A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESPECTROS DA SEXUALIDADE III

Espectros da sexualidade III

OUTRAS FORMAS DE SER FAMÍLIA

Entre  os novos arranjos de famílias, os compostos por pais gays estão entre os mais controversos.  E, embora a educação de crianças por pais homossexuais não seja novidade, ela adquiriu visibilidade nos últimos anos. Tanto a estabilidade do relacionamento entre pessoas do mesmo sexo quanto seu desejo de ter filhos, porém, são fenômenos que ainda despertam a curiosidade e desconfiança a respeito da possibilidade de “adequação” de gays e lésbicas para essas tarefas.

Na França, onde o tema tem sido bastante discutido, pesquisas revelavam em 2000 que 50% dos homossexuais viviam com o/a companheiro/a  e, destes, aproximadamente a metade desejava ter filhos. Estudos realizados em outros países da Europa e nos Estados Unidos, no início da década estendiam essa margem para 60%. No Brasil não há investigação específica sobre esse aspecto, mas as relações homossexuais estáveis são cada vez mais visíveis. Em julho de 2000, por exemplo,  o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) concedeu pensão por morte e auxílio-reclusão para companheiros homossexuais que comprovassem união estável e dependência econômica. Em janeiro do ano seguinte ao reconhecer o direito a pensão em caso de morte para o companheiro do segurado, uma juíza do Sul escreveu na sentença “As pessoas que integram uniões  homossexuais caracterizadas pela estabilidade, comunhão de vida afetividade e externação social constituem eletivas comunidades familiares que merecem tanto a proteção do Estado quanto aquelas integradas por casais heterossexuais”

Nos dois casos há o reconhecimento da “comjugalidade” do par, o que garante esses direitos, até então previstos apenas para cônjuges ou companheiros heterossexuais. Essa compreensão abre um precedente importante. Por mais que direitos patrimoniais venham sendo concedidos sem maiores objeções, qualquer alusão ao direito de família, quando se trata de pessoas do mesmo sexo, ainda encontra resistência. Envolver família em qualquer decisão é o nó da questão

Mas, é justamente no desdobramento do reconhecimento do casal homossexual como família que está o direito à parentalidade. Não por acaso, chamou tanta atenção da mídia a autorização dada pela Justiça brasileira em 2006 para que os cachoeirenses Vasco Pedro da Gama, de 17 anos, e Júnior de Carvalho, de 45,de Catanduva, no interior de São Paulo, adotassem em conjunto a pequena Theodora, hoje com 17 anos. Apesar dos avanços sociais é inegável a grande dificuldade encontrada para a concessão plena de direitos a casais compostos por pessoas do mesmo sexo.

Em relação a essa questão, quatro elementos costumam ser levados em consideração: a estabilidade, a vida a dois, a afetividade e a expressão pública da relação. Ainda que seja difícil definir estabilidade, já que não há consenso sequer entre as leis sobre a união estável entre heterossexuais, dando margem à interpretação, trata-se de um conceito bastante presente, que em geral aparece como condição para o reconhecimento da família. Conjugada à estabilidade, a existência da vida a dois se confronta com um imaginário que aproxima homossexualidade e promiscuidade. A expressão pública costuma ser marcada por estereótipos, e a discrição acaba sendo uma decorrência. Além disso, a atitude de assumir publicamente uma relação pode traduzir a tranquilidade que os envolvidos têm no que diz respeito a essa vivência amorosa.

Parece não haver como negar questionamentos derivados da estranheza que marca pais homossexuais no imaginário de muitos. Questões se colocam no campo que envolve pais gays e mães lésbicas: é pertinente nomear essas famílias como homoparentais? Há especificidades relativas a essa configuração. Em linhas gerais, hoje são quatro as possibilidades de homossexuais serem pais e mães: ter filhos de uma união heterossexual anterior,  pela adoção, por meio da tecnologia, ou em co- parentalidade, quando gays e lésbicas estabelecem combinações para ter filhos. As duas primeiras escapam à regulação.

No primeiro caso, de reprodução biológica, o Estado não tem meios nem direito de intervir. No segundo caso, em se tratando de pessoas que pleiteiam a adoção individualmente, embora o Estado faça a mediação, a orientação sexual não precisa ser revelada. No terceiro caso, a vulnerabilidade é maior, visto que não existe no Brasil legislação que regule a reprodução assistida, mas apenas uma resolução de 20 anos atrás do Conselho Federal de Medicina (CFM) que, embora tenha forca de lei é vaga, ficando o sujeito à mercê da interpretação e da vontade dos médicos.

