A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESPECTROS DA SEXUALIDADE II

Espectros da sexualidade II

HOMOSSEXUALIDADE COMO TRAÇO ADAPTATIVO

Em junho de 1997, marchei na minha primeira parada do orgulho gay. Caminhei pela Market Street, em São Francisco, do Centro Cívico até o Ferry Building. A parada 101 uma das melhores que eu tinha visto, e as calçadas estavam inteiramente tomadas.

Já tinha ouvido falar que uma em dez pessoas é homossexual, mas sempre houve a impressão de que o número era exagerado. Naquela ocasião, porém, comecei a perceber pela primeira vez que é realmente plausível que o número de gays possa chegar a tal proporção.

Esse número de gays e lésbicas apresentou-se como um problema para mim, como bióloga. Minha disciplina ensina que a homossexualidade é uma espécie de anomalia inexplicável. Se a finalidade do contato sexual é a reprodução, como reza a explicação convencional, como é possível que existam todas essas pessoas interessadas por outras do mesmo sexo? Alguém poderia argumentar que elas são de alguma forma “defeituosas”, que  algum erro de desenvolvimento ou influência ambiental direcionou erroneamente suas estranhas fantasias sexuais. Se for assim gays e lésbicas estão aqui por um breve período durante a evolução da nossa espécie à espera de remoção quando a seleção natural desbastar aqueles com menor aptidão darwiniana.

Comecei então a especular sobre o enigma evolutivo da homossexualidade. Se uma teoria diz que algo está errado com tantas pessoas em tantas culturas e épocas diferentes, então talvez o erro esteja na teoria e não nas pessoas. Mas fiquei com medo de abandonar o enigma sem solução. Em poucos meses eu iria me assumir abertamente como “ mulher transgênera”.  Não sabia se seria demitida do meu cargo de professora da Universidade Stanford na Califórnia e acabaria trabalhando como garçonete em um bar transgênero. No caso não fui demitida – embora tenha sido afastada de todas as minhas responsabilidades administrativas – e tive mais tempo para investigar como a evolução levou às diversas manifestações de gênero e sexualidade.

Descobri que a teoria da evolução tinha seguido um caminho errado que leva inexoravelmente de volta a Charles Darwin (1809-1882) – especificamente à sua teoria da seleção sexual. Concluí que deveria ser declarada não apenas falsa, mas irreparável. Embora acredite que muitos biólogos reconheçam que as recentes descobertas sobre gênero e sexualidade são problemáticas, poucos, vão tão longe a ponto de recomendar que a teoria da seleção sexual de Darwin seja inteiramente rejeitada. Assim, gostaria de descrever em linhas gerais, os passos que me levaram a essa conclusão bem drástica e provocativa –  a uma melhor compreensão da biologia da homossexualidade e gênero.

Existem dois erros flagrantes no pensamento de Darwin. Em 1871, ele escreveu que “fêmeas escolhem parceiros mais atraentes… vigorosos e bem-dotados” assim como o “homem pode conferir beleza ( ) a uma ave por meio do cruzamento seletivo”. A cauda do pavão, exemplo frequente de Darwin, refletiria um gosto da pavoa pela aparência masculina, da mesma forma que a atração de cervos fêmeas por galhadas amplas dos companheiros demostra preferência por espécimes fortes e guerreiros. “Os machos, de quase todos os animais têm paixões mais fortes que as fêmeas”, escreveu ele. “Com raríssimas exceções, elas são recatadas e menos impetuosas. “Na visão de Darwin, quase que universalmente os seres se sujeitam aos papéis predestinados de belos guerreiros excitados, ou de donzelas discretamente exigentes.

Mas a diversidade no mundo real é muito maior. Em muitas espécies, inclusive na nossa, as fêmeas  não são necessariamente menos impetuosas que os machos, nem todas as mulheres suspiram por Arnold Schwarzenegger. Inúmeras delas abordam os machos e estes, muitas vezes as rejeitam. Além do mais, em várias espécies os supostos papéis sexuais se invertem. Mesmo Darwin reconheceu espécies de pássaros, como a jaçanã, cujas fêmeas são fortemente ornamentadas e cujos machos são insípidos e sem graça, invertendo a história do pavão.

