A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O PODER DO SONHO

A neurociência explora um misterioso território: sonhar pode transformar-se em um motor para a criatividade e a elaboração de emoções.

O poder do sonho

É o próprio Paul McCartney quem conta que em certa manhã de 1965, com os Beatles no auge, ele acordou na casa da namorada, Jane Asher, na Rua Wimpole, no centro de Londres, com uma melodia martelando na cabeça. Era Yesterday, que demorou meses para ganhar letra e viria a tornar ­se uma das canções mais bem-sucedidas da banda: contabilizou 7 milhões de execuções no século XX. Será possível sonhar com uma música que não existe? A resposta é sim, e não há aí nenhum exercício de futurologia. Descobertas recentes e surpreendentes – sobre o mundo dos sonhos, esse recanto da mente misterioso e pouco explorado, estão descortinando nessa atividade espontânea e mais livre das amarras do cérebro um espetacular manancial de criatividade, aproveitamento de ideias e estímulos ao conhecimento. “Sonhar é misturar informações, e isso pode promover o aprendizado e a imaginação em sua forma mais produtiva”, diz Tore Nielsen, pesquisador do Laboratório de Sonhos e Pesadelos da Universidade de Montreal, no Canadá. Quem disse que dormir é perda de tempo?

No caso de McCartney, o mecanismo que produziu Yesterday – que em sua primeira versão foi intitulada Scrambled Eggs (Ovos Mexidos), nome de tirar o sono de tão bizarro – é a capacidade que os sonhos carregam de funcionar como um “oráculo probabilístico”, expressão cunhada pelo neurocientista Sidarta Ribeiro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, autor do livro O Oráculo da Noite (Companhia das Letras), que reúne as mais relevantes pesquisas sobre sonhos ao longo da história e tem lançamento previsto para a próxima semana. “Os sonhos são tão proféticos quanto um diagnóstico médico ou a previsão do tempo, ou seja, refletem probabilidades que podem ou não coincidir com o comportamento real das coisas”, explica Ribeiro. Estudos recentes comprovam a habilidade cerebral, durante o sono, de combinar dados relevantes do presente com outros considerados perdidos no passado. “A maioria dos sonhos retrata emoções e experiências recém-vividas”, afirma o neurocientista americano Robert Hoss, presidente da Associação Internacional para Estudo dos Sonhos. Mas o passeio noturno livre, leve e solto das ondas que perpassam o cérebro também chega ao “baú” das memórias antigas, algumas quase inalcançáveis à mente consciente.

Durante o sono mais profundo, chamado de REM, a queda brusca nos níveis da substância noradrenalina permite que as ondas cerebrais experimentem trajetos inusitados, em vez de fortalecerem sinapses utilizadas com frequência pela mente desperta. A liberdade de combinar memórias e criar enredos impossíveis também resulta da desativação parcial do córtex pré-frontal, área onde é processada a razão. Provavelmente, os acordes sonhados pelo ex­ beatles foram produto de uma junção de dezenas de melodias armazenadas na cabeça dele. “O novo, afinal, é uma combinação inédita de informações velhas”, reflete Ribeiro. Um estudo publicado pela Universidade de Turku, na Finlândia, postulou, a partir da análise de milhares de relatos, outra função dos sonhos no cotidiano das pessoas: os enredos oníricos podem funcionar como uma terapia noturna, na qual o organismo experimenta emoções e situações de interação social. “Os sonhos são um ambiente seguro de simulação emocional, em que o cérebro pode lidar com a frustração, o medo e a vergonha”, afirma o neurologista Leandro Teles, da Universidade de São Paulo. Isso explica, por exemplo, porque a jovem que termina com o namorado sonha com diversos cenários amorosos e pode até encenar encontros com desconhecidos nas semanas subsequentes –   ela estaria, inconscientemente, tentando superar o trauma.

