A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESPECTROS DA SEXUALIDADE I

Espectros da sexualidade I

Há alguns anos, pensar em gêneros nos conduzia à quase inevitável (e dificilmente questionável) conclusão de que a humanidade – assim como a absoluta maioria dos animais – é dividida entre machos e fêmeas. Hoje, porém, além das possibilidades variadas de questões comportamentais e das escolhas de objeto – pessoas do sexo biológico oposto no caso de heterossexuais, do mesmo sexo para homossexuais e de ambos os sexos, quando se trata de bissexuais – é preciso considerar as mudanças na sociedade como a legalização do casamento gay em diversos países, adoções homoparentais que determinam outras estruturas de parentesco e a cada vez mais comum manifestação de identidades como transexuais, intersexos, drag queens e drag kings. Essa multiplicidade requer enquadres teóricos bem mais flexíveis e menos preconceituosos por parte de educadores, psicólogos, psicanalistas, médicos e outros profissionais da saúde. Afinal, aparências nunca enganaram tanto e, cada vez mais, determinados estereótipos são apenas uma das formas de se colocar socialmente e lidar com o próprio corpo, com desejos, fantasias – e se relacionar consigo mesmo e com o outro. E embora as variadas maneiras de viver a sexualidade não sejam inéditas, a novidade está nos atravessamentos culturais, nas transformações sociais, jurídicas e, claro, psíquicas.

Espectros da sexualidade I. 2

A DANÇA DOS GÊNEROS

O que há de novo em matéria de sexualidade: A grande novidade é que a sociedade está incorporando as diversas identidades sexuais que decidiram sair de vez de dentro do armário. Homossexuais, bissexuais, travestis, transexuais já são nossos “velhos conhecidos”.

Mas a coisa muda quando aparecem diante de nós situações como a de gays ou lésbicas querendo  se casar (nos moldes heterossexuais), adotar filhos e constituir família. Ou quando uma transexual  é eleita prefeita de uma importante cidade da Inglaterra. Ou ainda quando, após uma cirurgia de redefinição de sexo, o homem que se transformou em mulher escolhe como objeto de amor  alguém do mesmo sexo –  ou seja, outra mulher Assim, além de transexual, essa pessoa fez uma  escolha de objeto homossexual. Esse, por sinal, foi o caso da prefeita de Cambridge, Jenny Bailey, de 45 anos, eleita em 2007 pelo Partido Liberal-Democrata. Ela tem como companheira Jennifer Liddle, mulher que anteriormente também havia sido homem.

Como lidar com todas essas mudanças? Que instrumentos temos para acompanhar as configurações da diversidade sexual? Podemos considerar que existem basicamente duas maneiras de encarar essas mudanças: de um lado , as leis e, de outro, as explicações, a compreensão e a aceitação daquilo que é novo. Entramos aí no campo da psicologia.

Mas vejam um pouco da área do direito, apenas, para ter uma noção de como a novidade abre  caminho na organização da sociedade. A legislação sobre casais gays teve início em 1989, quando a Dinamarca se tornou o primeiro país do mundo a aprovar a união civil entre homossexuais. Em seguida veio a Noruega, em 1993, e a Suécia, em 1994, aprovando uma lei que, além de permitir a união entre gays e entre lésbicas, dava aos casais homossexuais os mesmos direitos garantidos aos casais heterossexuais. Em 1995 foi a vez da Hungria e, em 1999, a da França. Em 2000, a Holanda, que já permitia a união civil, legalizou o casamento por casais do mesmo sexo e a adoção de crianças. Em 2002 foi a vez da Alemanha permitir a união civil e, no ano seguinte, a Bélgica, o Reino Unido e o Canadá tomaram a mesma iniciativa. Em 2003, pela primeira vez na América Latina, um casal gay registrou a união civil na Argentina. Atualmente, Espanha e México caminham no sentido de permitir a união civil entre homossexuais. Os Estados Unidos são um caso à parte, já que cada um dos estados tem autonomia em relação à legalização. Longe de ser um consenso sob diversos pontos de vista até legal, a inclusão da diversidade sexual na sociedade tem sido profundamente discutida. Ainda assim, há muito que caminhar em matéria de legalização, principalmente no que concerne à questão da  transexualidade. Na maioria dos países que concedem documentação à pessoas que se consideram transexuais é necessário realizar a cirurgia de redefinição de sexo para garantir seu reconhecimento (e sua existência legítima) como alguém do outro sexo. O ser que originalmente nasceu com o sexo anatômico masculino mas deseja ser mulher, veste-se como tal, implantou seios de silicone, raspou o pomo-de-adão, tomou hormônios femininos mas não quis  remover o órgão genital masculino não pode obter documentação de mulher.