De fato, muitos animais nem sequer são nitidamente classificados em dois sexos. Se você fizer um mergulho em um recife de coral, cerca de um terço dos peixes que encontrará produz óvulos e esperma, alguns ao mesmo tempo e outros em épocas diferentes ao longo da vida. São os chamados hermafroditas simultâneos ou sequenciais, respectivamente, e dizem que eles “trocam de sexo”. Na realidade, o fato mais comum entre os organismos multicelulares, inclusive plantas e um mesmo indivíduo produzem tanto gametas masculinos quanto femininos em algum momento da vida. Portanto, a condição pela qual um indivíduo pode ser classificado sem ambiguidade como macho ou fêmea não deveria ser considerada anomalia.

As espécies podem também ter mais de um tipo de macho e de fêmea. Todas as várias morfias de machos de tais espécies produzem sêmen, mas são tão diferentes no tamanho do corpo, cor, morfologia, comportamento e história de vida que um naturalista inexperiente poderia ficar  tentado a classificá-las como espécies diversas. O mesmo vale para vários tipos de fêmeas que não têm nada em comum, exceto pelo fato de todas elas produzirem óvulos, como os lagartos-pintados-de-papo-amarelo e de-papo-laranja, que  põem ovos de diferentes tamanhos.

Dei a essas distintas morfias o nome de “gêneros”, e essa terminologia permite dizer que existem mais gêneros que sexos. O peixe-sol-de-guelra-azul do nordeste dos Estados Unidos e Canadá, por exemplo, tem três gêneros masculinos, que chamo de controladores, cooperadores e retaguardas. Os grandes controladores de-peito-laranja e os cooperadores de tamanho médio, cujo padrão escuro de listras coloridas lembra a coloração feminina, cortejam as fêmeas conjuntamente. O controlador fertiliza a maioria dos óvulos, mas também permite que o cooperador o faça, embora de forma limitada. Os pequenos e pálidos machos de retaguarda ficam à espreita entre as plantas esperando que urna fêmea ponha os ovos para depositar um pouco de seu próprio esperma.

O segundo problema com a noção de seleção sexual de Darwin é que em espécies relativamente  sociais como a maioria dos pássaros e mamíferos, o contato sexual não tem a ver, necessariamente, e de fato nem mesmo frequentemente, com a transferência de esperma. O acasalamento está orientado principalmente para a formação e cultivo de relacionamentos que, ao final, poderão resultar na produção e criação de descendentes. Uma simples contagem de quantas vezes ocorre o acasalamento em relação ao número de nascimentos ilustra o argumento. Nos seres humanos podemos propor um exemplo: suponhamos que José e Maria fazem amor regularmente toda semana, digamos, nas noites de quinta-feira, e têm dois filhos. Depois de 50  anos, terão se acasalado mais de 2.500 vezes e produzido dois descendentes –  portanto, teriam 1.250 relações sexuais por rebento produzido. Parece ineficiente? Não se supusermos que o acasalamento regular permite que o casal permaneça junto e consiga criar bem os dois filhos. Similarmente, pássaros e primatas, assim como representantes de outras espécies, muitas vezes se acasalam em ocasiões e lugares que não adequados para resultar na imediata produção de descendentes.

Espectros da sexualidade II. 2

SELEÇÃO SOCIAL

A essa altura da minha pesquisa, eu começava a suspeitar que Darwin poderia estar inteiramente errado sobre a questão da sexualidade. Tive a impressão de que a organização social nos animais gira em torno do controle de acesso à oportunidade reprodutiva, que inclui todos os elementos dos quais precisam para procriar: alimento e locais para fazer o ninho, por exemplo, bem como parceiros. Os animais fazem uso direto dos recursos que controlam, mas também podem utilizá-los como moedas de barganha para conseguir a ajuda de outros. Além do mais, a dinâmica das sociedades animais exige decisões sobre onde alocar amizade e cooperação entre animais do mesmo sexo ou de outro sexo. Diferentes arranjos de cooperação levam à emergência de variadas estruturas para famílias e pequenos grupos.

