A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PRODUÇÃO DO SILÊNCIO

O filme um lugar silencioso enfatiza como nossa humanidade está inscrita pela capacidade de comunicação que nos remete à construção do simbólico que sustenta a subjetividade.

A produção do silêncio

“É preciso ouvir palavras que jamais foram ditas, que ficaram no fundo dos corações (perscrute o seu coração: elas estão lá); é preciso fazer com que os silêncios da história falem” (Citação de Joyce McDougall no livro Teatros do Corpo O Psicossoma em Psicanálise)

Filme dirigido por John Krasinski, que também atua nele e participou do roteiro. Há notícias que antes de sua entrada na produção do filme havia sequências com diálogos em forma de lembranças antes da invasão alienígena.

No filme que chega aos cinemas não há maiores pistas de onde vêm os monstros que ameaçam, e  todo o clima de medo e terror ocorre pela necessidade absoluta de a família Abbott (Lee, Evelyn, Regan, Marcus e Beau) ter que permanecer sem produzir qualquer som para que não atraiam o ataque dos invasores predadores. O suspense é dado por cada quebra dessa regra, com consequência para Beau (Cade Woodward), que a desobedece. À primeira vista, a produção poderia parecer destituída de capacidade de prender o espectador, mas o que vemos é que alcançou com eficácia esse objetivo. Sua bilheteria já bateu a marca de 340 milhões de dólares e a história já tem previsão de produzir um segundo filme que contaria, segundo declarou Krasinski, a história da origem desse monstro que teria vindo de um planeta onde não havia luz e se desenvolvido aqui até se tornar uma máquina assassina quase perfeita.

A tensão permanente no filme faz pensar em muitas questões e traz ao espectador uma estranha angústia. Entendemos quanto o ato de comunicar-se pela fala faz parte das necessidades mais básicas do humano. A vida produz sons, e quanto mais barulhenta, mais viva! Um parque de crianças nos dá essa dimensão, um bebê que chega ao mundo é puro barulho já na sua capacidade de se comunicar. No longa, esse aspecto toma um tom apavorante. Somos, ao longo da existência, ao mesmo tempo que ensinados a falar, também ensinados a calar, a construir maiores áreas de silêncio, do que não se deve dizer. No caso desse intrigante roteiro, não produzir sons é mesmo questão de sobrevivência, como é avisado no trailer de divulgação, que diz: “silêncio é sobrevivência”, entregando o mote da produção.

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SINTONIA DA FAMÍLIA

A ameaça aos membros dessa família virá caso eles produzam qualquer espécie de som. Para sua proteção, desenvolvem toda uma dinâmica para se relacionar e conviver sem produzir perigo, estudam e se falam através da linguagem desenvolvida para surdos, e assim permanecerem unidos sem precisar abrir mão da necessidade vital de se comunicar. O clima de pavor diante de qualquer ação que produza ruído toma o espectador, a fera está sempre à espreita e corre para destruir com precisão. Podemos nos atrever um pouco e estender então a fórmula do roteiro afirmando que produzir silêncio é garantir a continuidade da vida. De quantos silêncios a vida de cada um é feita? Esse aspecto é fundamental para o fazer psicanalítico, fazer falar o que se oculta e que ainda assim produz ação na tentativa de comunicar.

A filha do casal Lee (John Krasinski) Evelyn (Emily Blunt), a adolescente Regan (Millicent Simmonds), traz a todo momento, com sua natural rebeldia da idade, risco para a família, que precisa atender cada regra que impôs em seu funcionamento para que possam todos sobreviver dentro da fazenda onde se refugiaram, no meio oeste americano. Dessa maneira, o burburinho do questionar que um adolescente costuma trazer ao funcionamento da família fica ainda mais sublimado com tensão. A culpa que cada um sente pela perda de Beau ganha fala através dos vigorosos questionamentos de Regan, inclusive a própria culpa que ela sente por ter rompido com um dos combinados, e assim colocar Beau em risco, por sua inocência e ainda incompleta compreensão dos porquês dos combinados, cedendo a um simples desejo e curiosidade, ele é capturado pelo monstro. Aqui podemos nos aventurar em outra incursão curiosa e traçar um paralelo do quanto vemos na clínica a criança como “sintoma da família”, a forma como tenta trazer para o manifesto aquilo que se esconde, muitas vezes paga um alto preço por assim ser, sofre e evidencia uma angústia que carrega o peso de muitas “transferências cruzadas”. Aquele ser tão indefeso é um gigante ao ter derramado sobre si uma incontável quantidade de expectativas, amores e dores.

