A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O CONTROLE DAS EMOÇÕES

Trabalhando com ratos, cientistas americanos desenvolvem técnica para manipular lembranças – positivas e negativas. Será possível fazer o mesmo com seres humanos?

O controle das emoções

“Abre os vidros de loção/e abafa/o insuportável mau cheiro da memória”, diz o poema Resíduo, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Os versos, escritos pelo poeta mineiro na década de 40, parecem extraordinariamente afinados com recentes pesquisas da neurociência segundo as quais o esquecimento seria um modo encontrado pelo cérebro para se livrar do que é, no mínimo, irrelevante e, muitas vezes, traumatizante. A ideia também dá corpo ao filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004), de Michel Gondry, em que o personagem Joel, interpretado por Jim Carrey, descobre um método para apagar da memória tudo o que envolvia sua ex-namorada Clementine. Ainda não se chegou a tanto, mas a ciência deu um novo passo para o que pode ser uma desconcertante conquista.

Em um artigo recém-publicado na revista americana Current Biology, cientistas da Universidade Boston revelaram que, trabalhando com camundongos, desenvolveram uma técnica inédita para mapear e controlar partes do cérebro que guardam os sentimentos ligados a lembranças boas e ruins. Utilizando ratos geneticamente modificados – para que seus neurônios reagissem a estímulos de luz -, os pesquisadores conectaram ao cérebro dos roedores pequenas fibras ópticas capazes de iluminar a região estudada. Com isso, era possível detectar a reação das células aos impulsos elétricos nas mais diferentes situações. Memórias positivas – prazerosas – foram estimuladas nos animais do sexo masculino levados a copular com suas fêmeas. Em seguida, os cientistas “gravaram” no cérebro dos camundongos lembranças negativas, ao prendê-los em gaiolas que davam choques em seus pés ao momento em que um alarme era acionado. Com os ratos devidamente condicionados a um ou outro tipo de memória emotiva, foi possível rastrear em quais regiões cerebrais estavam os neurônios associados a cada modalidade de lembrança. A partir daí, os pesquisadores passaram a estimular de maneira artificial a ativação das áreas identificadas. Assim, viram que poderiam fazer com que um roedor ficasse relaxado mesmo depois de ouvir o alarme de choque. Isso porque, nesse exato momento, os cientistas acionavam a região do hipocampo responsável pela sensação de prazer (registrada na copulação).

Embora os experimentos tenham sido conduzidos em cobaias, os pesquisadores acreditam que as regiões do cérebro dos camundongos analisadas possam revelar caminhos para o progresso, por exemplo, dos tratamentos de transtornos psiquiátricos em seres humanos. “Poderemos criar medicamentos que se ligam apenas aos circuitos positivos de memórias, de forma personalizada e diferente de como fazem os antidepressivos atuais, que agem em todo o cérebro e causam efeitos colaterais adversos”, disse o neurocientista Steve Ramirez, que liderou o estudo. A experiência, no entanto, arrasta consigo incontornáveis questões éticas sobre a aplicação da técnica em pessoas. O cérebro dos ratos foi cirurgicamente aberto e submetido a uma série de procedimentos traumáticos – impensáveis em humanos. Essa, porém, não é ainda uma preocupação de Ramirez: “Demos apenas o primeiro passo. Falta muito até que precisemos nos preocupar com pessoas apagando memórias a seu bel-prazer”.