Essa forma de pensar, que chamo de teoria da seleção social, oferece uma explicação bastante aceitável para parte considerável da diversidade que vemos nas práticas sexuais. No peixe­ sol-de-guelra-azul, por exemplo , a vida social não consiste, como exige a tradicional teoria da seleção sexual, em fêmeas em busca de machos com ótimos genes, nem de machos tentando fazer as fêmeas acreditarem que seus genes são melhores que os dos vizinhos. É, antes, sobre os altos e baixos do poder para controlar o acesso à oportunidade reprodutiva.

Sugiro que os machos controladores pagam aos machos cooperadores os serviços  de “intermediação do casamento” ao permitir que estes últimos fertilizem alguns dos ovos de seu território. Em troca, o cooperador auxilia na corte às fêmeas. Sem um controlador, o cooperador  não se sai tão bem em atrair as fêmeas. O padrão de coloração feminina do macho cooperador pode, de alguma forma, promover essa função, talvez por permitir que o espécime “solidário” desenvolva uma relação com as fêmeas enquanto o macho controlador defende o território.

Aspectos dos relacionamentos entre animais “controlados” pelo acasalamento dependem do sistema social da espécie. A antropóloga Sarah Hardy, da Universidade da Califórnia em Davis, mostrou que macacas da Índia se acasalam com vários machos para que, na ocasião do nascimento dos filhotes, nenhum deles ataque os bebês, já que qualquer um pode ser o pai. Além de controlar o poder masculino, essa prática impede que os pais se tornem ociosos, o que diminui os conflitos nos grupos.

A teoria da seleção social explica também um enigma que remonta a Aristóteles: o “pênis” da hiena-malhada fêmea. O clitóris da fêmea é maior que o membro do macho, e os depósitos de gordura na bolsa cutânea vizinha lembram um saco escrotal. Muitas vezes, nas interações com  outras fêmeas, as hienas ficam com o clitóris intumescido, como se tivessem uma ereção. A teoria da seleção sexual não tem explicação para tal característica extraordinária – que não é usada na escolha do parceiro. Apresento, contudo, a sugestão de que uma hiena-malhada fêmea que não tivesse um pênis seria excluída dos grupos de fêmeas que controlam o acesso à reprodução. Esse é um exemplo daquilo que chamo de traço de inclusão social: uma característica que garante a admissão do indivíduo no grupo social, independentemente de ter qualquer outro uso. A poderosa capacidade humana para usar a linguagem e a habilidade para apreciar, compreender e criar arte e música podem ser exemplos desses traços em nossa espécie.

 

QUESTÃO DE PODER

Podemos pensar que ornamentos sexuais clássicos como a cauda do pavão ou a galhada de um cervo não são suficientes para atrair as fêmeas por anunciar a virilidade. Pelo contrário, esses traços podem ter como alvo os membros do mesmo sexo. É possível que sejam insígnias de  admissão no exclusivo  clube  dos detentores do poder. Não tenho conhecimento de nenhum experimento para testar se as características sexuais secundárias são realmente insígnias ou ornamentos. Alguns estudos mostraram como a modificação de características físicas, como as cores das penas, afeta a escolha do parceiro. Acredito que essas investigações deveriam questionar também como essas alterações influem nas relações entre indivíduos do mesmo sexo – inclusive entre membros do exclusivo clube dos detentores do poder.

Essa nova perspectiva do comportamento social de animais – e a consequente rejeição da teoria da seleção sexual de Darwin – debilita a linha condutora da psicologia evolutiva. Muitos biólogos estão se sentindo cada vez mais incomodados com a maneira como alguns psicólogos reorganizaram a teoria da seleção sexual e a transformaram em uma teoria da personalidade humana, apoiando-se em bases aparentemente lógicas para explicar a evolução de tudo – desde os padrões de beleza até o estupro. Sermos francos e diretos a respeito de como a teoria da seleção sexual é problemática pode ajudar a reduzir o uso errado da biologia.

