A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUE MEDO!

Nos primeiros anos de vida o cérebro humano não é capaz de reagir seletivamente aos estímulos; à medida que a criança cresce, os temores mudam e ela passa a enfrentar as ameaças de modo mais racional

Que medo!

Contrariando um clichê muito difundido pelo senso comum, ter medo não significa ser covarde. Covardia é, sim, não ter coragem de reagir. O medo, assim como outras emoções primárias, está inscrito no código genético de muitos seres vivos, inclusive no dos humanos. Sua função é “avisar” o organismo dos perigos. Em geral, portanto, o medo é benéfico – somente quando é excessivo (em casos patológicos de pânico, fobia) pode ser prejudicial. Por outro lado, uma pessoa totalmente destemida não teria vida longa: atravessaria a rua no sinal vermelho, cairia ao se debruçar na janela ou não hesitaria em enfrentar um leão. Sob o efeito do medo, aumentam a atenção e a velocidade de reação. As batidas do coração aceleram, a pressão sanguínea sobe, os açúcares inundam o sangue e aumentam as secreções da glândula supra- renal e da parte anterior da hipófise. Esse terremoto psicofísico prepara o corpo para lutar, fugir, imobilizar-se ou fingir não temer.

Todos os seres vivos reagem a ameaças contra a própria integridade, mas alguns têm melhor equipamento para lutar (ou fugir): garras afiadas, músculos fortes ou pernas velozes. Outros, por instinto, conseguem enganar seus inimigos. Os seres humanos, sobretudo na primeira infância, também reagem impulsivamente aos estímulos ameaçadores. Um rumor forte, ainda que inofensivo, alarma e sobressalta. À medida que cresce, a criança desenvolve um sistema de controle mental e, a menos que seja pega de surpresa, enfrenta o perigo de modo mais racional. Há, porém, um longo caminho a percorrer, no qual certos medos são dominados e novos emergem. No nascimento, o cérebro ainda não é capaz de reagir seletivamente a estímulos nem controlar os movimentos. As reações são globais, e não específicas. O corpo todo é envolvido nas ações de autodefesa, mesmo em casos em que um simples movimento de mão ou pernas bastaria, leva um bom tempo até que o bebê aprenda a espantar um mosquito, por exemplo, em vez de desatar em soluços.

Nas primeiras semanas de vida, o bebê não tem consciência do ambiente à sua volta. A percepção de si e do mundo se funde com a do próprio corpo e com as sensações experimentadas por meio do contato com a mãe. Satisfeitas suas necessidades, sente-se onipotente. Nos momentos de frustração (em que experimenta desconfortos como os causados pela fome e pelo frio) torna-se prisioneiro de suas emoções, se ninguém agir para tranquilizá-lo. Quando começa a se distinguir da mãe, passa a perceber a própria fragilidade. O progressivo incremento da capacidade motora e cognitiva lhe permite perceber certos perigos e enfrentar alguns deles. Com o tempo, mudam as fontes de temor. Os medos infantis podem se dividir em três categorias: os que estão presentes desde o nascimento (inatos), os que aparecem ao longo do crescimento e os que surgem devido a eventos traumáticos ou induzidos pelo meio. Ruídos repentinos, flashes luminosos, movimentos súbitos e perda do apoio são estímulos que, em geral, assustam as crianças pequenas. São os medos inatos, da vasta categoria do imprevisto e do não-familiar, que são úteis à sobrevivência. A atitude dos pais e os hábitos podem atenuar alguns deles, como o receio de cair para trás: o recém-nascido se sobressalta e chora quando se sente sem apoio. Mas, se uma mãe afetuosa tira o apoio do filho em meio a uma brincadeira cuidadosa, é comum que, depois de um breve desconcerto, o bebê sorria em vez de chorar. O mesmo se dá com ruídos fortes. A criança se alarma menos se estiver com um adulto em quem confie, que a embale, sorria e lhe fale ternamente.

Que medo!. 2

DESCOBERTA DO MUNDO

Aos medos inatos seguem-se aqueles ligados ao crescimento. No segundo semestre de vida surgem o receio do desconhecido e a angústia da separação. Ao notarem essa mudança, certos pais temem que a criança fique menos sociável. Ela deixa de sorrir para todos, recusa-se a ficar nos braços daqueles que não conhece bem e protesta quando a mãe se afasta. Mas não se trata de uma regressão – e sim de uma crise. Esses novos temores indicam desenvolvimento mental. O bebê percebe diferenças que antes não notava. Além disso, nessa fase, está se formando nele um forte laço com as figuras que o protegem. É preciso levar isso em conta, sobretudo se a mãe, para voltar a trabalhar, tem de deixar o filho com alguém. A criança só deixará a figura materna se distanciar quando confiar nesse cuidador.

