A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESQUECER PARA LEMBRAR

Estudos neurocientíficos sobre a rara capacidade de se recordar com detalhes dos fatos ocorridos a cada hora dos últimos 20 ou 30 anos revelam que a memória sadia não tem a ver apenas com a retenção daquilo que é significativo

Esquecer para lembrar

Há coisas na vida que seria melhor esquecer. Infelizmente para A. J., uma mulher de 42 anos, moradora da Califórnia, esse é um luxo com o qual só é possível sonhar. Ela se lembra de cada dia da sua vida desde a adolescência com extraordinário detalhe. Quando alguém menciona qualquer data desde 1980 é como se A. J. fosse imediatamente transportada de volta no tempo, descrevendo onde estava, o que estava fazendo e quais foram as notícias daquele dia. A habilidade desconcertou e deslumbrou a família e amigos por várias décadas, mas A. J. tem pago um preço alto por ela: está presa num ciclo de lembranças que descreve como um “filme que está passando e nunca para”. Mesmo quando quer, A. J. não consegue esquecer.

Há outras pessoas com capacidades semelhantes que estão agora trabalhando com neurocientistas para descobrir como e por que se lembram tanto. Com a sondagem de seu cérebro em busca de pistas, uma coisa está se tornando evidente: memória sadia não tem a ver apenas com a retenção daquilo que é significativo. Muito mais importante é ser capaz de esquecer o que não tem tanta importância.

Passaram-se sete anos desde que as extraordinárias habilidades de A. J. vieram à luz pela primeira vez, quando ela escreveu ao neuropsicólogo James McGaugh, da Universidade da Califórnia (UC)em lrvine, pedindo ajuda. Ela descreveu que a constante rememoração era “ininterrupta, incontrolável e extremamente fatigante, um verdadeiro “fardo” do qual ela era ao mesmo tempo guardiã e vítima.

Intrigado, McGaugh e seus colegas Elizabeth Parker e Lany Cahill, também da universidade em lrvine, se dispuseram a investigara memória de A. J. Nos primeiros testes, descobriram que ela era capaz de identificar corretamente a data de todas as Páscoas dos últimos 24 anos, além do local em que se encontrava e o que fazia nesses dias (detalhes posteriormente confirmados com os registros de seu diário). E não apenas isso, a moça conseguia identificar o dia da semana de qualquer ano desde 1980 e foi capaz de dizer a data correta de eventos que geralmente se esquecem com facilidade, como o dia em que foi ao ar o episódio “Quem atirou em J. R.1? do seriado de TV  Dallas.

Convencida de que a afecção era nova para a ciência, a equipe batizou-a de síndrome hipertimésica – do grego timesis, lembrar. Desde então, os neurocientistas identificaram várias outras pessoas que parecem ter característica semelhante. Mas, afinal, o que torna os hipertimésicos diferentes dos demais e o que poderiam eles nos ajudar a descobrir sobre as nebulosas engrenagens da memória considerada normal?

A raiz da síndrome hipertimésica poderia se manifestar em qualquer um dos estágios de fixação de lembranças. Em termos gerais, uma memória é formada em três estágios: em primeiro lugar, ela é codificada, então armazenada e, mais tarde, recuperada. É possível que A. J. e seus colegas hipertimésicos realizem essas três tarefas com eficiência muito maior que o restante de nós. Mas existe outra possibilidade, talvez mais intrigante. A extraordinária memória de A. J. poderia também ser explicada por uma falha das estratégias utilizadas pelo nosso cérebro para nos ajudar a esquecer as coisas que não precisamos lembrar.

Podemos dizer, de forma simplificada, que novas memórias se iniciam com a excitação temporária das sinapses numa rede de neurônios. Quando lembramos algo, determinadas vias neurais serão reativadas. Quanto mais vezes isso acontece, mais importante o cérebro considera a recordação e é mais provável que ela seja convertida numa memória de longo prazo, com a formação de conexões pem1anentes entre os neurônios. Essas conexões são reforçadas cada vez que a informação é retomada, facilitando sua recuperação. O cérebro contém tantas conexões sinápticas potenciais que, pelo menos em teoria, não existe limite para o número de memórias de longo prazo que uma pessoa consegue armazenar. Por que, então, não nos lembramos de tudo?

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BLOQUEIO E DISTRAÇÃO

“Um sistema que registra incondicionalmente todo e qualquer detalhe e deixa os dados continuamente à disposição resultará numa confusão geral”, afirma o chefe do Departamento de Psicologia da Universidade Harvard, Daniel L. Schacter. O pesquisador diz que deixamos de recordar porque o cérebro desenvolveu estratégias para eliminar informações irrelevantes ou ultrapassadas. O chamado esquecimento eficiente é, portanto, crucial para haver uma memória funcional. Quando nos esquecemos de algo útil significa simplesmente que o sistema de poda está trabalhando um pouco bem demais”, diz Schacter.

No seu livro de 2001 Os Sete Pecados da Memória (The Seven Sins of Memory), lançado no Brasil pela Editora Rocco, Schacter descreve várias maneiras como esquecemos. Ele chama uma delas de “transitoriedade do pecado”. É com essa estratégia que descartamos informações obsoletas – um velho número de telefone ou o que comemos no almoço na terça-feira passada, por exemplo. Assim, como recuperar e utilizar uma informação a solidifica na memória, nossa mente também ‘julga” que é seguro descartar informações que raramente acessamos.

Outro “pecado” é a distração, que nos faz, por exemplo, deixar de codificar corretamente as informações sobre onde colocamos nossas chaves porque nossa atenção estava em outro lugar quando as guardamos. Outro problema é o bloqueio: neste caso, o cérebro restringe uma memória em favor de outra concorrente, para não ficarmos confusos, por exemplo, quando uma mesma palavra tem dois significados diferentes. Ocasionalmente, recuperamos antes aquela que não queremos e, então, nos esforçamos para lembrar a outra. Schacter argumenta que essas estratégias têm uma finalidade adaptativa, impedindo-nos de armazenar memórias desnecessárias, confusas ou obsoletas. Afinal, queremos lembrar nosso atual número de telefone e não um antigo, e onde estacionamos o carro hoje, não na semana retrasada.

Indubitavelmente, a memória de A. J. não funciona exatamente da mesma maneira. E até agora especialistas não sabem explicar de forma clara por que isso acontece, mas uma pista poderia estar no fato de que tanto A. J. quanto Brad Williams (locutor de rádio com características de memória semelhantes às dela) têm qualidades obsessivas. Poderiam eles estar simplesmente revendo os detalhes da vida seguidas vezes? Embora nem A. J. nem Williams possam ser considerados autistas, da mesma forma que alguns autistas savants, ambos têm um interesse fora do comum por datas. “Nos dois casos, eles parecem decorar o calendário. Existe alguma coisa na atenção em relação a datas e ao seu conhecimento sobre elas que nos intriga”, reconhece McCaugh.

