A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

QUE MEDO!

Nos primeiros anos de vida o cérebro humano não é capaz de reagir seletivamente aos estímulos; à medida que a criança cresce, os temores mudam e ela passa a enfrentar as ameaças de modo mais racional

Que medo!

Contrariando um clichê muito difundido pelo senso comum, ter medo não significa ser covarde. Covardia é, sim, não ter coragem de reagir. O medo, assim como outras emoções primárias, está inscrito no código genético de muitos seres vivos, inclusive no dos humanos. Sua função é “avisar” o organismo dos perigos. Em geral, portanto, o medo é benéfico – somente quando é excessivo (em casos patológicos de pânico, fobia) pode ser prejudicial. Por outro lado, uma pessoa totalmente destemida não teria vida longa: atravessaria a rua no sinal vermelho, cairia ao se debruçar na janela ou não hesitaria em enfrentar um leão. Sob o efeito do medo, aumentam a atenção e a velocidade de reação. As batidas do coração aceleram, a pressão sanguínea sobe, os açúcares inundam o sangue e aumentam as secreções da glândula supra- renal e da parte anterior da hipófise. Esse terremoto psicofísico prepara o corpo para lutar, fugir, imobilizar-se ou fingir não temer.

Todos os seres vivos reagem a ameaças contra a própria integridade, mas alguns têm melhor equipamento para lutar (ou fugir): garras afiadas, músculos fortes ou pernas velozes. Outros, por instinto, conseguem enganar seus inimigos. Os seres humanos, sobretudo na primeira infância, também reagem impulsivamente aos estímulos ameaçadores. Um rumor forte, ainda que inofensivo, alarma e sobressalta. À medida que cresce, a criança desenvolve um sistema de controle mental e, a menos que seja pega de surpresa, enfrenta o perigo de modo mais racional. Há, porém, um longo caminho a percorrer, no qual certos medos são dominados e novos emergem. No nascimento, o cérebro ainda não é capaz de reagir seletivamente a estímulos nem controlar os movimentos. As reações são globais, e não específicas. O corpo todo é envolvido nas ações de autodefesa, mesmo em casos em que um simples movimento de mão ou pernas bastaria, leva um bom tempo até que o bebê aprenda a espantar um mosquito, por exemplo, em vez de desatar em soluços.

Nas primeiras semanas de vida, o bebê não tem consciência do ambiente à sua volta. A percepção de si e do mundo se funde com a do próprio corpo e com as sensações experimentadas por meio do contato com a mãe. Satisfeitas suas necessidades, sente-se onipotente. Nos momentos de frustração (em que experimenta desconfortos como os causados pela fome e pelo frio) torna-se prisioneiro de suas emoções, se ninguém agir para tranquilizá-lo. Quando começa a se distinguir da mãe, passa a perceber a própria fragilidade. O progressivo incremento da capacidade motora e cognitiva lhe permite perceber certos perigos e enfrentar alguns deles. Com o tempo, mudam as fontes de temor. Os medos infantis podem se dividir em três categorias: os que estão presentes desde o nascimento (inatos), os que aparecem ao longo do crescimento e os que surgem devido a eventos traumáticos ou induzidos pelo meio. Ruídos repentinos, flashes luminosos, movimentos súbitos e perda do apoio são estímulos que, em geral, assustam as crianças pequenas. São os medos inatos, da vasta categoria do imprevisto e do não-familiar, que são úteis à sobrevivência. A atitude dos pais e os hábitos podem atenuar alguns deles, como o receio de cair para trás: o recém-nascido se sobressalta e chora quando se sente sem apoio. Mas, se uma mãe afetuosa tira o apoio do filho em meio a uma brincadeira cuidadosa, é comum que, depois de um breve desconcerto, o bebê sorria em vez de chorar. O mesmo se dá com ruídos fortes. A criança se alarma menos se estiver com um adulto em quem confie, que a embale, sorria e lhe fale ternamente.

Que medo!. 2

DESCOBERTA DO MUNDO

Aos medos inatos seguem-se aqueles ligados ao crescimento. No segundo semestre de vida surgem o receio do desconhecido e a angústia da separação. Ao notarem essa mudança, certos pais temem que a criança fique menos sociável. Ela deixa de sorrir para todos, recusa-se a ficar nos braços daqueles que não conhece bem e protesta quando a mãe se afasta. Mas não se trata de uma regressão – e sim de uma crise. Esses novos temores indicam desenvolvimento mental. O bebê percebe diferenças que antes não notava. Além disso, nessa fase, está se formando nele um forte laço com as figuras que o protegem. É preciso levar isso em conta, sobretudo se a mãe, para voltar a trabalhar, tem de deixar o filho com alguém. A criança só deixará a figura materna se distanciar quando confiar nesse cuidador.

O medo de animais costuma aparecer em crianças de 1 a 3 anos, fase em que começam a se aventurar além dos limites habituais – e nem tudo que encontram é seguro. É possível distinguir aí três medos inatos: o dos movimentos repentinos, o da aproximação de estranhos e o de ruídos fortes. O temor diante de cães se enquadra bem nessas três condições. Como se trata de um medo normal para a idade, na maioria das vezes não é necessário fazer pressão para eliminá-lo. Observando a reação dos outros e habituando-se à presença dos animais, a maioria das crianças supera naturalmente esse desconforto, a menos que viva uma experiência desagradável, como uma mordida.

Entre 2 e 6 anos pode surgir o medo do escuro. O recém-nascido não teme a escuridão porque ainda não se habituou à luz. Porém, quando depois do segundo ano de vida a criança desperta no meio da noite e se vê sem as referências que tinha durante o dia, pode começar a temer a ausência da luz. Sombras, rangidos ou passos no corredor assustam bem mais à noite do que na claridade. A partir do terceiro ano, a imaginação entra em ação, elaborando cenários e interpretações. O receio de temporais e seres imaginários que poderiam se esconder na escuridão – monstros, bruxas, fantasmas – costuma assumir um valor metafórico na fase pré-escolar, mesclando-se a outros medos ligados à percepção da própria vulnerabilidade, como o de jamais acordar.

A criança se vê diante de aspectos da realidade que antes não levava em conta: conflitos entre os adultos, doenças, cenas violentas na televisão, expectativa de punição por alguma travessura cometida e a sensação de que algo mim vai acontecer geram sobressaltos muito mais radicados na fantasia que na realidade. A criança “enfurecida” com os pais, temendo a própria agressividade, pode ter pesadelos à noite. Certos medos se originam de vivências dolorosas não elaboradas (doenças, acidentes, morte de pessoa próxima etc.) ou mesmo de situações corriqueiras. Por exemplo, se a água do banho está muito quente ou se cai xampu nos olhos da criança, ela pode ficar com medo de água.

Entre 6 e 12 anos se torna mais fácil dominar pavores vividos nos anos anteriores. Ruídos fortes, flashes luminosos, escuridão, monstros e bruxas já não assustam tanto, justamente porque agora a criança tem maior capacidade de compreensão e pode entender ameaças como ladrões, doenças, dor, morte e abandono. Surgem os temores ligados ao estado social (por exemplo, questões que se referem ao desempenho escolar) e à interação com os outros (reprovação, conflitos, brigas e rejeição dos colegas). Nessa fase, tende a diminuir o medo de animais domésticos, mas pode se desenvolver o de insetos. Por mais estranho que possa parecer, uma criança é capaz de brincar com um grande cão e estremecer diante de uma formiga. Mas há uma explicação, o pavor de invertebrados e animais exóticos está relacionado à angústia provocada pelo desconhecido. Para que essa reação seja superada é preciso que a criança se familiarize com as características desses bichos.

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FOBIA E ANSIEDADE

Por vezes, porém, lidar com determinado medo é mais complicado do que parece. Por exemplo, há crianças que esmagam um inseto e fantasiam que os amigos do animal virão à sua procura para se vingar. Tal receio talvez oculte outros, como o da própria agressividade, já que, de forma projetiva, as crianças costumam atribuir os próprios sentimentos aos outros e também a objetos inanimados. Compreende-se, assim, que surjam os sonhos povoados de animais violentos e monstros horríveis.

Vários medos que se manifestam até os 12 anos – assim como certas regressões – se explicam pela instabilidade que marca toda a fase evolutiva. Diferentemente do adulto, que já tem um papel estável, referências precisas e comportamentos definidos, os modelos de conduta da criança estão em transformação. A pessoa autoconfiante reage ao perigo acionando seus recursos internos, mas a criança ainda depende dos outros e pode se sentir emocional e fisicamente paralisada diante de situações ameaçadoras. Depois de um grande susto ou em situações angustiantes que se prolongam, é comum que a criança retome, ainda que temporariamente, comportamentos típicos de estágios anteriores, nos quais se sentia mais protegida e segura.

O adolescente costuma superar os temores da infância ao desenvolver uma visão mais complexa do mundo. Isso, porém, não significa que não tenha medo. Nessa faixa etária, muitas vezes aparecem vertigens, temores ligados ao corpo (como o de enrubescer ou ter alguma anomalia) e vários outros receios referentes à esfera social e sexual como expor-se, fracassar, ser criticado, ignorado ou rejeitado. A dor, a morte, os ferimentos físicos, a deformidade e a feiura completam a lista dos “medos adolescentes”, juntamente com a insegurança de falarem público e de perder o controle sobre si.

Quando não são superados, esses medos podem evoluir para quadros fóbicos ou se configurar como ansiedade patológica, e costumam conter em sua origem angústias mais profundas – medo da solidão, temor da morte, receio de perder o controle de si ou da realidade. A fobia é um medo persistente, intenso e de difícil controle, deflagrado por experiências traumáticas. A literatura registra, por exemplo, vários casos de adultos com fobia da escuridão que, quando criança, ficaram fechados em um ambiente escuro por longo período ou foram abandonados em local desconhecido.

Por trás dos estados de ansiedade há, muitas vezes, tormentos inconscientes que amplificam os medos normais e levam à perda do controle. Há ainda situações em que nossa própria capacidade de prever perigos nos faz cair nas armadilhas do falso alarme e de uma ansiedade que brota de ameaças imaginárias. O outro lado da moeda é a coragem, isto é, o atributo de todos os que confiam na própria capacidade. Física ou moral, ela se manifesta de muitas maneiras. Ser corajoso é confiar em si não de forma irrealista, e sim com base na avaliação dos próprios recursos e da ameaça enfrentada. O corajoso reflete antes de arriscar, é cuidadoso e usa da melhor forma possível as oportunidades e os talentos dos quais dispõe. lidar com nossas assombrações – sejam elas concretas ou fictícias – é um processo de aprendizagem, que implica a aquisição de autonomia e amadurecimento, construídos no contato com o outro.

OUTROS OLHARES

PROIBIDO PARA MAIORES

A árdua vida dos servidores que passam o dia assistindo a filmes para escolher a classificação indicativa de cada um.

Proibido para maiores

Quando a imagem de um pênis surgiu em close, entre as pernas do personagem, num formato incomum, como uma planta crescendo em ritmo acelerado, toda a equipe da Coordenação de classificação Indicativa do Ministério da Justiça foi chamada a opinar. Em torno do computador, os servidores do governo federal responsáveis por definir a faixa etária adequada de público para obras audio­visuais no Brasil analisaram o trecho de Border, filme sueco ainda inédito naquele momento e atualmente em cartaz. A nudez atenuada por contexto fantasioso acabou agravada pela composição explícita da cena, concluiu o grupo. Após algum debate, levando em consideração também outras particularidades da história, eles decidiram classificar a película como não recomendada para menores de 16 anos.

Debates como o suscitado por Border, sobre sexo, violência e drogas, são corriqueiros no terceiro andar do prédio anexo ao edifício principal do Ministério da Justiça, em Brasília. Ali, a poucos metros do gabinete do ministro Sergio Moro, nove servidores passam o dia assistindo a novelas, filmes e outros programas de entretenimento, jogando games e lendo livros de RPG. Foram 1.877 obras classificadas no ano passado.

Acompanhamos o trabalho do grupo, formado por sete homens e duas mulheres, a maioria na faixa etária dos 30 aos 40 anos e com formação superior das mais diversas, de graduados em farmácia a historiadores.

À primeira vista, é o emprego dos sonhos, com cerca de dez idas por mês ao cinema, em sessões privadas, para ver filmes inéditos, já que a classificação desse tipo de produto é anterior ao lançamento. Mas deixa de ser tão in­ crível assim quando o trabalho, com jornada de oito horas por dia, consiste em assistir à produções de “fundo de quintal” ou permeadas de cenas extremamente violentas. “É muito comum ter de explicar aos amigos e conhecidos: “Não, a gente não come pipoca nem vê filme pornô enquanto trabalha”, brincou Antônio Dantas, servidor de 34 anos formado em ciência política, que, por força do ofício, passou as últimas semanas vendo um reality show a que ele jamais escolheria assistir. As obras pornográficas não passam por análise no país, porque são classificadas automaticamente como para maiores de 18 anos.

Outra ideia associada à atividade é rechaçada com ainda mais energia pelo grupo: a de censura. A classificação indicativa, regulada pela primeira vez em portaria de 1990 e atualizada pela última vez no ano passado, tenta auxiliar pais ou responsáveis a evitar a exposição de crianças e adolescentes a conteúdos inadequados. Os programas e produtos devem trazer o selo com a indicação e a descrição de conteúdo sensível. “A decisão final é da família”, afirmou Eduardo Nepomuceno, chefe de divisão processual do setor. Há um “guia prático” de como a classificação é feita, disponível ao cidadão, para defender o caráter técnico da atividade contra quem possa vir a discordar de alguma definição atribuída a um filme. Entre os próprios analistas, nem sempre há consenso. Eles, em geral, trabalham em dupla e não raro pedem socorro aos demais se alguma cena abre margem a uma avaliação mais subjetiva. “É uma segurança de que a subjetividade está sendo controlada”, explicou um deles.

Em 13 Reasons Why, série americana sobre a vida da adolescente Hanna Baker, personagem que se suicida, houve divergência. “Para maiores de 16 ou de 18 anos?”, era a dúvida inicial da equipe, que escolheu a primeira opção, menos restritiva. Não tardaram notícias relacionando a obra ao aumento de casos de suicídio em outros países e a uma explosão de ligações ao Centro de Valorização da Vida (CVV) no Brasil. A polêmica estava instalada, e o setor resolveu reavaliar, subindo a classificação para 18. “A série trazia reflexão ou glamorização do suicídio? Chegamos à segunda conclusão. A cena da personagem praticando o ato pesou na reanálise, assim como o fato de que ela tinha pais amorosos, uma vida equilibrada. A não responsabilização do estuprador é outro ponto importante”, explicou Henrique Rocha, de 35 anos, dos quais nove têm sido dedicados ao trabalho com a classificação indicativa.

Se, por um lado, 13 Reasons Why demonstra como a cobrança social pode ter efeito na classificação indicativa, por outro, o grupo assegurou que não sofre qualquer ingerência do governo. Nem da gestão Bolsonaro, caracterizada pelo conservadorismo, nem das anteriores – ao menos nos últimos 11 anos, segundo os mais antigos da equipe. As pressões vêm muitas vezes do Congresso. O caso mais rumoroso ocorreu em 2012, quando o então deputado Protógenes Queiroz quis proibir no país o longa Ted, sobre um ursinho pornográfico que usa drogas, fala palavrões e é dono de um humor ácido. O deputado levou o filho de 11 anos para ver o filme, sem se atentar que ele estava recomendado para maiores de 16 anos. Depois de não conseguir proibir a fita, Protógenes Queiroz pediu aumento da indicação para 18, mas a classificação foi mantida.

Alguém fumando um cigarro de nicotina é “consumo de droga lícita”, situado na classificação para maiores de 12 anos. Mas há fatores agravantes e atenuantes que influenciam na avaliação final. Um “contraponto” que abranda a cena, como um dependente demonstrando a iniciativa de abandonar o vício, por exemplo, pode influenciar para a redução da idade. Já a “frequência” de cenas de uso exacerba o ponto crítico.

Foi o que ocorreu no documentário O jardim das aflições, sobre o guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho. As constantes baforadas do escritor no cachimbo levaram a obra à categoria não recomendada a menores de 12 anos, com uma única observação: “droga lícita”. “Ele não fuma para propagar o consumo, mas a cena é valorizada imageticamente”, explicou Antônio Dantas.

Um dos títulos que mais renderam controvérsias no passado recente, pelo contexto político, foi Aquarius, filme de Kleber Mendonça Filho estrelado por Sonia Braga, de 2016. Em Cannes, a equipe fez um protesto contra o impeachment, recém-consumado naquele momento, da ex-presidente Dilma Roussef. Foi o bastante para a indicação para maiores de 18 anos, dada poucos meses depois sob o governo Temer, ser atacada como uma represália à obra.

Diego Coelho, o mais antigo dos analistas e autor do primeiro relatório de Aquarius, virou alvo na internet. Ainda hoje, nos sites de busca, seu nome aparece relacionado ao episódio. Coelho conta que a composição de cenas de sexo oral e orgia foi o que pesou para a classificação, e não as pressões alegadas pelos críticos. “Na dúvida, em casos limítrofes, sempre optamos pela classificação mais elevada, para garantir a proteção”, explicou Coelho, formado em biologia e arquivologia, além de ser cinéfilo declarado.

O caso, porém, levou analistas a deixar de assinar resumos dos relatórios que ficam públicos no portal do ministério. Aquarius passou pelas duas reavaliações possíveis. Na primeira reconsideração, a recomendação de 18 anos foi mantida. Na segunda e última instância, em que o resultado é assinado pelo secretário nacional de Justiça, a indicação caiu para 16 anos.

Aquarius faz par te de uma lista restrita de apenas oito filmes que, nos últimos cinco anos, foram levados até o degrau derradeiro de recurso. O longa Getúlio, sobre a vida e a morte do ex-presidente, é outro. A produtora pleiteava classificação de 12 anos, mas a recomendação para 14 foi mantida nas três avaliações, em razão do suicídio retratado.

A taxa de coincidência entre o que o produtor quer e a classificação definida pelos analistas do governo é de 55% na primeira avaliação. Entre as obras que passam por reconsideração, a pedido dos interessados, cerca de 60% permanece com a indicação inicial. É o caso do filme De pernas pro ar 3, que chegou ao setor com sugestão de 12 anos. A produtora Mariza Leão esteve recentemente no departamento, em Brasília, para acompanhar a reanálise que pediu, mas a classificação de não recomendado para menores de 14 anos foi mantida, devido ao conteúdo sexual.

Queixas também partem do cidadão comum. São cerca de 20 denúncias por mês, em geral pedindo para aumentar a faixa etária ou mesmo retirar conteúdos do ar – atribuição que o setor não possui. Em uma ligação no ano passado, um senhor do Rio de Janeiro avisou que iria “metralhar todo mundo” da classificação indicativa e da Netflix. Ele culpava um filme do serviço de streaming por “comportamentos lésbicos” da neta e se dizia impotente para proibi-la de ver a obra, já que ela cumpria os requisitos de idade da classificação.

Eduardo Nepomuceno repetiu como um mantra que ali “não se faz juízo de valor, senão é censura”. Ele disse que não há diferença se o beijo é de um casal gay ou hétero. Da mesma forma, a exibição de uma genitália masculina ou feminina terá o mesmo peso para a análise, afirmou. “Qualquer comportamento classificado de determinada forma para um grupo de pessoas será para outro. Não pode ser diferente”, insistiu.

Os nove analistas da classificação indicativa trabalham em pequenas salas individuais. Isso para que não precisem usar obrigatoriamente fones de ouvido, sob risco de problemas na audição. Eles assistem ao conteúdo em um computador enquanto fazem anotações em outro. Na área de jogos eletrônicos, há sofás.

Na gíria da repartição, “Livre Peppa Pig” é aquela obra absolutamente simples de analisar, sem qualquer ponto sensível, indicada a todos os públicos. São obrigatoriamente submetidos à classificação antes de chegar ao público os filmes que vão para o cinema e os que serão lançados em DVD, além de jogos eletrônicos e de RPG em meio físico (não inclui os veiculados na internet). Conteúdos jornalísticos, esportivos e propaganda não passam pelo crivo do governo.

TV paga, canais de streaming como Netflix, além de museus e peças de teatro, entre outras atrações, fazem a chamada autoclassificação. A indicação que elas próprias escolhem pode passar pela análise do governo por amostragem ou denúncia. Havendo divergência, a classificação estatal prevalece.

Nos canais abertos, toda a programação é autoclassificada inicialmente, mas tem de ser referendada pelo Ministério da Justiça. Jesus, novela bíblica da TV Record, estreou como “Livre”, passou para 12 anos e chegou a 14 enquanto era exibida. A gota d’água: a cabeça de João Batista exibida na bandeja por Salomé. Isso, para a equipe, foi um pouco demais.

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GESTÃO E CARREIRA

EXPERTS EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Proliferação de assistentes virtuais cria mercado promissor para uma gama variada de profissionais, de administradores a antropólogos.

Artificial intelligence

O dia amanhece e Theodore, um escritor solitário, é acordado por sua secretária virtual, Samantha, por quem está apaixonado. Ela diz “bom dia” com uma voz doce e faz piada da preguiça dele. A cena, protagonizada por Joaquin Phoenix no filme Her, parecia tão improvável quando foi exibida nos cinemas que o longa recebeu o Oscar de Melhor Roteiro Original. A única coisa parecida de que se tinha notícia era a Siri, da Apple, que ainda soava mais como ficção de Hollywood do que algo palpável de fato. O a no era 2013. Na mesma época, Steffanie Caroline Telles de Souza, de 29 anos, tentava uma vaga de atendente telefônica no Bradesco. “Entrei no banco almejando virar gerente de agência. Jamais imaginei que me tornaria professora de uma atendente virtual”, diz Steffanie, que desde 2016 faz parte do Centro de Inteligência Artificial do Bradesco, responsável pela “Bia”, a secretária digital que ganhou notoriedade em propagandas feitas pelo banco em pleno horário nobre de TV.

A primeira função de Steffanie, que é formada em administração de empresas, foi revisar os conteúdos que seriam “ensinados” para Bia – que já fez 90 milhões de interações com o público via mensagens de texto e comando de voz. Agora como líder de projetos, cargo a que foi promovida no ano passado, sua missão é mais estratégica: observar falhas no sistema e deixar as falas mais claras e objetivas, melhorando a interação da máquina com os humanos. “Acho que estou numa das áreas mais promissoras do banco”, comemora. O administrador de empresas Edilson Oliveira Lima, de 31 anos, também líder de projetos, compartilha da mesma percepção da colega. Há nove anos no Bradesco, ele conta que atuar com inteligência artificial deu a ele uma oportunidade única de se diferenciar num mundo cada vez mais automatizado. “Participar desse processo expandiu meus horizontes e movimentou minha carreira. Recebi vários treinamentos da IBM, nossa parceira. Conhecer a tecnologia Watson, uma novidade no Brasil e no mundo, é algo relevante”, afirma. O pontapé inicial de Bia aconteceu em 2016, quando o Bradesco comprou a operação do banco inglês HSBC no Brasil por 16 bilhões de reais. Naquele momento, os executivos decidiram criar um projeto piloto no qual uma assistente virtual ajudasse a orientar as cerca de 20.000 funcionários que estavam chegando. ”Ela esclarecia aos novos profissionais da agência quais eram os procedimentos para fazer uma restituição ou abrir uma conta, por exemplo”, diz Marcelo Câmara, gerente de pesquisa e inovação.

Ao passar no teste, a IA foi, enfim, lançada no mercado. Desde então, a equipe multidisciplinar que trabalha com ela quintuplicou. Hoje, o time é composto de gente de áreas tão distintas quanto ciência de dados, comunicação, linguística e antropologia. E a expectativa é que o departamento siga crescendo. Apesar de não abrir número de vagas, a empresa está contratando neste momento designers, professores e curadores de informação para inteligência artificial. “Recrutamos no mercado. Mas, como não há graduação específica para atuar na área e nossa vocação é qualificar quem está aqui, olhamos muito para dentro de casa”, afirma Victor Queiroz, diretor de RH. De acordo com ele, mais da metade do time foi formada internamente. “No começo, enviávamos as pessoas para treinamentos no exterior”, diz.

Embora o boom dos atendentes virtuais seja recente, os primeiros capítulos dessa história começaram na década passada, mais precisamente em 2007, quando estudantes da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, criaram a Siri a primeira secretária automatizada para celular do planeta. Comprada pela Apple três anos depois, por 200 milhões de dólares, a invenção foi disponibilizada nos aparelhos da marca em 2011. Hoje, segundo a consultoria especializada Verto Analytics, há 41,4 milhões de usuários ativos da tecnologia – mais do que as populações da Austrália., Uruguai e Suécia somadas.

 NA COLA DOS GIGANTES

Apesar do pioneirismo da Apple, a guinada desse novo mercado só aconteceu a partir de 2015, após a Amazon e o Google lançar em caixas de som inteligentes para se comunicar com suas respectivas secretárias virtuais, Alexa e Google Assistance. Entre outras habilidades, as duas fazem previsão do tempo, ligam e desligam dispositivos domésticos, chamam Uber e solicitam delivery de comida. Era o que bastava para virar febre.

Hoje, de acordo com o eMarketer, consultoria de pesquisa, esse mercado avança no ritmo de 48% ao ano. Até 2020, segundo projeção da consultoria RBC Capical Markets, deve movimentar 15 bilhões de dólares.

Números como esse explicam porque quase todos os segmentos da economia, do financeiro a beleza, estão criando seus assistentes virtuais. Para executivos de grandes companhias, se houver de fato uma naturalização desse tipo de tecnologia, o maior risco é ficar para trás. Afinal, quem vai querer pesquisar informações manualmente, sobretudo quando se está cozinhando ou dirigindo, quando se pode fazer isso com um simples comando de voz?

A mais recente marca a anunciar sua entrada nesse mercado é a BMW. A alemã está desenvolvendo um assistente virtual para o BMW iNEXT, veículo elétrico a ser lançado em 2021. Por aqui, os consumidores já lidam com a Bia, do Bradesco, a Lu, do Magazine Luiza, a Aura, da Vivo, e a Nat, da Natura. No fundo, as companhias brasileiras se conscientizaram que a interação entre o real e o virtual é inevitável e só aumentará nos próximos anos – inclusive dentro delas próprias. Estudo recente da consultoria Gartner mostra que 2% das empresas usam sistemas de reconhecimento de voz para esclarecer aos empregados dúvidas sobre benefícios, holerite e aviso de férias. Até 2021, esse número saltará para 25%. “Na minha opinião, esse movimento transformará o mercado de trabalho como um todo. Além de gente de TI, serão demandados profissionais da sociologia e da antropologia, importantes para auxiliar na interação entre máquinas e humanos”, diz Patrícia Molino, sócia da área de gestão da consultoria KPMG.

 GUERRA DE TALENTOS

Nesse momento, segundo fontes consultadas pela reportagem, um dos grandes desafios é encontrar mão de obra qualificada. E não adianta recrutar direto das salas de aula. Boa parte dos estudantes sai da faculdade sem saber exatamente como aplicar o conhecimento técnico nos projetos de IA. A maior dificuldade é encontrar quem tenha vivenciado a tecnologia na prática. “Como existem poucos profissionais prontos na área, companhias estão roubando funcionários umas das outras, fazendo uma espécie de leilão, o que não é saudável para os empregados, que podem estar entrando em uma bolha”, ressalta Edney Souza, professor de marketing digital da ESPM e diretor acadêmico do Digital House, centro de educação digital. Segundo ele, o salário de um cientista de dados do setor gira em torno de 10.000 reais. “Mas especialistas com mais experiência podem receber propostas de até 25.000 reais.”

É por isso que organizações vêm desenvolvendo esses profissionais dentro de casa, A Vivo é um exemplo, começamos a equipe da Aura (a assistente virtual dos serviços de telefonia) do zero. Como competíamos por gente com bancos e gigantes de tecnologia, como Google e Amazon, optamos por formar internamente em nossa Universidade Corporativa, Não havia nenhum cientista de dados conosco, hoje já são 80″, diz Ricardo Sanfelice, vice-presidente de estratégia digital e inovação.

Além de cientistas de dados, há uma gama variada de especialistas no time. “Temos linguistas para ensinar o robô a entender regionalismos e sotaques, profissionais que escutam ligações para analisar o atendimento, corrigindo e prevendo interações, e gerentes de produto”, afirma Ricardo. Segundo o executivo, essa equipe possui formações diversas e, desde agosto, já promoveu mais de 120.000 ajustes no sistema. Natália Poletto, administradora de 33 anos, teve seu cargo criado no momento em que a ideia da Aura nasceu.

Sua porta de entrada foi na área de analytics, onde começou quatro anos atrás. “Eu fazia estudos para entender o que o consumidor queria ou precisava”, conta. Hoje, ela prosperou na carreira e é uma das quatro gerentes que cuidam do dispositivo. Natália faz uma espécie de ponte entre as áreas de negócio e o corpo técnico que desenvolve as soluções, definindo quais serão as próximas funcionalidades e os canais em que a Aura deve estar presente. De acordo com ela, ter um perfil analítico é fundamental para a posição. Ter trabalhado com marketing e branding a ajudou. “Eu já tinha a experiência de olhar para a marca e pensar em como ir além”, diz. Um dos aspectos que mais a encanta é o modo como os times de IA atuam. ”Atuamos em squads, sem liderança direta.  Todos têm voz ativa e autonomia.”

Diante de todo esse ”frisson”, Lucas Mendes, sócio- fundador da Revelo, plataforma de  vagas na área digital, faz um alerta: empresas que investem para capacitar seus funcionários em IA precisam redobrar o cuidado com retenção. Segundo ele, como a experiência no dia a dia é rara e o aprendizado prático é mais importante do que conhecimento teórico, indivíduos com atuação em grandes projetos de comando de voz têm atratividade 82% maior do que graduados em TI nas vagas que a plataforma divulga para o setor. “Em cinco ou dez anos, nenhum RH vai considerar só  a faculdade do candidato neste tipo de área”, diz o especialista. Uma projeção e tanto para quem busca explorar novas áreas de atuação.

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Experts em Inteligência Artificial. 2

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 31: 10-31 – PARTE III

Alimento diário

A MULHER VIRTUOSA

 

III – A felicidade desta mulher virtuosa.

1. Ela tem a consolação e satisfação da sua virtude na sua própria mente (v. 25): “A força e a glória são as suas vestes”, em que ela se envolve, isto é, de que ela desfruta, e em que se mostra ao mundo, e assim recomenda a si mesma. Ela desfruta de uma firmeza e constância de mente, tendo ânimo para suportar as muitas cruzes e desapontamentos que até mesmo os sábios e virtuosos devem esperar encontrar neste mundo; e estas são as suas vestes, para defesa, bem como decência.

Ela tem atitudes honrosas com todos, e tem prazer em agir assim, e rirá no futuro; quando tiver mais idade, refletirá com satisfação sobre o fato de que não foi ociosa nem inútil quando jovem. No dia da sua morte, será um prazer pensar que viveu com algum bom propósito. Na verdade, ela se rirá em urna eternidade que há de vir; ela será recompensada pela sua bondade com abundância de alegria e prazeres, para sempre.

2. Ela é uma grande bênção para os seus parentes (v. 28).

(1) Os seus filhos crescem e a chamam bem-aventurada. Eles lhe dedicam palavras boas; eles mesmos são um elogio para ela, e estão prontos a lhe fazer grandes elogios; oram por ela, e bendizem a Deus por terem urna tão boa mãe. É urna dívida que têm para com ela, urna parte daquela honra que o quinto mandamento exige que se tenha com pai e mãe: e é uma honra dupla aquela que se deve a um bom pai e a uma boa mãe.

(2) O seu marido se julga tão feliz com ela, que aproveita todas as oportunidades para falar bem dela, como sendo uma das melhores mulheres. Não é nenhuma indecência, mas, na verdade, um louvável exemplo de amor conjugal, que os esposos e as esposas se deem, uns aos outros, os louvores devidos.

3. Ela tem boa reputação com todos os seus vizinhos, como Rute, a quem toda a cidade do seu povo sabia ser urna mulher virtuosa (Rute 3.11). A virtude terá o seu louvor (Filipenses 4.8). Uma mulher que teme ao Senhor terá o louvor de Deus (Romanos 2.29), e o dos homens, também. Aqui vemos:

(1) Que ela será muito louvada (v. 29): “Muitas filhas agiram virtuosamente”. As mulheres virtuosas, aparentemente, são joias preciosas, mas não joias tão raras como se pensava (v. 10). Houve muitas, mas esta é incomparável. Quem poderá achar alguém que se compare a ela? Ela supera a todas. Observe que aqueles que são bons devem desejar e cobiçar ser excelentes em virtude. Muitas filhas, na casa de seu pai, e quando solteiras, agiram virtuosamente; mas uma boa esposa, se for virtuosa, será superior a todas elas, e fará um bem maior do que elas poderão fazer. Ou, como explicam alguns: um homem não consegue ter a sua casa tão bem mantida por boas filhas, como por uma boa esposa.

(2) Ela será incontestavelmente louvada, sem contradição (v. 31). Alguns são louvados além do que lhes é devido, mas os que louvam a mulher virtuosa aqui apenas lhe dão o fruto de suas mãos; eles lhe dão aquilo que ela conquistou e que é, com justiça, devido a ela; ela será injustiçada se não for assim. Observe que devem ser louvados aqueles cujas mãos produziram frutos dignos de louvor. A árvore é conhecida pelos frutos, e. portanto, seus frutos forem bons, a árvore deve ter nosso elogio. Se os seus filhos forem diligentes e respeitos os com ela, e se comportarem como devem, então lhe darão o fruto de suas mãos; ela colhe o benefício de todos os cuidados que teve com eles, e se julga bem recompensada. Os filhos devem, portanto, procurar recompensar seus pais, e isto é exercer apieda­ de em casa (1 Timóteo 5.4). Mas, se os homens forem injustos, as suas próprias obras a louvarão às portas, abertamente, diante de todo o povo.

[1] Ela deixa que suas próprias obras a louvem, e não busca o aplauso dos homens. Não são verdadeiramente virtuosas as mulheres que se aprazem em ouvir elogios.

[2] As suas próprias obras a louvarão: se os seus parentes e vizinhos ficarem em silêncio, ainda assim as suas boas obras proclamarão o seu louvor. As viúvas fizeram o melhor elogio a Dorcas, quando mostraram as túnicas e vestes que ela tinha feito para os pobres (Atos 9.39).

[3] O mínimo que se pode esperar de seus vizinhos é que deixem que as suas próprias obras a louvem, e não façam nada para impedir isto. Que aqueles que fazem o que é bom tenham o louvor por isto (Romanos 13.3), e não devemos dizer ou fazer, com inveja, nada que diminua esse louvor, mas devemos ser provocados, por ele, a uma santa imitação. Não devemos falar mal de ninguém que tenha uma boa reputação, até mesmo da própria verdade. Este deve ser o espelho das mulheres, que elas deverão abrir para orientar o seu vestir; e, se o fizerem, os seus adornos serão dignos de louvor, e honra, e glória, na vinda do Senhor Jesus Cristo.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BBB, UM ESPELHO DE TROPEÇOS

Como propõe Bauman ao falar sobre “modernidade líquida”, sociedade vive sob o imperativo de ver e ser visto – mesmo que isso signifique perda de singularidades.

BBB, um espelho de tropeços

Acessar um blog de discussão sobre o Big Brother Brasil (BBB) seja para criticar, seja para torcer pelo participante preferido ou simplesmente observar as repercussões que os mais diversos comportamentos despertam nos espectadores pode revelar alguns ingredientes responsáveis pelo sucesso desse reality show, voyeurismo, surpresa, submissão, exibicionismo, vigília, possibilidade de exercer a punição.

Criteriosamente dosada, essa mistura aguça instintos primários do psiquismo como luta pela sobrevivência, sentimentos narcísicos, mazelas da sexualidade, ânsia (ainda que inconsciente) de poder e onipotência e desejo de controlar o destino alheio. Há, por exemplo, quem diga que o BBB é uma realidade surreal; real porque vemos o que somos, e surreal porque não acreditamos no que vemos.

Para quem ainda não sabe, a epidemia de bisbilhotice que contamina milhões de espectadores foi inspirada no romance 1984, de George Orwell. Escrito em 1948, o livro apresenta uma suposta sociedade na qual todos os indivíduos deveriam subordinar-se à vontade de um Estado totalitário, representado na figura do Grande Irmão, o Big Brother, capaz de vigiar os passos de todos os habitantes por meio de câmeras.

Não é difícil perceber que a ficção de Orwell se tornou realidade e o ditador que tudo controla passou a permear – e a manipular – variados setores de nossa existência. Quando os avanços tecnológicos – câmeras de segurança, interfones, telefones celulares, crachás eletrônicos, cartões de crédito – passam a invadir nossa privacidade, monitorando as ações cotidianas, somos literalmente vigiados e nos tornamos vulneráveis a sanções.

Tudo muito parecido com o que acontece quando um número crescente de pessoas “patrulha” os hóspedes da casa (equipada com os confortos e diversões que povoam o imaginário da maioria dos brasileiros), policiando, apoiando ou punindo comportamentos com os quais não concordam. É a curiosidade inerente à natureza humana que, em vez de canalizada para o aperfeiçoamento da vontade de aprender e adquirir experiência, volta- se à indiscrição e ao desejo de se inteirar de particularidades e segredos da vida alheia.

Quer pelas características dos participantes – permanentemente vigiados pelos olhos mecânicos escondidos – que diariamente frequentam a casa de milhões de espectadores, quer por seus valores, destaca-se a presença da mídia determinando a exposição indiscriminada, o exibicionismo e o desejo de fama, a sujeição a ridículas situações de humilhação e a submissão ao dinheiro. O que em tese seria uma representação da realidade na prática revela-se um jogo de interesses mediado pela propaganda – afinal, a disputa é por R$ 1 milhão.

Os brothers são selecionados para supostamente fornecer um recorte diversificado dos personagens da vida real, mas criteriosamente escolhidos com olhos nos “picos de audiência” (seja pelo corpo bonito, seja pela personalidade polêmica), e seu comportamento é regido pela junção da máxima intensidade com o mínimo de compromisso. Como resultado, o que se observa é a inconsequência nos relacionamentos, a superexposição de sentimentos, o culto à imagem, à superficialidade e ao erotismo. Reflexos do que o sociólogo polonês Zigmunt Bauman propõe no conceito de “modernidade líquida”. O imperativo é aparecer, ver e ser visto, mesmo que isso signifique a perda das singularidades.

Por meio de mecanismos de projeção, espectadores identificam-se e reconhecem na imagem do outro sua própria possibilidade de “vir a ser”. Afinal, se ele pode, eu também posso. Se ele aparece, eu também posso sonhar. Se é infiel, está em minhas mãos me indignar e punir… ou agir da mesma maneira porque está na moda.

Como um retrato fiel das distorções socioculturais, das injustiças da lógica econômica que produz sonhos de visibilidade, êxito empresarial, ascensão social e fama, a dinâmica do programa, por outro lado, também testemunha a necessidade de inserção e reconhecimento de seus protagonistas, sentimentos genuínos, comuns a todo ser humano. É nessas características que milhões de brasileiros se reconhecem.

Os participantes transformam-se em verdadeiros gladiadores, para usar a imagem proposta pela psicanalista Marion Minerbo, expõem-se ao julgamento público e ao “paredão” como na Antiguidade se enfrentavam leões. Matar ou morrer. O vale-tudo na telinha encontra eco na vida real.

Em recente editorial publicado pelo jornal O Estado de São Paulo, o jurista Miguel Reale Júnior escreve: “O programa gera a perda do respeito de si mesmo por parte dos protagonistas, prometendo-lhes sucesso ao custo da violação consentida da intimidade. Mas o pior: estimula o telespectador a se divertir com a baixeza e a intimidade alheia. O Big Brother explora os maus instintos ao promover o exemplo de bebedeiras, de erotismo tosco e ilimitado, de burrice continuada, num festival de elevada deselegância”

E não se pode dizer que essa ácida crítica esteja muito distante do que vemos nos bailes funk que agitam as noites das metrópoles. Percebe-se a reverberação desses novos valores nas escolhas interativas do público (mais um produto da revolução tecnológica nas comunicações), que adquire o poder de comandar, sacrificar ou privilegiar, identificado que está com os heróis, vilões, sereias, fadas e bruxas confinados no mesmo espaço. Como personagens arquetípicos, configuram modos de ação nos quais o espectador pode se ver espelhado e, assim, influenciar os rumos da trama que, aparentemente, se estabelece sem o script das novelas.

Segundo a psicologia junguiana, arquétipos são padrões ou motivos universais que se originam no inconsciente coletivo e, ao se apresentarem à consciência, evocam reações emocionais que determinam as formas particulares como cada pessoa elabora experiências.

Mais frequentemente do que se pode imaginar as vivências de um arquétipo são experimentadas por projeção, o que justifica a atração por mocinhas turbinadas e garotões sarados: heróis e sereias que seduzem e repelem, com o único objetivo de vencer. Diante de um pequeno revés deixam transparecer seu lado de vilões; ou permanecem na defensiva, encenando o papel de mocinhas desprotegidas e garotos desfavorecidos, que escondem sua real identidade como estratégia de jogo – uma miscelânea de emoções e atitudes que alicia os espectadores e os convida a fazer parte desse show que explora as mais variadas experiências e tropeços aos quais todo ser humano está vulnerável, independentemente da etnia, da cultura ou do padrão social.

 

SILVIA GAAUBART – é jornalista, analista junguiana, membro da Associação Junguiana do Brasil (AIB), do Instituto Junguiano de São Paulo e da lnternational Association for Analytkal Psichology (IAAP), Zurique.

OUTROS OLHARES

O DRAMA DOS PROFESSORES BRASILEIROS

Rede pública paga salários baixos, carece de condições materiais para uma boa educação e convive com um número excessivo de trabalhadores temporários.

O drama dos professores brasileiros.

