A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUANDO EXPLODE A RAIVA

Acessos de raiva frequentes e desmedidos podem ser sintomas do transtorno explosivo intermitente, um problema ainda pouco conhecido e frequentemente confundido com falta de educação

Quando explode a raiva

O transtorno explosivo intermitente (TEI) se caracteriza, essencialmente, pela dificuldade    que o paciente apresenta em conter comportamentos impulsivos e agressivos, que acabam por culminar em explosões de raiva. Essas reações impulsivas são sempre muito desproporcionais à situação desencadeadora.

Muitas pessoas, quando ouvem falar sobre transtorno explosivo intermitente, demonstram desconfiança e resistência em considerar que comportamentos explosivos agressivos possam ser sintomas de um transtorno. Comentam que, atualmente, falta de educação passou a ser doença ou que todos os comportamentos que transgridem os padrões usuais de convivência são diagnosticados e classificados como doença. O mesmo não acontece com possíveis portadores de TEI. Ao se identificarem com os sintomas da doença, normalmente, apresentam uma reação de alívio, pois entendem que possa haver uma explicação científica para aqueles comportamentos agressivos, sobre os quais não têm controle, e que causam tanto sofrimento a si mesmo e aos indivíduos com os quais convive.

O sofrimento ocasionado pelo TEI leva a muitos prejuízos tanto na vida pessoal quanto nas relações afetivas, sociais e de trabalho. Em sua grande maioria, as pessoas quando chegam ao consultório já acumulam incontáveis vivências de comportamentos explosivos, os quais, invariavelmente, já comprometeram sua qualidade de vida. São relatos de casamentos destruídos, inúmeros fracassos profissionais, discussões acaloradas com pessoas do seu convívio social ou desconhecidas, brigas no trânsito, problemas com a lei etc.

O TEI está permeado de preconceito. Assim como aconteceu com a depressão, a falta de conhecimento promove a resistência a reflexionar sobre a possibilidade de comportamentos explosivos serem, de fato, fruto de uma doença sobre a qual o paciente não tem controle. O tema desperta desconfiança a respeito de um possível diagnóstico para esse tipo de comportamento.

Não se trata de uma nova doença, mas de um transtorno pouco conhecido e, por consequência, pouco estudado. No século XIX, Jean-Étinne Dominique Esquirol, psiquiatra francês, descreveu pela primeira vez os impulsos agressivos. Esquirol afirmava que “o doente é arrastado para atos que a razão e o sentimento não determinam; que a consciência reprova e que a vontade já não tem forças para reprimir”. Em 1980, o TEI foi conceitualizado no DSM-III como um transtorno psiquiátrico raro. Porém, os estudos subsequentes consideraram que os critérios diagnósticos para a doença haviam sido mal operacionalizados e a pesquisa empírica limitada.

Em 2014, o transtorno explosivo intermitente passou a ser descrito no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais – DSM-5 – 5ª edição, no capítulo dos Transtornos Disruptivos, do Controle de Impulsos e da Conduta, 312.34 (F63.81).

É muito importante esclarecer que nem todo comportamento explosivo agressivo é considerado TEI. Grohol coloca que o comportamento agressivo pode, com certeza, ocorrer quando nenhum transtorno mental está presente ou, ainda, em quadros clínicos de demência, delírios, na presença de uso abusivo de substâncias (álcool/drogas), condições médicas gerais e epilepsia do lobo frontal. Além disso, deve-se dispensar atenção especial para os transtornos de personalidade borderline, antissocial, bipolar, de TDA/H, pois os critérios diagnósticos desses transtornos diferem dos critérios diagnósticos para TEI.