Atualmente, em diferentes setores da sociedade, são frequentes as discussões sobre os chamados “novos arranjos familiares” –   família monoparental com filhos adotivos, recomposta, pluriparental e homoparental. Em relação à composição, à reprodução  assistida e à adoção, os casos que  necessitam da concordância da medicina ou do direito se submeterem  a essa discursão. O mesmo acontece nas situações de divórcio, na concessão de direitos relativos à guarda ou à visitação, ameaçados pelas fantasia, que a homossexualidade suscita

CORPO E IDENTIDADE

Segundo o professor Jefrey Weeks, diretor de pesquisa e sociologia da Universidade South Bank, de Londres, o desenvolvimento da sexualidade passa por três momentos fundamentais, do ponto de vista social. 

1 ) regulação do sexo por meio do casamento, no século I;

2) incorporação  da discussão sobre a vida sexual dos casais, não apenas como exercício intelectual mas como prática de controle moral, nos séculos XII e XIII;

3) definição de sexualidade “normal” como aquela exercida com o sexo oposto, nos séculos XVIII e XIX. Hoje, a sexualidade é concebida como o aspecto do eu que conecta corpo, identidade e normas sociais, adquirindo importância cultural e política, além de relevância moral. Se na época vitoriana o erotismo envolvia relacionamentos sociais, hoje está vinculado a questões pessoais. Apenas quando toma essa dimensão a sexualidade é incorporada como aspecto definidor do sujeito, central na estruturação de sua subjetividade e manifestação, até mesmo de seu caráter.

Como escreveu o  filósofo francês Michel  Foucault, o importante não é uma história social ou uma psicologia focada nas atitudes sexuais, mas uma história da problematização desses comportamentos.  São inúmeros os trabalhos a respeito da homossexualidade que discutem o conceito e as consequências do uso do termo “homossexual” para designar esse grupo de pessoas que ocupa entre 10%  e 15% da população. Apesar das críticas e das observações em relação a qual universo se refere a palavra homossexual (visto que não é capaz de descrever, simultaneamente, práticas, desejos, identidades e sentimentos em sua pluralidade), no senso comum ainda remonta  ao conceito cunhado no século XIX, entendido como “anti norma da masculinidade”.

O termo, porém, não descreve apenas a pessoa que se relaciona com a outra pessoa do mesmo sexo, mas remete a um universo de patologia, de raízes médicas e jurídicas. Ou seja: a orientação sexual e a opção afetiva pelo mesmo sexo já ocuparam a esfera religiosa corno pecado, a legal como crime e a médica como doença.

Até o século XVIII, era o masculino o foco de atenção. Na virada para o século XIX, a diferença sexual passou a ser tematizada com ênfase na especificidade feminina. Segundo o historiador Thomas Laqueur, professor da Universidade de Berkeley, Califórnia, a concepção dominante de sexualidade era o one-sex model – o grau máximo estava no corpo do homem, e a mulher era vista corno “um homem invertido”. Ele correspondiam ao modelo ideal de corpo humano e elas, por não possuírem calor vital – e é por essa falta que elas são capazes de gerar -, seriam sua forma inferior. Homens e mulheres se distinguiam conforme o grau de perfeição Esse modelo permanecia, apesar das descobertas da ciência. “… Ao contrário do que se pensa habitualmente, não foi o estabelecimento da diferença dos sexos que condicionou o lugar social, moral e psicológico da mulher; foi a rediscussão de seu novo estatuto social que deu origem à diferença de sexos como a conhecemos”, escreve Jurandir Freire Costa, em A face e o pesar estudos sobre o homoerotismo, de 1995.

A discussão em torno da dimensão político-econômico-cultural da questão feminina traz um novo olhar sobre a sexualidade humana. Foi nesse momento que se buscou na “natureza” a justificativa para os atributos de cada um dos sexos e para as desigualdades sociais. No século XIX, criou-se  uma identidade específica para homem que fazem sexo com homens e para mulheres que fazem  sexo com mulheres –  algo que até então não havia. Como aponta Luiz Mello, em Novas famílias, escrito com base na pesquisa desenvolvida para sua tese de doutorado, na Universidade de  Brasília (UnB) em 1999, as práticas amorosas e sexuais ganharam  destaque como “atributo definidor do ser humano, e os homossexuais tornaram-se objeto de estudo da ciência”.

