GESTÃO E CARREIRA

INSTRUMENTOS DE DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL

Ações para o desenvolvimento humano têm seu tempo próprio e devem se fundamentar teoricamente para garantir bons alicerces.

Instrumentos de Desenvolvimento Organizacional

Preocupa-me muito a interface entre teoria e prática, a interface entre ciência e fazer na Psicologia. Desde os tempos de estudante de Psicologia, talvez por ter tido uma experiência profissional anterior à graduação, como empregado de uma grande instituição financeira, e estar estudando Psicologia em uma universidade pública focada na construção científica, questiono o quão difícil é a interface entre ciência e prática profissional. Não obstante, ao atuar inicialmente na área de Psicologia Organizacional e Recursos Humanos, sentia que o ardor do dia a dia, a correria para atender prazos, muitas vezes, dificultavam a mim e a colegas a adequada atualização científico-teórica para embasar as atividades em recursos humanos. Mais de 25 anos decorreram entre minha formação e o momento atual, o dinâmico percurso profissional levou-me ao magistério do ensino superior em Administração de Empresas e Psicologia, possibilitando-me ensinar Psicologia para administradores e Administração para psicólogos, sem, contudo, deixar de lado o exercício prático da profissão de psicólogo organizacional.

Esse percurso profissional promoveu a construção de um olhar crítico e capaz de, sempre, buscar a interface teórico-prática, o que me levou à criação e publicação de instrumentos de avaliação e intervenção, como o Baralho dos Valores e Atitudes Profissionais (Sinopsys, 2015) e o Baralho dos Comportamentos de Liderança (Sinopsys, 2017), e esse olhar crítico balizará minhas palavras sobre avaliação psicológica no contexto organizacional.

Para falar sobre avaliação psicológica nas organizações é preciso começar, sem dúvida, falando da identidade do psicólogo organizacional. Há tempos, Wanderlei Codo cunhou a expressão “lobo mau da Psicologia” ao se referir, simbolicamente, a como era vista a atuação do psicólogo organizacional. Tal expressão tornou-se clássica dado o conteúdo identitário que ela encerra. Será que somos vistos como “lobo mau” pelos nossos pares e clientes? Somos vistos como aquele que engana os clientes (candidatos, funcionários etc.) para alcançar o nosso objetivo? Para quem o psicólogo organizacional trabalha? Para o capital ou para a Psicologia? Res­ pondo dizendo que para ambos, sim, é possível trabalhar para os dois sem perder a identidade de psicólogo que nos constrói e possibilitando a construção de uma sociedade capitalista e biopsicossocialmente saudável.

Vamos começar falando da avaliação psicológica. No que nós, psicólogos organizacionais, no exercício corrido da profissão nas organizações, nos baseamos para emitir pareceres psicológicos e  psicoprofissionais? Há inúmeros instrumentos publicados pela internet, de acesso rápido e que  não são considerados, oficialmente pelo Conselho Federal de Psicologia, como testes psicológicos.  Não vou nomeá­los, mas sei que no meio de RH muitos os utilizam, dada a sua praticidade e acesso por qualquer profissional, uma vez que não são restritos a psicólogos. Porém, qual a confiabilidade que tais instrumentos proporcionam e seus parâmetros psicométricos?

 PROJETO

Certa vez, fui convidado a ingressar em um projeto de desenvolvimento profissional que já estava em curso e os participantes, executivos de uma grande empresa, já haviam passado por uma suposta “avaliação psicoprofissional”, da qual eu não havia participado, e nessa avaliação foram utilizados dois desses instrumentos. Ao começar o trabalho com os executivos, alguns me disseram que eles mesmos não confiavam no resultado de suas avaliações, porque haviam respondido parte na sala de embarque do aeroporto e parte enquanto seus colegas se organizavam para começar uma reunião, já que a resposta ao instrumento era via internet. Como posso eu, profissional, confiar nos resultados dessa avaliação se o próprio avaliado sabe que ela não é confiável? Desse exemplo observo um problema que tem se expandido com a onda do coach. Muitas avaliações, ditas psicológicas, têm sido feitas com instrumentos sem base teórica confiável, sem parâmetros e estudos prévios adequados que sejam capazes de proporcionar fidedignidade aos resultados obtidos, distanciando, cada vez mais, os profissionais de RH e Psicologia Organizacional dos parâmetros científicos que balizam a profissão.

Dentro da Psicologia, somos regidos pelo Código de Ética e Normativas do Conselho Federal de Psicologia (CFP), e estas são bem claras de que ao realizar uma avaliação psicológica com uso de testes, é necessário que sejam utilizados os testes com parecer favorável para o uso, parecer emitido pelo Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos – Satepsi. O Satepsi, trabalhando com parâmetros internacionais de confiabilidade de testes psicológicos, garante que o instrumento com parecer favorável cumpre, em sua estrutura, as condições de confiabilidade dos resultados. Mas não basta a garantia do Satepsi ao instrumento, a forma como este será utilizado pode interferir diretamente nos resultados, ocasionando viés na interpretação.

Toda avaliação psicológica deve ser realizada em condições controladas, apresentadas nos manuais dos instrumentos. A não garantia dessas condições no momento da avaliação pode prejudicar os resultados. Não se pode responder a um teste psicológico na sala de embarque de um aeroporto enquanto se espera um voo, por exemplo.