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CRITÉRIOS

Para que uma pessoa seja diagnosticada como portadora do transtorno explosivo intermitente é necessário que preencha uma série de critérios diagnósticos. De acordo com Coccaro, Kavoussi, Berman e Lish, o TEI é a única categoria diagnóstica psiquiátrica em que a agressão física é um sintoma básico e o único que descreve transtornos agressivos não psicóticos e não bipolares. Conforme descrito no DSM-5, as explosões de agressividade impulsivas (ou decorrentes de raiva) no transtorno explosivo intermitente têm início rápido e, geralmente, pouco ou nenhum período prodrômico. Em geral, as explosões duram menos de 30 minutos e costumam ocorrer em resposta a uma provocação mínima de um amigo íntimo ou colega. Com frequência, indivíduos com TEI apresentam episódios menos graves de violência verbal e/ou física que não causam danos, destruição ou lesões, em meio a episódios mais graves, destrutivo-violentos. Independentemente da natureza da explosão de agressividade impulsiva, a característica básica do transtorno é a incapacidade de controlar comportamentos agressivos impulsivos em resposta a provocações vivenciadas subjetivamente, que, em geral, não resultariam em explosões agressivas. De maneira geral, as explosões de agressividade são impulsivas e/ou decorrentes de raiva, em vez de serem premeditadas ou instrumentais e estão associadas a sofrimento significativo ou a prejuízos na função psicossocial.

Segundo o DSM-5, um diagnóstico de TEI não deve ser feito em indivíduos com idade inferior a 6 anos ou nível equivalente de desenvolvimento ou naqueles cujas explosões de agressividade forem mais bem explicadas por outro transtorno mental. Um diagnóstico do transtorno explosivo intermitente não deve ser feito em indivíduos com transtorno disruptivo da desregulação do humor ou naqueles cujas explosões de agressividade impulsiva forem atribuíveis a outra condição médica ou a efeitos fisiológicos de uma substância. Além disso, pessoas com idade entre 6 e 18 anos não devem receber esse diagnóstico em situações nas quais as explosões de agressividade impulsiva ocorreram no contexto de um transtorno de adaptação.

Ainda de acordo com o DSM-5, as explosões de raiva no TEI podem ser leves (nesses casos, não há presença de agressão física, destruição de propriedades ou danos a outrem) ou severas (com presença de agressão física a pessoas/ animais, destruição de propriedades e/ ou objetos). Em função das mudanças nos critérios diagnósticos, o transtorno explosivo pode ser diagnosticado em pacientes com transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, transtorno opositivo desafiador, transtorno de conduta ou do espectro autista, desde que as explosões de raiva impulsiva recorrente excedam as usualmente presentes nesses transtornos. Conforme a APA (2000), o diagnóstico deve descartar os episódios agressivos mais bem contabilizados por outro transtorno mental e deve-se observar que o TEI é, essencialmente, um diagnóstico de exclusão.

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SENSAÇÕES FÍSICAS

Alguns estudos realizados por McElroy com pacientes portadores de TEI identificaram que as explosões de raiva são precedidas ou acompanhadas de sensações físicas de fadiga, formigamento, aperto no peito, elevado grau de energia ou tensão, sudorese, tremores, palpitações, intensa pressão na cabeça, tensão nas costas e pensamentos raivosos que os dominam e os fazem agir impensadamente e de forma agressiva. Logo após a explosão de raiva, descrevem sensação de alívio da tensão e acreditam que sua reação é resultado do comportamento do outro. Passado algum tempo, sentem-se genuinamente envergonhados, culpados, arrependidos e vivenciam intenso sofrimento emocional. Ao descreverem seu estado emocional no momento da explosão se utilizam de frases como: “vontade de matar alguém”, um “pico de adrenalina”, “necessidade de ferir”, “sangue nos olhos”. Conforme descrito no DSM-5, indivíduos com história de trauma físico e emocional durante as primeiras duas décadas de vida estão em risco aumentado para o transtorno.

O que leva uma pessoa a apresentar comportamentos explosivos impulsivos ainda não é consenso entre os estudiosos do assunto. Pesquisas apontam para causas biopsicossociais. Segundo Beck, o TEI está relacionado a distorções cognitivas. De acordo com essa teoria, o portador possui uma série de crenças fortemente negativas sobre outras pessoas, frequentemente resultantes de punições cruéis aplicadas por seus pais na infância. Essa criança cresce acreditando que “o mundo está contra ela” e a violência é a melhor forma de restaurar sua autoestima prejudicada. Teriam observado um dos pais, ou os dois, irmãos mais velhos ou outros parentes agindo de maneira explosivamente violenta.

