A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESQUECER PARA LEMBRAR

Estudos neurocientíficos sobre a rara capacidade de se recordar com detalhes dos fatos ocorridos a cada hora dos últimos 20 ou 30 anos revelam que a memória sadia não tem a ver apenas com a retenção daquilo que é significativo

Esquecer para lembrar

Há coisas na vida que seria melhor esquecer. Infelizmente para A. J., uma mulher de 42 anos, moradora da Califórnia, esse é um luxo com o qual só é possível sonhar. Ela se lembra de cada dia da sua vida desde a adolescência com extraordinário detalhe. Quando alguém menciona qualquer data desde 1980 é como se A. J. fosse imediatamente transportada de volta no tempo, descrevendo onde estava, o que estava fazendo e quais foram as notícias daquele dia. A habilidade desconcertou e deslumbrou a família e amigos por várias décadas, mas A. J. tem pago um preço alto por ela: está presa num ciclo de lembranças que descreve como um “filme que está passando e nunca para”. Mesmo quando quer, A. J. não consegue esquecer.

Há outras pessoas com capacidades semelhantes que estão agora trabalhando com neurocientistas para descobrir como e por que se lembram tanto. Com a sondagem de seu cérebro em busca de pistas, uma coisa está se tornando evidente: memória sadia não tem a ver apenas com a retenção daquilo que é significativo. Muito mais importante é ser capaz de esquecer o que não tem tanta importância.

Passaram-se sete anos desde que as extraordinárias habilidades de A. J. vieram à luz pela primeira vez, quando ela escreveu ao neuropsicólogo James McGaugh, da Universidade da Califórnia (UC)em lrvine, pedindo ajuda. Ela descreveu que a constante rememoração era “ininterrupta, incontrolável e extremamente fatigante, um verdadeiro “fardo” do qual ela era ao mesmo tempo guardiã e vítima.

Intrigado, McGaugh e seus colegas Elizabeth Parker e Lany Cahill, também da universidade em lrvine, se dispuseram a investigara memória de A. J. Nos primeiros testes, descobriram que ela era capaz de identificar corretamente a data de todas as Páscoas dos últimos 24 anos, além do local em que se encontrava e o que fazia nesses dias (detalhes posteriormente confirmados com os registros de seu diário). E não apenas isso, a moça conseguia identificar o dia da semana de qualquer ano desde 1980 e foi capaz de dizer a data correta de eventos que geralmente se esquecem com facilidade, como o dia em que foi ao ar o episódio “Quem atirou em J. R.1? do seriado de TV  Dallas.

Convencida de que a afecção era nova para a ciência, a equipe batizou-a de síndrome hipertimésica – do grego timesis, lembrar. Desde então, os neurocientistas identificaram várias outras pessoas que parecem ter característica semelhante. Mas, afinal, o que torna os hipertimésicos diferentes dos demais e o que poderiam eles nos ajudar a descobrir sobre as nebulosas engrenagens da memória considerada normal?

A raiz da síndrome hipertimésica poderia se manifestar em qualquer um dos estágios de fixação de lembranças. Em termos gerais, uma memória é formada em três estágios: em primeiro lugar, ela é codificada, então armazenada e, mais tarde, recuperada. É possível que A. J. e seus colegas hipertimésicos realizem essas três tarefas com eficiência muito maior que o restante de nós. Mas existe outra possibilidade, talvez mais intrigante. A extraordinária memória de A. J. poderia também ser explicada por uma falha das estratégias utilizadas pelo nosso cérebro para nos ajudar a esquecer as coisas que não precisamos lembrar.

Podemos dizer, de forma simplificada, que novas memórias se iniciam com a excitação temporária das sinapses numa rede de neurônios. Quando lembramos algo, determinadas vias neurais serão reativadas. Quanto mais vezes isso acontece, mais importante o cérebro considera a recordação e é mais provável que ela seja convertida numa memória de longo prazo, com a formação de conexões pem1anentes entre os neurônios. Essas conexões são reforçadas cada vez que a informação é retomada, facilitando sua recuperação. O cérebro contém tantas conexões sinápticas potenciais que, pelo menos em teoria, não existe limite para o número de memórias de longo prazo que uma pessoa consegue armazenar. Por que, então, não nos lembramos de tudo?