De fato, A. J. guarda na cabeça uma espécie de calendário mental de meses e anos e o descreve como algo que ela simplesmente conhece”.

Além disso, A.J. mantém um diário há 32 anos e diz que “sempre precisou de ordem”. Tanto ela quanto Williams têm grandes coleções de guias de TV, iniciadas há muitos anos. Essas estratégias compulsivas podem ajudá­los a organizar e reforçar memórias, diminuindo a probabilidade de serem arquivadas e esquecidas.

Um ponto crucial, contudo, é que, embora impressionante, a memória de A. J. não é indiscriminada e não poderia ser descrita como fotográfica. Integrantes da equipe de McGaugh descobriram isso recentemente, depois que um deles pediu à moça que fechasse os olhos e descrevesse o que os pesquisadores estavam vestindo. Para surpresa geral, ela não tinha a menor ideia. Da mesma forma, não conseguiu lembrar as datas em que a equipe a tinha interrogado, cerca de um mês antes. “A memória autobiográfica, embora incrível, é também seletiva e até trivial em certos aspectos”, diz McGaugh. Isso ficou evidente no mau desempenho de A. J. em testes nos quais foi pedido que memorizasse listas de palavras ou reconhecesse rostos. Não apenas isso, A J. foi uma aluna média, incapaz de se beneficiar da memória prodigiosa nos estudos. A memória de Williams também tem limites. Ele precisa se dedicar bastante para decorar suas falas para as produções teatrais nas quais atua e, apesar de ser um aficionado de palavras cruzadas, não conseguiu memorizar listas de palavras além daquelas com duas letras. “Imagino que apenas as lembranças autobiográficas não exigem nenhum esforço de minha parte”, diz ele. Schacter e Michael Anderson, da Universidade de St. Andrews, Reino Unido, acreditam que aquilo que parece ser uma habilidade inata pode ter muito a ver com rememoração obsessiva dos eventos. Pode ser que A. J. e Williams obtenham tanta satisfação de se lembrar dos detalhes autobiográficos que se tornaram especialistas na história da própria vida; coisas que eles consideram menos interessantes não são tão bem guardadas.

Segundo especialistas como K. Anders Ericsson, da Universidade da Flórida em Tallahassee, existem muitos exemplos surpreendentes a respeito da memória. Consideremos, por exemplo, psicoterapeutas que se recordam facilmente de detalhes contados por seus pacientes meses e até anos depois de determinada sessão; garçons que precisam lembrar intermináveis pedidos dos clientes; mestres de xadrez que conseguem reproduzir a posição de todas as peças de um tabuleiro durante o jogo depois de apenas um olhar de relance ou atores que memorizam peças inteiras de William Shakespeare.

 ARDIL DA MENTE

” Temos fortes indícios de que as variações da memória de uma pessoa para outra não parecem resultado de diferenças inatas, e sim dos tipos de aptidões que são desenvolvidas”, diz Ericsson. Ele não enxerga nenhuma evidência de que as habilidades de A. J. e Williams precisem de esclarecimentos adicionais.

McCaugh, contudo, rejeita a ideia de que a síndrome hipenimésica possa ser explicada de forma tão fácil. Segundo ele, mesmo que essas pessoas sejam obsessivas, esse fato não explica como são capazes de memorizar tanto. “Seria necessário supor que a cada dia ou momento elas dizem a si mesmas: ‘Tenho de lembrar que o presidente chileno Salvador Allende morreu no dia 11 de setembro de 1973’, por exemplo. “O problema é que são milhões de informações, que podem ser acessadas sempre que desejam. A. J. conta que sua rememoração é automática. Ela ressalta que tais “reprises” levariam mais horas para serem lembradas e contadas em detalhes do que as horas existentes no dia. Williams também diz que recordar não exige nenhum esforço.

É possível que a síndrome hipertimésica não dependa apenas da fixação e da codificação, mas também da recuperação eficaz das memórias. Ninguém sabe se aquilo que esquecemos de fato desaparece ou se simplesmente perdemos a capacidade de acesso a esses conteúdos. Talvez A. J. e Williams simplesmente sejam melhores nessa recuperação que a maioria das pessoas ou, quem sabe, as memórias relacionadas estejam mais fortemente vinculadas no cérebro deles de maneira que uma recordação leva à seguinte com perfeição, sem descontinuidade. A.  J., em particular, é propensa a se perder em associações: uma lembrança dispara outra e outra de forma vertiginosa – e ela afirma não poder fazer absolutamente nada para impedir esse processo. “É como uma tela dividida, como se eu estivesse conversando com alguém e, ao mesmo tempo, vendo alguma outra coisa”, contou a McGaugh. Esse aspecto da memória de A. J. exige explicação, diz Schacter. “Por que ela está travada no modo de recuperação?”

Anderson especula se A. J. teria alguma deficiência nos mecanismos de controle inconscientes que normalmente impedem que memórias indesejáveis voltem a fluir. Seria muito difícil testar tais processos inconscientes, mas o pesquisador mostrou que é possível suprimir conscientemente as memórias. Para investigar esses mecanismos nas pessoas com memória considerada normal, ele treinou um grupo de voluntários para se lembrar de associações de palavras e, depois, instruiu o grupo a esquecer metade das associações que tinham aprendido. Invariavelmente, as pessoas se lembraram menos daquilo que foram instruídas a esquecer. O estudo foi publicado na edição 410 da Nature. Na fase seguinte da experiência, Anderson utilizou um escâner de ressonância magnética funcional para examinar a ativação cerebral durante os testes. Ele constatou que, quando os voluntários suprimiam conscientemente a recuperação de associações aprendidas, era ativada uma parte do córtex pré-frontal – área do cérebro associada ao controle de impulso e à função executiva. Um dos participantes era um veterano da guerra do Iraque que confessou a Anderson estar constantemente lutando para suprimir muitas de suas lembranças dessa vivência. “Durante os experimentos, ele exibiu ativações maciças, sugerindo que tinha se tomado muito hábil em repelir as memórias”, conta o cientista.