Ploskin considera que as atitudes explosivas, independentemente das causas, ocorrem mais durante os períodos de estresse e eclodem quando esses indivíduos se confrontam com situações que os fazem evocar experiências frustrantes e ameaçadoras vividas na infância e ao longo da existência. Esses atos têm a finalidade de aplacar e/ou compensar sentimentos de insegurança e autoestima rebaixada.

Nota-se na extensa maioria dos casos clínicos que os portadores de TEI advêm de famílias em que a dinâmica familiar apresenta-se instável e as explosões verbais, bem como comportamentos abusivos físicos e/ou emocionais, se fazem presentes. Como resultado desse histórico de agressividade e violência, os pacientes vivenciam estados de severas frustrações. As atitudes agressivas de seus familiares se tornam modelo e dificultam a aprendizagem de mecanismos que possam inibir esse tipo de comportamento, e assim os pacientes acabam por repetir o mesmo padrão de atuação em sua vida adulta, pois acreditam que certos atos de outras pessoas “justificariam” ataques agressivos a elas. Podemos dizer, então, que se trata de um comportamento transgeracional.

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PERIGO

De acordo com o DSM-5, parentes de primeiro grau de indivíduos com TEI estão em risco aumentado para esse transtorno, sendo que estudos de gêmeos demonstraram uma influência genética substancial para agressão impulsiva. Está descrito no DSM-5 que pesquisas dão suporte neurobiológico para a presença de anormalidades serotoninérgicas em termos globais e no cérebro, especificamente em áreas do sistema límbico (cingulado anterior) e do córtex orbitofrontal em indivíduos com transtorno explosivo intermitente. Em exames de ressonância magnética funcional, respostas da amígdala a estímulos de raiva são mais intensas em indivíduos com TEI em comparação com indivíduos saudáveis.

Em estudo realizado na Universidade de Harvard, pelo Instituto Nacional de Saúde Mental, Kessler et al. (2006) verificaram que o TEI é um transtorno mental pouco conhecido, marcado por episódios de raiva injustificada, afetando 7,3% de adultos – 11,5/16 milhões de americanos – durante suas vidas. O estudo foi baseado em dados da Pesquisa Nacional de Comorbidade (National Comorbity Survey Replication), entidade nacionalmente representativa, realizado de porta em porta, com 9.282 adultos americanos maiores de 18 anos, conduzido entre 2001 e 2003. Essa amostra demonstrou que 7,3% dos portadores tinham episódios vitalícios, portanto crônicos, e 3,9% apresentaram ocorrências no último ano, portanto episódios pontuais, levando a crer que o TEI, apesar de pouco conhecido, é consideravelmente mais prevalente do que se pensava. Nessa amostra apurou-se que 60,3% receberam tratamento para problemas emocionais ou decorrentes do abuso de substâncias; 28,8% haviam recebido tratamento para a raiva; e 11,7% dos casos pontuais receberam tratamento para raiva nos 12 meses anteriores à realização do estudo.

Os trabalhos acadêmicos demonstram que pessoas agressivas ou nervosas, normalmente, não procuram tratamento na mesma proporção que pessoas deprimidas ou ansiosas. Esses mesmos trabalhos atestam que porta- dores de TEI, em sua maioria, quando procuram tratamento já receberam ajuda profissional para questões de ordem emocional, mas não para o tratamento do sentimento de raiva.

No que se refere a tratamento farmacológico, em seus estudos, Coccaro e Kavoussi concluíram que os inibidores seletivos de recaptação da serotonina – ISRS, particularmente a fluoxetina, são as primeiras opções de tratamento, visto que demonstram efeito “antiagressivo”, reduzindo os comportamentos violentos e aumentando o limite de tolerância aos ataques explosivos.

Sheard, Marini, Bridges, Wapner e Siassi entendem que em situações em que o paciente não responde aos ISRS, uma resposta positiva pode ser obtida através dos estabilizadores de humor (lítio) e antipsicóticos (quetiapina), propiciando um retorno antiagressivo. Barratt, Stanford, Felthous e Kent consideram também a possibilidade de se utilizar alguns anticonvulsivantes (carbamazepina).

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TCC

Com relação ao tratamento psicológico, a terapia cognitivo-comportamental (TCC), combinada com relaxamento, parece ser o caminho certo a ser escolhido para problemas de expressão da raiva.