SERES “ABJETOS”

No campo da psicologia a reflexão sobre essas questões parece avançar com mais cautela ainda. De maneira geral, os profissionais e os teóricos que lidam com a diversidade sexual oscilam entre o enquadramento destes indivíduos em termos de patologia, desvio e perversão e, de outro lado, a busca de novo aparato conceitual para compreender as mudanças sociais. A psicologia vem sendo  posta em xeque perante essas questões desde 1990, com a publicação do livro Problemas de gênero, da filósofa americana Judith Butler. Ela reformula o conceito de gênero para refletir sobre o que é o masculino e o que é o feminino e toma como paradigma justamente os seres considerados pela sociedade como “abjetos” transsexuais, hermafroditas (ou intersexos) e transgêneros de modo geral.

Lembremos, primeiramente, que, no sentido clássico, “gênero” é um termo que se refere à rede de crenças, traços de personalidade, atitudes, sentimentos, valores, condutas e atividades que diferenciam mulheres de homens. Freud já se ocupava desse assunto, na medida em que procurava explicar o desenvolvimento da feminilidade e da masculinidade.  A psicanálise freudiana podia ser interpretada como uma teoria sobre a aquisição do gênero masculino ou do feminino.

Na década de 60, o psiquiatra e psicanalista americano Robert Stoller criou o termo “identidade de gênero” para explicar o caso de algumas crianças. Stoller relatou três casos de meninos com idade entre 1 e 5 anos que foram diagnosticados como transexuais. Eles não apresentavam anomalia do ponto de vista anatômico, não havia alteração genética e o fenótipo estava de acordo com o sexo masculino; mas havia, segundo o autor, identificação com o feminino. Adotavam, por exemplo, roupas de mulher. Quando brincavam,  esses garotos agiam como se fossem meninas e assumiam apenas papéis femininos. Embora soubessem que biologicamente pertenciam ao sexo masculino, acreditavam-se meninas. Estava implícita na investigação e no tratamento que Stoller realizava, a expectativa de coerência entre sexo anatômico e gênero. Para ele, a não­ coerência é atribuída à patologia.

Espectros da sexualidade I. 3

DRAMA DE HERCULINE

Judith Butler aparece no cenário intelectual como alguém que questiona a patologização dos casos de transexuais e de transgêneros. A filósofa toma dois casos como referência para refletir sobre os gêneros. Primeiramente, considera o caso de Herculine Babin, um hermafrodita do século XIX que vive como menina num convento até que um dia, aos 20 anos, confessa a padres e, posteriormente, a médicos que seus desejos e práticas eróticas se dirigem às meninas. A partir desse momento é obrigado a assumir legalmente o sexo masculino, a vestir-se como homem e a se afastar das meninas com quem vivia, inclusive sua amante. Na sequência desses acontecimentos, ele se suicida. Butler afirma que Herculine sofre com a injunção de ter de pertencer a um dos dois sexos e deposita em seu corpo a causa do sofrimento. Um corpo anômalo, razão de seus desejos e aflições, que provoca confusões de gênero e estimula prazeres transgressivos. Mas Butler discorda de Herculine. A causa do sofrimento não estaria no corpo. A ênfase de Butler é na cobrança médica, religiosa, jurídica e social de um gênero inteligível, que guarde coerência entre anatomia, identidade de gênero, desejo e prática sexual. Herculine não poderia ser mulher ou homem “por inteiro”, como idealizavam seus interlocutores da época. Então, não lhe restava o que ser, pois lhe permitiam existir somente como desviante ou doente Que imperativo é este que nos obriga a ser homens ou mulheres, sob o risco de sermos excluídos do campo daquilo que é considerado humano. Essa e a questão fundamental de Butler.

