A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS NOVOS TRANSTORNOS DO DSM-5

Os problemas mentais acrescidos na nova edição do manual são os transtornos de acumulação, escoriação, disfórico, pré-menstrual, abstinência de cafeína e cannabis. Vamos entendê-los melhor.

Os novos transtornos do DSM-5

As psicopatologias seguem o modelo médico instituído desde o tempo de Hipócrates, o diagnóstico segue bases empíricas e muito pouco se modificou até hoje. A formulação de diagnóstico se baseia em observação, descrição e categorização das patologias por meio de sintomas característicos que levam à identificação da causa e da evolução da doença para, então, se estabelecer uma direção de tratamento. O diagnóstico passa por uma análise de comportamentos considerados não adequados para tal situação, sendo assim classificados em categorias.

O modelo de classificação das patologias ganhou repercussão mundial dentro da área médica. A Associação Psiquiátrica Americana criou o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DMS, que já está na sua quinta edição e é um instrumento de classificação de patologias que orienta o diagnóstico e o tratamento.

A classificação das patologias por meio da compreensão dos comportamentos considerados inadequados para determinadas situações fica um pouco limitante, pois a topografia de um comportamento não é suficiente para determinar o funcionamento de um sujeito, segundo a óptica de outras ciências, como a Psicologia e a Psicanálise. Existem outros fatores imprescindíveis que determinam o comportamento humano. A Psicologia, por exemplo, aponta a necessidade de se fazer uma análise funcional para a planificação de um tratamento.

A Psicanálise, uma abordagem terapêutica focada na existência do inconsciente, propõe um tratamento focado nas representações inconscientes, que se constituem na primeira infância do sujeito. Freud coloca que existe um determinismo psíquico que comanda os comportamentos. São áreas diferentes, mas todas estão empenhadas em tratar o sofrimento humano, sejam conflitos do cotidiano, doenças psicossomáticas ou transtornos mentais.

Hoje, a modernização da cultura, emoldurada pelo avanço tecnológico que permite um aceleramento em todos os campos sociais, traz também em seu bojo o avanço das novas patologias, o que requer um diálogo mais aproximado das ciências. Nesse sentido faremos uma reflexão sobre a inclusão de novos transtornos mentais proposta no DSM-5, com algumas considerações sobre a visão psicanalítica desses transtornos.

Os transtornos mentais acrescidos no manual e apontados nesta reflexão são os transtornos de acumulação, escoriação, disfórico pré-menstrual, abstinência de cafeína e cannabis.

ACUMULAÇÃO

De acordo com o DSM-5, o transtorno de acumulação (TA) é uma síndrome recentemente acrescida. Trata-se de uma psicopatologia caracterizada pela compulsão de acumular objetos desnecessários e pela dificuldade de se desfazer da posse destes, gerando uma desorganização no ambiente, prejudicando o sujeito e os que estão a sua volta pela condição não salutar de viver.

Os acumuladores tendem a guardar objetos aleatórios, acreditando que servirão no futuro. Há um excesso de coisas guardadas, não conseguem evitar o impulso de acumular, deixando o ambiente atulhado e com odores insuportáveis. Em casos graves, as pessoas ficam impedidas de desempenhar suas atividades básicas, como higiene e alimentação, não cuidam do local nem de si mesmas, permanecendo isoladas e em grande sofrimento, mas não conseguem evitar tal comportamento.

Os sintomas mais comuns são baixa autoestima, insegurança, falta de motivação, desleixo com cuidados pessoais, isolamento social e um estado de muita angústia, quando se sentem ameaçados em seu habitat. Geralmente recusam ajuda profissional. As vezes uma pessoa de seu convívio tem que interferir em busca de tratamento.

Nas descrições do DSM-5, o transtorno fica difícil de ser explicado devido à apresentação de outros sintomas associados, como esquizofrenia, autismo, demência e outras psicoses.

Pesquisas apontam que este transtorno de comportamento disfuncional pode ter início na infância ou na adolescência, intensificando-se os sintomas a partir da vida adulta.