Instrumentos de Desenvolvimento Organizacional. 4

FERRAMENTAS

Outro ponto de extrema importância diz respeito à escolha do instrumento, e aqui a interface entre o conhecimento psicológico amplo e a prática se mostra muito presente. Deve-se fazer sempre as seguintes perguntas: O que preciso avaliar? Para que estou fazendo a avaliação? O que vou fazer com os resultados da avaliação? A resposta a essas perguntas, em função de uma reflexão ampla que parte do conhecimento em Psicologia, possibilita a escolha dos instrumentos mais adequados, garantindo confiabilidade nos resultados. Após a avaliação, é direito do indivíduo avaliado receber uma devolutiva, e aí, como esta deve ser feita? Por experiência digo que a devolutiva pode tanto proporcionar crescimento como estagnação, cristalização e, por que não, destruição. É fato que muitos dados que obtemos em uma avalição psicológica podem não ser de conhecimento do indivíduo avaliado e, ao devolver esses resultados, é preciso muito cuidado.

Devolutivas em avaliação psicológica consistem em uma das atividades do psicólogo, e ao psicólogo cabe promover o desenvolvimento da pessoa humana em seu contexto biopsicossocial. Portanto, aqui reside uma grande oportunidade de exercício de nossa “missão” profissional. Assim, os dados a serem devolvidos ao indivíduo avaliado devem estar organizados de forma contextual, possibilitando uma discussão crítica destes no universo vivencial do indivíduo, pontuando necessidades e potenciais e dando direções para suprir as necessidades. A devolutiva deve, antes demais nada, ser um ato de construção do indivíduo enquanto pessoa.

O fato é que vivemos hoje em uma sociedade complexa, vivemos a modernidade líquida no sentido do termo cunhado pelo sociólogo Zygmunt Bauman. Há pressa, há urgência que levam a uma avidez e voracidade por resultados práticos, o que não combinam muitas vezes, com o rigor científico, e leva os profissionais a cometerem equívocos que poderiam, facilmente, ser evitados.

O exercício da consultoria em Psicologia Organizacional está marcado por essas características de pressa por resultados e é possível obter resulta­ dos relativamente rápidos sem deixar de lado a base científica. Em minha prática profissional, vivi duas outras situações nas quais eu precisava promover o desenvolvimento de habilidades específicas detectadas nos indivíduos que avaliei, isso por meio de uma devolutiva. Foi aí que, fundamentado na teoria cognitiva, desenvolvi dois instrumentos que possibilitavam, de modo lúdico, o desenvolvimento das habilidades que eu precisava desenvolver em meus clientes.

O primeiro deles foi o Baralho dos Valores e Atitudes Profissionais, no qual fundamentei-me na teoria da dissonância cognitiva, de Leon Festinger. Esse baralho, composto por diversas cartas coloridas, parte da identificação de três habilidades que estão sendo valorizadas pelo indivíduo no exercício de sua profissão e três que estão sendo desvalorizadas, isso num universo de 20 habilidades comuns ao exercício profissional atual. Após a escolha inicia-se um processo, por etapas de reflexão, do por que está valorizando ou não, de onde, na história pessoal do indivíduo, vem o motivo dessa valorização ou desvalorização. Reflete-se quanto às consequências e, finalmente, decide-se o que deve ser feito, tudo isso feito de modo organizado por meio de cartas. O Baralho dos Valores e Atitudes Profissionais possibilita que o indivíduo reflita sobre suas habilidades mais e menos desenvolvidas e, provocado por uma dissonância em suas cognições, repense a forma como está exercendo tais habilidades no cotidiano de seu trabalho, proporcionando desenvolvimento ao mesmo.

Já o Baralho dos Comportamentos de Liderança fundamenta-se na teoria da ação racional, de Fishbein e Ajzen, e preconiza que as ações de um líder devem ser pensadas em função do grupo com o qual trabalha e dos objetivos que deseja alcançar. Por meio de cartas que simulam situações envolvendo habilidades, como de comunicação, assertividade, negociação e empatia, entre outras, o indivíduo deve identificar que tipo de comportamento teria na situação e o que espera obter com este. Esse jogo proporciona uma reflexão sobre os comportamentos que estão sendo emitidos pelos indivíduos no exercício da liderança. Ao jogar o baralho, a forma como as cartas devem ser organizadas leva a uma reflexão da ação que está sendo adotada ao exercer cada uma das habilidades de liderança e o quão eficientes estão sendo essas ações, possibilitando um redirecionamento mais positivo e eficaz destas.

Tanto um baralho como o outro são instrumentos complementares a uma avaliação psicológica, não são testes psicológicos, mas instrumentos que auxiliam, de modo construtivo, na devolutiva psicológica e no desenvolvimento individual no campo organizacional.

Enfim, a modernidade está líquida mesmo, a modernidade cobra urgência, gera voracidade, mas, ainda, qualquer ação para desenvolvimento humano, organizacional ou de um país, tem seu tempo próprio e deve fundamentar-se teoricamente para garantir bons alicerces ao desenvolvimento humano.