O medo de animais costuma aparecer em crianças de 1 a 3 anos, fase em que começam a se aventurar além dos limites habituais – e nem tudo que encontram é seguro. É possível distinguir aí três medos inatos: o dos movimentos repentinos, o da aproximação de estranhos e o de ruídos fortes. O temor diante de cães se enquadra bem nessas três condições. Como se trata de um medo normal para a idade, na maioria das vezes não é necessário fazer pressão para eliminá-lo. Observando a reação dos outros e habituando-se à presença dos animais, a maioria das crianças supera naturalmente esse desconforto, a menos que viva uma experiência desagradável, como uma mordida.

Entre 2 e 6 anos pode surgir o medo do escuro. O recém-nascido não teme a escuridão porque ainda não se habituou à luz. Porém, quando depois do segundo ano de vida a criança desperta no meio da noite e se vê sem as referências que tinha durante o dia, pode começar a temer a ausência da luz. Sombras, rangidos ou passos no corredor assustam bem mais à noite do que na claridade. A partir do terceiro ano, a imaginação entra em ação, elaborando cenários e interpretações. O receio de temporais e seres imaginários que poderiam se esconder na escuridão – monstros, bruxas, fantasmas – costuma assumir um valor metafórico na fase pré-escolar, mesclando-se a outros medos ligados à percepção da própria vulnerabilidade, como o de jamais acordar.

A criança se vê diante de aspectos da realidade que antes não levava em conta: conflitos entre os adultos, doenças, cenas violentas na televisão, expectativa de punição por alguma travessura cometida e a sensação de que algo mim vai acontecer geram sobressaltos muito mais radicados na fantasia que na realidade. A criança “enfurecida” com os pais, temendo a própria agressividade, pode ter pesadelos à noite. Certos medos se originam de vivências dolorosas não elaboradas (doenças, acidentes, morte de pessoa próxima etc.) ou mesmo de situações corriqueiras. Por exemplo, se a água do banho está muito quente ou se cai xampu nos olhos da criança, ela pode ficar com medo de água.

Entre 6 e 12 anos se torna mais fácil dominar pavores vividos nos anos anteriores. Ruídos fortes, flashes luminosos, escuridão, monstros e bruxas já não assustam tanto, justamente porque agora a criança tem maior capacidade de compreensão e pode entender ameaças como ladrões, doenças, dor, morte e abandono. Surgem os temores ligados ao estado social (por exemplo, questões que se referem ao desempenho escolar) e à interação com os outros (reprovação, conflitos, brigas e rejeição dos colegas). Nessa fase, tende a diminuir o medo de animais domésticos, mas pode se desenvolver o de insetos. Por mais estranho que possa parecer, uma criança é capaz de brincar com um grande cão e estremecer diante de uma formiga. Mas há uma explicação, o pavor de invertebrados e animais exóticos está relacionado à angústia provocada pelo desconhecido. Para que essa reação seja superada é preciso que a criança se familiarize com as características desses bichos.

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FOBIA E ANSIEDADE

Por vezes, porém, lidar com determinado medo é mais complicado do que parece. Por exemplo, há crianças que esmagam um inseto e fantasiam que os amigos do animal virão à sua procura para se vingar. Tal receio talvez oculte outros, como o da própria agressividade, já que, de forma projetiva, as crianças costumam atribuir os próprios sentimentos aos outros e também a objetos inanimados. Compreende-se, assim, que surjam os sonhos povoados de animais violentos e monstros horríveis.

Vários medos que se manifestam até os 12 anos – assim como certas regressões – se explicam pela instabilidade que marca toda a fase evolutiva. Diferentemente do adulto, que já tem um papel estável, referências precisas e comportamentos definidos, os modelos de conduta da criança estão em transformação. A pessoa autoconfiante reage ao perigo acionando seus recursos internos, mas a criança ainda depende dos outros e pode se sentir emocional e fisicamente paralisada diante de situações ameaçadoras. Depois de um grande susto ou em situações angustiantes que se prolongam, é comum que a criança retome, ainda que temporariamente, comportamentos típicos de estágios anteriores, nos quais se sentia mais protegida e segura.