Fecho agora o círculo da pergunta com a qual comecei: o enigma relativo à homossexualidade e ao gênero e a dificuldade que essa questão coloca para a teoria darwiniana da seleção sexual. Em seu  livro Biological exuberance: animal homossexuslity and natural diversity, o escritor Bruce Bagemihl catalogou mais de 300 espécies de vertebrados nas quais o contato genital entre indivíduos do mesmo sexo ocorre regularmente. Em algumas dessas espécies, a homossexualidade não é muito comum – de 1 % a 10 % de todos os casais. Em outros casos, como no dos bonobos, o acasalamento homossexual ocorre com a mesma frequência que o heterossexual. Em algumas espécies, participam dessas práticas somente os machos, em outras, apenas as fêmeas e, em outras ainda, indivíduos dos dois sexos. Em relação ao tempo de duração do vínculo não há regra: há casos de pares homossexuais nos quais os laços duram por anos; em outras espécies as uniões têm pequena duração. Essa ampla ocorrência de relações entre vertebrados do mesmo sexo levanta a possibilidade de que se realmente existir uma base genética para esse comportamento, ela terá algum amplo significado adaptativo – e não será uma condição aberrante à qual, por acaso, apenas algumas espécies estão presas.

 

UMA APTIDÃO

Nos seres humanos, a homossexualidade é comum demais para ser considerada uma aberração genética. As verdadeiras doenças transmitidas pelos genes são realmente raras e sua frequência está, inevitavelmente, relacionada à gravidade que apresentam. A frequência de surgimento de moléstias letais que costumam se repetir a cada geração, é igual ao índice de mutação – digamos uma em 1 milhão. Uma doença que causa apenas uma queda de 10% na produção de descendentes é dez vezes mais comum que uma doença letal – cerca de uma em 100 mil. Similarmente uma queda de só 1% na aptidão leva a uma frequência de uma em 100 mil. Se a homossexualidade tiver uma frequência de uma em dez a perda de aptidão não poderia ser maior que 0,0001, que é inteiramente não-detectável. Uma “doença genética comum” é, por si só, uma contradição e a homossexualidade é de três a quatro vezes mais comum que os verdadeiros  distúrbios genéticos, como a doença de Huntington.

Na realidade, contesto a conjectura de que a homossexualidade leve a qualquer redução de algum tipo de habilidade. Durante toda a história e em todas as culturas, a atração homoerótica não excluiu a atração heteroerótica. Há poucas evidências de que as pessoas que sentem atração homoerótica tenham, do ponto de vista darwiniano, menos aptidões em qualquer área. Afinal, há muitas pessoas exclusivamente heterossexuais que também não têm descendentes. Mesmo se aqueles com atração homoerótica realmente tivessem um número menor de filhos, eles poderiam compensar com uma melhor chance de sobrevivência – durante as guerras, por exemplo, quando laços homoeróticos poderiam levar os soldados a se proteger reciprocamente com maior vigor.

Qual é, então, o significado adaptativo da homossexualidade? Certamente ela tem muitas funções, tanto quanto, por exemplo, a habilidade de falar. O contato homossexual é uma maneira de comunicar prazer. Sugiro que seja também um traço de inclusão social – isto é, oferece aos animais, e talvez ocasionalmente até aos seres humanos, a possibilidade de ingressar em determinados grupos sociais. Acredito que pode evoluir para a cooperação entre indivíduos do mesmo sexo  ajudando-os a conquistar uma vida evolutivamente bem-sucedida, favorecendo a sobrevivência, o encontro com outros parceiros e a proteção dos próprios filhos. Isso se desenrola de diferentes maneiras nas variadas espécies. Algumas vezes, como acontece com os bonobos, a cooperação entre espécies do mesmo sexo proporciona a segurança e o acesso aos alimentos de que as fêmeas precisam para conseguir criarem filhotes. Para outros, como os babuínos machos das savanas e  provavelmente para algumas baleias, tal cooperação proporciona os aliados necessários para sobreviver aos conflitos de maneira que possam mais tarde se acasalar. Mas, o princípio unificador é o mesmo –  em muitos casos, a homossexualidade consolida as relações cruciais para uma vida de sucesso.

 

JOAN ROUGHGARDEN – é bióloga, professora e pesquisadora da Universidade Stanford, São Francisco.

OUTROS OLHARES

DESIGUALDADE RACIAL DIMINUI, AINDA QUE LENTAMENTE

Embora persistam, diferenças na taxa de aprovação de alunos brancos e negros já foram maiores, bem como a proporção de estudantes matriculados na idade correta.