Qualquer que seja a intenção digamos assim, dos sonhos, é inegável sua utilidade como retrato e motor da mente humana – daí o recente interesse da ciência pela ideia de controlar o que se passa na cabeça das pessoas adormecidas. Conhecido há milênios e visto com desconfiança até o fim do século XX, o chamado sonho lúcido – fenômeno no qual o sonhador está ciente de que está dormindo, mas mesmo assim atua nas tramas – começou a ser esmiuçado na década de 80, com um estudo liderado pelo psicofisiologista americano Stephen LaBerg. Na pesquisa, ele mostrou que sonhos lúcidos são uma habilidade possível de ser estimulada. O mapeamento da ação das diferentes regiões do cérebro por meio de eletroencefalograma determinou que 1) o sonho lúcido existe e que 2) acontece em um estado intermediário entre a vigília e o sono REM. A atenção está voltada “para dentro”, como no sono, mas a consciência intencional que caracteriza a vigília permanece ativa.

Os cientistas Allan Hobson, da Universidade Harvard, e Ursula Voss, da Universidade Goethe, captaram a intensificação de ondas cerebrais rápidas no córtex pré-frontal, onde mora a razão, durante o sono lúcido. Essa descoberta atiçou a comunidade acadêmica a investigar métodos – como uma pessoa pôr o despertador para acordar no meio da noite, ativar o consciente e depois dormir de novo – para aproveitar melhor o estágio intermediário dos sonhos. O desafio agora é esticar esse potencial para a assimilação de matérias escolares, por exemplo, e dar aos adolescentes o melhor dos mundos: aprenderem enquanto dormem. A primeira providência é acostumar-se a lembrar dos sonhos, uma questão de hábito. “Acordar e continuar alguns minutos na cama, refletindo sobre o sonho, e anotá-lo antes de sair correndo para escovar os dentes ajuda o cérebro a produzir os hormônios necessários para fixar a memória”, diz Ribeiro.

Sonhos intrigam o ser humano desde os primórdios da civilização. Na Grécia antiga, o filósofo Aristóteles acreditava serem eles uma função natural do organismo relacionada a premonições e cura das doenças. Quando as religiões ganharam força, os sonhos passaram a ser vistos como uma ponte para o divino. Sempre cuidadosa em manter seu monopólio nessa comunicação, a Igreja Católica da Idade Média mandava para a fogueira quem defendia a ligação, sob a acusação de bruxaria. O médico austríaco Sigmund Freud mudaria para sempre a maneira de encarar os sonhos a partir da publicação, em 1900, de um livro contendo a observação dos seus próprios, anotados em um caderno desde a morte do pai. A Interpretação dos Sonhos foi um fracasso de público e de crítica: a primeira tiragem, de 600 exemplares, levou oito anos para se esgotar. No fim do século XIX, sonhos eram um assunto relegado a artistas e associado à magia. “Freud foi o primeiro a defender a ideia de que eles não são só imagens aleatórias. Têm um sentido e, na maioria das vezes, estão vinculados a estímulos que vêm de dentro e não foram ainda interpretados, afirma Dora Tognolli, da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

Mesmo diante desses avanços, a neurologia passou quase um século sem dar maior atenção ao conteúdo dos sonhos, privilegiando a investigação do que acontece no cérebro durante o sono. A segunda metade do século XX traria, enfim, descobertas decisivas. Em1953, uma pesquisa da Universidade de Chicago, publicada na revista Science, revolucionou o tema com a descrição do sono REM, lançando por terra a crença de que dormir era um processo homogêneo. Pelo contrário, há pedaços da noite em que a corrente elétrica que percorre os mais de 86 bilhões de neurônios se intensificam, gerando as mesmas ondas rápidas que mantém o cérebro desperto de dia. É nesse período que os sonhos mais vívidos acontecem. “A única diferença entre o cérebro acordado e o cérebro no sono REM é que o adormecido está fechado aos estímulos externos e consegue focar em si mesmo”, explica Teles. Essa conclusão desencadeou uma avalanche de revelações. Sabe-se agora que dormir – e dormir profundamente, como ocorre durante o sono REM – é essencial para a consolidação das memórias e a organização das emoções, ao passo que a privação do sono afeta as lembranças, compromete o raciocínio e – como vivencia qualquer pai de recém-nascido ou estudante da madrugada – azeda o humor.