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BLOQUEIO E DISTRAÇÃO

“Um sistema que registra incondicionalmente todo e qualquer detalhe e deixa os dados continuamente à disposição resultará numa confusão geral”, afirma o chefe do Departamento de Psicologia da Universidade Harvard, Daniel L. Schacter. O pesquisador diz que deixamos de recordar porque o cérebro desenvolveu estratégias para eliminar informações irrelevantes ou ultrapassadas. O chamado esquecimento eficiente é, portanto, crucial para haver uma memória funcional. Quando nos esquecemos de algo útil significa simplesmente que o sistema de poda está trabalhando um pouco bem demais”, diz Schacter.

No seu livro de 2001 Os Sete Pecados da Memória (The Seven Sins of Memory), lançado no Brasil pela Editora Rocco, Schacter descreve várias maneiras como esquecemos. Ele chama uma delas de “transitoriedade do pecado”. É com essa estratégia que descartamos informações obsoletas – um velho número de telefone ou o que comemos no almoço na terça-feira passada, por exemplo. Assim, como recuperar e utilizar uma informação a solidifica na memória, nossa mente também ‘julga” que é seguro descartar informações que raramente acessamos.

Outro “pecado” é a distração, que nos faz, por exemplo, deixar de codificar corretamente as informações sobre onde colocamos nossas chaves porque nossa atenção estava em outro lugar quando as guardamos. Outro problema é o bloqueio: neste caso, o cérebro restringe uma memória em favor de outra concorrente, para não ficarmos confusos, por exemplo, quando uma mesma palavra tem dois significados diferentes. Ocasionalmente, recuperamos antes aquela que não queremos e, então, nos esforçamos para lembrar a outra. Schacter argumenta que essas estratégias têm uma finalidade adaptativa, impedindo-nos de armazenar memórias desnecessárias, confusas ou obsoletas. Afinal, queremos lembrar nosso atual número de telefone e não um antigo, e onde estacionamos o carro hoje, não na semana retrasada.

Indubitavelmente, a memória de A. J. não funciona exatamente da mesma maneira. E até agora especialistas não sabem explicar de forma clara por que isso acontece, mas uma pista poderia estar no fato de que tanto A. J. quanto Brad Williams (locutor de rádio com características de memória semelhantes às dela) têm qualidades obsessivas. Poderiam eles estar simplesmente revendo os detalhes da vida seguidas vezes? Embora nem A. J. nem Williams possam ser considerados autistas, da mesma forma que alguns autistas savants, ambos têm um interesse fora do comum por datas. “Nos dois casos, eles parecem decorar o calendário. Existe alguma coisa na atenção em relação a datas e ao seu conhecimento sobre elas que nos intriga”, reconhece McCaugh.

De fato, A. J. guarda na cabeça uma espécie de calendário mental de meses e anos e o descreve como algo que ela simplesmente conhece”.

Além disso, A.J. mantém um diário há 32 anos e diz que “sempre precisou de ordem”. Tanto ela quanto Williams têm grandes coleções de guias de TV, iniciadas há muitos anos. Essas estratégias compulsivas podem ajudá­los a organizar e reforçar memórias, diminuindo a probabilidade de serem arquivadas e esquecidas.

Um ponto crucial, contudo, é que, embora impressionante, a memória de A. J. não é indiscriminada e não poderia ser descrita como fotográfica. Integrantes da equipe de McGaugh descobriram isso recentemente, depois que um deles pediu à moça que fechasse os olhos e descrevesse o que os pesquisadores estavam vestindo. Para surpresa geral, ela não tinha a menor ideia. Da mesma forma, não conseguiu lembrar as datas em que a equipe a tinha interrogado, cerca de um mês antes. “A memória autobiográfica, embora incrível, é também seletiva e até trivial em certos aspectos”, diz McGaugh. Isso ficou evidente no mau desempenho de A. J. em testes nos quais foi pedido que memorizasse listas de palavras ou reconhecesse rostos. Não apenas isso, A J. foi uma aluna média, incapaz de se beneficiar da memória prodigiosa nos estudos. A memória de Williams também tem limites. Ele precisa se dedicar bastante para decorar suas falas para as produções teatrais nas quais atua e, apesar de ser um aficionado de palavras cruzadas, não conseguiu memorizar listas de palavras além daquelas com duas letras. “Imagino que apenas as lembranças autobiográficas não exigem nenhum esforço de minha parte”, diz ele. Schacter e Michael Anderson, da Universidade de St. Andrews, Reino Unido, acreditam que aquilo que parece ser uma habilidade inata pode ter muito a ver com rememoração obsessiva dos eventos. Pode ser que A. J. e Williams obtenham tanta satisfação de se lembrar dos detalhes autobiográficos que se tornaram especialistas na história da própria vida; coisas que eles consideram menos interessantes não são tão bem guardadas.