Se existe uma profissão desprestigiada hoje no Brasil é a de professor. Não se trata exatamente de um problema atual, mas de uma situação que se arrasta e não se resolve. Passam-se os anos e nada é feito para valorizar os profissionais do ensino. Além de sofrerem frequentes humilhações e violências em sala de aula, serem acusados, em tempos recentes, de doutrinação ideológica, ainda têm de conviver com uma baixa remuneração, que não corresponde à importância de seu trabalho. A hora aula de um professor da rede pública estadual de São Paulo, que está próxima da média nacional, atualmente gira em torno de 12 reais. Se der 40 horas aula por semana, 8 horas por dia, um professor iniciante concursado vai ter rendimentos de cerca de R$ 2,4 mil. O salário médio dos professores não é muito diferente do obtido, por exemplo, por uma empregada diarista, que, em São Paulo, cobra, em média, R$ 100 reais por dia. E está abaixo do piso salarial de um garçom, cuja remuneração base é de R$ 2,8 mil. Por questão de formação e conhecimento e pelo que significam para o futuro das crianças e adolescentes, os professores deveriam ganhar muito mais. Ouvido, um professor veterano que não quis se identificar, chorou ao falar de sua condição financeira.

O drama dos professores brasileiros. 2

SISTEMA INJUSTO

“O sistema é injusto, faz a gente pegar duas aulas de manhã e na terceira já tem que sair para outra escola”, afirma o professor Rafael Canudense, 33 anos, que dá aulas de história na Escola Estadual Renata Graziano de Oliveira Prado, no Jardim Guarujá, em São Paulo. “Às vezes, no meio da tarde, o professor já rodou quatro escolas. Tem dias que dou cinco aulas, tem dias que dou nove. Tem mês que vem R$ 900 de salário, em outros vêm R$ 1,5 mil e, no máximo, R$ 2,4 mil”. Canudense é o chamado professor eventual, que realiza as mesmas funções dos concursados, mas não goza dos benefícios e nem possuem um vínculo empregatício duradouro. Esse grupo de substitutos representa cerca de 14% do total de professores da rede pública do estado, um contingente de mais de 180 mil profissionais. Para os eventuais não há nenhum direito.

Ser professor do ensino público, principalmente nas periferias, não é fácil. Um dos problemas é a precariedade dos colégios. Outra é a logística para professores que circulam entre diversas escolas. Falta verba de manutenção e recursos educacionais. Que o diga Andressa dos Santos Silva, 36 anos, que dá aulas de sociologia na escola estadual Alberto Conti, em Santo Amaro. “Recursos na escola? Que recursos? Não tem nada além do giz e lousa”, afirma Andressa. “Depois das últimas chuvas, caiu um pedaço do muro e o conserto só foi feito porque os professores e a associação de Pais e Mestres fizeram uma vaquinha para pagar”. Ela conta que em algumas escolas mais da metade dos professores são temporários. Por falta de mão-de-obra, há muitos profissionais readaptados, com restrições físicas ou mentais, prestando serviços.

“Hoje tomo remédio para depressão. É de tanto passar nervoso na profissão” Andrea Patrícia Schianti, professora de matemática.

A professora Valmira Coelho, 69 anos, readaptada para a função de secretária na Escola Estadual Maria Luiza de Andrade Martins Roque, no Jardim Eliana, é um desses casos “Tenho duas filhas desempregadas e consigo sobreviver porque tenho pensão do meu marido”, diz. “Sofro também com a sobrecarga de funções porque sou readaptada e, em tese, não possuo mais condições físicas ou mentais de dar aula”. A sobrecarga é um problema frequente de muitos professores, como José Augusto, 52, que dá aulas de sociologia e história nas escola estaduais Renato Braga, no Jardim Casablanca, e Arnaldo Laurindo, no Parque Santo Antônio. “Para ter o sustento da família hoje é preciso ter dois cargos, de manhã até de noite. Pois o salário de um cargo não é suficiente, são poucos que conseguem”, diz.

O alto número de profissionais que não trabalham apenas em uma escola é apontado por Cláudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV, como um dos principais problemas da educação brasileira. “O professor não pega uma aula em cada escola porque ele deseja, o sistema é desenhado para isso”, diz. Segundo ela, há professores concursados com cargas horárias abaixo de 10 horas semanais. Ela avalia que profissionais da educação precisam de um contrato como qualquer outro profissional, com 40 horas semanais.

 SAÚDE MENTAL

As dificuldades dentro da sala de aula muitas vezes afetam a saúde mental dos professores. No caso da professora de matemática Andrea Patrícia Schianti, 50 anos, da Escola Estadual Dogival Barros Gomes, os problemas se acumularam de uma forma que levaram à síndrome do pânico e à depressão. Convivendo com fibromialgia há 11 anos, precisou pedir afastamento por três anos por não ter condições de dar aula, algo que implica em salários mais baixos. “Hoje tomo remédio para depressão. É de tanto passar nervoso na profissão”, diz. Após um período afastada, Andrea conseguiu a readaptação para trabalhar na secretaria da escola por dois anos e optou por voltar para as salas de aula neste ano. Se a vida não está fácil para ninguém, é certo que para os professores, ela está muito pior.

“NÃO APRENDEMOS COM NOSSOS ERROS”
O economista chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper, Ricardo Paes de Barros, faz um diagnóstico dos problemas da educação no Brasil e diz que falta governança para que as escolas funcionem melhor

POR QUE A EDUCAÇÃO PÚBLICA BRASILEIRA NÃO FUNCIONA DIREITO?

Há diversas razões educacionais e pedagógicas para isso. Mas a sensação que a gente tem é de que tudo decorre de uma questão de governança. O Brasil está se esforçando. Já chegamos a 6% do PIB com gastos em educação, mas nosso desempenho é fraco.

A POBREZA AFETA NOSSO DESEMPENHO?

Não. Há cidades do Ceará e do Piauí, por exemplo, que têm índices ótimos de qualidade educacional. E se tem lugares que vão muito bem é porque a gente sabe fazer. Uma das razões pelas quais não evoluímos é que não conseguimos aprender com nossos erros e acertos.

QUE TIPO DE ERROS SE COMETE?

A nossa educação média, por exemplo, é um absurdo. Hoje, a diferença entre a nota média de matemática do aluno do final do ensino fundamental e do aluno do ensino médio é de 10 pontos na escala do Saeb. Dez pontos é pouco. Isso significa que no final do ensino médio o aluno sabe a mesma coisa que sabia no final do fundamental. Algo de errado está acontecendo.

 

GESTÃO E CARREIRA

O RH QUE VALE OURO

Pesquisa exclusiva revela os cinco papeis que transformam o profissional de recursos humanos num executivo indispensável para a empresa – e pronto para enfrentar os desafios do futuro

O RH que vale ouro

As transformações pelas quais o mundo do trabalho está passando influenciam todas as pessoas – desde as mais operacionais até as estratégicas. Tanto que, de acordo com um estudo encomendado pela Deli Technologies para o Institute for the Future, até 2030, 86,96 % das ocupações serão novas.

E quem está na área de recursos humanos não fica de fora desse turbilhão. Pelo contrário. Sente com ainda mais profundidade as mudanças que estão ocorrendo. Não é à toa. O RH é um dos grandes responsáveis por construir a ponte entre o presente e o futuro, sem deixar de lado as lições do passado. ”O modelo econômico atual coloca o capital humano como principal vantagem competitiva e geração de riqueza”, diz João Lins, diretor executivo dos cursos corporativos da Fundação Getúlio Vargas e professor de gestão de pessoas. Por Isso, nos próximos anos, o líder de RH poderá ter um lugar de protagonista, propondo novos caminhos para as companhias. “Mas, para Isso, vai precisar ter coragem de confrontar o statu quo para sugerir as mudanças necessárias”, afirma Roberto Aylmer, consultor especialista em gestão estratégica de pessoas e professor na Fundação Dom Cabral.

Essa é uma missão e tanto que requer uma caixa de ferramentas poderosa – e um novo perfil de profissional. Prova disso é que, de acordo com um levantamento da consultoria Gartner, seis em cada dez CEOs estão repensando a atuação do RH. E, ao mesmo tempo, apenas 8% das funções da área de recursos humanos estão alinhados ao que a liderança realmente precisa. ”O trabalho está sendo ressignificado, e o RH também precisa passar por isso”, diz Anderson Sant’Anna, professor na Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV- Eaesp).

Mas como seria essa nova atuação? Para responder a essa pergunta, a mesma Gartner mapeou, por meio de pesquisas conduzidas com executivos de todo o mundo nos últimos cinco anos, quais são os pilares em que o profissional de gestão de pessoas deve atuar para tornar-se um executivo de primeira linha – e que são divulgados com exclusividade. Chegaram à conclusão de que existem cinco áreas que são as fundamentais: liderar o capital humano, criar a estratégia de talentos, comandar a transformação organizacional, conduzir a cultura e o propósito, atuar como conselheiro e coach. “O CEO quer um líder que atue em todas as frentes da empresa, participando efetivamente do negócio”, diz Brian Kropp, vice-presidente e líder de práticas de RH na Gartner. Segundo os especialista, é necessário atuar em todas essas esferas simultaneamente para tornar-se o líder de pessoas de que as organizações realmente precisam, hoje e no futuro. Nas próximas páginas, mostramos o porquê de cada uma delas e quais competências demandam.

1 – LIDERAR O CAPITAL HUMANO

Há uma ligação direta entre pessoas, desempenho e resultados financeiros. É o que aponta o estudo Work force 2020, feito pela Oxford Economics, consultoria britânica com mais de 2.700 executivos. De acordo com a pesquisa, as companhias que mais crescem são as que tratam, com atenção, a gestão de talentos: 55% das que informaram alta performance dizem que estão satisfeitas com a qualidade dos profissionais na maioria das posições. Some-se isso ao avanço da tecnologia, ao novo perfil do consumidor (mais exigente e bem informado) e ao convívio de diversas gerações no ambiente de trabalho, e o resultado é o aumento da importância (e da complexidade) da gestão de pessoas.  “No jogo competitivo, quem lidera a atração e a retenção de talentos está à frente”, diz João, da FGV.

Segundo a análise da Gartner, sempre que houver mudanças significativas no mercado ou na sociedade que impactem a empresa, o líder de RH precisa estar preparado para fornecer uma estratégia de como o capital humano deve ser gerenciado e estar pronto para sempre ajustar o time às necessidades da companhia. “O RH deve ter profundo conhecimento da estratégia do negócio para conseguir criar, propor e construir estruturas organizacionais que levem a empresa aos resultados esperados”, diz Rafael Souto, presidente da Produtive, consultoria de planejamento e transição de carreira. É crucial, assim, ter uma visão sistêmica da companhia, com todos os talentos mapeados e bem treinados para conseguir agir em um momento de mudança de cenário. E estar pronto para encarar as mais complexas danças das cadeiras, como uma mudança na presidência.

Foi o que aconteceu com Sylmara Requena, vice-presidente de RH da Siemens, no segundo semestre de 2016, quando foi surpreendida com a decisão de seu CEO, Paulo Stark, de deixar a companhia para tocar um projeto pessoal. Apesar da situação inesperada, a executiva estava pronta para lidar com a questão. Já havia sucessores na mira da multinacional – dentro e fora da empresa. “O mapeamento é algo vivo, atualizado com frequência. Sempre precisamos ter profissionais que possam assumir uma posição em curto prazo para não sofrermos com a saída de um talento estratégico”, diz Sylmara. O processo, que culminou na contratação de André Clark, executivo que veio do mercado, durou dez meses. Nesse período, Sylmara precisou de poder de influência, jogo de cintura e profundo conhecimento da cultura e da estratégia para aprovar o candidato com a matriz. “Quando falamos da sucessão de um CEO, qualquer deslize pode ser fatal para o negócio”, diz. Segundo a VP, que tocou pela primeira vez uma troca de presidente, um dos maiores desafios como profissional foi manter o equilíbrio emocional para lidar com todo o processo, que envolve confidencialidade, antecipação de possíveis impactos e a escolha certa do principal nome da empresa.

O QUE DESENVOLVER

SENSO DE JUSTIÇA:

Capacidade de estruturar, de forma eficaz e sucinta, análises complexas de custos – benefício para auxiliar a diretoria nas principais decisões referentes ao capital humano.

 IDENTIFICAÇÃO DE TENDÊNCIAS:

Habilidade de antecipar os desafios que os líderes deverão enfrentar no futuro quando o assunto são as pessoas, desenvolver mecanismos para gerir problemas com antecedência e monitorar as ações futuras da diretoria.

 MOMENTOS DECISIVOS

GERENCIAR A TRANSIÇÃO DO CEO:

Desenvolver o processo de sucessão, encontrar o substituto ideal, fazer a integração do novo líder e o desligamento do anterior.

COORDENAR OS EXECUTIVOS EM SITUAÇÕES DE CRISE:

Gerenciar a liderança quando a companhia passa por um momento delicado que pode colocar em risco sua marca ou reputação.

 2- CRIAR A ESTRATEGIA DE TALENTOS

Muito mais do que elaborar ações tradicionais de recrutamento e seleção, o RH precisa projetar uma estratégia de pessoas que esteja baseada em como a organização realmente funciona. Apenas dessa forma é possível identificar e selecionar os profissionais certos para as funções corretas, no melhor momento. De acordo com o levantamento da Gartner, os CEOs confiam cada vez mais no líder de RH para encontrar, gerenciar e desenvolver funcionários que conseguirão atingir os objetivos estratégicos da companhia. Isso se torna mais importante quando se sabe que 75% das organizações estão suscetíveis a enfrentar uma escassez de capacidade interna dentro de cinco anos, de acordo com a Gartner. “Se o RH não tiver um papel mais ativo, estratégico e protagonista, poderá perder o espaço na empresa”, diz Anderson, da FGV- EAESP.

E, em alguns momentos, é preciso revisar o que já existe para preparar-se para o futuro. Vanessa Lobato, vice­ presidente de RH do Santander, afirma que, ao assumir o setor em meados de 2013, percebeu que sua área estava distante da estratégia. “O RH deve estar alinhado em tudo que está relacionado à empresa para saber, por exemplo, se o negócio passa por um momento de retenção ou atração de talentos,” diz. Para reestruturar a atuação da área e aproximá-la da estratégia, Vanessa criou um comitê de pessoas com 14 executivos de setores como varejo, atacado e comercial, que se reúnem a cada dois meses e participam ativamente da construção das principais ações de gestão de pessoas. “Não adianta contratar um trainee com a visão de RH. Tem de ter a visão dos gestores que vão trabalhar com este profissional.”, afirma.

Em 2016, em parceria com esse comitê, a área de recursos humanos conduziu a redefinição do perfil do talento para o banco, tendo em vista as mudanças no mercado de trabalho. Depois de muito estudo e mapeamento, percebeu-se que era importante acrescentar algumas habilidades na descrição dos candidatos, como inteligência emocional e empreendedorismo. Além disso, abriram os olhos para a diversidade, recrutando minorias e fugindo do “perfil bancário” tradicional, formado por funcionários das mesmas universidades e com o mesmo estilo de vida. “O que traz resultado ao negócio é ter um mix de talentos, não pessoas iguais”, diz.

COMPETÊNCIAS

TOMADA DE DECISÃO

Compreender de forma holística o modelo de negócios da companhia, com domínio de dados financeiros e tendências externas, para tomar decisões referentes às demandas de talentos atuais e futuros.

AVALIAÇÃO DOS TALENTOS – CHAVE

Analisar e recrutar de maneira contínua os principais talentos da companhia, aqueles que podem alcançar posições de liderança.

 ESPECIALIZAÇÃO DE GESTÃO DE PESSOAS

Manter-se atualizado e de aplicar técnicas de gestão de talentos para resolver os desafios de RH da empresa.

 MOMENTOS DECISIVOS

CONDUZIR A TOMADA DE DECISÃO DOS EXECUTIVOS

Monitorar tudo o que esteja relacionado ao mundo do trabalho (desde as tecnologias até as expectativas dos profissionais) para influenciar diretamente os principais resultados do negócio e as decisões sobre ações de recompensa, desenvolvimento e contratações.

LIDERAR UMA REESTRUTURAÇÃO OU AQUISIÇÃO

Identificar quando é preciso mudar a estratégia de gestão de pessoas para obtenção de resultados, sabendo desenvolver, projetar e implementar um plano de capital humano que atenda às demandas de negócios no momento certo.

3 – CONDUZIR A TRANSFORMAÇÃO ORGANIZACIONAL

A demanda do Líder de pessoas de comandar em um ambiente de constante transformação só tende a crescer. Segundo a Gartner, 73% dos CEOs esperam que a área implemente cada vez mais rápido as mudanças. Essas transformações podem ocorrer por causa de diversas razões, desde tecnológicas até de mercado (como fusões e aquisições e a chegada de um novo concorrente). “Sempre que possível, o RH deve antecipar as necessidades da força de trabalho – e do mercado – e garantir que essas demandas sejam abordadas em relação à cultura, à estratégia e ao contexto de negócios da empresa”, diz Vicky Bloch, sócia da Vicky Bloch e professora nos cursos de especialização em RH da FIA e da FGV. Brian Kropp completa o pensamento: “Além de antecipar soluções para as mudanças, o profissional precisa estar preparado para conduzi-las. Ele passa a ter papel estratégico nas decisões”. Esse raciocínio deve ser algo que acontece no dia a dia. É como o de um gerente comercial que percebe que a demanda por determinado produto está caindo e tem a missão de encontrar uma novidade para substituí-lo.

Adaptação é a palavra-chave. Quem a usou foi Anderson Vablerde quando o Peixe Urbano se fundiu com o Groupon em 2017. Atual diretor das áreas de pessoas, jurídico e facilities para a América Latina, o executivo precisou ter jogo de cintura para atuar em duas frentes: desenvolver-se pessoalmente aprendendo rapidamente espanhol (que, ao lado do português, é a língua oficial da nova empresa) e criar uma estratégia de unificação das companhias. Um pilar importante para isso foi colocar pessoas da equipe de RH em diferentes áreas, assim haveria um atendimento mais próximo para compreender quais seriam as necessidades dos empregados e dos gestores. “Isso foi crucial, pois tivemos de unificar os processos e as políticas envolvendo seis países: Brasil, Chile, Argentina, México, Colômbia e Peru”, diz Anderson. Essa estratégia deu agilidade para a junção das duas marcas, pois auxiliou a avaliação de performance dos empregados (que definiu quem continuaria e quem sairia da empresa) e a checagem dos indicadores internos (análise que levou à definição das estratégias de negócios). Uma das decisões teve relação com a cultura. Ao analisar o índice de satisfação dos funcionários com os valores, a equipe de RH notou que havia mais alinhamento com os do Peixe Urbano do que com os do Groupon, por isso foi decidido que a nova cultura teria mais elementos daquela empresa. A fusão levou um ano e foi constantemente comunicada aos 1.000 empregados da companhia (500 atuando no Brasil e 500 em países da América cujo espanhol é a língua oficial. “Não podíamos deixar passar muito tempo desde o anúncio da fusão até a definição da estrutura, a unificação de cargos e a criação de um novo esquema de remuneração variável. Essas mudanças são as que geram mais desconforto e incertezas”, diz Anderson.

 COMPETÊNCIAS

FOCO NO CLIENTE

Articular e conduzir mudanças organizacionais, lidando com as expectativas dos clientes, mas sem esquecer de tudo o que envolve os funcionários.

 ADAPTABILIDADE

Implantar os recursos de RH para administrar problemas e gerenciar mudanças.

LIDERANÇA MOTIVACIONAL

Comunicar e criar um ambiente atraente e inspirador que tenha visão e metas claras para todos os funcionários, além de ser transparente quanto aos processos e às mudanças.

 MOMENTOS DECISIVOS

CRIAR ESTRATÉGIAS PARA TRANSFORMAÇÕES

Construir uma infraestrutura que possibilite mudanças na forma como o trabalho é feito, impulsionando o engajamento e o desempenho.

CONDUZIR PROJETOS OUSADOS

Aproveitar oportunidades para demonstrar uma liderança agressiva e corajosa, como o lançamento de um centro de inovação ou a criação de uma incubadora para desenvolver talentos e apoiar o crescimento.

 4 – DIRIGIR A CULTURA E O PROPÓSITO

Apesar de o CEO ser o principal responsável pela cultura organizacional, a pesquisa da Gartner mostra que a maioria vê o líder de RH como um parceiro fundamental nessa construção. Porém, menos de um terço dos presidentes acredita que a cultura da empresa os prepare para as mudanças estratégicas e as tendências externas do mercado. “Cultura é o assunto que os CEOs mais falam, de que mais gostam e mais querem dominar. O que muda é a velocidade com que as empresas querem aperfeiçoar sua cultura. As mudanças que eram concluídas em três ou quatro anos agora precisam ser realizadas em quatro meses”, diz Brian.

O mais importante nesse processo é o entendimento de que valores e propósitos precisam estar alinhados à estratégia da companhia – e ser demonstrados todos os dias. “O papel mais importante do RH é garantir que as políticas de gestão de pessoas estão condizentes com a cultura. É por meio das ações e das decisões do dia a dia (contratação, demissão, sucessão) que a pessoas veem a materialidade dos valores empresariais”, diz João. Tudo pode vir por água abaixo se o discurso não acontecer na prática. Se a empresa tem entre seus valores a diversidade, mas só há homens brancos em sua diretoria, algo está fora de sincronia.

Claro que um dos maiores desafios nesse pilar é a implementação de uma nova cultura. A LocaLiza, de aluguel de carros, está vivendo esse momento e quem está à frente é Daniel Linhares, diretor de RH da companhia. Mas a transformação da empresa não é de hoje. Tudo começou há quatro anos, por causa de mudanças na diretoria que levaram um dos fundadores da empresa, Salim Mattar, a se afastar da presidência. Essa mudança, ao lado da entrada de novos profissionais, fez com que a Localiza percebesse, em 2018, que era hora de repensar os valores. A ideia é mesclar o que sempre foi importante para a empresa às necessidades das novas gerações. “A cultura deve ser construída em conjunto. Conversamos com todos os líderes – dos novos aos mais antigos – para saber o que devia ser mantido e o que podíamos melhorar”, diz Daniel. Empregados de diversos cargos e áreas puderam contribuir com ideias em fóruns de discussão. Entre os novos valores estão inovação (algo para o futuro) e empresa cidadã (que conecta com o passado da companhia). Com os valores definidos, foi criado um grupo de referência, formado por 25 gestores que, a cada três meses, debatem sobre a adesão da cultura no dia a dia, identificando o que está sendo praticado e o que precisa ser reforçado. “Tem sido um desafio e tanto disseminar e manter forte nosso propósito. Temos 8.000 funcionários e mais de 600 pontos de venda”, afirma Daniel.

 COMPETÊNCIAS

VISÃO CULTURAL

Fazer parcerias com o CEO e outros executivos para criar e unificar o propósito e os objetivos organizacionais, com base na estratégia comercial e no contexto social. Desenvolver uma cultura que transmita essa mensagem aos clientes internos e externos.

EXEMPLO A SER SEGUIDO

Demonstrar a cultura organizacional por meio de ações e interações individuais.

DESIGN DE PROCESSOS

Ajustar os processos de RH para que sejam consistentes com o propósito organizacional, influenciar os líderes para que alinhem negócios, processos e cultura.

 MOMENTOS DECISIVOS

LIDERAR UMA TRANSFORMAÇÃO CULTURAL

Elaborar uma iniciativa de longo prazo para impulsionar uma reviravolta da cultura e o engajamento em toda a organização.

GERENCIAR O IMPACTO DA TECNOLOGIA NA CULTURA

Administrar a organização em momentos de pressão e demanda por novas tecnologias no local de trabalho, como inteligência artificial, aprendizados social e análise de dados, além de antecipar o impacto da I A na cultura e na produtividade dos empregados.

5 – ATUAR COMO CONSELHEIRO E COACH

Aconselhar pessoas talvez seja uma das razões pelas quais muitos profissionais de recursos humanos escolhem a área. Mas essa habilidade não pode ser deixada de lado enquanto cresce na carreira. Ao contrário. Torna-se cada vez mais importante. “O RH precisa vestir a camisa de coach. Muito mais do que gerenciamento de talentos, um líder de recursos humanos deve estar próximo do CEO e dos executivos de negócios para orientá-los nas tomadas de decisões e guiá-los no desenvolvimento profissional”, diz Brian.

Isso é crucial porque a alta liderança tem, no executivo de pessoas, uma figura importante para obter a perspectiva do mercado e o cenário interno da empresa em relação a talentos e demandas. “Ser RH é lidar com gente. Deixar esse papel de lado pode custar caro à empresa”, afirma Anderson Sant’Anna, da FGV- EAESP.

Renata Lorenz, vice-presidente de gente e gestão do Grupo Zap, plataforma de aluguel de imóveis, sente isso na pele. Ela é a principal conselheira de Lucas Vargas, CEO da empresa, atuação que a levou a acumular, em março deste ano, o cargo de diretora de operações. Renata está sempre pronta a ouvir o principal líder da companhia e a aconselhá-lo em diferentes situações, desde momentos de estresse, nos quais ele costuma ficar mais centralizador porque precisa tomar decisões estratégicas sobre o negócio, até quando deve lidar com assuntos ligados a pessoas. “Durante a fusão com o Viva Real, tivemos de ajustar o quadro de funcionários. No calor da emoção, Lucas, que tem um perfil muito executor, queria resolver logo a questão. Falei  que era melhor pensar junto e sugeri que ele desse espaço para que cada líder tomasse sua decisão”, afirma Renata. “A ideia é sempre ajudar o executivo a entender qual é o impacto de uma decisão e qual poderia ser o melhor caminho”. Para atuar com gestão de pessoas e no aconselhamento de executivos, Renata, formada em engenharia com especialização em administração, fez curso de coaching e de PNL, disciplina prática que tem como objetivo abordar e compreender os vários níveis de pensamentos.

O processo exige cuidado e sensibilidade para saber quando e como aconselhar, como explica Eliana Dutra, CEO da ProFit Coach. “O mais importante é negociar a atitude, perguntando ao executivo se ele quer aconselhamento e em quais situações”, afirma. Trata-se de uma relação que se constrói com o tempo, por meio de uma postura transparente, coesa e honesta. Renata conta que nunca inicia uma conversa com Lucas para convencê-lo, e sim para dar alternativas. “Não dou respostas, faço perguntas”, afirma.

 COMPETÊNCIAS

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Identificar suas forças e fraquezas e procurar feedback e pontos de vista diferentes para gerenciar as próprias emoções e as dos outros.

 OBJETIVIDADE AO FALAR

Dar conselhos equilibrados e imparciais aos líderes de todas as áreas, mantendo sempre a confidencialidade. Envolver toda a diretoria em questões importantes, sendo capaz de influenciar algum executivo quando necessário.

 MOMENTOS DECISIVOS

CONVERSAR COM A LIDERANÇA SOBRE SUAS NECESSIDADES

Engajar e influenciar os executivos a pensar sobre as demandas futuras da liderança da empresa, usando dados para construir um plano de sucessão abrangente.

 A PIRÂMIDE DO SUCESSO

O diagrama abaixo mostra quais são os fundamentos e os pilares nos quais o RH precisa atuar para tornar-se um executivo de primeira linha – aquele que, efetivamente, ajuda a empresa a atingir bons resultados.

O modelo, desenvolvido pela Gartner, pode ser aplicado a profissionais de todo o mundo e de todas as indústrias.

O RH que vale ouro. 2

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 31: 10-31 – PARTE II

Alimento diário

A MULHER VIRTUOSA 

 

II – Uma descrição particular da mulher e de suas excelentes qualificações.

1. Ela é muito diligente para se recomendar à estima e afeição de seu esposo. Aqueles que são verdadeiramente bons, também serão relativamente bons. Uma boa mulher, se trazida à situação de casada, será uma boa esposa, e se dedicará a agradar o seu marido (1 Coríntios 7.34). Embora ela mesma seja uma mulher de valor, o seu desejo está ligado aos desejos do seu esposo; ela deseja conhecer tanto os pensamentos como as vontades dele, para que possa se adaptar a estes, e está disposta a permitir que ele a governe.

(1) Ela se comporta de tal maneira que seu esposo pode depositar toda a sua confiança nela. Ele confia na sua castidade, de que ela nunca lhe deu a menor oportunidade para suspeitar ou alimentar qualquer zelo; ela não é mal-humorada, nem ressentida ou reservada, mas modesta e séria, e tem todos os sinais de virtude na sua aparência e comportamento; o seu esposo sabe disto, e por isto o coração dele confia nela, com segurança; ele sente-se tranquilo, e a torna tranquila. Ele confia no comportamento dela, de que ela saberá falar em todos os grupos, e agir em todas as questões, com prudência e discrição, de modo a não causar nem danos nem vergonha ou censuras ao esposo. Ele confia na fidelidade dela aos seus interesses, e que ela jamais irá trair os seus conselhos nem terá nenhum interesse diferente dos da família dele. Quando ele se ausenta, para atender aos interesses do público, pode confiar nela. para ordenar os seus negócios em casa, tão bem como se ele mesmo estivesse ali. É uma boa esposa que merece confiança. e é um bom esposo o que deixa que uma boa esposa cuide das coisas para ele.

(2) Ela contribui tanto para o seu contentamento e satisfação, que ele não terá necessidade de buscar outras satisfações; não precisará buscar prazeres fora de casa, como precisam fazer aqueles cujas esposas são orgulhosas e esbanjadoras em casa. Ela administra os assuntos de seu esposo, de modo que ele sempre tenha prosperidade, tenha tantos bens que não terá tentação de se aproveitar de seu próximo. Ele se considera tão feliz com ela, que não inveja os que têm a riqueza deste mundo; ele não precisa dela, ele tem o suficiente, tendo uma esposa como ela. Bem-aventurado é o casal que tem tal satisfação, um com o outro’.

(3) Ela se dedica constantemente a fazer-lhe o bem, e teme fazer alguma coisa, ainda que inadvertidamente, que possa resultar em prejuízo para ele (v. 12). Ela mostra o seu amor por ele, não com um carinho tolo, mas com uma ternura prudente, ajustando-se ao seu temperamento, sem contrariá-lo, dando-lhe boas palavras, e não más, nem quando ele está de mau-humor, procurando deixá-lo à vontade e tranquilo, dando-lhe o que é adequado para ele, na saúde e na doença, e cuidando dele com diligência e ternura quando ele adoece; e ela não faria, voluntariamente, por nada deste mundo, nada que pudesse ser um dano à sua pessoa, família, propriedades ou reputação. E esta é a sua preocupação, todos os dias da sua vida; não somente no princípio, ou de vez em quando, quando ela está de bom-humor, mas perpetuamente; e ela não se cansa das boas coisas que faz a ele: ela lhe faz bem, não somente todos os dias da vida dele, mas também da sua própria vida; se ela viver mais do que ele, ainda lhe estará fazendo bem, no cuidado de seus filhos, de suas propriedades e da sua boa reputação, e todas as preocupações que ele deixou para trás. Nós lemos sobre a beneficência exibida, não somente para com os vivos, mas também para com os mortos (Rute 2.20).

(4) Ela contribui para a reputação de seu marido no mundo (v. 23): “Conhece-se o seu marido nas portas”, como tendo uma boa esposa. Pelos seus sábios conselhos e a prudente administração de seus assuntos, aparente­ mente ele tem uma companhia discreta e criteriosa no seu seio, com cuja convivência ele se aprimora. Por seu humor agradável, aparentemente, ele tem uma esposa agradável em casa; pois muitos que não têm uma esposa agradável têm seu humor estranhamente azedado por isto. Na verdade, por meio de seu modo de vestir, limpo e elegante. e pelo fato de tudo nele ser decente e agradável, embora não extravagante, pode-se saber que ele tem uma boa esposa em casa, que cuida de suas vestes.

2. Ela é alguém que se empenha no seu dever, e tem prazer nisto. Esta parte do seu caráter é bastante de­ talhada aqui.

(1) Ela detesta ficar sem fazer nada: Ela não come o pão da preguiça (v. 27). Embora não precise trabalhar para ganhar o seu pão (ela tem uma condição que a sustenta ), não precisa comer na ociosidade, porque sabe que nenhum de nós foi enviado a este mundo para estar ocioso, que quando não temos nada para fazer o diabo logo encontrará algo para fazermos, e que não é adequado que aqueles que não trabalham comam. Alguns comem e bebem porque não encontram outra coisa para fazei; e visitas desnecessárias devem ser recebidas com um entretenimento elegante; estes comem o pão da preguiça, que a mulher virtuosa não aprecia, pois nunca faz ou recebe visitas ociosas, nem tem palavras ociosas.

(2) Ela tem o cuidado de ocupar o seu tempo, para que ele não seja perdido. Quando a luz do dia acaba, ela não pensa, então, que é momento de deixar de lado seu trabalho, como são forçados a faze r os que trabalham nos campos (Salmos 104.23), mas a sua atividade é feita dentro de casa, e ela trabalha à luz de velas, com que estende o seu dia, e a sua lâmpada não se apaga de noite (v. 18 ). É uma grande misericórdia ter uma lâmpada para compensar a falta da luz do dia, e um trabalho para aproveitar essa vantagem. Quando vemos um objeto que é o resultado de um trabalho bem elaborado, dizemos: tem cheiro de lâmpada.

(3) Ainda de noite. se levanta (v. 15) para dar o desjejum aos seus servos, para que possam estar preparados para ir trabalhar alegremente, logo que rompa o dia. Ela não é daquelas que ficam jogando cartas ou dançando até a meia-noite, até o amanhecei; e então ficam na cama até o meio-dia. Não; a mulher virtuosa ama o seu trabalho mais do que o seu sossego ou o seu prazer; ela se preocupa em realizar o seu trabalho todas as horas do dia, e tem uma satisfação maior e verdadeira em dar mantimento à sua casa bem cedo, pela manhã, do que têm os outros no dinheiro que ganhara m. A sua satisfação é muito maior do que a daqueles que perderam, do que a daqueles que estiveram jogando a noite toda. Os que têm uma família da qual cuidar não devem amar excessivamente a sua cama pela manhã.

(4) Ela se dedica às atividades que são apropriadas para ela. Não é no trabalho de um acadêmico. ou de um estadista, ou de um agricultor, que ela se ocupa, mas no trabalho típico de mulheres: busca lã e linho, onde pode encontrar os melhores artigos com o preço mais barato; ela tem um estoque de ambos, e de tudo o que é necessário para trabalhar com a lã e o linho (v. 13) e com isto ela não somente dá trabalho para os pobres, o que é um ofício muito bom, mas ela mesma trabalha, e de boa vontade, com suas próprias mãos; ela trabalha com o conselho ou deleite de suas mãos (é o significado da palavra); ela trabalha alegremente e com destreza, dedicando não somente a sua mão ao trabalho, mas também a sua mente, e continua, sem se cansar de fazer o bem. Ela “estende as mãos ao fuso, e as palmas das suas mãos pegam na roca” (v. 19), e não considera isto uma diminuição da sua liberdade nem uma ofensa à sua dignidade, e, de maneira alguma, inconsistente com o seu repouso. O fuso e a roca são aqui mencionados como sua honra, ao passo que os ornamentos das filhas de Sião são considerados como sua vergonha (Isaias 2.18, etc.).

(5) Ela faz o que faz com toda a sua força, e não brinca com a sua atividade, nem a desmerece (v. 17): “Cinge os lombos de força e fortalece os braços”; ela não se dedica somente a trabalhar sentada, ou àquilo que é somente um bom trabalho dos dedos (há atividades que pouco são diferentes de não fazer nada), mas, se houver oportunidade, irá se dedicar àquele trabalho que exija toda a força que ela tem, e ela a usará como alguém que sabe que este é o caminho para ter mais.

3. Tudo o que ela faz tem um bom resultado, pela sua prudente administração; ela não se esforça a noite toda sem ganhar nada, não, ela mesma prova que a sua mercadoria é boa (v. 18 ); ela sabe que em todo o seu trabalho há lucro, e isto a encoraja a perseverar nele. Ela percebe que pode fazer, ela mesma, coisas melhores e mais baratas, do que ela pode comprá-las; ela descobre, por observação, qual ramo de suas atividades traz os melhores resultados, e a isto se dedica com afinco.

(1) Ela traz provisões de todas as coisas necessárias e apropriadas para a sua família (v. 14). Nenhum navio mercante, nem mesmo os barcos de Salomão, jamais tiveram um retorno tão vantajoso como as suas atividades. Eles trazem artigos do exterior, com os bens que exportam? Ela também faz isto, com o fruto de seu trabalho. Aquilo que o seu próprio solo não produz ela pode obter, se tiver oportunidade, trocando seus próprios bens por isto; e assim ela traz seu pão de longe. Não que ela valorize mais as coisas que vêm de longe, mas, ainda que venham de muito longe, se precisar tê-las, saberá como obtê-las.

(2) Ela compra terras e aumenta as propriedades da família (v. 16): Examina uma herdade e adquire-a; considera a vantagem que ela terá para a família, e o bom resultado que trará, e por isto a compra; ou melhor, embora ela esteja muito decidida, não a comprará, até que a tenha examinado antes, avaliando se vale o seu dinheiro, se pode se permitir gastar tanto dinheiro para comprá-la, se a terra é boa, se o terreno corresponderá ao que se espera dele, e se ela tem dinheiro à disposição para pagar por essa propriedade. Muitos têm se arruinado, comprando sem considerar antes; mas os que desejam fazer compras vantajosas devem considerar antes, e então comprar. Ela também planta uma vinha, mas é com o fruto de suas mãos; ela não toma dinheiro emprestado, nem faz dívidas, para comprá-la, mas ela o faz com o que pode poupar, dos ganhos da sua própria administração da casa. Os homens não devem comprar nada supérfluo até que, pela bênção de Deus sobre o seu trabalho, tenham o dinheiro e então possam pagar por aquilo que desejem; e então o fruto da vinha provavelmente será duplamente doce, quando for o fruto de trabalho e esforço honestos.

(3) Ela adorna a sua casa, e tem boas roupas, para si mesma e para a sua família (v. 22): faz para si tapeçaria, par a pendurar em seus cômodos, e pode usar essas peças, que são de sua própria fabricação. As suas próprias vestes são ricas e elegantes: “De linho fino e de púrpura é a sua veste”, de acordo com a sua condição. Embora não seja vaidosa a ponto de gastar muito tempo para se vestir, nem considere suas vestes seus adornos, nem se valorize por causa deles, ainda assim ela tem ricas vestes e se veste bem. As vestes de senador que seu esposo usa são tecidas por ela mesma, e elas têm melhor aparência e melhor qualidade do que qualquer veste comprada. Ela também confecciona vestes boas e quentes para seus filhos e os uniformes de seus servos. Ela não precisa temer o frio do mais terrível inverno. porém; ela e sua família têm boas roupas, suficientes para mantê-los aquecidos, suficientes para expulsar o frio, que é o objetivo desejável para as vestes; todos na sua casa andam vestidos de lã escarlate, que é uma veste resistente e adequada para o inverno, e também rica e de boa aparência. Toda a sua casa anda forrada de roupa dobra da; eles têm vestes para o inverno e vestes para o verão.

(4) Ela faz comércio. Ela produz mais do que ela e a sua família tem condições de usar, e por isto, depois de ter estocado o suficiente para a sua família, “faz panos de linho fino, e vende-os, e dá cintas aos mercadores” (v. 24), que os levam a Tiro, o mercado das nações, ou alguma outra cidade de comércio. Terão maior probabilidade de prosperar as famílias que vendem mais do que compram; é bom, para o reino, quando ele exporta abundantes artigos de sua fabricação. Não há nenhum problema em vender os artigos de boa qualidade de que pudermos dispor. nem negociar no comércio e vender por mar.

(5) Ela guarda para o futuro: ela se alegrará no futuro, tendo guardado um bom estoque para a sua família, e por ter reservado boas porções para os seus filhos. Os que se esforçam quando estão no vigor da sua mocidade terão o prazer e a alegria disto quando forem idosos, tanto ao refletirem sobre isto. como ao colherem os benefícios.

4. Ela cuida de sua família e de todos os seus assuntos, dá mantimento à sua casa (v. 15), a cada um a sua porção de alimento no devido tempo. de modo que nenhum dos servos tenha motivos para reclamar de comer pouco ou trabalhar muito. Ela também dá uma porção (uma quantidade de trabalho, bem como de alimento) às suas criadas; todas elas deverão conhecer o seu trabalho e saber quais são as suas tarefas. Ela “olha pelo governo de sua casa” (v.27): inspeciona os modos de todos os seus servos, para poder repreender o que há de errado com eles, e obrigá-los a se comportar de maneira apropriada e cumprir o seu dever para com Deus e uns com os outros, bem como para com ela; como Jó, que afastou a iniquidade de sua tenda, e Davi, que não permitiu nada ímpio na sua casa. Ela não se envolverá nos assuntos das casas de outras pessoas; ela pensa que é suficiente que cuide bem da sua própria casa.

5. Ela é caridosa com os pobres (v. 20). Ela é tão atenta ao dar como é ao obter; frequentemente serve os pobres com a sua própria mão, e o faz alegremente, e muito generosamente, com a mão estendida. Ela não alivia somente os seus vizinhos pobres, e os que estão próximos, mas estende suas mãos aos necessitados à distância, buscando oportunidades de fazer o bem, o que é uma boa administração como tudo o que ela faz.

6. Ela é discreta e agradável quando fala, não fala demais, não é crítica nem mal-humorada, como são alguns, e sabe como se dedicar com esmero; ela abre a sua boca com sabedoria; quando ela fala, é com uma grande prudência, e de maneira muito pertinente; você pode perceber, por cada palavra que ela diz, o quanto ela se governa pelas leis da sabedoria. Não somente adota medidas prudentes, como dá conselhos prudentes a todos; e isto, sem assumir a autoridade de um ditador, mas com o afeto de um amigo e uma atitude cortês: ”A lei da beneficência está na sua língua”. Tudo o que ela diz está sob o governo dessa lei. A lei da caridade está escrita no coração, mas se mostra na língua; se eles forem afetuosos, uns com os outros, isto ficará evidente, por expressões afetuosas; isto se chama lei da beneficência, porque dá a lei aos outros. a todos com quem fala. A sua sabedoria e a sua bondade concedem um poder de autoridade a tudo o que ela diz, exigem respeito, exigem obediência. Quão eficazes são as palavras certas! A lei da beneficência está na sua língua, entendendo que se refere à Palavra e à lei de Deus, de que ela sente prazer em falar entre seus filhos e servos. Ela está cheia de palavras religiosas e piedosas, e as administra com prudência, o que mostra o quanto o seu coração está cheio das coisas de cima, do outro mundo, mesmo quando as suas mãos estão muito atarefadas neste mundo.