Instrumentos de Desenvolvimento Organizacional. 2

A CARTA NA MANGA PARA UM GRANDE LÍDER

Embora seja perpetuada a ideia de que uma pessoa é um “líder por natureza” e nasceu com essa característica, a liderança pode ser desenvolvida. O Baralho de Comportamentos de Liderança explica os principais comportamentos de um líder, trazendo à reflexão e o autoconhecimento para empresas e profissionais. Em forma de  jogo de cartas, foca nas seis habilidades principais para a atuação de um líder: comunicação interpessoal, empatia, assertividade, abordagem e condução, negociação e tolerância ao estresse. “O baralho constitui-se em uma importante ferramenta para trabalhos de desenvolvimento de liderança por meio de treinamentos, atendimentos individuais e  trabalhos de coaching”, explica Benzoni. A iniciativa possibilita que atuais líderes pratiquem uma análise de suas atitudes durante o trabalho, quais seriam as melhores formas de resolver alguma situação, além das consequências que isso traz na equipe.

Instrumentos de Desenvolvimento Organizacional. 3

TEORIA DA DISSONÂNCIA COGNITIVA

O Psicólogo nova-iorquino, Leon Festinger (1919-1989) se tornou famoso pelo desenvolvimento   da teoria da dissonância cognitiva. Festinger também elaborou e propagou a teoria da comparação    social, na qual as pessoas avaliam seus desejos e opiniões por intermédio da comparação com outros indivíduos. Tornou-se bacharel em Ciência pelo City College, de Nova Iorque, em 1939. Após completar os estudos de graduação, ingressou na Universidade de Iowa e      recebeu o título de PhD em 1942.                                                        

 

                                                          

ALIMENTO DIÁRIO

SEGREDOS DO LUGAR SECRETO

Alimento diário - livro

CAPÍTULO 30 – O SEGREDO DE PERSEVERAR

 

À medida que nos preparamos para a maratona completa da corrida cristã, não devemos apenas coletar nosso maná diário, mas também crescer em semelhança a Cristo no tocante à perseverança.

Todas nós temos períodos de deserto, quando tudo em nossa vida espiritual está seco, empoeirado e sem inspiração. E a única maneira de atravessar esses momentos é tomando uma decisão antecipada de que não importa o quão árduo venha a ser o trabalho, nunca desistiremos de nossa busca por Deus. Iremos perseverar em Cristo a despeito de tudo. Vou revelar-lhe mais um segredo: este tipo de comprometimento tenaz para perseverar abre caminho para as dimensões mais significativas de relacionamento com o Senhor.

Esses períodos não acabam apenas com a monotonia da mesmice, eles são necessários para a produtividade. Nada pode viver debaixo de sol contínuo. Constante alegria e felicidade, sem nuvens no horizonte, produz aridez. A noite é tão importante quanto o dia; o sol deve ser acompanhado pelas nuvens e pela chuva. Apenas sol contínuo cria um deserto. Não gostamos de tempestades, mas elas fazem parte da vida. A chave para termos vitória está em encontrar a forma de suportá-las de modo que não nos desalojem do lugar secreto com Deus.

É fácil perseverar nos bons momentos. Mas é nos momentos difíceis que nossa perseverança é comprovada. Quando os tempos ficam difíceis, é tentador negligenciar o lugar secreto. Jesus, entretanto, manifestou exatamente a tendência oposta. Quando estava sofrendo, buscou o lugar de oração. Seu período no Getsêmani é um grande exemplo do seu modo de agir: “Estando angustiado, ele orou ainda mais intensamente” (Lucas 22.44). Quando Jesus sofria, Ele orava. Quando sofria mais, Ele orava mais intensamente. Esse era o segredo de Jesus para resistir ao horror de seus sofrimentos. Ele se preparava através da oração para resistir à dor. Se reagirmos adequadamente, o sofrimento poderá ser, na verdade, um presente. A dor pode ocasionar um grande ímpeto para orar – se permitirmos que isso sirva de trampolim para nos aproximar de Deus e não para nos afastar dele.

Paulo orou para que os colossenses fossem “fortalecidos com todo o poder, de acordo com a força da sua glória”, para que tivessem “toda a perseverança e paciência com alegria” (Colossenses 1.11). Um dos maiores desafios, na hora da adversidade, é sofrer durante um longo período com alegria. Isso não é possível por meio da força humana! Por causa disso Paulo orou para que eles pudessem ser “fortalecidos com todo o poder”, pois o poder de Deus permite a alegria em meio a longos períodos de sofrimento.

Ter alegria durante o sofrimento é uma qualidade divina, e a sentença “perseverança e paciência com alegria” é aplicada ao próprio Deus. Considere o quanto Deus sofre, visto que compartilha o sofrimento do mundo. E por quanto tempo tem sofrido! E apesar de todo o sofrimento, Deus é mais forte que qualquer um de nós pode imaginar e também sente grande alegria. Somente Deus pode sofrer tanto e, ainda assim, sentir alegria.

Quando somos chamados a perseverar com grande alegria, é imperativo que encontremos a consolação do lugar secreto. Esse é o lugar onde somos preenchidos e “fortalecidos com todo o poder” durante um período de longo sofrimento. Colocando de uma forma simples, a perseverança divina é impossível de ser adquirida sem vida secreta com Deus bem alicerçada.

Em minha opinião, o sofrimento só pode ser aceito com alegria quando compreendemos o propósito de Deus para aquela dor. “Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança” (Tiago 1.2-3). A única maneira de sentir alegria em meio às provações é através do “saber” – saber o propósito de Deus para elas.

