A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SEM MAIS ENIGMAS

Símbolos são imagens carregadas de emoções. Eles guardam em si um lado conhecido mergulhado em um mundo desconhecido. Sem medo de falar quebra o silêncio da pedofilia

Sem mais enigmas

Quando um adulto toma um corpo de criança como palco de um crime, sentimos indignação e desejo de puni-lo. Ficamos curiosos. Queremos saber as razões da existência de tais comportamentos. E as crianças? Por que se escondem no silêncio do sofrimento em desfrutar de algo que reconhecem como errado e é ao mesmo tempo incompreensível?

No livro Sem Medo de Falar, Marcelo Ribeiro conta a sua história em que foi vítima de pedofilia. Essa leitura, com a narrativa clara dos fatos, nos faz entender sobre o que acontece com a criança abusada. Tudo começou aos 13 anos, quando entrou para o coral de uma Igreja Católica.

Aos 42, depois de viver dificuldades que ameaçavam o seu casamento, e por amar sua mulher, explode o silêncio e consegue a compreensão dela e de outros que leram o seu relato pessoal. Persegue o pedófilo que continua com as suas ações, numa tentativa de evitar o sofrimento de outras crianças. Descreve assim a ação do pedófilo: “Ele avança aos poucos, recua, avança com cuida- do novamente. Vai estabelecendo seu território e seu comando com paciência… se comporta como um protetor, um líder, uma fonte de inspiração. Cria finalmente um vínculo emocional”. Consegue o silêncio.

Jung tem uma frase que diz: “Os deuses se tornaram doenças”. Como compreender isso? Para a humanidade antiga, as emoções e comportamentos dos homens eram obras dos deuses. Com o desenvolvimento da consciência, o homem passou a considerar esses deuses como histórias lúdicas que divertem as crianças. Um verdadeiro universo ficcional em que a linguagem não obedecia a lógica da consciência e só poderia ser entendida explorando as imagens como metáforas e símbolos. É o lugar onde habita a poesia.

Sabemos hoje que esse cérebro primitivo continua a contar suas histórias míticas com imagens, metáforas e símbolos. Para efeito didático, é como se fosse o cimento que une o corpo à mente. Podemos ter um corpo saudável e uma mente que elabora pensamentos inteligentes, mas nesse “terceiro lugar” existe toda a história da humanidade que só poderá se expressar como símbolos quando ativada por nossas vivências. Aí aparecem os deuses – que agora são doenças –, quando não conseguimos nos conectar com a nossa própria natureza para compreendê-la em suas mensagens por sonhos ou fantasias.

Nossa relação com os símbolos acontece quando procuramos compreendê-los explorando todas as possibilidades metafóricas com sentido para a consciência.

Assim como os anjos – agindo como mensageiros entre o mundo sagrado e o dos homens –, os símbolos agem como mensageiros entre o mundo da consciência e as trevas da inconsciência. Esses símbolos, ao se manifestarem no corpo, traduzem-se como doença em que se ocupa a medicina geral. Quando se expressam na mente, mostram-se em pensamentos, sonhos e fantasias que nos levam a tomar decisões de comportamentos. De tais comportamentos, quando considerados doentes, ocupa-se a Psiquiatria e a Psicologia. Estar “doente” é ter algo menor que faz parte do todo, chamando a atenção para cumprir alguma finalidade da natureza que precisa seguir o caminho da evolução.

Como exemplo: as festas de Baco, deus do vinho, em que os homens as cultuavam com práticas de perversão (como a pedofilia) e a embriaguez coletiva. Hoje essa prática é um transtorno psiquiátrico em que adultos se sentem sexualmente atraídos por crianças.

O que faz alguém não conter em si o culto a esse deus? Muitos são os estudos que o tentam explicar. A medicina tentando localizar alterações no cérebro e a Psicologia observando a expressão simbólica desse deus ou arquétipo ativado que traduz em símbolos as suas necessidades não resolvidas.

O que são tais necessidades não resolvidas? Quando a consciência precisa lidar com acontecimentos que ultrapassam sua capacidade de compreensão, nascem o que chamamos de complexos. Uma criança abusada depende de como o pedófilo introduz as mensagens enigmáticas no psiquismo dela. Tudo que é muito estranho à consciência mergulha num mundo de trevas para voltar à luz como se saísse de cena para colocar outra coisa em seu lugar.

Essa outra coisa atua de maneira a atrapalhar o verdadeiro eu, com as suas deliberações como se fosse outro ser primitivo a tomar decisões, nos deixando com a pergunta: quem em mim teve tal comportamento absurdo? Isso quando alcança o estágio de, ao menos, saber que faz algo não legítimo e que seu comportamento prejudica a si e ao outro.

No caso da pedofilia, o sacrifício em conter em si próprio um deus que se vestiu de um complexo, e faz a sua vida amorosa ter aspectos infantis e necessidades incompatíveis com um amor saudável, exige tratamento até alcançar a maturidade em ser capaz de um sacrifício de conter tais desejos para respeitar o sagrado de uma vida amorosa adulta e saudável.

Dessa forma, Marcelo resolveu romper o silêncio e permitir o sagrado de um amor verdadeiro em sua relação com a mulher. Não basta amar alguém para viver em harmonia. Precisamos lidar com nossos deuses enfeitados em forma de manias e comportamentos desafiadores. Amar é antes de tudo mostrar-se ao outro como se é de verdade, sem enigmas; e esse outro aceitar tal realidade.

Sem mais enigmas. 2

Sem Medo de Falar – Relato de uma Vítima de Pedofilia

Autor: Marcelo Ribeiro / Editora: Paralela / Ano: 2014 – Páginas: 232

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.