O primeiro estudo cientifico a pôr o sonho em primeiro plano foi conduzido na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, a partir, como muitas vezes acontece no meio das ciências do fenômeno oposto: o não sonho. Os pesquisadores observaram que as raríssimas pessoas que são incapazes de sonhar possuem lesões na área tegmental ventral, o ponto do cérebro onde ocorrem o armazenamento e a codificação dos impulsos mais primitivos do ser humano, como a busca pela sobrevivência e o medo da morte. Puderam concluir então que é a atuação desse grupo de neurônios, somada à intensa produção de acetilcolina e dopamina, neurotransmissores responsáveis pela potencialização emocional, que dá encadeamento às imagens e emoções revisitadas nos sonhos. “As evidências apontam para uma sequência visual organizada, capaz de ensaiar, valorizar e selecionar comportamento. Não há nada de aleatório nos sonhos”, diz Ribeiro. Na maioria, por mais estapafúrdios que pareçam, eles retratam em algum nível as preocupações pautadas pelos instintos de recompensa E punição. “Os enredos que criamos enquanto dormimos refletem aquilo que nos preocupa de verdade e as emoções em evidência no cérebro”, afirma o neurocientista Mark Blagrove, da Universidade de Swansea.

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A curiosidade da ciência pelos sonhos segue incentivando descobertas, boa parte delas próxima da ficção – esse terreno propicio à explicação do inexplicável. Embora ninguém tenha conseguido, como Leonardo di Caprio no filme A Origem, de 2010, entrar nos sonhos das pessoas e roubar segredos de seu subconsciente. Já dá para, mais ou menos, descobrir o que uma pessoa está sonhando. Os pesquisadores americanos Jack Gallant e Tom Mitchell programaram algoritmos que conseguem revelar o que a pessoa adormecida enxerga ou pensa com base no mapeamento da atividade cerebral, comparando-o com dados coletados durante sua exposição a estímulos variados em estado desperto. Na primeira aplicação do método, em 2013, a equipe do neurocientista japonês Yukiyasu Kamitani “adivinhou” as imagens sonhadas 70% das vezes – aquém de um sucesso retumbante, mas bem mais do que mero acaso. Ainda que de forma incipiente, já é possível, portanto, “ler” a mente adormecida através da tecnologia. Aos poucos, sonhar acordado, essa habilidade tão romântica, vai ganhando um sentido cada vez mais frio e calculista.

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OUTROS OLHARES

SUPERLOTAÇÃO MORTAL

O aumento no número de autorizações para a escalada e a obsessão pelas selfies turísticas levaram uma multidão nunca vista ao topo do Monte Everest

Superlotação mortal

Por que uma pessoa insiste em escalar uma montanha coberta de neve e açoitada por ventos cortantes, de 8.848 metros de altura, repleta de perigos? “Porque ela está lá”, respondeu candidamente o alpinista britânico George Mallory, um dos primeiros obcecados em alcançar o topo do Monte Everest, o mais alto do mundo. Mallory morreu em 1924, a menos de 250 metros de seu objetivo (não se sabe se chegou lá), e seu corpo permaneceu enterrado na neve por 75 anos. Desde então o Everest, pico soberano do Himalaia acessado pelo Nepal, na encosta sul –  a menos difícil e a mais movimentada (também há trilhas pela face norte, partindo da China) -, continua atraindo aventureiros que, ano a ano, guiados pelos célebres sherpas, como são chamados os nativos, arriscam a vida na empreitada. O número máximo de alpinistas permitido por temporada costumava ser 300, ao custo de 11.000 dólares cada um, valor cobrado pelo governo nepalês. Neste ano, foram emitidas 381 autorizações, um recorde. Em contrapartida, os dias de subida autorizada foram pouquíssimos, por causa do mau tempo. Resultado: uma multidão parada a 8.000 metros de altura, esperando a vez de alcançar o cume – e tirar uma infinidade de selfies eternizando cada momento.

