A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A LATA DE AZEITE E OS IMPEDITIVOS DA VIDA AUTÊNTICA – I

Mais do que uma força pessoal, a autenticidade é uma condição fundamental para a felicidade genuína. Mas nem sempre é fácil ser autêntico

A lata de azeite e os impeditivos da vida autêntica I

Quem me conhece sabe. Poucas coisas me irritam mais do que pessoas, cujas vidas não correspondem aos seus discursos. Talvez essa tenha sido a principal força motriz que me levou a trabalhar com desenvolvimento humano. Afinal de contas, valores e sentimentos nobres de nada adiantam sem atitude. Nesse sentido, tanto em consultório quanto nos cursos que ministro, meu objetivo é o de provocar a reflexão capaz de gerar a ação. Uma ação que ajude as pessoas a serem elas mesmas; nas suas melhores versões. A carência de autenticidade parece crescer na exata proporção dos discursos politicamente corretos.   Como se esses últimos fossem suficientes para a conquista de um mundo melhor.

O fato é que depois de muitos anos nesta profissão, concluo que são quatro as razões que impedem que um indivíduo leve uma vida autêntica: má intenção, desconhecimento, falta de coragem e o “moedor de carne”.

Talvez a má intenção dispense mais explicações. Contudo, ela guarda em si um aspecto muito interessante: de todas as quatro razões que impedem que uma pessoa seja autêntica, essa, paradoxalmente, é a única que ainda possui um pouco de autenticidade. Parece estranho? Vejamos a situação hipotética de um indivíduo mau caráter, cujos valores dizem respeito a maximizar vantagens pessoais em detrimento dos direitos alheios. Se essa pessoa roubar, por exemplo, ela estará sendo completamente coerente com seus valores. Sua única falta de autenticidade será com relação àquilo que ela diz serem seus valores, ou seja, em relação ao seu muito provável discurso sobre direitos e cidadania que ela manteria justamente para ludibriar os demais e conseguir atingir seus objetivos escusos. O mal intencionado tem o mérito do autoconhecimento. Seu único pecado, então, do ponto de vista da autenticidade, é seu discurso enganoso.

A segunda razão que impede uma vida autêntica é o desconhecimento. O imperdoável desconhecimento de si mesmo que, ao impedir que o sujeito tenha consciência acerca de suas próprias verdades, remete-o a viver verdades alheias. Aqui o indivíduo pode ou não trair seu discurso, contudo a suposta traição seria menos alarmante do que a traição de seu próprio eu. Sócrates dizia que o homem desconhecido de si mesmo é um bárbaro. Nesse sentido, o ritmo da vida cotidiana, por não permitir a autorreflexão, estaria nos levando à barbárie. Isso significa que a autenticidade é impossível sem o autoconhecimento. Talvez por essa razão esse último seja a pedra angular de todo trabalho psicoterapêutico. Por outro lado, por mais que seja apaixonada por esse tipo de trabalho, descordo de alguns colegas que afirmam que todo indivíduo deveria se submeter à psicoterapia.

O autoconhecimento pode ser solitário. Contudo, ele depende de um timing que permita a autorreflexão. Além disso, poderíamos também ter um sistema educacional que, por meio do exercício da autoconsciência, levasse as pessoas a uma vida autêntica. Mas isso seria um luxo que o atual modelo de educação para o “ter” não nos permitiria. Afinal, importante mesmo é passar no vestibular e frequentar uma faculdade boa o bastante para nos garantir o trabalho em uma empresa que nos renda um bom dinheiro.

Mas existe um outro tipo de pessoas que, também vítimas do desconhecimento, acabam por levar uma existência inautêntica. São aqueles que fizeram o caminho em direção ao seu eu interior, acessaram seus valores e suas verdades, contudo não sabem exatamente como colocá-los em prática. Isso acontece, por exemplo, em relação à Psicologia Positiva. Nesses mais de 10 anos que venho ministrando cursos sobre o tema nunca encontrei alguém que não se apaixonasse por ele.

No entanto, raros são aqueles que modificaram seu cotidiano com os ensinamentos aos quais tiveram acesso nesses cursos ou em suas leituras. Por esse motivo, creio que a Psicologia Positiva precise hoje, mais do que da divulgação, de demonstração. É por isso que criamos, no nosso Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, um curso de formação em Psicologia Positiva baseado em design thinking e totalmente voltado para a aplicação prática dos conceitos estudados nessa área. Porque mudar o mundo está ao alcance de cada um de nós.

Sobre a falta de coragem e o “moedor de carne” discutiremos no próximo post, na parte 2 deste texto. É lá que você vai entender o que a “lata de azeite” tem a ver com isso tudo. Aguarde!