Deffenbacher e Stark ressaltam que essa combinação diminui níveis de expressão inadequada da raiva.

Beck e Fernandes enfatizam que, através de técnicas específicas, a terapia cognitivo-comportamental promove a ressignificação da percepção negativa desses pacientes, além de diminuir, de forma significativa, a intensidade e a frequência dos episódios violentos. Ainda de acordo com Beck, esses indivíduos, por terem vivenciado na infância e/ou adolescência abusos físicos e/ ou emocionais, acabaram por desenvolver crenças fortemente negativas sobre outras pessoas, e cresceram convencidos de “que o mundo está contra elas”. Com isso, a agressividade é uma maneira de recuperar a autoestima.

Beck aponta alguns erros cognitivos desses pacientes frente às suas crenças, tais como personalização – o indivíduo interpreta os comportamentos das outras pessoas como dirigidos especificamente contra ele; percepção seletiva – o indivíduo identifica somente as situações ou interações que validam a visão negativa que tem do mundo e descarta outras possibilidades; negação (interpreta de forma negativa os motivos dos outros) – o indivíduo tende a culpar as pessoas com as quais se relaciona por incitar seu comportamento explosivo agressivo, desconsiderando ou minimizando sua responsabilidade na situação.

Apesar de não serem registrados estudos científicos a respeito da utilização da hipnose clínica como técnica auxiliar de tratamento, na prática clínica a hipnoterapia cognitiva tem se mostrado eficaz por possibilitar ao paciente intenso relaxamento, manejo de ansiedade e treino do comportamento mais adaptativo conseguido através da escolha de técnicas específicas para cada paciente.

O prognóstico depende de diversos fatores, como interesse em buscar ajuda, motivação para mudança, apoio familiar, entre outros. Em consultório, é possível identificar que quanto mais o paciente adere e se compromete com o tratamento proposto, mais rapidamente começa a experimentar situações de sucesso, no que se refere ao manejo das emoções e de seu comportamento impulsivo agressivo. O paciente passa a se sentir motivado e a desejar repetir as vivências bem-sucedidas. Em muitos casos não há necessidade do uso de medicação, apenas a psicoterapia é suficiente para que o portador de TEI consiga ótimos resultados nos diversos segmentos de sua vida. O tratamento melhora significativamente a qualidade de vida do paciente e das pessoas com as quais convive.

OUTROS OLHARES

SUPERPAI, SUPERFAMÍLIA

O enfermeiro solteiro que adotou nove filhos está agora tentando o décimo

Superpai, superfamília

Gosto muito de falar de adoção, porque é falar do amor. A gente não pode parar de falar de amor nunca. Meu nome é Uanderson Barreto de Souza, tenho 38 anos, sou enfermeiro e funcionário público. Trabalho há 15 anos na Fundação Municipal de Saúde da Prefeitura de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Sou solteiro e sempre soube que adotaria, porque minha avó Teresa tinha dez filhos e uma delas era minha tia Vilma, que foi adotada. Sempre soube que meus filhos seriam adotivos e não se encaixariam no padrão que o brasileiro costuma desejar, que é o de crianças brancas de até 2 anos de idade. Fui trabalhar em um abrigo como enfermeiro e lá comecei minha história.

Tenho dois irmãos, um homem, de 42 anos, e uma mulher, de 36. Temos idades próximas, e cresci brincando com eles. Minha avó teve dez filhos e minha tia Teresinha outros dez. Crescemos juntos, brincando no quintal, dividindo tudo, numa pobreza!

Minha primeira adoção ocorreu em 2011. Eu estava trabalhando em um abrigo e decidi que adotaria crianças marginalizadas, que ninguém quisesse, que estivessem fora do padrão. Conheci então meu filho João, que, à época, tinha 9 anos. Levei-o para casa, depois não aguentei e busquei o Daniel. Ele é irmão biológico do João e os dois já moravam no mesmo abrigo. Daniel é portador de uma doença mental grave e, a princípio, confesso que fiquei com medo. Fui para casa e não consegui ficar sem o Daniel. Voltei ao abrigo, pedi a visitação do Daniel e nunca mais o devolvi. Em 2012 ele virou meu filho. Muitos pensam que esse processo leva tempo, mas, na verdade, a adoção tardia é muito rápida. Em dois ou três meses consegui oficializar tudo.

