A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POR QUE É TÃO BOM ESTAR CERTO?

Sem perceber, muita gente leva a vida presumindo que está com a razão o tempo todo, sobre quase tudo: convicções políticas e intelectuais, crenças morais e religiosas, avaliação das outras pessoas e lembranças. Por trás desse funcionamento está a ideia – obviamente equivocada – de que estamos perto da onisciência.

Por que é tão bom estar certo

Descobrir que estamos certos costuma nos dar grande prazer. Ao contrário de outros deleites da vida – chocolate e beijos, por exemplo, – a satisfação de acertar não parece estar diretamente vinculada a nenhum processo bioquímico específico. E por mais que afagos ou alimentos nos atraiam, não costumamos gostar de beijar quem quer que seja ou comer qualquer coisa, mas adoramos estar certos. Trata-se de uma sensação inegável e universal .O que está em jogo não parece importar muito. O assunto também não conta: podemos ficar igualmente satisfeitos em identificar um pássaro canoro de crista laranja ou a orientação sexual de um colega de trabalho. Ainda mais estranho, conseguimos vibrar (ainda que de maneira discreta) por nossos acertos até em relação a coisas desagradáveis: a queda na Bolsa de Valores, ou o fim do relacionamento de um amigo, ou o fato de que, devido à insistência de nosso cônjuge, passamos 15 minutos arrastando a mala na direção oposta ao hotel.

Mas, como a absoluta maioria das experiências prazerosas, a condição de estarmos certos não nos pertence o tempo todo. Em algumas ocasiões somos nós que perdemos a aposta (ou o hotel). E às vezes também somos atormentados pela dúvida – uma ansiedade que, em si, reflete a urgência do desejo de não errar. Ainda assim, em geral, o contentamento indiscriminado de estarmos certos equivale ao sentimento de que, na realidade, estamos certos. Ocasionalmente, essa sensação vem à tona – quando argumentamos ou tentamos convencer alguém, fazemos previsões ou apostas. Na maioria das vezes, porém, é apenas um pano de fundo psicológico.

Muitas pessoas levam a vida presumindo que estão certas o tempo todo, sobre praticamente tudo: convicções políticas e intelectuais, crenças morais e religiosas, avaliação das outras pessoas, lembranças, entendimento dos fatos. Por mais absurdo que soe quando paramos para pensar a respeito, nosso estado habitual parece ser o de presumirmos inconscientemente que estamos bem perto da onisciência.

Para sermos exatos. essa fé serena nos leva à impressão de que não estamos apenas certos de forma rotineira, mas especulativa: no que diz respeito à existência dos átomos (pressuposta pelos pensadores da Antiguidade milhares de anos antes do surgimento da química moderna) e às propriedades de cura da aspirina (reconhecidas desde pelo menos 3.000 a.C.), por exemplo. Reunidos, esses momentos de certeza representam as marcas do apogeu humano e são fonte de inúmeras pequenas alegrias. Eles afirmam nosso senso de sermos espertos, competentes, dignos de confiança e de estarmos em sintonia com o ambiente. Mais importante: mantêm ­ nos vivos. Individual e coletivamente, nossa existência depende de nossa habilidade de chegar a conclusões precisas sobre o mundo à nossa volta. Em suma, a experiência de estarmos com a razão é imperativa para a sobrevivência, gratificante para o ego e, acima de tudo, é uma das satisfações mais baratas e intensas da vida.

MESMO SEM QUERER

Mas há o outro lado de tudo isso: se nos alegramos por estarmos certos e consideramos isso nosso estado natural, como nos sentimos quando nossas convicções desmoronam? Curiosamente, tendemos a encarar como algo raro e bizarro – uma aberração inexplicável na ordem natural das coisas. Em segundo lugar, errar faz com que nos sintamos tolos e envergonhados – e, não raro, um único equívoco nos leva a uma série de autorrecriminações e dúvidas sobre nossa capacidade nas mais diversas áreas. Não importa a idade, sentimo-nos como a criança que recebe seu trabalho escolar coberto de tinta vermelha. O fato de estarmos errados faz com que nos encolhamos e afundemos na cadeira: identificam os um peso no peito e surgem justificativas e a raiva. Na melhor das circunstâncias, consideramos a situação um incômodo; na pior, um pesadelo, mas em ambos os casos vivenciamos nossos erros como desanimadores e embaraçosos.

E isso é apenas o começo. Na fantasia coletiva, o erro está vinculado a ignorância, indolência, psicopatologia e até degeneração moral. Esse conjunto de associações foi sintetizado pelo cientista cognitivo italiano Massimo Piattelli Palmarini. Ele observou que erramos devido a (entre outras coisas) “desatenção, distração, falta de interesse, despreparo, genuína estupidez, timidez, desequilíbrio emocional, preconceitos ideológicos, raciais, sociais ou chauvinistas, assim como em razão de instintos agressivos ou de prevaricação”.

Nossas falhas seriam prova dos mais graves “defeitos”. Mas o curioso é que, entre todas as coisas sobre as quais estamos equivocados, essa ideia poderia muito bem encabeçar a lista. É nosso metaerro: estamos enganados acerca do que significa estar errado. Longe de ser um sinal de inferioridade intelectual, essa capacidade é crucial para a cognição humana. Longe de ser um defeito moral, ela é indissociável de algumas das qualidades mais honradas: empatia, otimismo, imaginação, convicção e coragem. E longe de ser sinal de indiferença ou intolerância, o erro é parte vital da aprendizagem e da possibilidade de mudança. Graças ao erro, podemos revisar nosso entendimento de nós mesmos e corrigir nossas ideias a respeito do mundo.

Dada essa centralidade para nosso desenvolvimento intelectual e emocional, o equívoco não deveria ser motivo de constrangimento ou visto como aberração. Ao contrário. Como escreveu Benjamin Franklin, o erro é uma janela para a natureza humana normal – para a mente imaginativa, as faculdades ilimitadas, a alma extravagante. Afinal por mais desorientadores, difíceis ou humilhantes que nossos erros possam ser, é, em última instância, o erro – e não o acerto – que nos pode ensinar sobre quem somos.

Essa ideia não é nova. Vivemos numa cultura paradoxal, que despreza qualquer tipo de engano e, ao mesmo tempo, insiste que ele é fundamental em nossa vida. Reconhecemos esse caráter essencial na exata maneira como falamos sobre nós mesmos – é por isso que, quando cometemos erros, damos de ombros e dizemos que somos humanos. Cerca de 1.200 anos antes de René Descartes ter escrito seu famoso “penso, logo existo”, o filósofo Santo Agostinho escreveu “fallor ergo sum”: “erro, logo existo”. Segundo essa ideia, a capacidade de errar não apenas faz parte de estar vivo, mas, de certo modo, é prova disso. Para o teólogo católico, como para Franklin, o erro não se refere somente ao que fazemos. Num sentido mais profundo, é quem somos. A falibilidade seria como a mortalidade, outra característica que está implícita na palavra “humano”: todos erramos – mesmo sem querer. O mesmo acontece com a experiência da morte.

Consequentemente, quando erros acontecem, é típico reagirmos como se não tivessem acontecido: nós os negamos, nos mantemos na defensiva, os ignoramos, os abrandamos ou colocamos a culpa nos outros. A relutância em admitir que estamos errados não é apenas uma falha individual. Com exceção daquelas iniciativas de prevenção contra erros empregadas em áreas de alto risco, como a aviação e a medicina, nossa cultura desenvolveu poucas ferramentas para abordarmos nossa propensão ao equívoco.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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