O filme sem dúvida mobilizou bastante um grande público. Podemos auferir isso pela bilheteria que acabou alcançando. O espectador se mobiliza talvez sem muita consciência do quanto o filme fala de algo muito intimamente ligado a ele mesmo. Mexer com os silêncios de cada um é uma tarefa sempre muito delicada. Cada divã conhece a sutileza que há no abrir uma área protegida de ruídos, onde aquilo que se cala finalmente ganha voz sem chamar o assustador perigo. O silenciar que um dia protege toda uma dinâmica psíquica precisa romper esse pacto em algum momento para o pleno desenvolvimento do sujeito, e isso contempla uma análise, ao que precisa ser dito em voz alta, abandonando assim a obscura zona do não dito.

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RUÍDOS PROTEGIDOS

Outra porta de análise possível sai do âmbito individual para alcançar o coletivo. Pensamos que aquele que viveu sob algum regime de exceção ficará ainda mais tocado com o encaminhamento dos fatos a que assiste. O medo de falar, de produzir o som que não pode existir frente ao que oprime, a censura à manifestação livre da vontade são das mais terríveis vivências sutis, portanto, enlouquecedoras, porque já trazem com seu fim o próprio ato que operam. Qualquer censura cala duplamente. Nomear, dar lugar de existência ao falar. Escolher uma palavra é escolher toda uma narrativa, jamais é algo acidental, porque simboliza toda uma experiência. Algumas vivências são tão absurdas que se tornam indizíveis, acabam em grito, esse mecanismo tão animal e fundamental. A palavra, aquilo que nos separa das feras, ou nos transforma nelas. Lee e Evelyn, enquanto mantenedores das regras que censuram os sons, são os que impõem e ao mesmo tempo os que sofrem da impossibilidade da livre comunicação. Evelyn está grávida, uma nova vida chegará sem que se possa impedir, a não ser entregando-a ao monstro, que ela grite suas necessidades. Sabendo disso, preparam um local para isolar o som quando esse bebê chegar, mas nada estará assim tão sob controle.

O filme se torna interessante para nossa análise a partir do momento que nos lança a quase duas horas de sustos e angústia frente a quase nenhuma palavra, um filme sem som, mas não necessariamente sem comunicação, como é quase todo conteúdo psíquico formador de ansiedade, que comunica muitas vezes por sintomas repletos de dor, mas que oculta uma quantidade de realização que, enquanto não vista como tal, resistirá à transformação e a novas possibilidades. Há muita vida ocorrendo sob o manto do silêncio. Uma fórmula que a produção buscou, um tanto quanto ousada, pensamos que antes de aplicá-la, a certeza de dar certo era quase nenhuma, mas intuitivamente talvez, em tempos de muitas vozes sem conteúdo ou afetada ligação, talvez eles tenham entendido que os nossos medos contemporâneos sejam mesmo mais bem representados pelo silêncio. Chegando então a essa nova fórmula, que já tem similares que não conseguiram sustentar o que esse filme sustenta, o diálogo praticamente totalmente ausente. No momento de elaboração desse texto, uma nova produção indo na mesma onda que a de Krasinski entrou para o catálogo de um serviço de streaming, o filme The Silence (2019), mas que embora busque a mesma fórmula não alcançou (ou não compreendeu) a sutileza que faz de Um Lugar Silencioso um roteiro que vale a pena olhar com mais profundidade.