O controle das emoções. 2

OUTROS OLHARES

VIDA SEM LIKES

A nova regra do Instagram de ocultar o número de curtidas nos posts diminui a competição, mas não resolve a dependência da tecnologia. De acordo com especialistas, o vício em rede social é apenas reflexo de uma vulnerabilidade já existente na vida real

Vida sem likes

Na semana passada, o Instagram decidiu ocultar no Brasil e em outros seis países o número de curtidas de fotos e vídeos no feed e no perfil dos usuários, em forma de teste. A providência segue uma experiência que começou em maio no Canadá e, segundo a empresa, foi tomada para “que os seguidores se concentrem mais nas fotos e vídeos que são compartilhados do que na quantidade de curtidas que recebem”. A companhia também deseja que as pessoas não sintam que estão em uma competição dentro da plataforma. A decisão dividiu opiniões. Uma das repercussões mais polêmicas partiu do vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PSL). Em seu Twitter, ele postou que a verdadeira intenção da marca é “barrar o crescimento dos que pensam de forma independente”. Por outro lado, a maioria dos influencers se pronunciou com um discurso politicamente correto, afirmando que a medida é positiva e combate a busca excessiva por likes. Isso pode ser um discurso calculado e não refletir o pensamento real daqueles que já tratam a rede como um negócio. Usuários que burlaram o Instagram e publicaram na rede uma foto de seu perfil com o número de curtidas foram criticados. Além disso, fontes que trabalham na área afirmaram à ISTOÉ que nos bastidores influencers estão preocupados com a possível queda no faturamento. Há relatos de reuniões para criar novas formas de gerar engajamento, apesar das manifestações favoráveis na rede.

Vida sem likes. 2

DEPENDÊNCIA TECNOLÓGICA

Apesar de a alteração amenizar a relação tóxica que muitos usuários regulares têm com a rede social, ela não resolve o problema de dependência tecnológica. De acordo com um estudo de 2017 da Royal Society for Public Health, instituição de saúde pública britânica, o Instagram é a plataforma mais nociva à saúde mental dos jovens. De cada 10 voluntários, sete afirmaram que o aplicativo foi prejudicial a sua autoimagem. Entre as meninas, nove em cada 10 estão infelizes e pensam em mudar a própria aparência por meio de procedimentos estéticos para serem mais aceitas na plataforma. Esse problema é constatado pelo Programa de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP. Criado em 2006, o grupo atende pacientes para os quais o uso da tecnologia deixou de ser um prazer e passou a funcionar como uma espécie de transtorno obsessivo compulsivo, com componentes de impulsividade. De acordo com a psicóloga do programa, Dora Góes, as redes sociais apenas dão visibilidade ou agravam um problema que já existe. “As pessoas buscam ali o que falta na vida, mas nada substitui a necessidade do ser humano de ser aprovado nas suas relações pessoais. Vira uma busca sem fim”, diz ela. Na maioria dos casos de dependência tecnológica existem outras doenças associadas, como depressão e ansiedade.

A influencer Mariana Gimezes já teve problemas de auto aceitação na adolescência e chegou a desenvolver depressão e síndrome do pânico. “Foi difícil, ficava me comparando com os outros e me sentia inferior”, diz ela. Formada em arquitetura, desde 2016 trabalha como influenciadora. Com 123 mil seguidores, vive de publicidade com os posts. Para ela, a mudança recente foi feita por interesses comerciais, para incentivar o patrocínio de posts, assim como ocorreu em 2018, quando eles passaram a aparecer aos usuários não por ordem cronológica, mas, sim, pela quantidade de curtidas que recebiam. À época, Mariana chegou a ficar abalada com a queda nos likes: “Achei que não estavam gostando do meu trabalho.” Mais madura e próxima dos seguidores, hoje ela lida com a questão de uma forma bem-humorada: “É raro, mas quando faço foto com poucas curtidas, brinco que estou me sentindo abandonada e peço para as pessoas curtirem”.

GESTÃO E CARREIRA

CUIDADO: VENENO

Em algumas empresas, ainda há espaço para a chefia tóxica. Fazer networking interna e externamente, e saber se posicionar frente ao gestor cruel são algumas das alternativas para se blindar — ou fugir — desse problema.