O adolescente costuma superar os temores da infância ao desenvolver uma visão mais complexa do mundo. Isso, porém, não significa que não tenha medo. Nessa faixa etária, muitas vezes aparecem vertigens, temores ligados ao corpo (como o de enrubescer ou ter alguma anomalia) e vários outros receios referentes à esfera social e sexual como expor-se, fracassar, ser criticado, ignorado ou rejeitado. A dor, a morte, os ferimentos físicos, a deformidade e a feiura completam a lista dos “medos adolescentes”, juntamente com a insegurança de falarem público e de perder o controle sobre si.

Quando não são superados, esses medos podem evoluir para quadros fóbicos ou se configurar como ansiedade patológica, e costumam conter em sua origem angústias mais profundas – medo da solidão, temor da morte, receio de perder o controle de si ou da realidade. A fobia é um medo persistente, intenso e de difícil controle, deflagrado por experiências traumáticas. A literatura registra, por exemplo, vários casos de adultos com fobia da escuridão que, quando criança, ficaram fechados em um ambiente escuro por longo período ou foram abandonados em local desconhecido.

Por trás dos estados de ansiedade há, muitas vezes, tormentos inconscientes que amplificam os medos normais e levam à perda do controle. Há ainda situações em que nossa própria capacidade de prever perigos nos faz cair nas armadilhas do falso alarme e de uma ansiedade que brota de ameaças imaginárias. O outro lado da moeda é a coragem, isto é, o atributo de todos os que confiam na própria capacidade. Física ou moral, ela se manifesta de muitas maneiras. Ser corajoso é confiar em si não de forma irrealista, e sim com base na avaliação dos próprios recursos e da ameaça enfrentada. O corajoso reflete antes de arriscar, é cuidadoso e usa da melhor forma possível as oportunidades e os talentos dos quais dispõe. lidar com nossas assombrações – sejam elas concretas ou fictícias – é um processo de aprendizagem, que implica a aquisição de autonomia e amadurecimento, construídos no contato com o outro.

OUTROS OLHARES

PROIBIDO PARA MAIORES

A árdua vida dos servidores que passam o dia assistindo a filmes para escolher a classificação indicativa de cada um.

Proibido para maiores

Quando a imagem de um pênis surgiu em close, entre as pernas do personagem, num formato incomum, como uma planta crescendo em ritmo acelerado, toda a equipe da Coordenação de classificação Indicativa do Ministério da Justiça foi chamada a opinar. Em torno do computador, os servidores do governo federal responsáveis por definir a faixa etária adequada de público para obras audio­visuais no Brasil analisaram o trecho de Border, filme sueco ainda inédito naquele momento e atualmente em cartaz. A nudez atenuada por contexto fantasioso acabou agravada pela composição explícita da cena, concluiu o grupo. Após algum debate, levando em consideração também outras particularidades da história, eles decidiram classificar a película como não recomendada para menores de 16 anos.

Debates como o suscitado por Border, sobre sexo, violência e drogas, são corriqueiros no terceiro andar do prédio anexo ao edifício principal do Ministério da Justiça, em Brasília. Ali, a poucos metros do gabinete do ministro Sergio Moro, nove servidores passam o dia assistindo a novelas, filmes e outros programas de entretenimento, jogando games e lendo livros de RPG. Foram 1.877 obras classificadas no ano passado.

Acompanhamos o trabalho do grupo, formado por sete homens e duas mulheres, a maioria na faixa etária dos 30 aos 40 anos e com formação superior das mais diversas, de graduados em farmácia a historiadores.

À primeira vista, é o emprego dos sonhos, com cerca de dez idas por mês ao cinema, em sessões privadas, para ver filmes inéditos, já que a classificação desse tipo de produto é anterior ao lançamento. Mas deixa de ser tão in­ crível assim quando o trabalho, com jornada de oito horas por dia, consiste em assistir à produções de “fundo de quintal” ou permeadas de cenas extremamente violentas. “É muito comum ter de explicar aos amigos e conhecidos: “Não, a gente não come pipoca nem vê filme pornô enquanto trabalha”, brincou Antônio Dantas, servidor de 34 anos formado em ciência política, que, por força do ofício, passou as últimas semanas vendo um reality show a que ele jamais escolheria assistir. As obras pornográficas não passam por análise no país, porque são classificadas automaticamente como para maiores de 18 anos.