Ele já tinha 12 anos e, sim, é verdade, os custos foram muitos. Por causa da doença, ele precisou ser atendido por fonoaudióloga e fazer vários tratamentos. Hoje está superbem, superadaptado. A adoção fez muito bem para ele. Conseguiu largar as fraldas e aprendeu muito, ganhou completa independência. Hoje, vai à escola, faz curso, está evoluindo.

Minha casa é pequenininha. Meu Deus, dois quartos, sala, cozinha, banheiro e dez cabeças dentro de casa! Preciso ganhar uma casa, gente – alô Luciano Huck! Porque a pessoa não faz conta de nada, a pessoa dorme no corredor, dorme no teto… Ainda abrigo moradora de rua para ganhar bebê lá em casa. Tenho um projeto chamado Adotando Vidas. O amor extrapolou nossa família e virou quase uma instituição de ajuda humanitária.

Quando criança, eu pegava os animais de rua e levava para casa, chorava com pena do vizinho que não tinha o que comer.. . Coisa de pisciano, sofredor. Não aconteceu nada em minha vida que desse o impulso para isso, é natural, é o dom do amor, de amar o próximo.

Tenho cara de cachorro que caiu da mudança, de “Oi? Tudo bem?”. Falando em cachorro, faz um ano que resgatei a Belinha. Fiquei sabendo que ela estava sofrendo maus-tratos em uma comunidade, peguei um táxi, fui atrás dela e a adotei também.

Desde que trabalhei no primeiro abrigo, tenho o costume de visitar essas instituições e passar um tempo com as crianças. Foi assim que descobri o Alexandre, meu terceiro filho, também irmão de sangue do João e do Daniel. Em julho de 2012, meses depois de adotar o Daniel, fui visitar um abrigo e era o aniversário de 15 anos do Alexandre. Foi coincidência, eu fui à instituição visitar e lá descobri mais um irmão de meus dois filhos. Eu não sei nada sobre os pais biológicos deles. Ou estão mortos, ou vivem em comunidades de risco, ou estão envolvidos com o tráfico…

Fechei esse ciclo biológico, de três irmãos. Depois, em 2014, fui a outro abrigo e conheci Leonardo e Pedro, que são irmãos biológicos de outros pais. Eu não queria separá-los e adotei os dois. Leonardo tinha 12 anos e Pedro 8. Até aí eram cinco filhos, e todas essas histórias são em abrigos aqui de Campos mesmo.

No ano passado, fui ser coordenador de um abrigo em São Francisco de Itabapoana. Aí trouxe Jocilan, o quinto. quinto? Não, o sexto. Eu perco as contas. Eu fiz uma tatuagem em meu braço com todos eles para não perder as contas, estou aqui olhando para ela. Jocilan tem 13, é o amor da minha vida! Nossa Senhora, eu morro por causa daquele menino.  Por causa de todos, mas ele é o  que exige mais defesa de mim. Porque ele é o único que veio sozinho, não tem nenhum núcleo biológico na minha casa. Ele é um amor.

A próxima história, é a do Marcos, também no início do ano passado. Com 16 anos, fez cursinho de informática no abrigo e me pediu, pelo Messenger, para que eu fosse pai dele. Ele era amigo do meu filho no abrigo e me dizia: “Tio, por favor, seja meu pai! Você é a única pessoa que adota crianças grandes, da nossa idade”.  Eu já estou lá há muito tempo! Aí não dá, eu morro. Eu nem vou aceitar mais criança nenhuma do abrigo no meu Face, que é para não correr o risco.

Resisti um pouco, mas depois pedi a visitação. Marcos tinha duas irmãs, Luciara e Vitória, e eu trouxe os três. Hoje eles têm, respectivamente, 17, 28 e 13 anos. Mas ainda falta um. Eles têm um irmão caçula com paralisia cerebral. Ele é cadeirante, e estou fazendo algumas adaptações em casa para poder trazê-lo. Ele é outro amor da minha vida ainda está lá no abrigo, tadinho. Ficou com paralisia cerebral após uma meningite. Ele tem 9 aninhos. Eu quase morro por causa dessa criança.