Cuidado - Veneno

“Ele era tecnicamente brilhante, mas sem nenhuma inteligência emocional.” É assim que a advogada Jordana Paiva, de 42 anos, descreve um dos líderes com que trabalhou durante um ano em um escritório de advocacia de médio porte em São Paulo. Ela perdeu as contas de quantas vezes o viu se descontrolar e usar o poder para subjugar e ameaçar os profissionais, inclusive ela. “Sempre que algo não saía como ele queria, ameaçava me despedir e me colocava em uma situação inferior, deixando claro que não daria boas referências de meu trabalho”, diz. Segundo Jordana, a cultura que permeava na empresa era a do medo. “O doutor vai chegar, senta e silêncio!”, era a frase habitual de todos quando estava perto da hora do gestor aparecer.

O tal chefe chegou a colocar câmeras nas salas (dizendo que era para segurança), mas, na verdade, seu principal intuito era vigiar a equipe quando estivesse ausente. “Se via algo que não gostava, ligava imediatamente para uma das secretárias e dizia: ‘Por que fulana está de pé? Pergunte se ela não tem mais o que fazer’ ”, afirma Jordana.

Apesar de a tendência ser diminuir esse tipo de liderança, ainda há muitos gestores tóxicos, no estilo de Miranda Priestly, no filme O Diabo Veste Prada, ou Annalise Keating, na série How to Get Away with Murder, por aí. Uma das frases preferidas de Annalise, “me ligue quando ele estragar tudo”, por exemplo, mostra bem uma das características dos chefes tóxicos, que acham que apenas eles são bons o suficiente para tocar os projetos. Mas há outras. Eles são agressivos, narcisistas e até violentos. Jordana lembra que, certa vez, o líder jogou o laptop no chão, pois não gostou de um acordo que ela havia feito. “A tensão era diária”, diz.

O espaço para esse tipo de chefia é reflexo do cenário atual. Com a instabilidade econômica, algumas companhias apenas buscam resultados no curto prazo para se manter competitivas, sem olhar a gestão de pessoas. “O chefe tóxico prospera em organizações que permitem que o gestor faça qualquer coisa para bater as metas”, diz Rafael Souto, presidente da Produtive, consultoria de planejamento e transição de carreira. Segundo ele, geralmente são empresas em que o presidente ou os acionistas têm esse perfil e não estão preocupados com o ambiente, mas com os números.

Apesar de estarem presentes em negócios de diferentes setores e portes, é mais comum encontrá-los em mercados tradicionais e nos segmentos mais atingidos pela desacelaração, como mídia e indústria automobilística. “A crise é o motor do tóxico. Quando a economia começa a melhorar, as pessoas têm mais opções e saem da companhia”, afirma Rafael.

 O PREÇO DO PROBLEMA

Os reflexos dessa gestão, cedo ou tarde, chegam à empresa. O ambiente fica pesado e a competição ganha força, o que começa a gerar conflitos entre os profissionais e resulta em pedidos de demissão dos melhores talentos. Isso sem falar no absentismo: com tanta pressão, os funcionários começam a ficar doentes e faltam mais. “Dificilmente, as pessoas toleram uma liderança assim quando têm mais oportunidade”, diz Maria Candida Baumer de Azevedo, sócia da People & Results, especializada em carreira e cultura empresarial. É o que mostram, mesmo, os números. Uma pesquisa da consultoria americana BambooHR revela que 44% dos profissionais pediram demissão por causa de um chefe tóxico. Entre as causas, o estudo aponta o roubo de crédito pelo trabalho sem reconhecer o empregado. Em seguida, outros motivos são: não manifestar confiança, ignorar o excesso de trabalho, contratar ou promover pessoas erradas, não permitir autonomia e ressaltar as fraquezas da equipe. “Na primeira oportunidade que tive, pedi demissão. Não dava mais para viver naquela cultura de medo”, diz a advogada Jordana. De acordo com ela, apesar de saber que a situação não era normal, aguentou em razão do aprendizado. “Tinha pouca bagagem profissional e sabia que a experiência contaria muito em meu currículo. Além disso, o escritório possuía uma carteira de clientes que me interessava”, afirma. Ela lembra que, por lá, elogios não existiam. “Podia ter feito melhor” e “da próxima vez estude mais” eram os estímulos dados à equipe.