No pensamento pré-moderno, a perfeição ou a imperfeição das instâncias que encarnavam as formas corpóreas ideais eram localizadas no sexo. Embora as mulheres já fossem consideradas desiguais e inferiores na apreensão científica e na religiosa, o que se nota é um deslocamento do índice metafísico da harmonia universal para um índice corporal de espaços distintos na nova ordem política e econômica.

“As diferenças biológicas diagosticadas pelos cientistas passam a oferecer a base para que pensadores sociais dissertem sobre as diferenças inatas entre homens e mulheres e a consequente necessidade de diferenciações sociais”, escreve a doutora em antropologia social Fabíola Rohden, professora do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pesquisadora do Centro Latino- Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (Clam).

Se a mulher é vista como complementar ao homem, o lugar ocupado por ela, inverso dele, passa a ser do homossexual, tido como homem invertido, que nega as características previstas por sua natureza, como se negasse a natureza e ocupasse o lugar de transgressor da ordem biológica, moral, religiosa, social – que perpassa os discursos contra a parentalidade homossexual. A ideia de negação da paternidade em função da escolha de parcerias do mesmo sexo aparece como justificativa para o estranhamento da parentalidade gay.

Aquele que vive uma relação na qual a procriação não é possível se autocondenaria a não ter filhos. Pior ainda do que os casos de infertilidade biológica: é como se a infertilidade fosse a opção desses sujeitos. Apesar de a parentalidade homossexual biológica, pelo menos na maior parte dos casos, depender de outros fatores além da vontade da pessoa envolvidas há opções para o indivíduo ou para o casal homossexual terem um filho.

Um estudo realizado na década de 90 pelos pesquisadores Carl Auerhach e Louise B. Silverstein com homens gays com filhos levantava questões como a ocasião em que o entrevistado pensou pela primeira vez em ser pai e as associações relativas a esse papel, seus modelos para o exercício da parentalidade; como chegou à decisão de uma criança em sua vida e viabilizou esse projeto; que alterações a nova situação trouxe; de que forma aborda com o filho as especificidades de sua família e o que pensa sobre educar uma criança num lar homossexual.

Com base nos relatos dos homens entrevistados, a primeira conclusão remete à incoerência entre a orientação homossexual e a paternidade. A segunda conclusão dos autores aponta para um esforço ideológico de “retirar” o gênero da parentalidade. Em português, a ausência de um termo neutro que signifique “pais” e tenha singular, como no inglês parent ou no francês parent, pode dificultar formulações mais específicas. Um segundo aspecto, nessa mesma linha, seria a distribuição de tarefas segundo a escolha de cada um, sem seguir os padrões tradicionais de gênero.

Ainda um terceiro aspecto; a necessidade de construção de redes sociais institucionais ou constituídas de pequeno grupos. Sem o apoio tradicional, pais homossexuais ouvidos pelos pesquisadores elaboram suas próprias alternativas para buscar amparo e se preocupam em criar um ambiente em que as crianças se sintam bem, no qual consigam transmitir a alegria daquela situação, para minimizar os incômodos e os sofrimentos a serem enfrentados no confronto com as outras famílias. No caso brasileiro, ocorrem situações semelhantes.

Hoje, no Brasil , o projeto da parceria civil é tema de noticiários. Relatos da vida e das preferências de atores, cantores, personalidades conhecidas da sociedade ilustram esse novo arranjo familiar que já faz parte do imaginário, ao menos nos grandes centros urbanos brasileiros.

Espectros da sexualidade III. 2

POLITICAMENTE CORRETO

A morte de Cássia Eller, em dezembro de 2001, obrigou os mais diversos setores da sociedade a se manifestar sobre a guarda de seu filho, Chicão. A mídia entrevistou além de Eugênia, a companheira da cantora à família de origem da cantora e inúmeros profissionais das áreas do  direito, da educação, além de psicólogos, psicanalistas e médicos. A maior parte partilhava a opinião de que a criança deveria permanecer com a mãe.

O discurso “politicamente correto” que hoje invade a sociedade encontra respaldo legal. A Constituição Federal de 1988 é muito clara ao enumerar os itens, que remetem à discriminação. Embora tenha sido sugerida por parlamentares, e a então deputada Marta Suplicy tenha feito a proposta de emenda constitucional (PEC) 135, a questão da orientação sexual não está expressamente escrita na lei federal como passível de punição, como outros crimes de discriminação foi considerado suficiente tê-la englobada em “qualquer forma de discriminação”. Se, por um lado, podemos concordar que o tema esteja contemplado, por outro, seria ingenuidade acreditar que esse tenha sido o real motivo da ausência de sua explicitação. Não raro, essa lacuna facilita o “discurso politicamente correto” que encobre o preconceito camuflado  Apenas algumas leis orgânicas municipais e estaduais enumeram especificamente a discriminação contra a orientação sexual como um item passível de punição.  Como afirma o juiz Luiz Carlos Figueiredo, da Vara da Infância e da Juventude do Recife, “os obstáculos jurídicos nada mais são do que uma espécie de ‘barreira’ colocada  para ‘legitimar’ as restrições veladas de pessoas preconceituosas”.