Eles se lembram dos pais, sim. Foram para o abrigo já grandes, por negligência, maus-tratos… Eu ainda faço isso, ainda visito os abrigos, vou lá, dou atenção aos que lá estão. Mas agora estou proibido de adotar, o juiz me proibiu.

Conheço a realidade dos abrigos bem de perto. Abrigo é prisão de criança, não é solução para nada. Lugar de criança é em família, com estrutura familiar, com os pais. Não é em abrigo, nunca foi e nunca será. Lá é uma rotina maçante, elas só podem ir à frente, aos fundos e cumprir regras. Não têm uma vida social livre, têm uma vida agendada. Não são livres para ir até a frente da casa, para receber uma visita, é como se tivessem de ser moldadas àquele ambiente. Acabam não tendo espaço para desenvolver suas individualidades, e tudo isso acarreta defasagem escolar, vira uma vida mecanizada.

Meus filhos chegaram assim, muito retraídos, quietos. Mas aí o amor e a socialização fazem com que eles se desenvolvam. O acesso à internet, aos meios de comunicação, telefone, é inevitável. Eles fazem vários esportes, cursos profissionalizantes, e esse convívio ajuda muito.

Eu me sinto realizado, feliz. Feliz demais por ser pai. Claro que nem tudo é um mar de rosas. A gente perde algumas coisas, mas nada faz falta para mim. Meus filhos me preenchem em tudo. Minha vocação é ser pai, era meu grande sonho.

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GESTÃO E CARREIRA

DESORIENTADO?

Se você está se sentindo perdido com as grandes transformações do mundo, deve prestar atenção no Oriente, mais especificamente no que ocorre em terras chinesas.

Desorientado

As mudanças que estão ocorrendo em nossa sociedade e no mundo do trabalho estão provocando perplexidade. Por isso, é comum ouvir pessoas dizendo que se sentem “desorientadas”. O significado dessa palavra é interessante. No século 17, o termo designava aqueles que não sabiam o que acontecia no Oriente, de onde vinham as grandes invenções (como a bússola e a pólvora), as grandes embarcações marítimas e os mapas náuticos.

Com a evolução do mundo ocidental, a palavra mudou, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial, e as pessoas deixaram de ficar “desorientadas” para se sentir “desnorteadas”, já que toda a modernidade vinha do Norte, mais especificamente dos Estados Unidos. Mas talvez isso esteja mudando.

Lendo uma entrevista do sociólogo francês Alain Tourraine, no esplendor de seus 93 anos, no jornal Valor Econômico, vejo que, novamente, quem não acompanha a modernização do mundo será chamado de desorientado. Isso porque, segundo o estudioso, “a China vai superar os Estados Unidos no avanço tecnológico”.

Não é exatamente uma surpresa que isso aconteça. Os maciços investimentos em educação e simultaneamente em desenvolvimento da tecnologia aceleraram o passo da China nessa corrida pela supremacia mundial.

A diferença é que os chineses se sentem bem nesse papel por já terem experiência prévia em serem os líderes mundiais na economia e na tecnologia. Eles dizem que sabem como se comportar e se manter nessa posição, pois no passado tiveram esse papel durante a dinastia Ming (1368-1644). Nessa época, sob o reinado do imperador Zhu Yunzhang, também conhecido como Hongwu, a China tinha a maior produção de ferro (100.000 toneladas) e a maior frota marinha de navios que visitaram todos os continentes — bem antes dos portugueses e espanhóis. Eram também grandes produtores de prata, ouro e da tão ambicionada seda.

Agora, 650 anos mais tarde, a China tem a maior população mundial (com cerca de 1,4 bilhão de pessoas) e um PIB de 13,2 trilhões de dólares, que ainda é menor do que o americano, mas que, nos próximos anos, tende a superá-lo. Em breve, o país vai se apresentar como o líder da transformação digital, pois está usando a modernidade tecnológica como instrumento de inclusão social, criando milhões de consumidores mensalmente.

Quem estiver desorientado vai ter de ficar esperto e olhar com muito cuidado, humildade e respeito para o que está sendo feito na China. Que tal começar a estudar mandarim? Pode ser um bom começo para se reorientar e entrar no mundo dos novos líderes planetários.