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OCEANO DE LEMBRANÇAS

J. acredita ser incapaz de utilizar o mesmo recurso. Ela diz que a constante recuperação das memórias é mentalmente fatigante e que as recordações negativas voltam para assombrá-la repetidas vezes. Portanto, há possibilidades de que os mecanismos de controle de A. J. estejam de alguma forma comprometidos. Anderson observa que, nos testes de memória de McCaugh, A. J. se mostrou deficiente em provas de função executiva e raciocínio, aptidões necessárias para tomada de decisão e inibição de respostas inúteis. Isso talvez signifique que ela é menos apta a bloquear a recuperação de memória que as pessoas em geral, o que poderia explicar por que é incapaz de parar uma vez que começa

McCaugh concorda que isso pode estar facilitando a recuperação de memória de A. J., mas também oferece outra explicação. Ele salienta que, embora não seja possível dizer se ela e Williams teriam atividade anom1almente baixa no córtex pré­frontal, uma atividade diminuída nessa região cerebral está associada a maior atividade na amígdala basolateral – a pane do cérebro associada à qualidade do armazenamento das memórias. Se fosse esse o caso de A. J., ela poderia ser melhor no “arquivamento” de informações que a maioria das pessoas e, ao mesmo tempo, ter dificuldades em bloquear sua recuperação.

A esperança dos cientistas é que a síndrome hipertimésica possa lhes oferecer informações sobre o funcionamento da memória normal. Aliás, há pistas a caminho. Recentemente, McGaugh realizou varreduras por ressonância magnética em A. J. e Williams e, atualmente, está comparando os dados obtidos com os de indivíduos ­ controle com memória normal. “Infelizmente, mesmo que essas análises revelem diferenças notáveis, a questão poderá não estar decidida. Se as varreduras mostrarem que o cérebro dos hipertimésicos é diferente, isso poderá refletir alterações ocasionadas pelo comportamento obsessivo e estratégias decodificação, e não uma diferença inata. Ericsson obteve varreduras cerebrais de memorizadores e constatou que elas diferem da normal de variadas maneiras, dependendo das estratégias usadas por cada um para lembrar”, diz Anderson.

Williams, mais que A J., não parece perturbado com seu dom, ele o utiliza profissionalmente. É apresentador de um programa de rádio e seus ouvintes telefonam uma vez por semana para desafiá-lo no quadro ”Deixe Brad sem palavras, tentando propor perguntas sobre trivialidades que o radialista não consiga responder. Mas ele parece ter seu oceano de lembranças sob controle. Enquanto A. J. e Williams continuam a provocar debates na comunidade científica, muitos são tentados a desejar um pouco da capacidade rara que eles tem – no mínimo, para tornar mais fácil lembrar nomes, momentos felizes e ganhar prêmios em competições de perguntas e respostas. Parece inevitável questionar, todos nós poderíamos aprender habilidades semelhantes sem que, nesse processo, fôssemos “afogados” por ondas de lembranças? Afinal, esquecer nos protege de muitos dissabores

Sim, em teoria é possível. Existem vários métodos testados e aprovados para melhorar nossa memória. Prestar mais atenção naquilo que queremos lembrar é um bom começo. Como? Mantendo-nos realmente presentes naquilo que fazemos, sem deixar que o automatismo tome conta da situação. Pode parecer simples, mas para a maioria das pessoas é uma prática que exige treino. Esses exercícios podem impedir que nosso cérebro jogue fora “o bebê junto com a água do banho”, como diz o ditado popular. Mas não esqueça: da próxima vez que você amaldiçoar a memória ao esquecer um nome, um compromisso ou o número do seu próprio telefone, lembre-se simplesmente de que seu cérebro está lhe fazendo um favor.

OUTROS OLHARES

ONDE MORA A EDUCAÇÃO

Ensino domiciliar está na pauta do governo Bolsonaro, diz respeito a um número restrito de famílias e não enfrenta as graves questões que atingem a educação no país.

Onde mora a educação

Os primeiros dias do presidente Jair Bolsonaro no poder vêm sendo marcados pelo anúncio de medidas e intenções polêmicas em quase todas as áreas. Algumas delas dividiram fortemente corações e mentes de especialistas, professores, gestores e instituições no ambiente da educação. Entre essas decisões que balançam o setor está regulamentar legalmente a prática da Educação Domiciliar (ED), ou Doméstica, ou Familiar, ou Homeschooling, no Brasil. No segundo semestre de 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em caráter liminar, que o ensino realizado em casa, embora não proibido explicitamente pela Constituição, deve ter seu escopo definido e aprovado pelo Congresso, pois a presença obrigatória das crianças e jovens é exigida por lei no país. Na prática não proíbe, mas também não garante. Afora, autoridades dos ministérios da Educação e da Família anunciam ter em mãos o texto pronto de uma medida provisória (MP) sobre o assunto, que deverá ser editada a qualquer momento pela Presidência da República. A partir da colocação da MP em campo, deputados e senadores terão 60 dias, prorrogáveis por mais 60, para decidir sobre a legislação. Ouvimos defensores e críticos da oficialização da ED para contribuir com o debate em busca do melhor caminho na questão.

Entre um lado e outro, cerca de 15 mil estudantes de 75 mil famílias brasileiras envolvidas atualmente com a ED, de acordo coma Associação Brasileira de Educação Domiciliar (Aned), aguardam uma solução.

Os críticos afirmam que a modalidade impede o processo pleno de socialização das crianças e jovens, algo só possível, segundo eles, no ambiente escolar. Argumentam ainda que ED é uma forma de os pais isolarem os alunos da discussão de temas fundamentais para a evolução do aprendizado por motivos religiosos, morais e ideológicos. “A homeschooling impede o aluno de receber o conhecimento adquirido nas atividades em conjunto”, criticou, em conversa recente, o sociólogo e consultor educacional Cesar Calegari, que foi conselheiro do Conselho Nacional de Educação, secretário de Educação Básica do MEC e de Educação da cidade de São Paulo. Aprender com a diversidade é direito de todo aluno. Esse processo inclui movimentos ligados ao interesse de certas correntes religiosas e até seitas. Isso é negativo. Fere os fundamentos do Estado brasileiro”, acrescentou ele.

O publicitário Rick Dias, presidente da Aned, discorda frontalmente. “A discussão nesses termos me parece desleal. Entendemos de escola porque estivemos lá, mas os educadores contrários no Brasil não entendem nada de homeschooling porque jamais a fizeram, estudaram o tema ou mergulharam em pesquisas internacionais sobre o assunto. Minha mulher e eu educamos dois filhos em casa: um está no segundo curso superior e o outro deverá entrar na graduação em 2019Falo do que conheço, acusa. “Se a Constituição menciona pluralidade de ideias e de concepções pedagógicas, não podemos conceber que a escolarização seja a única maneira de transmitir conhecimento. Não somos e nunca fomos contra a escola. Tampouco defendemos sua extinção e jamais iremos demonizá-la. Apenas fizemos a opção que entendemos ser a melhor para nossos filhos. Pais de família correto, pagadores de impostos, cumpridores de seus deveres, não podem sofrer pressões jurídicas e até ameaça de perder a guarda de seus filhos por causa da opção pela educação domética.