Quando pensamos na possibilidade (e no desejo) de gays e lésbicas criarem filhos, talvez fosse coerente nos lembrarmos de que a homossexualidade se refere ao exercício da sexualidade. Funções parentais não exigem este exercício e recorrer a esse critério para avaliar a competência de uma pessoa para assumir funções parentais, portanto, seria como julgar com essa base (obviamente equivocada) a capacidade profissional de alguém, sua habilidade para gerenciar conflitos ou seu gosto por comida e gênero de filme. Trata-se de esferas distintas que se cruzam por inevitável contingência. A reprodução, muito atrelada à sexualidade, pode ser um do fatores que conferem sentido à proximidade dessas duas esferas, bem como a conjugalidade e a afetividade.

São aspectos comuns, que encontraríamos se buscássemos qualquer outra relação. Mas não determinantes. Exercer a parentalidade requer afeto e disponibilidade. São essas as palavras que devem ecoar.

OUTROS OLHARES

REFUGIADOS CLIMÁTICOS

Esqueça o sonho americano. A seca e as chuvas excessivas também se tornaram o motor da imigração para os Estados Unidos.

Refugiados climáticos

Um motivo poderoso, persistente e pouco lembrado está ajudando a reforçar as caravanas de migrantes rumo aos Estados Unidos. Além de fugirem da pobreza e da violência, os grupos que partem da Guatemala, de Honduras e de EI Salvador são engrossados também por pessoas que tentam escapar da insegurança alimentar. Os três países integram o chamado “corredor seco” centro-americano, um dos mais vulneráveis do mundo a fenômenos extremos ligados ao EI Nino, nome dado ao aquecimento anormal da faixa equatorial do Oceano Pacífico. É consenso entre cientistas que as mudanças climáticas agravaram a frequência e intensidade desse fenômeno.

A imprevisibilidade dos ciclos da chuva, com temporadas de seca até dois meses mais longas, alternadas com períodos de chuvas perigosamente intensas, vem progressivamente ameaçando as plantações de subsistência na última década. Entre as principais vítimas estão os cultivos de milho e feijão, dos quais pequenos produtores rurais e indígenas, sem acesso a tecnologias de irrigação, dependem para se alimentar.

De acordo com Edwin Castellanos, diretor do instituto de pesquisas da Universidade Valle de Guatemala e associado do Instituto lnteramericano para Pesquisa em Mudanças Globais (IAI), o El Nino tem batido à porta anualmente – antes, acontecia a cada cinco ou seis anos. O resultado é o agravamento das condições de vida da população mais pobre desses três países – que constituem o chamado Triângulo Norte da América Central. Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), vivem em situação de pobreza 82% dos residentes de zonas rurais em Honduras; 77% na Guatemala; e 49% em El Salvador.

“Pode não haver apenas um fator para que as pessoas migrem. Normalmente, elas já estão numa situação difícil de pobreza; de falta de oportunidades econômicas, que são muito pequenas nas zonas rurais; e de violência em diversas regiões. E quando, ainda por cima, perdem plantações para as chuvas ou pela ausência delas, as mudanças climáticas podem ser o fator final para que tomem essa decisão”, disse Castellanos. A população desses países sofre com as tempestades de La Nina – fenômeno oposto ao El Nino, que ocorre quando há resfriamento do Pacífico -, que causam enchentes e deslizamentos de terra. Os últimos seis anos foram de chuvas abaixo da média. A expectativa é que, nos próximos anos, a situação mude para o extremo oposto. Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), cerca de 60% dos cultivos de milho e até 80% das plantações de feijão foram perdidos nesses países, em 2015, por causa do El Nino. Já em 2018, só entre junho e julho, foram arruinados 280 mil hectares de plantações desses dois produtos, o que afetou mais de 2 milhões de pessoas, de acordo com o Programa Mundial de Alimentos (PMA). No total, a seca dos últimos anos levou cerca de 3,5 milhões de pessoas a precisar de assistência humanitária. E a região é também suscetível a furacões e terremotos.