Existem também os acumuladores de animais, que mantêm inúmeros bichos em espaços inadequados ou em condições insalubres. São movidos por um forte sentimento de compaixão para com o animal que está em situação de abandono e sofrendo maus tratos, mas também acabam não proporcionando condições saudáveis para eles.

ESCORIAÇÃO

Seguindo a linha da compulsão, será abordado o transtorno de escoriação (TE) – chamado de skin picking, também conhecido como escoriação neurótica, dermatotilexomania ou escoriação psicogênica. É caracterizado pelo comportamento de beliscar, arranhar, cutucar, cortar, escavar a pele, produzindo lesões. Os focos das escoriações são espinhas, pequenas irregularidades na pele e lesões pré-existentes.

A conduta de beliscar, cutucar, ocorre em resposta a prurido ou outras sensações na pele, como queimação, formigamento, ressecamento ou dor. As partes mais comuns são as de fácil acesso, como o rosto, as mãos e os braços, mas pode ocorrer em outras regiões.

O ato de escoriar a própria pele representa uma manifestação simbólica de conteúdo psíquico e uma manifestação somática de expressões verbais não formuladas. Pode representar, ainda, um desequilíbrio psicofisiológico, funcionando como um catalisador da energia de estresse gerado por tensões e adversidades, levando a pessoa a buscar o alívio por meio de gesto repetitivo de esfregar, coçar, arranhar, beliscar para arrancar a pele.

Os fatores desencadeadores deste transtorno, segundo Freitas, seriam que a pele, sendo o maior tecido do corpo humano e tendo a mesma origem embrionária do sistema nervoso central, apresenta alta sensibilidade às emoções. Tanto os problemas cutâneos quanto a pele podem manter contato estreito com os medos profundos, necessidades e desejos.

Observa-se que mesmo com as descrições classificatórias dos transtornos mentais bem delineadas, acaba-se esbarrando nos contextos emocionais que permeiam a constituição sintomática das síndromes. Dessa forma, cabe fazer uma reflexão sobre a visão psicanalítica, que é uma linha terapêutica que trabalha com as emoções e os sintomas dela oriundos.

Na visão psicanalítica, o diagnóstico é feito através das estruturas clínicas, cuja organização se dá na primeira infância (O a 9 anos), por meio da relação de um infante com um adulto cuidador. Esta longa relação de dependência desnaturalizará os instintos, nos tornando seres pulsionais, movidos pelos afetos. É o que determinará o funcionamento psíquico e o comportamento do ser humano. Essa organização se dá pelo desenvolvimento chamado por Freud de psicossexual (fase oral anal, fálica e genital), no qual as vivências serão fixadas no aparelho psíquico (id, ego e superego).

Nos casos específicos citados acima, os transtornos de acumulação e de escoriação, para a Psicanálise, são sintomas da organização neurótica que se originou pelas fixações excessivas na fase anal (1 ano e meio até 3 anos de idade).

O excesso de vivências nesta fase, principalmente as desprazerosas, deixará a criança presa na fase anal, adquirindo as características preconizadas para esta fase. Uma das formas de manifestação das vivências recalcadas seriam os sintomas, uma defesa para manter sua sobrevivência psíquica.

A criança nesta fase já começa a entender minimamente o que é um “não” e também já está instrumentalizada para exercer sua agressividade. Ela tem posição ativa e posição passiva, tem momentos de extrema fragilidade (passiva), mas também tem como expressar a sua raiva, como resmungar, xingar, bater, morder. A criança tem o cocô como seu primeiro produto, o que sai dela que pode doar para o outro. Não tem noção de que é um produto contaminado. Para ela, é de máximo valor, é uma dádiva que quer dar de presente para o cuidador. O adulto vai colocar as regras e os valores para este produto. Ele pode ser bom ou ruim, tudo que é excessivamente valorizado ou não, vai caracterizar o objeto cocô, ou seja, a libidinação do objeto. Aquilo que é vivenciado como uma experiência extremamente ruim, o ego recalca para o inconsciente e essa representação, mais tarde, definirá os comportamentos do sujeito.