Desigualdade racial dimimui, ainda que lentamente

As desigualdades raciais do Brasil também estão presentes na escola, naturalmente, e é no ensino médio que elas se mostram mais acentuadas. A taxa de aprovação dos alunos brancos é maior que a dos negros, bem como a taxa dos que estão matriculados na idade correta. Já a evasão, um dos problemas que mais afetam essa etapa escolar e que está ligada tanto à falta de motivação com os estudos quanto à necessidade de trabalhar, é maior entre os negros.

No entanto, uma análise histórica dos dados revela que as diferenças estão se estreitando. Todos os estudantes estão evoluindo, mas as crianças e jovens negros estão alcançando mais rapidamente. Com isso, o desnível racial está caindo, ainda que persista de forma incontestável.

Começando pelas matrículas, na faixa de 7 a 14 anos, os percentuais de crianças brancas e negras matriculadas são bem parecidos e apontam para uma quase universalização do acesso. Por outro lado, na faixa de 15 a 17 anos, a taxa de matrícula de alunos brancos chega a 80%, enquanto a de negros gira em torno de 77%, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad, 2015) tabulados pelo Observatório de Educação, do Instituto Unibanco.

Olhando apenas a rede privada, os brancos têm uma grande predominância, com proporções duas vezes maiores no ensino fundamental e quase três vezes superior no ensino médio.

 

COMPARAÇÃO HISTÓRICA

Em relação à proporção de jovens matriculados no ensino médio na idade correta, os micro dados do Censo Escolar mostram que entre os brancos essa taxa atingiu 78,39%, e entre os negros, 71,55%.  Em 2008, porém, essa proporção era de 58% entre os jovens negros, o que representa um incremento de 13.5 pontos percentuais. Entre os brancos, a evolução foi de 9.4 pp. Se antes havia um gap de 11.7 pp. Entre os dois grupos, hoje ele é de 6.8 pp

Um comportamento semelhante pode ser visto no conjunto de dados que mostra a aprovação dos estudantes no ensino médio. O índice dos alunos brancos supera o de negros: 83,2% contra 78,1%. Mas, ao longo do período analisado, os negros conseguiram avançar 8.6 pp., enquanto os brancos, 5.1 pp. Quanto à taxa de evasão, ela caiu de 17,3% para 8,5% entre os negros, e de 9,6% para 5,4% entre os brancos.

Desigualdade racial dimimui, ainda que lentamente. 2

GESTÃO E CARREIRA

O PERIGO DA AUTOSSABOTAGEM

Nem desemprego nem chefe tirano. Muitas vezes, é sua própria mente que boicota seu sucesso. Saiba como identificar os sinais e se livrar dessa atitude.

O perigo da autossabotagem

Dar tiro no pé. Puxar o próprio tapete. Boicotar­ se. Coisas que a gente até sabe que vão nos prejudicar, mas por motivos às vezes desconhecidos (ou não) acabamos fazendo do mesmo jeito. É a autossabotagem que faz você se machucar na primeira semana frequentando a academia a contragosto. E que justifica aquele branco na hora da prova para qual estudou tanto. É ela também que explica por que aquele conhecido há anos guarda segredo sobre um negócio altamente lucrativo, mas que nunca sai do papel.

Autossabotar-se é uma espécie de mecanismo de defesa da mente, que cria circunstâncias, reais ou imaginárias, para evitar mudanças que podem trazer algum tipo de incômodo (medo, insegurança, exposição indesejada). A atitude traz o benefício imediato de mantê-lo em sua zona de conforto e afastá-lo de conflitos, mas também impede que você avance em direção a seus objetivos e se desenvolva na carreira, o que pode trazer prejuízos à autoestima e à saúde, além da motivação e da produtividade.

E, segundo uma pesquisa da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, publicada no Journal of Experimental Social Psychology, por mais que esse tipo de comportamento não traga nenhuma vantagem, a decisão de puxar o próprio tapete envolve certo esforço mental. Para chegar a essa conclusão, os estudiosos recrutaram 237 pessoas e as dividiram em matutinas e noturnas, levando em consideração o pico individual de disposição e a capacidade mental em cada período. Esses participantes realizaram o mesmo teste de inteligência em dois momentos (às 8 da manhã e às 8 da noite) em dias diferentes. Antes disso, porém, tiveram sua tendência à autossabotagem avaliada por meio de questões sobre seu nível de estresse, Os resultados mostraram que a chance de boicotar­ se é mais alta naqueles momentos em que o cérebro está em seu auge de atenção – e não quando está cansado ou distraído. “Diante do medo de falhar, o engajamento mental para encontrar possíveis desculpas para o fracasso é maior quando a pessoa está no máximo de sua capacidade de pensamento”, diz Ed Hirt, coautor do estudo e professor no Departamento de Psicologia e Ciências do Cérebro da Universidade de Indiana.