A advogada saiu da empresa antes de pagar uma conta mais cara, que é a da saúde. “O profissional passa a duvidar do próprio talento e perde toda a motivação, o que, no longo prazo, pode desencadear uma crise emocional”, diz Fabrício César Bastos, fundador da Flowan, consultoria de desenvolvimento humano. Em alguns casos, até a vida pessoal é prejudicada, pois ele não consegue mais ficar bem nem mesmo com a família e os amigos.

A psicanalista Claudia Cavallini, consultora e professora na HSM Educação Executiva, conta que muitos já chegam ao consultório com questões psíquicas graves, como crises de ansiedade e estresse decorrentes de chefes difíceis. “É preciso estar atento aos sinais do corpo. Se começar a ficar doente com frequência, e sofrer de insônia e irritabilidade frequentes, é hora de pedir ajuda”, diz. Nem sempre é necessário recorrer à terapia, mas é essencial observar esses sinais para não chegar ao limite e adoecer. No entanto, segundo Claudia, deve-se ter cuidado ao rotular um chefe como tóxico, pois a questão pode estar no âmbito pessoal, como o fato de o empregado não estar num bom momento e se abalar com uma gestão mais agressiva, por exemplo.

Por isso, o primeiro passo é conversar com os colegas. Se todos observam e sentem o mesmo que você, provavelmente a gestão é realmente ruim. “A liderança nefasta, que pode envolver todos os tipos de assédio, é recorrente e afeta mais de uma pessoa da equipe”, diz Maria Cândida. Segundo ela, os tóxicos não podem ser confundidos com líderes mais assertivos que, vez ou outra, são mais duros em um feedback. Ao contrário: os nocivos agem sempre assim.

 ROTA DE FUGA

Lutar contra essa cultura não é fácil, pois, se o gestor age dessa forma, provavelmente tem o aval da alta direção por entregar bons resultados. Além disso, a maioria não reconhece sua toxicidade. Acha que entrega resultados e as pessoas é que estão de “mimimi”. Mas há algumas formas de se blindar enquanto precisa do trabalho e, aos poucos, se movimentar no mercado — ou na própria empresa. Foi exatamente isso que Roger Carrara, de 34 anos, fez. Atualmente no Peixe Urbano, ele teve de lidar com uma chefe tóxica em outra companhia em que trabalhava. Ao perceber o problema, Roger começou a reforçar o networking interno. “Mantinha conversas recorrentes com as outras áreas, mas sem falar da gestora. O objetivo era trocar ideias de projetos e da operação em geral”, diz. Aquele era, para ele, um momento muito desgastante, no qual tinha a sensação de que a ascensão profissional demoraria. Na época, todos os créditos das boas ideias ficavam com a chefe. “Fazíamos muitas reuniões de brainstorming para resolução de problemas e precisávamos levar as soluções à gerência. Em várias situações, ouvíamos que a ideia era ruim, mas, no dia seguinte, ela estava apresentando a mesma ideia ao diretor, sem mudar nada”, diz. Um ano e meio depois de reforçar sua rede de contatos, veio o resultado: Roger foi chamado por um desses líderes para assumir uma nova operação. Aí tudo mudou. Ele ficou dois anos na nova área até ir para o Peixe Urbano. “Hoje me identifico muito com o modelo de gestão da empresa e estou feliz”, diz. A atitude de Roger é recomendada pelos especialistas, que acreditam ser importante assumir a gestão da própria carreira e começar a se movimentar, descobrindo caminhos e possibilidades para se livrar da liderança tóxica. “Se ficar preso nessa bolha e não fizer relacionamento, a probabilidade da situação mudar é muito baixa”, afirma Rafael. Além disso, dependendo da cultura geral da empresa e do perfil do RH, uma conversa franca pode valer a pena. Hoje em dia, há muitos profissionais de gestão de pessoas preparados para esse diálogo. Mas, se a opção for falar diretamente com o gestor, seja cuidadoso. “Explique, com respeito, como se sente com algumas atitudes e de que forma isso influencia em sua produtividade”, diz a coach Eliana Dutra, CEO da ProFitCoach. Segundo ela, é importante também perguntar como ele prefere que a comunicação seja feita e em quais pontos você pode melhorar. Nesse caso, humildade é a palavra de ordem.