Segundo especialistas como K. Anders Ericsson, da Universidade da Flórida em Tallahassee, existem muitos exemplos surpreendentes a respeito da memória. Consideremos, por exemplo, psicoterapeutas que se recordam facilmente de detalhes contados por seus pacientes meses e até anos depois de determinada sessão; garçons que precisam lembrar intermináveis pedidos dos clientes; mestres de xadrez que conseguem reproduzir a posição de todas as peças de um tabuleiro durante o jogo depois de apenas um olhar de relance ou atores que memorizam peças inteiras de William Shakespeare.

 ARDIL DA MENTE

” Temos fortes indícios de que as variações da memória de uma pessoa para outra não parecem resultado de diferenças inatas, e sim dos tipos de aptidões que são desenvolvidas”, diz Ericsson. Ele não enxerga nenhuma evidência de que as habilidades de A. J. e Williams precisem de esclarecimentos adicionais.

McCaugh, contudo, rejeita a ideia de que a síndrome hipenimésica possa ser explicada de forma tão fácil. Segundo ele, mesmo que essas pessoas sejam obsessivas, esse fato não explica como são capazes de memorizar tanto. “Seria necessário supor que a cada dia ou momento elas dizem a si mesmas: ‘Tenho de lembrar que o presidente chileno Salvador Allende morreu no dia 11 de setembro de 1973’, por exemplo. “O problema é que são milhões de informações, que podem ser acessadas sempre que desejam. A. J. conta que sua rememoração é automática. Ela ressalta que tais “reprises” levariam mais horas para serem lembradas e contadas em detalhes do que as horas existentes no dia. Williams também diz que recordar não exige nenhum esforço.

É possível que a síndrome hipertimésica não dependa apenas da fixação e da codificação, mas também da recuperação eficaz das memórias. Ninguém sabe se aquilo que esquecemos de fato desaparece ou se simplesmente perdemos a capacidade de acesso a esses conteúdos. Talvez A. J. e Williams simplesmente sejam melhores nessa recuperação que a maioria das pessoas ou, quem sabe, as memórias relacionadas estejam mais fortemente vinculadas no cérebro deles de maneira que uma recordação leva à seguinte com perfeição, sem descontinuidade. A.  J., em particular, é propensa a se perder em associações: uma lembrança dispara outra e outra de forma vertiginosa – e ela afirma não poder fazer absolutamente nada para impedir esse processo. “É como uma tela dividida, como se eu estivesse conversando com alguém e, ao mesmo tempo, vendo alguma outra coisa”, contou a McGaugh. Esse aspecto da memória de A. J. exige explicação, diz Schacter. “Por que ela está travada no modo de recuperação?”

Anderson especula se A. J. teria alguma deficiência nos mecanismos de controle inconscientes que normalmente impedem que memórias indesejáveis voltem a fluir. Seria muito difícil testar tais processos inconscientes, mas o pesquisador mostrou que é possível suprimir conscientemente as memórias. Para investigar esses mecanismos nas pessoas com memória considerada normal, ele treinou um grupo de voluntários para se lembrar de associações de palavras e, depois, instruiu o grupo a esquecer metade das associações que tinham aprendido. Invariavelmente, as pessoas se lembraram menos daquilo que foram instruídas a esquecer. O estudo foi publicado na edição 410 da Nature. Na fase seguinte da experiência, Anderson utilizou um escâner de ressonância magnética funcional para examinar a ativação cerebral durante os testes. Ele constatou que, quando os voluntários suprimiam conscientemente a recuperação de associações aprendidas, era ativada uma parte do córtex pré-frontal – área do cérebro associada ao controle de impulso e à função executiva. Um dos participantes era um veterano da guerra do Iraque que confessou a Anderson estar constantemente lutando para suprimir muitas de suas lembranças dessa vivência. “Durante os experimentos, ele exibiu ativações maciças, sugerindo que tinha se tomado muito hábil em repelir as memórias”, conta o cientista.