Mas como podemos aprender sobre os propósitos de Deus em meio aos nossos sofrimentos? A busca secreta de Deus em sua Palavra é que revelará o propósito para nós. À medida que vemos como Ele conduziu os santos da Bíblia ao longo de suas adversidades, começamos a ver seu coração nos conduzindo através dos mesmos tipos de vitórias gloriosas. O que capacitou Paulo a resistir ao “seu espinho na carne” foi o fato de Deus revelar-lhe seu propósito acerca do espinho. Assim que Paulo viu o propósito, pôde cooperar com a graça de Deus.

Paulo inventou um termo fascinante: “a perseverança… procedente das Escrituras”. Ele é encontrado em Romanos 15.14: “Pois tudo o que foi escrito no passado, foi escrito para nos ensinar, de forma que, por meio da perseverança e do bom ânimo procedentes das Escrituras, mantenhamos a nossa esperança”.

A palavra original para “perseverança” (grego, hupomone) significa “constância, perseverança, continuidade, suporte, firmeza, longanimidade”. A Bíblia é a minha fonte de constância. Sempre que me volto para ela, sou renovado em minha postura de aguardar somente em Deus. Ela não só me sustenta e me capacita a perseverar, mas o testemunho dos propósitos e maneiras de Deus agir são consistentes de Génesis a Apocalipse.

Quando vejo o padrão uniforme das Escrituras, que Deus por fim revela sua salvação àqueles que perseveram, sou fortalecido em esperança. As Escrituras falam da perseverança dos santos tão frequentemente que dizem que as próprias Escrituras são perseverantes!

A Bíblia enaltece todos os que buscam compreender o caminho que Deus estabeleceu para eles: “A sabedoria do homem prudente é discernir o seu caminho, mas a insensatez dos tolos é enganosa” (Provérbios 14.8). É no santuário de sua presença que ganhamos compreensão dos enigmas da vida (Salmos 73.17). O santuário de sua presença é onde Deus revela o propósito, que por sua vez nos capacita a perseverar em meio às dificuldades com alegria, por sabermos que Ele está agindo em todas as coisas para o nosso bem (Romanos 8.28).

Um dos símbolos das Escrituras para esse processo é a pérola. A pérola é formada dentro de uma ostra que experimentou o sofrimento por causa de uma partícula estranha de areia que ficou grudada dentro de sua concha. A pérola representa a transformação eternamente valiosa que Deus opera dentro de nós no momento da dificuldade. Não existe nada que nos transforme tão pronta e profundamente como uma dedicação ao lugar secreto em meio ao rigor do sofrimento.

Quanto mais tempo o grão de areia fica dentro da concha da ostra, mais valiosa se torna pérola. Portanto, o valor formador da tribulação é, às vezes, diretamente proporcional à duração da provação. Quanto maior o sofrimento, mais valiosa a pérola. É a confiança neste fato que nos capa­ cita a perseverar com alegria. Quando perseveramos em amor em meio às dificuldades, nos qualificamos para adentrar os portões da pérola – pois a única maneira de entrar na cidade eterna é através dos portões de pérola do “tesouro aperfeiçoado pelas dificuldades”.

O apóstolo João fornece um exemplo fascinante da recompensa alcançada pela perseverança no lugar secreto, mesmo em face às dificuldades. Já com idade avançada, João foi exilado “na ilha de Patmos por causa da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (Apocalipse 1.9). Não há dúvidas de que ele, aos noventa anos, sofria com os rigores de uma prisão em uma ilha. Ele sofria em seu corpo, padecia as dores da solidão e inevitavelmente sentia como se estivesse terminando os seus dias inutilmente.

Apenas sobreviver nesta ilha não era sua ideia para um grande final da sua corrida. Entretanto, em vez de sucumbir devido à preocupação consigo próprio ou ao desânimo, ele disse: “No dia do Senhor achei-me no Espírito” (Apocalipse 1.10). Em outras palavras, ele foi proativamente perseverando em meio às suas dificuldades, dedicando-se ao relacionamento de amor no lugar secreto com seu Amado.

Qual foi a resposta de Deus à perseverança e à paciência de João? Deus o honrou dando-lhe uma revelação inigualável da beleza e da glória de Jesus Cristo, que ele pôde retratar de forma maravilhosa no Livro do Apocalipse. Era como se Deus estivesse dizendo: “Honro aqueles que dão seu amor a mim no lugar secreto enquanto perseveram no fogo das provações e dos sofrimentos. Eu os recompenso capacitando-os a contemplar a luz do conhecimento da glória da minha majestade que é encontrada na face de meu maravilhoso Filho”.

Jamais desista! Hoje pode ser o dia em que Ele recompensará sua devoção com uma revelação sublime da glória eterna do Homem, Jesus Cristo nosso Senhor!

Através do poder do Espírito de Deus, qualquer provação pode ser suportada com alegria por causa da extravagância dessa recompensa.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PSICOLOGIA NA PRÁTICA DO ESPORTE – II

Desempenho mental e preparação emocional são aspectos imprescindíveis para a conquista de vitórias no esporte, mas alguns requisitos podem ser aproveitados também na vida pessoal e profissional

Psicologia na prática do esporte

HABILIDADES PSICOLÓGICAS DEVEM SER SEGUIDAS

É nítido e incontestável que o desempenho e a preparação mental são fatores fundamentais para a obtenção do sucesso na atuação do esportista de alto rendimento. No entanto, essas conquistas precisam ficar restritas apenas ao esporte. Existem algumas habilidades psicológicas que devem ser seguidas por esses competidores, e pessoas focadas em alcançar o sucesso.