Ao todo, onze pessoas morreram nesta temporada, a quarta mais mortal da história. A diferença é que nas outras três as fatalidades foram resultado de avalanches ou terremotos. Agora, a maioria das mortes se deve, incrivelmente, à superlotação. Com tanta gente já em cima, alguns turistas tiveram de esperar doze horas na fila para alcançar o topo, estacionados na chamada “zona da morte” – onde, sem um suprimento adequado de oxigênio, o corpo humano começa a perder suas funções devido ao frio extremo e ao ar rarefeito. Alpinistas inexperientes e despreparados sucumbiram aos efeitos da exaustão. “Houve um aumento vertiginoso no número de pessoas que tentam subir o Everest sem nunca ter escalado montanhas menores”, explica o alpinista argentino-brasileiro Máximo Kausch, recordista mundial na escalada de montanhas de extrema altitude e dono de uma agência de turismo dedicada a esse segmento.

Juntando-se sherpas e alpinistas, amadores ou não, a população no alto do Everest alcançou mais de 800 pessoas. Pesa sobre o governo do Nepal boa parte da responsabilidade, por ser o encarregado de conceder a permissão para a escalada. Não há regulamentação sólida e detalhada para a atividade, e as autoridades não têm nenhuma intenção de criar uma. “Se for para impor mais limites, o melhor é acabar de vez com as expedições em nossa montanha sagrada”, abespinha-se Danduraj Ghimire, diretor do Ministério do Turismo do Nepal, um dos países mais pobres do mundo, que tem no Everest uma de suas maiores fontes de renda. “É muito provável que as agências de viagem continuem a decidir quem pode subir ou não”, diz o montanhista Manoel Morgado, que também organiza excursões rumo ao pico.

Ventos de mais de 200 quilômetros por hora sopram no cume da montanha. Só no mês de maio as correntes de ar quente provenientes da Índia abrem a chamada “janela meteorológica” para a subida, que varia de três a sete dias. Neste ano, ela foi especialmente minúscula: de 21 a 23 de maio. Daí o enorme engarrafamento no último trecho, com gente passando mal sem que os vizinhos se prontificassem a ajudar, cada um economizando seu oxigênio e empurrando o outro para chegar ao topo. “Já vi muita atitude irracional nas alturas. O ser humano, quando fica exausto, volta ao estado primitivo”, diz Kausch.

A superlotação não é o único problema da montanha mais alta do planeta. O lixo acumulado ao longo de quase um século de tentativas de escalada levou a China a fechar seu acesso, em fevereiro. Na face nepalesa, um grupo de catorze pessoas da Campanha de Limpeza do Everest recolheu em duas semanas 3 toneladas cúbicas de latas, garrafas, plástico e equipamento descartado nas encostas. A meta é chegara 10 toneladas. A equipe também encontrou quatro corpos que a neve havia soterrado e reapareceram em consequência do outro grande problema do Himalaia: as mudanças climáticas que estão derretendo as geleiras a passo acelerado. Sem um esforço concentrado, o Everest, em algum momento da história, corre o risco de não estar mais lá.

GESTÃO E CARREIRA

ONDE AS MÁQUINAS (AINDA) NÃO TÊM VEZ

Em um ambiente cada vez mais dominado pela inteligência artificial, as habilidades humanas farão a diferença – para isso, o desafio das empresas é treinar as pessoas.

Onde as máquinas (ainda )não têm vez

Desde o início de abril, o agendamento de cirurgias no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, ficou mais ágil. O uso de uma ferramenta de inteligência artificial facilitou a comunicação das diversas áreas envolvidas em operações médicas, como as que cuidam da esterilização, da farmácia e da preparação das salas de cirurgias. A expectativa é que, com base no histórico da atividade de cada cirurgião, o tempo de espera seja reduzido e o hospital aumente sua capacidade diária de operações, realizando de três a quatro intervenções a mais, sem a necessidade de ampliar a estrutura física ou de pessoal.

A solução traz um novo desafio para os gestores do hospital: com a tecnologia cada vez mais presente, os profissionais farão menos tarefas técnicas e deverão se dedicar mais a práticas que exijam capacidades comportamentais. “O funcionário sempre vai ser o chancelador daquilo que a inteligência artificial oferece”, diz Sidney Klajner, presidente do Albert Einstein. “O trabalho médico, por exemplo, vai se concentrar na inteligência emocional, no relacionamento com pacientes e familiares. “Para isso, o hospital tem feito treinamentos em diversos setores, abordando temas como humanização, bioética e melhora na experiência do paciente.