Dias afirma que, ao contrário do que os críticos deixam a entender, há adeptos da ED de todas as origens e clãs sociais. “O homeschooling é para todos – mas não é para todo mundo. Então para quem é? Para negros, brancos, evangélicos, católicos, ateus, budistas, pobres e ricos? A rigor, é para quem a quer. São pais que estão descontentes com o modelo educacional, o ambiente da escola ou as duas coisas juntas – e têm esse direito. Nossa luta nunca foi nem nunca será contra a escola, e sim pela autonomia educacional das famílias”.

O presidente da Aned chama atenção também para o que considera “uma avaliação absurdamente  equivocada e exagerada” dos críticos ao Identificarem na educação doméstica uma ameaça aos sistemas e redes educacionais brasileiros e à formação de gerações futuras. “A educação doméstica é hoje legalizada em mais de 60 países nos cinco continentes. Muitos a regulamentaram há uma, duas décadas, ou mais. Em todos os casos, a quantidade de alunos domiciliares, se comparada ao total incluído no sistema escolar é mínima, na maioria dos casos até residual. Nos Estados Unidos, onde há, disparado, a maior quantidade, eles não passam de 2,5 milhões. Em outros países, não chegam a 20 mil e, na maioria, sequer aos cem mil. No Brasil, temos hoje 15 mil num universo de mais de 10 milhões de alunos. Ainda que isso se multiplique por dez, será pouco”, contabiliza. “É um equívoco completo imaginar que essas pequenas parcelas de alunos ameaçam qualquer política ou plano estratégico educacional de um país, mesmo ao longo prazo. Defendemos a ED como mais uma opção de liberdade, como convém às democracias, jamais como algo contra ou em detrimento da educação tradicional em escolas e redes”, defende.

Edison Prado de Andrade é advogado, professor e diretor da Associação Brasileira de Defesa e Promoção da Educação Familiar (ABDPEF). Sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo tem o título “Educação Familiar Desescolarizada e o Direito da Criança e do Adolescente: relevância, limites e possibilidades na ampliação do direito à educação.” Além da pesquisa, tem no currículo defesas, com sentenças favoráveis de famílias que optaram pela ED. Em entrevista, destacou pontos jurídicos importantes sobre o tema, ele esclarece que a emenda nº 59, de 2009, que altera o inciso 1º do artigo 208 da Constituição, estabelece que é dever do Estado brasileiro garantir a educação básica obrigatória e gratuita dos quatro aos 17 anos, assegurando também sua oferta gratuita para todos os que não tiveram acesso na faixa etária definida.

O especialista detalha a situação na prática. “Ainda não existe uma definição legal sobre a prática da educação familiar. Há apenas dispositivos constitucionais que sugerem a obrigatoriedade de matrícula e frequência nas escolas”, posiciona. “Participo diretamente da luta pela regulamentação da modalidade, como defensor de famílias em processos e recursos no STF para garantir o direito de ensinar seus filhos em casa. A rápida definição de uma legislação sobre o assunto terá importância fundamental para evitar o risco de se jogar na ilegalidade famílias que demostram que seus filhos aprendem mais em casa do que na escola. Um sistema marcado fortemente pela exposição das crianças a situações negativas, bullying, violência e até mesmo episódios de morte, como infelizmente vimos recentemente na escola Raul Brasil, em Suzano, na região metropolitana de São Paulo. “Os homeschoolers são felizes estudando ao lado dos pais e irmãos. Porque não aceitar legalmente essa realidade?”, pergunta.

Os argumentos de Dias e Andrade não são, contudo, suficientes para convencer grande parte dos educadores. “Escola e família são instituições complementares, e não capazes de substituir, uma a outra, no processo de ensino”, afirma a pedagoga Telma Vinha, doutora na área de Psicologia, Desenvolvimento Humano e Educação e professora e docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A educadora aponta outras dúvidas para além das motivações religiosas, morais, sexuais e político-ideológicas. “Até que ponto os pais estão ou estarão preparados para ensinar seus filhos de forma ampla? São e serão capazes de controlar todos os pontos no desenvolvimento dos valores? E de identificar quando um erro é estrutural ou desenvolvimento? São só alguns dos muitos exemplos questiona ela. “Além disso, existe uma contradição: se as leis brasileiras exigem, no mínimo, que professores sejam graduados nas escolas, como entregar o ensino nas mãos de pais sem um controle de formação mínima? Digo isso porque não confio na capacidade de fiscalização dos governos nesse ponto. E, ainda que a família seja extremamente religiosa, é necessário que o aluno, mesmo com essas convicções, aprenda outras teorias além do criacionismo, por exemplo. A escola é responsável por parte da proteção do desenvolvimento da criança, inclusive para identificar e denunciar abusos eventualmente cometidos no seio da família. Não bastasse, temo que muitas crianças simplesmente parem de estudar com o argumento externo deque estão submetidas à educação domiciliar”, revela.

As posições de Telma são compartilhadas por Anna Helena Althenfelder, pedagoga com doutorado em psicologia da educação e presidente do Conselho de Administração do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) , e Neide Noffs, professora titular do Departamento de Formação Docente, Gestão e Tecnologias da PUC-SP. “Os pais têm todo o direito de escolher o tipo de educação que desejam dar aos filhos e de passar a eles os seus valores. A família tem primazia no desenvolvimento dos princípios, mas o espaço adequado para a formação plena, plural, com crianças e jovens da mesma idade, é a escola diz Anna Helena. “Profissionais tecnicamente preparados estão no ambiente escolar. Quando alguém adoece, procuramos um médico. Se a necessidade é de amparo lega), ruma-se ao encontro de um advogado. O raciocínio é o mesmo. E, depois, com tantos problemas e desafios históricos, imensos e urgentes a serem vencidos na educação brasileira, causa estranheza que a educação domiciliar, que envolve hoje no máximo 15 mil alunos em meio a mais de 40 milhões de alunos, seja colocada em pauta com tanto estardalhaço e desgaste. Com o mais absoluto respeito às famílias envolvidas, trata-se, no mínimo, de uma inversão de prioridades difícil de entender”, opina Neide.

Professora da Faculdade de Educação da Unicamp, defensora da ED e autora de uma tese de doutorado sobreo assunto, Luciane Barbosa não enxerga problemas volumosos derivados dessas questões. Quando iniciou a pesquisa, chamaram sua atenção alguns fatores diferentes do que imaginava. “Entrevistei famílias brasileiras que responderam ou estavam respondendo a algum processo judicial por terem retirado os filhos da escola. Elas apresentaram motivações mais relacionadas à falta de qualidade da escola, pública ou privada, do que a posicionamentos religiosos”, conta.