O segundo caso é de David Reimer, considerado menino ao nascer com cromossomos XY, em 1966. Aos 8 meses fez uma cirurgia de fimose e, por erro médico, teve grande parte de seu pênis queimado. Reimer foi levado a John Money, um dos pioneiros dos estudos de gênero, que era favorável à realização de cirurgias de transexuais e intersexos. Sua ideia era de que, se uma criança sofresse uma cirurgia e iniciasse um processo de socialização num gênero diferente daquele assinalado por ocasião de seu nascimento, se desenvolveria normalmente, adaptando-se perfeitamente ao outro gênero, e seria feliz. Foi assim que David Reimer se transformou em Brenda. Teve os testículos removidos, sofreu uma pequena cirurgia preparatória para criar uma vagina num momento posterior, quando estivesse maior, e foi criado como menina. Brenda  frequentou o instituto de identidade de gênero de Money com alguma periodicidade, para que sua adaptação ao sexo feminino fosse monitorada e incentivada. Mas, aos 8 anos, desejava um revólver de brinquedo e caminhões. Além disso, gostava de urinar em pé. Em resumo: começou a se dar conta de que não era uma menina. Deu-se início então a uma “negociação” de seu gênero. A equipe de Money lhe ofereceu estrógeno e uma vagina e ainda lhe garantiu que ela poderia ter filhos. Brenda recusou todas as ofertas. Para a equipe médica que a examinou, em outro hospital, houve “erro de reassinalamento de sexo”. Dessa vez, Brenda aceitou uma proposta de mudança. Aos 14 anos, passou a viver como menino. Retirou os seios e tornou hormônios masculino. Aos 15 anos, implantou um pênis, o que lhe proporcionava um pouco de prazer. Não ejaculava, mas urinava em pé.

Butler traz, em associação a esses casos a situação dos seres ditos “intersexos”, nascidos com  genitais mistos ou incompletos . Os casos de intersexo normalmente requerem cirurgia, de modo a  refazer o corpo de acordo com a imagem social pertencente a determinado gênero. Discute-se aqui o direito de não fazer cirurgia de transformação ou intervenção sobre o aparelho genital externo. Os partidários da intervenção pressupõem que gênero “nasceu” de uma anatomia inteligível. Para  eles, a forma como essa anatomia aparece para o próprio sujeito e para os que o olham seria a base de sua identidade social como homem ou como mulher. No entanto, diz Butler, as mutilações e as cicatrizes que restam dessa intervenção dificilmente oferecem evidências daquilo que a cirurgia pretendeu realizar.

Ao contar a história de David, ou mesmo ao comentar o caso de Herculine Babin, Butler se propõe compreender a estrutura que define, classifica, normatiza, formula etiologias e nosologias – e tem poder de decisão. É nessa estrutura que David e Herculine desenvolvem discursos acerca de si próprios, buscando referências em um quadro de inteligibilidade pelo qual sua humanidade é questionada ou afirmada. Ambos sofreram com a necessidade de ter de ser de um sexo definido. David era sistematicamente interrogado pelos médicos sobre seu “ser”, numa tentativa de, por meio do discurso, estabelecer a verdade de seu gênero e, no caso particular dele, também de seu sexo. Buscava-se compreender David dentro de um quadro de inteligibilidade. É em relação a esse aspecto que Butler aponta para a violência da imposição das normas que habitam a linguagem.

REPETIÇÃO DE ATOS

A partir de uma reflexão sobre os seres considerados “abjetos” pela sociedade como devemos então compreender o masculino, o feminino e a própria ideia de gênero. De acordo com Butler, o gênero deve ser considerado como um ato performativo. Para a filósofa, o gênero é um ato, uma ação pública, encena significações já estabelecidas socialmente e desse modo funda e consolida o  sujeito. São palavras ou gestos que, ao serem expressos, criam uma realidade. Produzem uma ilusão de que existem seres homens e seres mulheres. Mas trata-se de uma ilusão porque, para Butler – na esteira do filósofo Nietzsche – não há um “ser”, não há um “fazedor”, não há um “agente” por trás do ato. Performamos variados atos cotidianamente e, ao repeti-lo-, ajudamos a manter a divisão binária dos gêneros. Fazemos coisas que são ditas “coisas de mulher” ou “coisas de homem”.

Uma das consequências de o gênero ser performativamente estabelecido é o fato de que homens e mulheres heterossexuais seriam tão construídos quanto as categorias ditas “cópias” como butch femme, drag queens e drag king. Não haveria gêneros originais. A aparente cópia já não se sustentava com referência numa origem. A origem perde o sentido porque “homens e mulheres de verdade” têm de assumir o gênero da mesma forma: por intermédio da repetição de atos, todos os dias.