A iniciativa de desenvolver habilidades humanas vai ao encontro de um estudo recente da consultoria Accenture. A pesquisa examina os potenciais de mudança no modo de trabalho em diversas profissões e sugere as competências que serão mais demandadas dos trabalhadores nos próximos dez anos. Na análise, a otimização do trabalho atual é considerada sob dois aspectos: automação, quando a função pode ser totalmente feita por máquinas; e aumento do tempo, quando a função é apenas auxiliada pela tecnologia. “Se não conseguirmos preparar a força de trabalho com novas habilidades, poderemos perder muitas oportunidades”, diz Armen Ovanessoff, diretor do braço de pesquisas da Accenture. Ele afirma que o Brasil pode deixar de ter um acréscimo anual de 1,7% do PIB até 2028 caso a mão de obra não seja capacitada para as novas exigências. Para o conjunto de países do G20, o risco de perda projetada no período é de até 11,5 trilhões de dólares se as pessoas não forem devidamente preparadas. De acordo com o estudo, quatro habilidades serão mais demandadas no futuro em todos os setores e cargos: raciocínio complexo, criatividade, inteligência sócio emocional e percepção sensorial. A lista tem pontos em comum com um estudo do Fórum Econômico Mundial sobre as competências esperadas para 2020, no qual também são citados conhecimentos como gestão de pessoas, resolução de problemas complexos e capacidade de negociação. “São competências cada vez mais importantes, mas que não podem ser treinadas em escolas”, afirma Ovanessoff. “Você não se torna criativo só lendo e estudando. É preciso ter experiências, fazer o treinamento no próprio trabalho.”

A capacitação para esse futuro ainda incerto é um desafio enorme. “É difícil prever os empregos do futuro, assim como há alguns anos era inimaginável pensar em Airbnb, Uber ou impressora 3D”, diz Marcus Ronsoni, diretor da Sociedade Brasileira de Desenvolvimento Comportamental, cujo foco é evitar o desperdício do potencial humano nas organizações. Segundo Ransoni, uma das certezas é que vivemos num ambiente Vuca (sigla em inglês para “volátil, incerto, complexo e ambíguo”), termo recentemente incorporado ao vocabulário corporativo. No Brasil, o treinamento nas novas habilidades ainda é incipiente, mas algumas empresas já enxergam a questão como uma prioridade –  e buscam soluções de acordo com suas realidades.

Para a Volkswagen do Brasil, por exemplo, a ausência de habilidades humanas mostrou suas consequências em uma situação não relacionada com a tecnologia. Com um bom número de gestores mais velhos, a montadora percebeu choques geracionais entre eles e os funcionários mais jovens. “A geração anterior era mais subserviente: o gestor dava ordens e o subordinado aceitava”, diz Marcellus Puig, líder de recursos humanos da empresa na América do Sul. “Hoje, a cultura deve ser mais amena, menos hierárquica, com reconhecimento de trabalho e aceitação de críticas pelos gestores.” Para solucionar o problema, a Volkswagen investiu no treinamento de competências humanas com o apoio da tecnologia. Desde outubro do ano passado, os gestores recebem um vídeo em realidade aumentada acompanhado de um texto que aborda temas como inovação, aproximação da chefia com os integrantes da equipe ou importância de receber feedbacks dos subordinados. A leitura é uma preparação para uma rodada de conversa presencial, quando os participantes dividem suas impressões sobreo texto e compartilham casos que ocorreram em suas equipes. O impacto da ação é mensurado pelo “barômetro de opinião, uma pesquisa de clima que tem confirmado a eficiência desse tipo de iniciativa.

Apesar da importância que os gestores têm dentro de uma equipe, os treinamentos em habilidades comportamentais não devem ficar restritos às lideranças. “Precisamos de perfis mais transversais em todos os cargos”, diz Gustavo Leal, diretor de operações do Senai. “Os funcionários poderão até ser contratados pelo perfil técnico, mas a manutenção de seu emprego vai depender muito de suas competências em termos de atitude.” Em um contexto de indústria 4.0, Leal enxerga um operário de chão de fábrica exposto a um ambiente tecnológico e digital, tendo de interpretar dados e tomar decisões de forma mais complexa e menos braçal do que ocorre atualmente.