“Outro ponto importante: os argumentos utilizados pelo Judiciário e o Legislativo, estes nos pareceres de negação dos projetos de lei apresentados até então, associavam o homeschooling à falta de socialização. Eram pontos considerados ultrapassados por vários pesquisadores e uma realidade que pude constatar ao acompanhar família de homeschoolers numa pesquisa que fiz no Canadá. No Brasil, esses pontos eram apresentados diante de um quadro de uma escola não necessariamente real, em que a socialização era imaginada como obrigatoriamente plural e de relações positivas’, relata a educadora.

Luciane reconhece a necessidade de mobilizar a sociedade para melhorar a convivência e a produção de resultado nas escolas. Mas enfileira também críticas “derivadas da socialização’ escolar no ambiente atual. “São situações como violência, bullying e, muitas vezes, até mesmo a ausência de clareza do que seria e da existência de uma ‘formação para cidadania’, diante de uma escola muitas vezes preocupada exclusivamente com notas em avaliações externas e aprovações em exames e vestibulares”.

Na avaliação da educadora, a regulamentação deve ser realizada “com muito cuidado”, em grupos de trabalho que envolvam  universidade, famílias, associações representantes e poder público. “Assim será possível fazer com que os direitos de todas as crianças, dentro e fora das escolas sejam respeitados”, acredita. “Estou entre os convencidos de que a ED não é uma ameaça ao sistema educacional, mas uma opção dentro dele. A saída é equilibrar a liberdade de escolha dos pais como papel do Estado como ente responsável pela família pode fiscalizar a ação do direito à educação das crianças e adolescentes. Para que isso ocorra, continua ela, será necessário “viabilizar equipes e processos para avaliar o rendimento acadêmico dos homeschoolers, provavelmente em sistemas anuais, a prática das famílias e as modalidades de ensino. E também, na outra ponta, os critérios para a eventual perda da possibilidade de educar em casa caso os direitos da criança sejam violados”, propõe.

O debate após a edição da MP e a definição dos legisladores promete.

A EDUCAÇÃO DOMICILIAR NO BRASIL E NO MUNDO

Informações e dados importantes sobrea modalidade e seus defensores

 ►A educação domiciliar (ED) é reconhecida, permitida ou regulamentada em 64 países, dos cinco continentes, com variados regimes de governo.

► Entre os países que adotam a ED como modelo educacional permitido e válido estão Estados Unidos, Canadá, Colômbia, Chile, Equador, Paraguai, Portugal, França, Itália, Reino Unido. Suíça, Bélgica, Holanda, Áustria, Finlândia, Noruega, Rússia, África do Sul, Filipinas, Japão, Austrália e Nova Zelândia.

►Há cerca de 2,5 milhões de alunos em educação domiciliar atualmente nos Estados Unidos. E de 100 mil no Reino Unido, 95 mil no Canadá, 80 mil na Rússia, 15 mil na África do Sul, 40 mil no Japão e 30 mil na Austrália.

►Os líderes da defesa do ensino domiciliar, no Brasil e no mundo, relacionam a aceitação do modelo ao que chamam de liberdade educacional. Argumentam que os países onde a ED é permitida e regulamentada são, em sua maior parte, também os mais bem colocados em rankings de liberdade educacional como os da ONG Oidel, com sede em Genebra, na Suíça.

►O Brasil ocupa a 58ª posição no ranking internacional de liberdade educacional da Oidel entre o Catar e o Camboja. Os dez primeiros: Irlanda, Holanda, Bélgica, Malta, Dinamarca, Reino Unido, Chile, Finlândia, Eslováquia e Espanha. Os dez últimos: Gâmbia, Líbia, Cuba, Arábia Saudita, Afeganistão, Congo, Etiópia, Síria, Mauritânia e Serra Leoa.

►De acordo com a Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned), 15 mil estudantes entre quatro e 17 anos, de 7,5 mil famílias, estão envolvidos atualmente na educação domiciliar em todas as unidades federativas do Brasil, Um crescimento de dois mil e oitenta e nove por cento desde o nosso primeiro registro, feito em 2011, diz Rick Dias, presidente da associação. Ele estima que o número de famílias adeptas poderá chegar a 17,2 mil em 2020 caso a educação doméstica seja regulamentada nos próximos meses.

►Pesquisa realizada em 2016 pela Aned com famílias homeschooling reiterou, segundo a associação, que 32% delas fizeram a opção pela ED “em busca de uma educação mais personalizada para os filhos, explorando seus potenciais e talentos”, 25% por “princípios de fé na família 23% por “má qualidade do ambiente escolar’, 11% por “má qualidade do ensino escolar’”, e 9% por “doutrinação ideológica”.

►segundo outro levantamento da Aned, feito em 2017 com 285 famílias homeschooling brasileiras, em 34% delas pelo menos um dos pais tem curso superior completo e, em 74%, um dos pais frequenta ou frequentou uma faculdade ou universidade.

Uma terceira pesquisa da Aned, também realizada em 2017, dessa vez com 312 pais com filhos na escola, mostrou, segundo a associação, que 44% deles “admitiram a possibilidade de optar pela educação domiciliar”.

►Outra pesquisa, que a Aned diz ter sido feita em 2018 com 1.209 pais “que se dizem simpatizantes ou entusiastas da educação domiciliar, mas ainda mantêm os filhos na escola, 68% dos entrevistados admitiram que poderão optar algum dia pelo modelo e 41% “aguardam uma regulamentação para poderem optar pelo homeschooling.

 ►O índice de aprovação dos homeschoolers brasileiros em testes nacionais como Prova Brasil e Exame Nacional de Certificação de Competência de Jovens e Adultos (Encceja) para os ensinos fundamental e médio é “de cem por cento, baseado nas informações recebidas por nós até agora de pais envolvidos com a ED que mantêm contato conosco”, diz o presidente da associação, Rick Dias.

 

FONTES: Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned – http://www.aned.org.br), National Home Education Research lnstitute (www.nheri.org) e Oidel (www.oidel.org).

GESTÃO E CARREIRA

SOU CHEFE E GAY!

Um em cada três executivos homossexuais já assume sua orientação nas empresas – atitude que ajuda a alavancar a inclusão nas organizações.

Sou chefe e gay!.

Durante uma década, o gerente jurídico do banco Itaú, Bruno Crepaldi, de 35 anos, ocultou sua orientação sexual no trabalho, O advogado, de São Paulo, ingressou na instituição em 2006, aos 22 anos, e teve de conviver com uma rotina na qual media suas palavras, por medo de sofrer preconceito e ter sua carreira interrompida. “As conversas casuais no almoço ou no café eram as mais complicadas e eu fugia de assuntos pessoais”, diz. Isso tudo mudou em 2016, quando Bruno foi fazer um mestrado na Califórnia, nos Estados Unidos, e encontrou apoio em um grupo de estudantes gays, que o incentivaram a falar sobre o tema abertamente na companhia. Quando voltou ao Brasil, em 2017, o executivo, que já liderava um time de 12 pessoas, estava decidido a não se esconder mais. Escolheu uma reunião como presidente do banco, Candido Bracher, para assumir que era homossexual. “A empresa promoveu alguns encontros para tratar sobre diversidade e eu contei minha história. Senti que naquele momento o Itaú estava preparado para me receber e decidi me abrir”, afirma. Bruno ainda lembra de seu discurso e da reação dos colegas que estavam na sala. “Eram umas 15 pessoas de cargos altos e todos me olharam com naturalidade. Foi um momento de acolhimento que dividiu minha carreira no banco.”