7. O que completa e coroa o seu caráter é o fato de que ela “teme ao Senhor” (v. 30). Com todas estas boas qualidades, não lhe falta nem mesmo esta qualidade necessária; ela é verdadeiramente piedosa, e, em tudo o que faz, é guiada e governada pelos princípios da consciência e uma consideração por Deus; isto é aquilo que é preferido, muito antes da beleza, que é vã e enganos; todos os que são sábios e bons assim consideram, e não valorizam nem a si mesmos nem aos outros por estas outras qualidades. A beleza não recomenda ninguém a Deus, nem é uma indicação segura de sabedoria e bondade, mas engana a muitos homens que basearam a sua escolha de uma esposa por este critério. Pode haver uma alma impura e deformada alojada em um corpo belo e atraente; muitos foram expostos, pela sua beleza. a tentações que foram a ruína de sua virtude, sua honra e suas preciosas almas. A beleza é, na melhor das hipóteses. uma coisa passageira; portanto, é vâ e enganosa. Uma doença poderá manchá­la em pouco tempo; mil acidentes podem destruir esta flor no seu auge; a velhice certamente a secará e a morte e a sepultura a consumirão. Mas o temor a Deus reinante no coração é a beleza da alma; ele recomenda os que o têm à benevolência e Deus, e é, aos seus olhos, de grande valor; ele durará para sempre, e desafiará a própria morte, que consome a beleza do corpo, mas consuma a beleza da alma.

 

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS SETE PECADOS

Neurocientista de Harvard compara erros mnêmicos com transgressões apontadas pela bíblia, distorções e equívocos são mais frequentes do que nos damos conta

Os sete pecados

“Em ”Yumiura”, conto de Yasunari Kawabata, um escritor recebe a visita inesperada de uma mulher que diz tê-lo conhecido há 30 anos. Ela afirma que os dois se encontraram quando ele visitou a cidade de Yumiura, mas o escritor não se lembra dela. Atormentado por outros lapsos recentes de memória, ele interpreta o incidente como mais um sinal do seu declínio mental. Da aflição ele passa ao pânico quando a mulher revela o que aconteceu num dia em que ele foi ao quarto dela. ‘Você me pediu em casamento”, lembra ela, melancólica. O escritor vacila ao refletir sobre a importância daquilo de que se esqueceu. Depois que ela sai, bastante abalado ele procura mapas para localizar Yumiura, na esperança de despertar alguma recordação. Mas nenhum mapa ou livro a cita. O escritor se dá conta então de que ele não poderia ter estado lá naquela época. Apesar de a mulher acreditar em suas memórias, tão detalhadas, emocionadas e precisas, elas eram totalmente falsas.

O conto de Kawabala ilustra como a memória pode causar problemas. Às vezes nós esquecemos o passado; outras, nós o distorcemos. Recordações perturbadoras podem nos atormentar por anos. Mas também dependemos da capacidade para realizar um número impressionante de tarefas cotidianas.

Em muitos casos, só nos damos conta de sua importância quando um incidente provocado por um esquecimento ou distorção exige a nossa atenção.

Como o envelhecimento da população, tem se tornando cada vez mais comum a preocupação com a memória. Em 1998, uma reportagem da revista News Week revelou que o assunto se tornou a principal preocupação no que se refere à saúde dos atarefados, tensos e desmemoriados cinquentões. Esquecer reuniões, guardar óculos ou chaves no lugar errado e não recordar o nome de conhecidos vêm se tomando ocorrências corriqueiras para muitos adultos ocupados, que tentam conciliar a vida profissional e a familiar – e ainda lidar com tantas tecnologias e informações que a cada dia chegam até nós. Afinal, de quantas senhas e códigos precisamos nos lembrar? Raramente menos de seis… Além das frustrações causadas pelas falhas da memória, precisamos lidar com o fantasma da doença de Alzheimer. À medida que o público se familiariza com os horrores da patologia – graças a casos de pessoas famosas, como o ex-presidente Ronald Reagan -, aumenta a inquietante perspectiva de uma vida dominada pelo esquecimento catastrófico.

Embora a magnitude da distorção das lembranças da personagem do conto”Yumiura” pareça exagerada, há casos equivalentes ou até piores na vida real. Podemos pensar, por exemplo, no livro de memórias Fragmentos – Memória de uma infância, 1939-1945, lançado no Brasil em 1998. O autor, Benjamin Wilkomirski, recebeu elogios no mundo inteiro por seu retrato da infância vivida num campo de concentração. Ele apresenta ao leitor cenas chocantes e vívidas dos horrores da guerra. Mais impressionante ainda é que Wilkomirski teria passado grande parte da vida adulta inconsciente dessas lembranças traumáticas, somente se reconciliando com elas com ajuda de terapia. Ele transformou-se numa espécie de herói para sobreviventes do Holocausto. Mas a história começou a se esclarecer pouco depois, quando o jornalista suíço Daniel Ganzfried, também filho de um judeu sobrevivente da Segunda Guerra, publicou um artigo atordoante em Zurique. Ele revelou que Wilkomirski é, na verdade, Bruno Dossekker, nascido em 1941 e entregue por sua mãe, a então jovem Yvone Berthe Grosjean, a um orfanato para adoção. O menino passou todos os anos da guerra com seus pais adotivos, os Dossekker, rodeado pela segurança de sua terra natal, a Suíça. Quaisquer que tenham sido os fundamentos para as suas “memórias” traumáticas dos horrores do nazismo, elas não se originaram em experiências num campo de concentração. Será que Dossekker/Wilkomirski é simplesmente um mentiroso? Talvez não: ainda hoje ele acredita veementemente em suas memórias. Afinal, todos somos capazes de distorcer o passado.

Os sete pecados. 2

AÇÃO E OMISSÃO

Erros de memória, esquecimento e distorções podem ser fascinantes. Acredito que essas falhas podem ser classificadas como, transitoriedade, distração, bloqueio, atribuição errada, sugestionabilidade, distorção e persistência. Exatamente como os sete pecados capitais, esses equívocos ocorrem com frequência e podem ter consequências desastrosas.

Os três primeiros são transgressões de omissão da recordação de um fato, um acontecimento ou uma ideia (mesmo quando queremos lembrar). A transitoriedade está ligada ao enfraquecimento da memória com o passar do tempo. Você provavelmente não teria dificuldade de lembrar o que andou fazendo nas últimas horas. Mas, se alguém lhe perguntar o que fez há seis semanas, seis meses ou seis anos, é provável que não se recorde de muita coisa.

A distração envolve uma ruptura na interface entre a atenção e a memória – como esquecer o lugar onde colocamos objetos pessoais ou um encontro para um almoço. Ocorre, em geral, porque estamos preocupados com outros assuntos e não nos concentramos no que precisamos lembrar. A informação se perde com o tempo, pois nunca foi registrada na memória ou não foi resgatada no momento necessário porque nossa atenção estava focalizada em outro assunto.

O bloqueio refere-se a uma busca sem resultados de uma informação que queremos muito recuperar. Todos nós já fracassamos ao tentar lembrar o nome de uma pessoa conhecida. Essa experiência frustrante acontece mesmo quando o nome parece estar “na ponta da língua” – e, em geral, só nos recordamos da informação bloqueada inesperadamente, horas ou dias depois.

Já a atribuição errada, a sugestionabilidade, a distorção e a teimosia são pecados de ação. O primeiro, que ocorre de forma muito mais frequente do que as pessoas se dão conta, envolve confusão entre fantasia e realidade e vinculação de uma memória a uma fonte equivocada (quando acreditamos, por exemplo, que um amigo nos contou um fato inconsequente que, na verdade, ficamos sabendo pelo jornal). O pecado da sugestionabilidade refere-se a lembranças criadas como resultado de perguntas tendenciosas, comentários ou sugestões feitos quando a pessoa tenta se lembrar de uma experiência.

Já a distorção reflete influências poderosas do nosso conhecimento atual e opiniões sobre o modo como nos lembramos do passado. Com frequência, “editamos ou reescrevemos inteiramente nossas vivências (de forma consciente ou não) com base no que sabemos e acreditamos no presente. O resultado pode ser a representação distorcida de um incidente específico ou de períodos inteiros de nossa vida. O sétimo pecado, a persistência, refere-se à recordação, geralmente deformada e camuflada, de informações ou acontecimentos perturbadores que gostaríamos de eliminar. Em casos extremos, de depressão ou experiências traumáticas, a persistência – que surge como uma defesa psíquica – pode deflagrar ou agravar transtornos psíquicos.

OUTROS OLHARES

SOBRE DEUSES E HOMENS

O curioso caso do deputado mais votado da Bahia, que diz ser possível curar homossexuais com a pregação da Bíblia.

Sobre Deuses e homens

Ser gay é um pecado, acredita o Pastor Sargento Isidório, eleito deputado federal em 2018 pelo partido Avante. Segundo sua interpretação da Bíblia, “a homossexualidade é uma transgressão tão

Grave quanto roubar ou matar. A razão, ele explica o pecado é a negação da espécie, porque homem com mulher vem filho. Homem com homem não vem nada”. Frases como essas são proferidas pelo deputado – o mais votado da Bahia, com 323 mil votos – sem qualquer lustre politicamente correto, seja em suas lives no Facebook, em suas pregações (ele é pastor da Assembleia de Deus) ou em seus discursos no plenário da Câmara. Um de seus projetos, apresentados nos primeiros dois meses de mandato, é a criação do “Dia do Hétero”, no intuito de fazer frente à tendência que avalia existir no mundo de premiar o indivíduo que é homossexual. Isidório se autoproclama ex-gay e prega que a homossexualidade é uma escolha – e que se dá por três vias: pelo que ele chama de “safadeza”, que significaria ceder aos desejos sexuais mais “profanos”; pelo estímulo da “mídia”; ou  porque pais e mães, no período da gravidez, desejaram um bebê de gênero contrário ao do nascimento do filho. O pastor não diferencia gênero de sexualidade. Ele também defende que a reparação à discriminação histórica de minorias não seja concentrada apenas nos gays. “Os negros, por exemplo, ainda não têm reparação. Negro não escolhe ser negro. Já a questão sexual é uma escolha”, arrematou o deputado.

Manoel Isidório de Santana Junior não esconde seu passado. Usa-o como combustível para as pregações que faz diariamente na Fundação Doutor Jesus, projeto social de tratamento de dependentes químicos que fundou em Candeias, Região Metropolitana de Salvador, há 27 anos e para o qual recebe repasses de dinheiro do governo da Bahia. Filho de um lar desfeito – a mãe, dona Maria José, costureira, foi abandonada pelo pai, seu Maneca, funcionário da Petrobras -, aos 6 anos Isidório começou a sofrer abuso de um primo que eventualmente aparecia em sua casa e dormia em seu quarto. O primo era cabo do Exército. Os abusos perduraram até Isidório ter cerca de 12 anos. Aos 16, ele conseguiu o primeiro emprego de carteira assinada, como cobrador de ônibus. A liberdade financeira, diz ele, conduziu-o para os excessos. Largou os estudos, a igreja batista que frequentava, passou a beber, fumar e usar drogas. Foi também nesse período que passou a se relacionar com homens, numa rotina que ele classifica como promíscua e que perdurou para além de seus 30 anos. Hoje ele tem 56.

O passado gay de Isidório só veio à tona recentemente. Quando se lançou na política estadual, em 2001, era um típico representante de corporação, defendendo os interesses de policiais nas greves da PM que ocorreram em alguns estados e que suscitaram até mesmo o esboço de um plano de intervenção militar por parte do governo. Ao ser preso durante um protesto, foi deixado próximo a um depósito de produtos químicos que causaram uma intoxicação que o levou à UTI e afetou suas cordas vocais. As greves lhe deram a notoriedade que terminou por elegê-lo pela primeira vez deputado estadual em 2002. Quem o conhece daqueles tempos não vê qualquer relação entre sua postura de então e o fundamentalismo religioso do presente. “Não se falava que ele era ex-gay ou ex-drogado. Ele era simplesmente uma liderança corporativista em formação. Não havia qualquer componente religioso no discurso”, disse uma liderança política baiana que o conhece desde aquela época.

Ao mesmo tempo que se relacionava com homens durante a juventude, Isidório mantinha duas mulheres, com as quais teve sete filhos. Cada uma vivia em um extremo de Candeias, numa espiral de pobreza agravada pelo vício do companheiro. Depois de trabalhar como cobrador, Isidório foi contratado como auxiliar administrativo em uma empresa que prestava serviço para a Superintendência de Desenvolvimento Industrial e Comercial (Sudic) do governo da Bahia. O posto ficava na BR-324, que corta a Região Metropolitana de Salvador. Por conviver com frequência com policiais rodoviários, conta ter se maravilhado com as botas usadas pelos oficiais. Perguntou-lhes certa vez como fazer para ter uma igual. Recebeu como resposta: “Vire policial, mas não creio que a corporação aceite doidos”. Isidório então passou no concurso para policial militar, mas ficou frustrado quando descobriu que só teria direito às botas se passasse na prova para policial rodoviário. E foi o que fez. Atribui o sucesso em concursos ao excesso de vagas e não a seu desempenho acadêmico, já que não conseguiu completar sequer o ensino fundamental.

Conciliar a boemia, as drogas e os relacionamentos homossexuais com a vida na polícia não era difícil, disse o deputado, que assegurou que sua família sabia de seu vício em álcool, mas não das drogas nem das incursões gays. Isidório emendava semanas, por vezes meses sem aparecer em casa. Quando visitava a mãe, ouvia reclamações de que trabalhava demais. A conduta nunca o fez sofrer retaliações no trabalho. Fardado, comportava-se como Isidório, o sargento. Na vida homossexual, preferiu não revelar se os parceiros eram também do quartel. “Não vale a pena relatar, porque essas pessoas, assim como eu, se transformaram”, contou. No período de maior convívio com a criminalidade soteropolitana, chegou a planejar assaltos com marginais, mas disse nunca ter consumado os atos. Isidório também afirmou nunca ter se apaixonado por um homem, apesar de tantos anos levando uma vida dupla. Disse que só teve relações homossexuais quando estava bêbado – o que era, basicamente, seu estado permanente fora do quartel até os 30 anos, período de sua transformação.

No início da década de 90, Isidório contou, escorou-se em um poste, maltrapilho, quase sem andar e sem falar, supostamente infectado pelo vírus HIV – ainda que jamais tenha feito exame para comprovar a existência da doença. Foi quando avistou um grupo de evangélicos entoando cânticos em uma praça de Candeias. Ele disse ter si­ do chamado pelo grupo e que, ao ouvir a música, começou a chorar. O momento de epifania espiritual teria virado uma chave em seu organismo. Entrou Deus e saiu a vontade de beber, se drogar e transar com homens – ou “dar o furico”, como ele prefere dizer, inclusive durante suas pregações. Ele explicou o que sentiu valendo-se do Salmo 103. “Ele (Deus) é o que perdoa todas as tuas iniquidades, que sara todas as tuas enfermidades”. Dali em diante, como novo fiel da Assembleia de Deus, a vida de Isidório mudou. Reatou com Elza, sua primeira mulher, pois recebeu a “mensagem divina” de que só teria forças para aguentar o que estava por vir. Ele seguiu a orientação – e Elza, uma mulher morena de cabelos lisos e feição zangada, aceitou o ex de volta. “Sou a testemunha viva de que a cura existe”, disse.

Isidório atribui a ideia de criar um centro de recuperação de viciados a um “chamado de Deus”. Enquanto ainda se recuperava do vício, levava jovens envolvidos com o tráfico para dentro de sua casa, no intuito de cura-los com a “palavra”, que é como ele se refere ao texto da Bíblia. Longe das drogas, passou a ocupar um terreno baldio localizado na BR-324 que anos depois se tornou seu. No espaço que hoje tem 100 mil metros quadrados, negros e pardos se aglomeram num programa rudimentar de cura que envolve duas premissas básicas: disciplina militar e oração. Ali, Isidório, sua família e seus “arcanjos” – os ex- internos que ascenderam na hierarquia da fundação – dão ordens como num quartel e orientam fiéis como numa igreja. O ambiente é familiar porque o local é, de fato, a casa de toda a sua família desde a década de 90.

Hoje, a Fundação Doutor Jesus tem uma sede e duas filiais – todas em Candeias – e abriga mais de 1.350 dependentes químicos, dos quais 120 são mulheres, que recebem abrigo, alimento, tratamento psicológico e recreação gratuitos. Os internos – que, em alguns casos, além de drogados, são homicidas, ladrões ou jurados de morte pelo tráfico – têm em sua maioria olhar perdido, dentes faltantes e cicatrizes pelo corpo, em decorrência, sobretudo, do uso de crack. O governo da Bahia financia 565 internos da fundação. Na quadra da sede, há faixas de agradecimento ao ex-governador e hoje senador Jaques Wagner (PT) e ao atual chefe do governo, o petista Rui Costa – que Isidório não deixa de elogiar, mesmo dizendo que os repasses estão atrasados em dois meses. Trata-se, hoje, do principal centro de tratamento de viciados da Região Nordeste, que, apesar de ter começado na informalidade, recebe cerca de R$ 10 milhões ao ano da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social do estado da Bahia. O governo do estado afirmou, em nota, que os repasses são anuais, não mensais.

“Aqui só tem filho desobediente. Só entra por esse caminho quem desobedece a pai e mãe”. Assim começa o sermão de Isidório aos internos da sede da fundação, nos encontros que promove quatro vezes por semana em um dos galpões do local. Sua pregação costumava ocorrer todos os dias até a rotina parlamentar em Brasília inviabilizar o cronograma. Mas, com ou sem sua presença, todos os internos são obrigados a comparecer três vezes ao dia ao sermão, ora conduzido por Isidório e seus filhos, ora por ex-viciados que viraram funcionários. O deputado se refere aos cultos como “encontros”, argumentando que são sessões “espirituais”, não evangélicas. Não há, contudo, nenhuma diferença entre o discurso proferido ali e o de qualquer outro ministério da Assembleia de Deus.

A pregação tem início depois de cerca de 15 minutos de música evangélica entoada em ritmo de axé, acompanhada de baixo, bateria e tambores de percussão. De camiseta, bermuda e descalço, Isidório apresenta uma performance no palco que arranca risos dos presentes. Ao pregar os males da desobediência, mostra aos internos uma série de facões e porretes, cada um com um nome bíblico, ameaçando usá-los em caso de transgressão. Trata-se de uma brincadeira que já rendeu denúncias de maus-tratos pelo Ministério Público do estado da Bahia, mas que nunca prosperaram. Ele disse que a performance faz parte do personagem que criou para si: ao personificar um sujeito desequilibrado, visa mostrar aos internos que, se ele se recuperou, todos podem se recuperar também. Afirmou ainda que o personagem, ora “louco”, ora autoritário, existe para impor respeito.

No sermão, em meio a versículos da Bíblia, músicas e ameaças aos desobedientes, Isidório dramatiza sua própria história, por vezes em tom cômico. Ao relatar o período em que se relacionou com homens, amarra a camiseta no alto do torso, diminui o comprimento da bermuda, emula trejeitos de mulher e canta, arrancando risos da plateia. Em seguida, inicia a pregação de como é errado ser gay. Começa por dizer que não é contra. Que, fora de sua fundação, todos têm o direito de fazer o que quiserem. “Se ser gay fosse bom, eu estava gay até hoje”, diz, em meio a gritos de “Glória a Deus” de alguns presentes. “A Bíblia diz que Deus criou macho e…?”, pergunta. Todos respondem: “fêmea. “Homem e….?”, volta a questionar. “Mulher”, devolve o coro de 1.300 internos. “Se o cara quiser se vestir de mulher, ele pode. Ele só não vai ser mulher. Se a mulher diz que é homem porque se veste de homem, não vai ser homem nunca. Mulher veio com xoxota, homem veio com chibata. E acabou.” Para dar chancela ecumênica ao discurso, Isidório alega que tal defesa está na Bíblia católica, na evangélica, nos grupos tradicionais de candomblé e no espiritismo. Em nenhum momento é contrariado.

A vida de um interno da Fundação Doutor Jesus é regrada. Há hora para acordar, fazer refeições, descansar e trabalhar. O tempo mínimo de internação é de nove meses. Quem quiser sair antes pode. Mas, caso decida voltar, terá de permanecer um tempo na chamada “disciplina”, informalmente tratada como “presídio” dentro do local. É lá que ficam aqueles que brigam ou transgridem as regras de convivência. A penalidade: o interno é excluído das atividades de recreação, como piscina e esportes, e não tem direito a comer proteína nas refeições. O tempo na “disciplina” dependerá da falta cometida. O máximo é de 90 dias. Quem não aceita ir aos encontros espirituais três vezes ao dia é penalizado. Quem é pego em qualquer lapso de conduta sexual, seja gay, hétero ou individual, vai para a disciplina. Internos que abordarem internas, também.

Quem não transgride pode, ao completar seis meses de internação, se dedicar a atividades profissionalizantes no local, como costura, panificação e serralheria.

Homens e mulheres ficam em áreas distintas, encontrando-se apenas na hora dos cultos – mas, ainda assim, sentados em setores separados e sob a supervisão de funcionários. A vida masculina, contudo, é mais independente. Exceto no período de trabalho (os internos são responsáveis pela manutenção e limpeza do local), homens podem ficar livres no gramado, nas quadras poliesportivas e nas mesas de jogos. Já mulheres ficam confinadas na ala de seus dormitórios – com as crianças. A fundação aceita mulheres grávidas e com filhos pequenos. Elas podem usar a piscina diariamente, em hora determinada. Se quiserem dar uma volta, precisam estar acompanhadas de uma funcionária – sempre do sexo feminino. Dona Elza, mulher de Isidório, passa a maior parte do tempo na ala feminina. “É onde mais tem briga, pois ficam confinadas”, contou ela.

A refeição oferecida no local é motivo de orgulho para a família. Falam com satisfação da cozinha que funciona 24 horas por dia, da panificadora e da câmara fria com capacidade para 20 toneladas de carne que acaba de ser instalada. Ao mostrar o depósito de alimentos, Isidório gabou-se das marcas usadas ali – do achocolatado Nescau à linguiça Sadia, “a melhor da Bahia”. “É tudo top. Não usamos nada de segunda”, contou. Ele sabe que a comida – mais que a “cura” – é um dos maiores atrativos do local, que abriga sobretudo a população carente e esmagadoramente negra da Bahia e de outros estados. Isidório calcula que mais de 80% dos internos sejam viciados em crack. Tanto que, para onde quer que se olhe, há cartazes que estampam que o crack é igual ao suicídio. Contudo, disse não prover tratamento com medicação: apenas disciplina, atendimento psiquiátrico, psicológico, comida e “a palavra”.

Outro componente fundamental, avaliou, é a convivência familiar, que dá ares de lar ao local – e a falta de um lar estruturado é, segundo o pastor, a principal causa da entrada no mundo das drogas entre os internos da fundação. Em segundo lugar, estão os abusos sexuais sofridos na infância. Isidório se permitiu avaliar que o contexto de violência sexual também favorece a homossexualidade nos cerca de 60 internos que, segundo suas contas, são gays.

Isidório negou que sua fundação promova a “cura gay”. Mas, já em seu primeiro contato com a reportagem, ainda em Brasília, na Câmara dos Deputados, afirmou ser comum gays serem admitidos e, ao deixarem o local após o tratamento, se dizerem “curados”. ”Ele chega lá para se recuperar da droga. Mas tem homem que chega de cabelo comprido, vestido de mulher, falando fino. E eu digo: abre a braguilha que vou lhe mostrar que você não é mulher. Já ela chega de cabelo cortado, cueca, calça, camisetinha de macho. Eu digo: você vai para o alojamento das mulheres”, relatou. Em alguns casos, ele contou, ao final de nove meses, a conduta sexual muda. “Há alguns que chegam lá e dão certo. Se organizam, cortam o cabelo, se ajeitam. Se depois voltam para sua prática, é problema deles. Mas há mulher que chega de cabelo raspado e sai bonita, vestida de sainha, normal. Tem até meninas que chegam lésbicas e depois se casam com homens. Ou então travestis que colocam silicone e, depois de um tempo, a própria mão de Deus diminui, ajuda nas deformações que eles fazem com eles mesmos”, explicou.

Uma das “ex-lésbicas” que está de casamento marcado é Elaine Silva, de 29 anos. Há quatro na fundação, ela abandonou o vício e se tornou funcionária. Natural de Baixa Grande, na Bahia, era conhecida como “destruidora de lares” em sua cidade, por se envolver com mulheres casadas. De cabelo raspado e roupas masculinas, nunca havia tido relações com um homem – exceto quando sofreu abuso de um amigo de sua família, ainda criança. Viciada em cocaína, chegou à fundação para tratar o vício. Quando começou a ouvir a “palavra”, passou a questionar sua sexualidade. Um dia, ao limpar a parede do banheiro, começou a chorar e a pedir a Deus que “limpasse” sua vida e a livrasse do “pecado”. Foi então buscar orientação para atingir seu objetivo. “Comecei a ler a Bíblia e a entender que aquela não era a vida que Deus queria para mim.” Questionada sobre o tipo de recomendação que recebia, Silva disse ter ouvido das coordenadoras os benefícios da vida conjugal, do relacionamento com homens, e de como essa era a conduta pregada por Deus. Questionada sobre o que foi mais difícil abandonar – a droga ou a homossexualidade – Silva escolheu a segunda opção. “Rapaz, tem de ter uma determinação”, confessou.

Determinação também é a palavra usada pela sergipana Damares Alves, de 24 anos, homônima da ministra bolsonarista, internada em 16 de janeiro por vício em cocaína – e sobrevivente de duas overdoses. Filha de evangélicos, relacionava-se com mulheres desde os 13 anos, idade em que também começou a usar drogas. Fã de futebol, seu maior ídolo é a jogadora Marta. Ao chegar a Candeias, contudo, Alves resolveu que não queria apenas se curar do vício, mas também deixar de ser gay e tornar-se o que ela chamou de “nova criatura”. “Ser nova criatura é olhar para meu passado e sentir nojo. É olhar para meu passado e não desejar”, disse, em tom de pregação, sob o olhar satisfeito do pastor. Alves trocou a calça e os tênis por saia longa e sandálias, passou a deixar os cabelos soltos e a se esforçar para conter os trejeitos de moleca ao falar. Sobre o futuro, afirmou querer se casar com um homem e ter filhos. “O que posso fazer é orar. Pedir permissão a Deus para que coloque um homem sábio em minha vida. Não um homem mundano, que não vai respeitar meu Evangelho. Tenho de procurar um homem evangélico”, disse. Ela contou que tem sido tão difícil abandonar a preferência sexual quanto a droga. “Um abismo leva a outro. A droga leva à homossexualidade.” No dia seguinte à conversa, Alves recebeu a primeira visita de sua família desde sua internação. Levando uma Bíblia cor- de ­ rosa nas mãos, passou pelo menos uma hora conversando com a mãe, a avó e as tias sobre ser ”nova criatura”, antes de mostrar a elas as instalações do local. A família disse à reportagem não se importar com a sexualidade da jovem, contanto que ela esteja feliz.

Josiane Santos, de 40 anos, alcoólatra, que afirmou ter descoberto ser homossexual aos 10 anos, disse que, após seis meses de internação, também está “curada” – não só do alcoolismo, como da vontade de fazer sexo com mulheres e também do hábito de se masturbar. “Era um vício que eu tinha e do qual, graças a Deus, aqui eu me livrei”, contou. A masturbação ali é proibida sob pena de “disciplina”. Na ala masculina, há cerca de 50 gays. Eles dormem nos mesmos dormitórios e fazem tudo junto dos demais homens – exceto o banho. Nesse caso, são levados para o banheiro de idosos, em horários diferenciados. Não há, na admissão, qualquer pergunta sobre a sexualidade do interno. Mas o pastor disse que percebe ao deparar com os trejeitos dos recém­ admitidos. Na ala masculina, não havia caso de ex-gay para mostrar à reportagem.

A “cura gay” é produto frequentemente oferecido pela igreja evangélica a seus fiéis – e não só por Isidório. Graças ao caráter descentralizado dos diferentes grupos religiosos neopentecostais, não há um controle de tais atividades, tampouco uma doutrina “única” aplicada em todas as agremiações. O fisioterapeuta Kleber Rodrigues, de Belo Horizonte, foi submetido por dois anos a um “tratamento” promovido pelo movimento evangelizador Jocum (Jovens Com Uma Missão), ligado à Assembleia de Deus. Era 2006 e ele tinha 20 anos. Dançava em um grupo de jazz vinculado à igreja e foi convidado pelo pastor para integrar a Jocum. Ali, havia atendimentos pessoais uma vez por semana, além de viagens para retiros espirituais, com cerca de 20 outros homens gays. “Eles não tratavam como doença, mas eram enfáticos que se tratava de um pecado, um espírito maligno se apoderando de você”, explicou, relembrando as diretrizes.

Não à toa, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de pautar a criminalização da homofobia foi confrontada abertamente pela bancada evangélica – incluindo a Igreja Batista Atitude, frequentada pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Para conter os protestos, alguns ministros defenderam que a nova jurisprudência, se aceita, não censurasse pregação religiosa. Livros do Antigo e Novo Testamento, como Levítico e Romanos, falam amplamente sobre o pecado – e é com base nesses escritos que pastores tomam a licença poética de concluir que ser gay é pecar. O deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), um dos líderes da bancada evangélica, chegou a empregar em seu gabinete a psicóloga Rozângela Justino, que em 2017 ganhou notoriedade ao conseguir uma liminar na Justiça do Distrito Federal para autorizar nacionalmente o tratamento de reversão sexual. A liminar foi derrubada, mas a psicóloga continua advogando publicamente em favor de sua causa. Tratamentos que visam à hipotética “reversão” da homossexualidade não são aceitos pelo Conselho Federal de Psicologia e profissionais que o praticam podem sofrer suspensão de seu registro. “Não há reversão por­ que não é doença. É uma condição que se desenvolve e cujos fatores de desencadeamento são desconhecidos. Em vez de buscar a cura, se deveria trabalhar a aceitação”, afirmou a psicóloga e sexóloga Maria Luiza Cruvinel.

Pastor Isidório, sempre eleito apoiando causas da bancada progressista baiana, passou pelo PT, PSC, PSB, Pros, PDT e Avante, mas direcionou seu discurso, no decorrer dos anos, para a pauta religiosa como forma de atrair fiéis e eleitores. Em 2018, apoiou Cabo Daciolo para a Presidência no primeiro turno e o petista Fernando Haddad no segundo, contra a orientação dos pastores evangélicos da Bahia. Apesar de policial, rejeitava o principal discurso da campanha de Jair Bolsonaro – o apoio à violência policial contra bandidos. “A história da pistola e de que bandido bom é bandido morto, não gosto. Não é verdadeiro. Primeiro é preciso saber quem criou o tráfico. Não foi o tecido social fragilizado? E quem fragilizou o tecido não foram os políticos do passado com a sociedade conivente? Governo não tem nada a ver com pistola. Policial que mata vai ser premiado? Quem não mata é menos policial? Quem vai escolher esses mortos? Lamentavelmente, na igreja evangélica, esse discurso funcionou. Mas onde está dizendo na Bíblia que bandido bom é bandido morto? A Bíblia diz amai-vos”.

Pastor Isidório disse estar satisfeito com sua obra. Afirmou olhar para trás e enxergar mérito no trabalho de sua fundação – por onde já passaram mais de 50 mil internos. Mas, como todo viciado, contou que vive uma luta diária contra as tentações que já rondaram sua vida. “A cervejinha continua gostosa, o uísque com uma pedrinha de gelo também”, admitiu. Sobre a vontade de se relacionar com homens, concluiu que, tendo sido gay, é melhor manter distância. “Nos momentos ruins, as tentações vêm a toda hora”, ponderou. “Se ficar agarrado com homem, quem com porcos se junta, farelo come”.

Sobre Deuses e homens. 2

GESTÃO E CARREIRA

A ARMADILHA DO BOM QUEIJO

O comportamento perigoso da acomodação, pela sensação de conforto e estabilidade, pode limitar em muito a real produção que um profissional poderia ter em sua carreira.

A armadilha do bom queijo

Pessoas simplesmente param de buscar crescimento porque, por comparação, se encontram em melhor posição que seus pares. O olhar, no entorno, vicia como uma armadilha invisível, criando uma ilusão de faixa de chegada: “Cheguei ao máximo de minha carreira!”. Essa frase finalista pode estagnar uma vida que poderia contribuir mais com a empresa, família, sociedade e (obviamente) consigo mesmo.

Sabemos, pela programação neurolinguística e os informes dos neurocientistas, que o cérebro adora novidades, mas detesta mudanças. Vivemos buscando padrões para explicar tudo o que nossos sentidos podem captar. Por isso é difícil dormir com uma torneira pingando: não há padrão perfeito entre uma gota e outra, o que gera um ruído sem cadência rítmica. O cérebro não gosta muito de coisas sem um padrão previsível.

Assim, sempre que for possível detectar uma relação confortável entre produção e rendimento (retorno financeiro), com certa estabilidade previsível, é possível ocorrer uma paralisação pela busca de crescimento profissional. Esse perfil é muito comum em servidores públicos de uma forma geral, mas também existe em bom tamanho em todos os perfis de atuação dos seres humanos, desde os pequenos comerciantes aos renomados profissionais liberais.

A justificativa mais encontrada, quando se questiona o indivíduo sobre sua escolha em deter o próprio desenvolvimento profissional, é que ele – responde-se prontamente – não é ganancioso, ou que não vive apenas em busca de retorno financeiro. A frase campeã é: “Prefiro qualidade de vida a uma vida só de trabalho!”.

Não há nada de errado nisso e são boas falas, na verdade, o problema é que podem não corresponder à plena verdade dos resultados que poderiam ser alcançados caso existisse a motivação certa.

Durante o lançamento de uma campanha para a aquisição de casa própria no Estado do Rio de Janeiro pelo valor de R$ 1,00 (isso mesmo: um único e mísero real por uma casa popular), um grupo de amigos psicólogos trabalhava na captação de possíveis futuros moradores. O perfil procurado eram moradores de rua, pessoas que viviam em condições sub-humanas e moradores de comunidades carentes. Um dia encontraram uma família que residia sob uma ponte em um valão fora do perímetro urbano, e não havia argumentação suficiente que convencesse a família a deixar a arriscada condição de vida. Em dado momento, o chefe da família argumentou que isso iria gerar despesas que eles não tinham até o momento, como: IPTU, conta de água, de luz e até mesmo gás. O psicólogo, então, como última forma de convencimento, disse: “Mas aqui, de vez em quando, ocorrem cheias, e a água chega a cobrir até mesmo a pista sobre a ponte”. O senhor fechou o semblante, abaixou a cabeça e terminou a conversa com o seguinte argumento: “É só uma vez por ano!”.

Nós, seres humanos, estamos muito bem preparados para defender as crenças que temos como verdade pessoal. Por isso temos guerras. Como, então, uma empresa deve agir em seu corpo laboral a fim de estar sempre motivando o crescimento de seus colaboradores?

Os treinamentos são bem-vindos sempre. No entanto, quando o foco é provocar a busca pelo crescimento, deve-se ter o cuidado de saber direcionar o resultado para a própria instituição, quando for o caso de uma empresa, ou para o amplo mercado quando o foco forem os profissionais liberais.

Pode ser que sua empresa não lhe ofereça essa oportunidade, e a única forma de estar nela é ficando justamente no seu lugar, mantendo essa conhecida segurança. Caso surjam o desconforto e a necessidade de escalar novos degraus, o jeito é deixar de fazer parte da instituição. Por isso, eventos motivacionais dentro das instituições devem ofertar quais possibilidades estão disponíveis em seu próprio ambiente. Caso contrário, o risco de perder elementos será inevitável.

Outro exemplo de como isso pode ser danoso: quando uma grande empresa pública foi privatizada no Rio de Janeiro, na década de 1980, um grupo de recrutadores visitou todas as unidades pelo interior do estado fazendo a seguinte pergunta aos antigos funcionários: “Há quanto tempo o senhor está nessa função?”. A linha de corte foi os que estavam estacionados há mais de dez anos. Não interessava à nova administração pessoas sem ambição. Para ela, isso era um forte indicativo de falta de proatividade.

Uma avaliação pessoal deve ter uma agenda recorrente. Em nossa cultura é normal essa checagem ocorrer no final ou começo de um novo ano ou nos aniversários natalícios. Muitos planos, várias metas e uma curta memoria para mudança. Basta lembrar dessa frase que elaborei em um de nossos livros: “A única constante na vida é a mudança constante na vida”. Se prepare para crescer mais um pouco ainda hoje!

A armadilha do bom queijo. 2

JOEL DE OLIVEIRA – é doutor em Saúde Pública, psicólogo e diretor de Cursos do Instituto de Psicologia Ser e Crescer (www.isec.psc.br). Entre seus livros estão: Relacionamento em Crise: Perceba Quando os Problemas Começam, Tenha as Soluções; Jogos para Gestão de Pessoas; Maratona para o Desenvolvimento Organizacional; Mente Humana: Entenda Melhor a Psicologia da Vida e Saiba Quem Está à sua Frente Análise Comportamental pelas Expressões Faciais e Corporais (Wak Editora).

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 31: 10-31 – PARTE I

Alimento diário

A MULHER VIRTUOSA 

 

V. 10 a 31 – Esta descrição da mulher virtuosa pretende mostrar que tipos de esposas devem ser as mulheres, e que tipos de esposas os homens devem escolher; ela consiste de vinte e dois versículos, cada um deles iniciado por uma letra do alfabeto hebraico, em ordem, como alguns dos salmos, o que leva alguns a pensar que este fragmento não fazia parte da lição que a mãe de Lemuel lhe ensinava, mas era um poema, por si mesmo, escrito por algum outro autor, e talvez tivesse sido muito repetido entre os judeus piedosos, e para facilitar a memorização tivesse sido escrito alfabeticamente. Nós o temos condensado no Novo Testamento (1 Timóteo 2.9,10: 1 Pedro 3.1-6), onde o dever recomendado às esposas está de acordo com esta descrição de uma boa esposa; e com boas razões há tanta ênfase sobre ele, uma vez que o fato de que as mães sejam sábias e boas, contribui, tanto quanto qualquer outra coisa, para a promoção da religião nas famílias, e a sua transmissão para a posteridade: e todos nós conhecemos os resultados que esta atitude traz em termos de riqueza e prosperidade para uma casa. Aquele que deseja prosperar precisa ter a cooperação da sua esposa. Aqui, temos:

 

I – Uma investigação sobre essa mulher (v. 10); observe:

1. A pessoa buscada: é uma mulher virtuosa – uma mulher de força (este é o significado da palavra), que embora sendo o vaso mais fraco, é fortalecido pela sabedoria e graça e pelo temor a Deus: a palavra usada aqui é a mesma usada na descrição dos bons juízes (Êxodo 18.21), que são homens capazes. homens qualificados para a atividade à qual são chamados, homens sinceros e tementes a Deus. Consequentemente, uma mulher virtuosa é uma mulher temente a Deus. que tem o controle do seu próprio espírito, e sabe como controlar o espírito de outras pessoas, que é piedosa e diligente, e uma boa adjutora para um homem. Em oposição a esta força, lemos sobre a fraqueza de coração de uma mulher que é uma meretriz imperiosa (Ezequiel 16.30). “Uma mulher virtuosa é uma mulher resoluta, que, tendo desposado os bons princípios, é firme e constante com eles, e não será amedrontada, por ventos e nuvens, a se afastar de nenhuma parte do seu dever.

2. A dificuldade de encontrar uma mulher como esta: “Quem a achará?” Isto sugere que as boas mulheres são muito escassas, e que muitas podem parecer ser boas, sem sê-lo, na verdade; aquele que julgou ter encontrado uma mulher virtuosa estava enganado: Era Léia, e não a Raquel que ele esperava. Mas aquele que deseja se casar deve buscar diligentemente uma mulher virtuosa, e ter este principal objetivo em todas as suas buscas. e tomar cuidado para não se deixar influenciar por beleza ou alegria, riqueza ou linhagem, ou pelo fato da jovem saber se vestir bem; pois todas estas condições podem ser satisfeitas e ainda assim a mulher pode não ser virtuosa, e há muitas mulheres verdadeiramente virtuosas que não são assim favorecidas.

3. O valor indescritível de uma mulher assim, e o valor que um homem que tem uma esposa como essa deve atribuir a ela, mostrando, com isto, a sua gratidão a Deus e a sua bondade e o seu respeito por ela, por quem ele nunca deverá pensar que já fez o suficiente. “O seu valor muito excede o de rubis”, e todos os ricos ornamentos com que as mulheres elegantes se adornam. Quanto mais raras são as boas esposas, mais devem ser valorizadas.

 

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O CONTROLE DAS EMOÇÕES

Trabalhando com ratos, cientistas americanos desenvolvem técnica para manipular lembranças – positivas e negativas. Será possível fazer o mesmo com seres humanos?

O controle das emoções

“Abre os vidros de loção/e abafa/o insuportável mau cheiro da memória”, diz o poema Resíduo, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Os versos, escritos pelo poeta mineiro na década de 40, parecem extraordinariamente afinados com recentes pesquisas da neurociência segundo as quais o esquecimento seria um modo encontrado pelo cérebro para se livrar do que é, no mínimo, irrelevante e, muitas vezes, traumatizante. A ideia também dá corpo ao filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004), de Michel Gondry, em que o personagem Joel, interpretado por Jim Carrey, descobre um método para apagar da memória tudo o que envolvia sua ex-namorada Clementine. Ainda não se chegou a tanto, mas a ciência deu um novo passo para o que pode ser uma desconcertante conquista.

Em um artigo recém-publicado na revista americana Current Biology, cientistas da Universidade Boston revelaram que, trabalhando com camundongos, desenvolveram uma técnica inédita para mapear e controlar partes do cérebro que guardam os sentimentos ligados a lembranças boas e ruins. Utilizando ratos geneticamente modificados – para que seus neurônios reagissem a estímulos de luz -, os pesquisadores conectaram ao cérebro dos roedores pequenas fibras ópticas capazes de iluminar a região estudada. Com isso, era possível detectar a reação das células aos impulsos elétricos nas mais diferentes situações. Memórias positivas – prazerosas – foram estimuladas nos animais do sexo masculino levados a copular com suas fêmeas. Em seguida, os cientistas “gravaram” no cérebro dos camundongos lembranças negativas, ao prendê-los em gaiolas que davam choques em seus pés ao momento em que um alarme era acionado. Com os ratos devidamente condicionados a um ou outro tipo de memória emotiva, foi possível rastrear em quais regiões cerebrais estavam os neurônios associados a cada modalidade de lembrança. A partir daí, os pesquisadores passaram a estimular de maneira artificial a ativação das áreas identificadas. Assim, viram que poderiam fazer com que um roedor ficasse relaxado mesmo depois de ouvir o alarme de choque. Isso porque, nesse exato momento, os cientistas acionavam a região do hipocampo responsável pela sensação de prazer (registrada na copulação).