REPRODUÇÃO EM XEQUE

Aquilo que acreditamos ser “homens e mulheres de verdade” encontra uma explicação na repetição e sedimentação de normas de gênero que, ao longo do tempo, terminaram por criar a ilusão de uma substância “mulher” e de uma substância “homem”, numa aparente a-historicidade.  Roupas, gestos, olhares e falas definiram um conjunto de estilos corporais que aparecem como formação natural dos corpos. E, por imposição das normas de gênero, se dividem em dois sexos relacionados, um ao outro. Mas, se são apenas normas e imposições, de onde vem a suposição de um binarismo de gênero? Da existência de dois órgãos genitais distintos. Butler recusa a ideia de que o corpo expressa uma verdade fundamental sobre a sexualidade. A sexualidade tem tanto a ver com nossas crenças, ideologias e imaginações quanto com o nosso corpo físico. Os corpos não têm nenhum sentido intrínseco. O  “corpo-homem” e  o “corpo-mulher” (lembrando ainda que há casos de intersexo) nada revelariam de verdade absoluta. A não ser que levemos em conta  meramente a questão da reprodução, que necessita de um corpo-macho e de um corpo-fêmea  para acontecer, não existe  nenhuma exigência de limitar o número de gênero a dois, na opinião de Butler. E a própria reprodução, tal como a conhecemos, talvez em breve seja posta à prova com os avanços tecnológicos.

As ideias de Butler trazem instrumentos para compreendermos a sociedade de hoje com outros olhos. Os gêneros já nossos conhecidos e aqueles que chamamos de transgêneros ou, ainda, aqueles que são menos compreensíveis porque não possuem uma coerência esperada entre  sexo anatômico, identidade de gênero, desejo e prática sexual, todos se encontrariam no mesmo  patamar, graças à noção de gênero como ato performativo. Desfaz-se, assim, a classificação dessas identidades segundo graus de normalidade e de patologia.

Se o “masculino” e o “feminino” não são substâncias originais nem essências universais e se os atributos de gênero são regulados por diretrizes culturais que estabelecem uma suposta coerência entre eles. Butler desloca o transexualismo, por exemplo, visto pelo psiquiatra Robert Stoller como doença, para a transexualidade ou seja, uma identidade de gênero como outra qualquer, com uma possibilidade legítima de existência.

OUTROS OLHARES

PAIXÃO POR AÇÚCAR ESTÁ NOS GENES

Paixão por aç[ucar está nos genes

Uma alteração genética pode explicar por que tantas pessoas não resistem aos encantos dos sabores doces. Pesquisadores canadenses identificaram uma variação do gene GLUT2, que controla a entrada de glicose nas células. Sua presença é muito mais frequente em indivíduos para quem um suco sem umas boas colheradas de açúcar, por exemplo, é inconcebível. Publicado na revista Physiological Genomics, o estudo avaliou o padrão de alimentação e a presença da variante do GLUT2 em duas populações: uma formada por pessoas obesas e outra só com indivíduos com peso saudável segundo o índice de massa corpórea. O gene alterado apareceu com muito mais frequência no primeiro grupo, sobretudo naqueles voluntários que consumiam mais sacarose (açúcar de mesa) e carboidratos (fonte de glicose). Não houve diferenças entre os sexos.

Os autores explicam que essa variação do gene faz com que o açúcar seja transportado mais rapidamente para a célula, o que significa um período menor de saciedade e maior necessidade de nova ingestão do nutriente.

GESTÃO E CARREIRA

ONBOARDING É ESSENCIAL PARA DESENVOLVIMENTO E RETENÇÃO

Onboarding é essencial para desenvolvimento e retenção

O grande desafio de todo líder de equipe é encontrar o candidato ideal em um processo seletivo e engajar ele a partir do momento que se torna um colaborador. O trâmite de interação desse novo membro com a empresa é conhecido como onboarding, e o objetivo é capacitar esse profissional diante de diversas capacidades, como atitudes, conhecimentos, habilidades e comportamentos necessários para uma trajetória eficaz dentro da organização.

O onboarding tem níveis distintos: a conformidade – que inclui o ensinamento básico de processos, normas legais, políticas e regulamentos; a clarificação – que tem o objetivo de assegurar que funcionários entenderam seus novos empregos e verificar se as expectativas estão alinhadas; a cultura – que inclui oferecer a todos um senso de normas organizacionais tanto formais, como informais; a conexão – que refere-se às relações interpessoais e redes de informação que os colaboradores devem estabelecer; e a gestão comportamental – que é exatamente sobre o que quero falar nesse artigo.

Somar os processos de onboarding com a gestão comportamental nos permite personalizar, em um nível muito positivo, as ferramentas necessárias para cada um. Por exemplo, se a pessoa que for entrar no seu time tem mais dificuldade com a parte social, você pode colocá-la com um colaborador mais aberto e bem relacionado. Isso com certeza vai ajudar na transição e mudança.

Além disso, com a análise comportamental você pode medir a produtividade desse funcionário e listar quais são suas motivações, medos e até como ele pode lidar com os desafios pré-estabelecidos sob cada tarefa que deverá ser executada por ele.