Outra ideia associada à atividade é rechaçada com ainda mais energia pelo grupo: a de censura. A classificação indicativa, regulada pela primeira vez em portaria de 1990 e atualizada pela última vez no ano passado, tenta auxiliar pais ou responsáveis a evitar a exposição de crianças e adolescentes a conteúdos inadequados. Os programas e produtos devem trazer o selo com a indicação e a descrição de conteúdo sensível. “A decisão final é da família”, afirmou Eduardo Nepomuceno, chefe de divisão processual do setor. Há um “guia prático” de como a classificação é feita, disponível ao cidadão, para defender o caráter técnico da atividade contra quem possa vir a discordar de alguma definição atribuída a um filme. Entre os próprios analistas, nem sempre há consenso. Eles, em geral, trabalham em dupla e não raro pedem socorro aos demais se alguma cena abre margem a uma avaliação mais subjetiva. “É uma segurança de que a subjetividade está sendo controlada”, explicou um deles.

Em 13 Reasons Why, série americana sobre a vida da adolescente Hanna Baker, personagem que se suicida, houve divergência. “Para maiores de 16 ou de 18 anos?”, era a dúvida inicial da equipe, que escolheu a primeira opção, menos restritiva. Não tardaram notícias relacionando a obra ao aumento de casos de suicídio em outros países e a uma explosão de ligações ao Centro de Valorização da Vida (CVV) no Brasil. A polêmica estava instalada, e o setor resolveu reavaliar, subindo a classificação para 18. “A série trazia reflexão ou glamorização do suicídio? Chegamos à segunda conclusão. A cena da personagem praticando o ato pesou na reanálise, assim como o fato de que ela tinha pais amorosos, uma vida equilibrada. A não responsabilização do estuprador é outro ponto importante”, explicou Henrique Rocha, de 35 anos, dos quais nove têm sido dedicados ao trabalho com a classificação indicativa.

Se, por um lado, 13 Reasons Why demonstra como a cobrança social pode ter efeito na classificação indicativa, por outro, o grupo assegurou que não sofre qualquer ingerência do governo. Nem da gestão Bolsonaro, caracterizada pelo conservadorismo, nem das anteriores – ao menos nos últimos 11 anos, segundo os mais antigos da equipe. As pressões vêm muitas vezes do Congresso. O caso mais rumoroso ocorreu em 2012, quando o então deputado Protógenes Queiroz quis proibir no país o longa Ted, sobre um ursinho pornográfico que usa drogas, fala palavrões e é dono de um humor ácido. O deputado levou o filho de 11 anos para ver o filme, sem se atentar que ele estava recomendado para maiores de 16 anos. Depois de não conseguir proibir a fita, Protógenes Queiroz pediu aumento da indicação para 18, mas a classificação foi mantida.

Alguém fumando um cigarro de nicotina é “consumo de droga lícita”, situado na classificação para maiores de 12 anos. Mas há fatores agravantes e atenuantes que influenciam na avaliação final. Um “contraponto” que abranda a cena, como um dependente demonstrando a iniciativa de abandonar o vício, por exemplo, pode influenciar para a redução da idade. Já a “frequência” de cenas de uso exacerba o ponto crítico.

Foi o que ocorreu no documentário O jardim das aflições, sobre o guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho. As constantes baforadas do escritor no cachimbo levaram a obra à categoria não recomendada a menores de 12 anos, com uma única observação: “droga lícita”. “Ele não fuma para propagar o consumo, mas a cena é valorizada imageticamente”, explicou Antônio Dantas.

Um dos títulos que mais renderam controvérsias no passado recente, pelo contexto político, foi Aquarius, filme de Kleber Mendonça Filho estrelado por Sonia Braga, de 2016. Em Cannes, a equipe fez um protesto contra o impeachment, recém-consumado naquele momento, da ex-presidente Dilma Roussef. Foi o bastante para a indicação para maiores de 18 anos, dada poucos meses depois sob o governo Temer, ser atacada como uma represália à obra.

Diego Coelho, o mais antigo dos analistas e autor do primeiro relatório de Aquarius, virou alvo na internet. Ainda hoje, nos sites de busca, seu nome aparece relacionado ao episódio. Coelho conta que a composição de cenas de sexo oral e orgia foi o que pesou para a classificação, e não as pressões alegadas pelos críticos. “Na dúvida, em casos limítrofes, sempre optamos pela classificação mais elevada, para garantir a proteção”, explicou Coelho, formado em biologia e arquivologia, além de ser cinéfilo declarado.

O caso, porém, levou analistas a deixar de assinar resumos dos relatórios que ficam públicos no portal do ministério. Aquarius passou pelas duas reavaliações possíveis. Na primeira reconsideração, a recomendação de 18 anos foi mantida. Na segunda e última instância, em que o resultado é assinado pelo secretário nacional de Justiça, a indicação caiu para 16 anos.