Embora os experimentos tenham sido conduzidos em cobaias, os pesquisadores acreditam que as regiões do cérebro dos camundongos analisadas possam revelar caminhos para o progresso, por exemplo, dos tratamentos de transtornos psiquiátricos em seres humanos. “Poderemos criar medicamentos que se ligam apenas aos circuitos positivos de memórias, de forma personalizada e diferente de como fazem os antidepressivos atuais, que agem em todo o cérebro e causam efeitos colaterais adversos”, disse o neurocientista Steve Ramirez, que liderou o estudo. A experiência, no entanto, arrasta consigo incontornáveis questões éticas sobre a aplicação da técnica em pessoas. O cérebro dos ratos foi cirurgicamente aberto e submetido a uma série de procedimentos traumáticos – impensáveis em humanos. Essa, porém, não é ainda uma preocupação de Ramirez: “Demos apenas o primeiro passo. Falta muito até que precisemos nos preocupar com pessoas apagando memórias a seu bel-prazer”.

O controle das emoções. 2

OUTROS OLHARES

VIDA SEM LIKES

A nova regra do Instagram de ocultar o número de curtidas nos posts diminui a competição, mas não resolve a dependência da tecnologia. De acordo com especialistas, o vício em rede social é apenas reflexo de uma vulnerabilidade já existente na vida real

Vida sem likes

Na semana passada, o Instagram decidiu ocultar no Brasil e em outros seis países o número de curtidas de fotos e vídeos no feed e no perfil dos usuários, em forma de teste. A providência segue uma experiência que começou em maio no Canadá e, segundo a empresa, foi tomada para “que os seguidores se concentrem mais nas fotos e vídeos que são compartilhados do que na quantidade de curtidas que recebem”. A companhia também deseja que as pessoas não sintam que estão em uma competição dentro da plataforma. A decisão dividiu opiniões. Uma das repercussões mais polêmicas partiu do vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PSL). Em seu Twitter, ele postou que a verdadeira intenção da marca é “barrar o crescimento dos que pensam de forma independente”. Por outro lado, a maioria dos influencers se pronunciou com um discurso politicamente correto, afirmando que a medida é positiva e combate a busca excessiva por likes. Isso pode ser um discurso calculado e não refletir o pensamento real daqueles que já tratam a rede como um negócio. Usuários que burlaram o Instagram e publicaram na rede uma foto de seu perfil com o número de curtidas foram criticados. Além disso, fontes que trabalham na área afirmaram à ISTOÉ que nos bastidores influencers estão preocupados com a possível queda no faturamento. Há relatos de reuniões para criar novas formas de gerar engajamento, apesar das manifestações favoráveis na rede.

Vida sem likes. 2

DEPENDÊNCIA TECNOLÓGICA

Apesar de a alteração amenizar a relação tóxica que muitos usuários regulares têm com a rede social, ela não resolve o problema de dependência tecnológica. De acordo com um estudo de 2017 da Royal Society for Public Health, instituição de saúde pública britânica, o Instagram é a plataforma mais nociva à saúde mental dos jovens. De cada 10 voluntários, sete afirmaram que o aplicativo foi prejudicial a sua autoimagem. Entre as meninas, nove em cada 10 estão infelizes e pensam em mudar a própria aparência por meio de procedimentos estéticos para serem mais aceitas na plataforma. Esse problema é constatado pelo Programa de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP. Criado em 2006, o grupo atende pacientes para os quais o uso da tecnologia deixou de ser um prazer e passou a funcionar como uma espécie de transtorno obsessivo compulsivo, com componentes de impulsividade. De acordo com a psicóloga do programa, Dora Góes, as redes sociais apenas dão visibilidade ou agravam um problema que já existe. “As pessoas buscam ali o que falta na vida, mas nada substitui a necessidade do ser humano de ser aprovado nas suas relações pessoais. Vira uma busca sem fim”, diz ela. Na maioria dos casos de dependência tecnológica existem outras doenças associadas, como depressão e ansiedade.

A influencer Mariana Gimezes já teve problemas de auto aceitação na adolescência e chegou a desenvolver depressão e síndrome do pânico. “Foi difícil, ficava me comparando com os outros e me sentia inferior”, diz ela. Formada em arquitetura, desde 2016 trabalha como influenciadora. Com 123 mil seguidores, vive de publicidade com os posts. Para ela, a mudança recente foi feita por interesses comerciais, para incentivar o patrocínio de posts, assim como ocorreu em 2018, quando eles passaram a aparecer aos usuários não por ordem cronológica, mas, sim, pela quantidade de curtidas que recebiam. À época, Mariana chegou a ficar abalada com a queda nos likes: “Achei que não estavam gostando do meu trabalho.” Mais madura e próxima dos seguidores, hoje ela lida com a questão de uma forma bem-humorada: “É raro, mas quando faço foto com poucas curtidas, brinco que estou me sentindo abandonada e peço para as pessoas curtirem”.

GESTÃO E CARREIRA

CUIDADO: VENENO

Em algumas empresas, ainda há espaço para a chefia tóxica. Fazer networking interna e externamente, e saber se posicionar frente ao gestor cruel são algumas das alternativas para se blindar — ou fugir — desse problema.

Cuidado - Veneno

“Ele era tecnicamente brilhante, mas sem nenhuma inteligência emocional.” É assim que a advogada Jordana Paiva, de 42 anos, descreve um dos líderes com que trabalhou durante um ano em um escritório de advocacia de médio porte em São Paulo. Ela perdeu as contas de quantas vezes o viu se descontrolar e usar o poder para subjugar e ameaçar os profissionais, inclusive ela. “Sempre que algo não saía como ele queria, ameaçava me despedir e me colocava em uma situação inferior, deixando claro que não daria boas referências de meu trabalho”, diz. Segundo Jordana, a cultura que permeava na empresa era a do medo. “O doutor vai chegar, senta e silêncio!”, era a frase habitual de todos quando estava perto da hora do gestor aparecer.

O tal chefe chegou a colocar câmeras nas salas (dizendo que era para segurança), mas, na verdade, seu principal intuito era vigiar a equipe quando estivesse ausente. “Se via algo que não gostava, ligava imediatamente para uma das secretárias e dizia: ‘Por que fulana está de pé? Pergunte se ela não tem mais o que fazer’ ”, afirma Jordana.

Apesar de a tendência ser diminuir esse tipo de liderança, ainda há muitos gestores tóxicos, no estilo de Miranda Priestly, no filme O Diabo Veste Prada, ou Annalise Keating, na série How to Get Away with Murder, por aí. Uma das frases preferidas de Annalise, “me ligue quando ele estragar tudo”, por exemplo, mostra bem uma das características dos chefes tóxicos, que acham que apenas eles são bons o suficiente para tocar os projetos. Mas há outras. Eles são agressivos, narcisistas e até violentos. Jordana lembra que, certa vez, o líder jogou o laptop no chão, pois não gostou de um acordo que ela havia feito. “A tensão era diária”, diz.

O espaço para esse tipo de chefia é reflexo do cenário atual. Com a instabilidade econômica, algumas companhias apenas buscam resultados no curto prazo para se manter competitivas, sem olhar a gestão de pessoas. “O chefe tóxico prospera em organizações que permitem que o gestor faça qualquer coisa para bater as metas”, diz Rafael Souto, presidente da Produtive, consultoria de planejamento e transição de carreira. Segundo ele, geralmente são empresas em que o presidente ou os acionistas têm esse perfil e não estão preocupados com o ambiente, mas com os números.

Apesar de estarem presentes em negócios de diferentes setores e portes, é mais comum encontrá-los em mercados tradicionais e nos segmentos mais atingidos pela desacelaração, como mídia e indústria automobilística. “A crise é o motor do tóxico. Quando a economia começa a melhorar, as pessoas têm mais opções e saem da companhia”, afirma Rafael.

 O PREÇO DO PROBLEMA

Os reflexos dessa gestão, cedo ou tarde, chegam à empresa. O ambiente fica pesado e a competição ganha força, o que começa a gerar conflitos entre os profissionais e resulta em pedidos de demissão dos melhores talentos. Isso sem falar no absentismo: com tanta pressão, os funcionários começam a ficar doentes e faltam mais. “Dificilmente, as pessoas toleram uma liderança assim quando têm mais oportunidade”, diz Maria Candida Baumer de Azevedo, sócia da People & Results, especializada em carreira e cultura empresarial. É o que mostram, mesmo, os números. Uma pesquisa da consultoria americana BambooHR revela que 44% dos profissionais pediram demissão por causa de um chefe tóxico. Entre as causas, o estudo aponta o roubo de crédito pelo trabalho sem reconhecer o empregado. Em seguida, outros motivos são: não manifestar confiança, ignorar o excesso de trabalho, contratar ou promover pessoas erradas, não permitir autonomia e ressaltar as fraquezas da equipe. “Na primeira oportunidade que tive, pedi demissão. Não dava mais para viver naquela cultura de medo”, diz a advogada Jordana. De acordo com ela, apesar de saber que a situação não era normal, aguentou em razão do aprendizado. “Tinha pouca bagagem profissional e sabia que a experiência contaria muito em meu currículo. Além disso, o escritório possuía uma carteira de clientes que me interessava”, afirma. Ela lembra que, por lá, elogios não existiam. “Podia ter feito melhor” e “da próxima vez estude mais” eram os estímulos dados à equipe.

A advogada saiu da empresa antes de pagar uma conta mais cara, que é a da saúde. “O profissional passa a duvidar do próprio talento e perde toda a motivação, o que, no longo prazo, pode desencadear uma crise emocional”, diz Fabrício César Bastos, fundador da Flowan, consultoria de desenvolvimento humano. Em alguns casos, até a vida pessoal é prejudicada, pois ele não consegue mais ficar bem nem mesmo com a família e os amigos.

A psicanalista Claudia Cavallini, consultora e professora na HSM Educação Executiva, conta que muitos já chegam ao consultório com questões psíquicas graves, como crises de ansiedade e estresse decorrentes de chefes difíceis. “É preciso estar atento aos sinais do corpo. Se começar a ficar doente com frequência, e sofrer de insônia e irritabilidade frequentes, é hora de pedir ajuda”, diz. Nem sempre é necessário recorrer à terapia, mas é essencial observar esses sinais para não chegar ao limite e adoecer. No entanto, segundo Claudia, deve-se ter cuidado ao rotular um chefe como tóxico, pois a questão pode estar no âmbito pessoal, como o fato de o empregado não estar num bom momento e se abalar com uma gestão mais agressiva, por exemplo.

Por isso, o primeiro passo é conversar com os colegas. Se todos observam e sentem o mesmo que você, provavelmente a gestão é realmente ruim. “A liderança nefasta, que pode envolver todos os tipos de assédio, é recorrente e afeta mais de uma pessoa da equipe”, diz Maria Cândida. Segundo ela, os tóxicos não podem ser confundidos com líderes mais assertivos que, vez ou outra, são mais duros em um feedback. Ao contrário: os nocivos agem sempre assim.

 ROTA DE FUGA

Lutar contra essa cultura não é fácil, pois, se o gestor age dessa forma, provavelmente tem o aval da alta direção por entregar bons resultados. Além disso, a maioria não reconhece sua toxicidade. Acha que entrega resultados e as pessoas é que estão de “mimimi”. Mas há algumas formas de se blindar enquanto precisa do trabalho e, aos poucos, se movimentar no mercado — ou na própria empresa. Foi exatamente isso que Roger Carrara, de 34 anos, fez. Atualmente no Peixe Urbano, ele teve de lidar com uma chefe tóxica em outra companhia em que trabalhava. Ao perceber o problema, Roger começou a reforçar o networking interno. “Mantinha conversas recorrentes com as outras áreas, mas sem falar da gestora. O objetivo era trocar ideias de projetos e da operação em geral”, diz. Aquele era, para ele, um momento muito desgastante, no qual tinha a sensação de que a ascensão profissional demoraria. Na época, todos os créditos das boas ideias ficavam com a chefe. “Fazíamos muitas reuniões de brainstorming para resolução de problemas e precisávamos levar as soluções à gerência. Em várias situações, ouvíamos que a ideia era ruim, mas, no dia seguinte, ela estava apresentando a mesma ideia ao diretor, sem mudar nada”, diz. Um ano e meio depois de reforçar sua rede de contatos, veio o resultado: Roger foi chamado por um desses líderes para assumir uma nova operação. Aí tudo mudou. Ele ficou dois anos na nova área até ir para o Peixe Urbano. “Hoje me identifico muito com o modelo de gestão da empresa e estou feliz”, diz. A atitude de Roger é recomendada pelos especialistas, que acreditam ser importante assumir a gestão da própria carreira e começar a se movimentar, descobrindo caminhos e possibilidades para se livrar da liderança tóxica. “Se ficar preso nessa bolha e não fizer relacionamento, a probabilidade da situação mudar é muito baixa”, afirma Rafael. Além disso, dependendo da cultura geral da empresa e do perfil do RH, uma conversa franca pode valer a pena. Hoje em dia, há muitos profissionais de gestão de pessoas preparados para esse diálogo. Mas, se a opção for falar diretamente com o gestor, seja cuidadoso. “Explique, com respeito, como se sente com algumas atitudes e de que forma isso influencia em sua produtividade”, diz a coach Eliana Dutra, CEO da ProFitCoach. Segundo ela, é importante também perguntar como ele prefere que a comunicação seja feita e em quais pontos você pode melhorar. Nesse caso, humildade é a palavra de ordem.

O segredo é saber se colocar e não deixar que as palavras desmotivadoras e o perfil do líder o abalem. Afinal, se ele age assim com todo mundo, o problema certamente não é seu. “A confiança vem com o tempo. Hoje, com a bagagem profissional que adquiri, teria me posicionado mais naquela época, não teria me calado”, diz Jordana. Pense se não está na hora de botar a boca no trombone — seja para solucionar a situação diretamente com o chefe, seja para falar ao mundo que você está disponível para uma mudança de rota.

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CONHECE O “EFEITO LÚCIFER”?

Talvez seu chefe não fosse cruel antes de alcançar o poder

 O psicólogo americano Philip Zimbardo estudou o comportamento humano para entender por que, em determinadas situações, algumas pessoas consideradas boas são capazes de cometer crueldades. Para isso, um grupo de estudantes universitários voluntários foi dividido aleatoriamente em guardas e prisioneiros em um ambiente de prisão simulado. Após uma semana, os estudantes transformaram- se em guardas violentos e sádicos ou em prisioneiros emocionalmente abalados. Essa tendência de uma pessoa produzir o “mal” quando lhe é conferido poder foi chamado de “Efeito Lúcifer”.

 

 

 

 

 

 

TRAÇOS NADA SUTIS

Seis sinais de que seu chefe pode ser tóxico

 

AUTORITÁRIO

A única forma certa de realizar um trabalho é a do gestor, que evita delegar tarefas e, quando o faz, controla todos os passos e nunca fica satisfeito com o resultado. além disso, tem o hábito da ameaça, pois acredita que as pessoas funcionam melhor quando estão com medo.

 

IMPREVISÍVEL – Você nunca sabe como ele vai chegar à empresa: de bom humor ou gritando. a tensão costuma ser diária.

 

ARROGANTE – Ele tem certeza que é incrível como profissional e você é que tem sorte de trabalhar sob sua supervisão. Assim, segue a linha “faça da maneira que eu falei e agradeça por estar em minha equipe”.

 

AGRESSIVO – Não ouve e apenas dá ordens. Quando algo não sai da maneira que ele queria (ou faria), é capaz de gritar e humilhar as pessoas. Respeito e empatia são palavras que ele não conhece.

 

NARCISISTA – Os méritos do sucesso são sempre dele. aliás, vez ou outra, ele se apropria de ideias de outras pessoas e, se algo der errado, a culpa é sempre do time. Geralmente tem uma visão pouco realista de si mesmo e é incapaz de autocrítica.

 

EXIGENTE AO EXTREMO – Para ele, nunca nada está bom o suficiente. Costuma, também, sobrecarregar a equipe de trabalho, pois desconhece o limite entre pressão por resultados e falta de respeito.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 31: 1-9

Alimento diário

CONSELHOS MATERNOS AO REI LEMUEL

 

V. 1 a 9 – A maioria dos intérpretes é da opinião de que Lemuel é Salomão; o nome significa -que pertence a Deus, ou que é devotado a Deus”, e está de acordo com aquele honroso nome que, por indicação divina. foi dado a Salomão (2 Samuel 12.25), Jedidias – amado do Senhor. Supõe-se que Lemuel seja um nome bonito, amável e carinhoso, pelo qual sua mãe costumava chamá-lo: e ele dava tanto valor ao benefício que sentia através dos sentimentos de sua mãe, que não se envergonhava de chamar a si mesmo por este nome. Uma hipótese preferível seria pensar que é Salomão que aqui nos diz o que sua mãe lhe ensinou, porque ele nos diz (Provérbios 4.4) o que seu pai o ensinou. Mas alguns pensam (e a conjetura não é improvável) que Lemuel era um príncipe de alguma nação vizinha, cuja mãe era uma filha de Israel, talvez da casa de Davi, e que lhe ensinou estas boas lições. Observe:

1. É o dever das mães, bem como dos pais, ensinar aos seus filhos o que é bom, para que possam fazê-lo, e o que é mau. para que possam evitá-lo; quando os filhos são jovens; devem estar sob os olhos da mãe, e ela, então, tem a oportunidade de moldar e formar bem suas mentes, oportunidade que ela não deve deixar escapar.

2. Até mesmo os reis devem ser discipulados; o maior dos homens é menor do que a menor das ordenanças de Deus.

3. Os que cresceram até a maturidade devem frequentemente se lembrar e mencionar as boas instruções que receberam quando eram crianças, para sua própria admoestação, para a edificação dos outros e a honra daqueles que foram os guias da sua mocidade.

Agora, no discipulado desta mãe (desta rainha- mãe), observe:

 

I – A sua admoestação ao jovem príncipe, pela qual ela se posiciona como sua orientadora, reivindica um interesse nele, e desperta a atenção dele ao que irá dizer (v. 2): “Como, filho meu? Que te hei de dizer? Ela fala como alguém que considera qual conselho deve dar ao filho, e escolhe as palavras para argumentar com ele; tão cheia de preocupação está ela, pelo bem-estar dele! Ou, O que fizeste? Parece ser uma pergunta de repreensão. Ela observou, quando ele era jovem, que ele era muito inclinado às mulheres e ao vinho, e por isto julgou necessário repreendê-lo e lidar severamente com ele. “Como, filho meu? Este é o curso de vida que pretendes adotar? Eu não te ensinei nada melhor do que isto? Eu preciso te repreender, e fazê-lo severamente, e tu deves receber bem esta repreensão, pois:

1. És meu descendente, és “filho do meu ventre”, e por isto o que eu digo se origina da autoridade e do afeto de um pai, e não pode ser suspeito de se originar de alguma má vontade. És um pedaço de mim. Eu te gerei com sofrimento, e não espero nenhuma outra retribuição dos sofrimentos que tive contigo, do que este: Sê sábio e bom, e então estarei recompensada.

2. És devotado ao meu Deus; és o filho das minhas promessas, o filho que eu pedi que Deus me desse, e prometi devolver a Deus, e assim fiz (assim Samuel era o filho das promessas de Ana). És o filho ao qual frequentemente pedi que Deus desse a Sua graça (Salmos 72.1); e será que um filho pelo qual tantas orações já foram oferecidas, fracassará? E todas as minhas esperanças ao teu respeito serão desapontadas? Os nossos filhos, que são apresentados a Deus ao nascerem, são dedicados a Deus, por quem e em cujo nome nós temos um concerto com Deus, podem ser chamados de filhos de nossas promessas; e, da mesma maneira como esta pode ser uma boa súplica para Deus nas nossas orações por eles, também pode ser um bom apelo a eles, nas instruções que lhes damos; podemos dizer-lhes que foram apresentados e dedicados a Deus, que são os filhos de nossas promessas, e que será seu próprio risco se romperem estes laços que foram feitos solenemente na sua infância.

 

II – A advertência que ela lhe faz contra estes dois pecados destruidores – a impureza e a embriaguez – que, se ele se gratificasse neles, isto certamente seria a sua ruína.

1. Contra a impureza (v. 3): “Não dês às mulheres a tua força”, às mulheres estranhas. Ele não deve ser suave e efeminado, não deve passar em vã convivência com as mulheres aquele tempo que seria mais bem gasto na obtenção de conhecimento e na realização de negócios; não deve empregar seu tempo cortejando-as e elogiando-as, não deve dedicar a isso aquela inteligência (que é a força da alma) que deveria empregar nos assuntos do seu governo. Especialmente evita todo adultério, prostituição e lascívia, que desperdiçam a força do corpo e trazem perigosos desastres. Não dês os teus caminhos, teus sentimentos, o teu convívio, ao que destrói os reis, que já destruiu muitos, que causaram um choque ao reino do próprio Davi, na questão de Urias. Que os sofrimentos dos outros sejam teus avisos. Isto diminui a honra dos reis e os torna desprezíveis. São adequados para governar outras pessoas aqueles que são escravos de seus próprios desejos? Isto os torna muito inadequados para o trabalho e enche a sua corte com os mais infames e piores animais. Os reis estão sujeitos a tentações deste tipo; se tentarem agradar à carne terão que suportar o peso do pecado, e por isto eles devem dobrar a sua guarda; e, se desejarem preservar o seu povo dos espíritos imundos, devem ser, eles mesmos, padrões de pureza. As pessoas comuns também podem aplicar isto a si mesmas. Que ninguém dê a sua força ao que destrói almas.

2. Contra a embriaguez (vv. 4,5). Ele não deve beber vinho ou bebidas fortes; ele não deve nunca se sentar para beber, como era costume se fazer por ocasião da comemoração do dia do rei, quando os príncipes se tornarem doentes com a excitação do vinho (Oseias 7.5). Qualquer que seja a tentação com que possa se deparar, seja pela excelência do vinho, seja pelos encantos da companhia, ele deve se negar e se manter estritamente sóbrio, considerando:

(1) A indecência da embriaguez em um rei. Ainda que alguns possam chamar isto de uma diversão elegante e moderna, não é próprio dos reis, ó Lemuel, não é próprio dos reis permitir a si mesmos essa liberdade; é um menosprezo à sua dignidade, e profana a sua coroa, envergonhando a cabeça que a usa; aquilo que os torna menos homens também os torna menos reis. Diremos, são deuses? Não, são piores do que os animais que perecem. Todos os cristãos são feitos reis e sacerdotes para o nosso Deus, e devem aplicar isto a si mesmos. Não é próprio dos cristãos, não é próprio dos cristãos beber bebidas alcoólicas; eles se rebaixam se o fizerem; não é apropriado para os herdeiros do reino e os sacerdotes espirituais (Levítico 10.9).

(2) As más consequências disto (v. 5): para que não bebam e obscureçam o seu entendimento e as suas lembranças, para que não bebam, e se esqueçam do estatuto pelo qual devem governar; e assim, em lugar de fazer o bem com o seu poder, façam o mal com ele, e pervertam o juízo de todos os aflitos, e, quando deveriam fazer-lhes justiça, venham a ser injustos com eles, e aumentem a sua aflição. É uma triste reclamação que é feita dos sacerdotes e profetas (Isaias 28.7), de que erram por causa do vinho, e com a bebida forte se desencaminham; e o resultado é igualmente mau nos reis, que, quando estão embriagados ou intoxicados com o amor pelo vinho, não podem deixar de tropeçar no juízo. Os juízes devem ter um pensamento claro e um raciocínio claro, que não podem ter aqueles que, devido à embriaguês, tão frequentemente ficam atordoados, e incapacitados para julgar as coisas mais comuns.

 

III – O conselho que ela lhe dá, para fazer o bem.

1. Ele deve fazer o bem com a sua riqueza. Os nobres e grandes homens não devem pensar que têm a sua abundância somente para obter dela a provisão para a carne, satisfazer os desejos dela e gratificar mais livremente os seus próprios caprichos; não, com ela eles podem aliviar os que estão afligidos (vv. 6,7). Você pode ter vinho ou bebida forte à vontade. Em vez de se prejudicar com ela, faça o bem aos outros com ela; que a tenham os que dela necessitam. Os que têm riquezas devem não somente dar o pão para os famintos e água aos sedentos, como devem dar bebida forte àquele ímpio que está prestes a perecer com doenças ou dores, e vinho aos que estão melancólicos e com o coração pesado; pois este deve animar e revigorar o espírito, e alegrar o coração (como faz, onde é necessário), e não sobrecarregar e oprimir o espírito, como faz onde não é necessário. De­ vemos negar a nós mesmos as gratificações dos sentidos, para que possamos ter para o alívio das infelicidades dos outros, e nos alegrar por ver as nossas coisas supérfluas e aquilo que nos traz deleites concedidos àqueles a quem eles serão uma verdadeira bondade, em lugar de serem uma verdadeira ofensa a nós mesmos. Que aqueles ímpios que estão prestes a perecer bebam com sobriedade, e a bebida será um meio de reviver o seu espírito desanimado, a tal ponto, que se esquecerão da sua pobreza durante um momento. e não mais se lembrarão da sua infelicidade, e assim serão mais capazes de suportá-la. Os judeus dizem que nisto se baseou o costume de dar uma bebida atordoante para os prisioneiros condenados, quando se dirigiam para a execução, como quiseram fazer com o nosso Salvador. Mas o objetivo de todo este comentário é mostrar que o vinho reanima, e por isto deve ser usado em um caso de necessidade, e não para a libertinagem, e somente por aqueles que precisam ser revigorados, como Timóteo, que é aconselhado a beber um pouco de vinho, somente por causa de seu estômago e de suas frequentes enfermidades (1 Timóteo 5.23).

2. Ele deve fazer o bem com o seu poder, com o seu conhecimento e naquilo que lhe diz respeito: deve administrar a justiça com cuidado, coragem e compaixão (vv. 8,9).

(1) Ele deve tomar conhecimento pessoalmente das causas que os seus súditos têm pendentes em seus tribunais, e inspecionar o que fazem os seus juízes e oficiais, para que possa auxiliar os que cumprem o seu dever, e deixar de lado os que o negligenciam ou são parciais.

(2) Ele deve, em todas as questões que forem trazidas à sua presença, julgar com justiça, e, sem temer o rosto do homem, corajosamente proferir sentença, de acordo com a equidade: “Abre a tua boca”, o que indica a liberdade de expressão que os príncipes e juízes devem usar, ao proferir sentenças. Alguns observam que somente os sábios abrem suas bocas, pois os tolos têm suas bocas permanentemente abertas, cheias de palavras.

(3) Ele deve especialmente se considerar obrigado a ser o defensor da inocência oprimida. Os magistrados inferiores talvez não tivessem zelo e ternura suficientes para defender a causa dos pobres e necessitados; por isto o próprio rei deve interferir, e se manifestar como um advogado,

[1] Daqueles que são injustamente acusados de crimes puníveis com a pena de morte, como Nabote, que são destinados à destruição. para satisfazer a maldade de uma pessoa em particular ou de um grupo. É um caso em que é conveniente que um rei se manifeste, para a preservação de sangue inocente.

[2] Daqueles contra os quais foram movidas ações injustamente, para privá-los fraudulentamente do seu direito, porque são pobres e necessitados, e incapazes de defendê-lo, não tendo recursos para obter conselho; neste caso também os reis devem ser advogados do pobre. Especialmente.

[3] Dos que são mudos e não sabem como falar por si mesmos, seja por fraqueza ou por temor, ou por excesso de argumentação do acusador; ou por excesso de receio do tribunal. É generoso falar em nome dos que não podem falar por si mesmos, que são ausentes ou que não tenham domínio das palavras, ou ainda daqueles que são temerosos. A nossa lei recomenda que o juiz defenda o mais frágil.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A LATA DE AZEITE E OS IMPEDITIVOS DA VIDA AUTÊNTICA – I

Mais do que uma força pessoal, a autenticidade é uma condição fundamental para a felicidade genuína. Mas nem sempre é fácil ser autêntico

A lata de azeite e os impeditivos da vida autêntica I

Quem me conhece sabe. Poucas coisas me irritam mais do que pessoas, cujas vidas não correspondem aos seus discursos. Talvez essa tenha sido a principal força motriz que me levou a trabalhar com desenvolvimento humano. Afinal de contas, valores e sentimentos nobres de nada adiantam sem atitude. Nesse sentido, tanto em consultório quanto nos cursos que ministro, meu objetivo é o de provocar a reflexão capaz de gerar a ação. Uma ação que ajude as pessoas a serem elas mesmas; nas suas melhores versões. A carência de autenticidade parece crescer na exata proporção dos discursos politicamente corretos.   Como se esses últimos fossem suficientes para a conquista de um mundo melhor.

O fato é que depois de muitos anos nesta profissão, concluo que são quatro as razões que impedem que um indivíduo leve uma vida autêntica: má intenção, desconhecimento, falta de coragem e o “moedor de carne”.

Talvez a má intenção dispense mais explicações. Contudo, ela guarda em si um aspecto muito interessante: de todas as quatro razões que impedem que uma pessoa seja autêntica, essa, paradoxalmente, é a única que ainda possui um pouco de autenticidade. Parece estranho? Vejamos a situação hipotética de um indivíduo mau caráter, cujos valores dizem respeito a maximizar vantagens pessoais em detrimento dos direitos alheios. Se essa pessoa roubar, por exemplo, ela estará sendo completamente coerente com seus valores. Sua única falta de autenticidade será com relação àquilo que ela diz serem seus valores, ou seja, em relação ao seu muito provável discurso sobre direitos e cidadania que ela manteria justamente para ludibriar os demais e conseguir atingir seus objetivos escusos. O mal intencionado tem o mérito do autoconhecimento. Seu único pecado, então, do ponto de vista da autenticidade, é seu discurso enganoso.

A segunda razão que impede uma vida autêntica é o desconhecimento. O imperdoável desconhecimento de si mesmo que, ao impedir que o sujeito tenha consciência acerca de suas próprias verdades, remete-o a viver verdades alheias. Aqui o indivíduo pode ou não trair seu discurso, contudo a suposta traição seria menos alarmante do que a traição de seu próprio eu. Sócrates dizia que o homem desconhecido de si mesmo é um bárbaro. Nesse sentido, o ritmo da vida cotidiana, por não permitir a autorreflexão, estaria nos levando à barbárie. Isso significa que a autenticidade é impossível sem o autoconhecimento. Talvez por essa razão esse último seja a pedra angular de todo trabalho psicoterapêutico. Por outro lado, por mais que seja apaixonada por esse tipo de trabalho, descordo de alguns colegas que afirmam que todo indivíduo deveria se submeter à psicoterapia.

O autoconhecimento pode ser solitário. Contudo, ele depende de um timing que permita a autorreflexão. Além disso, poderíamos também ter um sistema educacional que, por meio do exercício da autoconsciência, levasse as pessoas a uma vida autêntica. Mas isso seria um luxo que o atual modelo de educação para o “ter” não nos permitiria. Afinal, importante mesmo é passar no vestibular e frequentar uma faculdade boa o bastante para nos garantir o trabalho em uma empresa que nos renda um bom dinheiro.

Mas existe um outro tipo de pessoas que, também vítimas do desconhecimento, acabam por levar uma existência inautêntica. São aqueles que fizeram o caminho em direção ao seu eu interior, acessaram seus valores e suas verdades, contudo não sabem exatamente como colocá-los em prática. Isso acontece, por exemplo, em relação à Psicologia Positiva. Nesses mais de 10 anos que venho ministrando cursos sobre o tema nunca encontrei alguém que não se apaixonasse por ele.

No entanto, raros são aqueles que modificaram seu cotidiano com os ensinamentos aos quais tiveram acesso nesses cursos ou em suas leituras. Por esse motivo, creio que a Psicologia Positiva precise hoje, mais do que da divulgação, de demonstração. É por isso que criamos, no nosso Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, um curso de formação em Psicologia Positiva baseado em design thinking e totalmente voltado para a aplicação prática dos conceitos estudados nessa área. Porque mudar o mundo está ao alcance de cada um de nós.

Sobre a falta de coragem e o “moedor de carne” discutiremos no próximo post, na parte 2 deste texto. É lá que você vai entender o que a “lata de azeite” tem a ver com isso tudo. Aguarde!

 

LILIAN GRAZIANO – é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.

graziano@psicologiapositiva.com.br

OUTROS OLHARES

PERIGO NA TORNEIRA

Perigo na torneira

A água das torneiras das principais capitais e de muitas outras cidades brasileiras está cheia de agrotóxicos. Pelo menos uma em cada quatro metrópoles do Brasil enfrentaram problemas de água contaminada por pesticidas entre 2014 e 2017. Os números são de um estudo coordenado pela ONG Repórter Brasil e pela Agência Pública. No período destacado, as empresas de abastecimento de 1.396 cidades detectaram todos os 27 tipos de pesticidas que são obrigados por lei a testar. Desses, 16 são classificados pela Anvisa como extremamente ou altamente tóxicos e 11 estão associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como câncer, malformação fetal, disfunções hormonais e reprodutivas.

São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus, Curitiba, Porto Alegre, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis e Palmas estão entre os locais com contaminação múltipla. Para o diagnóstico, foram utilizados dados do Ministério da Saúde, obtidos em investigação conjunta entre as empresas e a organização suíça Public Eye. A falta de monitoramento é um dos problemas. Dos 5.570 municípios brasileiros, 2.931 não realizaram testes nas suas redes de abastecimento entre 2014 e 2017. Os testes comprovam que milhares de pessoas estão correndo risco ao beber um copo d’ água contaminada direto de suas torneiras de casa.

Perigo na torneira. 2

GESTÃO E CARREIRA

VOCÊ NO COMANDO

Profissionais que se mostram dependentes da empresa correm o risco de deixar sua carreira nas mãos de gestores amedrontados.

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Vivemos um período de transformação intensa na sociedade e uma das mudanças mais significativas está na gestão de carreira. Desde o início da industrialização, priorizou-se o modelo em que o rumo dos profissionais era definido pelas organizações. A pessoa ingressava em uma empresa e lá se desenvolvia. A carreira seguia por um caminho definido e previsível. Apresentando bons resultados e fazendo as alianças corretas era possível se aposentar na companhia.

A partir dos anos 90, essa previsibilidade terminou. As estruturas foram enxugadas e o plano de carreira foi engolido pelas transformações da época. No século 21, com as frenéticas mudanças impostas pela digitalização, a situação se agravou. A dinâmica dos negócios não permite mais projeção alguma de estrutura futura, o que, por consequência, impede promessas de planos de carreira mais estruturados.

O problema é que nos encontramos no limbo da falta de definições. E gestores ficam atônitos quando são questionados por seus liderados sobre os próximos passos para crescer. Sem clareza do que podem oferecer, eles também estão em compasso de espera. Adicione a essa indefinição uma boa dose de falta de repertório para ajudar no desenvolvimento de pessoas. Atualmente são poucos os gestores com ímpeto de melhorar uma importante habilidade: a de saber dialogar sobre oportunidades de trabalho com seus times. A maioria aguarda a criação de cargos e promoções para abordar o assunto e, como a tendência do mercado é exatamente oposta, muitos chefes não têm nada a oferecer. A saída, então, é delegar o assunto para a área de recursos humanos. Um passa a jogar a bola para o outro, e ficamos num carrossel de lamúrias sem que o assunto seja direcionado. Gestores com medo de conversas sobre emprego e trabalhadores com a visão antiga de delegação para a companhia compõem um cenário caótico, carregado de frustração e risco de baixa produtividade.

As respostas não são fáceis. Passam pela clareza de que a profissão é responsabilidade dos indivíduos e de que o líder é aquele que apoia o desenvolvimento, sugere ações e transfere experiência.

Por isso, a palavra do momento é protagonismo. Devemos ter consciência de nossas vontades e de aonde queremos chegar. O controle é do profissional, não da empresa. Par a que isso aconteça, é preciso que haja uma mudança de um modelo mental profundamente infiltrado em nossa cultura, de dependência e paternalismo. É uma jornada de evolução profunda, que envolve transformar as responsabilidades de cada uma das partes no processo profissional.

 

RAFAEL SOUTO – é fundador e CEO da consultoria Produtive, de São Paulo. Atua com planejamento e gestão de carreira, programas de demissão responsável e de aposentadoria.

 

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 30: 29-33

Alimento diário

QUATRO COISAS MAJESTOSAS E IMPONENTES

 

V. 29 a 33 – Aqui, temos:

I – A enumeração de quatro coisas que são majestosas e imponentes no seu andar, que parece nobre e grandioso:

1. Um leão, o rei dos animais, porque é o mais forte entre eles. Entre os animais, é a força que dá a proeminência, mas é lamentável que seja assim entre os homens, cuja honra é sua sabedoria, não sua força. O leão não se desvia nem recua, nem altera o seu passo, por temor a algum perseguidor, uma vez que sabe que ele é forte de­ mais para eles. Nisto, os justos são ousados e corajosos como um leão, pelo fato de que não recuam do seu dever por medo de qualquer dificuldade que encontrem.

2. Um galgo (ou como diz a anotação de margem) um cavalo, que não deve ser omitido entre as criaturas que têm um andar gracioso, pois assim ele é, especialmente quando está arreado.

3. Um bode, cujo andar é gracioso quando vai à frente e lidera o rebanho. É a graça do andar de um cristão que vai à frente em uma boa obra, e conduz os outros no bom caminho.

4. Um rei, que, quando aparece em sua majestade, é considerado com reverência e respeito, e todos concordam que não há como resistir a ele; ninguém pode ser seu rival, ninguém pode contender com ele, e quem quer que o faça, correrá riscos. E, se não há quem resista a um príncipe terreno, ai daquele, então, que luta contra o seu Criador. Estas comparações pretendem nos mostrar que devemos aprender com o leão a ter coragem e bravura em todas as ações virtuosas, e não recuar por qualquer dificuldade que encontrarmos; com o cavalo, podemos aprender a ter velocidade e eficiência; com o bode, o cuidado com a nossa família e com aqueles que dependem de nós; e com o rei, a ter nossos filhos submissos, com toda seriedade; e com todos eles, a andar bem, e ordenar os nossos passos, de modo que possamos não somente ser seguros, mas graciosos, no andar.

 

II – Uma advertência para que controlemos nosso temperamento em todas as ocasiões e sob todas as provocações, e para que evitemos levar longe demais nossos ressentimentos, em qualquer ocasião, especialmente quando há um rei no caso, contra o qual não há quem resista, quando é um governante, ou alguém muito superior a nós, que é ofendido; na verdade, a regra é sempre a mesma.

1. Nós devemos controlar e suprimir a nossa própria paixão, e nos envergonhar, sempre que sejamos acusados de um erro, com razão, e não insistir na nossa própria inocência: Se nos exaltamos, seja em um orgulhoso convencimento ou em uma raivosa oposição aos que estão acima de nós, se transgredimos as leis do nosso lugar e posição, procedemos loucamente. Os que se elevam sobre os outros ou contra os outros, que são arrogantes e insolentes, apenas envergonham a si mesmos e revelam a sua própria fraqueza. Na verdade, se apenas pensamos no mal, se somos conscientes de que alimentamos algum mau desígnio em nossas mentes, ou que ele nos foi sugerido, devemos pôr a mão na boca, isto é:

(1) Devemos nos humilhar pelo que fizemos de errado, e até mesmo nos lançar no chão diante de Deus, lamentando o erro, como Jó, quando se arrependeu do que tinha dito loucamente (A minha mão ponho na minha boca, Provérbios 40.4), e como o leproso condenado, que cobre o seu lábio superior: Se agirmos tolamente, não deveremos insistir nisto diante dos homens, mas com o silêncio, reconhecer a nossa própria culpa, que é o melhor modo de aplacar aqueles a quem ofendemos.

(2) Devemos impedir que os maus pensamentos que concebemos em nossas mentes irrompam em más palavras. Não dês ao pensamento mau uma licença ou permissão; não permitas que seja divulgado; mas põe a tua mão sobre a boca; usa de uma santa violência contigo mesmo, se necessário, e desfruta do silêncio; como Cristo não permitiu que os maus espíritos falassem. Já é ruim ter mau pensamento, mas é muito pior pronunciá-lo, pois isto sugere um consentimento com o mau pensamento e uma disposição para infectar outras pessoas com ele.

2. Não devemos irritar os outros. Alguns são tão provocadores com suas palavras e comportamentos que até mesmo forçam a ira, irritam os que estão ao seu redor, quer estes o desejem ou não, e inflamam os que não somente não estão inclinados a isto, como estão decididos contra isto. Esta imposição de ira provoca contendas, e onde há contendas, há perturbação e toda obra perversa. Da mesma maneira como a agitação violenta do creme tira tudo o que é bom do leite, e o espremer do nariz extrai sangue dele, também esta imposição de ira desgasta o corpo e o espírito de um homem, e lhe rouba todo o bem que há nele. Ou, como o agitar do leite e o apertar do nariz, são feitos, pela força, o que não seria feito de outra maneira, também o espírito é inflamado gradualmente com fortes paixões; uma palavra irada gera outra, e esta gera uma terceira; um debate inflamado abre caminho para outro, e assim progressivamente, até terminar em rixas irreconciliáveis. Não permitamos, portanto, que nada seja dito ou feito com violência, mas tudo com suavidade e calma.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

CRIANÇAS ESFORÇADAS, CRIANÇAS ESPERTAS

Elogiar os pequenos é importante, mas pesquisas demonstram que centrar o foco na dedicação traz melhores resultados para o rendimento escolar e para as escolhas na vida adulta que valorizar a inteligência e as habilidades inatas

Crianças esforçadas, crianças espertas

Auno brilhante, João* cumpriu om facilidade os desafios da escola primária. Fazia as lições sem esforço e tirar notas máximas era parte de sua rotina. Chegava a admirar-se ao ver que alguns dos colegas de classe tinham dificuldade em aprender e, várias vezes, ouviu dos adultos que possuía um dom especial. Por volta dos 13 anos, no entanto, perdeu repentinamente o interesse pela escola, recusando-se a fazer lições de casa e a estudar para provas. Em consequência, suas notas despencaram. Os pais tentaram estimular sua confiança, garantindo­ lhe que ele era muito inteligente. Mas as tentativas de motivá-lo falharam. O menino argumentava que o trabalho escolar era tedioso e sem propósito.