O segredo é saber se colocar e não deixar que as palavras desmotivadoras e o perfil do líder o abalem. Afinal, se ele age assim com todo mundo, o problema certamente não é seu. “A confiança vem com o tempo. Hoje, com a bagagem profissional que adquiri, teria me posicionado mais naquela época, não teria me calado”, diz Jordana. Pense se não está na hora de botar a boca no trombone — seja para solucionar a situação diretamente com o chefe, seja para falar ao mundo que você está disponível para uma mudança de rota.

Cuidado- Veneno.2

CONHECE O “EFEITO LÚCIFER”?

Talvez seu chefe não fosse cruel antes de alcançar o poder

 O psicólogo americano Philip Zimbardo estudou o comportamento humano para entender por que, em determinadas situações, algumas pessoas consideradas boas são capazes de cometer crueldades. Para isso, um grupo de estudantes universitários voluntários foi dividido aleatoriamente em guardas e prisioneiros em um ambiente de prisão simulado. Após uma semana, os estudantes transformaram- se em guardas violentos e sádicos ou em prisioneiros emocionalmente abalados. Essa tendência de uma pessoa produzir o “mal” quando lhe é conferido poder foi chamado de “Efeito Lúcifer”.

 

 

 

 

 

 

TRAÇOS NADA SUTIS

Seis sinais de que seu chefe pode ser tóxico

 

AUTORITÁRIO

A única forma certa de realizar um trabalho é a do gestor, que evita delegar tarefas e, quando o faz, controla todos os passos e nunca fica satisfeito com o resultado. além disso, tem o hábito da ameaça, pois acredita que as pessoas funcionam melhor quando estão com medo.

 

IMPREVISÍVEL – Você nunca sabe como ele vai chegar à empresa: de bom humor ou gritando. a tensão costuma ser diária.

 

ARROGANTE – Ele tem certeza que é incrível como profissional e você é que tem sorte de trabalhar sob sua supervisão. Assim, segue a linha “faça da maneira que eu falei e agradeça por estar em minha equipe”.

 

AGRESSIVO – Não ouve e apenas dá ordens. Quando algo não sai da maneira que ele queria (ou faria), é capaz de gritar e humilhar as pessoas. Respeito e empatia são palavras que ele não conhece.

 

NARCISISTA – Os méritos do sucesso são sempre dele. aliás, vez ou outra, ele se apropria de ideias de outras pessoas e, se algo der errado, a culpa é sempre do time. Geralmente tem uma visão pouco realista de si mesmo e é incapaz de autocrítica.

 

EXIGENTE AO EXTREMO – Para ele, nunca nada está bom o suficiente. Costuma, também, sobrecarregar a equipe de trabalho, pois desconhece o limite entre pressão por resultados e falta de respeito.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 31: 1-9

Alimento diário

CONSELHOS MATERNOS AO REI LEMUEL

 