EQUILÍBRIO EMOCIONAL

Os esportes competitivos talvez sejam um dos poucos fenômenos sociais em que as emoções oscilam abruptamente. Se nos espectadores é comum, imagine nos atletas. Desenvolver o   equilíbrio emocional é fundamental para qualquer pessoa. No esporte ele chega a ser primordial, pois um erro pode ocasionar uma avalanche de sentimentos negativos e levar à derrota. Saber retornar desses momentos (frequentes) dos jogos e competições é uma habilidade que pode ser diferencial para uma decisão e até para a carreira de qualquer atleta. A tensão exacerbada proporciona emoções negativas, como raiva, frustração e   medo. Como consequência, podem desencadear problemas durante a atuação, incluindo a tensão muscular e desvio de concentração, que propicia distrações, lentidão de raciocínio na execução de golpes, movimentos lentos, entre outros.

Psicologia na prática do esporte II . 2

CONCENTRAÇÃO

É comum ouvir alguém dizendo “Concentre-se”, “Foco”. No esporte, estar concentrado é um dos aspectos importantes para o bom rendimento. A concentração é um tipo de percepção. A percepção é basicamente uma capacidade cognitiva, que faz reconhecer o mundo ao redor através dos sentidos (visão, tato, olfato, audição, paladar). Portanto, para perceber alguns eventos que nos cercam, o cérebro utiliza diferentes tipos de atenção.

O ambiente está cercado por vários estímulos que aguçam a percepção, e a atenção seleciona e codifica alguns deles que interessam no momento. Quando se foca em poucos estímulos, utiliza-se a concentração – que nada mais é do que prestar mais atenção naquilo que é relevante naquele determinado momento. Ou seja, no adversário, nos pensamentos e nas sensações corporais. Quando se ouve alguém falar de foco, é preciso lembrar de um feixe de luz iluminando um local escuro. A falta de concentração em determinados momentos de uma competição é uma das queixas mais frequentes que os psicólogos do esporte têm de lidar no seu trabalho.

Estar concentrado é uma habilidade psicológica muito importante para qualquer atleta, porém pode haver níveis diferentes de concentração, dependendo da situação exigida na competição. Por exemplo, para um pivô no basquete e um atleta de tiro esportivo as exigências são muito distintas. Durante uma competição, a concentração pode ser determinante para o resultado.

 TOLERÂNCIA À FRUSTRAÇÃO

As derrotas podem ensinar mais do que as vitórias. Pouco tempo atrás, o tenista Novak Djokovic era um coadjuvante em relação a Rafael Nadal e Roger Federer. Em diversas entrevistas, ele disse que aprendeu muito com as suas derrotas. Esse foi seu principal combustível para se desenvolver, estudar os seus erros e obter a confiança para perseverar. Alguns adversários são mais do que simplesmente rivais, eles podem proporcionar indireta- mente as condições para a evolução de um atleta. Se a derrota equivale ao fracasso, nunca se ganhará a batalha da confiança com esse tipo de crença (Rolo e Haan, 2009).

DESEMPENHO SOB PRESSÃO

Controlar a ansiedade nos momentos mais difíceis é comportamento típico que ocorre durante as competições e que, naturalmente, põe pressão em quem está atuando. Todo atleta, antes do início de uma partida, sente-se ansioso, agitado, apreensivo de que possa acontecer algo inesperado. Não é adequado que essas sensações cresçam e se tornem amedrontadoras a ponto de não conseguirem realizar plenamente suas capacidades. Aceitar que a ansiedade é inevitável na competição e saber que pode lidar com ela são habilidades essenciais para recuperar o controle psicológico na sequência de acontecimentos inesperados ou distrações (Samulski, 2008). Superar o medo – ele é uma emoção natural do ser humano e pode ser controlado.

O psicólogo do esporte canadense, Garry Martin, ensina que, para eficácia dos aspectos psicológicos – quando eles são transferidos para o ambiente das competições –, os treinos devem ser o mais semelhante possível às exigências durante o torneio. É importante treinar taticamente, mas deve ser dado tempo para treinar questões mentais. Como isso pode ser feito? Simulando condições típicas competitivas, treinos mais intensos, com jogadores sendo mais agressivos, atletas realizando funções diferentes das habituais, com torcida a favor ou contra, com ruído e som alto, com placares adversos etc. Na preparação para os Jogos Olímpicos de Pequim 2008, a equipe de badminton chinesa utilizou muitos treinos simulados, principalmente com o ginásio lotado, para ensinar aos seus atletas como lidar com a pressão da torcida e a adversidade de um jogo, já que esse esporte é um dos mais populares na China. Portanto, a pressão pelo ouro olímpico seria inevitável. Os atletas chineses não decepcionaram: levaram todos os ouros da modalidade.

Mesmo os grandes gênios do esporte, em algum momento da carreira, tiveram obstáculos e percalços e precisaram se superar para reconduzir sua trajetória. Essa característica é chamada de resiliência, termo que, assim como a palavra estresse, vem da Física, e a  Psicologia emprega para designar o indivíduo que consegue ultrapassar grandes adversidades, resistir às pressões e, com muito esforço, reconduzir a sua vida. Na resiliência, a motivação é componente primordial de todo o processo de superação.