 

LUIZ CARLOS CABRERA – Escreve sobre carreira, é professor na EAESP-FGV e diretor na PMC-Panelli Motta Cabrera & Associados

ALIMENTO DIÁRIO

SEGREDOS DO LUGAR SECRETO

Alimento diário - livro

CAPÍTULO 25 – O SEGREDO DE NEGAR-SE A SI MESMO

Então Jesus disse aos seus discípulos: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Mateus 16.24

 

Algumas pessoas podem pensar que Jesus está dizendo: “Como eu tive que sofrer muito para conquistar sua salvação, quero que você também sofra”. Mas Jesus não pretendia que esse fosse um convite mórbido para o sofrimento, mas um convite glorioso para intimidade com Deus. “Se você realmente deseja ficar perto de mim”, Ele nos diz, “então deixe-me entregar-lhe a chave. Negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. É um convite para o mais alto nível de intimidade, mas nós sempre o evitamos porque achamos que o preço é muito alto. O que não compreendemos, entretanto, é o que estamos comprando. É exatamente como se alguém estivesse nos oferecendo um Mercedes novinho em folha por 20 reais e nós ficássemos reclamando do fato de estarem tentando nos arrancar 20 reais! Perto do que estamos comprando, esse preço é irrisório! Da mesma forma, negar-se a si mesmo é um preço muito pequeno a pagar pelo incrível deleite da comunhão de amor com Deus.

Se você quiser recebê-lo, o segredo é o seguinte: negar-se a si mesmo pode servir como um catalisador que impulsiona você para frente em direção ao grande prazer da intimidade no lugar secreto. O ato de negar-se a si mesmo e a intimidade seguem de mãos dadas.

Negar-se a si mesmo desperta o fluxo de vida e o amor no lugar secreto. Negar-se a si mesmo não é a mesma coisa que tomar a sua cruz. Para tomar a cruz, pelo menos em um sentido, é crucificar as paixões pecaminosas da carne. A cruz está associada à morte da carne, do homem carnal. Negar-se a si mesmo, entretanto, tem a ver com paixões boas e saudáveis. Negar-se a si mesmo é a redução deliberada de paixões e desejos saudáveis em favor de uma busca mais intensa de Jesus.

Para esclarecer, apresento exemplos das muitas maneiras como o negar-se a si mesmo pode ser aplicado:

***Jejum parcial ou integral de alimentos ou água

***Diminuição do período de sono

***Não participar de uma boa diversão

***Dizer não a convites sociais/de amigos

***Reduzir o tempo de recreação/exercícios

***Fazer uma pausa temporária da relação sexual

***Fazer um voto de celibato

***Gastar menos quando poderia gastar mais

Nenhuma das atividades acima são pecaminosas. Praticadas com moderação e equilíbrio, elas são presentes de Deus que podemos apreciar em nossa vida. Mas algumas pessoas querem mais que uma vida feliz. Elas querem conhecer Jesus e aspiram conquistar o Reino. Desejam acumular tesouros eternos e anseiam derramar o Espírito de Deus em sua geração. Por isso, elas buscam o Reino com intensidade espiritual. Negar-se a si mesmo é um dom de Cristo que nos permite aumentar as chamas de nosso amor sete vezes mais. O fato de negar-se a si mesmo inclui alguns benefícios espirituais, como os que aponto a seguir.

PERSPECTIVA MAIS CLARA

Quanto mais você nega a si mesmo, mais as escamas caem de seus olhos. Você começa a enxergar o mundo como ele é e passa, naturalmente, a perceber o sistema corrupto do mundo que nos cerca. O mundo não renuncia nada, portanto, quando você se submete a negar-se a si mesmo, está remando contra a maré. O negar-se a si mesmo demonstra que não amamos o mundo nem as coisas do mundo.

Foi a falta de alimentos que finalmente trouxe o filho pródigo à razão. “Caindo em si, ele disse: ‘Quantos empregados de meu pai têm comida de sobra, e eu aqui, morrendo de fome!”‘ (Lucas 15.17). De modo parecido, o verdadeiro jejum espiritual é uma ação poderosa para ajudar a nos direcionarmos novamente para os verdadeiros valores e realidades do Reino.