Aquarius faz par te de uma lista restrita de apenas oito filmes que, nos últimos cinco anos, foram levados até o degrau derradeiro de recurso. O longa Getúlio, sobre a vida e a morte do ex-presidente, é outro. A produtora pleiteava classificação de 12 anos, mas a recomendação para 14 foi mantida nas três avaliações, em razão do suicídio retratado.

A taxa de coincidência entre o que o produtor quer e a classificação definida pelos analistas do governo é de 55% na primeira avaliação. Entre as obras que passam por reconsideração, a pedido dos interessados, cerca de 60% permanece com a indicação inicial. É o caso do filme De pernas pro ar 3, que chegou ao setor com sugestão de 12 anos. A produtora Mariza Leão esteve recentemente no departamento, em Brasília, para acompanhar a reanálise que pediu, mas a classificação de não recomendado para menores de 14 anos foi mantida, devido ao conteúdo sexual.

Queixas também partem do cidadão comum. São cerca de 20 denúncias por mês, em geral pedindo para aumentar a faixa etária ou mesmo retirar conteúdos do ar – atribuição que o setor não possui. Em uma ligação no ano passado, um senhor do Rio de Janeiro avisou que iria “metralhar todo mundo” da classificação indicativa e da Netflix. Ele culpava um filme do serviço de streaming por “comportamentos lésbicos” da neta e se dizia impotente para proibi-la de ver a obra, já que ela cumpria os requisitos de idade da classificação.

Eduardo Nepomuceno repetiu como um mantra que ali “não se faz juízo de valor, senão é censura”. Ele disse que não há diferença se o beijo é de um casal gay ou hétero. Da mesma forma, a exibição de uma genitália masculina ou feminina terá o mesmo peso para a análise, afirmou. “Qualquer comportamento classificado de determinada forma para um grupo de pessoas será para outro. Não pode ser diferente”, insistiu.

Os nove analistas da classificação indicativa trabalham em pequenas salas individuais. Isso para que não precisem usar obrigatoriamente fones de ouvido, sob risco de problemas na audição. Eles assistem ao conteúdo em um computador enquanto fazem anotações em outro. Na área de jogos eletrônicos, há sofás.

Na gíria da repartição, “Livre Peppa Pig” é aquela obra absolutamente simples de analisar, sem qualquer ponto sensível, indicada a todos os públicos. São obrigatoriamente submetidos à classificação antes de chegar ao público os filmes que vão para o cinema e os que serão lançados em DVD, além de jogos eletrônicos e de RPG em meio físico (não inclui os veiculados na internet). Conteúdos jornalísticos, esportivos e propaganda não passam pelo crivo do governo.

TV paga, canais de streaming como Netflix, além de museus e peças de teatro, entre outras atrações, fazem a chamada autoclassificação. A indicação que elas próprias escolhem pode passar pela análise do governo por amostragem ou denúncia. Havendo divergência, a classificação estatal prevalece.

Nos canais abertos, toda a programação é autoclassificada inicialmente, mas tem de ser referendada pelo Ministério da Justiça. Jesus, novela bíblica da TV Record, estreou como “Livre”, passou para 12 anos e chegou a 14 enquanto era exibida. A gota d’água: a cabeça de João Batista exibida na bandeja por Salomé. Isso, para a equipe, foi um pouco demais.

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GESTÃO E CARREIRA

EXPERTS EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Proliferação de assistentes virtuais cria mercado promissor para uma gama variada de profissionais, de administradores a antropólogos.

Artificial intelligence

O dia amanhece e Theodore, um escritor solitário, é acordado por sua secretária virtual, Samantha, por quem está apaixonado. Ela diz “bom dia” com uma voz doce e faz piada da preguiça dele. A cena, protagonizada por Joaquin Phoenix no filme Her, parecia tão improvável quando foi exibida nos cinemas que o longa recebeu o Oscar de Melhor Roteiro Original. A única coisa parecida de que se tinha notícia era a Siri, da Apple, que ainda soava mais como ficção de Hollywood do que algo palpável de fato. O a no era 2013. Na mesma época, Steffanie Caroline Telles de Souza, de 29 anos, tentava uma vaga de atendente telefônica no Bradesco. “Entrei no banco almejando virar gerente de agência. Jamais imaginei que me tornaria professora de uma atendente virtual”, diz Steffanie, que desde 2016 faz parte do Centro de Inteligência Artificial do Bradesco, responsável pela “Bia”, a secretária digital que ganhou notoriedade em propagandas feitas pelo banco em pleno horário nobre de TV.