Para complicar ainda mais essa situação, no último ano a queda do preço internacional do café – produto importante dos três países – diminuiu as ofertas de emprego e os salários médios nas monoculturas, explicou Miguel Ángel García Arias, diretor regional na América Central da ONG Ação contra a Fome. A somatória de problemas tende a tornar as rendas das comunidades de origem mais dependentes do dinheiro regularmente enviado por seus membros que já cruzaram a fronteira americana. Em 2016, essas remessas corresponderam a 10%, 17% e 20% dos Produtos Internos Brutos (PIBs) de Guatemala, EI Salvador e Honduras, respectivamente.

“A situação de insegurança alimentar pode ser tão negativa que já existe uma ligação entre comunidades de origem e emigrantes. A migração é um elemento-chave dessa realidade. Os 70 mil guatemaltecos deportados do México ou dos EUA só no ano passado nos dão a magnitude do problema”, afirmou García Arias.

Na América Central, os territórios para agricultura são em geral pequenos, e, com a perda paulatina de terras por causa de fenômenos ligados ao clima, comunidades mais vulneráveis se transferem a áreas de reserva ou menos produtivas. Pesquisas como a da professora Maria Cristina García, da Universidade de Cornell, nos EUA, argumentam que a competição por bens em cenários como esses aumenta as chances de conflito político e violência sectária. Já o brasileiro Marcos Regis da Silva, diretor-executivo do IAI, explicou que há preocupações sobre o impacto das mudanças climáticas sobre a recuperação de populações e ecossistemas após fenômenos extremos.

“Até quando uma floresta semiárida poderá voltar a seu estado natural após a seca? Se antes a recuperação demorava dez anos, hoje esse tempo é muito maior. Muitos pesquisadores também acreditam que as mudanças climáticas estejam trazendo novas pestes ou reintroduzindo doenças erradicadas, como malária e febre amarela. Os ecossistemas estão estressados a um ponto que não conhecemos e, quanto mais eles perdem resiliência, mais as comunidades pobres vão sofrer. E é aí que mora o perigo”, disse Regis da Silva.

Uma espiral de precariedade social e degradação ambiental pode reforçar ainda mais a falta de alternativas para a população rural. Organizações de direitos humanos lembram que os fluxos migratórios não devem ser tratados como processos ameaçadores ou a serem coibidos. Entretanto, é importante que as pessoas não sejam forçadas a abandonar suas famílias e culturas para se aventurar em longas viagens, com o único objetivo de sobreviver.

Nos estados do sul mexicano, até 30% dos migrantes centro-americanos relataram em 2017 ter sido vítimas ou testemunhas de violência – normalmente, os crimes incluem sequestros, abusos sexuais, extorsão e assassinatos -, segundo a Rede de Documentação das Organizações Defensoras de Migrantes. É também frequente que os camponeses penhorem suas terras para pagar coiotes, mesmo sob risco de serem deportados e, na volta, ficarem sem nada. Entre 2017 e 2017, as detenções no México de indocumentados do Triângulo Norte aumentaram em 59%, e só cerca de 19% deles chegaram aos EUA, diz a Cepal. Um debate relativamente recente, é questionada a validade do termo “refugiado climático” – que não é adotado pela ONU – para se referir àqueles que foram forçados a se transferir em decorrência de fenômenos ligados ao clima que ameaçaram sua existência ou afetaram gravemente sua qualidade de vida. O Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno afirma que 26,4 milhões de pessoas na última década migraram no mundo por causa de enchentes, tempestades, terremotos ou secas.

Acadêmicos e organizações não governamentais usam a expressão para defender a concessão de status legal protetivo e políticas públicas especiais a populações afetadas pelas mudanças climáticas, sobretudo de países em desenvolvimento. A britânica Climate and Migration Coalition pondera, entretanto, que a cautela é importante para evitar a interpretação de que esses fluxos migratórios são decorrentes apenas das mudanças climáticas. Na verdade, vêm de contextos de vulnerabilidade e, não raro, de negligência política.

As soluções para mitigar as necessidades dessas populações rurais e indígenas não residem apenas nas metas ambientais estabelecidas por acordos mundiais a longuíssimo prazo, argumentou García Arias. É necessária a articulação de estratégias com foco direto em Honduras, Guatemala e El Salvador, embora esses países sejam responsáveis por uma ínfima porção das emissões globais de carbono – em 2014, por exemplo, só 0,37% do total global. “Estamos falando de países com escassos investimentos sociais em saúde, educação e infraestrutura básica, o que reduz muito a possibilidade de famílias saírem de ciclos de pobreza. É nas redes de proteção social que temos uma margem para trazer melhorias. A ausência de Estado, combinada a um modelo agroexportador dependente de grãos básicos, faz com que os países sejam muito vulneráveis a desastres e mudanças climáticas”, disse o especialista.