AUTOCONFIANÇA

Confiar em si mesmo e na equipe é uma habilidade que deve ser desenvolvida. Quem não a possui dificilmente consegue se dar bem no esporte competitivo. Autoconfiança é diferente de soberba; é entender que o atleta possui qualidades e também limitações, é saber utilizar as qualidades nos momentos negativos e trabalhar as limitações nos treinos.

Assim como saber perder, aprender com as derrotas é uma lição importante, valorizar e usufruir das vitórias também é um comportamento que estimula a autoconfiança. Nos momentos de crise e adversidade é necessário se lembrar das sensações da vitória, do prazer proporcionado ao conseguir um objetivo.

Pensar positivo, ter uma atitude positiva, verbalizar coisas positivas são fatores tão importantes em treino quanto em competição. Essas ações repercutem no corpo, deixando-o mais relaxado e equilibrado para executar os movimentos necessários (Samulski, 2008). Corpo e mente estão interligados e, por isso, as atitudes negativas também refletem em nossos músculos. Como consequência, entre outros aspectos, ocorrem desequilíbrio e diminuição da performance.

Em competição, quanto mais enfrentam adversidades, mais positivos têm que ser para construir confiança e autoestima. A confiança está relacionada diretamente ao êxito percebido. Então, muitas vezes os atletas só acham relevantes as vitórias, quando o mais importante é a atitude durante a competição. Ou seja, há jogos que se vence jogando mal e outros que se é derrotado jogando bem (Gallwey, 2004).

 MOTIVAÇÃO

É possível definir motivação basicamente como os motivos que levam às ações em busca das metas em todos os aspectos da vida. Pode ser exemplificada também como a direção e a intensidade dos esforços. Motivação é uma “energia psicológica” que faz com que a pessoa se comporte de determinadas maneiras. Para saber o que motiva é imprescindível ter autoconhecimento. Portanto, quando se fala em motivação não existe “receita de bolo”, pois ela é pessoal, individual e exclusiva. Não há motivação sem busca por metas.

Segundo Samulski (2008), as metas podem tornar os sonhos e ambições profissionais palpáveis, desde que se faça algo para alcançá-los. É preferível, do ponto de vista psicológico, que se pretenda alcançar metas de atuação em vez de resultados. As metas de atuação podem ser controladas. Os resultados, não. As metas de atuação são de esforço, por exemplo: ter uma boa atitude durante o jogo; manter-se confiante nos momentos difíceis; usar a agressividade positivamente sem deslealdade. Esse tipo de meta é mais fácil de executar, depende exclusivamente do indivíduo. As metas por resultados (ganhar um torneio, chegar às quartas de final, golear um adversário, por exemplo) são mais complexas de se atingir, pois não dependem funda- mentalmente do indivíduo, mas de outras variáveis que não podem ser controladas e a probabilidade de frustração é muito alta.

 RESPEITO

Respeitar o adversário, as regras do jogo, o fair play, o ambiente competitivo, os horários das partidas, os árbitros, assistentes e colaboradores deve ser uma obrigação para qualquer atleta. Ser leal com seus adversários e com o público que está prestigiando. O respeito, mais do que uma habilidade, é um valor moral. Os atletas são pessoas que têm o poder de influenciar a conduta de crianças e jovens e nem sempre compreendem esse papel que exercem na sociedade.

INTELIGÊNCIA TÁTICA

Saber ler as nuances do jogo do adversário, seus pontos fortes e fracos, e utilizar estratégias para minimizar as jogadas dele. Isso é inteligência tática. Em competições, os jogadores deveriam evitar focar em seus pontos fracos (deixe isso para os treinos). Devem pensar nos pontos positivos de seu jogo, tendo por base os pontos fortes, ou seja, abusar de suas jogadas de confiança. Quanto mais positivo for durante a competição, melhor, mesmo que seus pensamentos sejam negativos com relação a si mesmo.

É importante os atletas desenvolverem um repertório grande de variação de jogadas e ter paciência para colocá-las em prática nos momentos adequados. Nem sempre o estilo de jogo de uma equipe irá se encaixar com o do adversário. Ter coragem de arriscar pode ser fundamental quando estiver numa situação como essa. Jogar com simplicidade também ajuda. Inteligência não é sinônimo de belas jogadas. Em muitos momentos, fazer o básico para marcar um ponto pode ser a estratégia mais adequada.

DISCIPLINA

Habilidade e talento, por si só, não são os únicos requisitos para uma carreira vitoriosa. É necessário ter muita disciplina. Michael Jordan disse certa vez que 90% são transpiração, e 10%, inspiração. Pelé, frequentemente, comenta que, após as rotinas diárias, ele ficava mais tempo treinando faltas com a sua perna esquerda (ele é destro) e cabeceio (que ele dizia ser seu pior fundamento).

Treinar com intensidade, cuidar da alimentação e dormir bem são fundamentais para qualquer atleta. O treinamento esportivo nada mais é do que repetição de exercícios.

 ESPÍRITO DE LUTA

Há um estudo que diz que, para ser especialista em qualquer área, são necessárias 10 mil horas de prática. Portanto, isso leva anos para ser adquirido. Infelizmente, algumas coisas terão de ser deixadas de lado em algum momento na carreira esportiva. Às vezes, o lazer, a convivência com os amigos e até com familiares. Porém, todos os seres humanos necessitam de momentos de relaxamento e de descanso (físico e mental). Entregar-se a eles faz parte de uma atitude disciplinada. Desligar do esporte nessas ocasiões e aproveitar para fazer algo que não faz com tanta frequência.