O fenômeno está tão longe de ser simples que o consultor de carreira Alberto Roitman, diretor da consultoria Nexialistas, destaca que é comum o autossabotador desenvolver habilidades que protegem sua imagem e garantem a sobrevivência profissional. “Bom marketing pessoal, oratória eficiente, extroversão e poder de persuasão são alguns exemplos. Mas isso não é suficiente para fazê-lo triunfar, apesar das limitações que se tenta camuflar”, afirma. A autossabotagem pode até ser definida como uma “anticompetência” que resulta sempre da carência de alguma coisa -conhecimento, habilidade ou coragem para expor-se e arriscar-se. Não se achar capaz ou merecedor, viver focado no outro e desconectado dos próprios interesses também leva a agir contra você mesmo. “É um instinto de preservação que se impõe em profissionais de todos os níveis de hierarquia e não apenas nos menos preparados”, diz Alberto.

Prova disso é a história do empreendedor Alfredo Lalia, de 49 anos, sócio da startup de seguros Original Title Insurance. Anos atrás, quando era diretor numa grande seguradora multinacional, foi boicotado pelo perfeccionismo e pela timidez, que o faziam travar na hora de comunicar­ se em inglês como chefe britânico e nas reuniões de equipe. Mesmo falando o idioma e sendo bem avaliado pelos superiores, Alfredo achava que não era o suficiente e, para não se expor, acabava deixando de destacar-se. ”Comecei a perceber que poderia perder oportunidades de uma carreira internacional, uma das minhas ambições na época, caso não superasse esse obstáculo”, afirma. O fato de assistir a outros executivos sendo transferidos para o exterior também pesou, e Alfredo voltou a estudar. Só quatro anos depois ganhou segurança para usar o inglês no trabalho e, mesmo assim, por pressão e incentivo do gestor estrangeiro. A partir dali, a relação com os clientes gringos fluiu, ele foi promovido e expatriado durante três anos para o México, e passou a realizar viagens mensais a Londres, onde fica a sede da companhia.

 

  QUAL O MOTIVO?

Arrogância, ansiedade, procrastinação, excesso de proatividade, bajulação, perfeccionismo. São muitas as atitudes que podem ser colocadas em prática como métodos de autoboicote. Alguns são especialmente recorrentes no universo profissional, de acordo com os especialistas consultados para esta reportagem. E um dos gatilhos desse comportamento é relativamente simples de ser identificado: a falta de satisfação – e de identificação – com o trabalho. “Muitas vezes a pessoa se sabota porque não se reconhece na atividade que realiza, que não condiz com seus talentos, valores e sonhos”, afirma o psicoterapeuta e coach Luiz Eduardo Lemos. “Como não sabe ou não tem coragem para reverter a situação, acaba se boicotando.”

O passo mais importante para afastar sua autossabotagem é reconhecer que o comportamento existe em você – o que só é possível olhando para dentro de si mesmo, mas pode ser facilitado com o auxílio de psicologia, coaching ou mentoria. Ouvir o feedback de amigos e colegas de trabalho também ajuda. No final, assim como outros comportamentos inconscientes, o importante é questionar os muitos porquês por trás de suas atitudes.

O perigo da autossabotagem 2 

OS GRANDES VILÕES

A autossabotagem costuma ter alguns gatilhos comuns. A seguir, listamos alguns deles e quais são as estratégias para enfrentá-los.

DIFICULDADE DE DIZER NÃO

O medo do julgamento alheio, de ser rejeitado ou de demissão, por exemplo, que faz com que muita gente diga sim para tudo. Vale para o pedido de ajuda do colega naquela hora em que você está concentrado e para o do chefe para ficar até mais tarde (e faltar na aula de inglês de novo), entre tantas outras situações.