Para além de eventuais ineficiência e corrupção, a falta de recursos no corredor seco torna os fluxos de ajuda estrangeira uma fonte importante. Contudo, entre outros dilemas, as verbas podem ficar sujeitas a bons laços diplomáticos. Desde o ano passado, ao menos duas vezes os EUA cortaram centenas de milhões de dólares de programas de desenvolvimento para os governos do Triângulo Norte – a última delas em 30 de março – como punição por sua suposta inação para conter os migrantes rumo ao norte. E, para Edwin Castellanos, os recursos ainda se concentram pouco na adaptação às mudanças climáticas.

“Precisamos investir em estoques de água e sistemas de irrigação para pequenos produtores. Mas isso requer dinheiro, e precisamos complementar o esforço dos governos e de ONGs locais com financiamento internacional. A maioria dos recursos se destina a governança, segurança ou alívio da pobreza de forma genérica”, afirmou Castellanos, ex-assessor especial para a Presidência da Guatemala nas negociações do Acordo de Paris. “Aqui basicamente sentimos o efeito da poluição e esperamos que os países grandes a resolvam. Desse jeito, mesmo que os EUA construam um muro, muitas pessoas ainda tentarão cruzá-lo.”

Refugiados climáticos. 2

Seguidas caravanas rumaram em direção aos Estados Unidos desde outubro do ano passado. Na foto, a multidão atravessa a fronteira entre a Guatemala e o México.

GESTÃO E CARREIRA

HORA DE BUSCAR REFORÇOS

Para que o crescimento da empresa não se transforme em excesso de trabalho e negligência aos clientes, o empreendedor deve recrutar pessoas – um desafio que demanda organização e atenção aos detalhes.

Hora de buscar reforços.

Começar um novo negócio e vê-lo dar certo é o sonho de todo empreendedor. Só que, às vezes, o sucesso pode se tornar um grande problema. Isso acontece quando o volume de trabalho aumenta e o empresário não consegue dar conta das demandas porque não tem como dividi-las com alguém. No médio prazo, a falta de braços é uma equação perigosa que pode resultar em erros, queda de qualidade e negligência – o que, no limite, leva à perda de clientela.

É claro que, antes de chegar a esse ponto, surgem alguns sinais que mostram que você está precisando de reforços. A bandeira de alerta se ergue no momento em que o empreendedor não consegue mais procurar novas oportunidades porque está absorvido em atender às demandas já existentes ou, então, perde muito tempo executando tarefas que não são ligadas às atividades principais do negócio. “Chega um momento em que se percebe que o valor da hora de trabalho é muito alto para ele perder tempo indo ao banco, por exemplo”, diz João Villa, da Blue Numbers, consultoria especializada em pequenas empresas. Mas recrutar pessoas não é um processo tão simples assim. Por isso, nesta última reportagem do Guia do Empreendedor, ajudamos você a superar esse desafio.

 ESCOLHA CERTEIRA

O primeiro passo para criar um time é definir qual modalidade de contratação é mais compatível com o momento da empresa. Quando não é necessário ter alguém em tempo integral, a melhor alternativa é pagar uma empresa de prestação de serviços ou um profissional autônomo para fazer trabalhos pontuais em determinados períodos do ano. Por causa de sua flexibilidade e dedicação não integral, esse modelo tem custo mais baixo do que o regido pela CLT.

No entanto, é preciso assegurar de que não existe urna relação de subordinação. O empreendedor pode definir as tarefas a serem executadas, o prazo e o valor do pagamento, mas não pode interferir na rotina do profissional ou em sua forma de trabalhar. “É preciso sempre lembrar que não se é chefe do prestador de serviços”, diz Antônio Bratefixe Júnior, advogado especializado em direito do trabalho do escritório Có Criveli Advogados. Um erro comum é estabelecer uma relação de subordinação e exclusividade, o que caracteriza vínculo empregatício e pode levar a empresa a perder uma ação trabalhista.

“A Justiça vai olhar como é a natureza da relação no dia a dia, independentemente do que foi colocado em contrato”, explica Antônio.