V. 1 a 9 – A maioria dos intérpretes é da opinião de que Lemuel é Salomão; o nome significa -que pertence a Deus, ou que é devotado a Deus”, e está de acordo com aquele honroso nome que, por indicação divina. foi dado a Salomão (2 Samuel 12.25), Jedidias – amado do Senhor. Supõe-se que Lemuel seja um nome bonito, amável e carinhoso, pelo qual sua mãe costumava chamá-lo: e ele dava tanto valor ao benefício que sentia através dos sentimentos de sua mãe, que não se envergonhava de chamar a si mesmo por este nome. Uma hipótese preferível seria pensar que é Salomão que aqui nos diz o que sua mãe lhe ensinou, porque ele nos diz (Provérbios 4.4) o que seu pai o ensinou. Mas alguns pensam (e a conjetura não é improvável) que Lemuel era um príncipe de alguma nação vizinha, cuja mãe era uma filha de Israel, talvez da casa de Davi, e que lhe ensinou estas boas lições. Observe:

1. É o dever das mães, bem como dos pais, ensinar aos seus filhos o que é bom, para que possam fazê-lo, e o que é mau. para que possam evitá-lo; quando os filhos são jovens; devem estar sob os olhos da mãe, e ela, então, tem a oportunidade de moldar e formar bem suas mentes, oportunidade que ela não deve deixar escapar.

2. Até mesmo os reis devem ser discipulados; o maior dos homens é menor do que a menor das ordenanças de Deus.

3. Os que cresceram até a maturidade devem frequentemente se lembrar e mencionar as boas instruções que receberam quando eram crianças, para sua própria admoestação, para a edificação dos outros e a honra daqueles que foram os guias da sua mocidade.

Agora, no discipulado desta mãe (desta rainha- mãe), observe:

 

I – A sua admoestação ao jovem príncipe, pela qual ela se posiciona como sua orientadora, reivindica um interesse nele, e desperta a atenção dele ao que irá dizer (v. 2): “Como, filho meu? Que te hei de dizer? Ela fala como alguém que considera qual conselho deve dar ao filho, e escolhe as palavras para argumentar com ele; tão cheia de preocupação está ela, pelo bem-estar dele! Ou, O que fizeste? Parece ser uma pergunta de repreensão. Ela observou, quando ele era jovem, que ele era muito inclinado às mulheres e ao vinho, e por isto julgou necessário repreendê-lo e lidar severamente com ele. “Como, filho meu? Este é o curso de vida que pretendes adotar? Eu não te ensinei nada melhor do que isto? Eu preciso te repreender, e fazê-lo severamente, e tu deves receber bem esta repreensão, pois:

1. És meu descendente, és “filho do meu ventre”, e por isto o que eu digo se origina da autoridade e do afeto de um pai, e não pode ser suspeito de se originar de alguma má vontade. És um pedaço de mim. Eu te gerei com sofrimento, e não espero nenhuma outra retribuição dos sofrimentos que tive contigo, do que este: Sê sábio e bom, e então estarei recompensada.

2. És devotado ao meu Deus; és o filho das minhas promessas, o filho que eu pedi que Deus me desse, e prometi devolver a Deus, e assim fiz (assim Samuel era o filho das promessas de Ana). És o filho ao qual frequentemente pedi que Deus desse a Sua graça (Salmos 72.1); e será que um filho pelo qual tantas orações já foram oferecidas, fracassará? E todas as minhas esperanças ao teu respeito serão desapontadas? Os nossos filhos, que são apresentados a Deus ao nascerem, são dedicados a Deus, por quem e em cujo nome nós temos um concerto com Deus, podem ser chamados de filhos de nossas promessas; e, da mesma maneira como esta pode ser uma boa súplica para Deus nas nossas orações por eles, também pode ser um bom apelo a eles, nas instruções que lhes damos; podemos dizer-lhes que foram apresentados e dedicados a Deus, que são os filhos de nossas promessas, e que será seu próprio risco se romperem estes laços que foram feitos solenemente na sua infância.

 

II – A advertência que ela lhe faz contra estes dois pecados destruidores – a impureza e a embriaguez – que, se ele se gratificasse neles, isto certamente seria a sua ruína.