A primeira função de Steffanie, que é formada em administração de empresas, foi revisar os conteúdos que seriam “ensinados” para Bia – que já fez 90 milhões de interações com o público via mensagens de texto e comando de voz. Agora como líder de projetos, cargo a que foi promovida no ano passado, sua missão é mais estratégica: observar falhas no sistema e deixar as falas mais claras e objetivas, melhorando a interação da máquina com os humanos. “Acho que estou numa das áreas mais promissoras do banco”, comemora. O administrador de empresas Edilson Oliveira Lima, de 31 anos, também líder de projetos, compartilha da mesma percepção da colega. Há nove anos no Bradesco, ele conta que atuar com inteligência artificial deu a ele uma oportunidade única de se diferenciar num mundo cada vez mais automatizado. “Participar desse processo expandiu meus horizontes e movimentou minha carreira. Recebi vários treinamentos da IBM, nossa parceira. Conhecer a tecnologia Watson, uma novidade no Brasil e no mundo, é algo relevante”, afirma. O pontapé inicial de Bia aconteceu em 2016, quando o Bradesco comprou a operação do banco inglês HSBC no Brasil por 16 bilhões de reais. Naquele momento, os executivos decidiram criar um projeto piloto no qual uma assistente virtual ajudasse a orientar as cerca de 20.000 funcionários que estavam chegando. ”Ela esclarecia aos novos profissionais da agência quais eram os procedimentos para fazer uma restituição ou abrir uma conta, por exemplo”, diz Marcelo Câmara, gerente de pesquisa e inovação.

Ao passar no teste, a IA foi, enfim, lançada no mercado. Desde então, a equipe multidisciplinar que trabalha com ela quintuplicou. Hoje, o time é composto de gente de áreas tão distintas quanto ciência de dados, comunicação, linguística e antropologia. E a expectativa é que o departamento siga crescendo. Apesar de não abrir número de vagas, a empresa está contratando neste momento designers, professores e curadores de informação para inteligência artificial. “Recrutamos no mercado. Mas, como não há graduação específica para atuar na área e nossa vocação é qualificar quem está aqui, olhamos muito para dentro de casa”, afirma Victor Queiroz, diretor de RH. De acordo com ele, mais da metade do time foi formada internamente. “No começo, enviávamos as pessoas para treinamentos no exterior”, diz.

Embora o boom dos atendentes virtuais seja recente, os primeiros capítulos dessa história começaram na década passada, mais precisamente em 2007, quando estudantes da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, criaram a Siri a primeira secretária automatizada para celular do planeta. Comprada pela Apple três anos depois, por 200 milhões de dólares, a invenção foi disponibilizada nos aparelhos da marca em 2011. Hoje, segundo a consultoria especializada Verto Analytics, há 41,4 milhões de usuários ativos da tecnologia – mais do que as populações da Austrália., Uruguai e Suécia somadas.

 NA COLA DOS GIGANTES

Apesar do pioneirismo da Apple, a guinada desse novo mercado só aconteceu a partir de 2015, após a Amazon e o Google lançar em caixas de som inteligentes para se comunicar com suas respectivas secretárias virtuais, Alexa e Google Assistance. Entre outras habilidades, as duas fazem previsão do tempo, ligam e desligam dispositivos domésticos, chamam Uber e solicitam delivery de comida. Era o que bastava para virar febre.

Hoje, de acordo com o eMarketer, consultoria de pesquisa, esse mercado avança no ritmo de 48% ao ano. Até 2020, segundo projeção da consultoria RBC Capical Markets, deve movimentar 15 bilhões de dólares.

Números como esse explicam porque quase todos os segmentos da economia, do financeiro a beleza, estão criando seus assistentes virtuais. Para executivos de grandes companhias, se houver de fato uma naturalização desse tipo de tecnologia, o maior risco é ficar para trás. Afinal, quem vai querer pesquisar informações manualmente, sobretudo quando se está cozinhando ou dirigindo, quando se pode fazer isso com um simples comando de voz?

A mais recente marca a anunciar sua entrada nesse mercado é a BMW. A alemã está desenvolvendo um assistente virtual para o BMW iNEXT, veículo elétrico a ser lançado em 2021. Por aqui, os consumidores já lidam com a Bia, do Bradesco, a Lu, do Magazine Luiza, a Aura, da Vivo, e a Nat, da Natura. No fundo, as companhias brasileiras se conscientizaram que a interação entre o real e o virtual é inevitável e só aumentará nos próximos anos – inclusive dentro delas próprias. Estudo recente da consultoria Gartner mostra que 2% das empresas usam sistemas de reconhecimento de voz para esclarecer aos empregados dúvidas sobre benefícios, holerite e aviso de férias. Até 2021, esse número saltará para 25%. “Na minha opinião, esse movimento transformará o mercado de trabalho como um todo. Além de gente de TI, serão demandados profissionais da sociologia e da antropologia, importantes para auxiliar na interação entre máquinas e humanos”, diz Patrícia Molino, sócia da área de gestão da consultoria KPMG.