Como crescimento de iniciativas e políticas sobre diversidade nas empresas, uma geração de executivos em altas posições que falam abertamente sobre homossexualidade no trabalho começa a surgir no mundo corporativo. De acordo com um estudo da ONG americana OutNow, publicado em 2017, um em cada três gestores gays do Brasil já não sente medo de se esconder para seus líderes e pares, por exemplo. Embora pareça pouco, se considerarmos que em países como a Austrália esse índice chega a 51%) o número mostra que o trabalho das primeiras companhias que ousaram tratar da inclusão começa a aparecer. “Já temos no Brasil um bom grupo de grandes empresas, com alto poder de influência, boas práticas e programas bem estruturados sobre o tema”, afirma Reinaldo Bulgarelli, secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+. Isso tudo encoraja mais líderes a sair do armário e, assim, impulsiona am­ bientes mais diversos e tolerantes nas organizações.

 REPRESENTATIVIDADE IMPORTA

Mesmo que haja motivos para comemorar, é importante assumir que ainda há uma longa estrada a percorrer. De acordo coma pesquisa da OutNow, o Brasil tem o incômodo título de campeão em homofobia no trabalho, sendo o primeiro entre os 11 países analisados. Por aqui, cerca de 68% dos empregados gays e lésbicas ouviram comentários preconceituosos, muitas vezes disfarçados de piada, nas organizações. Num cenário como esse, líderes que possuem a coragem de se assumir, além de beneficiar a si próprio, geram um efeito positivo nos outros: esses profissionais se tornam inspiração para liderados que sentem medo de que sua orientação atrapalhe o desenvolvimento na companhia. “Um funcionário gay, lésbica ou trans que não vê nenhuma liderança LGBTI+ fica sem referência de que é possível chegar lá. E mais: pode ter dúvida se sua orientação sexual ou identidade de gênero serão impeditivos”, diz Liliane Rocha, presidente da consultoria de sustentabilidade e diversidade Gestão Kairós.

Miguel Serra Alquezar, de 34 anos, vice-presidente de recursos humanos da Schneider Electric, é uma inspiração. Comandando uma equipe de 50 pessoas na multinacional de energia, o executivo é conhecido por falar abertamente sobre o tema desde que ingressou na empresa, há 11 anos. Embora afirme que nunca tenha sofrido preconceito, Miguel admite que teve sorte de começar a carreira já inserido em uma cultura respeitosa e aberta, e isso o ajudou muito a crescer profissionalmente. “O que eu tinha claro desde o início era; se você não conseguir ser você mesmo, é impossível que sua produtividade, sua eficiência e sua performance sejam 100%”, afirma Miguel.

Tratar a homossexualidade com naturalidade há tanto tempo também trouxe contribuições para outros funcionários da Schneider. “Várias pessoas já me agradeceram, dizendo que o fato de eu ser transparente com essa questão as ajudou a se assumirem no trabalho, seja na fábrica, seja no escritório”, diz Miguel. De acordo com o executivo, embora a decisão de se declarar LGBTI+ no trabalho seja uma escolha pessoal, as organizações têm a obrigação de criar um ambiente seguro para que os profissionais não sofram nenhum preconceito e tenham igualdade de oportunidades. “É preciso garantir aos trabalhadores que estejam satisfeitos e se sintam respeitados”, afirma. Para criar esse ambiente, a Schneider está desenvolvendo iniciativas para inclusão. Em 2016, por exemplo, a companhia tornou-se signatária do Fórum Empresas e Direitos LGBTI+ e, desde aquela época, uma vez por ano reúne as lideranças para discutir o tema diversidade.

 MAIS LUCRO E MENOS PRECONCEITO

Segundo Ricardo Sales, sócio da consultoria Mais Divers ida de, a questão de se assumir no ambiente de trabalho está diretamente ligada aos resultados da empresa. E isso pode ser comprovado por dados da pesquisa da OutNow, que afirma que, entre os LGBTI+ declarados, 76% acreditam que são produtivos no trabalho – já entre os que não falam sobre a questão o número cai para 46%. “Quem não se sente completo produz menos. Isso é fato. Por isso, é importante que as empresas criem condições objetivas, como extensão de benefícios, treinamentos em diversidade, sistema de ouvidoria eficiente, e garantam um ambiente mais acolhedor”, afirma.

Assim como outras mudanças culturais nas organizações, criar contextos mais inclusivos depende do envolvimento da alta liderança, que ajuda a motivar os demais funcionários e a disseminar os valores de diversidade e respeito na empresa. E um líder que também faz parte de uma minoria tem mais chance de se sensibilizar com a causa, por motivos óbvios, além de conseguir falar com mais propriedade sobre os dilemas do grupo ao qual pertence, contribuindo, desse modo, para a criação de iniciativas assertivas. Sem contar que o fácil acesso à presidência, à diretoria e às outras camadas mais altas da hierarquia corporativa é um aliado na hora de representar essa parcela da sociedade. “Fica mais fácil acelerar a tomada de decisão para efetivar medidas de valorização da diversidade quando há um líder gay colaborando”, diz Liliane.

O coordenador de Atendimento ao Cliente da Siemens, Mário Ferreira, de 41 anos, é chefe de dez pessoas e faz questão de lutar para mudar o ambiente da companhia, onde trabalha há 11 anos. ”Nunca tive medo de dizer que sou gay, mas essa não é uma escolha fácil e, por isso, tento ser um agente de transformação. Não consigo acreditar que a orientação sexual defina o tipo de profissional que você é”, diz. Desde 2017, Mário integra o comitê de diversidade da Siemens e ajuda outros funcionários nessa questão. “Procuro deixar as pessoas à vontade para perguntar o que quiserem. Talvez isso contribua para meu estilo de liderança”, afirma. O executivo diz que a presença da diversidade em sua carreira acaba o deixando mais aberto a pessoas e ideias diferentes. “Isso ajuda diretamente no que faço. Cuido da área de clientes e não há nada mais diverso do que nosso público. Compreender as diferenças me dá uma vantagem na hora de executar meu trabalho”, diz.