Em uma sociedade como a nossa, que venera o talento e na qual tantos estão convencidos de que ter inteligência ou capacidade superior e confiar nessa habilidade – é receita para o sucesso, histórias como a de João não são raras. Mais de 30 anos de investigação científica, porém, sugerem que a ênfase excessiva no intelecto ou no talento deixa as pessoas vulneráveis ao fracasso, com medo de enfrentar desafios e relutantes em remediar suas deficiências.

Resultado: muitas crianças passam pelas primeiras séries escolares certas de que seu bom  desempenho escolar sem esforço as define como espertas ou talentosas. Esses estudantes nutrem a crença implícita de que a inteligência é inata e fixa, o que faz com que se esforçar para aprender  pareça menos importante do que ser (ou parecer) inteligente. Essa concepção as leva a ver desafios, erros e até o esforço como ameaças a seu ego, em vez encará-los como oportunidades  para melhorar o desempenho – o que faz com que percam a confiança e a motivação quando o trabalho deixa de ser fácil.

Elogiar excessivamente capacidades inatas das crianças reforça essa mentalidade. E, muitas vezes, impede que jovens atletas, profissionais e até relacionamentos afetivos alcancem todo seu potencial. Por outro lado, nossos estudos mostram que ensinar pessoas a ter uma “mentalidade de crescimento”, que estimula o esforço em vez de enfatizar especificamente a inteligência ou o talento, as ajuda a serem grandes realizadoras – tanto na escola quanto na vida.

 OPORTUNIDADE DA DERROTA

Comecei investigando a base da motivação humana – e como as pessoas perseveram depois de contratempos – na pós-graduação de psicologia na Universidade Yale, nos anos 60. Experimentos com animais realizados pelos psicólogos Martin Seligman, Steven Maier e Richard Solomon, da Universidade da Pensilvânia, tinham mostrado que, após repetidos fracassos, a maioria das cobaias conclui que uma situação é sem esperança e está além do seu controle. Depois de tal experiência, os pesquisadores descobriram que um animal com frequência permanece passivo mesmo quando pode realizar uma mudança. Trata-se do “desamparo aprendido”.

Muitas pessoas também aprendem a ser impotentes. Mas nem todos reagem a reveses dessa forma. Formulei então o seguinte questionamento: por que alguns estudantes desistem quando encontram dificuldades, enquanto outros, até menos habilidosos, continuam a se esforçar e a aprender? A resposta está na crença das pessoas sobre os motivos pelos quais falharam.

Em particular, atribuir o mau desempenho à falta de capacidade diminui a motivação, mais do que a ideia de que o fracasso se deve à falta de esforço. Em 1972, trabalhei com um grupo de crianças do ensino fundamental que apresentavam dificuldades de aprendizagem e óbvia falta de esforço (em vez de incapacidade) que as levava a cometer erros em problemas de matemática. O desafio foi ensiná-las a continuar tentando, mesmo quando os exercícios se tornavam mais complexos e difíceis. Outro grupo de crianças que se sentiam incapazes e eram recompensadas por seu sucesso – e não por seu esforço – diante de questões difíceis não melhorou a capacidade de resolver problemas complexos de matemática.

Esses experimentos forneceram uma indicação inicial de que o foco no processo (e não no fim em si) pode ajudar a combater a baixa auto- estima.

Estudos subsequentes revelaram que os estudantes mais persistentes praticamente não remoem seus fracassos; em vez disso, pensam em erros como problemas a serem resolvidos. Na Universidade de Illinois, na década de 70, Carol Diener, na época minha aluna de pós-graduação, e eu pedimos a 60 estudantes da série para pensar alto enquanto resolviam complexos problemas. Alguns voluntários reagiram de maneira defensiva aos erros, menosprezando suas habilidades com comentários do tipo “eu nunca tive uma boa memória”, e suas estratégias de resolução de problemas se deterioraram.

Outros se concentraram em consertar equívocos. Um aconselhou a si mesmo: “Vou diminuir o ritmo e tentar entender isto”. A atitude de duas crianças, em particular, nos chamara a atenção. Uma, diante da dificuldade, puxou a cadeira, esfregou as mãos, deu um tapinha na boca e disse: “Eu adoro um desafio!”. Outra, também enfrentando questões complicadas, levantou os olhos para o experimentador e declarou com satisfação: “Eu estava querendo que isso fosse instrutivo!”. De maneira previsível, os estudantes com essa atitude superaram o desempenho dos colegas nesses estudos.

DUAS INTELIGÊNCIAS

Vários anos depois desenvolvi uma teoria mais ampla sobre o que separa as duas classes gerais de aprendizes – os impotentes e os comprometidos com a qualidade. Percebi que esses tipos de estudantes não apenas explicam seus fracassos de forma diferente, mas também defendem “teorias” sobre inteligência. Os primeiros acreditam que a inteligência é um traço fixo, cada pessoa só dispõe de certa quantidade dela e ponto final. Chamo isso de “mentalidade fixa”. A autoconfiança dessas pessoas é afetada porque atribuem erros à falta de capacidade, o que faz com que se sintam impossibilitadas de mudar. Elas evitam desafios porque temem que eventuais falhas as façam parecer menos inteligentes. Ou seja, evitam o esforço por acreditar que o trabalho árduo significa que são burras.

Já as crianças empenhadas em se aprimorar pensam que a inteligência é maleável e pode ser  desenvolvida por meio da educação e do esforço. Acima de tudo, querem aprender. Para elas, desafios são excitantes  e, em vez de intimidar, oferecem oportunidades valiosas. Estudantes com  tal mentalidade estavam destinados a ter melhor desempenho escolar e exibiriam performance superior à dos demais.

Essas expectativas foram confirmadas, e o registro disso está num estudo publicado no começo de 2007. As psicólogas Lisa Blackwell, da Universidade Columbia, Kali H. Trzesniewski, da Universidade Stanford, e eu acompanhamos 373 estudantes por dois anos, a partir do início da 7ª série, para determinar como as mentalidades podem afetar suas notas de matemática. No início do estudo pedimos aos alunos para concordar ou discordar de afirmações como: “Sua inteligência é algo muito particular de você e você realmente não pode mudá-la”. Avaliamos então suas crenças sobre outros aspectos do aprendizado e vimos o que aconteceu com suas notas.

Como havíamos previsto, estudantes com mentalidade de crescimento acreditavam que quanto mais se esforçassem melhor seria o resultado. Entendiam que mesmo gênios têm de trabalhar duro para concretizar seus projetos. Quando deparavam com um revés, como uma nota decepcionante numa prova, diziam que iam estudar com mais afinco, ou tentar uma estratégia diferente para dominar o assunto.

Os estudantes que tinham a chamada mentalidade fixa, no entanto, estavam preocupados em  parecer inteligentes dando pouca importância ao ato de aprender. Revelavam visões negativas quanto a se esforçar, acreditando que ter de trabalhar intensamente era sinal de baixa capacidade, supondo que uma pessoa com talento ou inteligência não precisaria se esforçar muito para alcançar resultados. Atribuindo a nota ruim a sua falta de habilidade, não consideravam estudar mais no futuro, pelo contrário: expressavam o desejo de evitar aquela matéria e cogitavam até colar nas provas futuras.

Tais visões divergentes tiveram um impacto drástico no desempenho. No início da 7ª série, os resultados dos testes de medição do aprendizado dos estudantes mais empenhados eram comparáveis aos dos que mostravam mentalidade fixa. Mas, conforme a matéria ficou mais difícil, os primeiros demonstraram maior persistência e, como resultado, suas notas superaram as dos outros voluntários já no final do primeiro semestre – e a diferença entre os dois grupos continuou a se ampliar durantes os dois anos seguintes.

Com a psicóloga Heidi Grant, da Universidade Colúmbia, descobri uma relação semelhante entre a forma de pensar e as realizações pessoais, em um estudo realizado em 2003, com 128 calouros do curso preparatório de medicina de Colúmbia que haviam se inscrito no desafiador curso de química geral. Embora todos os estudantes se preocupassem com as notas, os que tiravam as melhores eram aqueles que davam mais valor em aprender do que em mostrar que eram talentosos. O foco nas estratégias de aprendizado e na persistência foi compensador para eles.

CONFRONTAR DIFICULDADES

Num estudo publicado em 1999 sobre 168 calouros da Universidade de Hong Kong, onde todas as aulas e lições eram em inglês, três colegas da instituição e eu descobrimos que os jovens com mentalidade de crescimento que tiveram resultados ruins no exame de proficiência em língua inglesa estavam bem mais inclinados a fazer um curso de reforço de inglês do que aqueles com  mentalidade fixa que tinham tido resultados ruins. Estudantes com visão estagnada da inteligência eram relutantes em admitir sua deficiência e, portanto, rejeitavam a oportunidade de corrigi-la.

De maneira semelhante, a mentalidade fixa pode dificultar as relações sociais, a comunicação e o progresso no ambiente de trabalho, levando profissionais a desencorajar ou ignorar críticas e conselhos construtivos. Pesquisas realizadas pelos psicólogos Peter Heslin e Don VandeWalle, da Universidade Metodista Sulista, e Cary Latham, da Universidade de Toronto, mostram que gerentes que têm uma mentalidade fixa apresentam pouca (ou nenhuma) probabilidade de buscar ou receber bem opiniões de seus funcionários. Como previsto, aqueles com mentalidade de crescimento veem a si mesmos como “trabalhos em andamento” e entendem que precisam de opiniões para melhorar, ao passo que chefes com formas mais inflexíveis de pensar se sentem muito mais ameaçados. E, ao suporem que outras pessoas não são capazes de mudar, também se revelam menos propensos a apostar no aprendizado e no sucesso de seus subordinados. Mas depois que Heslin, VandeWalle e Latham realizaram um curso com os gerentes sobre o valor e os princípios da mentalidade de crescimento, os profissionais se mostraram mais dispostos a ensinar os funcionários e a lhes dar conselhos úteis.

A mentalidade pode afetar a qualidade e a longevidade dos relacionamentos. Segundo resultados de uma pesquisa de 2006 que realizei em parceria com a psicóloga Lara Kammrath, da Universidade Wilfrid Laurier, em Ontário, aqueles com mentalidade fixa são pouco propensos a mencionar problemas nos relacionamentos e a tentar resolvê-los. Afinal, se pensamos que os traços de personalidade são mais ou menos fixos, consertar relacionamentos parece algo fútil. No entanto, indivíduos que acreditam que as pessoas podem mudar e crescer tendem a acreditar mais que conversar e confrontar opiniões, em busca de consenso, levarão a resoluções.

ELOGIO ADEQUADO

Em estudos com centenas de estudantes da 5ª série publicados em 1998, a psicóloga Claudia M. Mueller, da Universidade Colúmbia, e eu apresentamos perguntas de um teste de QI não-verbal para as crianças. Depois dos dez primeiros problemas, nos quais a maioria ia muito bem, nós as elogiávamos. Para algumas, salientávamos a inteligência: “Uau… esse é um resultado muito bom. Você deve ser muito bom nisso”. Para outras, destacávamos o esforço: “Uau… esse é um resultado muito bom. Você deve ter se esforçado bastante”.

Comprovamos que o elogio da inteligência encorajava a mentalidade fixa com mais frequncia do que a valorização do esforço: as que foram cumprimentadas pela inteligência se esquivavam de tarefas desafiadoras e buscavam atividades fáceis, que não as ameaçassem. A maior parte das que foram elogiadas por trabalhar duro queria resolver questões complexas, com as quais pudesse aprender mais. Quando, ainda assim, passamos problemas difíceis para todos, os que foram chamados de inteligentes ficaram desencorajados e duvidaram da própria capacidade. E suas notas, mesmo no conjunto de problemas mais fácil que lhes propusemos depois, diminuíram em comparação com seus resultados anteriores. Em contraste, estudantes encorajados por seus esforços não perderam a segurança quando encararam perguntas mais difíceis, e seu desempenho melhorou de maneira notável nos problemas mais fáceis que tiveram de resolver em seguida.

Mas como podemos transmitir a mentalidade de crescimento para nossas crianças? Contar a elas histórias sobre realizações que foram resultado de trabalho árduo é uma maneira de fazer isso. Por exemplo, nossos estudos mostraram que falar sobre gênios da matemática que basicamente já nasceram assim favorece a crença na inteligência estanque, enquanto descrições de grandes matemáticos que se apaixonaram pela disciplina e desenvolveram habilidades incríveis reforçam a postura mais flexível.

Informação adequada também é fundamental. Blackwell, Trzesniewski e eu projetamos recentemente um workshop de oito sessões para 91 estudantes cujas notas de matemática estavam caindo na 7ª série. Dentre esses jovens, 48 receberam aulas referentes apenas a habilidades de estudo, enquanto os outros assistiram a uma combinação de orientações para estudar e aulas nas quais aprenderam sobre a mentalidade de crescimento e como aplicá-la ao trabalho escolar.

Os voluntários do segundo grupo leram e discutiram o texto Você pode cultivar seu cérebro. Foi-lhes ensinado que o cérebro é como um músculo que fica mais forte com o uso e que aprender incita os neurônios a desenvolver novas ligações. A partir daí, muitos estudantes começaram a se ver como agentes do desenvolvimento do próprio cérebro. Adolescentes que tinham se mostrado desordeiros ou entediados sentaram eretos e prestaram atenção. Um garoto particularmente indisciplinado levantou os olhos durante a discussão e disse: “Quer dizer que eu não tenho de ser burro?” Conforme o semestre avançou, as notas de matemática dos que aprenderam somente as habilidades de estudo continuaram a cair, enquanto as dos que receberam o treinamento da mentalidade de crescimento começaram a retornar aos níveis anteriores à 7ª série. Apesar de não estarem cientes de que havia dois tipos de instrução, professores disseram ter detectado mudanças motivacionais significativas em 27% dos jovens que frequentaram o workshop de mentalidade de crescimento, em comparação com apenas 9% dos estudantes do grupo de controle

NO COMPUTADOR

Outros pesquisadores replicaram nossos resultados. Os psicólogos Catherine Cood, na época da Universidade Colúmbia, Joshua Aronson e Michael lnzlicht, da Universidade de Nova York, relataram em 2003 que cultivar ideias mais flexíveis a respeito do próprio empenho melhorou as notas em testes de medição de aprendizado em matemática e inglês de alunos da 7ª série. Em um estudo de 2002, Cood, então aluna de pós-graduação da Universidade do Texas em Austin, descobriu que estudantes de faculdade começaram a gostar mais do trabalho escolar, valorizando-o e conquistando melhores notas como resultado de um treinamento que encorajou a mentalidade de crescimento.

Nós agora sintetizamos essas lições no programa de computador interativo Brainology, que estava disponível no segundo semestre de 2008. São seis módulos que ensinam aos estudantes o que o cérebro faz e como é possível melhorar seu funcionamento. Num laboratório virtual, os usuários clicam em certas regiões para determinar suas funções, ou em terminações nervosas para ver como se formam ligações quando aprendemos algo. As pessoas também aconselham estudantes virtuais com problemas para treinar formas de lidar com dificuldades; além disso, os usuários podem manter um diário on­line de suas práticas de estudo.

Alunos da 7ª série da cidade de Nova York que testaram uma versão piloto de Brainology nos disseram que o programa havia mudado sua visão do aprendizado e as formas de promovê-lo: “Sempre penso nelas quando estou na escola”. É importante, porém, que os adultos compreendam que transmitir essas informações às crianças não é só uma tática para fazê-las estudar. As pessoas apresentam, sim, diferenças em relação à inteligência, ao talento e às capacidades. No entanto, as pesquisas convergem para a conclusão de que grandes realizações – e até aquilo que chamamos genialidade – são normalmente resultado de anos de paixão e dedicação, e não algo que flui naturalmente de uma habilidade. Wolfgang Amadeus Mozart, Thomas Alva Edison, Pierre e Marie Curie, Charles Darwin e Paul Cézanne não nasceram simplesmente com talento; eles o cultivaram por meio de esforço intenso e prolongado. De maneira semelhante, dedicação e disciplina contribuem mais para o desempenho escolar do que o Ql.

Tais lições aplicam-se a quase qualquer comportamento humano. Muito jovens atletas, por exemplo, valorizam mais o talento que o esforço e, em consequência, fica impossível ensinar-lhes alguma coisa. De maneira semelhante muitas pessoas realizam pouco em seu trabalho por falta de constante elogio e encorajamento para manter a motivação. No entanto, se promovermos a mentalidade de crescimento em nosso lares e escolas, daremos às criança ferramentas para serem bem-sucedidas em suas atividades e se tornarem profissionais e cidadãos responsáveis.

*João é um personagem fictício, criado com base em várias crianças acompanhadas.

 TIPOS DE MENTALIDADE

Constatamos por meio de um experimento que os estudantes que acreditavam na inteligência maleável (linha da mentalidade de crescimento) tiveram notas mais altas de matemática do que aqueles que acreditavam numa inteligência estática (linha da mentalidade fixa), embora os dois grupos tivessem resultados equivalentes no teste de medição do aprendizado na 6ª série. As notas do grupo de mentalidade de crescimento melhoraram no decorrer dos dois anos seguintes, enquanto as notas dos estudantes de mentalidade fixa caíram no mesmo período.

Crianças esforçadas, crianças espertas.2

CAROL S. DWECK é professora de psicologia da Universidade Stanford e membro da Academia de Artes e Ciências Americanas dos Estados Unidos.

OUTROS OLHARES

PARA ONDE VAI A EDUCAÇÃO?

Chegada do novo ministro Abraham Weintraub precisa envolver um choque de gestão. O problema é que a insistência em combater o “marxismo cultural” pode deixar as questões essenciais do MEC novamente em segundo plano.

Para onde vai a educação

Depois de cem dias perdidos sob o comando do téologo Ricardo Vélez Rodrigues, o Ministério da Educação (MEC) ganhou na terça-feira 9 um novo fôlego. Os sinais, no entanto, ainda são nebulosos. O novo ministro, o economista Abraham Weintraub, promete acabar com a letargia na pasta. Em tese, ele chega para fazer o serviço que Vélez não conseguiu realizar e colocar a máquina para funcionar. Seria, de fato, um avanço. O caminho que o ministro recém-empossado parece adotar, porém, produz uma sensação de filme repetido. Mais uma vez, as prioridades envolvem o aparelhamento do MEC para combater a cantilena do marxismo cultural, uma teoria conspiratória segundo a qual a esquerda dissemina suas ideias de modo indireto para enfraquecer as instituições conservadoras. No fundo, o que ainda está em jogo é a promoção de um ideário de direita com mudanças no conteúdo do material escolar e o aumento do controle sobre os professores. A se manter essa toada, a educação no Brasil permanecerá numa trilha perigosa em que o confronto ideológico para eliminar o pensamento de esquerda nas escolas tende a prevalecer sobre as necessidades reais de desenvolvimento educacional.

 JOVENS APOLÍTICOS?

Por exemplo, ao mesmo tempo em que quer que Weintraub entregue resultados e cuide da gestão do MEC, que hoje convive com atrasos no cronograma, o presidente Jair Bolsonaro determina que ele centre fogo na despolitização das escolas. Na posse do ministro, o mandatário deu o tom. Declarou, para o espanto de muitos, que não quer que as novas gerações se interessem por política. “Queremos uma garotada que comece a não se interessar por política, como é atualmente dentro das escolas, mas comece a aprender coisas que possam levá-la ao espaço no futuro”, disse. Weintraub foi na mesma linha: “Uma pessoa que sabe ler e escrever não vota no PT”. Ou seja, se ainda pairam dúvidas sobre a capacidade administrativa do novo titular da pasta, sobram certezas de que o viés doutrinário dificilmente será abandonado.

Na visão do governo, a educação está tomada por esquerdistas que querem catequizar crianças e jovens. E esse seria o principal fator a minar a melhoria do ensino no Brasil. O grande propagador dessa teoria é o filósofo Olavo de Carvalho, cuja influência sobre o MEC deve continuar. Assim como Vélez, Weintraub, professor de direito na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), também é seguidor do filósofo. “O ministro não me deve nada e não tem nenhum compromisso comigo. Ele apenas conhece as minhas ideias melhor do que as conhecia o seu antecessor”, afirmou Olavo.

Um sinal de que o caos administrativo combinado com a forte carga ideológica persistirá é que, no dia seguinte à posse, Weintraub substituiu os titulares de seis das sete secretarias do Ministério. O que todos os indicados têm em comum é a falta de experiência na área de educação. O secretário executivo será o economista Antonio Vogel de Medeiros, que substitui o tenente brigadeiro Ricardo Vieira. A entrega do cargo para um civil indica que o filósofo segue levando vantagem sobre os militares, que também disputam espaço no MEC. Para enfrentar o “marxismo cultural”, o ministro pretende no curto prazo controlar tudo que sair do Ministério, começando pelos livros didáticos. “Quero saber quando a sociedade brasileira vai receber um calendário com prazos, metas e prioridades para a educação”, disse a deputada Tábata Amaral (PDT-SP). Para especialistas, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) deveria ser a prioridade número 1 do MEC pelo fato de bancar salários de professores, infra- estrutura, transporte, material didático e tudo que importa na educação. Ocorre que o Fundeb vence em 2020 e o governo até agora não se moveu para renová-lo.

O Brasil amarga índices sofríveis de educação. Há 2,7 milhões de jovens fora da escola e problemas graves de aprendizado. O País gasta hoje o equivalente a 6% do PIB com educação. O percentual supera a média dos países da OCDE, de 5,5%. Mas o gasto por aluno, de US$ 3,8 mil por ano, está muito abaixo dos países desenvolvidos, que é de US$ 10,5 mil. Na pré-escola todas as crianças de quatro e cinco anos deveriam estar matriculadas. Porém, 500 mil, 9,5% do total, não têm vaga – um índice assustador. Ou seja, Weintraub terá muitos problemas para resolver, além do marxismo cultural. Conseguirá?

GESTÃO E CARREIRA

DICAS QUE PODEM SALVAR SUA GESTÃO DE UM NAUFRÁGIO

Se você é aquele tipo de gestor obcecado por resultados, acompanha planilhas constantemente, adora observar gráficos e não abre mão de metas ambiciosas, então está na hora de refletir um pouco mais sobre a sua relação com a equipe. Pode ser que esse modelo de gestão que você tanto acredita talvez não seja a melhor estratégia de liderança para compartilhar com seus colaboradores.

Dicas que podem salvar sua gestõ de um naufrágio

“As demandas para cargos de média e alta gerência vêm crescendo e o foco em resultados continua sendo altamente cobrado. Mas a busca incessante por metas e a falta de tato com os colaboradores podem resultar em problemas para a equipe ou mesmo na queda de um líder em potencial.

O resultado para empresa? Custos em excesso e trabalho para treinar e realocar uma nova liderança. Hoje um líder deve ser inspirador, ter habilidade nas relações humanas, saber quando desacelerar os processos em prol da saúde mental e física de seus profissionais”, explica Ricardo Basaglia, diretor-geral da Michael Page.

De acordo com o executivo, há um estudo das companhias Kronos Incorporated e Future Workplace apontando que 95% das causas de alta rotatividade nas organizações é o excesso de trabalho e a exaustão. “Das dez qualidades vistas num líder, pelo menos seis têm ligação com relações humanas, como escutar, saber dar um feedback ou a capacidade de delegar funções sem sobrecarregar os colaboradores”, completa.

Veja abaixo cinco dicas elaboradas pelo consultor que podem engajar e ajudar líderes a atingir o potencial máximo de seus colaboradores e equipe.

 PEÇA FEEDBACK 

Pergunte como está o balanceamento entre resultado e foco em pessoas. Você pode perguntar, por exemplo, “o que eu posso fazer para demonstrar que eu aprecio o seu trabalho”?

Identifique formas de se conectar com sua equipe
Desenvolva práticas e implemente-as como conversas regulares sobre plano de carreira com os colaboradores, agende coffee breaks para conhecer melhor sua equipe, mesmo que seja fora do expediente e sem caráter profissional. O mais importante é que esses esforços sejam genuínos e naturais.

 TIRE UM TEMPO PARA REFLEXÃO

Repare em tempo real quanto você está sendo impaciente ou indo rápido demais sem considerar a velocidade dos demais colaboradores. Isso fará de você um líder mais presente, além de cuidar da sua própria saúde mental. Pergunte a si mesmo “o que eu estou tentando evitar”? ou “qual é o meu grande medo em diminuir um pouco a velocidade dos processos”?

 MONITORE A SI MESMO

Ser um grande líder requer uma pausa para refletir e escolher uma abordagem diferente. Isso pode significar simplesmente não enviar um e-mail nos finais de semana ou feriados falando sobre seu grande projeto, mas também o reconhecimento de uma grande conquista ou mesmo um serviço diário, que mesmo trivial, foi bem executado por um colega de trabalho.

 COMPARTILHE CONHECIMENTO COM A SUA EQUIPE

Interrompa sua rotina, sempre que possível, para compartilhar conhecimento ou ensinar algo novo para sua equipe. Certamente a troca de informações será enriquecedora e a partir de uma simples conversa, novos projetos inovadores podem começar. Esteja aberto para escutar também o que os colaboradores podem ensinar.

“O alto nível de eficiência e cobrança de um líder em sua equipe acaba tirando o foco nos indivíduos. Com os líderes preterindo a construção de relacionamentos saudáveis, acabam deixando de ser uma inspiração para sua equipe. Eles acabam não demonstrando empatia e alienando grandes potenciais criativos. Ser altamente focado em resultados e perseguir metas é importante para qualquer líder, mas sem uma balança equilibrada entre metas e relações humanas o sucesso certamente será limitado e nunca atingirá seu potencial máximo”, finaliza Basaglia.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 30: 24-28

Alimento diário

QUATRO COISAS PEQUENAS E SÁBIAS

 

V. 24 a 28

I – Tendo especificado quatro coisas que parecem grandiosas e são, na realidade, desprezíveis, Agur aqui especifica quatro coisas que são pequenas e ainda assim admiráveis, miniaturas maravilhosas em que Agur nos ensina várias lições boas; como:

1. Não admirar o volume do corpo, ou a sua beleza, ou a sua força, nem valorizar pessoas ou julgá-las melhor por tais vantagens, mas julgar os homens pela sua sabedoria e conduta, seu empenho e aplicação ao trabalho, que são características que merecem respeito.

2. Admirar o poder e a sabedoria do Criador nos animais menores e aparentemente mais desprezíveis; tanto em uma formiga quanto em um elefante.

3. Culpar a nós mesmos, se não alcançarmos o nosso verdadeiro interesse da mesma maneira como as criaturas mais humildes alcançam os seus.

4. Não desprezar as coisas fracas do mundo; há os que são pequenos sobre a terra, pobres no mundo e de pouca expressão, mas são extremamente sábios, sábios para suas almas e para o outro mundo, e estes são extremamente sábios, mais sábios que o seu próximo. As anotações de margem de algumas traduções da Bíblia Sagrada trazem o seguinte texto: São sábios, tornados sábios pelo instinto especial da natureza. Todos os que são sábios para a salvação se tornam sábios pela graça de Deus.

 

II – Os que ele especifica são:

1. As formigas, animais minúsculos e muito fracos, e apesar disto, muito engenhosos e diligentes em ajuntar alimento apropriado, e com uma estranha sagacidade em fazer isto no verão, que é a estação adequada. Este é um ato de sabedoria tão importante que podemos aprender com elas a ser sábios e prover para o futuro (Provérbios 6.6). Quando os leões vorazes têm fome, as formigas laboriosas têm abundância e não passam necessidade.

2. Os coelhos, ou como alguns preferem interpretar, os arganazes, ratos árabes, ratos do campo, criaturas fracas, e muito temerosas, mas que apesar disto têm tanta sabedoria, que fazem as suas casas nas rochas, onde estão bem protegidos e a sua fragilidade os faz se abrigar nessas fortificações naturais. A percepção da nossa própria indigência e fraqueza deve nos levar Àquele que é uma rocha mais elevada que nós, em busca de abrigo e apoio; ali devemos fazer nossa habitação.

3. Os gafanhotos; também são pequenos, e não têm rei, como têm as abelhas, mas todos saem em bandos, como um exército em formação de batalha; e, observando esta boa ordem entre si mesmos, não é nenhuma inconveniência para eles o fato de não terem rei. Eles são chamados o grande exército de Deus (Joel 2.25); pois, quando Ele quer, os reúne, os comanda e faz guerra com eles, como fez sobre o Egito. Eles saem, todos eles, reunidos (segundo a margem); a sensação de fraqueza deve nos engajar a ficar juntos, para que possamos fortalecer as mãos, uns dos outros.

4. A aranha, um inseto, mas um exemplo tão excelente de diligência em nossas casas como as formigas são, no campo. As aranhas são muito diligentes, tecendo suas teias com uma delicadeza e exatidão de modo que nenhuma formiga pode sequer pretender se aproximar; elas se apanham com as mãos e tecem uma fina teia de suas próprias entranhas, com uma grande habilidade e arte, e não estão somente nas cabanas dos pobres, mas nos palácios dos reis, apesar de todos os cuidados tomados para destruí-las. A Providência guarda maravilhosamente estes tipos de criaturas, não somente aquelas que o homem não sustenta, mas contra as quais a mão de todo homem se levanta, e cuja destruição todos os homens buscam. Aqueles que cuidam do seu trabalho, dedicando-se a ele, fazendo o melhor que podem, estarão nos palácios de reis; mais cedo ou mais tarde serão honrados, e poderão seguir adiante, apesar das dificuldades e dos desencorajamentos com que se depararem. Se uma teia bem tecida for varrida, bastará fazer outra.

 

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESPECTROS DA SEXUALIDADE III

Espectros da sexualidade III

OUTRAS FORMAS DE SER FAMÍLIA

Entre  os novos arranjos de famílias, os compostos por pais gays estão entre os mais controversos.  E, embora a educação de crianças por pais homossexuais não seja novidade, ela adquiriu visibilidade nos últimos anos. Tanto a estabilidade do relacionamento entre pessoas do mesmo sexo quanto seu desejo de ter filhos, porém, são fenômenos que ainda despertam a curiosidade e desconfiança a respeito da possibilidade de “adequação” de gays e lésbicas para essas tarefas.

Na França, onde o tema tem sido bastante discutido, pesquisas revelavam em 2000 que 50% dos homossexuais viviam com o/a companheiro/a  e, destes, aproximadamente a metade desejava ter filhos. Estudos realizados em outros países da Europa e nos Estados Unidos, no início da década estendiam essa margem para 60%. No Brasil não há investigação específica sobre esse aspecto, mas as relações homossexuais estáveis são cada vez mais visíveis. Em julho de 2000, por exemplo,  o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) concedeu pensão por morte e auxílio-reclusão para companheiros homossexuais que comprovassem união estável e dependência econômica. Em janeiro do ano seguinte ao reconhecer o direito a pensão em caso de morte para o companheiro do segurado, uma juíza do Sul escreveu na sentença “As pessoas que integram uniões  homossexuais caracterizadas pela estabilidade, comunhão de vida afetividade e externação social constituem eletivas comunidades familiares que merecem tanto a proteção do Estado quanto aquelas integradas por casais heterossexuais”

Nos dois casos há o reconhecimento da “comjugalidade” do par, o que garante esses direitos, até então previstos apenas para cônjuges ou companheiros heterossexuais. Essa compreensão abre um precedente importante. Por mais que direitos patrimoniais venham sendo concedidos sem maiores objeções, qualquer alusão ao direito de família, quando se trata de pessoas do mesmo sexo, ainda encontra resistência. Envolver família em qualquer decisão é o nó da questão

Mas, é justamente no desdobramento do reconhecimento do casal homossexual como família que está o direito à parentalidade. Não por acaso, chamou tanta atenção da mídia a autorização dada pela Justiça brasileira em 2006 para que os cachoeirenses Vasco Pedro da Gama, de 17 anos, e Júnior de Carvalho, de 45,de Catanduva, no interior de São Paulo, adotassem em conjunto a pequena Theodora, hoje com 17 anos. Apesar dos avanços sociais é inegável a grande dificuldade encontrada para a concessão plena de direitos a casais compostos por pessoas do mesmo sexo.

Em relação a essa questão, quatro elementos costumam ser levados em consideração: a estabilidade, a vida a dois, a afetividade e a expressão pública da relação. Ainda que seja difícil definir estabilidade, já que não há consenso sequer entre as leis sobre a união estável entre heterossexuais, dando margem à interpretação, trata-se de um conceito bastante presente, que em geral aparece como condição para o reconhecimento da família. Conjugada à estabilidade, a existência da vida a dois se confronta com um imaginário que aproxima homossexualidade e promiscuidade. A expressão pública costuma ser marcada por estereótipos, e a discrição acaba sendo uma decorrência. Além disso, a atitude de assumir publicamente uma relação pode traduzir a tranquilidade que os envolvidos têm no que diz respeito a essa vivência amorosa.

Parece não haver como negar questionamentos derivados da estranheza que marca pais homossexuais no imaginário de muitos. Questões se colocam no campo que envolve pais gays e mães lésbicas: é pertinente nomear essas famílias como homoparentais? Há especificidades relativas a essa configuração. Em linhas gerais, hoje são quatro as possibilidades de homossexuais serem pais e mães: ter filhos de uma união heterossexual anterior,  pela adoção, por meio da tecnologia, ou em co- parentalidade, quando gays e lésbicas estabelecem combinações para ter filhos. As duas primeiras escapam à regulação.

No primeiro caso, de reprodução biológica, o Estado não tem meios nem direito de intervir. No segundo caso, em se tratando de pessoas que pleiteiam a adoção individualmente, embora o Estado faça a mediação, a orientação sexual não precisa ser revelada. No terceiro caso, a vulnerabilidade é maior, visto que não existe no Brasil legislação que regule a reprodução assistida, mas apenas uma resolução de 20 anos atrás do Conselho Federal de Medicina (CFM) que, embora tenha forca de lei é vaga, ficando o sujeito à mercê da interpretação e da vontade dos médicos.

Atualmente, em diferentes setores da sociedade, são frequentes as discussões sobre os chamados “novos arranjos familiares” –   família monoparental com filhos adotivos, recomposta, pluriparental e homoparental. Em relação à composição, à reprodução  assistida e à adoção, os casos que  necessitam da concordância da medicina ou do direito se submeterem  a essa discursão. O mesmo acontece nas situações de divórcio, na concessão de direitos relativos à guarda ou à visitação, ameaçados pelas fantasia, que a homossexualidade suscita

CORPO E IDENTIDADE

Segundo o professor Jefrey Weeks, diretor de pesquisa e sociologia da Universidade South Bank, de Londres, o desenvolvimento da sexualidade passa por três momentos fundamentais, do ponto de vista social. 

1 ) regulação do sexo por meio do casamento, no século I;

2) incorporação  da discussão sobre a vida sexual dos casais, não apenas como exercício intelectual mas como prática de controle moral, nos séculos XII e XIII;

3) definição de sexualidade “normal” como aquela exercida com o sexo oposto, nos séculos XVIII e XIX. Hoje, a sexualidade é concebida como o aspecto do eu que conecta corpo, identidade e normas sociais, adquirindo importância cultural e política, além de relevância moral. Se na época vitoriana o erotismo envolvia relacionamentos sociais, hoje está vinculado a questões pessoais. Apenas quando toma essa dimensão a sexualidade é incorporada como aspecto definidor do sujeito, central na estruturação de sua subjetividade e manifestação, até mesmo de seu caráter.

Como escreveu o  filósofo francês Michel  Foucault, o importante não é uma história social ou uma psicologia focada nas atitudes sexuais, mas uma história da problematização desses comportamentos.  São inúmeros os trabalhos a respeito da homossexualidade que discutem o conceito e as consequências do uso do termo “homossexual” para designar esse grupo de pessoas que ocupa entre 10%  e 15% da população. Apesar das críticas e das observações em relação a qual universo se refere a palavra homossexual (visto que não é capaz de descrever, simultaneamente, práticas, desejos, identidades e sentimentos em sua pluralidade), no senso comum ainda remonta  ao conceito cunhado no século XIX, entendido como “anti norma da masculinidade”.

O termo, porém, não descreve apenas a pessoa que se relaciona com a outra pessoa do mesmo sexo, mas remete a um universo de patologia, de raízes médicas e jurídicas. Ou seja: a orientação sexual e a opção afetiva pelo mesmo sexo já ocuparam a esfera religiosa corno pecado, a legal como crime e a médica como doença.

Até o século XVIII, era o masculino o foco de atenção. Na virada para o século XIX, a diferença sexual passou a ser tematizada com ênfase na especificidade feminina. Segundo o historiador Thomas Laqueur, professor da Universidade de Berkeley, Califórnia, a concepção dominante de sexualidade era o one-sex model – o grau máximo estava no corpo do homem, e a mulher era vista corno “um homem invertido”. Ele correspondiam ao modelo ideal de corpo humano e elas, por não possuírem calor vital – e é por essa falta que elas são capazes de gerar -, seriam sua forma inferior. Homens e mulheres se distinguiam conforme o grau de perfeição Esse modelo permanecia, apesar das descobertas da ciência. “… Ao contrário do que se pensa habitualmente, não foi o estabelecimento da diferença dos sexos que condicionou o lugar social, moral e psicológico da mulher; foi a rediscussão de seu novo estatuto social que deu origem à diferença de sexos como a conhecemos”, escreve Jurandir Freire Costa, em A face e o pesar estudos sobre o homoerotismo, de 1995.

A discussão em torno da dimensão político-econômico-cultural da questão feminina traz um novo olhar sobre a sexualidade humana. Foi nesse momento que se buscou na “natureza” a justificativa para os atributos de cada um dos sexos e para as desigualdades sociais. No século XIX, criou-se  uma identidade específica para homem que fazem sexo com homens e para mulheres que fazem  sexo com mulheres –  algo que até então não havia. Como aponta Luiz Mello, em Novas famílias, escrito com base na pesquisa desenvolvida para sua tese de doutorado, na Universidade de  Brasília (UnB) em 1999, as práticas amorosas e sexuais ganharam  destaque como “atributo definidor do ser humano, e os homossexuais tornaram-se objeto de estudo da ciência”.

No pensamento pré-moderno, a perfeição ou a imperfeição das instâncias que encarnavam as formas corpóreas ideais eram localizadas no sexo. Embora as mulheres já fossem consideradas desiguais e inferiores na apreensão científica e na religiosa, o que se nota é um deslocamento do índice metafísico da harmonia universal para um índice corporal de espaços distintos na nova ordem política e econômica.

“As diferenças biológicas diagosticadas pelos cientistas passam a oferecer a base para que pensadores sociais dissertem sobre as diferenças inatas entre homens e mulheres e a consequente necessidade de diferenciações sociais”, escreve a doutora em antropologia social Fabíola Rohden, professora do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pesquisadora do Centro Latino- Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (Clam).

Se a mulher é vista como complementar ao homem, o lugar ocupado por ela, inverso dele, passa a ser do homossexual, tido como homem invertido, que nega as características previstas por sua natureza, como se negasse a natureza e ocupasse o lugar de transgressor da ordem biológica, moral, religiosa, social – que perpassa os discursos contra a parentalidade homossexual. A ideia de negação da paternidade em função da escolha de parcerias do mesmo sexo aparece como justificativa para o estranhamento da parentalidade gay.

Aquele que vive uma relação na qual a procriação não é possível se autocondenaria a não ter filhos. Pior ainda do que os casos de infertilidade biológica: é como se a infertilidade fosse a opção desses sujeitos. Apesar de a parentalidade homossexual biológica, pelo menos na maior parte dos casos, depender de outros fatores além da vontade da pessoa envolvidas há opções para o indivíduo ou para o casal homossexual terem um filho.

Um estudo realizado na década de 90 pelos pesquisadores Carl Auerhach e Louise B. Silverstein com homens gays com filhos levantava questões como a ocasião em que o entrevistado pensou pela primeira vez em ser pai e as associações relativas a esse papel, seus modelos para o exercício da parentalidade; como chegou à decisão de uma criança em sua vida e viabilizou esse projeto; que alterações a nova situação trouxe; de que forma aborda com o filho as especificidades de sua família e o que pensa sobre educar uma criança num lar homossexual.

Com base nos relatos dos homens entrevistados, a primeira conclusão remete à incoerência entre a orientação homossexual e a paternidade. A segunda conclusão dos autores aponta para um esforço ideológico de “retirar” o gênero da parentalidade. Em português, a ausência de um termo neutro que signifique “pais” e tenha singular, como no inglês parent ou no francês parent, pode dificultar formulações mais específicas. Um segundo aspecto, nessa mesma linha, seria a distribuição de tarefas segundo a escolha de cada um, sem seguir os padrões tradicionais de gênero.

Ainda um terceiro aspecto; a necessidade de construção de redes sociais institucionais ou constituídas de pequeno grupos. Sem o apoio tradicional, pais homossexuais ouvidos pelos pesquisadores elaboram suas próprias alternativas para buscar amparo e se preocupam em criar um ambiente em que as crianças se sintam bem, no qual consigam transmitir a alegria daquela situação, para minimizar os incômodos e os sofrimentos a serem enfrentados no confronto com as outras famílias. No caso brasileiro, ocorrem situações semelhantes.

Hoje, no Brasil , o projeto da parceria civil é tema de noticiários. Relatos da vida e das preferências de atores, cantores, personalidades conhecidas da sociedade ilustram esse novo arranjo familiar que já faz parte do imaginário, ao menos nos grandes centros urbanos brasileiros.

Espectros da sexualidade III. 2

POLITICAMENTE CORRETO

A morte de Cássia Eller, em dezembro de 2001, obrigou os mais diversos setores da sociedade a se manifestar sobre a guarda de seu filho, Chicão. A mídia entrevistou além de Eugênia, a companheira da cantora à família de origem da cantora e inúmeros profissionais das áreas do  direito, da educação, além de psicólogos, psicanalistas e médicos. A maior parte partilhava a opinião de que a criança deveria permanecer com a mãe.