 GUERRA DE TALENTOS

Nesse momento, segundo fontes consultadas pela reportagem, um dos grandes desafios é encontrar mão de obra qualificada. E não adianta recrutar direto das salas de aula. Boa parte dos estudantes sai da faculdade sem saber exatamente como aplicar o conhecimento técnico nos projetos de IA. A maior dificuldade é encontrar quem tenha vivenciado a tecnologia na prática. “Como existem poucos profissionais prontos na área, companhias estão roubando funcionários umas das outras, fazendo uma espécie de leilão, o que não é saudável para os empregados, que podem estar entrando em uma bolha”, ressalta Edney Souza, professor de marketing digital da ESPM e diretor acadêmico do Digital House, centro de educação digital. Segundo ele, o salário de um cientista de dados do setor gira em torno de 10.000 reais. “Mas especialistas com mais experiência podem receber propostas de até 25.000 reais.”

É por isso que organizações vêm desenvolvendo esses profissionais dentro de casa, A Vivo é um exemplo, começamos a equipe da Aura (a assistente virtual dos serviços de telefonia) do zero. Como competíamos por gente com bancos e gigantes de tecnologia, como Google e Amazon, optamos por formar internamente em nossa Universidade Corporativa, Não havia nenhum cientista de dados conosco, hoje já são 80″, diz Ricardo Sanfelice, vice-presidente de estratégia digital e inovação.

Além de cientistas de dados, há uma gama variada de especialistas no time. “Temos linguistas para ensinar o robô a entender regionalismos e sotaques, profissionais que escutam ligações para analisar o atendimento, corrigindo e prevendo interações, e gerentes de produto”, afirma Ricardo. Segundo o executivo, essa equipe possui formações diversas e, desde agosto, já promoveu mais de 120.000 ajustes no sistema. Natália Poletto, administradora de 33 anos, teve seu cargo criado no momento em que a ideia da Aura nasceu.

Sua porta de entrada foi na área de analytics, onde começou quatro anos atrás. “Eu fazia estudos para entender o que o consumidor queria ou precisava”, conta. Hoje, ela prosperou na carreira e é uma das quatro gerentes que cuidam do dispositivo. Natália faz uma espécie de ponte entre as áreas de negócio e o corpo técnico que desenvolve as soluções, definindo quais serão as próximas funcionalidades e os canais em que a Aura deve estar presente. De acordo com ela, ter um perfil analítico é fundamental para a posição. Ter trabalhado com marketing e branding a ajudou. “Eu já tinha a experiência de olhar para a marca e pensar em como ir além”, diz. Um dos aspectos que mais a encanta é o modo como os times de IA atuam. ”Atuamos em squads, sem liderança direta.  Todos têm voz ativa e autonomia.”

Diante de todo esse ”frisson”, Lucas Mendes, sócio- fundador da Revelo, plataforma de  vagas na área digital, faz um alerta: empresas que investem para capacitar seus funcionários em IA precisam redobrar o cuidado com retenção. Segundo ele, como a experiência no dia a dia é rara e o aprendizado prático é mais importante do que conhecimento teórico, indivíduos com atuação em grandes projetos de comando de voz têm atratividade 82% maior do que graduados em TI nas vagas que a plataforma divulga para o setor. “Em cinco ou dez anos, nenhum RH vai considerar só  a faculdade do candidato neste tipo de área”, diz o especialista. Uma projeção e tanto para quem busca explorar novas áreas de atuação.

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Experts em Inteligência Artificial. 2

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 31: 10-31 – PARTE III

Alimento diário

A MULHER VIRTUOSA

 

III – A felicidade desta mulher virtuosa.

1. Ela tem a consolação e satisfação da sua virtude na sua própria mente (v. 25): “A força e a glória são as suas vestes”, em que ela se envolve, isto é, de que ela desfruta, e em que se mostra ao mundo, e assim recomenda a si mesma. Ela desfruta de uma firmeza e constância de mente, tendo ânimo para suportar as muitas cruzes e desapontamentos que até mesmo os sábios e virtuosos devem esperar encontrar neste mundo; e estas são as suas vestes, para defesa, bem como decência.