Os transtornos de acumulação e de escoriação são organizações neuróticas obsessivas compulsivas que têm como pano de fundo um forte sentimento de agressividade inconsciente. Têm como característica principal ordem, parcimônia e obstinação. Os rituais são formas de o sujeito não entrar em contato com os conteúdos inconscientes, que são emoldurados por um forte sentimento de agressividade inconsciente. Ele sente um profundo desejo de morrer ou matar. O que importa para o sujeito desta estrutura não é o acumular, mas a ordem em que ele coloca os objetos. É isso que não pode ser mexido, é o que o deixa em um estado de intensa angústia. Ele tem medo dos seus sentimentos mortíferos. Os objetos acumulados o impedem de entrar em contato com seus afetos recalcados.

Um outro sentimento forte que toma conta do neurótico obsessivo é a culpa, gerando autopunição pelos pensamentos pecaminosos. O transtorno de escoriação, na visão psicanalítica, entra nesta categoria, uma forma de o sujeito se autopunir por ter inconscientemente sentimentos de ódio.

PRÉ-MENSTRUAL

Outro transtorno proposto pela nova classificação do DSM-5 é o disfórico pré-menstrual (TDPM), relacionado pela Associação Psiquiátrica com transtorno de humor, depressão e ansiedade. É caracterizado por uma constelação de sintomas emocionais e alterações comportamentais que se manifestam com padrão temporal cíclico em associação com o período pré-menstrual. O diagnóstico ocorre posteriormente à ovulação (fase lútea) e pode se manter até a primeira semana, fase folicular.

Para ser considerado transtorno disfórico pré-menstrual, o paciente precisa apresentar pelo menos cinco sintomas e pelo menos um tem de estar relacionado ao estado afetivo. Devem começar cerca de cinco dias antes da menstruação e se estender até quatro após o término.

Os principais sintomas são: humor deprimido, ansiedade, fadiga, falta de energia, alteração de apetite, excessos ou avidez, hipersônia ou insônia, sensibilidade, inchaço das mamas, cefaleia, dores nas articulações e musculares. Ocorre um conjunto de sintomas físicos, emocionais e comportamentais de caráter cíclico iniciado na semana anterior da menstruação, com alívio posterior.

A etiologia indicada pela visão médica é hormonal, mas existem estudos que não confirmam a correlação da TDPM com o excesso de estrógeno nem com o déficit de progesterona. Esses estudos apontam que o desequilíbrio hormonal não seria o desencadeador dos eventos bioquímicos relacionados ao TDPM no sistema nervoso central e em outros tecidos do corpo. A intervenção é por meio de medicação e mudanças no estilo de vida. As principais medicações são o uso de fluoxetina, sertralina, paraxetina.

Mesmo entre a classe médica não existe um acordo pontual quanto à etiologia do transtorno disfórico pré-menstrual como sendo um fator exclusivamente biológico. Acordam que existe um fundo emocional que perpassa o transtorno. Para a Psicanálise, este transtorno está relacionado com a estrutura neurótica histérica, para a qual o principal mecanismo psíquico de defesa seria a conversão, ou seja, o excesso de energia libidinal volta-se para o corpo, causando sintomas psicossomáticos.

ADICÇÃO

O transtorno relacionado a substâncias e adicção é outro ponto colocado pelo DSM-5, que exige dois ou mais critérios para considerar abuso e dependência. A classificação se dá de acordo com o número de critérios preenchidos, por exemplo: 2 ou 3 é um transtorno leve, 4-5, moderado e 6 ou mais é grave. Neste grupo de transtornos serão apontados aqui o de cafeína e o de cannabis. Esses transtornos têm em comum o uso excessivo da substância para ativar diretamente o sistema do cérebro, produzindo sensações de prazer, envolvendo um reforço nos comportamentos e na produção das memórias.

As drogas citadas são psicoativas e produzem dependência física e psíquica. O uso do café está arraigado na cultura brasileira, já a cannabis é considerada uma droga ilícita e é uma das mais consumidas no mundo, segundo pesquisas.

A síndrome do transtorno do uso da cafeína inclui cefaleia, fadiga, sonolência, angústia acentuada, náusea ou vômito, indisposição, alteração de humor, depressão, em alguns casos até alucinação olfativa.