Um onboarding bem-sucedido é a parte-chave de toda estratégia de gestão de pessoas. Com o alto custo do recrutamento, os líderes empresariais devem entender que a integração de novas contratações na organização é um passo importante para seu sucesso.

Por fim, vale destacar que os gestores de RH devem implementar o processo de onboarding – constantemente – nas organizações como uma prioridade e aliar isso com as práticas de análise de perfil e gestão comportamental tornam essas estratégias ainda mais eficazes dentro de qualquer empresa.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 30: 10-14

Alimento diário

QUATRO GERAÇÕES ÍMPIAS

 

V. 10 a 14 – Aqui, temos:

I – Uma advertência para que não ofendamos os servos dos outros, não mais do que aos nossos, nem façamos intrigas entre eles e seus senhores, pois é maldade, é inveja, e algo que torna um homem odioso (v.10). Considere:

1. É uma ofensa ao servo, cuja pobre condição faz dele um objeto de piedade, e por isto é bárbaro aumentar a aflição daquele que já está aflito: Não firas o servo com tua língua (é o que diz a margem); pois é uma sórdida disposição ferir alguém secretamente com o açoite da língua, especialmente se for um servo, que não é páreo para nós, e a quem deveríamos, na verdade, proteger, se o seu senhor for severo com ele, e não exasperá-lo ainda mais.

2. Isto talvez seja uma ofensa para ti mesmo. Se um servo for assim provocado, talvez te amaldiçoe, te acuse e te traga dificuldades, ou te atribua uma má reputação e manche a tua reputação, ou apele a Deus contra ti, e invoque a sua ira contra ti, pois Ele é o patrono e protetor da inocência oprimida.

 

II- Uma apresentação, por ocasião desse aviso, de algumas gerações de homens ímpios que são, com razão, abomináveis a todos os que são virtuosos e bons.

1. Eles maltratam os seus pais, os insultam e lhes desejam o mal, e realmente os ofendem e prejudicam. Há uma geração de pessoas assim; jovens desse caráter normalmente andam juntos, e se irritam, uns aos outros, contra seus pais. Uma geração de víboras é a dos que amaldiçoam seus pais naturais, ou seus magistrados, ou seus ministros, porque não suportam o jugo; e são seus parentes os que, embora não tenham chegado àquele nível de iniquidade de amaldiçoar seus pais, ainda assim não os bendizem, não lhes podem destinar uma boa palavra e não orarão por eles.

2. Estes são convencidos, e se têm em alto conceito, e, sob uma exibição e pretexto de santidade, se escondem dos outros, e talvez também de si mesmos, com abundância de iniquidade reinando em segredo (v.12); eles são puros aos seus próprios olhos, como se fossem, em todos os aspectos, como deveriam ser. Eles têm uma excelente opinião de si mesmos e de seu próprio caráter, e pensam que não somente são justos, mas ricos e abundantes em bens (Apocalipse 3.17), e, no entanto, não são purificados de sua imundícia, a sujeira de seus corações, que pensam ser a melhor parte deles. Pode ser que sejam penteados e adornados, mas não são lavados, não são santificados; como os fariseus, que interiormente estavam cheios de todos os tipos de impureza (Mateus 23.25,26).

3. Eles são arrogantes e escarnecedores dos que estão ao seu redor (v.13). Ele fala deles com assombro, diante de sua intolerável soberba e insolência: “Oh, como são altivos os seus olhos! Com que desdém olham para seu próximo, como se não fosse digno de estar com os cães do seu rebanho! Que distância esperam que todos mantenham deles; e, quando consideram a si mesmos, como se empertigam e se gabam, como o pavão, julgando-se ilustres quando, na verdade, se tornam ridículos!” Há uma geração de pessoas assim, sobre as quais aquele que resiste aos soberbos derramará desprezo.

4. São cruéis com os pobres e bárbaros com todos os que estão à sua mercê (v. 14): seus dentes são como ferro e aço, espadas e facas, instrumentos de crueldade, com que devoram os pobres com o maior prazer imaginável, e com tanta avareza como homens famintos cortam seu ali­ mento e o comem. Deus ordenou as coisas de tal maneira que sempre tivéssemos pobres conosco, que eles jamais desaparecessem da terra; mas há aqueles que, porque odeiam socorrê-los, desejariam, se pudessem, aboli-los da terra, de entre os homens, particularmente os pobres de Deus. Alguns entendem uma referência aos que ferem e arruínam os outros com calúnias e falsas acusações, e severas censuras à sua condição eterna ; suas línguas, e também seus dentes (que são órgãos da fala) são como lanças e flechas (Salmos 57.4).