A Nestlé, do setor de alimentos, é uma das empresas que têm promovido o treinamento das competências humanas entre funcionários de todos os níveis hierárquicos. “Existem programas voltados para líderes, mas também trabalhamos com pessoal administrativo, aprendizes, estagiários e operários das fábricas”, diz Marco Custódio, vice-presidente de recursos humanos da Nestlé. “Isso vale para a estratégia de segurança e saúde, quando o trabalhador deve ter a iniciativa de usar equipamentos de proteção ou identificar e alertar riscos, por exemplo.” A Nestlé passou por um reposicionamento em 2018 e decidiu estimular quatro características nos funcionários: espírito de dono (ter autonomia), transparência (comunicar qualquer tema com clareza), colaboração (não trabalhar de maneira isolada) e olhar para fora (fazer comparações com o mercado para mudar atitudes internas). Alguns profissionais recebem treinamentos específicos. Os vendedores, por exemplo, aprendem técnicas de comunicação não violenta e de tomada de decisão.

Em alguns casos, o investimento na formação dessas características é feito antes mesmo da contratação, em dinâmicas com universitários e alunos de cursos técnicos. “Hoje, mais de 70% das empresas de grande porte não levam mais em conta o nome da faculdade para selecionar seus talentos. Elas estão mais dispostas a treiná-los”, diz Sofia Esteves, fundadora da consultoria Cia de Talentos. Sofia participou da criação de um grupo de 14 empresas que decidiram se unir para realizar atividades de desenvolvimento sócio emocional com 5.000 universitários. Entre os temas abordados estão o autoconhecimento, a visão de negócios e a empatia. “Essas empresas investem financeiramente em jovens, mesmo sem a garantia de que eles se tornarão seus funcionários.”

Na fabricante de bebidas Ambev, uma das empresas participantes do grupo, o treinamento de estudantes não anula as ações educativas dos funcionários atuais. “Capacitamos os trabalhadores em competências humanas com foco mais individual, adaptando os currículos para o momento da carreira de cada pessoa”, diz Daniel Spolaor, diretor de gente e gestão da Ambev. No primeiro ano de empresa, os jovens líderes passam pelo Learning, sob mentoria de gestores mais experientes. Com dois ou três anos de casa, o funcionário cursa o Managing, aprendendo, por exemplo, a comunicar-se de maneira mais assertiva. Desde o ano passado, a Ambev trabalha temas mais ligados ao campo das emoções – entre os conteúdos abordados estão a “escuta ativa” e a “comunicação de verdades difíceis”. “A escuta ativa ajuda o líder a extrair dos funcionários, de forma clara, os problemas da equipe, deixando a rotina de trabalho mais tranquila”, diz Spolaor. “Normalmente, os times que passam por esse treinamento trabalham mais à vontade e apresentam melhor desempenho.”

Fora do Brasil, uma das tendências de desenvolvimento de competências é a formação contínua de mentores internos. A plataforma da startup suíça Coorpacademy permite esse tipo de prática, criando cursos moldados para empresas com base em um catálogo de 20 habilidades comportamentais, incluindo agilidade, sensibilidade cultural e gestão de tempo. “Nosso foco é nas competências humanas, porque elas são as únicas que vão durar”, diz Antoine Poincaré, líder de operações internacionais da plataforma, frisando que, com a velocidade da evolução tecnológica, os treinamentos técnicos tendem a ter validade cada vez menor. No sistema da Coorpacademy, o primeiro funcionário de uma empresa a fazer o treinamento interage com a máquina, que propõe desafios e é aprimorada com o uso da tecnologia de aprendizado de máquina. Quando o curso termina, o funcionário vira um treinador e é ele quem passa a interagir com os próximos mentorados. É uma relação ainda virtual, mas muito mais humana. “Aprender online era algo muito solitário, mas, para ensinar competências sociais, precisamos de ferramentas que possibilitem trocas entre as pessoas”, diz Poincaré. Afinal, mesmo com o avanço da inteligência artificial, a tecnologia deve se moldar aos objetivos das pessoas.