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ROMPER SILÊNCIOS

No final do filme, que prometeu entregar uma continuação, vemos Evelyn e Regan obrigadas a enfrentar o predador com arma em punho e a certeza de que é preciso enfrentar o que atemoriza.

É no mínimo interessante pensar que o jeito de chamar para a armadilha fatal esse monstro seja produzir barulho, assim parece que, embora aterrorizante, não seria tão difícil assim enfrentá-lo de forma a extinguir o perigo, talvez a fórmula do Bird Box (2018), em que o que realmente não pode ocorrer é olhar para os monstros, seja mais desalentadora, menos comprometida com a possibilidade de compor novas formas de preservação. Pensamos que é muito provável que uma grande parcela dos espectadores termine de assistir sentindo uma angústia meio sem fácil explicação, afinal trata-se apenas de mais um filme de suspense/ficção. Mas talvez a questão que ele toca sobre a da impossibilidade de produzir os sons, hábito que acontece naturalmente na vida humana, uma necessidade que, de tão natural, pouco falamos sobre ela, acabe por remeter a detalhes muito mais caros à subjetividade e mesmo à cidadania.

A censura e o conceito de recalque, em termos psicanalíticos, têm toda uma questão como origem  de pânico e angústia. Mas, sem dúvida, em qualquer ponto que paremos para analisar, individualmente ou coletivamente, sabemos que é preciso que a vida produza seus sons e que se possa falar, gritar e chorar para que ela siga seu curso livremente.

Como sobreviverá a nova vida, o bebê de Evelyn, em um mundo onde seus sons naturais, sua tentativa de comunicar-se o ameaçam de extinção? Como podemos suportar tantos silêncios em torno de coisas que oprimem e ameaçam? O filme de Krasinski situa-se em uma área entre um bom entretenimento e uma metáfora que os filmes de arte costumam erguer com beleza. Nessa linha divisória, terminou por produzir um cinema interessante, um bom filme que mobiliza sem grandes pretensões. Romper silêncios foi sempre uma tarefa cara à Psicanálise, que constrói caminhos possíveis para que o que atemoriza ganhe uma fala, linguagem, possibilidade de compor novas alternativas menos ameaçadoras e quem sabe mais vivas.

OUTROS OLHARES

A MATERNIDADE ADIADA

O poder de decisão da mulher sobre a hora de ter um filho e o aprimoramento da ciência fizeram crescer a procura pelo congelamento de óvulos.

A maternidade adiada

“Congele seus óvulos aos 30 anos e eles não envelhecerão com você”. “Congelamento de óvulos pelo preço de um lanche” – frases como essas viajam pelas redes sociais nos Estados Unidos. Elas vendem um negócio que nos últimos anos tem conquistado milhares de adeptas: o congelamento de células sexuais femininas, procedimento feito em clínicas de fertilização. No Brasil, o movimento dá sinais de decolar. Não existem estatísticas oficiais, mas clínicas ouvidas calculam que, nos últimos cinco anos, houve um crescimento de cerca de 200%. “As mulheres estão cada vez mais no controle da hora de ter filhos, tenham ou não um parceiro”, diz Edson Borges, diretor médico da Fertility Medical Group, em São Paulo.

Seja qual for o motivo, profissional ou sentimental, as mulheres têm preferido adiar a maternidade. De acordo com o IBGE, o porcentual de mães que dão à luz pela primeira vez aos 30 anos passou de 22.5%, em 2000, para 30,2 %, em 2012, segundo os dados mais recentes disponíveis. A intenção de virar mãe mais tarde se choca com uma realidade: a chance de engravidar naturalmente diminui muito cedo, de 25% a possibilidade de uma mulher de 25 anos, no auge da fertilidade, engravidar ao longo de cada ciclo menstrual. Cai para 8% no caso de uma mulher de 40 anos, ainda em pleno vigor físico. Diz Márcio Coslovsky, diretor da Clínica Primordia, no Rio de Janeiro. “A queda da fecundidade é causada, sobretudo, pelo envelhecimento dos óvulos”. As mulheres já nascem com o total de células sexuais que o organismo terá a vida inteira. Com o passar dos anos, o ovário libera óvulos em menor quantidade e de menor qualidade.