 

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.

graziano@psicologiapositiva.com.br

OUTROS OLHARES

PERIGO NA TORNEIRA

Perigo na torneira

A água das torneiras das principais capitais e de muitas outras cidades brasileiras está cheia de agrotóxicos. Pelo menos uma em cada quatro metrópoles do Brasil enfrentaram problemas de água contaminada por pesticidas entre 2014 e 2017. Os números são de um estudo coordenado pela ONG Repórter Brasil e pela Agência Pública. No período destacado, as empresas de abastecimento de 1.396 cidades detectaram todos os 27 tipos de pesticidas que são obrigados por lei a testar. Desses, 16 são classificados pela Anvisa como extremamente ou altamente tóxicos e 11 estão associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como câncer, malformação fetal, disfunções hormonais e reprodutivas.

São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus, Curitiba, Porto Alegre, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis e Palmas estão entre os locais com contaminação múltipla. Para o diagnóstico, foram utilizados dados do Ministério da Saúde, obtidos em investigação conjunta entre as empresas e a organização suíça Public Eye. A falta de monitoramento é um dos problemas. Dos 5.570 municípios brasileiros, 2.931 não realizaram testes nas suas redes de abastecimento entre 2014 e 2017. Os testes comprovam que milhares de pessoas estão correndo risco ao beber um copo d’ água contaminada direto de suas torneiras de casa.

Perigo na torneira. 2

GESTÃO E CARREIRA

VOCÊ NO COMANDO

Profissionais que se mostram dependentes da empresa correm o risco de deixar sua carreira nas mãos de gestores amedrontados.

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Vivemos um período de transformação intensa na sociedade e uma das mudanças mais significativas está na gestão de carreira. Desde o início da industrialização, priorizou-se o modelo em que o rumo dos profissionais era definido pelas organizações. A pessoa ingressava em uma empresa e lá se desenvolvia. A carreira seguia por um caminho definido e previsível. Apresentando bons resultados e fazendo as alianças corretas era possível se aposentar na companhia.

A partir dos anos 90, essa previsibilidade terminou. As estruturas foram enxugadas e o plano de carreira foi engolido pelas transformações da época. No século 21, com as frenéticas mudanças impostas pela digitalização, a situação se agravou. A dinâmica dos negócios não permite mais projeção alguma de estrutura futura, o que, por consequência, impede promessas de planos de carreira mais estruturados.

O problema é que nos encontramos no limbo da falta de definições. E gestores ficam atônitos quando são questionados por seus liderados sobre os próximos passos para crescer. Sem clareza do que podem oferecer, eles também estão em compasso de espera. Adicione a essa indefinição uma boa dose de falta de repertório para ajudar no desenvolvimento de pessoas. Atualmente são poucos os gestores com ímpeto de melhorar uma importante habilidade: a de saber dialogar sobre oportunidades de trabalho com seus times. A maioria aguarda a criação de cargos e promoções para abordar o assunto e, como a tendência do mercado é exatamente oposta, muitos chefes não têm nada a oferecer. A saída, então, é delegar o assunto para a área de recursos humanos. Um passa a jogar a bola para o outro, e ficamos num carrossel de lamúrias sem que o assunto seja direcionado. Gestores com medo de conversas sobre emprego e trabalhadores com a visão antiga de delegação para a companhia compõem um cenário caótico, carregado de frustração e risco de baixa produtividade.

As respostas não são fáceis. Passam pela clareza de que a profissão é responsabilidade dos indivíduos e de que o líder é aquele que apoia o desenvolvimento, sugere ações e transfere experiência.

Por isso, a palavra do momento é protagonismo. Devemos ter consciência de nossas vontades e de aonde queremos chegar. O controle é do profissional, não da empresa. Par a que isso aconteça, é preciso que haja uma mudança de um modelo mental profundamente infiltrado em nossa cultura, de dependência e paternalismo. É uma jornada de evolução profunda, que envolve transformar as responsabilidades de cada uma das partes no processo profissional.

 

RAFAEL SOUTO – é fundador e CEO da consultoria Produtive, de São Paulo. Atua com planejamento e gestão de carreira, programas de demissão responsável e de aposentadoria.

 

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 30: 29-33

Alimento diário

QUATRO COISAS MAJESTOSAS E IMPONENTES

 

V. 29 a 33 – Aqui, temos:

I – A enumeração de quatro coisas que são majestosas e imponentes no seu andar, que parece nobre e grandioso:

1. Um leão, o rei dos animais, porque é o mais forte entre eles. Entre os animais, é a força que dá a proeminência, mas é lamentável que seja assim entre os homens, cuja honra é sua sabedoria, não sua força. O leão não se desvia nem recua, nem altera o seu passo, por temor a algum perseguidor, uma vez que sabe que ele é forte de­ mais para eles. Nisto, os justos são ousados e corajosos como um leão, pelo fato de que não recuam do seu dever por medo de qualquer dificuldade que encontrem.