A empresária Taty Stahl, de 36 anos, aprendeu à duras penas a importância de ter um contrato de trabalho com seus prestadores de serviço. Dona da Lab 220, empresa de máquinas de vendas automáticas (as vending machines), ela sofreu três decepções com freelancers que não entregaram o que foi combinado. “Depois de não receber o serviço e precisar correr atrás para cumprir a tarefa, eu comecei a usar contratos detalhando prazos, valores e produto final”, diz. Além disso, para garantir que os fornecedores estejam realmente trabalhando nos projetos, ela determinou entregas parciais – com pagamentos atrelados e valores mais altos para prestadores que cumprem bem as datas e os objetivos. ”Sai mais barato do que arriscar”, afirma.

 EM TEMPO INTEGRAL

Quando a quantidade e a complexidade do serviço demandam dedicação constante, um funcionário CLT sai mais barato do que o prestador de serviço – mesmo que seu custo total para a empresa seja o dobro do salário pago. “Essa é uma conta que o empreendedor tem de fazer, pensando no futuro e no volume de trabalho”, diz David Kallás, coordenador do Centro de Estudos em Negócios do Insper.

Outras vantagens do celetista é conhecer de perto a realidade da companhia e ser mais engajado no trabalho, pois aquela é sua única fonte de renda. “A principal característica do funcionário CLT é que ele vai ter o DNA do negócio e ajudará a empresa a crescer”, explica Domingos Fortunato, sócio do escritório Mattos Filho.

Mas, antes de assinar a carteira, é preciso entender quais serão os papéis e as responsabilidades desse profissional. Sem isso na cabeça, não dá para abrir uma vaga. “As pessoas querem ter a pessoa certa no lugar certo, mas não têm clareza de que lugar é esse”, afirma João, da Blue Numbers. O salário é um ponto crucial. Definir a remuneração correta demanda pesquisa de mercado para mapear quanto o funcionário que você quer atrair recebe em outras empresas – não se guie pelo cargo, mas pela função.

Além disso, reflita sobre as competências técnicas e comportamentais ideais para o futuro empregado. E não deixe de examinar a cultura corporativa, ou seja, os valores e o ”jeito de ser“  de sua empresa. “Contrata-se por competência e demite-se por incompatibilidade de cultura”, diz Igor Piquet, diretor de apoio a empreendedores na Endeavor.

CAÇA-TALENTOS

 Com tudo isso em mãos, é hora de anunciar as vagas. Além de utilizar as redes sociais e sites especializados, peça recomendações aos seus contatos. Isso porque filtrar as dezenas (ou até mesmo centenas) de currículos recebidos pode ser uma tarefa hercúlea. O desafio de fazer a triagem era tão grande que levou o empresário Leandro Miranda, de 42 anos, dono da l bijus, escola virtual de direito com mais de 160.000 usuários, a criar um processo seletivo online próprio.

Primeiro, Leandro divulga as vagas nas redes sociais e depois realiza uma palestra online ao vivo para os interessados. Nessa mesma ocasião, aplica dois testes: um questionário de múltipla escolha com perguntas sobre o perfil pessoal e a experiência profissional e um teste de competências relativo à atividade que será exercida pelo candidato. A última etapa é uma entrevista por Skype. Como a equipe de Leandro pode trabalhar remotamente, essa é uma oportunidade para ele encontrar bons profissionais de todo o país. “Antes a gente divulgava a vaga e vinha cada currículo de um jeito, agora as informações chegam organizadas e é mais fácil filtrar”, diz Leandro, que tem uma equipe de nove pessoas, todas CLT e em home office.

Hora de buscar reforços. 2

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 30: 18-23

Alimento diário

QUATRO COISAS PEQUENAS E SÁBIAS

 

V. 18 a 23 – Aqui, temos:

I – Uma explicação de quatro coisas que são insondáveis, maravilhosas demais para serem plenamente conhecidas. E aqui:

1. As três primeiras são naturais, e se destinam somente a servir como comparações para ilustrar a última. Não é possível identificar:

(1) O caminho de uma águia no céu. O caminho por onde ela voou não pode ser identificado, nem pelas pegadas, nem pelo cheiro, como pode ser identificado o caminho de um animal na terra; nem podemos explicar a maravilhosa rapidez do seu voo, com que rapidez ela está fora do nosso alcance.

(2) O caminho de uma serpente sobre uma rocha. Podemos descobrir, pelo rastro, o caminho de uma serpente na areia; mas não o de uma cobra sobre a penha dura; nem podemos descrever como uma cobra, sem pés, em pouco tempo chega ao topo de uma rocha.