Alguns comportamentos podem ser sinônimo de espírito de luta: garra, atitude, intensidade, coragem, jogar do primeiro ao último minuto com a mesma gana e energia, manter uma situação emocional construtiva quando as coisas vão mal, acreditar em seu potencial. Para Loehr (1990), treinar e jogar com intensidade é uma habilidade que requer repetição. Os atletas terão o melhor de seu desempenho quando puderem manter um estado de intensidade elevada e de energia, que se alimenta essencialmente de suas emoções positivas. Os senti- mentos de entusiasmo, inspiração, decisão e desafio são um ponto central para se desenvolver nessa habilidade. Os treinamentos servem de termômetro para as competições, ou seja, não há fórmula mágica. Quanto mais semelhantes os treinos forem das competições, melhor. Dessa maneira, muitas características aqui apresentadas podem ser facilmente transferidas para a vida. O treinamento sem qualidade não capacitará ninguém a competir bem. E viver é um eterno treinamento, não é mesmo?

DESEMPENHOS FÍSICO E MENTAL

Estudar os comportamentos de todos que estão, de alguma forma, envolvidos no universo esportivo e de exercícios físicos é o objetivo central da Psicologia do Esporte: para isso o profissional que se dedica à disciplina procura entender de que forma os fatores mentais interferem no desempenho físico, além de compreender como a participação nessas atividades afeta o desenvolvimento emocional, a saúde e o bem-estar de uma pessoa que atua nesse ambiente. A Psicologia do Esporte é uma ciência relativamente nova, que tem prestado relevantes serviços para a otimização da performance de atletas e equipes. Oferecer aos esportistas de alto rendimento apoio psicológico é tão importante quanto proporcionar uma alimentação saudável e balanceada, programada por um nutricionista. Isso porque o corpo físico e o mental são duas faces da mesma unidade e merecem igual atenção: A presença profissional mais frequente está relacionada aos esportes de alto rendimento. Entretanto, outras áreas de atuação podem ser exploradas: práticas de tempo livre (atividade física como manutenção da saúde); esporte escolar (cuidar da relação do praticante com o ambiente escolar); iniciação esportiva (crianças e jovens envolvidos em atividades pedagógicas e esportivas) e reabilitação (recuperação psicológica de lesões).

OUTROS OLHARES

DO LABORATÓRIO PARA O PRATO

Embora ainda pequeno, o mercado de carnes alternativas tem atraído um número crescente de empresas de tecnologia e investidores — todos de olho na possibilidade de transformar a produção de alimentos num processo mais sustentável

Do laboratório para o prato

Grandes pastagens, milhares de cabeças de gado e matadouros. Por séculos, a produção de carne foi baseada na criação e no abate de animais em escala industrial. Com o aumento da população, a humanidade precisará produzir cada vez mais alimentos e, por mais que a produtividade do campo esteja aumentando, sempre haverá um impacto ambiental. Diante desse cenário, algumas empresas novatas têm investido em soluções tecnológicas para produzir e vender carne sem a necessidade de criar e sacrificar animais. Toda a matéria-prima é desenvolvida em laboratório. Com isso, espera-se que, em breve, seja possível produzir um bife ou um hambúrguer sem esperar o ciclo de vida dos animais.

As startups que usam a tecnologia na produção de alimentos — apelidadas de foodtechs — buscam alternativas para a produção de diversos tipos de comida. Já existe a maionese sem ovos, o queijo sem leite animal, o hambúrguer à base de proteína vegetal e até um nugget vegano, feito de grão-de-bico, cebola, milho e cenoura. A maioria desses produtos já é comercializada e tem ganhado consumidores especialmente na Europa e nos Estados Unidos. Recentemente, a rede de fast- food Burger King — controlada pelo grupo 3G Capital, dos brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira — anunciou que, até o fim do ano, pretende vender um lanche de proteína vegetal em todas as suas unidades nos Estados Unidos. A “carne” é produzida pela startup americana Impossible Foods, especializada no desenvolvimento de produtos de proteína vegetal. Fundada em 2011, ela recebeu, em maio, um investimento de 300 milhões de dólares.

A mudança mais radical no mercado de alimentos, no entanto, são as carnes de proteína animal de verdade, mas que são produzidas em laboratório. Nesse caso, as empresas utilizam pequenas amostras de células-tronco de animais reais, as quais são cultivadas por cientistas. As amostras recebem nutrientes para que se desenvolvam e formem tecidos musculares. Quando pronta, a carne é consolidada em formatos populares. O mais comum é o do hambúrguer, adotado pelas startups americanas Just e Memphis Meats, e também pela holandesa Mosa Meat.

Fundada em 2015, a Mosa Meat foi pioneira no desenvolvimento da tecnologia. O pesquisador e fundador da empresa Mark Post foi a primeira pessoa do mundo a apresentar uma carne cultivada em laboratório em 2013. Dois anos mais tarde, Post e o colega Peter Verstrate criaram a Mosa Meat para aprimorar as técnicas de produção e levar seus produtos ao mercado. “Nosso maior problema hoje é o custo. Para reduzi-lo, precisamos ter uma produção em larga escala. Nosso objetivo é chegar a um custo de 10 dólares por hambúrguer”, diz Verstrate, presidente executivo da empresa. A redução é significativa. O primeiro hambúrguer produzido por Mark Post teve o custo de 330.000 dólares. A Mosa Meat estima que, em cinco anos, deverá alcançar uma capacidade de produção industrial, fazendo com que o preço fique próximo ao de um hambúrguer tradicional.