O discurso “politicamente correto” que hoje invade a sociedade encontra respaldo legal. A Constituição Federal de 1988 é muito clara ao enumerar os itens, que remetem à discriminação. Embora tenha sido sugerida por parlamentares, e a então deputada Marta Suplicy tenha feito a proposta de emenda constitucional (PEC) 135, a questão da orientação sexual não está expressamente escrita na lei federal como passível de punição, como outros crimes de discriminação foi considerado suficiente tê-la englobada em “qualquer forma de discriminação”. Se, por um lado, podemos concordar que o tema esteja contemplado, por outro, seria ingenuidade acreditar que esse tenha sido o real motivo da ausência de sua explicitação. Não raro, essa lacuna facilita o “discurso politicamente correto” que encobre o preconceito camuflado  Apenas algumas leis orgânicas municipais e estaduais enumeram especificamente a discriminação contra a orientação sexual como um item passível de punição.  Como afirma o juiz Luiz Carlos Figueiredo, da Vara da Infância e da Juventude do Recife, “os obstáculos jurídicos nada mais são do que uma espécie de ‘barreira’ colocada  para ‘legitimar’ as restrições veladas de pessoas preconceituosas”.

Quando pensamos na possibilidade (e no desejo) de gays e lésbicas criarem filhos, talvez fosse coerente nos lembrarmos de que a homossexualidade se refere ao exercício da sexualidade. Funções parentais não exigem este exercício e recorrer a esse critério para avaliar a competência de uma pessoa para assumir funções parentais, portanto, seria como julgar com essa base (obviamente equivocada) a capacidade profissional de alguém, sua habilidade para gerenciar conflitos ou seu gosto por comida e gênero de filme. Trata-se de esferas distintas que se cruzam por inevitável contingência. A reprodução, muito atrelada à sexualidade, pode ser um do fatores que conferem sentido à proximidade dessas duas esferas, bem como a conjugalidade e a afetividade.

São aspectos comuns, que encontraríamos se buscássemos qualquer outra relação. Mas não determinantes. Exercer a parentalidade requer afeto e disponibilidade. São essas as palavras que devem ecoar.

OUTROS OLHARES

REFUGIADOS CLIMÁTICOS

Esqueça o sonho americano. A seca e as chuvas excessivas também se tornaram o motor da imigração para os Estados Unidos.

Refugiados climáticos

Um motivo poderoso, persistente e pouco lembrado está ajudando a reforçar as caravanas de migrantes rumo aos Estados Unidos. Além de fugirem da pobreza e da violência, os grupos que partem da Guatemala, de Honduras e de EI Salvador são engrossados também por pessoas que tentam escapar da insegurança alimentar. Os três países integram o chamado “corredor seco” centro-americano, um dos mais vulneráveis do mundo a fenômenos extremos ligados ao EI Nino, nome dado ao aquecimento anormal da faixa equatorial do Oceano Pacífico. É consenso entre cientistas que as mudanças climáticas agravaram a frequência e intensidade desse fenômeno.

A imprevisibilidade dos ciclos da chuva, com temporadas de seca até dois meses mais longas, alternadas com períodos de chuvas perigosamente intensas, vem progressivamente ameaçando as plantações de subsistência na última década. Entre as principais vítimas estão os cultivos de milho e feijão, dos quais pequenos produtores rurais e indígenas, sem acesso a tecnologias de irrigação, dependem para se alimentar.

De acordo com Edwin Castellanos, diretor do instituto de pesquisas da Universidade Valle de Guatemala e associado do Instituto lnteramericano para Pesquisa em Mudanças Globais (IAI), o El Nino tem batido à porta anualmente – antes, acontecia a cada cinco ou seis anos. O resultado é o agravamento das condições de vida da população mais pobre desses três países – que constituem o chamado Triângulo Norte da América Central. Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), vivem em situação de pobreza 82% dos residentes de zonas rurais em Honduras; 77% na Guatemala; e 49% em El Salvador.

“Pode não haver apenas um fator para que as pessoas migrem. Normalmente, elas já estão numa situação difícil de pobreza; de falta de oportunidades econômicas, que são muito pequenas nas zonas rurais; e de violência em diversas regiões. E quando, ainda por cima, perdem plantações para as chuvas ou pela ausência delas, as mudanças climáticas podem ser o fator final para que tomem essa decisão”, disse Castellanos. A população desses países sofre com as tempestades de La Nina – fenômeno oposto ao El Nino, que ocorre quando há resfriamento do Pacífico -, que causam enchentes e deslizamentos de terra. Os últimos seis anos foram de chuvas abaixo da média. A expectativa é que, nos próximos anos, a situação mude para o extremo oposto. Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), cerca de 60% dos cultivos de milho e até 80% das plantações de feijão foram perdidos nesses países, em 2015, por causa do El Nino. Já em 2018, só entre junho e julho, foram arruinados 280 mil hectares de plantações desses dois produtos, o que afetou mais de 2 milhões de pessoas, de acordo com o Programa Mundial de Alimentos (PMA). No total, a seca dos últimos anos levou cerca de 3,5 milhões de pessoas a precisar de assistência humanitária. E a região é também suscetível a furacões e terremotos.

Para complicar ainda mais essa situação, no último ano a queda do preço internacional do café – produto importante dos três países – diminuiu as ofertas de emprego e os salários médios nas monoculturas, explicou Miguel Ángel García Arias, diretor regional na América Central da ONG Ação contra a Fome. A somatória de problemas tende a tornar as rendas das comunidades de origem mais dependentes do dinheiro regularmente enviado por seus membros que já cruzaram a fronteira americana. Em 2016, essas remessas corresponderam a 10%, 17% e 20% dos Produtos Internos Brutos (PIBs) de Guatemala, EI Salvador e Honduras, respectivamente.

“A situação de insegurança alimentar pode ser tão negativa que já existe uma ligação entre comunidades de origem e emigrantes. A migração é um elemento-chave dessa realidade. Os 70 mil guatemaltecos deportados do México ou dos EUA só no ano passado nos dão a magnitude do problema”, afirmou García Arias.

Na América Central, os territórios para agricultura são em geral pequenos, e, com a perda paulatina de terras por causa de fenômenos ligados ao clima, comunidades mais vulneráveis se transferem a áreas de reserva ou menos produtivas. Pesquisas como a da professora Maria Cristina García, da Universidade de Cornell, nos EUA, argumentam que a competição por bens em cenários como esses aumenta as chances de conflito político e violência sectária. Já o brasileiro Marcos Regis da Silva, diretor-executivo do IAI, explicou que há preocupações sobre o impacto das mudanças climáticas sobre a recuperação de populações e ecossistemas após fenômenos extremos.

“Até quando uma floresta semiárida poderá voltar a seu estado natural após a seca? Se antes a recuperação demorava dez anos, hoje esse tempo é muito maior. Muitos pesquisadores também acreditam que as mudanças climáticas estejam trazendo novas pestes ou reintroduzindo doenças erradicadas, como malária e febre amarela. Os ecossistemas estão estressados a um ponto que não conhecemos e, quanto mais eles perdem resiliência, mais as comunidades pobres vão sofrer. E é aí que mora o perigo”, disse Regis da Silva.

Uma espiral de precariedade social e degradação ambiental pode reforçar ainda mais a falta de alternativas para a população rural. Organizações de direitos humanos lembram que os fluxos migratórios não devem ser tratados como processos ameaçadores ou a serem coibidos. Entretanto, é importante que as pessoas não sejam forçadas a abandonar suas famílias e culturas para se aventurar em longas viagens, com o único objetivo de sobreviver.

Nos estados do sul mexicano, até 30% dos migrantes centro-americanos relataram em 2017 ter sido vítimas ou testemunhas de violência – normalmente, os crimes incluem sequestros, abusos sexuais, extorsão e assassinatos -, segundo a Rede de Documentação das Organizações Defensoras de Migrantes. É também frequente que os camponeses penhorem suas terras para pagar coiotes, mesmo sob risco de serem deportados e, na volta, ficarem sem nada. Entre 2017 e 2017, as detenções no México de indocumentados do Triângulo Norte aumentaram em 59%, e só cerca de 19% deles chegaram aos EUA, diz a Cepal. Um debate relativamente recente, é questionada a validade do termo “refugiado climático” – que não é adotado pela ONU – para se referir àqueles que foram forçados a se transferir em decorrência de fenômenos ligados ao clima que ameaçaram sua existência ou afetaram gravemente sua qualidade de vida. O Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno afirma que 26,4 milhões de pessoas na última década migraram no mundo por causa de enchentes, tempestades, terremotos ou secas.

Acadêmicos e organizações não governamentais usam a expressão para defender a concessão de status legal protetivo e políticas públicas especiais a populações afetadas pelas mudanças climáticas, sobretudo de países em desenvolvimento. A britânica Climate and Migration Coalition pondera, entretanto, que a cautela é importante para evitar a interpretação de que esses fluxos migratórios são decorrentes apenas das mudanças climáticas. Na verdade, vêm de contextos de vulnerabilidade e, não raro, de negligência política.

As soluções para mitigar as necessidades dessas populações rurais e indígenas não residem apenas nas metas ambientais estabelecidas por acordos mundiais a longuíssimo prazo, argumentou García Arias. É necessária a articulação de estratégias com foco direto em Honduras, Guatemala e El Salvador, embora esses países sejam responsáveis por uma ínfima porção das emissões globais de carbono – em 2014, por exemplo, só 0,37% do total global. “Estamos falando de países com escassos investimentos sociais em saúde, educação e infraestrutura básica, o que reduz muito a possibilidade de famílias saírem de ciclos de pobreza. É nas redes de proteção social que temos uma margem para trazer melhorias. A ausência de Estado, combinada a um modelo agroexportador dependente de grãos básicos, faz com que os países sejam muito vulneráveis a desastres e mudanças climáticas”, disse o especialista.

Para além de eventuais ineficiência e corrupção, a falta de recursos no corredor seco torna os fluxos de ajuda estrangeira uma fonte importante. Contudo, entre outros dilemas, as verbas podem ficar sujeitas a bons laços diplomáticos. Desde o ano passado, ao menos duas vezes os EUA cortaram centenas de milhões de dólares de programas de desenvolvimento para os governos do Triângulo Norte – a última delas em 30 de março – como punição por sua suposta inação para conter os migrantes rumo ao norte. E, para Edwin Castellanos, os recursos ainda se concentram pouco na adaptação às mudanças climáticas.

“Precisamos investir em estoques de água e sistemas de irrigação para pequenos produtores. Mas isso requer dinheiro, e precisamos complementar o esforço dos governos e de ONGs locais com financiamento internacional. A maioria dos recursos se destina a governança, segurança ou alívio da pobreza de forma genérica”, afirmou Castellanos, ex-assessor especial para a Presidência da Guatemala nas negociações do Acordo de Paris. “Aqui basicamente sentimos o efeito da poluição e esperamos que os países grandes a resolvam. Desse jeito, mesmo que os EUA construam um muro, muitas pessoas ainda tentarão cruzá-lo.”

Refugiados climáticos. 2

Seguidas caravanas rumaram em direção aos Estados Unidos desde outubro do ano passado. Na foto, a multidão atravessa a fronteira entre a Guatemala e o México.

GESTÃO E CARREIRA

HORA DE BUSCAR REFORÇOS

Para que o crescimento da empresa não se transforme em excesso de trabalho e negligência aos clientes, o empreendedor deve recrutar pessoas – um desafio que demanda organização e atenção aos detalhes.

Hora de buscar reforços.

Começar um novo negócio e vê-lo dar certo é o sonho de todo empreendedor. Só que, às vezes, o sucesso pode se tornar um grande problema. Isso acontece quando o volume de trabalho aumenta e o empresário não consegue dar conta das demandas porque não tem como dividi-las com alguém. No médio prazo, a falta de braços é uma equação perigosa que pode resultar em erros, queda de qualidade e negligência – o que, no limite, leva à perda de clientela.

É claro que, antes de chegar a esse ponto, surgem alguns sinais que mostram que você está precisando de reforços. A bandeira de alerta se ergue no momento em que o empreendedor não consegue mais procurar novas oportunidades porque está absorvido em atender às demandas já existentes ou, então, perde muito tempo executando tarefas que não são ligadas às atividades principais do negócio. “Chega um momento em que se percebe que o valor da hora de trabalho é muito alto para ele perder tempo indo ao banco, por exemplo”, diz João Villa, da Blue Numbers, consultoria especializada em pequenas empresas. Mas recrutar pessoas não é um processo tão simples assim. Por isso, nesta última reportagem do Guia do Empreendedor, ajudamos você a superar esse desafio.

 ESCOLHA CERTEIRA

O primeiro passo para criar um time é definir qual modalidade de contratação é mais compatível com o momento da empresa. Quando não é necessário ter alguém em tempo integral, a melhor alternativa é pagar uma empresa de prestação de serviços ou um profissional autônomo para fazer trabalhos pontuais em determinados períodos do ano. Por causa de sua flexibilidade e dedicação não integral, esse modelo tem custo mais baixo do que o regido pela CLT.

No entanto, é preciso assegurar de que não existe urna relação de subordinação. O empreendedor pode definir as tarefas a serem executadas, o prazo e o valor do pagamento, mas não pode interferir na rotina do profissional ou em sua forma de trabalhar. “É preciso sempre lembrar que não se é chefe do prestador de serviços”, diz Antônio Bratefixe Júnior, advogado especializado em direito do trabalho do escritório Có Criveli Advogados. Um erro comum é estabelecer uma relação de subordinação e exclusividade, o que caracteriza vínculo empregatício e pode levar a empresa a perder uma ação trabalhista.

“A Justiça vai olhar como é a natureza da relação no dia a dia, independentemente do que foi colocado em contrato”, explica Antônio.

A empresária Taty Stahl, de 36 anos, aprendeu à duras penas a importância de ter um contrato de trabalho com seus prestadores de serviço. Dona da Lab 220, empresa de máquinas de vendas automáticas (as vending machines), ela sofreu três decepções com freelancers que não entregaram o que foi combinado. “Depois de não receber o serviço e precisar correr atrás para cumprir a tarefa, eu comecei a usar contratos detalhando prazos, valores e produto final”, diz. Além disso, para garantir que os fornecedores estejam realmente trabalhando nos projetos, ela determinou entregas parciais – com pagamentos atrelados e valores mais altos para prestadores que cumprem bem as datas e os objetivos. ”Sai mais barato do que arriscar”, afirma.

 EM TEMPO INTEGRAL

Quando a quantidade e a complexidade do serviço demandam dedicação constante, um funcionário CLT sai mais barato do que o prestador de serviço – mesmo que seu custo total para a empresa seja o dobro do salário pago. “Essa é uma conta que o empreendedor tem de fazer, pensando no futuro e no volume de trabalho”, diz David Kallás, coordenador do Centro de Estudos em Negócios do Insper.

Outras vantagens do celetista é conhecer de perto a realidade da companhia e ser mais engajado no trabalho, pois aquela é sua única fonte de renda. “A principal característica do funcionário CLT é que ele vai ter o DNA do negócio e ajudará a empresa a crescer”, explica Domingos Fortunato, sócio do escritório Mattos Filho.

Mas, antes de assinar a carteira, é preciso entender quais serão os papéis e as responsabilidades desse profissional. Sem isso na cabeça, não dá para abrir uma vaga. “As pessoas querem ter a pessoa certa no lugar certo, mas não têm clareza de que lugar é esse”, afirma João, da Blue Numbers. O salário é um ponto crucial. Definir a remuneração correta demanda pesquisa de mercado para mapear quanto o funcionário que você quer atrair recebe em outras empresas – não se guie pelo cargo, mas pela função.

Além disso, reflita sobre as competências técnicas e comportamentais ideais para o futuro empregado. E não deixe de examinar a cultura corporativa, ou seja, os valores e o ”jeito de ser“  de sua empresa. “Contrata-se por competência e demite-se por incompatibilidade de cultura”, diz Igor Piquet, diretor de apoio a empreendedores na Endeavor.

CAÇA-TALENTOS

 Com tudo isso em mãos, é hora de anunciar as vagas. Além de utilizar as redes sociais e sites especializados, peça recomendações aos seus contatos. Isso porque filtrar as dezenas (ou até mesmo centenas) de currículos recebidos pode ser uma tarefa hercúlea. O desafio de fazer a triagem era tão grande que levou o empresário Leandro Miranda, de 42 anos, dono da l bijus, escola virtual de direito com mais de 160.000 usuários, a criar um processo seletivo online próprio.

Primeiro, Leandro divulga as vagas nas redes sociais e depois realiza uma palestra online ao vivo para os interessados. Nessa mesma ocasião, aplica dois testes: um questionário de múltipla escolha com perguntas sobre o perfil pessoal e a experiência profissional e um teste de competências relativo à atividade que será exercida pelo candidato. A última etapa é uma entrevista por Skype. Como a equipe de Leandro pode trabalhar remotamente, essa é uma oportunidade para ele encontrar bons profissionais de todo o país. “Antes a gente divulgava a vaga e vinha cada currículo de um jeito, agora as informações chegam organizadas e é mais fácil filtrar”, diz Leandro, que tem uma equipe de nove pessoas, todas CLT e em home office.

Hora de buscar reforços. 2

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 30: 18-23

Alimento diário

QUATRO COISAS PEQUENAS E SÁBIAS

 

V. 18 a 23 – Aqui, temos:

I – Uma explicação de quatro coisas que são insondáveis, maravilhosas demais para serem plenamente conhecidas. E aqui:

1. As três primeiras são naturais, e se destinam somente a servir como comparações para ilustrar a última. Não é possível identificar:

(1) O caminho de uma águia no céu. O caminho por onde ela voou não pode ser identificado, nem pelas pegadas, nem pelo cheiro, como pode ser identificado o caminho de um animal na terra; nem podemos explicar a maravilhosa rapidez do seu voo, com que rapidez ela está fora do nosso alcance.

(2) O caminho de uma serpente sobre uma rocha. Podemos descobrir, pelo rastro, o caminho de uma serpente na areia; mas não o de uma cobra sobre a penha dura; nem podemos descrever como uma cobra, sem pés, em pouco tempo chega ao topo de uma rocha.

(3) O caminho de um barco no meio do mar. O leviatã, na verdade, deixa um caminho brilhante atrás de si, parece o abismo tornado em brancura de cãs (Jó 41.32), mas um barco não deixa nenhum sinal atrás de si, e às vezes ele é tão agitado pelas ondas que é de admirar como vive no mar e consegue seus objetivos. O reino da natureza está cheio de maravilhas, coisas maravilhosas que o Deus da natureza faz, impossíveis de explicar.

2. A quarta coisa é um mistério de iniquidade, mais inexplicável que qualquer destas três; ela pertence às profundezas de Satanás, aquela falsidade e aquela desesperada iniquidade de coração que ninguém conhece (Jeremias 17.9). Ela tem dois aspectos:

(1) A astúcia amaldiçoada que um adúltero vil tem para enganar uma virgem, e para persuadi-la a ceder ao seu desejo ímpio e abominável. Isto foi assunto de todo um livro de um poeta devasso, há muito tempo. Com que pretextos e declarações de amor, e todos os seus poderosos encantos, as promessas de casamento, garantias de discrição e recompensa, muitas virgens são compradas e vendem a sua virtude, a sua honra, a sua paz, e a sua alma, tudo a um infame traidor; pois assim são todos os desejos pecaminosos no reino do amor. Quanto mais astúcia for empregada na tentação, mais vigilante e resoluto deverá ser cada coração puro contra ela.

(2) A astúcia amaldiçoada que uma adúltera vil tem para ocultar a sua iniquidade, especialmente de seu esposo, de quem ela se afasta traiçoeiramente; tão íntimas são as suas intrigas com seus companheiros libertinos, e tão ardilosamente encobertas, que é tão impossível expô­la e revelá-la como identificar o caminho de uma águia no ar. Ela come o fruto proibido, de maneira semelhante à transgressão de Adão, e então limpa a sua boca, para não se trair, e com rosto ousado e atrevido diz: Não cometi maldade.

[1] Para o mundo, ela nega o fato, e está pronta a jurar que é tão casta e modesta como qualquer mulher, e nunca cometeu a iniquidade de que é suspeita. Estas são as obras das trevas que são engenhosamente impedidas de vir à luz.

[2] Para a sua própria consciência (se é que ainda tem alguma), ela nega o pecado, e não reconhece que aquela grande iniquidade é, verdadeiramente, iniquidade, mas dirá que é uma inocente diversão. Veja Oséias 12.7,8. Assim multidões arruínam suas próprias almas, ao mal chamando bem e enfrentando suas condenações com uma justificam a própria.

 

II – Uma explicação de quatro coisas que são insuportáveis, isto é, quatro tipos de pessoas que são muito incômodas  para os lugares onde vivem, e os parentes e amigos em cujo meio se  encontram; a terra se alvoroça  por causa delas, e geme debaixo delas como um fardo que não pode suportar, e elas são muito semelhantes: 

1. Um servo, quando é promovido e tem algum poder confiado a si, sendo, entre todos, o mais insolente e imperioso; veja Tobias, o servo amonita (Neemias 2.10).

2. Um homem tolo, rude, impetuoso. maldoso, quando enriquece, e tem prazeres à mesa. que perturba todos os amigos com suas palavras extravagantes e as afrontas que faz a todos os que estão à sua volta.

3. Uma mulher de má índole, obstinada, quando se casa, alguém que, tendo se tornado odiosa pela sua soberba e mordacidade, a tal ponto que ninguém pensaria que alguém viesse a amá-la, se por fim, se casa; esta condição honrosa a torna ainda mais intoleravelmente escarnecedora e vingativa do que nunca. É lamentável que aquilo que deveria suavizar e abrandar a disposição tenha um efeito tão contrário. Uma mulher graciosa, quando se casa, será ainda mais agradecida.

4. Uma criada idosa que convenceu a sua senhora – satisfazendo-lhe as vontades, e passando a conhecê-la bem – a deixar-lhe o que tem, ou o que é precioso para ela, como se a criada fosse sua herdeira: esta pessoa provavelmente será intoleravelmente orgulhosa e perversa, e menosprezará tudo o que a sua senhora lhe der, e se julgará prejudicada se algo não lhe for dado. Portanto, que aqueles a quem a Providência conduziu à honra, a partir de inícios humildes, estejam cuidadosamente vigilantes contra este pecado que tão facilmente os assedia: a soberba e a arrogância, que neles, mais do que em todos os outros, será intolerável e indesculpável; e que se humilhem com a lembrança da rocha de onde foram cortados.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESPECTROS DA SEXUALIDADE II

Espectros da sexualidade II

HOMOSSEXUALIDADE COMO TRAÇO ADAPTATIVO

Em junho de 1997, marchei na minha primeira parada do orgulho gay. Caminhei pela Market Street, em São Francisco, do Centro Cívico até o Ferry Building. A parada 101 uma das melhores que eu tinha visto, e as calçadas estavam inteiramente tomadas.

Já tinha ouvido falar que uma em dez pessoas é homossexual, mas sempre houve a impressão de que o número era exagerado. Naquela ocasião, porém, comecei a perceber pela primeira vez que é realmente plausível que o número de gays possa chegar a tal proporção.

Esse número de gays e lésbicas apresentou-se como um problema para mim, como bióloga. Minha disciplina ensina que a homossexualidade é uma espécie de anomalia inexplicável. Se a finalidade do contato sexual é a reprodução, como reza a explicação convencional, como é possível que existam todas essas pessoas interessadas por outras do mesmo sexo? Alguém poderia argumentar que elas são de alguma forma “defeituosas”, que  algum erro de desenvolvimento ou influência ambiental direcionou erroneamente suas estranhas fantasias sexuais. Se for assim gays e lésbicas estão aqui por um breve período durante a evolução da nossa espécie à espera de remoção quando a seleção natural desbastar aqueles com menor aptidão darwiniana.

Comecei então a especular sobre o enigma evolutivo da homossexualidade. Se uma teoria diz que algo está errado com tantas pessoas em tantas culturas e épocas diferentes, então talvez o erro esteja na teoria e não nas pessoas. Mas fiquei com medo de abandonar o enigma sem solução. Em poucos meses eu iria me assumir abertamente como “ mulher transgênera”.  Não sabia se seria demitida do meu cargo de professora da Universidade Stanford na Califórnia e acabaria trabalhando como garçonete em um bar transgênero. No caso não fui demitida – embora tenha sido afastada de todas as minhas responsabilidades administrativas – e tive mais tempo para investigar como a evolução levou às diversas manifestações de gênero e sexualidade.

Descobri que a teoria da evolução tinha seguido um caminho errado que leva inexoravelmente de volta a Charles Darwin (1809-1882) – especificamente à sua teoria da seleção sexual. Concluí que deveria ser declarada não apenas falsa, mas irreparável. Embora acredite que muitos biólogos reconheçam que as recentes descobertas sobre gênero e sexualidade são problemáticas, poucos, vão tão longe a ponto de recomendar que a teoria da seleção sexual de Darwin seja inteiramente rejeitada. Assim, gostaria de descrever em linhas gerais, os passos que me levaram a essa conclusão bem drástica e provocativa –  a uma melhor compreensão da biologia da homossexualidade e gênero.

Existem dois erros flagrantes no pensamento de Darwin. Em 1871, ele escreveu que “fêmeas escolhem parceiros mais atraentes… vigorosos e bem-dotados” assim como o “homem pode conferir beleza ( ) a uma ave por meio do cruzamento seletivo”. A cauda do pavão, exemplo frequente de Darwin, refletiria um gosto da pavoa pela aparência masculina, da mesma forma que a atração de cervos fêmeas por galhadas amplas dos companheiros demostra preferência por espécimes fortes e guerreiros. “Os machos, de quase todos os animais têm paixões mais fortes que as fêmeas”, escreveu ele. “Com raríssimas exceções, elas são recatadas e menos impetuosas. “Na visão de Darwin, quase que universalmente os seres se sujeitam aos papéis predestinados de belos guerreiros excitados, ou de donzelas discretamente exigentes.

Mas a diversidade no mundo real é muito maior. Em muitas espécies, inclusive na nossa, as fêmeas  não são necessariamente menos impetuosas que os machos, nem todas as mulheres suspiram por Arnold Schwarzenegger. Inúmeras delas abordam os machos e estes, muitas vezes as rejeitam. Além do mais, em várias espécies os supostos papéis sexuais se invertem. Mesmo Darwin reconheceu espécies de pássaros, como a jaçanã, cujas fêmeas são fortemente ornamentadas e cujos machos são insípidos e sem graça, invertendo a história do pavão.

De fato, muitos animais nem sequer são nitidamente classificados em dois sexos. Se você fizer um mergulho em um recife de coral, cerca de um terço dos peixes que encontrará produz óvulos e esperma, alguns ao mesmo tempo e outros em épocas diferentes ao longo da vida. São os chamados hermafroditas simultâneos ou sequenciais, respectivamente, e dizem que eles “trocam de sexo”. Na realidade, o fato mais comum entre os organismos multicelulares, inclusive plantas e um mesmo indivíduo produzem tanto gametas masculinos quanto femininos em algum momento da vida. Portanto, a condição pela qual um indivíduo pode ser classificado sem ambiguidade como macho ou fêmea não deveria ser considerada anomalia.

As espécies podem também ter mais de um tipo de macho e de fêmea. Todas as várias morfias de machos de tais espécies produzem sêmen, mas são tão diferentes no tamanho do corpo, cor, morfologia, comportamento e história de vida que um naturalista inexperiente poderia ficar  tentado a classificá-las como espécies diversas. O mesmo vale para vários tipos de fêmeas que não têm nada em comum, exceto pelo fato de todas elas produzirem óvulos, como os lagartos-pintados-de-papo-amarelo e de-papo-laranja, que  põem ovos de diferentes tamanhos.

Dei a essas distintas morfias o nome de “gêneros”, e essa terminologia permite dizer que existem mais gêneros que sexos. O peixe-sol-de-guelra-azul do nordeste dos Estados Unidos e Canadá, por exemplo, tem três gêneros masculinos, que chamo de controladores, cooperadores e retaguardas. Os grandes controladores de-peito-laranja e os cooperadores de tamanho médio, cujo padrão escuro de listras coloridas lembra a coloração feminina, cortejam as fêmeas conjuntamente. O controlador fertiliza a maioria dos óvulos, mas também permite que o cooperador o faça, embora de forma limitada. Os pequenos e pálidos machos de retaguarda ficam à espreita entre as plantas esperando que urna fêmea ponha os ovos para depositar um pouco de seu próprio esperma.

O segundo problema com a noção de seleção sexual de Darwin é que em espécies relativamente  sociais como a maioria dos pássaros e mamíferos, o contato sexual não tem a ver, necessariamente, e de fato nem mesmo frequentemente, com a transferência de esperma. O acasalamento está orientado principalmente para a formação e cultivo de relacionamentos que, ao final, poderão resultar na produção e criação de descendentes. Uma simples contagem de quantas vezes ocorre o acasalamento em relação ao número de nascimentos ilustra o argumento. Nos seres humanos podemos propor um exemplo: suponhamos que José e Maria fazem amor regularmente toda semana, digamos, nas noites de quinta-feira, e têm dois filhos. Depois de 50  anos, terão se acasalado mais de 2.500 vezes e produzido dois descendentes –  portanto, teriam 1.250 relações sexuais por rebento produzido. Parece ineficiente? Não se supusermos que o acasalamento regular permite que o casal permaneça junto e consiga criar bem os dois filhos. Similarmente, pássaros e primatas, assim como representantes de outras espécies, muitas vezes se acasalam em ocasiões e lugares que não adequados para resultar na imediata produção de descendentes.

Espectros da sexualidade II. 2

SELEÇÃO SOCIAL

A essa altura da minha pesquisa, eu começava a suspeitar que Darwin poderia estar inteiramente errado sobre a questão da sexualidade. Tive a impressão de que a organização social nos animais gira em torno do controle de acesso à oportunidade reprodutiva, que inclui todos os elementos dos quais precisam para procriar: alimento e locais para fazer o ninho, por exemplo, bem como parceiros. Os animais fazem uso direto dos recursos que controlam, mas também podem utilizá-los como moedas de barganha para conseguir a ajuda de outros. Além do mais, a dinâmica das sociedades animais exige decisões sobre onde alocar amizade e cooperação entre animais do mesmo sexo ou de outro sexo. Diferentes arranjos de cooperação levam à emergência de variadas estruturas para famílias e pequenos grupos.

Essa forma de pensar, que chamo de teoria da seleção social, oferece uma explicação bastante aceitável para parte considerável da diversidade que vemos nas práticas sexuais. No peixe­ sol-de-guelra-azul, por exemplo , a vida social não consiste, como exige a tradicional teoria da seleção sexual, em fêmeas em busca de machos com ótimos genes, nem de machos tentando fazer as fêmeas acreditarem que seus genes são melhores que os dos vizinhos. É, antes, sobre os altos e baixos do poder para controlar o acesso à oportunidade reprodutiva.

Sugiro que os machos controladores pagam aos machos cooperadores os serviços  de “intermediação do casamento” ao permitir que estes últimos fertilizem alguns dos ovos de seu território. Em troca, o cooperador auxilia na corte às fêmeas. Sem um controlador, o cooperador  não se sai tão bem em atrair as fêmeas. O padrão de coloração feminina do macho cooperador pode, de alguma forma, promover essa função, talvez por permitir que o espécime “solidário” desenvolva uma relação com as fêmeas enquanto o macho controlador defende o território.

Aspectos dos relacionamentos entre animais “controlados” pelo acasalamento dependem do sistema social da espécie. A antropóloga Sarah Hardy, da Universidade da Califórnia em Davis, mostrou que macacas da Índia se acasalam com vários machos para que, na ocasião do nascimento dos filhotes, nenhum deles ataque os bebês, já que qualquer um pode ser o pai. Além de controlar o poder masculino, essa prática impede que os pais se tornem ociosos, o que diminui os conflitos nos grupos.

A teoria da seleção social explica também um enigma que remonta a Aristóteles: o “pênis” da hiena-malhada fêmea. O clitóris da fêmea é maior que o membro do macho, e os depósitos de gordura na bolsa cutânea vizinha lembram um saco escrotal. Muitas vezes, nas interações com  outras fêmeas, as hienas ficam com o clitóris intumescido, como se tivessem uma ereção. A teoria da seleção sexual não tem explicação para tal característica extraordinária – que não é usada na escolha do parceiro. Apresento, contudo, a sugestão de que uma hiena-malhada fêmea que não tivesse um pênis seria excluída dos grupos de fêmeas que controlam o acesso à reprodução. Esse é um exemplo daquilo que chamo de traço de inclusão social: uma característica que garante a admissão do indivíduo no grupo social, independentemente de ter qualquer outro uso. A poderosa capacidade humana para usar a linguagem e a habilidade para apreciar, compreender e criar arte e música podem ser exemplos desses traços em nossa espécie.

 

QUESTÃO DE PODER

Podemos pensar que ornamentos sexuais clássicos como a cauda do pavão ou a galhada de um cervo não são suficientes para atrair as fêmeas por anunciar a virilidade. Pelo contrário, esses traços podem ter como alvo os membros do mesmo sexo. É possível que sejam insígnias de  admissão no exclusivo  clube  dos detentores do poder. Não tenho conhecimento de nenhum experimento para testar se as características sexuais secundárias são realmente insígnias ou ornamentos. Alguns estudos mostraram como a modificação de características físicas, como as cores das penas, afeta a escolha do parceiro. Acredito que essas investigações deveriam questionar também como essas alterações influem nas relações entre indivíduos do mesmo sexo – inclusive entre membros do exclusivo clube dos detentores do poder.

Essa nova perspectiva do comportamento social de animais – e a consequente rejeição da teoria da seleção sexual de Darwin – debilita a linha condutora da psicologia evolutiva. Muitos biólogos estão se sentindo cada vez mais incomodados com a maneira como alguns psicólogos reorganizaram a teoria da seleção sexual e a transformaram em uma teoria da personalidade humana, apoiando-se em bases aparentemente lógicas para explicar a evolução de tudo – desde os padrões de beleza até o estupro. Sermos francos e diretos a respeito de como a teoria da seleção sexual é problemática pode ajudar a reduzir o uso errado da biologia.

Fecho agora o círculo da pergunta com a qual comecei: o enigma relativo à homossexualidade e ao gênero e a dificuldade que essa questão coloca para a teoria darwiniana da seleção sexual. Em seu  livro Biological exuberance: animal homossexuslity and natural diversity, o escritor Bruce Bagemihl catalogou mais de 300 espécies de vertebrados nas quais o contato genital entre indivíduos do mesmo sexo ocorre regularmente. Em algumas dessas espécies, a homossexualidade não é muito comum – de 1 % a 10 % de todos os casais. Em outros casos, como no dos bonobos, o acasalamento homossexual ocorre com a mesma frequência que o heterossexual. Em algumas espécies, participam dessas práticas somente os machos, em outras, apenas as fêmeas e, em outras ainda, indivíduos dos dois sexos. Em relação ao tempo de duração do vínculo não há regra: há casos de pares homossexuais nos quais os laços duram por anos; em outras espécies as uniões têm pequena duração. Essa ampla ocorrência de relações entre vertebrados do mesmo sexo levanta a possibilidade de que se realmente existir uma base genética para esse comportamento, ela terá algum amplo significado adaptativo – e não será uma condição aberrante à qual, por acaso, apenas algumas espécies estão presas.

 

UMA APTIDÃO

Nos seres humanos, a homossexualidade é comum demais para ser considerada uma aberração genética. As verdadeiras doenças transmitidas pelos genes são realmente raras e sua frequência está, inevitavelmente, relacionada à gravidade que apresentam. A frequência de surgimento de moléstias letais que costumam se repetir a cada geração, é igual ao índice de mutação – digamos uma em 1 milhão. Uma doença que causa apenas uma queda de 10% na produção de descendentes é dez vezes mais comum que uma doença letal – cerca de uma em 100 mil. Similarmente uma queda de só 1% na aptidão leva a uma frequência de uma em 100 mil. Se a homossexualidade tiver uma frequência de uma em dez a perda de aptidão não poderia ser maior que 0,0001, que é inteiramente não-detectável. Uma “doença genética comum” é, por si só, uma contradição e a homossexualidade é de três a quatro vezes mais comum que os verdadeiros  distúrbios genéticos, como a doença de Huntington.

Na realidade, contesto a conjectura de que a homossexualidade leve a qualquer redução de algum tipo de habilidade. Durante toda a história e em todas as culturas, a atração homoerótica não excluiu a atração heteroerótica. Há poucas evidências de que as pessoas que sentem atração homoerótica tenham, do ponto de vista darwiniano, menos aptidões em qualquer área. Afinal, há muitas pessoas exclusivamente heterossexuais que também não têm descendentes. Mesmo se aqueles com atração homoerótica realmente tivessem um número menor de filhos, eles poderiam compensar com uma melhor chance de sobrevivência – durante as guerras, por exemplo, quando laços homoeróticos poderiam levar os soldados a se proteger reciprocamente com maior vigor.

Qual é, então, o significado adaptativo da homossexualidade? Certamente ela tem muitas funções, tanto quanto, por exemplo, a habilidade de falar. O contato homossexual é uma maneira de comunicar prazer. Sugiro que seja também um traço de inclusão social – isto é, oferece aos animais, e talvez ocasionalmente até aos seres humanos, a possibilidade de ingressar em determinados grupos sociais. Acredito que pode evoluir para a cooperação entre indivíduos do mesmo sexo  ajudando-os a conquistar uma vida evolutivamente bem-sucedida, favorecendo a sobrevivência, o encontro com outros parceiros e a proteção dos próprios filhos. Isso se desenrola de diferentes maneiras nas variadas espécies. Algumas vezes, como acontece com os bonobos, a cooperação entre espécies do mesmo sexo proporciona a segurança e o acesso aos alimentos de que as fêmeas precisam para conseguir criarem filhotes. Para outros, como os babuínos machos das savanas e  provavelmente para algumas baleias, tal cooperação proporciona os aliados necessários para sobreviver aos conflitos de maneira que possam mais tarde se acasalar. Mas, o princípio unificador é o mesmo –  em muitos casos, a homossexualidade consolida as relações cruciais para uma vida de sucesso.

 

JOAN ROUGHGARDEN – é bióloga, professora e pesquisadora da Universidade Stanford, São Francisco.

OUTROS OLHARES

DESIGUALDADE RACIAL DIMINUI, AINDA QUE LENTAMENTE

Embora persistam, diferenças na taxa de aprovação de alunos brancos e negros já foram maiores, bem como a proporção de estudantes matriculados na idade correta.

Desigualdade racial dimimui, ainda que lentamente

As desigualdades raciais do Brasil também estão presentes na escola, naturalmente, e é no ensino médio que elas se mostram mais acentuadas. A taxa de aprovação dos alunos brancos é maior que a dos negros, bem como a taxa dos que estão matriculados na idade correta. Já a evasão, um dos problemas que mais afetam essa etapa escolar e que está ligada tanto à falta de motivação com os estudos quanto à necessidade de trabalhar, é maior entre os negros.

No entanto, uma análise histórica dos dados revela que as diferenças estão se estreitando. Todos os estudantes estão evoluindo, mas as crianças e jovens negros estão alcançando mais rapidamente. Com isso, o desnível racial está caindo, ainda que persista de forma incontestável.

Começando pelas matrículas, na faixa de 7 a 14 anos, os percentuais de crianças brancas e negras matriculadas são bem parecidos e apontam para uma quase universalização do acesso. Por outro lado, na faixa de 15 a 17 anos, a taxa de matrícula de alunos brancos chega a 80%, enquanto a de negros gira em torno de 77%, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad, 2015) tabulados pelo Observatório de Educação, do Instituto Unibanco.

Olhando apenas a rede privada, os brancos têm uma grande predominância, com proporções duas vezes maiores no ensino fundamental e quase três vezes superior no ensino médio.

 

COMPARAÇÃO HISTÓRICA

Em relação à proporção de jovens matriculados no ensino médio na idade correta, os micro dados do Censo Escolar mostram que entre os brancos essa taxa atingiu 78,39%, e entre os negros, 71,55%.  Em 2008, porém, essa proporção era de 58% entre os jovens negros, o que representa um incremento de 13.5 pontos percentuais. Entre os brancos, a evolução foi de 9.4 pp. Se antes havia um gap de 11.7 pp. Entre os dois grupos, hoje ele é de 6.8 pp

Um comportamento semelhante pode ser visto no conjunto de dados que mostra a aprovação dos estudantes no ensino médio. O índice dos alunos brancos supera o de negros: 83,2% contra 78,1%. Mas, ao longo do período analisado, os negros conseguiram avançar 8.6 pp., enquanto os brancos, 5.1 pp. Quanto à taxa de evasão, ela caiu de 17,3% para 8,5% entre os negros, e de 9,6% para 5,4% entre os brancos.

Desigualdade racial dimimui, ainda que lentamente. 2

GESTÃO E CARREIRA

O PERIGO DA AUTOSSABOTAGEM

Nem desemprego nem chefe tirano. Muitas vezes, é sua própria mente que boicota seu sucesso. Saiba como identificar os sinais e se livrar dessa atitude.

O perigo da autossabotagem

Dar tiro no pé. Puxar o próprio tapete. Boicotar­ se. Coisas que a gente até sabe que vão nos prejudicar, mas por motivos às vezes desconhecidos (ou não) acabamos fazendo do mesmo jeito. É a autossabotagem que faz você se machucar na primeira semana frequentando a academia a contragosto. E que justifica aquele branco na hora da prova para qual estudou tanto. É ela também que explica por que aquele conhecido há anos guarda segredo sobre um negócio altamente lucrativo, mas que nunca sai do papel.

Autossabotar-se é uma espécie de mecanismo de defesa da mente, que cria circunstâncias, reais ou imaginárias, para evitar mudanças que podem trazer algum tipo de incômodo (medo, insegurança, exposição indesejada). A atitude traz o benefício imediato de mantê-lo em sua zona de conforto e afastá-lo de conflitos, mas também impede que você avance em direção a seus objetivos e se desenvolva na carreira, o que pode trazer prejuízos à autoestima e à saúde, além da motivação e da produtividade.

E, segundo uma pesquisa da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, publicada no Journal of Experimental Social Psychology, por mais que esse tipo de comportamento não traga nenhuma vantagem, a decisão de puxar o próprio tapete envolve certo esforço mental. Para chegar a essa conclusão, os estudiosos recrutaram 237 pessoas e as dividiram em matutinas e noturnas, levando em consideração o pico individual de disposição e a capacidade mental em cada período. Esses participantes realizaram o mesmo teste de inteligência em dois momentos (às 8 da manhã e às 8 da noite) em dias diferentes. Antes disso, porém, tiveram sua tendência à autossabotagem avaliada por meio de questões sobre seu nível de estresse, Os resultados mostraram que a chance de boicotar­ se é mais alta naqueles momentos em que o cérebro está em seu auge de atenção – e não quando está cansado ou distraído. “Diante do medo de falhar, o engajamento mental para encontrar possíveis desculpas para o fracasso é maior quando a pessoa está no máximo de sua capacidade de pensamento”, diz Ed Hirt, coautor do estudo e professor no Departamento de Psicologia e Ciências do Cérebro da Universidade de Indiana.