 O RISCO DE PERDAS

O grupo das 20 maiores economias poderá abrir mão de 11,5 trilhões de dólares de riqueza nos próximos dez anos por falta de capacitação da mão de obra.

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ALGUMAS HABILIDADES MAIS DEMANDADAS

Com a tecnologia cada vez mais presente nas empresas, os trabalhadores terão de desenvolver capacidades essencialmente humanas para não ficar para trás

 RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS COMPLEXOS

Capacidade de enxergar conexões entre diferentes áreas, antecipar problemas e criar soluções.

PENSAMENTO CRÍTICO

Ampla capacidade de análise, interpretando dados para tomar decisões.

CRIATIVIDADE

Capacidade de criação com base em ideias, modificando processos e formas de trabalhar sempre que necessário.

GESTÃO DE PESSOAS

Habilidade de liderar com o uso da inteligência emocional, melhorando as relações interpessoais.

ALIMENTO DIÁRIO

SEGREDOS DO LUGAR SECRETO

Alimento diário - livro

CAPÍTULO 5 – O SEGREDO DO ARREPENDIMENTO RÁPIDO

 

Oito vezes a Bíblia nos ordena: “Tenham cuidado” (Êxodo 19.12; Deuteronômio 4.23; 11.16; Jeremias 17.21; Lucas 17.3; 21.34; Atos 5.35; 20.28). Duas dessas ordens são dadas pelo próprio Jesus. Tomar cuidado é uma ação básica do lugar secreto. A oração é a calibração constante da alma. É um estilo de vida de parar por um momento e adquirir estoque espiritual puro. Isso não é paranoia espiritual, mas a prática de alguém que tem um temor saudável em relação a Deus e um sublime desejo de alcançar altos níveis de intimidade gloriosa com Ele. O autêntico cristão está constantemente testando seu fervor espiritual, a vigilância, a fidelidade, a pureza, o mor, a obediência e o crescimento na graça.

É no lugar secreto que “meu espírito pergunta” (Salmos 77.6). Anseio muito agradar a Deus e conhecer sua vontade, por isso meu espírito pergunta ao meu coração se há algo em mim de que eu precise me arrepender. Eu não quero que exista nada em minha vida que atrapalhe meu relacionamento com Deus ou seus propósitos para nós. Eu me sinto como se estivesse peneirando ouro – os achados são poucos e não tão significativos quanto o desejado.

Veja um excelente conselho: transforme-se numa pessoa que se arrepende facilmente. A única forma de se aproximar de Deus é através do arrependimento. Se o seu orgulho for um empecilho, supere-o. Você é um miserável. Você precisa de tanta misericórdia que chega a ser assustador. Entenda isso e passe a dominar a arte do arrependimento. Denomine seu pecado da pior forma possível. Humilhe-se. Coloque seu rosto no pó.

Lembro-me do dia em que me conscientizei de que eu vivia abaixo da glória de Deus. Isso aconteceu enquanto eu lia a história de Jesus multiplicando os pães e os peixes para cinco mil homens: “Levantando os olhos e vendo uma grande multidão que se aproximava, Jesus disse a Filipe: ‘Onde compraremos pão para esse povo comer? Fez essa pergunta apenas para pô-lo à prova, pois já tinha em mente o que ia fazer'” (João 6.5-6).

Jesus estava testando Filipe para verificar se ele estava vivendo na dimensão da glória. Filipe teria que estar vivendo em outra dimensão para saber a resposta do teste, que era simplesmente: “Senhor, apenas parta esses pães e peixes e os multiplique para a multidão”. Filipe falhou no teste, porque seus pensamentos estavam no universo abaixo do de Jesus (veja Isaías 55.9). Naquele momento, percebi claramente: estou falhando no teste de Filipe praticamente todos os dias! Sou tão terreno em minhas perspectivas que quase não tenho consciência da dimensão da glória em que Jesus vive. É seguro pressupor que, fora a graça de Deus, estou constantemente aquém das expectativas da excelência da glória de Deus. Preciso me arrepender constantemente? Pode apostar que sim!