Para os especialistas, a presença de um chefe gay pode ajudar a estimular um ambiente mais criativo. Um estudo publicado na revista acadêmica Financial Management, em 2018, mostra que essa crença não é à toa. Os autores da pesquisa, professores na Universidade Estadual da Carolina do Norte e na Universidade Estadual de Portland, nos Estados Unidos, analisaram as políticas de diversidade de mais de 3.000 companhias e cruzaram esses dados com registro e citação de patentes. Como resultado, concluíram que as empresas que têm mais diretrizes sobre inclusão são as que criam e patenteiam mais produtos. “O que gera a inovação, quando falamos de diversidade, é a mistura de diferentes pessoas, com diferentes características, e a possibilidade de que elas tenham espaço para falar e trazer sua contribuição”, diz Liliane. Bruno, do Itaú, afirma que o fato de ter criado uma relação mais próxima com a equipe depois de contar que é gay também contribuiu para fomentar um clima de mais colaboração. ”É tudo mais natural e eu sinto que as pessoas estão mais à vontade para sugerir ideias. A equipe está mais engajada e criativa”, afirma o executivo.

Liliane reforça, entretanto, que, para criar ambientes plurais que incentivem o desenvolvimento de ideias disruptivas, não adianta contratar somente homossexuais que sejam homens, brancos, cisgêneros e com alto poder aquisitivo – o perfil mais comum entre os gestores que se assumem. “É preciso trazer toda a multiplicidade, ou seja, lésbicas, transgêneros, intersexuais e afins”, diz. “Temos de parar de pensar na diversidade sexual com base em um padrão único, pois isso é reforçar o statu quo”, afirma.

 O CUSTO DA INTOLERÂNCIA

Além de ajudar a impulsionar a diversidade nas organizações, os executivos afirmam que a posição na hierarquia também contribui, de certa forma, para o processo de falar abertamente sobre a sexualidade na empresa. “Com a carreira consolidada, eu me senti mais seguro para falar sobre minha orientação”, diz Bruno, do Itaú. Mário, da Siemens, completa o pensamento: “Quem vai mexer com um chefe? As pessoas estão mais conscientes, sim, mas a verdade é que o cargo ajuda a impor respeito”.

Porém, se por um lado a função de liderança ajuda a criar estabilidade financeira e autoconfiança para assumir quem você é, por outro a hierarquia elevada não blinda os profissionais do preconceito que ainda está presente na maioria das organizações. O próprio Mário diz que, embora sempre tenha recebido o suporte da empresa e encontrado um porto seguro no ambiente de trabalho, já que possui dificuldades em falar sobre o assunto com a família, isso não evitou que passasse por situações de desrespeito. Uma ocasião, em especial, o deixou abalado. Há dois anos, enquanto participava de uma ação sobre diversidade no refeitório da Siemens, teve de lidar com a homofobia. “Pessoas que eu não conhecia me olhavam estranho, faziam comentários entre si e riam”, diz. “Foi difícil me manter firme mesmo com toda minha segurança”. Por isso, penso em quem não tem a mesma estrutura”. Liderar é um exercício quase sempre solitário, que tem uma cobrança elevada e pode, algumas vezes, aumentar o medo de receber críticas ou ser demitido e perder a carreira de anos. Com isso, alguns homossexuais talvez se retraiam ainda mais quando estiverem numa posição de comando. Igualmente dentro do movimento LGBTI+, certos públicos têm maior abertura do que outros para se assumir. As mulheres lésbicas, por exemplo, ainda não falam tão abertamente sobre o tema quanto seus pares homens. Em uma sondagem realizada nas  companhias que compõem o Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, encontramos apenas uma mulher lésbica em cargo de liderança e, mesmo assim, a executiva não se sentiu à vontade para participar desta reportagem. ”As lésbicas enfrentam a intersecção entre homofobia e machismo e é mais complicado se assumir”, diz Ricardo, da Mais Diversidade.

Para ele, o aumento no número de líderes gays que assumem quem são contribui para avançar a discussão sobre diversidade nas empresas, mas também é um reflexo do trabalho daquelas que criaram políticas sérias e comprometidas com a diversidade. Trabalho este que precisa continuar para que, em um futuro próximo, o fato de ser gay deixe de importar. “O respeito e o acolhimento já deveriam ser argumentos suficientes, mas, para quem não se convence, os números podem ajudar. O estudo da OutNow estima, com base em produtividade, turnover e processos judiciais, que a homofobia custa 405 milhões de dólares à economia brasileira anualmente”, diz Ricardo. Já passou da hora de deixar essa conta para trás, não é mesmo?

 OS DESAFIOS

Uma pesquisa feita com 230 profissionais LGBTI+ de 14 estados brasileiros, na faixa etária de 18 à 50 anos, mostrou que:

Sou chefe e gay!. 2 

 CHEFES E GAYS

Líderes pelo mundo que não tiveram medo de se assumir

Sou chefe e gay!. 3

TIM COOK, CEO da APPLE

Antes de tornar-se sucessor de Steve Jobs, Tim foi vice-presidente corporativo da Compaq e também passou pelas diretorias da IBM e da WORLDWIDE. Assumidamente gay, é reservado quando o assunto é a orientação sexual.

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TIM GILL, criador do QUARK XPRESS

Fundador do programa de computador QUARK XPRESS, ele vendeu a participação na empresa nos anos 2000. Atualmente preside duas fundações nos Estados Unidos.

Sou chefe e gay!. 5

ROBERT HANSON, EX- CEO DA LEVI’S

O executivo começou na LEVI’S em 1994 como gerente de publicidade. Na posição de vice-presidente de marketing, ele criou duas novas marcas e foi responsável pela difusão da grife na Europa, no Oriente Médio e na África.

Sou chefe e gay!. 6

PETER THIEL, criador do PAYPAL

Co fundador do PAYPAL e um dos principais acionistas do Facebook, Peter foi eleito pela Revista Out, o sétimo Gay mais poderoso dos Estados Unidos. Engajado, o empresário apoia a Fundação Americana para os Direitos da Igualdade

 

ALIMENTO DIÁRIO

SEGREDOS DO LUGAR SECRETO

Alimento diário - livro

 CAPÍTULO 1 – O SEGREDO DE DIZER “SIM”

Chris e DeeAnn Abke estavam se sentindo aterrorizados pela ameaça de um grande desafio financeiro. Desesperados, certa noite – depois de terem colocado as crianças na cama – eles passaram algum tempo orando e buscando a ajuda de Deus. Assim que se sentaram juntos no sofá da sala de estar para clamarem a Deus por suas necessidades, repentinamente uma voz audível começou a falar: “Se você precisa de ajuda, ligue para 9-1-1. Se você precisa de ajuda, ligue para 9-1-1”.

Eles ouviram a voz repetir isso por cerca de quatro ou cinco vezes e, em seguida, ela parou. Admirados, Chris e DeeAnn apenas se entreolharam.