2. Um galgo (ou como diz a anotação de margem) um cavalo, que não deve ser omitido entre as criaturas que têm um andar gracioso, pois assim ele é, especialmente quando está arreado.

3. Um bode, cujo andar é gracioso quando vai à frente e lidera o rebanho. É a graça do andar de um cristão que vai à frente em uma boa obra, e conduz os outros no bom caminho.

4. Um rei, que, quando aparece em sua majestade, é considerado com reverência e respeito, e todos concordam que não há como resistir a ele; ninguém pode ser seu rival, ninguém pode contender com ele, e quem quer que o faça, correrá riscos. E, se não há quem resista a um príncipe terreno, ai daquele, então, que luta contra o seu Criador. Estas comparações pretendem nos mostrar que devemos aprender com o leão a ter coragem e bravura em todas as ações virtuosas, e não recuar por qualquer dificuldade que encontrarmos; com o cavalo, podemos aprender a ter velocidade e eficiência; com o bode, o cuidado com a nossa família e com aqueles que dependem de nós; e com o rei, a ter nossos filhos submissos, com toda seriedade; e com todos eles, a andar bem, e ordenar os nossos passos, de modo que possamos não somente ser seguros, mas graciosos, no andar.

 

II – Uma advertência para que controlemos nosso temperamento em todas as ocasiões e sob todas as provocações, e para que evitemos levar longe demais nossos ressentimentos, em qualquer ocasião, especialmente quando há um rei no caso, contra o qual não há quem resista, quando é um governante, ou alguém muito superior a nós, que é ofendido; na verdade, a regra é sempre a mesma.

1. Nós devemos controlar e suprimir a nossa própria paixão, e nos envergonhar, sempre que sejamos acusados de um erro, com razão, e não insistir na nossa própria inocência: Se nos exaltamos, seja em um orgulhoso convencimento ou em uma raivosa oposição aos que estão acima de nós, se transgredimos as leis do nosso lugar e posição, procedemos loucamente. Os que se elevam sobre os outros ou contra os outros, que são arrogantes e insolentes, apenas envergonham a si mesmos e revelam a sua própria fraqueza. Na verdade, se apenas pensamos no mal, se somos conscientes de que alimentamos algum mau desígnio em nossas mentes, ou que ele nos foi sugerido, devemos pôr a mão na boca, isto é:

(1) Devemos nos humilhar pelo que fizemos de errado, e até mesmo nos lançar no chão diante de Deus, lamentando o erro, como Jó, quando se arrependeu do que tinha dito loucamente (A minha mão ponho na minha boca, Provérbios 40.4), e como o leproso condenado, que cobre o seu lábio superior: Se agirmos tolamente, não deveremos insistir nisto diante dos homens, mas com o silêncio, reconhecer a nossa própria culpa, que é o melhor modo de aplacar aqueles a quem ofendemos.

(2) Devemos impedir que os maus pensamentos que concebemos em nossas mentes irrompam em más palavras. Não dês ao pensamento mau uma licença ou permissão; não permitas que seja divulgado; mas põe a tua mão sobre a boca; usa de uma santa violência contigo mesmo, se necessário, e desfruta do silêncio; como Cristo não permitiu que os maus espíritos falassem. Já é ruim ter mau pensamento, mas é muito pior pronunciá-lo, pois isto sugere um consentimento com o mau pensamento e uma disposição para infectar outras pessoas com ele.

2. Não devemos irritar os outros. Alguns são tão provocadores com suas palavras e comportamentos que até mesmo forçam a ira, irritam os que estão ao seu redor, quer estes o desejem ou não, e inflamam os que não somente não estão inclinados a isto, como estão decididos contra isto. Esta imposição de ira provoca contendas, e onde há contendas, há perturbação e toda obra perversa. Da mesma maneira como a agitação violenta do creme tira tudo o que é bom do leite, e o espremer do nariz extrai sangue dele, também esta imposição de ira desgasta o corpo e o espírito de um homem, e lhe rouba todo o bem que há nele. Ou, como o agitar do leite e o apertar do nariz, são feitos, pela força, o que não seria feito de outra maneira, também o espírito é inflamado gradualmente com fortes paixões; uma palavra irada gera outra, e esta gera uma terceira; um debate inflamado abre caminho para outro, e assim progressivamente, até terminar em rixas irreconciliáveis. Não permitamos, portanto, que nada seja dito ou feito com violência, mas tudo com suavidade e calma.