Em cada ciclo menstrual, na faixa em que a mulher tem entre 18 e 35 anos, sob estimulo da medicina o ovário libera mais facilmente a quantidade de óvulos considerada adequada pelos médicos: dezesseis. “O grande volume é crucial porque nem todo óvulo saudável consegue ter bons resultados na hora de formar um embrião”, diz Cláudia Gomes Padilla, diretora-médica do Grupo Huntington, em São Paulo. O valor médio de um procedimento de congelamento gira em torno de 15.000 reais. Para manter os óvulos armazenados, pagam-se 1.000 reais anuais. Eles duram para sempre.

Além da mudança de comportamento, o avanço científico ajudou a aumentar o interesse em conservar óvulos. A técnica tradicional que usava mecanismos de congelamento lento, com duração de mais uma hora, danificava muitas células. Essa demora deflagrava a formação de cristais de gelo que agrediam os óvulos. Agora, trabalha-se com outro recurso, a vitrificação. Por meio dela, o óvulo é congelado em segundos, o que impede a formação dos cristais. A vitrificação faz com que nove em cada dez óvulos fiquem ilesos. Antes, apenas seis em cada dez prosperavam. Pesquisadores de Brigham and Women’s Hospital, em Boston, desenvolveram uma tabela que calcula a taxa de sucesso na gestação de um bebê a partir do congelamento de óvulos. Até os 35 anos, chega a espantosos 85%. Em tese, a mulher que armazenar suas células sexuais nessa etapa da vida, quando for implantá-las de volta, para engravidar, terá essa mesmíssima probabilidade de fecundação em qualquer idade posterior. É a ciência a serviço das mudanças de comportamento. A paulista Andréa de Carvalho Knabe, uma anestesista de 36 anos, decidiu congelar seus óvulos aos 32anos. “Achei que não era hora de ter um bebê, apesar da vontade do meu marido. Não hesitei. Hoje tenho dezesseis óvulos guardados, saudáveis, à espera do melhor momento”.

A maternidade adiada. 2

GESTÃO E CARREIRA

AS REGRAS VÊM AÍ

Até aqui, as empresas de tecnologia têm vivido uma espécie de paraíso libertário: não há regulamentação que limite suas ações. Mas esse tempo já está acabando.

As regras vêm aí

É comum elogiar as novas empresas de tecnologia chamando-as de “disruptoras”, no sentido de que ameaçam as concorrentes estabelecidas não por combatê-las de frente, mas por mudar as regras do jogo. A ideia da ruptura é, mais do que vencer os competidores, torná-los irrelevantes –   como aconteceu com as companhias de iluminação a gás quando surgiu a luz elétrica, ou com as carruagens quando apareceu o automóvel. Essa imagem, porém, é incompleta: as rupturas não se limitam ao mercado em disputa. Em seu conjunto, elas têm afetado a própria compreensão de como funciona (ou deveria funcionar) nossa sociedade. Um dos primeiros pontos de transformação é o mercado de trabalho. Quando as empresas se definem como plataformas, que em vez de empregar diretamente as pessoas dão a elas a oportunidade de prestar serviços a outros clientes, chacoalham-se as normas estabelecidas para um ambiente de dicotomia entre capital e trabalho. O novo profissional não está em nenhum dos campos. É um misto de empreendedor e empregado, de autônomo e funcionário, de subordinado e cliente. Como regular o horário de trabalho de um motorista de aplicativo, para impedir que ele cumpra jornadas exaustivas, se é ele mesmo quem liga ou desliga a máquina que o torna disponível? De um lado, os trabalhadores dessa nova economia são completamente independentes, na escolha dos clientes a quem servir e dos horários a cumprir. De outro lado, porém, a empresa não é uma plataforma neutra de encontro entre um prestador e um tomador de serviço: ela controla o preço, manipula incentivos para obter os comportamentos que deseja e, principalmente, pode “demitir” seus operários sem nem ao menos o desgaste psicológico de ter de chamá-los a uma sala e dar-lhes a notícia – faz isso bloqueando­ lhes o acesso ao aplicativo, no momento que lhe aprouver.