1. Contra a impureza (v. 3): “Não dês às mulheres a tua força”, às mulheres estranhas. Ele não deve ser suave e efeminado, não deve passar em vã convivência com as mulheres aquele tempo que seria mais bem gasto na obtenção de conhecimento e na realização de negócios; não deve empregar seu tempo cortejando-as e elogiando-as, não deve dedicar a isso aquela inteligência (que é a força da alma) que deveria empregar nos assuntos do seu governo. Especialmente evita todo adultério, prostituição e lascívia, que desperdiçam a força do corpo e trazem perigosos desastres. Não dês os teus caminhos, teus sentimentos, o teu convívio, ao que destrói os reis, que já destruiu muitos, que causaram um choque ao reino do próprio Davi, na questão de Urias. Que os sofrimentos dos outros sejam teus avisos. Isto diminui a honra dos reis e os torna desprezíveis. São adequados para governar outras pessoas aqueles que são escravos de seus próprios desejos? Isto os torna muito inadequados para o trabalho e enche a sua corte com os mais infames e piores animais. Os reis estão sujeitos a tentações deste tipo; se tentarem agradar à carne terão que suportar o peso do pecado, e por isto eles devem dobrar a sua guarda; e, se desejarem preservar o seu povo dos espíritos imundos, devem ser, eles mesmos, padrões de pureza. As pessoas comuns também podem aplicar isto a si mesmas. Que ninguém dê a sua força ao que destrói almas.

2. Contra a embriaguez (vv. 4,5). Ele não deve beber vinho ou bebidas fortes; ele não deve nunca se sentar para beber, como era costume se fazer por ocasião da comemoração do dia do rei, quando os príncipes se tornarem doentes com a excitação do vinho (Oseias 7.5). Qualquer que seja a tentação com que possa se deparar, seja pela excelência do vinho, seja pelos encantos da companhia, ele deve se negar e se manter estritamente sóbrio, considerando:

(1) A indecência da embriaguez em um rei. Ainda que alguns possam chamar isto de uma diversão elegante e moderna, não é próprio dos reis, ó Lemuel, não é próprio dos reis permitir a si mesmos essa liberdade; é um menosprezo à sua dignidade, e profana a sua coroa, envergonhando a cabeça que a usa; aquilo que os torna menos homens também os torna menos reis. Diremos, são deuses? Não, são piores do que os animais que perecem. Todos os cristãos são feitos reis e sacerdotes para o nosso Deus, e devem aplicar isto a si mesmos. Não é próprio dos cristãos, não é próprio dos cristãos beber bebidas alcoólicas; eles se rebaixam se o fizerem; não é apropriado para os herdeiros do reino e os sacerdotes espirituais (Levítico 10.9).

(2) As más consequências disto (v. 5): para que não bebam e obscureçam o seu entendimento e as suas lembranças, para que não bebam, e se esqueçam do estatuto pelo qual devem governar; e assim, em lugar de fazer o bem com o seu poder, façam o mal com ele, e pervertam o juízo de todos os aflitos, e, quando deveriam fazer-lhes justiça, venham a ser injustos com eles, e aumentem a sua aflição. É uma triste reclamação que é feita dos sacerdotes e profetas (Isaias 28.7), de que erram por causa do vinho, e com a bebida forte se desencaminham; e o resultado é igualmente mau nos reis, que, quando estão embriagados ou intoxicados com o amor pelo vinho, não podem deixar de tropeçar no juízo. Os juízes devem ter um pensamento claro e um raciocínio claro, que não podem ter aqueles que, devido à embriaguês, tão frequentemente ficam atordoados, e incapacitados para julgar as coisas mais comuns.

 

III – O conselho que ela lhe dá, para fazer o bem.