(3) O caminho de um barco no meio do mar. O leviatã, na verdade, deixa um caminho brilhante atrás de si, parece o abismo tornado em brancura de cãs (Jó 41.32), mas um barco não deixa nenhum sinal atrás de si, e às vezes ele é tão agitado pelas ondas que é de admirar como vive no mar e consegue seus objetivos. O reino da natureza está cheio de maravilhas, coisas maravilhosas que o Deus da natureza faz, impossíveis de explicar.

2. A quarta coisa é um mistério de iniquidade, mais inexplicável que qualquer destas três; ela pertence às profundezas de Satanás, aquela falsidade e aquela desesperada iniquidade de coração que ninguém conhece (Jeremias 17.9). Ela tem dois aspectos:

(1) A astúcia amaldiçoada que um adúltero vil tem para enganar uma virgem, e para persuadi-la a ceder ao seu desejo ímpio e abominável. Isto foi assunto de todo um livro de um poeta devasso, há muito tempo. Com que pretextos e declarações de amor, e todos os seus poderosos encantos, as promessas de casamento, garantias de discrição e recompensa, muitas virgens são compradas e vendem a sua virtude, a sua honra, a sua paz, e a sua alma, tudo a um infame traidor; pois assim são todos os desejos pecaminosos no reino do amor. Quanto mais astúcia for empregada na tentação, mais vigilante e resoluto deverá ser cada coração puro contra ela.

(2) A astúcia amaldiçoada que uma adúltera vil tem para ocultar a sua iniquidade, especialmente de seu esposo, de quem ela se afasta traiçoeiramente; tão íntimas são as suas intrigas com seus companheiros libertinos, e tão ardilosamente encobertas, que é tão impossível expô­la e revelá-la como identificar o caminho de uma águia no ar. Ela come o fruto proibido, de maneira semelhante à transgressão de Adão, e então limpa a sua boca, para não se trair, e com rosto ousado e atrevido diz: Não cometi maldade.

[1] Para o mundo, ela nega o fato, e está pronta a jurar que é tão casta e modesta como qualquer mulher, e nunca cometeu a iniquidade de que é suspeita. Estas são as obras das trevas que são engenhosamente impedidas de vir à luz.

[2] Para a sua própria consciência (se é que ainda tem alguma), ela nega o pecado, e não reconhece que aquela grande iniquidade é, verdadeiramente, iniquidade, mas dirá que é uma inocente diversão. Veja Oséias 12.7,8. Assim multidões arruínam suas próprias almas, ao mal chamando bem e enfrentando suas condenações com uma justificam a própria.

 

II – Uma explicação de quatro coisas que são insuportáveis, isto é, quatro tipos de pessoas que são muito incômodas  para os lugares onde vivem, e os parentes e amigos em cujo meio se  encontram; a terra se alvoroça  por causa delas, e geme debaixo delas como um fardo que não pode suportar, e elas são muito semelhantes: 

1. Um servo, quando é promovido e tem algum poder confiado a si, sendo, entre todos, o mais insolente e imperioso; veja Tobias, o servo amonita (Neemias 2.10).

2. Um homem tolo, rude, impetuoso. maldoso, quando enriquece, e tem prazeres à mesa. que perturba todos os amigos com suas palavras extravagantes e as afrontas que faz a todos os que estão à sua volta.

3. Uma mulher de má índole, obstinada, quando se casa, alguém que, tendo se tornado odiosa pela sua soberba e mordacidade, a tal ponto que ninguém pensaria que alguém viesse a amá-la, se por fim, se casa; esta condição honrosa a torna ainda mais intoleravelmente escarnecedora e vingativa do que nunca. É lamentável que aquilo que deveria suavizar e abrandar a disposição tenha um efeito tão contrário. Uma mulher graciosa, quando se casa, será ainda mais agradecida.

4. Uma criada idosa que convenceu a sua senhora – satisfazendo-lhe as vontades, e passando a conhecê-la bem – a deixar-lhe o que tem, ou o que é precioso para ela, como se a criada fosse sua herdeira: esta pessoa provavelmente será intoleravelmente orgulhosa e perversa, e menosprezará tudo o que a sua senhora lhe der, e se julgará prejudicada se algo não lhe for dado. Portanto, que aqueles a quem a Providência conduziu à honra, a partir de inícios humildes, estejam cuidadosamente vigilantes contra este pecado que tão facilmente os assedia: a soberba e a arrogância, que neles, mais do que em todos os outros, será intolerável e indesculpável; e que se humilhem com a lembrança da rocha de onde foram cortados.