De certa forma, a realidade se adiantou à reforma trabalhista aprovada durante o governo Michel Temer. As normas rígidas de relação entre empregados e empresas têm sido curvadas pelo aumento do número dessa nova classe que poderíamos chamar de “empreendegados”, empreendedores – empregados. Como assegurar-lhes direitos sem eliminar a oportunidade de trabalho? Nos Estados Unidos, Alan Krueger, professor de economia na Universidade Princeton, e Seth Harris, ex-secretário do Trabalho no governo Obama. propõem que a legislação se adapte para contemplar esses trabalhadores autônomos, concedendo-lhes muitas das garantias, mas não todas, de um trabalhador usual – como o direito de organizar-se coletivamente em sindicatos para negociar taxas e condições de trabalho ou permitir que as empresas contribuam para sua aposentadoria sem caracterizar um vínculo empregatício que as leve a arcar com onerosas obrigações.

Como se as complicações trabalhistas já não fossem o bastante, as novas empresas digitais impõem um desafio crescente para diversas normas civis. As inovações representam um desafio regulatório em quatro casos diferentes, de acordo com uma pesquisa de Sarah Light, professora de estudos legais e ética na Escola de Negócios Wharton, da Universidade da Pensilvânia, em colaboração com outros três acadêmicos. A primeira forma de impacto é quando uma empresa presta um serviço semelhante ao de uma companhia existente, mas alega que as regras não se aplicam a ela. É o caso da Uber e de seus congêneres, que argumentam não ser empresas de táxi e dizem que, portanto, seus motoristas não precisam de licenças municipais.

O segundo desafio é quando cidadãos são isentos de seguir normas exigidas para as empresas – mas um app torna possível reunir esses cidadãos num conjunto que se comporta como uma companhia. Assim como a luz pode ser tratada como uma onda ou como um feixe de partículas, é difícil definir se a regulação a ser aplicada é a das pessoas físicas ou a das jurídicas. O exemplo mais claro é do Airbnb: hotéis não podem discriminar que tipo de hóspedes aceitam, mas em sua casa você pode convidar ou não deixar entrar quem você quiser. Se uma pessoa manifesta intenção de alugar uma casa maravilhosa, mas o dono da casa a recusa, seja por alguma reclamação postada no site, seja pela cor de sua pele, a quem ela vai apelar?

Um terceiro desafio regulatório, de acordo com Sarah, é quando um serviço inovador não está previsto nas normas. É o caso das entregas com drones ou dos carros sem motorista. Há que se decidir de quem é o espaço aéreo ou de quem é a responsabilidade em caso de acidente. Finalmente, um quarto desafio é o das tecnologias que resolvem algum grave problema, mas esbarram em normas feitas para outras situações. É o caso das placas solares, que já permitiriam às casas não apenas dispensar o uso da energia da rede, mas também agir como fornecedoras da rede…se houvesse um mercado regulamentado.

A esses quatro desafios é preciso acrescentar a questão das externalidades: os efeitos que um contrato entre duas partes provocam em terceiros, alheios ao negócio. Uma externalidade negativa do serviço de entregas de comida é o aumento de custos para ambulâncias e hospitais, devido aos acidentes com motociclistas. Uma segunda é o excesso de patinetes estacionadas na rua, em alguns casos atrapalhando o tráfego de pedestres. Outra externalidade negativa é para os vizinhos de um apartamento transformado por seu dono em hospedaria. Fica claro que o empreendedor que quiser de antemão resolver todas as pendengas que sua inovação possa provocar não criará coisa alguma. É daí que se explica um dos ditados preferidos do Vale do Silício, o berço da cultura digital. “É melhor pedir desculpas do que pedir licença”. Ou seja, pecados de comissão são mais leves do que os de omissão. No cômputo geral, as inovações têm saldo positivo não apenas na conta bancária dos empreendedores, mas também na vida das pessoas.