A voz parecia vir da garagem. Então, cautelosamente, eles abriram a porta e acenderam a luz, incertos do que encontrariam ali. Tudo estava em seu devido lugar, exceto uma pequena ambulância de brinquedo de uma das crianças que estava no chão, no centro da garagem.

Chris pegou a ambulância, pressionou um botão ao lado das luzes de emergência e a voz começou a falar: “Se você precisa de ajuda, ligue 9-1-1”. Enquanto eles conjecturavam como o brinquedo tinha ligado sozinho, repentinamente o Espírito Santo pareceu cutucar Chris com as seguintes palavras: “Se você precisa de ajuda, ligue 9-1-1 – Salmo 91.1″. À medida que liam novamente esse versículo juntos, ele passou a ter um significado inteiramente novo para os dois: ”Aquele que habita no abrigo do Altíssimo e descansa à sombra do Todo-poderoso”.

Chris e DeeAnn compreenderam o incidente como sendo a maneira de Deus falar aos seus corações para virem a ter um compromisso renovado de relacionamento com Ele, no lugar secreto, que é o abrigo do Altíssimo. Chegaram à conclusão de que Deus direcionaria seus passos até a solução dos problemas financeiros, à medida que se entregassem à intimidade de permanecer na presença do Altíssimo.

Estou compartilhando a história de meus amigos com você, por estar absolutamente convencido de que o poder de Deus é liberado na terra quando entramos no lugar secreto. Portanto, escrevi este livro com o único objetivo de reacender sua vida de oração pessoal. Oro para que você diga “sim!” para uma busca diária e fervorosa de Jesus no lugar secreto.

Minha oração é que a cada devocional você tenha um momento de renovação e passe a ter uma fascinação santa por buscar a grande pérola da existência humana – um relacionamento pessoal, íntimo, apaixonado e avivado com o glorioso Criador do Universo.

Um dos maiores segredos de nossa fé é a bem-aventurança e a alegria de cultivar uma vida de intimidade com Deus. Imagine o absoluto deleite de usufruir disso ainda aqui na terra.

Você se retira para um lugar silencioso. Com a porta fechada, se ajeita numa posição confortável. Abre a Palavra viva de Deus com o próprio Jesus ao seu lado e o Espírito Santo gentilmente lavando seu coração.

O seu amor é despertado à medida que você medita nas graciosas palavras que saem da boca de Deus. Seu espírito está aceso e sua mente renovada. Você fala com Deus e Ele fala com você de maneira íntima e amiga.

Ah, não existe nada melhor do que isso!

O inferno fará tudo que estiver ao seu alcance para confundir e distorcer o exuberante deleite desta realidade dinâmica. O sistema do mundo atual está voltado estrategicamente para reduzir ao máximo seu tempo e energia a fim de impedi-lo de entrar no lugar secreto. A igreja normalmente concentra a maior parte de sua energia para manter os santos ocupados, e, relativamente, parece existir poucos cristãos cuja vida de intimidade com Deus seja tão vibrante a ponto de contagiar outras pessoas, levando-as a desejarem seguir seu exemplo.

Eu me identifico intimamente com a dor de inúmeros crentes que têm a convicção de que o lugar secreto é vital para uma vida de superação, e se esforçam regularmente para entrar nele como um estilo de vida diário. Eu sei como é viver abaixo do nível que uma caminhada cristã poderia ser e ainda se sentir quase sem forças para mudar alguma coisa. Eu me vi voltando persistentemente para as fontes que não eram nenhuma fonte.

Num dia exaustivo, quando desejei me revitalizar, decidi assistir televisão, achando que sua programação iria me renovar e acabei vazio pela milésima vez.

Ou quando fui ao culto em uma determinada igreja com a esperança de que o caminhar com Deus do pastor infundiria em mim uma energia nova para a jornada.

Mas no fundo, eu sabia que os sermões e os ensinamentos, embora edificantes, nunca poderiam substituir o poder que existe quando nos sentamos aos pés de Deus e o ouvimos falar conosco.

Não precisamos acrescentar outra palavra de condenação às críticas que todos nós conhecemos tão bem.

O que nós precisamos, em vez disso, é elevar nossos olhos para a gloriosa esperança que já carregamos dentro de nós. Meu desejo é que eu possa compartilhar alguns segredos – lições que aprendi principalmente por ter feito a coisa errada primeiro – para capacitá-lo a ir em direção ao objetivo da chamada para o alto de Deus em Cristo.

Quando aprendemos a habitar no lugar secreto, no abrigo do Altíssimo, nos posicionamos para descobrir a chave para a fertilidade do Reino verdadeiro. O poder reprodutivo é liberado na sombra do Todo-poderoso!

Um dos melhores exemplos dessa verdade na Bíblia é encontrado na vida de Cornélio, o primeiro gentio cristão. Cornélio era um homem devoto que tinha o compromisso de entrar no lugar secreto para orar. Sua piedade é descrita no livro de Atos em quatro partes: ele dava esmolas regularmente aos pobres, tinha um estilo de vida santo, jejuava e entrava no lugar secreto para orar.

Foi devido a essas quatro condutas que Deus encheu Cornélio e sua família com o Espírito Santo e os tornou as primícias de todos os cristãos gentios. Foi como se Deus dissesse: “Cornélio, devido a sua convicção apaixonada de entrar no lugar secreto, sua vida é um exemplo que posso reproduzir nas nações. Portanto, estou designando-o como o primeiro gentio a receber o Espírito Santo, porque vou pegar sua devoção ao lugar secreto e exportá-la para todas as nações da terra!”.

Tornando Cornélio o catalisador da redenção das nações, Deus estava dando um endosso poderoso à prioridade de Cornélio de cultivar uma vida de intimidade com Ele. A efervescência de fertilidade de sua vida deve ter pegado até o próprio Cornélio desprevenido!

Muitos dos que estão lendo esta mensagem têm um chamado para testemunhar à vizinhança, às cidades e também às nações. À medida que você se dedicar a entrar no lugar secreto, ele fará nascer algo dentro de você que se espalhará, no tempo de Deus, aos quatro cantos de sua esfera.

Este é um segredo incrível: O chamado de Deus queimando dentro de seu peito não poderá ser contido nem interrompido, à medida que você de dedicar à ardente paixão de comunhão íntima com aquele que ama sua alma.

Você não deseja juntamente comigo se apressar e avançar na direção de novas dimensões do poder e da glória do Reino? A face do cristianismo é alterada, de geração em geração, por aqueles que descobrem o poder de entrar no lugar secreto. Eu oro para que, com a leitura de cada página, você se junte a mim dizendo “sim!” ao segredo de séculos.

“Qual é este segredo?”, algumas pessoas podem se perguntar. O lugar secreto é o segredo!