasci no norte da Índia com apenas 800 gramas e tive de passar um tempo na incubadora. Todos diziam que eu não sobreviveria. Meus pais me levaram para Mumbai, onde cresci. Em 1993, quando eu tinha 9 anos, conflitos estouraram na Índia. Como éramos a única família muçulmana no bairro, ouvimos boatos de que eu e minha irmã seríamos atacadas pelas gangues. Fomos levadas no meio da madrugada para um lugar seguro e passamos meses ali, sem saber se nossa família voltaria para casa a salvo. Acho que foi a primeira vez que me dei conta de que eu era muçulmana.

Fui uma criança fraca porque tive poliomielite aos 5 anos, e minha mão esquerda e minha perna direita não funcionavam bem. Cresci com esse complexo de inferioridade, de que não era boa o suficiente, de que ninguém iria querer brincar comigo porque eu era aleijada. Depois que os conflitos começaram, nos mudamos para um bairro muçulmano. Na escola havia uma grande segregação entre hindus e muçulmanos, e eu não tinha amigos, porque ninguém queria ser amigo da menina muçulmana. Eu chorava para não ir para a escola. Minha mãe me forçava. Eu era muito tímida e tinha medo de homens. Foi assim na escola, na faculdade, na pós-graduação.

Novos conflitos eclodiram em 2002, quando eu tinha 19 anos. Estava vendo pela televisão e pensei: “Droga. Preciso fazer alguma coisa”. Menti para meus pais e fui trabalhar como voluntária nos campos de refugiados onde os muçulmanos ficavam. Fingi ser hindu, indo de um campo a outro, e aí entendi o que significava ser um muçulmano na Índia. Foi também quando descobri que queria ser jornalista. Era tão chocante estar ali, vendo as atrocidades diante de meus olhos. Queria mostrar para as pessoas os crimes contra os muçulmanos. É como nos Estados Unidos, onde os afro-americanos começaram a dizer “vidas negras importam” quando crimes eram cometidos contra eles. Na índia, “vidas muçulmanas também importam”. Senti que a única saída para mim era fazer jornalismo.

É atroz ser muçulmano na Índia nos dias de hoje. Os muçulmanos são linchados nas ruas, inclusive crianças, por suspeita de comer carne ou por exibir uma barba. Nunca fomos realmente aceitos como indianos, há um sentimento majoritário de que todos os muçulmanos pertencem ao Paquistão. Nunca fomos vistos pelo que nós somos, mas por nossa religião. Como se não merecêssemos direitos iguais. Tudo isso aumentou no governo de Narendra Modi, nos últimos cinco anos. Por isso, muitos de nós temos levantado nossas vozes. Tenho escrito textos sobre o que significa ser muçulmano na Índia.

Há poucos dias, o primeiro-ministro indicou para as atuais eleições um candidato que é acusado no tribunal de matar 50 muçulmanos em um atentado a bomba. A situação na índia atual é esta: se você mata muçulmanos, pode se candidatar. Somos hoje considerados cidadãos de segunda classe, especialmente se você é mulher, muçulmana e tem sua própria voz. Eu me sinto como se eles dissessem: “Como você ousa falar sendo mulher, muçulmana e contrária ao governo?”.

Em 2010, decidi me disfarçar. Coloquei oito câmeras ocultas em meu corpo e usei um nome diferente, hindu. Usei a identidade de uma estudante de cinema americana, fingindo que odiava muçulmanos, e fui para o estado de Gujarat, onde os conflitos de 2002 aconteceram quando Modi era governador. Em oito meses de investigação, como infiltrada, indo de ministério em ministério, ficando amiga dos funcionários importantes do governo como se eu fosse parte da família deles, consegui descobrir como o governo de Modi permitiu que muçulmanos fossem mortos, como o próprio governo permitiu que o ministro do Interior do Estado fosse morto.

Quando voltei, meu editor decidiu não publicar a história, mesmo tendo um contrato para a publicação do livro, porque achou que Modi fecharia sua empresa. Contatei todos os jornais do país para tentar publicar e não consegui. Comecei a ter crises de ansiedade, e meu psiquiatra disse: “Você precisa tirar isso de seu sistema”. Peguei um empréstimo e publiquei 500 cópias do livro Gujarat files: anatomy of a cover up (Arquivos de Gujarat: anatomia de um encobrimento, em tradução livre). Fiz um lançamento em uma livraria em Nova Delhi, estavam lá todos os políticos, e fui ovacionada de pé. No dia seguinte, nenhum jornal publicou uma linha sequer. As pessoas estavam com medo. Como o conteúdo era muito forte, a notícia começou a se espalhar, e fui a escolas e a universidades para falar do livro. Vendi 500 mil cópias e fui traduzida em 17 idiomas.

Por causa do livro, eles transformaram minha vida em uma desgraça. O governo grampeou o telefone de minha casa, da casa de membros de minha família. Tudo piorou no ano passado, quando ganhei um prêmio do Outlook Social Media Awards como ícone jovem do ano. Colaram uma imagem minha borrada em um vídeo pornô, que circulou em toda a Índia. Depois divulgaram meu telefone e meu endereço nas redes sociais. Começaram a espalhar tuítes falsos em meu nome, como se eu tivesse dito que apoiava o estupro em nome do Islã Eu recebia imagens capturadas do vídeo pornô a cada minuto em meu celular, de pessoas perguntando se eu queria fazer sexo com elas. Foi assim que eles agiram para tentar me humilhar.

Quando o vídeo apareceu, passei três dias no hospital, com crises de ansiedade e palpitações. Quando finalmente tive coragem de ir à polícia denunciar a montagem, os agentes viram o vídeo e começaram a rir de mim. Mesmo levando todas as provas do que fizeram comigo na internet, nenhuma justiça foi feita até agora. Acho que não vai acontecer nada, porque as pessoas continuam compartilhando o vídeo pornô, inclusive alguns políticos na Índia. Como esperar justiça assim?

Eu recebia ameaças de morte em meu telefone. Quando denunciei essas ameaças ao governo, me ofereceram uma licença para porte de armas, mas não é isso que quero. Eu quero segurança, mas esse governo não me dá isso. No ano passado, a ONU pediu pela primeira vez que o governo me protegesse, mas nada aconteceu, o governo nem sequer comentou o pedido. Acho que isso tudo aconteceu porque eu continuo expondo o governo todos os dias com minha investigação. Quanto mais eu falo sobre as mortes de muçulmanos, quanto mais eu falo do ódio contra os muçulmanos neste país, mais sou perseguida na internet.  Mas eu sou jornalista, eu tenho uma voz, e esse é o trabalho que eu faço. Escolhi essa profissão porque queria mudar as coisas. Eles podem achar que estão me assustando, mas não estão.