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NICHO LIBERTÁRIO

Uma consequência dessa postura é o posicionamento ideológico radicalmente contra a regulação. O Estado é comumente definido, para quem está imerso nesse ambiente, como um incômodo e um freio ao progresso. Não à toa, durante décadas o Vale do Silício foi identificado como um nicho libertário dentro dos Estados Unidos. Libertarianismo é, em essência, a crença de que o mercado pode até não ser perfeito, mas é melhor do que qualquer alternativa: o controle estatal, até mesmo em áreas como saúde e segurança pública, provoca ineficiências e abre espaço para a corrupção ou o fortalecimento de uma casta parasitária (os controladores da máquina estatal), que, além de não produzir riqueza, absorve a de quem criou.

Nas décadas de 70 e 80, a propaganda libertária era intensa. O slogan de John Kennedy (“Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país”) era comumente reinterpretado como “Não pergunte o que o país pode fazer por você, faça você mesmo”. Até a virada do milênio, o libertarianismo reinava. Mas, embora ainda haja libertários famosos, como o empreendedor serial Peter Thiel cofundador do PayPal, essa já não é a ideologia reinante no Vale do Silício.

Um estudo conduzido em 2017 pelos professores de economia política David Broockman e Neil Malhotra, da Universidade Stanford, e pelo jornalista Greg Ferenstein, com 600 fundadores e executivos ­chefes de empresas de tecnologia, revelou que seus valores são quase totalmente identificados com o ideal progressista do Partido Democrata. Não é de espantar, visto que 97% das doações para campanhas políticas na região vão para candidatos democratas. Há, porém, duas divergências cruciais em relação ao credo progressista. Eles compreensivelmente atribuem muito mais valor à atividade empreendedora (em vez da ênfase no dirigismo estatal) e são muito desconfiados em relação a sindicatos e à regulação estatal.

 O termo que melhor os define, de acordo com os acadêmicos Brink Lindsey e StevenTeles, é “liberaltarianismo”, um amálgama do credo liberal (no sentido que os americanos lhe dão, de progressista com preocupações sociais) como credo libertário. Isso explica outra expressão cara à cultura empreendedora do Vale do Silício, com ecos aqui no Brasil: todos querem como defendeu Steve Jobs num célebre discurso à universitários, colocar sua marca no universo, fazer algo que tenha impacto positivo na vida das pessoas. A tendência. porém, é que a elite tecnológica perca a briga contra a regulação. Em grande parte, porque a classe se desgastou com tantos conflitos e, quando teve de pedir desculpas e reparar algumas de suas ações ousadas, ficou devendo. Eles ainda são vistos como heróis, mas também como gente mimada, ciosa de seus privilégios.

Em segundo lugar, e não menos importante, os governos estão ficando mais espertos em relação à regulação. São Francisco, por exemplo, proibiu o uso de patinetes elétricas nas ruas, mas desde meado do ano passado a prefeitura está conduzindo um programa-piloto para averiguar que limites pode dar ao serviço de forma que ele funcione como auxiliar do trânsito sem provocar externalidades insuportáveis. Da mesma forma, a cidade de Nova York estabeleceu limites ao número de motoristas de Uber que podem circular pela cidade, mas as regras estão sujeitas a reavaliação daqui a um ano, quando houver mais dados para decidir a intensidade e a direção das regras.