Para ser considerado transtorno mental de abstinência de cafeína é necessário que o sintoma cefaleia apareça associado a um outro acima descrito. Os sintomas causam sofrimento significativo, podendo até causar prejuízos sociais ou ocupacionais. O aspecto essencial da síndrome é a crise de abstinência devido à cessação ou à redução abrupta do uso da substância. A abstinência costuma aparecer após 12 horas da última ingestão.

O tratamento se dá pela redução progressiva da substância e, em alguns casos mais graves, usa-se medicação. O transtorno mental por uso de cannabis inclui o uso da planta cannabis, conhecida como maconha, ou compostos sintéticos de química semelhante. Está entre as primeiras drogas utilizadas. Pode ser fumada, ingerida de várias maneiras em alimentos e inalada.

O início do transtorno pode ocorrer na pré-adolescência, adolescência e no começo da vida adulta. Desenvolve-se no decorrer de um longo período, embora a progressão seja muita rápida em adolescentes, principalmente naqueles que apresentam algum problema de conduta. O DSM-5 reconhece que a interrupção abrupta do uso diário resulta na síndrome de transtorno mental pela abstinência da substância cannabis. Os sintomas mais comuns são irritabilidade, raiva, agressividade, humor deprimido, inquietação, dificuldade para dormir, redução de apetite, boca seca, taquicardia, perturbação da percepção, alucinação com teste da realidade intacto ou ilusões auditivas, visuais e táteis. A abstinência causa intenso sofrimento, o que dificulta o abandono do hábito, ou recaídas para as pessoas que desejam parar com o uso.

O uso periódico e intoxicação podem afetar de forma negativa o funcionamento comportamental e cognitivo, interferindo no trabalho, escola, relações pessoais, riscos físicos que podem  comprometer a integridade do usuário e do outro (conduzir veículos, prática de esportes perigosos etc.).

Os critérios de diagnóstico apontados pelo manual são alterações comportamentais ou psicológicas, prejuízo na coordenação motora, euforia, angústia, sensação de lentidão do tempo, retraimento social. Duas horas após o uso observam-se sintomas como aumento de apetite, boca seca e taquicardia e, às vezes, alucinações. O tratamento indicado pela Associação Psiquiátrica é medicamentoso.

Para a Psicanálise, tanto o uso da cafeína quanto da cannabis está relacionado à fase da oralidade do desenvolvimento da sexualidade proposta por Freud. A fase oral é o período mais primário do desenvolvimento do bebê. O mundo externo e as sensações internas são sentidas visceralmente pelo seu corpo. As fixações na oralidade determinarão a estrutura clínica histérica e organizarão os sintomas de uma forma mais primária e corporal. O histérico tem um desejo sempre insatisfeito, é o que o faz desejar. Ele busca incansavelmente algo que é perdido para sempre. O adicto busca na substância o objeto excessivamente libidinizado como forma de êxtase, de completude, mesmo sendo algo destrutivo para o ego, pois a busca é inconsciente.

Os objetos em jogo estão relacionados à oralidade. O objeto externo é o seio materno e o interno são as mucosas orais do bebê, que codificarão as emoções vivenciadas pelo pequeno infante. As vivências podem ser boas ou ruins, e o excesso delas causará recalque, deixando a criança aprisionada nos traços orais, o que, na vida posterior, irá influenciar nos comportamentos e nos afetos. A necessidade de ingerir substâncias que, supostamente, irão satisfazer os traços orais inconscientemente recalcados será vivenciada como um êxtase infantil. O inconsciente goza com a substância e o ego padece pelos sintomas.

A forma de tratamento se dá pelo processo analítico. Por meio de técnicas de interpretação do inconsciente, o analista consegue trazer as representações para a consciência para, então, serem analisadas através de reflexões e transformadas, pela relação transferencial com o analista, em uma vivência melhor. Em casos graves há necessidade de medicação, mas sempre associada com um trabalho psíquico, pois as causas estão relacionadas com os afetos e o remédio não remove afetos. Os afetos só podem ser transformados e não extirpados farmacologicamente.

Anúncios

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.