Ela tem atitudes honrosas com todos, e tem prazer em agir assim, e rirá no futuro; quando tiver mais idade, refletirá com satisfação sobre o fato de que não foi ociosa nem inútil quando jovem. No dia da sua morte, será um prazer pensar que viveu com algum bom propósito. Na verdade, ela se rirá em urna eternidade que há de vir; ela será recompensada pela sua bondade com abundância de alegria e prazeres, para sempre.

2. Ela é uma grande bênção para os seus parentes (v. 28).

(1) Os seus filhos crescem e a chamam bem-aventurada. Eles lhe dedicam palavras boas; eles mesmos são um elogio para ela, e estão prontos a lhe fazer grandes elogios; oram por ela, e bendizem a Deus por terem urna tão boa mãe. É urna dívida que têm para com ela, urna parte daquela honra que o quinto mandamento exige que se tenha com pai e mãe: e é uma honra dupla aquela que se deve a um bom pai e a uma boa mãe.

(2) O seu marido se julga tão feliz com ela, que aproveita todas as oportunidades para falar bem dela, como sendo uma das melhores mulheres. Não é nenhuma indecência, mas, na verdade, um louvável exemplo de amor conjugal, que os esposos e as esposas se deem, uns aos outros, os louvores devidos.

3. Ela tem boa reputação com todos os seus vizinhos, como Rute, a quem toda a cidade do seu povo sabia ser urna mulher virtuosa (Rute 3.11). A virtude terá o seu louvor (Filipenses 4.8). Uma mulher que teme ao Senhor terá o louvor de Deus (Romanos 2.29), e o dos homens, também. Aqui vemos:

(1) Que ela será muito louvada (v. 29): “Muitas filhas agiram virtuosamente”. As mulheres virtuosas, aparentemente, são joias preciosas, mas não joias tão raras como se pensava (v. 10). Houve muitas, mas esta é incomparável. Quem poderá achar alguém que se compare a ela? Ela supera a todas. Observe que aqueles que são bons devem desejar e cobiçar ser excelentes em virtude. Muitas filhas, na casa de seu pai, e quando solteiras, agiram virtuosamente; mas uma boa esposa, se for virtuosa, será superior a todas elas, e fará um bem maior do que elas poderão fazer. Ou, como explicam alguns: um homem não consegue ter a sua casa tão bem mantida por boas filhas, como por uma boa esposa.

(2) Ela será incontestavelmente louvada, sem contradição (v. 31). Alguns são louvados além do que lhes é devido, mas os que louvam a mulher virtuosa aqui apenas lhe dão o fruto de suas mãos; eles lhe dão aquilo que ela conquistou e que é, com justiça, devido a ela; ela será injustiçada se não for assim. Observe que devem ser louvados aqueles cujas mãos produziram frutos dignos de louvor. A árvore é conhecida pelos frutos, e. portanto, seus frutos forem bons, a árvore deve ter nosso elogio. Se os seus filhos forem diligentes e respeitos os com ela, e se comportarem como devem, então lhe darão o fruto de suas mãos; ela colhe o benefício de todos os cuidados que teve com eles, e se julga bem recompensada. Os filhos devem, portanto, procurar recompensar seus pais, e isto é exercer apieda­ de em casa (1 Timóteo 5.4). Mas, se os homens forem injustos, as suas próprias obras a louvarão às portas, abertamente, diante de todo o povo.

[1] Ela deixa que suas próprias obras a louvem, e não busca o aplauso dos homens. Não são verdadeiramente virtuosas as mulheres que se aprazem em ouvir elogios.

[2] As suas próprias obras a louvarão: se os seus parentes e vizinhos ficarem em silêncio, ainda assim as suas boas obras proclamarão o seu louvor. As viúvas fizeram o melhor elogio a Dorcas, quando mostraram as túnicas e vestes que ela tinha feito para os pobres (Atos 9.39).

[3] O mínimo que se pode esperar de seus vizinhos é que deixem que as suas próprias obras a louvem, e não façam nada para impedir isto. Que aqueles que fazem o que é bom tenham o louvor por isto (Romanos 13.3), e não devemos dizer ou fazer, com inveja, nada que diminua esse louvor, mas devemos ser provocados, por ele, a uma santa imitação. Não devemos falar mal de ninguém que tenha uma boa reputação, até mesmo da própria verdade. Este deve ser o espelho das mulheres, que elas deverão abrir para orientar o seu vestir; e, se o fizerem, os seus adornos serão dignos de louvor, e honra, e glória, na vinda do Senhor Jesus Cristo.