Não é mera coincidência que o cofundador e executivo-chefe do Facebook, Mark Zuckerberg, tenha se tomado um defensor da regulação. No dia 30 de março, ele publicou no jornal The Washington Post um artigo em que defende intervenção em quatro áreas: conteúdo malicioso, integridade das eleições, privacidade e o direito de portabilidade dos dados entregues a uma empresa. Não é que ele tenha se convertido. É que entendeu que a regulação – como mostra o avanço das regras e punições a empresas de tecnologia na Europa – é inevitável e quer pelo menos influenciar o modo como ela será definida.

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ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 29: 15-17

Alimento diário

A DISCIPLINA DOS PAIS

 

V. 15 – Os pais, na educação de seus filhos, devem considerar:

1. O benefício da correção apropriada. Não somente os pais devem dizer aos seus filhos o que é bom e mau, como devem repreendê-los, e corrigi-los e puni-los também, se necessário for, quando negligenciarem aquilo que é bom ou fizerem o que é mau. Se uma repreensão servir, sem a vara, muito bem, mas a vara não deve ser usada nunca sem uma repreensão racional e séria; e então, embora possa haver um desconforto momentâneo para o pai e também para o filho, ainda assim dará ao filho sabedoria. O filho receberá a advertência, e desta maneira, obterá sabedoria.

2. O erro da indulgência indevida: um filho que não é reprimido nem repreendido, mas é deixado à própria sorte, como Adonias, para seguir as suas próprias inclinações, pode fazer o que desejar, mas, se decidir enveredar por maus caminhos, ninguém o impedirá; é praticamente garantido que seja uma desgraça para a sua família, e traga sua mãe, que o minou e lhe permitiu a sua devassidão, à vergonha, à pobreza, à reprovação, e talvez ele mesmo a maltrate e insulte.

 

V. 16 – Observe:

1. Quanto mais pecadores existirem, mais pecado existirá: quando os ímpios, tolerados pelas autoridades, se multiplicam, e circulam por toda parte, não é de admirar que se multipliquem as transgressões; é como o caso de uma praga no campo: diz-se que ela aumenta quando mais e mais se infectam por ela. A transgressão fica mais atrevida e ousada, mais imperiosa e ameaçadora, quando há muitos que a estimulam. No mundo antigo, quando os homens começavam a se multiplicar, começavam a se degenerar e a se corromper, sim, tanto a si mesmos como uns aos outros.

2. Quanto mais pecado existe, mais próxima está a destruição ameaçada. Que os justos não tenham a sua fé e a sua esperança chocadas pelo crescimento do pecado e pelo aumento dos pecadores. Que não digam que lavaram em vão suas mãos, ou que Deus abandonou a terra, mas que esperem pacientemente; os transgressores cairão, a medida da sua iniquidade será total, e então cairão de sua dignidade e poder, e cairão em desgraça e destruição, e os justos terão a satisfação de ver a sua queda (Salmos 37.34), talvez neste mundo, certamente no juízo do grande dia, quando a queda dos inimigos implacáveis de Deus será a alegria e o triunfo dos santos glorificados. Veja Isaías 66.24; Gênesis 19.28.

 

V. 17 – Observe:

1. É algo muito feliz quando os filhos mostram ser a consolação de seus pais. Os bons filhos o são; eles lhes dão descanso, sossego, e os livram das muitas preocupações que tiveram, a seu respeito; eles dão delícias às almas de seus pais. É um prazer para os pais, um prazer que ninguém conhece, exceto os que recebem a bênção de poder desfrutá-lo, ver o feliz fruto da boa educação que deram aos seus filhos, e ter uma amostra do bem que eles farão, para os dois mundos; é um prazer proporcional às muitas inquietudes de coração que preocuparam os pais.

2. Para isto, os filhos devem ser educados sob rígida disciplina, e não devem ter permissão de fazer o que bem desejarem, nem deixar de ser repreendidos, quando fizerem algo errado. A tolice existente em seus corações deverá, pela correção, ser expulsa, quando são jovens, ou irromperá, para sua própria vergonha, bem como a de seus pais, quando já forem crescidos.