Meu querido amigo, eu oro para que você aceite o segredo radical do arrependimento rápido. O arrependimento imediato abre o canal para a comunhão íntima com Deus. Quando você estiver no lugar secreto, seja rápido em confessar sua incredulidade e dureza de coração. Não espere Deus lhe falar sobre isso. Concorde com Ele rapidamente.

Quando falo de arrependimento neste capítulo, não estou falando do arrependimento de pecados como mentira, fornicação, roubo, maledicência, pornografia, ódio, bebedeira ou avareza. Esses pecados são tão óbvios que você nem mesmo precisa do convencimento do Espírito Santo para saber que está em desobediência. A Palavra de Deus é bem clara em relação a esses pecados. A sinceridade e a consciência limpa não podem existir até termos conseguido lidar com esses tipos de pecados externos.

Estou falando sobre o arrependimento de nossas iniquidades. As iniquidades são as falhas ocultas que não vemos, o resíduo mau de nossa natureza decaída que descolore o tecido de nossos pensamentos, motivações, sentimentos, respostas e desejos. As iniquidades estão inseridas em áreas muito mais sutis de pecado, como o orgulho, a rebelião, a incredulidade, a inveja, o egoísmo, a ambição e a cobiça.

Todos nós temos porções de iniquidade e precisamos da ajuda de Deus para enxergá-las. Não podemos nos arrepender de algo que não temos consciência, então, Deus nos ajudará a vê-las. Deus tem muitas maneiras de fazer com que nossas iniquidades venham à tona. E essas maneiras são resumidas sob a metáfora bíblica do fogo. Como Deus usa o fogo para fazer com que nossas iniquidades sejam visíveis é o assunto da passagem a seguir:

Entretanto, o firme fundamento de Deus permanece inabalável e selado com esta inscrição: O Senhor conhece quem lhe pertence e afaste-se da iniquidade todo aquele que confessa o nome do Senhor. Numa grande casa há vasos não apenas de ouro e prata, mas também de madeira e barro; alguns para fins honrosos, outros para fins desonrosos. Se alguém se purificar dessas coisas, será vaso para honra, santificado, útil para o Senhor e preparado para toda boa obra. – 2 Timóteo 2.19-21

Paulo está dizendo que a vida cristã é alicerçada em duas realidades poderosas: somos conhecidos por Cristo e nos afastamos da iniquidade quando a vemos.

Quando você estiver no lugar secreto meditando na Palavra, Deus usará o fogo das circunstâncias combinado com o fogo de sua Palavra para revelar suas falhas ocultas. Quando contemplar a perfeição e a beleza de Deus, repentinamente se verá sob uma luz completamente nova. Você perceberá a aceitação incondicional de Deus a despeito de suas fraquezas, mas também o firme compromisso em moldá-lo à imagem de Cristo. Nesse momento você estará diante de uma oportunidade maravilhosa: o momento de se arrepender rapidamente.

Para o cristão, esse é efetivamente um momento empolgante. O arrependimento torna-se a oportunidade de se afastar de coisas que estão atrapalhando o amor e, como tal, se torna o catalisador de uma maior e mais profunda intimidade do que aquela que conhecemos até este ponto com Deus. Quando nos arrependemos rapidamente dessas coisas que a Palavra de Deus está revelando, experimentamos o prazer do Pai de uma maneira palpável. A luz de seu semblante tocando nossos corações faz com que sintamos realmente seu deleite em nossa reação.

Assim que nos arrependemos das iniquidades que o fogo traz à tona, estamos efetivamente comprando ouro refinado pelo fogo (Apocalipse 3.18). Um padrão consistente de arrependimento rápido fará com que nos tornemos um vaso de ouro ou prata, útil para o Mestre para fins nobres. Aqueles que não se arrependem não perdem necessariamente a salvação, apenas não progridem e não deixam de ser vasos de madeira ou barro. Eles são úteis para o Mestre somente para fins desonrosos (em uma casa grande há a necessidade até mesmo de desentupidor sanitário e pás de lixo).

A promessa da passagem anterior é clara: o arrependimento rápido da iniquidade faz com que avancemos para os propósitos mais nobres da grande casa de Deus e aprofunda nosso relacionamento com Ele.