O fenômeno está tão longe de ser simples que o consultor de carreira Alberto Roitman, diretor da consultoria Nexialistas, destaca que é comum o autossabotador desenvolver habilidades que protegem sua imagem e garantem a sobrevivência profissional. “Bom marketing pessoal, oratória eficiente, extroversão e poder de persuasão são alguns exemplos. Mas isso não é suficiente para fazê-lo triunfar, apesar das limitações que se tenta camuflar”, afirma. A autossabotagem pode até ser definida como uma “anticompetência” que resulta sempre da carência de alguma coisa -conhecimento, habilidade ou coragem para expor-se e arriscar-se. Não se achar capaz ou merecedor, viver focado no outro e desconectado dos próprios interesses também leva a agir contra você mesmo. “É um instinto de preservação que se impõe em profissionais de todos os níveis de hierarquia e não apenas nos menos preparados”, diz Alberto.

Prova disso é a história do empreendedor Alfredo Lalia, de 49 anos, sócio da startup de seguros Original Title Insurance. Anos atrás, quando era diretor numa grande seguradora multinacional, foi boicotado pelo perfeccionismo e pela timidez, que o faziam travar na hora de comunicar­ se em inglês como chefe britânico e nas reuniões de equipe. Mesmo falando o idioma e sendo bem avaliado pelos superiores, Alfredo achava que não era o suficiente e, para não se expor, acabava deixando de destacar-se. ”Comecei a perceber que poderia perder oportunidades de uma carreira internacional, uma das minhas ambições na época, caso não superasse esse obstáculo”, afirma. O fato de assistir a outros executivos sendo transferidos para o exterior também pesou, e Alfredo voltou a estudar. Só quatro anos depois ganhou segurança para usar o inglês no trabalho e, mesmo assim, por pressão e incentivo do gestor estrangeiro. A partir dali, a relação com os clientes gringos fluiu, ele foi promovido e expatriado durante três anos para o México, e passou a realizar viagens mensais a Londres, onde fica a sede da companhia.

 

  QUAL O MOTIVO?

Arrogância, ansiedade, procrastinação, excesso de proatividade, bajulação, perfeccionismo. São muitas as atitudes que podem ser colocadas em prática como métodos de autoboicote. Alguns são especialmente recorrentes no universo profissional, de acordo com os especialistas consultados para esta reportagem. E um dos gatilhos desse comportamento é relativamente simples de ser identificado: a falta de satisfação – e de identificação – com o trabalho. “Muitas vezes a pessoa se sabota porque não se reconhece na atividade que realiza, que não condiz com seus talentos, valores e sonhos”, afirma o psicoterapeuta e coach Luiz Eduardo Lemos. “Como não sabe ou não tem coragem para reverter a situação, acaba se boicotando.”

O passo mais importante para afastar sua autossabotagem é reconhecer que o comportamento existe em você – o que só é possível olhando para dentro de si mesmo, mas pode ser facilitado com o auxílio de psicologia, coaching ou mentoria. Ouvir o feedback de amigos e colegas de trabalho também ajuda. No final, assim como outros comportamentos inconscientes, o importante é questionar os muitos porquês por trás de suas atitudes.

O perigo da autossabotagem 2 

OS GRANDES VILÕES

A autossabotagem costuma ter alguns gatilhos comuns. A seguir, listamos alguns deles e quais são as estratégias para enfrentá-los.

DIFICULDADE DE DIZER NÃO

O medo do julgamento alheio, de ser rejeitado ou de demissão, por exemplo, que faz com que muita gente diga sim para tudo. Vale para o pedido de ajuda do colega naquela hora em que você está concentrado e para o do chefe para ficar até mais tarde (e faltar na aula de inglês de novo), entre tantas outras situações.

“É imaturidade achar que precisa sempre atender ao outro em detrimento de si mesmo e demonstra uma fraqueza comum gerada pelos modelos de trabalho convencionais: a dificuldade para fazer autogestão e se colocar como líder de si mesmo”, explica Stephanie Crispino, coordenadora de desenvolvimento humano e organizacional do Grupo Anga, voltado para o empreendedorismo consciente.

COMO VENCER

Coloque o “não” aos poucos no vocabulário, praticando em situações do dia a dia com pessoas em quem confia, como amigos e parentes. Com o tempo, a tendência é ganhar confiança e jogo de cintura para desviar-se de conflitos com gentileza e sem precisar sobrecarregar-se.

AUTOCOBRANÇA EXAGERADA

Receio de fracassar, autocrítica ferrenha, referências de sucesso inalcançáveis e o fantasma da comparação são traços de personalidades perfeccionistas, que fogem do erro a todo custo. A questão é que a auto – exigência elevada nem sempre se reflete em eficácia e comprometimento do profissional. Além disso, o comportamento pode resultar em crise de ansiedade, síndrome de burnout, transtornos alimentares, falta de motivação ou depressão.

COMO VENCER

Aceitando que o erro faz parte do desenvolvimento e focando suas prioridades, em vez de concentrar-se em opiniões e resultados alheios. Experimente um exercício: no fim do dia de trabalho, faça uma lista de coisas agradáveis e desagradáveis que aconteceram. Tudo entra no balanço: uma nova parceria fechada, o comentário de um cliente, uma entrega no prazo, uma conversa com o chefe. É provável que você se surpreenda ao perceber que há menos coisas com que se preocupar do que imagina.

VITIMIZAÇÃO

Repetir frases do tipo “se eu tivesse mais tempo faria melhor” ou “a empresa não me dá o valor que tenho” ou “nem adianta fazer nada, o mercado está horrível·”

“É típico de quem não quer ou não sabe como assumir o protagonismo da própria história. Culpar o outro (o chefe, a empresas, a crise econômica por sua estagnação, fracasso ou frustração e, assim, não precisar agir”, diz Renata Fiuppi Lindquist, psicóloga e sócia da Soul, Consultoria de Recursos Humanos.

COMO VENCER

Tente olhar a situação de fora e separar a parte que cabe a você no contexto – que resultado gostaria de obter, o que poderia de fato fazer para alcançá-lo e como se sentiria em caso de sucesso ou fracasso.

PROCRASTINAÇÃO

Perfeccionismo, excesso de pensamentos, preguiça, medo do desconhecido ou falta de habilidade. Tudo isso pode fazer com que alguém empurre com a barriga – do começo da dieta à conclusão de um relatório. Trata-se de uma estratégia do cérebro para evitar tarefas que não dão prazer ou que demandam muita energia. SÓ que as consequências podem ser dramáticas, como pressão do gestor, necessidade de retrabalho e estresse.

COMO VENCER

Quebre em partes menores aquilo que precisa entregar e planeje-se para finalizar uma ou duas por dia até a data-limite (em vez de querer resolver numa tacada só). Ou divida as obrigações entre prazerosas e sofridas e reserve aquelas menos agradáveis ou complexas para os momentos em que se sentir com mais disposição.

O perigo da autossabotagem 3

TESTE

DESTRUIÇÃO INTERNA

Marque entre as frases abaixo aquelas com as quais se identifica. Três ou mais sentenças assinaladas já indicam que você pode estar se prejudicando com suas atitudes e mentalidade. Procure detectar seus padrões de autossabotagem (ansiedade, procrastinação, vitimização, medo de mudança, negatividade) e agir para descobrir e enfrentar a origem do problema.

1 – Não estou 100% satisfeito com meu emprego, mas não posso me dar ao luxo de ingressar em desafios incertos.

2 – Trabalho tanto e frequentemente chego ao fim do expediente com a sensação de que poderia ter sido mais produtivo.

3 – Não dou sorte com chefes. Os meus são sempre tiranos ou despreparados.

4 – Tenho várias ideias de negócios que seriam um sucesso, mas nunca encontro tempo para materializá-las.

5 – Quando não tenho condições de destaca-me em um projeto, prefiro não participar dele.

6 – Já me arrependi por falar mal de um chefe ou colega de trabalho na frente de outras pessoas.

7 – Quando não posso ou não quero comparecer a um evento, o mais comum é que eu invente uma boa desculpa.

8 – Sinto-me inadequado, incompreendido ou subaproveitado em diversas situações de trabalho.

9 – Faço de tudo para não cometer erros.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 30: 15-17

Alimento diário

QUATRO COISAS INSONDÁVEIS

 

V. 15 a 17 – Ele tinha falado antes sobre os que consomem os pobres (v. 14), e tinha falado sobre eles em último lugar, como a pior das quatro gerações ali mencionadas; agora, ele fala sobre quão insaciáveis eles são, ao fazer isto. O temperamento que os motiva a isto é constituído de crueldade e cobiça, que são as duas filhas da sangues­ suga, a sua prole genuína, que ainda clamam, “Dá, dá, dá mais sangue, dá mais dinheiro”; pois os sanguinários são sedentos de sangue; embora embriagados de sangue, eles somam sede à sua embriaguez, e buscam mais sangue. Também os que amam a prata nunca se saciarão de prata. Assim, enquanto, com base nestes dois princípios, eles estejam consumindo os pobres, estão continuamente inquietos, como os inimigos de Davi (Salmos 59.14,15). Para um exemplo adicional:

I – Ele especifica quatro outras coisas que são insaciáveis, às quais estes consumidores são comparados, que não dizem, Basta. Nunca são ricos os que estão sempre cobiçando. Estas quatro coisas que estão sempre cobiçando são:

1. A sepultura, em que caem multidões, e muitos mais ainda cairão, e que os engole, e não devolve nenhum. O inferno e a perdição nunca se fartam, (Provérbios 27.20). Quando chegar a nossa vez, encontraremos a sepultura pronta para nós (Jó 17.1).

2. A madre estéril, que é impaciente na sua aflição por ser estéril, e clama, como Raquel: “Dá-me filhos”.

3. A terra árida, nos tempos de seca (especialmente em países quentes), que absorve a chuva que cai em abundância sobre ela, e em pouco tempo deseja mais.

4. O fogo, que, depois de ter consumido uma abundância de combustível, ainda devora todo o material inflamável que lhe é lançado. Igualmente in­ saciáveis são os desejos corruptos dos pecadores, e têm similar insatisfação, até mesmo em relação à gratificação desses desejos.

II – O escritor acrescenta uma terrível ameaça aos filhos desobediente (v. 17), como advertência à primeira das quatro gerações ímpias, a que amaldiçoa seus pais (v. 11), e aqui mostra:

1. Quem são os que pertencem a essa geração, não somente os que amaldiçoam seus pais, com calor e paixão, mas:

(1) Os que zombam deles, ainda que seja apenas com um olhar zombeteiro, desprezando-os, por causa de suas debilidades físicas, ou com um olhar mal-humorado, irritando-se com eles, quando instruem ou ordenam, impacientes com suas repreensões e irados com eles. Deus observa como os filhos olham para seus pais, e eles terão que ajustar contas pelos olhares de soslaio e pelos olhos malignos, bem como pela má linguagem usada com os pais.

(2) Os que desprezam obedecer a eles, que pensam que está abaixo deles serem obedientes a seus pais, especialmente à mãe, desprezando ser controlados por ela; e assim aquela que os gerou com sofrimento, com maior sofrimento suporta os seus modos.

2. Qual será o seu destino. Os que desonram os seus pais serão monumentos da vingança de Deus; serão pen­ durados em correntes, por assim dizer, para que as aves de rapina arranquem seus olhos, os mesmos olhos com que olharam de maneira tão zombeteira para seus bons pais. Os cadáveres dos malfeitores não deveriam ficar suspensos durante toda a noite, pois antes do anoitecer os corvos arrancariam os seus olhos. Se os homens não punirem os filhos desobedientes, Deus o fará, e sobrecarregará com a maior infâmia os que se comportarem com arrogância para com seus pais. Os homens que chegaram a um final repleto de ignomínia reconheceram que os caminhos de iniquidade que os levaram até este ponto começaram com um desprezo pela autoridade de seus pais.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESPECTROS DA SEXUALIDADE I

Espectros da sexualidade I

Há alguns anos, pensar em gêneros nos conduzia à quase inevitável (e dificilmente questionável) conclusão de que a humanidade – assim como a absoluta maioria dos animais – é dividida entre machos e fêmeas. Hoje, porém, além das possibilidades variadas de questões comportamentais e das escolhas de objeto – pessoas do sexo biológico oposto no caso de heterossexuais, do mesmo sexo para homossexuais e de ambos os sexos, quando se trata de bissexuais – é preciso considerar as mudanças na sociedade como a legalização do casamento gay em diversos países, adoções homoparentais que determinam outras estruturas de parentesco e a cada vez mais comum manifestação de identidades como transexuais, intersexos, drag queens e drag kings. Essa multiplicidade requer enquadres teóricos bem mais flexíveis e menos preconceituosos por parte de educadores, psicólogos, psicanalistas, médicos e outros profissionais da saúde. Afinal, aparências nunca enganaram tanto e, cada vez mais, determinados estereótipos são apenas uma das formas de se colocar socialmente e lidar com o próprio corpo, com desejos, fantasias – e se relacionar consigo mesmo e com o outro. E embora as variadas maneiras de viver a sexualidade não sejam inéditas, a novidade está nos atravessamentos culturais, nas transformações sociais, jurídicas e, claro, psíquicas.

Espectros da sexualidade I. 2

A DANÇA DOS GÊNEROS

O que há de novo em matéria de sexualidade: A grande novidade é que a sociedade está incorporando as diversas identidades sexuais que decidiram sair de vez de dentro do armário. Homossexuais, bissexuais, travestis, transexuais já são nossos “velhos conhecidos”.

Mas a coisa muda quando aparecem diante de nós situações como a de gays ou lésbicas querendo  se casar (nos moldes heterossexuais), adotar filhos e constituir família. Ou quando uma transexual  é eleita prefeita de uma importante cidade da Inglaterra. Ou ainda quando, após uma cirurgia de redefinição de sexo, o homem que se transformou em mulher escolhe como objeto de amor  alguém do mesmo sexo –  ou seja, outra mulher Assim, além de transexual, essa pessoa fez uma  escolha de objeto homossexual. Esse, por sinal, foi o caso da prefeita de Cambridge, Jenny Bailey, de 45 anos, eleita em 2007 pelo Partido Liberal-Democrata. Ela tem como companheira Jennifer Liddle, mulher que anteriormente também havia sido homem.

Como lidar com todas essas mudanças? Que instrumentos temos para acompanhar as configurações da diversidade sexual? Podemos considerar que existem basicamente duas maneiras de encarar essas mudanças: de um lado , as leis e, de outro, as explicações, a compreensão e a aceitação daquilo que é novo. Entramos aí no campo da psicologia.

Mas vejam um pouco da área do direito, apenas, para ter uma noção de como a novidade abre  caminho na organização da sociedade. A legislação sobre casais gays teve início em 1989, quando a Dinamarca se tornou o primeiro país do mundo a aprovar a união civil entre homossexuais. Em seguida veio a Noruega, em 1993, e a Suécia, em 1994, aprovando uma lei que, além de permitir a união entre gays e entre lésbicas, dava aos casais homossexuais os mesmos direitos garantidos aos casais heterossexuais. Em 1995 foi a vez da Hungria e, em 1999, a da França. Em 2000, a Holanda, que já permitia a união civil, legalizou o casamento por casais do mesmo sexo e a adoção de crianças. Em 2002 foi a vez da Alemanha permitir a união civil e, no ano seguinte, a Bélgica, o Reino Unido e o Canadá tomaram a mesma iniciativa. Em 2003, pela primeira vez na América Latina, um casal gay registrou a união civil na Argentina. Atualmente, Espanha e México caminham no sentido de permitir a união civil entre homossexuais. Os Estados Unidos são um caso à parte, já que cada um dos estados tem autonomia em relação à legalização. Longe de ser um consenso sob diversos pontos de vista até legal, a inclusão da diversidade sexual na sociedade tem sido profundamente discutida. Ainda assim, há muito que caminhar em matéria de legalização, principalmente no que concerne à questão da  transexualidade. Na maioria dos países que concedem documentação à pessoas que se consideram transexuais é necessário realizar a cirurgia de redefinição de sexo para garantir seu reconhecimento (e sua existência legítima) como alguém do outro sexo. O ser que originalmente nasceu com o sexo anatômico masculino mas deseja ser mulher, veste-se como tal, implantou seios de silicone, raspou o pomo-de-adão, tomou hormônios femininos mas não quis  remover o órgão genital masculino não pode obter documentação de mulher.

SERES “ABJETOS”

No campo da psicologia a reflexão sobre essas questões parece avançar com mais cautela ainda. De maneira geral, os profissionais e os teóricos que lidam com a diversidade sexual oscilam entre o enquadramento destes indivíduos em termos de patologia, desvio e perversão e, de outro lado, a busca de novo aparato conceitual para compreender as mudanças sociais. A psicologia vem sendo  posta em xeque perante essas questões desde 1990, com a publicação do livro Problemas de gênero, da filósofa americana Judith Butler. Ela reformula o conceito de gênero para refletir sobre o que é o masculino e o que é o feminino e toma como paradigma justamente os seres considerados pela sociedade como “abjetos” transsexuais, hermafroditas (ou intersexos) e transgêneros de modo geral.

Lembremos, primeiramente, que, no sentido clássico, “gênero” é um termo que se refere à rede de crenças, traços de personalidade, atitudes, sentimentos, valores, condutas e atividades que diferenciam mulheres de homens. Freud já se ocupava desse assunto, na medida em que procurava explicar o desenvolvimento da feminilidade e da masculinidade.  A psicanálise freudiana podia ser interpretada como uma teoria sobre a aquisição do gênero masculino ou do feminino.

Na década de 60, o psiquiatra e psicanalista americano Robert Stoller criou o termo “identidade de gênero” para explicar o caso de algumas crianças. Stoller relatou três casos de meninos com idade entre 1 e 5 anos que foram diagnosticados como transexuais. Eles não apresentavam anomalia do ponto de vista anatômico, não havia alteração genética e o fenótipo estava de acordo com o sexo masculino; mas havia, segundo o autor, identificação com o feminino. Adotavam, por exemplo, roupas de mulher. Quando brincavam,  esses garotos agiam como se fossem meninas e assumiam apenas papéis femininos. Embora soubessem que biologicamente pertenciam ao sexo masculino, acreditavam-se meninas. Estava implícita na investigação e no tratamento que Stoller realizava, a expectativa de coerência entre sexo anatômico e gênero. Para ele, a não­ coerência é atribuída à patologia.

Espectros da sexualidade I. 3

DRAMA DE HERCULINE

Judith Butler aparece no cenário intelectual como alguém que questiona a patologização dos casos de transexuais e de transgêneros. A filósofa toma dois casos como referência para refletir sobre os gêneros. Primeiramente, considera o caso de Herculine Babin, um hermafrodita do século XIX que vive como menina num convento até que um dia, aos 20 anos, confessa a padres e, posteriormente, a médicos que seus desejos e práticas eróticas se dirigem às meninas. A partir desse momento é obrigado a assumir legalmente o sexo masculino, a vestir-se como homem e a se afastar das meninas com quem vivia, inclusive sua amante. Na sequência desses acontecimentos, ele se suicida. Butler afirma que Herculine sofre com a injunção de ter de pertencer a um dos dois sexos e deposita em seu corpo a causa do sofrimento. Um corpo anômalo, razão de seus desejos e aflições, que provoca confusões de gênero e estimula prazeres transgressivos. Mas Butler discorda de Herculine. A causa do sofrimento não estaria no corpo. A ênfase de Butler é na cobrança médica, religiosa, jurídica e social de um gênero inteligível, que guarde coerência entre anatomia, identidade de gênero, desejo e prática sexual. Herculine não poderia ser mulher ou homem “por inteiro”, como idealizavam seus interlocutores da época. Então, não lhe restava o que ser, pois lhe permitiam existir somente como desviante ou doente Que imperativo é este que nos obriga a ser homens ou mulheres, sob o risco de sermos excluídos do campo daquilo que é considerado humano. Essa e a questão fundamental de Butler.

O segundo caso é de David Reimer, considerado menino ao nascer com cromossomos XY, em 1966. Aos 8 meses fez uma cirurgia de fimose e, por erro médico, teve grande parte de seu pênis queimado. Reimer foi levado a John Money, um dos pioneiros dos estudos de gênero, que era favorável à realização de cirurgias de transexuais e intersexos. Sua ideia era de que, se uma criança sofresse uma cirurgia e iniciasse um processo de socialização num gênero diferente daquele assinalado por ocasião de seu nascimento, se desenvolveria normalmente, adaptando-se perfeitamente ao outro gênero, e seria feliz. Foi assim que David Reimer se transformou em Brenda. Teve os testículos removidos, sofreu uma pequena cirurgia preparatória para criar uma vagina num momento posterior, quando estivesse maior, e foi criado como menina. Brenda  frequentou o instituto de identidade de gênero de Money com alguma periodicidade, para que sua adaptação ao sexo feminino fosse monitorada e incentivada. Mas, aos 8 anos, desejava um revólver de brinquedo e caminhões. Além disso, gostava de urinar em pé. Em resumo: começou a se dar conta de que não era uma menina. Deu-se início então a uma “negociação” de seu gênero. A equipe de Money lhe ofereceu estrógeno e uma vagina e ainda lhe garantiu que ela poderia ter filhos. Brenda recusou todas as ofertas. Para a equipe médica que a examinou, em outro hospital, houve “erro de reassinalamento de sexo”. Dessa vez, Brenda aceitou uma proposta de mudança. Aos 14 anos, passou a viver como menino. Retirou os seios e tornou hormônios masculino. Aos 15 anos, implantou um pênis, o que lhe proporcionava um pouco de prazer. Não ejaculava, mas urinava em pé.

Butler traz, em associação a esses casos a situação dos seres ditos “intersexos”, nascidos com  genitais mistos ou incompletos . Os casos de intersexo normalmente requerem cirurgia, de modo a  refazer o corpo de acordo com a imagem social pertencente a determinado gênero. Discute-se aqui o direito de não fazer cirurgia de transformação ou intervenção sobre o aparelho genital externo. Os partidários da intervenção pressupõem que gênero “nasceu” de uma anatomia inteligível. Para  eles, a forma como essa anatomia aparece para o próprio sujeito e para os que o olham seria a base de sua identidade social como homem ou como mulher. No entanto, diz Butler, as mutilações e as cicatrizes que restam dessa intervenção dificilmente oferecem evidências daquilo que a cirurgia pretendeu realizar.

Ao contar a história de David, ou mesmo ao comentar o caso de Herculine Babin, Butler se propõe compreender a estrutura que define, classifica, normatiza, formula etiologias e nosologias – e tem poder de decisão. É nessa estrutura que David e Herculine desenvolvem discursos acerca de si próprios, buscando referências em um quadro de inteligibilidade pelo qual sua humanidade é questionada ou afirmada. Ambos sofreram com a necessidade de ter de ser de um sexo definido. David era sistematicamente interrogado pelos médicos sobre seu “ser”, numa tentativa de, por meio do discurso, estabelecer a verdade de seu gênero e, no caso particular dele, também de seu sexo. Buscava-se compreender David dentro de um quadro de inteligibilidade. É em relação a esse aspecto que Butler aponta para a violência da imposição das normas que habitam a linguagem.

REPETIÇÃO DE ATOS

A partir de uma reflexão sobre os seres considerados “abjetos” pela sociedade como devemos então compreender o masculino, o feminino e a própria ideia de gênero. De acordo com Butler, o gênero deve ser considerado como um ato performativo. Para a filósofa, o gênero é um ato, uma ação pública, encena significações já estabelecidas socialmente e desse modo funda e consolida o  sujeito. São palavras ou gestos que, ao serem expressos, criam uma realidade. Produzem uma ilusão de que existem seres homens e seres mulheres. Mas trata-se de uma ilusão porque, para Butler – na esteira do filósofo Nietzsche – não há um “ser”, não há um “fazedor”, não há um “agente” por trás do ato. Performamos variados atos cotidianamente e, ao repeti-lo-, ajudamos a manter a divisão binária dos gêneros. Fazemos coisas que são ditas “coisas de mulher” ou “coisas de homem”.

Uma das consequências de o gênero ser performativamente estabelecido é o fato de que homens e mulheres heterossexuais seriam tão construídos quanto as categorias ditas “cópias” como butch femme, drag queens e drag king. Não haveria gêneros originais. A aparente cópia já não se sustentava com referência numa origem. A origem perde o sentido porque “homens e mulheres de verdade” têm de assumir o gênero da mesma forma: por intermédio da repetição de atos, todos os dias.

REPRODUÇÃO EM XEQUE

Aquilo que acreditamos ser “homens e mulheres de verdade” encontra uma explicação na repetição e sedimentação de normas de gênero que, ao longo do tempo, terminaram por criar a ilusão de uma substância “mulher” e de uma substância “homem”, numa aparente a-historicidade.  Roupas, gestos, olhares e falas definiram um conjunto de estilos corporais que aparecem como formação natural dos corpos. E, por imposição das normas de gênero, se dividem em dois sexos relacionados, um ao outro. Mas, se são apenas normas e imposições, de onde vem a suposição de um binarismo de gênero? Da existência de dois órgãos genitais distintos. Butler recusa a ideia de que o corpo expressa uma verdade fundamental sobre a sexualidade. A sexualidade tem tanto a ver com nossas crenças, ideologias e imaginações quanto com o nosso corpo físico. Os corpos não têm nenhum sentido intrínseco. O  “corpo-homem” e  o “corpo-mulher” (lembrando ainda que há casos de intersexo) nada revelariam de verdade absoluta. A não ser que levemos em conta  meramente a questão da reprodução, que necessita de um corpo-macho e de um corpo-fêmea  para acontecer, não existe  nenhuma exigência de limitar o número de gênero a dois, na opinião de Butler. E a própria reprodução, tal como a conhecemos, talvez em breve seja posta à prova com os avanços tecnológicos.

As ideias de Butler trazem instrumentos para compreendermos a sociedade de hoje com outros olhos. Os gêneros já nossos conhecidos e aqueles que chamamos de transgêneros ou, ainda, aqueles que são menos compreensíveis porque não possuem uma coerência esperada entre  sexo anatômico, identidade de gênero, desejo e prática sexual, todos se encontrariam no mesmo  patamar, graças à noção de gênero como ato performativo. Desfaz-se, assim, a classificação dessas identidades segundo graus de normalidade e de patologia.

Se o “masculino” e o “feminino” não são substâncias originais nem essências universais e se os atributos de gênero são regulados por diretrizes culturais que estabelecem uma suposta coerência entre eles. Butler desloca o transexualismo, por exemplo, visto pelo psiquiatra Robert Stoller como doença, para a transexualidade ou seja, uma identidade de gênero como outra qualquer, com uma possibilidade legítima de existência.

OUTROS OLHARES

PAIXÃO POR AÇÚCAR ESTÁ NOS GENES

Paixão por aç[ucar está nos genes

Uma alteração genética pode explicar por que tantas pessoas não resistem aos encantos dos sabores doces. Pesquisadores canadenses identificaram uma variação do gene GLUT2, que controla a entrada de glicose nas células. Sua presença é muito mais frequente em indivíduos para quem um suco sem umas boas colheradas de açúcar, por exemplo, é inconcebível. Publicado na revista Physiological Genomics, o estudo avaliou o padrão de alimentação e a presença da variante do GLUT2 em duas populações: uma formada por pessoas obesas e outra só com indivíduos com peso saudável segundo o índice de massa corpórea. O gene alterado apareceu com muito mais frequência no primeiro grupo, sobretudo naqueles voluntários que consumiam mais sacarose (açúcar de mesa) e carboidratos (fonte de glicose). Não houve diferenças entre os sexos.

Os autores explicam que essa variação do gene faz com que o açúcar seja transportado mais rapidamente para a célula, o que significa um período menor de saciedade e maior necessidade de nova ingestão do nutriente.

GESTÃO E CARREIRA

ONBOARDING É ESSENCIAL PARA DESENVOLVIMENTO E RETENÇÃO

Onboarding é essencial para desenvolvimento e retenção

O grande desafio de todo líder de equipe é encontrar o candidato ideal em um processo seletivo e engajar ele a partir do momento que se torna um colaborador. O trâmite de interação desse novo membro com a empresa é conhecido como onboarding, e o objetivo é capacitar esse profissional diante de diversas capacidades, como atitudes, conhecimentos, habilidades e comportamentos necessários para uma trajetória eficaz dentro da organização.

O onboarding tem níveis distintos: a conformidade – que inclui o ensinamento básico de processos, normas legais, políticas e regulamentos; a clarificação – que tem o objetivo de assegurar que funcionários entenderam seus novos empregos e verificar se as expectativas estão alinhadas; a cultura – que inclui oferecer a todos um senso de normas organizacionais tanto formais, como informais; a conexão – que refere-se às relações interpessoais e redes de informação que os colaboradores devem estabelecer; e a gestão comportamental – que é exatamente sobre o que quero falar nesse artigo.

Somar os processos de onboarding com a gestão comportamental nos permite personalizar, em um nível muito positivo, as ferramentas necessárias para cada um. Por exemplo, se a pessoa que for entrar no seu time tem mais dificuldade com a parte social, você pode colocá-la com um colaborador mais aberto e bem relacionado. Isso com certeza vai ajudar na transição e mudança.

Além disso, com a análise comportamental você pode medir a produtividade desse funcionário e listar quais são suas motivações, medos e até como ele pode lidar com os desafios pré-estabelecidos sob cada tarefa que deverá ser executada por ele.

Um onboarding bem-sucedido é a parte-chave de toda estratégia de gestão de pessoas. Com o alto custo do recrutamento, os líderes empresariais devem entender que a integração de novas contratações na organização é um passo importante para seu sucesso.

Por fim, vale destacar que os gestores de RH devem implementar o processo de onboarding – constantemente – nas organizações como uma prioridade e aliar isso com as práticas de análise de perfil e gestão comportamental tornam essas estratégias ainda mais eficazes dentro de qualquer empresa.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 30: 10-14

Alimento diário

QUATRO GERAÇÕES ÍMPIAS

 

V. 10 a 14 – Aqui, temos:

I – Uma advertência para que não ofendamos os servos dos outros, não mais do que aos nossos, nem façamos intrigas entre eles e seus senhores, pois é maldade, é inveja, e algo que torna um homem odioso (v.10). Considere:

1. É uma ofensa ao servo, cuja pobre condição faz dele um objeto de piedade, e por isto é bárbaro aumentar a aflição daquele que já está aflito: Não firas o servo com tua língua (é o que diz a margem); pois é uma sórdida disposição ferir alguém secretamente com o açoite da língua, especialmente se for um servo, que não é páreo para nós, e a quem deveríamos, na verdade, proteger, se o seu senhor for severo com ele, e não exasperá-lo ainda mais.

2. Isto talvez seja uma ofensa para ti mesmo. Se um servo for assim provocado, talvez te amaldiçoe, te acuse e te traga dificuldades, ou te atribua uma má reputação e manche a tua reputação, ou apele a Deus contra ti, e invoque a sua ira contra ti, pois Ele é o patrono e protetor da inocência oprimida.

 

II- Uma apresentação, por ocasião desse aviso, de algumas gerações de homens ímpios que são, com razão, abomináveis a todos os que são virtuosos e bons.

1. Eles maltratam os seus pais, os insultam e lhes desejam o mal, e realmente os ofendem e prejudicam. Há uma geração de pessoas assim; jovens desse caráter normalmente andam juntos, e se irritam, uns aos outros, contra seus pais. Uma geração de víboras é a dos que amaldiçoam seus pais naturais, ou seus magistrados, ou seus ministros, porque não suportam o jugo; e são seus parentes os que, embora não tenham chegado àquele nível de iniquidade de amaldiçoar seus pais, ainda assim não os bendizem, não lhes podem destinar uma boa palavra e não orarão por eles.

2. Estes são convencidos, e se têm em alto conceito, e, sob uma exibição e pretexto de santidade, se escondem dos outros, e talvez também de si mesmos, com abundância de iniquidade reinando em segredo (v.12); eles são puros aos seus próprios olhos, como se fossem, em todos os aspectos, como deveriam ser. Eles têm uma excelente opinião de si mesmos e de seu próprio caráter, e pensam que não somente são justos, mas ricos e abundantes em bens (Apocalipse 3.17), e, no entanto, não são purificados de sua imundícia, a sujeira de seus corações, que pensam ser a melhor parte deles. Pode ser que sejam penteados e adornados, mas não são lavados, não são santificados; como os fariseus, que interiormente estavam cheios de todos os tipos de impureza (Mateus 23.25,26).

3. Eles são arrogantes e escarnecedores dos que estão ao seu redor (v.13). Ele fala deles com assombro, diante de sua intolerável soberba e insolência: “Oh, como são altivos os seus olhos! Com que desdém olham para seu próximo, como se não fosse digno de estar com os cães do seu rebanho! Que distância esperam que todos mantenham deles; e, quando consideram a si mesmos, como se empertigam e se gabam, como o pavão, julgando-se ilustres quando, na verdade, se tornam ridículos!” Há uma geração de pessoas assim, sobre as quais aquele que resiste aos soberbos derramará desprezo.

4. São cruéis com os pobres e bárbaros com todos os que estão à sua mercê (v. 14): seus dentes são como ferro e aço, espadas e facas, instrumentos de crueldade, com que devoram os pobres com o maior prazer imaginável, e com tanta avareza como homens famintos cortam seu ali­ mento e o comem. Deus ordenou as coisas de tal maneira que sempre tivéssemos pobres conosco, que eles jamais desaparecessem da terra; mas há aqueles que, porque odeiam socorrê-los, desejariam, se pudessem, aboli-los da terra, de entre os homens, particularmente os pobres de Deus. Alguns entendem uma referência aos que ferem e arruínam os outros com calúnias e falsas acusações, e severas censuras à sua condição eterna ; suas línguas, e também seus dentes (que são órgãos da fala) são como lanças e flechas (Salmos 57.4).

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OBSESSÕES E COMPULSÕES III

Obsessões e compulsões III

INFÂNCIA ATORMENTADA

Até a década de 80, os relatos de casos de TOC na infância e na adolescência eram poucos. Apesar das dificuldades de diagnóstico nessa faixa etária, estima-se hoje que aproximadamente um terço dos pacientes que apresentam sintomas obsessivo-compulsivos sejam crianças e adolescentes. Foi apenas em 1989 que o Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH), nos Estados Unidos, publicou o  primeiro estudo populacional sobre crianças e adolescentes com TOC, utilizando critérios padronizados para diagnóstico. Foram entrevistados todos os 5.596 estudantes de primeiro grau das oito escolas de uma cidade próxima de Nova York, e foi constatado que 20 deles apresentaram diagnóstico de TOC. Provavelmente esses dados foram subestimados, pois os pacientes com quadros mais graves poderiam não estar na escola – e 557 estudantes não preencheram todos os dados. Outro estudo americano detectou taxas ainda mais altas de prevalência, com 3% para TOC   e 19 % para sintomas obsessivo-compulsivos. Em Israel, os pesquisadores encontraram entre os  adolescentes uma prevalência de 3,5% para TOC. No Brasil, porém, não existem dados oficiais.

Uma das dificuldades para diagnosticar o problema é que nem sempre crianças reconhecem que seus sintomas são excessivos, ou sem sentido. E muitas vezes os escondem por vergonha ou medo, mais que entre os adultos.

Em geral, os sintomas são percebidos de forma indireta. Geralmente, as crianças são caladas, tímidas, perfeccionistas, com tendência a se isolar, evitando contato com outras pessoas. São comuns alterações de comportamento, como aumento do tempo gasto no banheiro, tanto em banhos prolongados quanto em lavagens repetidas das mãos; o desempenho escolar pode piorar, geralmente pelo tempo gasto em checar ou refazer as lições e, em algumas crianças, pela dificuldade em manter a concentração; os rituais para dormir ou comer passam a consumir tempo excessivo e a apresentar detalhes minuciosos e excêntricos. Um paciente de 8 anos não conseguia comer com talheres, pois não podia encostá-los nos lábios; outro de 13 anos só conseguia sair de casa após tocar 100 vezes em todos os móveis da sala de sua casa. Em crianças com TOC, quanto menor a idade, maior a prevalência de meninos. Já em pacientes mais velhos, essa diferença diminui, chegando a uma ocorrência igual ou até discretamente superior em mulheres adultas. Pesquisas têm demonstrado que, quanto mais precoce é o início dos pensamentos obsessivos e comportamentos compulsivos, maior a possibilidade de encontrarmos pessoas da família que também apresentem tais sintomas ou que tenham tiques.

Em relação ao quadro clínico, pensamentos obsessivos, só relatados após insistentes questionamentos, podem ser menos encontrados em crianças do que em adultos. Talvez por essa razão, pacientes predominantemente compulsivos sejam encontrados mais facilmente na infância  Assim, é comum na infância que as compulsões sejam realizadas apenas para aliviar sensações de mal-estar, ansiedade, incompletude ou imperfeição, sem relato de medo específico relacionado a elas.

O quadro de TOC comumente inicia-se com apenas uma obsessão e/ou compulsão, havendo,  posteriormente, sobreposição de sintomas. O início pode ser agudo ou gradual e os sintomas tendem a modificar-se bastante durante o curso do TOC, que geralmente é crônico e flutuante, sem um padrão determinado de evolução.

Como produtos mentais, as obsessões podem ser criadas a partir de qualquer substrato psíquico, tais como palavras, pensamentos, medos, preocupações, memórias, imagens, músicas ou cenas. Em relação ao conteúdo, também não existe limite para a variedade possível de obsessões e das com pulsões.

Outra dificuldade para o diagnóstico do TOC na infância é a semelhança entre os sintomas e comportamentos repetitivos característicos de determinadas fases do desenvolvimento.

Muitas vezes, o limite entre o que é parte esperada do desenvolvimento e patologia se confundem O maior desafio para os profissionais e para a família é reconhecer quando ações repetitivas, se tornam preocupantes e a criança precisa realmente de ajuda. Os comportamentos ritualísticos não excessivos auxiliam na socialização e no controle da ansiedade em fases de transição e são, habitualmente, fontes de prazer. Além disso, não interferem no desempenho saudável e não têm a frequência ou a intensidade dos sintomas. Para o diagnóstico do TOC é extremamente importante levar em consideração a frequência, a intensidade e as características dos comportamentos repetitivos. Os sintomas costumam ocupar ao menos uma hora por dia e causar interferências nos relacionamentos e na rotina.

Os rituais podem iniciar-se precocemente e persistir até a idade adulta. Aos 2 anos as crianças começam a apresentar intensificação de comportamentos compulsivos. Os ritos mais comuns na fase pré-escolar acontecem principalmente nos horários de dormir, comer e tomar banho, e os pais se veem obrigados a realizaras atividades de acordo com uma sequência fixa. É esperado que nessa etapa do desenvolvimento a criança peça para ouvir as mesmas histórias repetidamente; assista aos filmes várias vezes; queira que durante as refeições os alimentos estejam dispostos no prato da maneira que julgam adequada; ou insistam para tomar banho com seus brinquedos. Após os 4 anos, a quantidade de rituais tende a diminuir. A partir dos 6 anos os rituais se manifestam mais em brincadeiras grupais. Durante a fase escolar, os jogos passam a ter regras rígidas, muitas vezes tomando mais tempo para serem determinados do que a própria brincadeira. Nessa fase, desenvolvem-se os hobbies e iniciam-se as coleções dos mais variados objetos. Chaveiros, papéis de carta, revistas, álbuns de figurinhas, bonés e caixas de fósforos, entre outros, passam a ter extrema importância.

Na adolescência, os rituais passam a ser um fenômeno grupal. Comportamentos predeterminados são exigidos para que se possa pertencer a uma “turma”, que tem roupas, locais e atividades que seguem padrões repetitivos. Pensamentos intrusivos, sobre um ídolo ou um hobby, são frequentes nessa fase.

Na idade adulta, pode ocorrer acentuação das características compulsivas durante os períodos pré, peri e pós-natais. Segundo alguns autores, ao final da gestação e durante as primeiras semanas após o nascimento do bebê, os pais, em especial a mãe, passam por um período de alteração do estado mental, com exacerbação de algumas características obsessivo-compulsivas. Pensamentos sobre o bem-estar do bebê ocupam muito do tempo da mãe e dificultam sua concentração em qualquer outra atividade que não seja a maternagem. Preocupações excessivas com a saúde, a aparência e com a possibilidade de algo ruim acontecer ao filho levam a verificações repetidas. Apesar de saber que o bebê está bem, essas mães checam várias vezes se ele está respirando, se continua no berço ou se a fralda não está molhada.

 

DEDOS CRUZADOS

Outros exemplos de comportamentos ritualísticos normais são as superstições. Comuns em várias culturas, estão geralmente divididas entre comporta­ mentos que podem trazer má sorte ou proteção contra acontecimentos ruins. Encontradas em todas as faixas etárias, parece haver uma  mudança qualitativa com a idade. Em crianças, os temas dos comportamentos supersticiosos são repletos de fantasia, característica do pensamento pré-lógico ou mágico (dos 2 aos 6 anos) e do pensamento lógico ou concreto (dos 7 aos 11). Por exemplo: não deixar as portas dos armários abertas para que nada de ruim aconteça, ou cruzar os dedos para não serem punidas quando mentem. Apesar das semelhanças com as superstições dos adultos, são poucos os estudos que abordam diretamente essa questão e não existe evidência de continuidade entre comportamentos ritualizados ou supersticiosos e TOC.

O objetivo principal do tratamento é sempre ajudar a criança ou o adolescente a ter um desenvolvimento sem prejuízos psíquicos. É preciso, porém, ter em mente que o TOC é um transtorno crônico, o que fará com que o paciente precise de tratamento por um longo período. O primeiro passo para tratar o TOC é a realização de uma avaliação abrangente do paciente e de sua família. Após a determinação dos sintomas , estabelece-se o programa de acompanhamento, que pode ser realizado por meio de orientação e apoio, psicoterapia e medicamentos.

Apesar de a maioria das pesquisas ter sido realizada com pacientes adultos, já existem dados comprovando que as mesmas medicações utilizadas em pacientes adultos, ou seja, os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS), são eficazes para crianças e adolescentes. É importante iniciar o tratamento com doses baixas e realizar aumentos gradativos de drogas como a clomipramina, sertralina, paroxetina e auoxetina.