1. Ele deve fazer o bem com a sua riqueza. Os nobres e grandes homens não devem pensar que têm a sua abundância somente para obter dela a provisão para a carne, satisfazer os desejos dela e gratificar mais livremente os seus próprios caprichos; não, com ela eles podem aliviar os que estão afligidos (vv. 6,7). Você pode ter vinho ou bebida forte à vontade. Em vez de se prejudicar com ela, faça o bem aos outros com ela; que a tenham os que dela necessitam. Os que têm riquezas devem não somente dar o pão para os famintos e água aos sedentos, como devem dar bebida forte àquele ímpio que está prestes a perecer com doenças ou dores, e vinho aos que estão melancólicos e com o coração pesado; pois este deve animar e revigorar o espírito, e alegrar o coração (como faz, onde é necessário), e não sobrecarregar e oprimir o espírito, como faz onde não é necessário. De­ vemos negar a nós mesmos as gratificações dos sentidos, para que possamos ter para o alívio das infelicidades dos outros, e nos alegrar por ver as nossas coisas supérfluas e aquilo que nos traz deleites concedidos àqueles a quem eles serão uma verdadeira bondade, em lugar de serem uma verdadeira ofensa a nós mesmos. Que aqueles ímpios que estão prestes a perecer bebam com sobriedade, e a bebida será um meio de reviver o seu espírito desanimado, a tal ponto, que se esquecerão da sua pobreza durante um momento. e não mais se lembrarão da sua infelicidade, e assim serão mais capazes de suportá-la. Os judeus dizem que nisto se baseou o costume de dar uma bebida atordoante para os prisioneiros condenados, quando se dirigiam para a execução, como quiseram fazer com o nosso Salvador. Mas o objetivo de todo este comentário é mostrar que o vinho reanima, e por isto deve ser usado em um caso de necessidade, e não para a libertinagem, e somente por aqueles que precisam ser revigorados, como Timóteo, que é aconselhado a beber um pouco de vinho, somente por causa de seu estômago e de suas frequentes enfermidades (1 Timóteo 5.23).

2. Ele deve fazer o bem com o seu poder, com o seu conhecimento e naquilo que lhe diz respeito: deve administrar a justiça com cuidado, coragem e compaixão (vv. 8,9).

(1) Ele deve tomar conhecimento pessoalmente das causas que os seus súditos têm pendentes em seus tribunais, e inspecionar o que fazem os seus juízes e oficiais, para que possa auxiliar os que cumprem o seu dever, e deixar de lado os que o negligenciam ou são parciais.

(2) Ele deve, em todas as questões que forem trazidas à sua presença, julgar com justiça, e, sem temer o rosto do homem, corajosamente proferir sentença, de acordo com a equidade: “Abre a tua boca”, o que indica a liberdade de expressão que os príncipes e juízes devem usar, ao proferir sentenças. Alguns observam que somente os sábios abrem suas bocas, pois os tolos têm suas bocas permanentemente abertas, cheias de palavras.

(3) Ele deve especialmente se considerar obrigado a ser o defensor da inocência oprimida. Os magistrados inferiores talvez não tivessem zelo e ternura suficientes para defender a causa dos pobres e necessitados; por isto o próprio rei deve interferir, e se manifestar como um advogado,

[1] Daqueles que são injustamente acusados de crimes puníveis com a pena de morte, como Nabote, que são destinados à destruição. para satisfazer a maldade de uma pessoa em particular ou de um grupo. É um caso em que é conveniente que um rei se manifeste, para a preservação de sangue inocente.

[2] Daqueles contra os quais foram movidas ações injustamente, para privá-los fraudulentamente do seu direito, porque são pobres e necessitados, e incapazes de defendê-lo, não tendo recursos para obter conselho; neste caso também os reis devem ser advogados do pobre. Especialmente.

[3] Dos que são mudos e não sabem como falar por si mesmos, seja por fraqueza ou por temor, ou por excesso de argumentação do acusador; ou por excesso de receio do tribunal. É generoso falar em nome dos que não podem falar por si mesmos, que são ausentes ou que não tenham domínio das palavras, ou ainda daqueles que são temerosos. A nossa lei recomenda que o juiz defenda o mais frágil.