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OCEANO DE LEMBRANÇAS

J. acredita ser incapaz de utilizar o mesmo recurso. Ela diz que a constante recuperação das memórias é mentalmente fatigante e que as recordações negativas voltam para assombrá-la repetidas vezes. Portanto, há possibilidades de que os mecanismos de controle de A. J. estejam de alguma forma comprometidos. Anderson observa que, nos testes de memória de McCaugh, A. J. se mostrou deficiente em provas de função executiva e raciocínio, aptidões necessárias para tomada de decisão e inibição de respostas inúteis. Isso talvez signifique que ela é menos apta a bloquear a recuperação de memória que as pessoas em geral, o que poderia explicar por que é incapaz de parar uma vez que começa

McCaugh concorda que isso pode estar facilitando a recuperação de memória de A. J., mas também oferece outra explicação. Ele salienta que, embora não seja possível dizer se ela e Williams teriam atividade anom1almente baixa no córtex pré­frontal, uma atividade diminuída nessa região cerebral está associada a maior atividade na amígdala basolateral – a pane do cérebro associada à qualidade do armazenamento das memórias. Se fosse esse o caso de A. J., ela poderia ser melhor no “arquivamento” de informações que a maioria das pessoas e, ao mesmo tempo, ter dificuldades em bloquear sua recuperação.

A esperança dos cientistas é que a síndrome hipertimésica possa lhes oferecer informações sobre o funcionamento da memória normal. Aliás, há pistas a caminho. Recentemente, McGaugh realizou varreduras por ressonância magnética em A. J. e Williams e, atualmente, está comparando os dados obtidos com os de indivíduos ­ controle com memória normal. “Infelizmente, mesmo que essas análises revelem diferenças notáveis, a questão poderá não estar decidida. Se as varreduras mostrarem que o cérebro dos hipertimésicos é diferente, isso poderá refletir alterações ocasionadas pelo comportamento obsessivo e estratégias decodificação, e não uma diferença inata. Ericsson obteve varreduras cerebrais de memorizadores e constatou que elas diferem da normal de variadas maneiras, dependendo das estratégias usadas por cada um para lembrar”, diz Anderson.

Williams, mais que A J., não parece perturbado com seu dom, ele o utiliza profissionalmente. É apresentador de um programa de rádio e seus ouvintes telefonam uma vez por semana para desafiá-lo no quadro ”Deixe Brad sem palavras, tentando propor perguntas sobre trivialidades que o radialista não consiga responder. Mas ele parece ter seu oceano de lembranças sob controle. Enquanto A. J. e Williams continuam a provocar debates na comunidade científica, muitos são tentados a desejar um pouco da capacidade rara que eles tem – no mínimo, para tornar mais fácil lembrar nomes, momentos felizes e ganhar prêmios em competições de perguntas e respostas. Parece inevitável questionar, todos nós poderíamos aprender habilidades semelhantes sem que, nesse processo, fôssemos “afogados” por ondas de lembranças? Afinal, esquecer nos protege de muitos dissabores

Sim, em teoria é possível. Existem vários métodos testados e aprovados para melhorar nossa memória. Prestar mais atenção naquilo que queremos lembrar é um bom começo. Como? Mantendo-nos realmente presentes naquilo que fazemos, sem deixar que o automatismo tome conta da situação. Pode parecer simples, mas para a maioria das pessoas é uma prática que exige treino. Esses exercícios podem impedir que nosso cérebro jogue fora “o bebê junto com a água do banho”, como diz o ditado popular. Mas não esqueça: da próxima vez que você amaldiçoar a memória ao esquecer um nome, um compromisso ou o número do seu próprio telefone, lembre-se simplesmente de que seu cérebro está lhe fazendo um favor.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.