“É imaturidade achar que precisa sempre atender ao outro em detrimento de si mesmo e demonstra uma fraqueza comum gerada pelos modelos de trabalho convencionais: a dificuldade para fazer autogestão e se colocar como líder de si mesmo”, explica Stephanie Crispino, coordenadora de desenvolvimento humano e organizacional do Grupo Anga, voltado para o empreendedorismo consciente.

COMO VENCER

Coloque o “não” aos poucos no vocabulário, praticando em situações do dia a dia com pessoas em quem confia, como amigos e parentes. Com o tempo, a tendência é ganhar confiança e jogo de cintura para desviar-se de conflitos com gentileza e sem precisar sobrecarregar-se.

AUTOCOBRANÇA EXAGERADA

Receio de fracassar, autocrítica ferrenha, referências de sucesso inalcançáveis e o fantasma da comparação são traços de personalidades perfeccionistas, que fogem do erro a todo custo. A questão é que a auto – exigência elevada nem sempre se reflete em eficácia e comprometimento do profissional. Além disso, o comportamento pode resultar em crise de ansiedade, síndrome de burnout, transtornos alimentares, falta de motivação ou depressão.

COMO VENCER

Aceitando que o erro faz parte do desenvolvimento e focando suas prioridades, em vez de concentrar-se em opiniões e resultados alheios. Experimente um exercício: no fim do dia de trabalho, faça uma lista de coisas agradáveis e desagradáveis que aconteceram. Tudo entra no balanço: uma nova parceria fechada, o comentário de um cliente, uma entrega no prazo, uma conversa com o chefe. É provável que você se surpreenda ao perceber que há menos coisas com que se preocupar do que imagina.

VITIMIZAÇÃO

Repetir frases do tipo “se eu tivesse mais tempo faria melhor” ou “a empresa não me dá o valor que tenho” ou “nem adianta fazer nada, o mercado está horrível·”

“É típico de quem não quer ou não sabe como assumir o protagonismo da própria história. Culpar o outro (o chefe, a empresas, a crise econômica por sua estagnação, fracasso ou frustração e, assim, não precisar agir”, diz Renata Fiuppi Lindquist, psicóloga e sócia da Soul, Consultoria de Recursos Humanos.

COMO VENCER

Tente olhar a situação de fora e separar a parte que cabe a você no contexto – que resultado gostaria de obter, o que poderia de fato fazer para alcançá-lo e como se sentiria em caso de sucesso ou fracasso.

PROCRASTINAÇÃO

Perfeccionismo, excesso de pensamentos, preguiça, medo do desconhecido ou falta de habilidade. Tudo isso pode fazer com que alguém empurre com a barriga – do começo da dieta à conclusão de um relatório. Trata-se de uma estratégia do cérebro para evitar tarefas que não dão prazer ou que demandam muita energia. SÓ que as consequências podem ser dramáticas, como pressão do gestor, necessidade de retrabalho e estresse.

COMO VENCER

Quebre em partes menores aquilo que precisa entregar e planeje-se para finalizar uma ou duas por dia até a data-limite (em vez de querer resolver numa tacada só). Ou divida as obrigações entre prazerosas e sofridas e reserve aquelas menos agradáveis ou complexas para os momentos em que se sentir com mais disposição.

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TESTE

DESTRUIÇÃO INTERNA

Marque entre as frases abaixo aquelas com as quais se identifica. Três ou mais sentenças assinaladas já indicam que você pode estar se prejudicando com suas atitudes e mentalidade. Procure detectar seus padrões de autossabotagem (ansiedade, procrastinação, vitimização, medo de mudança, negatividade) e agir para descobrir e enfrentar a origem do problema.

1 – Não estou 100% satisfeito com meu emprego, mas não posso me dar ao luxo de ingressar em desafios incertos.

2 – Trabalho tanto e frequentemente chego ao fim do expediente com a sensação de que poderia ter sido mais produtivo.

3 – Não dou sorte com chefes. Os meus são sempre tiranos ou despreparados.

4 – Tenho várias ideias de negócios que seriam um sucesso, mas nunca encontro tempo para materializá-las.

5 – Quando não tenho condições de destaca-me em um projeto, prefiro não participar dele.

