A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PRODUÇÃO DO SILÊNCIO

O filme um lugar silencioso enfatiza como nossa humanidade está inscrita pela capacidade de comunicação que nos remete à construção do simbólico que sustenta a subjetividade.

A produção do silêncio

“É preciso ouvir palavras que jamais foram ditas, que ficaram no fundo dos corações (perscrute o seu coração: elas estão lá); é preciso fazer com que os silêncios da história falem” (Citação de Joyce McDougall no livro Teatros do Corpo O Psicossoma em Psicanálise)

Filme dirigido por John Krasinski, que também atua nele e participou do roteiro. Há notícias que antes de sua entrada na produção do filme havia sequências com diálogos em forma de lembranças antes da invasão alienígena.

No filme que chega aos cinemas não há maiores pistas de onde vêm os monstros que ameaçam, e  todo o clima de medo e terror ocorre pela necessidade absoluta de a família Abbott (Lee, Evelyn, Regan, Marcus e Beau) ter que permanecer sem produzir qualquer som para que não atraiam o ataque dos invasores predadores. O suspense é dado por cada quebra dessa regra, com consequência para Beau (Cade Woodward), que a desobedece. À primeira vista, a produção poderia parecer destituída de capacidade de prender o espectador, mas o que vemos é que alcançou com eficácia esse objetivo. Sua bilheteria já bateu a marca de 340 milhões de dólares e a história já tem previsão de produzir um segundo filme que contaria, segundo declarou Krasinski, a história da origem desse monstro que teria vindo de um planeta onde não havia luz e se desenvolvido aqui até se tornar uma máquina assassina quase perfeita.

A tensão permanente no filme faz pensar em muitas questões e traz ao espectador uma estranha angústia. Entendemos quanto o ato de comunicar-se pela fala faz parte das necessidades mais básicas do humano. A vida produz sons, e quanto mais barulhenta, mais viva! Um parque de crianças nos dá essa dimensão, um bebê que chega ao mundo é puro barulho já na sua capacidade de se comunicar. No longa, esse aspecto toma um tom apavorante. Somos, ao longo da existência, ao mesmo tempo que ensinados a falar, também ensinados a calar, a construir maiores áreas de silêncio, do que não se deve dizer. No caso desse intrigante roteiro, não produzir sons é mesmo questão de sobrevivência, como é avisado no trailer de divulgação, que diz: “silêncio é sobrevivência”, entregando o mote da produção.

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SINTONIA DA FAMÍLIA

A ameaça aos membros dessa família virá caso eles produzam qualquer espécie de som. Para sua proteção, desenvolvem toda uma dinâmica para se relacionar e conviver sem produzir perigo, estudam e se falam através da linguagem desenvolvida para surdos, e assim permanecerem unidos sem precisar abrir mão da necessidade vital de se comunicar. O clima de pavor diante de qualquer ação que produza ruído toma o espectador, a fera está sempre à espreita e corre para destruir com precisão. Podemos nos atrever um pouco e estender então a fórmula do roteiro afirmando que produzir silêncio é garantir a continuidade da vida. De quantos silêncios a vida de cada um é feita? Esse aspecto é fundamental para o fazer psicanalítico, fazer falar o que se oculta e que ainda assim produz ação na tentativa de comunicar.

A filha do casal Lee (John Krasinski) Evelyn (Emily Blunt), a adolescente Regan (Millicent Simmonds), traz a todo momento, com sua natural rebeldia da idade, risco para a família, que precisa atender cada regra que impôs em seu funcionamento para que possam todos sobreviver dentro da fazenda onde se refugiaram, no meio oeste americano. Dessa maneira, o burburinho do questionar que um adolescente costuma trazer ao funcionamento da família fica ainda mais sublimado com tensão. A culpa que cada um sente pela perda de Beau ganha fala através dos vigorosos questionamentos de Regan, inclusive a própria culpa que ela sente por ter rompido com um dos combinados, e assim colocar Beau em risco, por sua inocência e ainda incompleta compreensão dos porquês dos combinados, cedendo a um simples desejo e curiosidade, ele é capturado pelo monstro. Aqui podemos nos aventurar em outra incursão curiosa e traçar um paralelo do quanto vemos na clínica a criança como “sintoma da família”, a forma como tenta trazer para o manifesto aquilo que se esconde, muitas vezes paga um alto preço por assim ser, sofre e evidencia uma angústia que carrega o peso de muitas “transferências cruzadas”. Aquele ser tão indefeso é um gigante ao ter derramado sobre si uma incontável quantidade de expectativas, amores e dores.

O filme sem dúvida mobilizou bastante um grande público. Podemos auferir isso pela bilheteria que acabou alcançando. O espectador se mobiliza talvez sem muita consciência do quanto o filme fala de algo muito intimamente ligado a ele mesmo. Mexer com os silêncios de cada um é uma tarefa sempre muito delicada. Cada divã conhece a sutileza que há no abrir uma área protegida de ruídos, onde aquilo que se cala finalmente ganha voz sem chamar o assustador perigo. O silenciar que um dia protege toda uma dinâmica psíquica precisa romper esse pacto em algum momento para o pleno desenvolvimento do sujeito, e isso contempla uma análise, ao que precisa ser dito em voz alta, abandonando assim a obscura zona do não dito.