O objetivo da Mosa Meat e de suas concorrentes é estabelecer-se como uma alternativa mais sustentável à produção de carne. Segundo dados reunidos pela consultoria americana CB Insights, a produção em laboratório consome 82% menos água e emite 79% menos poluentes do que a pecuária de corte atual. “Ainda que as carnes de laboratório não sejam baratas o suficiente, elas provocam um debate sobre o impacto da produção de carne no mundo e nos fazem pensar sobre o que deve ser considerado normal”, diz Neil Stephens, professor na Universidade Brunel, em Londres, e um dos principais estudiosos do tema no mundo.

Além do custo, outro entrave é a rígida regulação sobre a produção de alimentos. A legislação atual não prevê nenhum tipo de carne de laboratório. Nos Estados Uni- dos, existe até um debate quanto a esses alimentos poderem ser chamados de “carne” e sobre qual agência do governo é responsável por regulá-los. Em março, o Departamento de Agricultura, que supervisiona o setor de alimentos, e a FDA (a Anvisa americana) chegaram a um acordo sobre quais são as competências de cada órgão em relação a esse caso. Uma vez reguladas, a expectativa é que as vendas de carne de laboratório cheguem a 20 milhões de dólares até 2027. É uma fração irrisória do mercado de carne mundial, mas a tendência é de crescimento.

Enquanto isso, a aposta mais imediata no mercado de carnes alternativas são as empresas que produzem proteína à base de plantas. Segundo dados da consultoria Mordor Intelligence, o faturamento desse setor foi de 6,3 bilhões de dólares no ano passado e deverá chegar a 8,8 bilhões em 2024. Na liderança do mercado estão as startups americanas Impossible Foods — a mesma que vai fornecer hambúrguer vegetal à rede Burger King — e a Beyond Meat, que foi a primeira empresa do ramo a abrir o capital. Em maio, ela levantou mais de 240 milhões de dólares ao oferecer suas ações na Bolsa de Valores de Nova York. Seus hambúrgueres são feitos de soja ou ervilha e soltam até um sangue (composto de beterraba, no caso). O público-alvo não são apenas os vegetarianos e veganos. São também as pessoas que comem carne. “Se quisermos tratar com seriedade a questão da alimentação sus- tentável, temos de considerar essa reinvenção da carne”, diz o empresário Paul Shapiro, autor do livro Clean Meat (“Carne limpa”, numa tradução livre).

A possibilidade de mudar a forma como a comida é feita anima os investidores do Vale do Silício. Empresários como Bill Gates, fundador da Microsoft, e o britânico Richard Branson, do Virgin Group, são alguns dos que já apostaram nessas empresas foodtechs. Segundo dados da consultoria americana Crunch – base, 25 startups do ramo alimentício arrecadaram um total de 1,8 bilhão de dólares nos últimos dez anos. Entre elas chama a atenção a americana Finless Foods, que produz carne de peixe com as células dos animais. Seu objetivo é evitar os problemas associados à indústria de pescados, como o uso de hormônios ou a contaminação por mercúrio. O custo, também nesse caso, ainda é um problema. Segundo Michael Selden, co- fundador da Finless, a estratégia é posicionar-se no mercado de luxo. “Isso nos ajuda com a questão do preço e nos associa a um segmento de alta qualidade”, diz. E, como a legislação limita a quantidade de peixes pescados anual- mente, seus produtos também oferecem uma alternativa ao mercado.

Outra startup que tenta mudar a produção de alimentos chegou ao Brasil em março. A chilena The Not Company produz maionese vegana, feita de óleo de canola, grão-de-bico, sementes de mostarda, vinagre de uva e suco de limão. Por isso, a empresa diz usar 83% menos água e emitir 37% menos gás carbônico na fabricação em relação à maionese comum. A Not também tem outros produtos sem os ingredientes convencionais, como hambúrguer, chocolate, leite e sorvete. A startup atraiu o interesse até de Jeff Bezos, fundador da varejista online Amazon, que, com outros investidores, colocou 30 milhões de dólares na Not.

As grandes empresas da indústria de alimentos não estão paradas. A brasileira JBS, por exemplo, abriu recentemente um centro de pesquisa nos Estados Unidos, dentro da universidade estadual do Colorado. O investimento foi de 20 milhões de dólares. Lá, a empresa pretende estudar soluções para problemas do setor, criar novos produtos — como proteína à base de plantas — e melhorar o bem-estar animal. Para André Nogueira, presidente da JBS nos Estados Unidos, a indústria alimentícia terá de se tornar cada vez mais eficiente para atender à crescente população mundial. “Temos produtos de proteína vegetal na Austrália e na Europa, como uma salsicha que contém boa parte de ingredientes vegetais. Esse mercado ainda é de nicho e tem muito a se desenvolver para ter relevância comercial”, afirma Nogueira. Ainda assim, o caso das startups de comida é um exemplo de como a tecnologia pode trazer inovação a todo tipo de setor — incluindo os mais tradicionais, como o de alimentos.

BIFE SINTÉTICO

O mercado de carne feita em laboratório deverá ganhar corpo a partir de 2021

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PROTEÍNA VEGETAL

A venda de carnes à base de vegetais, como hambúrgueres, deverá crescer a uma taxa de 7% ao ano até 2024

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