TRANSFORMAÇÃO ACELERADA

Quando você começar a perceber como o mundo contaminou seu estilo de vida, a graça será liberada para promover uma transformação pessoal. A simples verdade é que o Senhor Jesus honra quem nega a si mesmo. Ele ama a resolução apaixonada e a humildade daqueles que de boa vontade negam-se a si mesmos. Então, recompensa com graça a fim de que a pessoa obtenha pureza pessoal e verdadeira santidade. Ele dá graça ao humilde.

Ao falar sobre jejum, Jesus disse: “E ninguém põe vinho novo em vasilha de couro velha; se o fizer, o vinho rebentará a vasilha, e tanto o vinho quanto a vasilha se estragarão. Ao contrário, põe-se vinho novo em vasilha de couro nova”. Jesus ensinou claramente que o jejum desempenha um papel fundamental na preparação da vasilha de couro velha para mais uma vez poder receber vinho novo. O negar-se a si mesmo tem um poderoso efeito modelador sobre a alma, nos preparando para o vinho novo do movimento novo de Deus entre nós.

PREPARAÇÃO PARA O MINISTÉRIO PROFÉTICO

Quando alguma coisa é praticada excessivamente, você não pode ter autoridade sobre ela enquanto continuar praticando-a, mesmo com moderação. Para ter autoridade sobre o excessivo, você deve se santificar e deixar de praticar até mesmo uma quantidade equilibrada e saudável.

Jesus modelou este princípio. Para tratar da avareza dos fariseus, não se permitiu nem tocar em dinheiro. Para tratar da tendência dos fariseus de usar trajes especiais, usou roupas bem simples. Para tratar do afã dos fariseus pelos melhores lugares nos banquetes e nas sinagogas, não se assentava com eles. Jesus se santificou deixando de praticar o bom e o normal para ter autoridade sobre o excessivo e desequilibrado.

Aqueles que levam mensagens proféticas para o corpo de Cristo geralmente negarão a si mesmos quase que diariamente. As formas estratégicas de negar-se a si mesmo nos qualificam para sermos despenseiros de uma mensagem profética para o corpo de Cristo.

CAPACIDADE DE OUVIR A DEUS

Um dos principais benefícios de negar-se a si mesmo é a capacitação que recebemos para ouvir mais claramente a Deus. Resposta, direção, percepção, enfim, tudo, parece fluir mais livremente quando o ato de negar- se a si mesmo é praticado livremente e de boa-vontade com graça no coração.

Mike Bickle fala articuladamente sobre jejum como sendo uma forma de “fraqueza voluntária”. A fraqueza voluntária, como ele denomina, é a adoção intencional da fraqueza com a finalidade de descobrir uma graça maior. O ato de renunciar a si mesmo tem um efeito de enfraquecimento do vaso humano. Ele nos torna mais vulneráveis. Aqueles que adotam a prática da fraqueza voluntária se apropriaram pessoalmente deste grande princípio: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Coríntios 12.9). Quando adotamos a fraqueza, a graça de Deus rapidamente nos fortalece. Aqueles que negam a si mesmos ficarão mais aptos a ouvir a voz de Deus e a entender sua vontade.

Jesus associou intrinsecamente o lugar secreto ao ato de negar-se a si mesmo. Ele disse:

Quando jejuarem, não mostrem uma aparência triste como os hipócritas, pois eles mudam a aparência do rosto a 6m de que os outros vejam que eles estão jejuando. Eu lhes digo verdadeiramente que eles já receberam sua plena recompensa. Ao jejuar, arrume o cabelo e lave o rosto, para que não pareça aos outros que você está jejuando, mas apenas a seu Pai, que vê em secreto. E seu Pai, que vê em secreto, o recompensará. – Mateus 6.16-18

O ato de negar-se a si mesmo é praticado em secreto. Ele é feito em silêncio, exclusivamente para Deus, para ser visto apenas por seus olhos. Quando praticado com pureza perante nosso Pai de amor, serve para despertar o fluxo de vida no lugar secreto.

Deseja manter isso em segredo? Quando seu lugar secreto precisar de revitalização, pratique a graça de negar-se a si mesmo. Seu coração será tocado mais prontamente, seu espírito voará mais alto e sua consciência da presença de Deus aumentará.