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RUÍDOS PROTEGIDOS

Outra porta de análise possível sai do âmbito individual para alcançar o coletivo. Pensamos que aquele que viveu sob algum regime de exceção ficará ainda mais tocado com o encaminhamento dos fatos a que assiste. O medo de falar, de produzir o som que não pode existir frente ao que oprime, a censura à manifestação livre da vontade são das mais terríveis vivências sutis, portanto, enlouquecedoras, porque já trazem com seu fim o próprio ato que operam. Qualquer censura cala duplamente. Nomear, dar lugar de existência ao falar. Escolher uma palavra é escolher toda uma narrativa, jamais é algo acidental, porque simboliza toda uma experiência. Algumas vivências são tão absurdas que se tornam indizíveis, acabam em grito, esse mecanismo tão animal e fundamental. A palavra, aquilo que nos separa das feras, ou nos transforma nelas. Lee e Evelyn, enquanto mantenedores das regras que censuram os sons, são os que impõem e ao mesmo tempo os que sofrem da impossibilidade da livre comunicação. Evelyn está grávida, uma nova vida chegará sem que se possa impedir, a não ser entregando-a ao monstro, que ela grite suas necessidades. Sabendo disso, preparam um local para isolar o som quando esse bebê chegar, mas nada estará assim tão sob controle.

O filme se torna interessante para nossa análise a partir do momento que nos lança a quase duas horas de sustos e angústia frente a quase nenhuma palavra, um filme sem som, mas não necessariamente sem comunicação, como é quase todo conteúdo psíquico formador de ansiedade, que comunica muitas vezes por sintomas repletos de dor, mas que oculta uma quantidade de realização que, enquanto não vista como tal, resistirá à transformação e a novas possibilidades. Há muita vida ocorrendo sob o manto do silêncio. Uma fórmula que a produção buscou, um tanto quanto ousada, pensamos que antes de aplicá-la, a certeza de dar certo era quase nenhuma, mas intuitivamente talvez, em tempos de muitas vozes sem conteúdo ou afetada ligação, talvez eles tenham entendido que os nossos medos contemporâneos sejam mesmo mais bem representados pelo silêncio. Chegando então a essa nova fórmula, que já tem similares que não conseguiram sustentar o que esse filme sustenta, o diálogo praticamente totalmente ausente. No momento de elaboração desse texto, uma nova produção indo na mesma onda que a de Krasinski entrou para o catálogo de um serviço de streaming, o filme The Silence (2019), mas que embora busque a mesma fórmula não alcançou (ou não compreendeu) a sutileza que faz de Um Lugar Silencioso um roteiro que vale a pena olhar com mais profundidade.

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ROMPER SILÊNCIOS

No final do filme, que prometeu entregar uma continuação, vemos Evelyn e Regan obrigadas a enfrentar o predador com arma em punho e a certeza de que é preciso enfrentar o que atemoriza.

É no mínimo interessante pensar que o jeito de chamar para a armadilha fatal esse monstro seja produzir barulho, assim parece que, embora aterrorizante, não seria tão difícil assim enfrentá-lo de forma a extinguir o perigo, talvez a fórmula do Bird Box (2018), em que o que realmente não pode ocorrer é olhar para os monstros, seja mais desalentadora, menos comprometida com a possibilidade de compor novas formas de preservação. Pensamos que é muito provável que uma grande parcela dos espectadores termine de assistir sentindo uma angústia meio sem fácil explicação, afinal trata-se apenas de mais um filme de suspense/ficção. Mas talvez a questão que ele toca sobre a da impossibilidade de produzir os sons, hábito que acontece naturalmente na vida humana, uma necessidade que, de tão natural, pouco falamos sobre ela, acabe por remeter a detalhes muito mais caros à subjetividade e mesmo à cidadania.

A censura e o conceito de recalque, em termos psicanalíticos, têm toda uma questão como origem  de pânico e angústia. Mas, sem dúvida, em qualquer ponto que paremos para analisar, individualmente ou coletivamente, sabemos que é preciso que a vida produza seus sons e que se possa falar, gritar e chorar para que ela siga seu curso livremente.

Como sobreviverá a nova vida, o bebê de Evelyn, em um mundo onde seus sons naturais, sua tentativa de comunicar-se o ameaçam de extinção? Como podemos suportar tantos silêncios em torno de coisas que oprimem e ameaçam? O filme de Krasinski situa-se em uma área entre um bom entretenimento e uma metáfora que os filmes de arte costumam erguer com beleza. Nessa linha divisória, terminou por produzir um cinema interessante, um bom filme que mobiliza sem grandes pretensões. Romper silêncios foi sempre uma tarefa cara à Psicanálise, que constrói caminhos possíveis para que o que atemoriza ganhe uma fala, linguagem, possibilidade de compor novas alternativas menos ameaçadoras e quem sabe mais vivas.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.