6 – Já me arrependi por falar mal de um chefe ou colega de trabalho na frente de outras pessoas.

7 – Quando não posso ou não quero comparecer a um evento, o mais comum é que eu invente uma boa desculpa.

8 – Sinto-me inadequado, incompreendido ou subaproveitado em diversas situações de trabalho.

9 – Faço de tudo para não cometer erros.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 30: 15-17

Alimento diário

QUATRO COISAS INSONDÁVEIS

 

V. 15 a 17 – Ele tinha falado antes sobre os que consomem os pobres (v. 14), e tinha falado sobre eles em último lugar, como a pior das quatro gerações ali mencionadas; agora, ele fala sobre quão insaciáveis eles são, ao fazer isto. O temperamento que os motiva a isto é constituído de crueldade e cobiça, que são as duas filhas da sangues­ suga, a sua prole genuína, que ainda clamam, “Dá, dá, dá mais sangue, dá mais dinheiro”; pois os sanguinários são sedentos de sangue; embora embriagados de sangue, eles somam sede à sua embriaguez, e buscam mais sangue. Também os que amam a prata nunca se saciarão de prata. Assim, enquanto, com base nestes dois princípios, eles estejam consumindo os pobres, estão continuamente inquietos, como os inimigos de Davi (Salmos 59.14,15). Para um exemplo adicional:

I – Ele especifica quatro outras coisas que são insaciáveis, às quais estes consumidores são comparados, que não dizem, Basta. Nunca são ricos os que estão sempre cobiçando. Estas quatro coisas que estão sempre cobiçando são:

1. A sepultura, em que caem multidões, e muitos mais ainda cairão, e que os engole, e não devolve nenhum. O inferno e a perdição nunca se fartam, (Provérbios 27.20). Quando chegar a nossa vez, encontraremos a sepultura pronta para nós (Jó 17.1).

2. A madre estéril, que é impaciente na sua aflição por ser estéril, e clama, como Raquel: “Dá-me filhos”.

3. A terra árida, nos tempos de seca (especialmente em países quentes), que absorve a chuva que cai em abundância sobre ela, e em pouco tempo deseja mais.

4. O fogo, que, depois de ter consumido uma abundância de combustível, ainda devora todo o material inflamável que lhe é lançado. Igualmente in­ saciáveis são os desejos corruptos dos pecadores, e têm similar insatisfação, até mesmo em relação à gratificação desses desejos.

II – O escritor acrescenta uma terrível ameaça aos filhos desobediente (v. 17), como advertência à primeira das quatro gerações ímpias, a que amaldiçoa seus pais (v. 11), e aqui mostra:

1. Quem são os que pertencem a essa geração, não somente os que amaldiçoam seus pais, com calor e paixão, mas:

(1) Os que zombam deles, ainda que seja apenas com um olhar zombeteiro, desprezando-os, por causa de suas debilidades físicas, ou com um olhar mal-humorado, irritando-se com eles, quando instruem ou ordenam, impacientes com suas repreensões e irados com eles. Deus observa como os filhos olham para seus pais, e eles terão que ajustar contas pelos olhares de soslaio e pelos olhos malignos, bem como pela má linguagem usada com os pais.

(2) Os que desprezam obedecer a eles, que pensam que está abaixo deles serem obedientes a seus pais, especialmente à mãe, desprezando ser controlados por ela; e assim aquela que os gerou com sofrimento, com maior sofrimento suporta os seus modos.

2. Qual será o seu destino. Os que desonram os seus pais serão monumentos da vingança de Deus; serão pen­ durados em correntes, por assim dizer, para que as aves de rapina arranquem seus olhos, os mesmos olhos com que olharam de maneira tão zombeteira para seus bons pais. Os cadáveres dos malfeitores não deveriam ficar suspensos durante toda a noite, pois antes do anoitecer os corvos arrancariam os seus olhos. Se os homens não punirem os filhos desobedientes, Deus o fará, e sobrecarregará com a maior infâmia os que se comportarem com arrogância para com seus pais. Os homens que chegaram a um final repleto de ignomínia reconheceram que os caminhos de iniquidade que os levaram até este ponto começaram com um desprezo pela autoridade de seus pais.