Pacientes com TOC associado a tiques parecem beneficiar-se da associação de doses baixas de neurolépticos (tais como a risperidona e o pimozide) com os ISRS. As psicoterapias cognitivo-comportamentais também têm apresentado bons resultados no controle dos sintomas.

Uma parte importante do tratamento se refere à orientação do paciente e da família sobre os sintomas e qual a melhor forma de lidar com eles. No Brasil, foi criada em 1996 a Associação de Portadores de Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo-Compulsivo (Astoc) Desde então, a entidade vem desenvolvendo um trabalho pioneiro no sentido de dar apoio familiar a pacientes, estimular a pesquisa, promover encontros e principalmente divulgar informações atualizadas sobre esses transtornos.

OUTROS OLHARES

GÊMEOS ENTRE O CÉU E A TERRA

A NASA fez uma experiência com dois irmãos idênticos: um foi para o espaço, o outro ficou na Terra. Depois de quase um ano, observaram-se diferenças surpreendentes entre eles.

Gêmeos entre o céu e a terra

“A imaginação é mais importante que o conhecimento. Pois o conhecimento é limitado, enquanto a imaginação abraça o mundo.” A máxima do físico alemão Albert Einstein (1879-1955) pode ser aplicada, sem esforço, para descrevera própria genialidade. Afinal, suas teorias eram de tal modo criativas, inusitadas, desconcertantes que, na impossibilidade de então comprová-las na prática, ele recorria a alegorias para torná-las compreensíveis – os famosos Gedankenexperiment. Tome-se o caso da Teoria da Relatividade, que, entre outras conclusões, trouxe a ideia de que tempo e espaço fazem parte da mesma equação, são flexíveis e também – com o perdão da redundância – relativos. Uma das formas utilizadas por Einstein para ilustrar o conceito foi o Paradoxo dos Gêmeos. Nele, imaginam­se gêmeos idênticos na seguinte situação: um é enviado ao cosmo, viajando próximo da velocidade da luz, enquanto o outro fica na Terra. O que aconteceria a ambos? Pela distorção do espaço­ tempo, o gêmeo cosmonauta envelheceria bem menos. Pois bem: no último dia 11, a Nasa divulgou, na revista científica americana Science, um estudo que lembra o Paradoxo dos Gêmeos.

Os personagens, agora reais, do experimento foram os americanos Mark e Scott Kelly, gêmeos idênticos nascidos em 21 de fevereiro de 1964, cinco anos antes de Neil Armstrong tornar-se o primeiro homem a pisar na Lua. Os irmãos cresceram no Estado de Nova Jérsey, ambos com o sonho de aventurar-se no espaço – como Armstrong. Formaram-se em engenharia, ingressaram na Aeronáutica e, após missões militares, candidataram-se ao trabalho na Nasa, sendo aprovados no mesmo ano, 1996, para a carreira de astronauta. Mark, porém, aposentou-se precocemente, em 2011, devido a uma tragédia: sua mulher, a deputada democrata Gabrielle Giffords, foi alvo de um atentado sórdido, e ele largou tudo para se dedicar ao seu restabelecimento. Scott, entretanto, continuou na profissão. Os caminhos diferentes seguidos por eles a partir daí deram abertura para uma experiência inédita, realizada entre 2015 e 2016: enviar ao cosmo um gêmeo (Scott) enquanto seu irmão (Mark) ficava por aqui, na Terra. Assim, Scott foi para a Estação Espacial Internacional e permaneceu lá durante 340 dias (um recorde para um astronauta da Nasa) enquanto Mark continuou sua vida normal no planeta. Cientistas de doze universidades americanas debruçaram-se sobre os resultados do estudo Em comparação com o corpo de Mark, o de Scott experimentou um grande número de mudanças em razão de sua permanência no espaço. Seu sistema imunológico produziu novos mecanismos de defesa e ele ganhou 5 centímetros de altura. No entanto, seu desempenho físico decaiu – mesmo com a exigência de duas horas de exercícios diários na estação espacial, enquanto Mark não seguia uma rotina similar e tinha uma dieta irregular. Em decorrência da falta de gravidade na estação espacial, Scott teve o organismo fragilizado: partes do globo ocular inflamaram-se, os ossos se tornaram 10% mais finos e músculos se atrofiaram. Já seu cérebro demonstrou boa performance: Scott levou vantagem em testes de atenção em relação a Mark.

Na pesquisa, detectaram-se ainda alterações nos genes. Uma delas, de teor surpreendente: houve um prolongamento dos telômeros, partes do DNA que protegem o organismo do envelhecimento. No espaço, esses trechos se alongaram, o que retardou a deterioração do corpo. Diferentemente do que prevê o Paradoxo dos Gêmeos na hipótese criada por Einstein, isso não ocorreu por causa de alguma distorção no espaço-tempo – Scott, claro, não viajou à velocidade da luz -, e sim por prováveis efeitos da radiação dos raios cósmicos. “Mesmo depois de estar aqui por quase um ano, não me sinto normal”, declarou Scott em 2017, após seu retorno ao solo terrestre. O corpo do astronauta começou a se adaptar ao planeta cerca de um mês depois do regresso – lentamente. Durante algum tempo, Scott relatou, por exemplo, que sentia as “pernas bambas, as juntas doendo e a pele queimando”. “O fato de que Scott e Mark são gêmeos idênticos realmente eliminou alternativas do motivo de terem surgido diferenças entre os organismos deles no período da experiência”, afirma a bióloga Susan Bailey, da Universidade do Colorado, que participou do estudo. ”Podemos dizer que as alterações em Scott se deram em razão do voo espacial, “completa ela.

Desde o início da exploração espacial o próprio cosmo serve de principal laboratório para a preparação das missões. Em 1967, os soviéticos puseram em órbita a primeira nave Soyuz tripulada, na tentativa de descobrir se seria possível realizar o que hoje é um feito corriqueiro: acoplar a nave a outro módulo em pleno espaço. O experimento culminou em tragédia: ao entrar na atmosfera, o paraquedas da nave não se abriu e ela se chocou contra o solo, matando o cosmonauta Vladimir Komarov. Contudo, somente porque houve tentativas como essa – e outras, bem-sucedidas – é que hoje se tem o conhecimento necessário para realizar missões regulares em direção à estação espacial.

Um dos principais objetivos da pesquisa com os gêmeos foi fornecer informações que possam ajudar outros astronautas. Para combater, por exemplo, a deterioração de ossos e músculos, podem ser desenvolvidos exercícios físicos e até mesmo medicamentos capazes de reduzir tais efeitos provocados por uma eventual longa estada fora de órbita. Já as transformações genéticas e do sistema imunológico podem vir a orientar quais tipos de vacina devem ser tomados antes do embarque para uma jornada nas estrelas.

Para além dessa proposta de buscar mitigar efeitos físicos da permanência no cosmo, será     preciso atentar ainda para as consequências psíquicas decorrentes de viagens dessa natureza. No fim do primeiro dia de exploração da Lua, o astronauta americano James Irwin (1930 – 1991), por exemplo, integrante da Apollo 15, avisou no rádio de comunicações que estaria tendo visões epifânicas enquanto caminhava no satélite (ele foi o oitavo homem a realizar tal proeza). Ao retornar à Terra, em 1971, Irwin pôs de lado a ciência e se dedicou a fundar uma seita, que tentou encontrar destroços da Arca de Noé. Preparar os astronautas, física e psiquicamente, para longas estadas sem gravidade será fundamental para o êxito de um dos mais ambiciosos projetos humanos: enviar uma primeira missão tripulada a Marte, algo que a Nasa planeja fazer até os anos 2030.

Gêmeos entre o céu e a terra. 2 

SEM O PESO DO MUNDO

Enquanto Mark Kelly permaneceu na Terra, seu irmão Scott passou 340 dias na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). Leia as principais consequências da vivência em órbita.

Gêmeos entre o céu e a terra. 3

GESTÃO E CARREIRA

UBER CHAMANDO

Empresa que reinventou o conceito de mobilidade fará seu IPO no próximo mês e deve valer (muito) mais que a Ford.

Uber chamando

Há um poderoso dilema pairando sobre o IPO da Uber, que acontecerá no próximo mês. Comprar uma ação significa apostar suas economias em uma empresa que faz receitas de US$ 21,5 mil a cada 60 segundos. Ao mesmo tempo, representa a aposta numa companhia que perdeu o equivalente a US$ 3,4 mil por minuto ao longo de 2018. A startup americana que mudou a definição a respeito de mobilidade no mundo fará a abertura de capital e a projeção é de que levante US$ 10 bilhões, o que será um dos 15 maiores IPOs da história — Alibaba, que fez US$ 21,8 bilhões em 2014, lidera o ranking.

De acordo com a história oficial da Uber, seus dois fundadores , Garrett Camp e Travis Kalanick, não conseguiam um táxi numa manhã de neve em dezembro de 2008, em Paris. Ali decidiram pensar um aplicativo, o UberCab, que seria lançado em São Francisco, EUA, quatro meses depois. De início, era para chamar carros de luxo. A primeira corrida foi feita em julho de 2009. Em dezembro de 2011, ao internacionalizar a operação e estrear em Paris, mudou o modo como pensamos a mobilidade.

O IPO da Uber contém esse componente inescapável. Uma empresa disruptiva de um lado, mas deficitária do outro. Espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde da tecnologia. Seu faturamento anual foi de US$ 11,3 bilhões em 2018, 43% acima do ano anterior. Suas despesas, porém, somaram US$ 14,3 bilhões, 19% mais que em 2017. O prejuízo no ano passado bateu US$ 1,8 bilhão (a conta exclui outras despesas com aquisições e/ou vendas de ativos), bem abaixo dos US$ 4 bilhões de 2017. Receita ascendente com despesas e prejuízos descendentes são bom sinal. Mas não no curto prazo. Em carta a investidores, o CEO, Dana Khosrowshahi, não esconde isso. “Não vamos deixar de fazer sacrifícios financeiros de curto prazo quando vemos benefícios claros a longo prazo.”

O paradoxismo também se dá em terreno que envergonha a empresa. Por um lado, ela se tornou uma máquina de empregabilidade a pessoas de diferentes formações. Por outro, vive às voltas com casos de agressão sexual por parte de motoristas, relatos de assédio internamente, práticas de espionagem da concorrência e outros penduricalhos que culminaram, em 2017, com a saída de Kalanick do cargo de CEO.

Para adensar o cenário, a concorrência aumentou. Tanto a local (Lyft) quanto a global (Didi, que no Brasil opera como 99). Esta, aliás, é a maior no segmento, com 550 milhões de usuários e 30 milhões de corridas diárias — a Uber tem 75 milhões de usuários (22 milhões no Brasil, seu segundo maior mercado) e faz 15 milhões de corridas por dia. Concorrentes de peso exigem recursos contínuos. Além disso, os serviços são cada vez mais diversificados. Scooters, aluguel de bikes, carros autônomos, delivery de comida, tudo entra no radar. O que pede mais dinheiro.

Então, por que o IPO da Uber deve se tornar um dos maiores da história? Porque, entre outros motivos, estima-se que seu valor de mercado atinja US$ 100 bilhões. A Ford Motor Company vale um terço disso (US$ 37,1 bilhões), o que não deixa de ser irônico. Fundada em 1903, ela revolucionou a mobilidade ao introduzir, para a produção da série Ford T, a linha de montagem. Aí aparece uma startup 106 anos mais nova, que nem dá dinheiro, e é percebida como três vezes mais valiosa.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 30: 1-6

Alimento diário

AS PALAVRAS DE AGUR

 

V. 1 a 6 – Alguns afirmam que Agur não é o nome deste autor, mas a sua descrição; ele era um coletor (este é o significado da palavra), alguém que juntava, que não compunha pessoalmente as coisas, mas coletava os dizeres sábios e as observações de outras pessoas, resumia os textos de outras pessoas, e alguns pensam que esta é a razão pela qual ele diz (v. 3 ): “Eu mesmo não aprendi a sabedoria, mas tenho sido um escriba, ou amanuense, de outros homens, sábios e instruídos”. Observe que não devemos enterrar o nosso talento, ainda que possa ser apenas um, mas, da mesma maneira como recebemos a dádiva, devemos usá-la, mesmo que seja apenas para coletar o que outros escreveram. Mas nós preferimos pensar que Agur é o nome do autor, que, sem dúvida, era bastante conhecido na época, ainda que não seja mencionado em nenhuma outra passagem das Escrituras. Itiel e Ucal são mencionados, seja:

1. Como os nomes de seus alunos, a quem ele instruía, ou que o consultavam como um oráculo, tendo uma opinião excelente de sua sabedoria e bondade. Provavelmente eles escreviam o que ele ditava, como Baruque escrevia o que Jeremias ditava, e por intermédio deles o texto foi preservado, uma vez que eles estavam prontos a atestar que o texto era dele, pois foi dito a eles; eles foram duas testemunhas. Ou:

2. Como o assunto do seu discurso. Itiel significa Deus comigo, a aplicação de Emanuel, Deus conosco. A palavra o denomina Deus conosco; a fé apropria isto, e o chama “Deus comigo, que me amou e se entregou por mim, e a cuja união e comunhão eu sou aceito”. Ucal significa o Poderoso, pois é de alguém que é poderoso que a ajuda nos é estendida. Muitos bons intérpretes, portanto, aplicam isto ao Messias, pois todas as profecias dão testemunho sobre Ele, e por que não esta também? É o que Agur disse a respeito de Ucal, e também a respeito de Itiel (este é o nome em que está a ênfase) conosco (Isaias 7.14). Três coisas o profeta tem em mente aqui:

 

I – Humilhar-se. Antes de fazer a confissão da sua fé, ele faz a confissão da sua tolice e da sua razão fraca e deficiente, deixando-nos evidente que é necessário que sejamos guiados e governados pela fé. Antes de falar sobre o Salvador, ele fala sobre si mesmo, como alguém que precisa do Salvador, e não sendo nada sem Ele; nós devemos deixar de lado o nosso “eu” antes de nos aprofundarmos em nosso relacionamento com o precioso e bendito Senhor Jesus Cristo.

1. Ele fala de si mesmo como não tendo justiça, e como tendo agido de maneira tola, muito tola. Quando reflete sobre si mesmo. ele reconhece: “Na verdade, que eu sou mais bruto do que ninguém”. “Todo homem se embruteceu” (Jeemiasr 10.1-1). Mas aquele que conhece o seu próprio coração conhece muito mais maldade em si mesmo do que em qualquer outra pessoa, quando clama: na verdade, eu não posso deixar de pensar que sou mais bruto do que ninguém: na verdade, nenhum homem tem um coração tão corrupto e enganador como o meu. Eu agi como alguém que não tem o entendimento de Adão, como alguém que degenerou miseravelmente do conhecimento e da justiça em que o homem foi criado no princípio; ou melhor, eu não tenho o bom senso e a razão de um homem, pois se tivesse, não teria agido como agi. Agur, quando considerado pelos outros como sendo mais sábio que muitos, reconhecia ser mais tolo do que alguns. Qualquer que seja o bom conceito que os outros possam ter de nós, é apropriado que tenhamos pensamentos humildes sobre nós mesmos.

2. Ele fala sobre si mesmo, como alguém a quem falta uma revelação que o guie pelos caminhos da verdade e da sabedoria, e reconhece (v.3): “Não aprendi a sabedoria pelo meu próprio poder (as profundezas da sabedoria não podem ser compreendidas pelo meu papel e pela minha pena) nem tenho o conhecimento do Santo, dos anjos, dos nossos pais em inocência, nem das santas coisas de Deus; eu não tenho conhecimento delas, nem faço nenhum juízo delas, além do que Deus se alegra em me dar a conhecer”. O homem natural, com as forças naturais, não percebe, ou melhor, não compreende as coisas do Espírito de Deus. Alguns supõem que tivessem perguntado a Agur, como ao oráculo de Apolo, anteriormente: Quem é o homem mais sábio? A resposta é: aquele que tem conhecimento da sua própria ignorância, especialmente nas coisas divinas.

 

II – Promover Jesus Cristo, e o Pai, nele (v. 4): Quem subiu ao céu, etc.

1. Alguns entendem que isto se refere a Deus e às suas obras, que são incomparáveis e insondáveis. Ele desafia toda a humanidade a explicar os céus nas alturas, os ventos, as águas, a terra: “Quem subiu ao céu, para examinar os astros nas alturas, e então desceu, para nos dar uma descrição deles? Quem encerrou os ventos nos seus punhos e os dominou, como Deus? Quem amarrou as águas do mar na sua roupa, como Deus? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra, ou pode descrever a resistência de suas fundações, ou a extensão dos seus limites? Digam-me: qual é o seu nome, o nome do homem que poderia argumentar com Deus ou ser um membro do seu gabinete, do seu conselho, ou, se estiver morto, qual é o nome daquele a quem deixou como legado este grande segredo?”

2. Outros entendem que isto se refere a Cristo, a Itiel e a Ucal, o Filho de Deus, pois é o nome do Deus, bem como o do Pai, que é examinado aqui, e um desafio é feito a quem desejar competir com Ele. Agora, devemos exaltar a Cristo como alguém revelado; eles, então, o exaltavam como alguém oculto, como alguém de quem tinham ouvido falar alguma coisa, mas de quem tinham ideias muito obscuras e insuficientes. Ouvimos com os nossos ouvidos a sua fama, mas não podemos descrevê-lo (Jó 28.22); certamente, é Deus que encerrou os ventos nos seus punhos e amarrou as águas na sua roupa. mas qual é o seu nome? “EU SOU O QUE SOU” (Êxodo 3.14), um nome a ser adorado, e não entendido. Qual é o nome do seu Filho, por quem Ele faz todas estas coisas? Os santos do Antigo Testamento esperavam que o Messias fosse o Filho do Deus Bendito, e Ele é aqui citado como uma pessoa distinta do Pai, mas o seu nome ainda é secreto. Observe que o grande Redentor, nas glórias da sua providência e graça, não pode ser comparável ou igualado a ninguém, nem considerado menos que perfeito.

(1) As glórias do reino da sua graça são insondáveis e incomparáveis: pois quem, além dele. subiu ao céu e desceu? Quem. além dele. está perfeitamente familiarizado com ambos os mundos. e tem uma livre correspondência com ambos, e, portanto, é capacitado para estabelecer uma correspondência entre eles, como Mediador, como a escada de Jacó? Ele estava no céu, no seio do Pai (João 1.1,18); de lá, Ele desceu. para assumir a nossa natureza: e nunca houve uma condescendência semelhante a esta. Naquela natureza. novamente subiu (Efésios 4.9), para receber as glórias prometidas e o seu estado exaltado; e quem, além dele, fez isto (Romanos 10.6).

(2) As glórias do reino da sua providência são, igualmente, insondáveis e incomparáveis. Aquele que reconcilia os céus e a terra foi o Criador de ambos, e governa e dispõe de tudo. O seu governo dos três elementos inferiores – o ar, a água e a terra – é aqui particularizado.

[1] Os movimentos do ar são comandados por Ele. Satanás tem pretensões de ser o príncipe das potestades do ar, mas mesmo ali Cristo tem todo o poder; Ele repreendeu os ventos, e eles obedeceram a Ele.

[2] Os limites das águas são definidos por Ele: Ele amarra as águas como em uma roupa: “Até aqui virás, e não mais adiante” (Jó 38.9-11).

[3] Os alicerces da terra foram estabelecidos por Ele. Ele a fundou, no princípio; e Ele ainda a sustenta. Se Cristo não tivesse se interposto. os alicerces da terra teriam afundado sob o peso da maldição que estava sobre o solo, devido ao pecado do homem. Quem é Aquele Todo-Poderoso que faz tudo isto? Não podemos encontrar Deus, nem o Filho de Deus, senão na perfeição. Ó profundidade desse conhecimento!

 

III – Assegurar-nos a verdade da Palavra de Deus, e recomendá-la a nós (vv. 5,6). Os alunos de Agur esperam que ele os instrua nas coisas de Deus. “Ai!”, diz ele, “não posso instruir vocês; recorram à Palavra de Deus; vejam o que Ele revelou ali sobre si mesmo, e sobre a sua vontade: vocês não precisam saber nada além do que aquilo lhes ensinará, e nisto poderão confiar, como algo certo e suficiente. Toda Palavra de Deus é pura; não há a menor falsidade e impureza nela”. As palavras dos homens devem ser ouvidas e lidas com cuidados e reservas, mas não há o menor motivo para suspeitar de qualquer deficiência na Palavra de Deus; ela é como a prata purificada sete vezes (Salmos 12.6), sem a menor mistura ou impureza. A tua palavra é muito pura (Salmos 119.140).

1. É certa e segura, e por isto devemos confiar nela e arriscar nossas almas por ela. Deus na sua Palavra, Deus na sua promessa, é um escudo, uma proteção segura, a todos os que se colocam sob a sua proteção e depositam nele a sua confiança. A Palavra de Deus. aplicada pela fé, nos será socorro bem presente na angústia (Salmos 46.1,2).

2, É suficiente, e por isto não devemos acrescentar nada a ela (v. 6): nada acrescentes às suas palavras, porque são puras e perfeitas. Isto proíbe a promoção de qualquer coisa, não somente que contradiga a Palavra de Deus, como também que rivalize com ela; ainda que seja sob o plausível pretexto de explicá-la, se tiver pretensões de ter a mesma autoridade que ela, será um acréscimo às suas palavras, o que não somente é uma censura a elas, como se fossem insuficientes, como abre uma porta para todo tipo de erros e corrupções; pois, se permitirmos que um absurdo, uma palavra de qualquer homem ou grupo de homens seja recebido com a mesma fé e veneração que a Palavra de Deus, mil se seguirão. Devemos nos satisfazer com o que Deus julgou adequado nos dar a conhecer da sua vontade, e não cobiçar ter sabedoria acima do que está escrito; pois:

(1) Deus considerará isto como uma afronta odiosa: ele te repreenderá, e te considerará traidor à sua coroa e dignidade, e te colocará sob o pesado destino dos que acrescentam às suas palavras ou diminuem delas (Deuteronômio 4.2; 12.32).

(2) Nós mesmos incorreremos em incontáveis enganos: serás considerado um mentiroso, que corrompe a Palavra da verdade, e espalha heresias, e é culpado da pior das falsificações, a do selo do céu, alegando ter uma missão e uma inspiração divina, quando é tudo uma fraude. Os homens podem ser enganados. mas Deus não se deixa escarnecer.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OBSESSÕES E COMPULSÕES II

Obsessões e Compulsões II

TRANSTORNO COMPARTILHADO

É como uma pedrinha que se atira num lago e faz as águas se movimentarem: os sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) costumam ter forte impacto sobre todos os membros da família. Interferem nos relacionamentos, nos compromissos sociais e profissionais e na vida econômica. Para evitarem conflitos, parentes acabam se adaptando aos sintomas e às exigências do paciente, e a família muitas vezes termina por se isolar, já que há grandes dificuldades até mesmo para convidar pessoas para visitar a casa. As acomodações, porém, se dão de forma dolorosa, atravessadas pela raiva e pela frustração, frequentemente exteriorizadas sob a forma de discussões e até agressões físicas. É muito comum que, nessas condições, conflitos conjugais evoluam para separações. Levantamentos indicam que mais de 40% de pessoas próximas de quem tem TOC modificam sua rotina em razão do transtorno. No caso de o paciente ser o marido, 88% das mulheres se adaptam aos rituais.

Por todos esses motivos, muitos consideram o TOC uma doença familiar, tal o impacto que exerce sobre todo o grupo. Estudos mostram que a ocorrência do distúrbio é quatro ou cinco vezes mais comum entre parentes do que na população em geral, o que evidencia a existência do fator familiar em sua origem, que pode ser ambiental ou hereditário ou resultado da combinação dos dois aspectos. Em gêmeos idênticos, observou-se que os tiques e a concordância de sintomas podem chegar a mais de 80%.

Embora deva ser levado em conta o componente genético na etiologia da doença, há controvérsias a respeito da transmissão e das possíveis formas de ocorrência.  É importante considerar também  que o TOC é um transtorno bastante heterogêneo, e é possível que a herança seja distinta para suas diversas formas de manifestação. O fato de haver mais de uma pessoa do grupo familiar comprometida, especialmente quando se trata de alguém que está em posição de grande influência sobre os demais membros, como pai, mãe ou avós, além de sugerir possível fator de ordem genética, indica influências ambientais: os rituais do TOC e as crenças distorcidas que o caracterizam podem ter sido adquiridos por aprendizagem. Certos sintomas, em particular, influem de forma mais acentuada na dinâmica da família. Por exemplo, os armazenadores em geral se sentem bem ao lado das coisas que juntam, mesmo que a casa esteja atravancada de objetos sem utilidade. Enfrentam extremo desconforto ou raiva, como se sua privacidade tivesse sido violada porque alguém pegou ou trocou seus objetos de lugar, e são comuns também os conflitos quando alguém põe algo no lixo sem o seu consentimento. Os pacientes têm enorme necessidade de ter o controle de tudo ao seu redor, protegendo o que lhe pertence de eventuais danos, uso indevido e, principalmente, de extravio. Da mesma forma, os que apresentam obsessões de contaminação e lavagem com muita frequência impõem aos demais seus rituais de limpeza, aos quais a família se submete como forma de evitar conflitos, embora a maioria das pessoas não acredite que a atitude contribua para a melhora do paciente.

PIOR EM CASA

Em aproximadamente um terço dos casos os parentes com frequência apoiam os pacientes,  participando dos rituais e assumindo responsabilidades por eles, por não tolerar a impotência sentida ao assistir a um ente querido se debatendo, prisioneiro de rituais exaustivos e intermináveis, uma vez que essa atitude proporciona alívio imediato. Entretanto, com esse procedimento, reforçam os sintomas.

Se, por um lado, o paciente muitas vezes induz aqueles que estão a seu redor a alterar seus hábitos (mesmo sem percebê-lo), por outro, conflitos domésticos costumam agravar as expressões do TOC. É comum que os sintomas sejam mais intensos em casa e diminuam em outras situações, como durante viagens. Uma paciente que tinha relação conflituosa com sua mãe, pessoa muito exigente e crítica, apresentava o transtorno apenas quando estava na casa dos pais: acendia e apagava a luz várias vezes , ligava e desligava a televisão e outros eletrodomésticos. Sempre que ocorria discussão, os sintomas se exacerbavam. Quando estava em outra cidade, porém, as manifestações praticamente desapareciam.

Acredita-se que as atitudes da família em relação aos sintomas (hostilidade, crítica exagerada, rejeição, ou apoio e tolerância) interfiram nos resultados do tratamento. Parentes tanto encorajam a busca por ajuda como a desestimulam por não acreditar em possíveis mudanças; podem influenciar na adesão ao tratamento ou contribuir para seu abandono, que com frequência ocorre depois de uma briga em casa.

É por isso que muitos terapeutas costumam incluir os familiares no tratamento do TOC, ainda que nem todos participem de todas as sessões. Particularmente quando há participação evidente no reforço dos rituais, hostilidade em relação ao paciente e, sobretudo, quando os sintomas são muito graves e a pessoa está dominada por suas obsessões, não oferecendo nenhuma resistência aos atos compulsivos, é fundamental a inclusão do grupo. Na terapia cognitivo-comportamental (TCC), bastante utilizada para controlar sintomas do distúrbio, é comum a participação da família, principalmente no caso de pacientes adolescentes, no início da puberdade, sendo indispensável quando o paciente é criança. Também é vantajosa a inclusão do cônjuge (ou mesmo do namorado ou namorada), que pode oferecer ajuda valiosa na identificação dos sintomas, na avaliação dos progressos e em eventuais dificuldades ou recaídas – particularmente se o casal tiver relacionamento de boa qualidade.

O fato de a maioria das pessoas, incluindo o próprio paciente, desconhecer as características do transtorno psiquiátrico, as perspectivas terapêuticas e as atitudes mais adequadas a serem adotadas costuma dificultar a busca por tratamento. Esclarecer tanto aquele que manifesta o TOC quanto as pessoas com quem convive é um passo fundamental para lidar com o distúrbio, eliminar preconceitos e auxiliar os envolvidos a desenvolver atitudes mais realistas e objetivas, além de tolerância e cooperação. Desde que seja respeitada a intimidade da pessoa em tratamento, a família pode contribuir com informações – já que, na maioria das vezes, os pacientes têm vergonha dos seus comportamentos, rituais e restrições, que podem ser ocultados do psicólogo ou do médico que os acompanha.

Nesse sentido, a entrevista conjunta facilita a coleta de dados e o esclarecimento dos sintomas. Os fundamentos e as características da terapia cognitivo-comportamental devem ser esclarecidos também para a família: em que pressupostos ela se baseia; que estudos embasaram sua aplicação e comprovaram sua efetividade. É indispensável que as pessoas sejam informadas sobre o que acontece durante a terapia: o aumento inicial da ansiedade em razão dos exercícios, o fenômeno da habituação e o desaparecimento gradual dos sintomas.

Obsessões e Compulsões II. 2

O QUE PODE AJUDAR O PACIENTE

  • Encorajá-lo a enfrentar as situações que o incomodam e a encontrar outras formas de abster-se de executar rituais.
  • Lembrá-lo que, especialmente no início, isso é muito difícil e pode provocar medo e aflição, mas que o mal-estar é passageiro.
  • Responder às suas perguntas uma única vez. Ser honesto nas respostas, explicando o que é TOC e enfatizando que é impossível ter certeza absoluta sobre tudo o tempo todo.
  • De forma gentil, apontar o excesso de verificações.
  • Manter as combinações feitas com o terapeuta. Ser firme, sem ser autoritário.
  • Tentar garantir os compromissos profissionais, as horas de lazer e a vida social.
  • Participar de grupos de auto- ajuda: parentes de outros pacientes podem oferecer dicas valiosas a respeito de como lidar com diferentes situações.
  • Realizar os exercícios prescritos pelo terapeuta junto com o paciente e permanecer ao seu lado durante as atividades que possam causar medo ou ansiedade.
  • Pedir à pessoa com o distúrbio que avise quando estiver na iminência de seguir rituais. Ficar ao seu lado e estimulá-la a resistir.
  • Auxiliá-la a reconhecer seus sintomas, assinalando aqueles que talvez não tenha percebido.
  • Ficar atento aos sinais de recaída e informar o paciente sobre eles de maneira delicada.

Obsessões e Compulsões II. 3

MANIFESTAÇÕES MAIS COMUNS

Formas obsessivas de pensar desencadeiam modos compulsivas de agir – ou evitar a ação

OBSESSOES

  • Preocupação excessiva com sujeira, germes ou contaminação
  • Dúvidas recorrentes
  • Preocupação com simetria, exatidão, ordem, sequência ou alinhamento
  • Impulsos de ferir, insultar ou agredir pessoas
  • Ideias indesejáveis relacionadas a comportamento sexual violento e abuso sexual de crianças
  • Desejo intenso de armazenar, poupar, guardar coisas inúteis
  • Preocupações com doenças ou com o corpo
  • Culpa, receio de pecar ou blasfemar
  • Superstições, receio de que certos números, datas, horários e cores atraiam tragédias
  • Rememoração de palavras, cenas ou músicas intrusivas

 

COMPULSÕES

  • Lavagem ou limpeza
  • Verificações ou controle
  • Repetições de gestos ou confirmação de informações
  • Contagem de objetos
  • Ordem, simetria, sequência ou alinhamento
  • Acúmulo de coisas inúteis (colecionismo), economia excessiva
  • Rezas, repetições de palavras, frases ou números
  • Impulso de tocar, olhar, bater de leve, confessar. Estalar os dedos

 

ALGUMAS EVITAÇÕES

  • Não tocar em trincos, corrimãos, válvulas de descargas ou torneiras de banheiro.
  • Isolar cômodos da casa, impedindo o acesso a eles.
  • Obrigar parentes a tirar os sapatos, trocar de roupa ou tomar banho ao chegarem da rua.
  • Não sentar em bancos ou cadeiras de lugares públicos.
  • Não encostar roupas “contaminadas” nas que estão dentro do guarda-roupa.
  • Não usar objetos utilizados por outras pessoas como talheres e telefones públicos.
  • Evitar pisar no tapete do banheiro em casa ou no escritório ou só pisar em ladrilhos de determinadas cores.

Obsessões e Compulsões II. 4

FIOS DE CABELO, FEIÚRA E DOENÇAS IMAGINÁRIAS

Existem transtornos que se assemelham ao TOC por suscitar comportamentos repetitivos, pensamentos intrusivos ou evitações. São os distúrbios do chamado espectro obsessivo­ compulsivo – como o jogo patológico e a síndrome de Tourette, que com frequência aparecem associados ao TOC. Esta última, por exemplo, atinge de uma a duas pessoas em cada 100. O distúrbio genético, de natureza neuropsiquiátrica, é caracterizado por fenômenos compulsivos que resultam em múltiplos tiques motores e/ou vocais. Há casos em que a pessoa faz caretas e pronuncia palavrões e expressões chulas sem que tenha intenção de fazê-lo.

Há ainda três condições muito comuns com as quais o TOC eventualmente se confunde, ou pode estar associado: tricotilomania (mania de arrancar os cabelos), transtorno dismórfico corporal e hipocondria, todos descritos no DSM-IV. Embora seja um impulso desencadeado por situações de stress ou de ansiedade, a tricotilomaniase manifesta também em momentos de relaxamento e distração (quando a pessoa assiste à TV ou lê um livro), em geral quando está isolada, sem a presença inibidora de parentes ou amigos. Não é precedida por obsessões, como usualmente ocorre no TOC, e sim por tensão crescente, seguida de sensação de prazer, satisfação e alívio.

Há pacientes que arrancam não só os cabelos, mas também sobrancelhas, cílios, pelos pubianos e axilares. Tricotilomaníacos podem arrancar os cabelos de outras pessoas e pelos de animais de estimação, bem como fios de tapetes e roupas. Outros comportamentos estão associados ao distúrbio, como examinar a raiz capilar, enfiar mechas entre os dentes ou comer cabelos (tricofagia). Os fios ingeridos se depositam no sistema digestivo, causando anemia, dor abdominal, náuseas, vômitos e obstrução ou perfuração intestinal.

Também é comum que as pessoas com tricotilomania tentem esconder as falhas no couro cabeludo que revelam o transtorno, utilizando chapéu ou rapando a cabeça. Na infância, o distúrbio acomete igualmente meninos e meninas, mas em adultos é mais comum em mulheres, associado a outros comportamentos, como roer unhas, beliscar-se ou coçar-se. De acordo com a abordagem terapêutica cognitivo-comportamental, a pessoa com tricotilomania deve seguir as seguintes recomendações:

  1. Identificar as situações críticas em que tem o impulso de arrancar cabelos e registrá-las;
  2. Identificar os movimentos que precedem o comportamento;
  3. Treinar a exposição e a prevenção do impulso;
  4. Desenvolver atividade com as mãos que seja incompatível com o gesto de arrancar cabelos;
  5. Juntar e guardar os fios arrancados;
  6. Adotar manobras reparatórias;
  7. Treinar o relaxamento muscular e a respiração abdominal;
  8. Planejar atividades agradáveis nos momentos críticos;
  9. Evitar situações de solidão, nas quais o impulso é mais acentuado;
  10. Reconhecer os progressos;
  11. Ficar atenta a recaídas.

Outro transtorno facilmente confundido com o TOC é a dismorfia corporal (TDC), uma espécie de “feiúra imaginária”. A característica principal é a preocupação excessiva com supostos defeitos na aparência ou o incômodo exagerado com alguma característica. Essas apreensões são embasadas na crença equivocada de que se sofre de deformações. As queixas mais comuns se referem à face, às orelhas e aos genitais, mas podem dizer respeito também a outras partes do corpo. Essas pessoas acreditam ser extremamente feias – e temem a rejeição. A preocupação, às vezes, assume características delirantes e psicóticas. O transtorno é crônico e causa sofrimento, em razão da baixa auto- estima e do isolamento, comprometendo a vida afetiva, social e profissional do paciente. Quando se torna delirante, podem surgir ideias ou tentativas de suicídio.

Geralmente, os pacientes não procuram ajuda médica por considerarem sua preocupação infundada. O transtorno começa, em geral, na adolescência, fase em que surgem os problemas de aceitação das mudanças físicas, mas deve-se distinguir o TDC das preocupações normais do jovem em formação. A hipocondria, por sua vez, é considerada um transtorno somatoforme (referente a sintomas físicos), caracterizado pela preocupação persistente (ao menos por seis meses) de ter uma doença grave, com base na interpretação errada da sintomatologia. Os hipocondríacos não se tranquilizam com os exames que não identificam nenhuma doença. O distúrbio pode aparecer como resposta ao stress, às vezes motivado pela morte inesperada de um ente querido. Nesses casos, o paciente relata sintomas parecidos com os da pessoa falecida. Curiosamente, em momentos em que a certeza ou o temor da doença são muito intensos, o hipocondríaco evita procurar um médico, mesmo diante de situações que necessitariam uma avaliação, com medo de que seja “confirmado o pior”.

OUTROS OLHARES

A CORRIDA PELO COMPUTADOR QUÂNTICO

Tecnologia que deve movimentar US$ 50 bilhões até 2030 traz a premissa de acelerar o avanço da Inteligência Artificial e revolucionar a economia, da agricultura à medicina.

A corrida pelo computador quântico

O padrão de computação com o qual estamos acostumados se baseia no sistema binário. ISSO Significa que em um arquivo de texto (o código base usado em todo tipo de arquivo), cada letra é representada por combinações dos números zero e um. Já na computação quântica, a métrica é infinitamente mais abrangente porque o modelo binário dá lugar a sobreposições sem limite. Assim, os bits quânticos, ou qubits, têm a capacidade de armazenar não só um único texto por arquivo, mas todos os textos possíveis para a mesma quantidade de caracteres — inclusive os textos que ainda nem foram escritos. Está confuso? Então pense na computação atual como a era anterior à invenção da prensa móvel por Gutenberg, no século 15. A computação quântica é tudo o que virá depois. Nela, os computadores serão expressivamente mais rápidos e irão consumir muito menos energia. Parece coisa de ficção científica, e por isso ela desperta uma corrida entre gigantes como IBM, Google, Intel e Microsoft, além de startups como Rigetti ou a canadense D-Wave.

E, evidentemente, não se trata de uma corrida por vaidade pelo pioneirismo. Trata-se de muito dinheiro. É um mercado potencial que deve movimentar, somente nesta fase de testes, ao menos US$ 50 bilhões até 2030, de acordo a consultoria Boston Consulting Group (BCG). A capacidade computacional quântica irá revolucionar todos os setores. Agricultura, energia, finanças, saúde. Nada será como é. O setor farmacêutico, por exemplo, dará um salto, pois a nova tecnologia permite acelerar a criação e os testes de novos medicamentos, já que vai multiplicar a capacidade de prever efeitos que hoje a indústria leva anos para mapear. Tal avanço pode representar US$ 20 bilhões em negócios no setor nos próximos 10 anos.

Outra possível aplicação está no segmento dos algoritmos de busca e aprendizado das máquinas, o que tende a acelerar o desenvolvimento da Inteligência Artificial e da Internet das Coisas. E isso é só o começo. “Esperamos que a computação quântica se desenvolva em direção à maturidade nos próximos 25 anos”, escreve Massimo Russo, sócio do BCG, em relatório. Hoje as grandes empresas de tecnologia ainda testam suas soluções para fornecer ambiente confiável de testes para os clientes. A IBM está um passo à frente da concorrência ao apresentar ao mercado, em janeiro, o Q System One, um dos primeiros computadores quânticos comerciais, com capacidade de 20 qubits.

O Google deu um importante passo para a concepção do seu computador ao anunciar, no começo do mês passado, que desenvolveu em laboratório próprio um novo processador quântico. A Intel e a Microsoft também trabalham para apresentar seus protótipos. Para imaginar a forma dessas máquinas, esqueça toda a referência da imagem de um PC. O computador quântico ocupa o espaço de uma sala, e seu núcleo fica resguardado por uma câmara de vácuo que mantém o ambiente em temperaturas baixíssimas – a 273º Celsius negativos. A utilização dessa plataforma é feita por meio da nuvem. No entanto, as soluções são ainda muito embrionárias.

A capacidade do Q System One, de 20 qubits, é baixa e ainda não possibilita a simulação, por exemplo, do comportamento de moléculas. “Para modelar uma molécula simples de cafeína são necessários 50 qubits”, diz Ulisses Mello, diretor do Laboratório de Pesquisas da IBM Brasil. De acordo com BCG, a tecnologia se encontra hoje em um ponto equivalente ao estágio inicial do aparecimento de computadores binários. “A segunda geração da computação quântica, que vai se desenvolver entre 2028 e 2039, será o período no qual as máquinas alcançarão a capacidade de até 50 qubits”, escreve Russo no relatório da consultoria.

Para atingir esse nível de desenvolvimento, é preciso um esforço coletivo entre setor público, privado e academia. Um dos ambientes de testes mais populares é o IBM Q Experience, que desde 2016 disponibiliza à comunidade um computador quântico de testes com plataforma aberta para que desenvolvedores de universidades e empresas possam aprender a programar na nova linguagem.

“É uma fase importante de aprendizado”, diz Mello. Grandes empresas também usam a iniciativa para estudar soluções a seus negócios. O JP Morgan, maior banco dos Estados Unidos, tem dois grandes objetivos: buscar maneiras de aumentar a segurança de dados e proporcionar maior precisão nas estratégias de investimento. Para a coreana Samsung, interessa produzir chips mais potentes com componentes microeletrônicos e uma nova geração de isolantes de calor. A Exxon Mobil, por sua vez, pretende modelar elementos químicos para tornar os catalisadores mais eficientes e, assim, diminuir a emissão de CO2 na atmosfera. Cerca de 300 empresas e 2.500 universidades de todo o mundo promovem testes na plataforma.

Outras grandes corporações buscam meios alternativos para entender a aplicação da tecnologia nos seus negócios. A Bayer firmou, em novembro do ano passado, parceria com a empresa de tecnologia Atos e com a RWTH Aachen, a maior universidade da tecnologia da Alemanha, para avaliar o uso da computação quântica na pesquisa e análise de padrões de doenças humanas. O esforço não é à toa. Executivos da indústria farmacêutica estimam que a computação quântica pode acelerar o tempo de desenvolvimento de novas drogas em 15% a 20%.

A corrida pelo computador quântico. 2

FINANCIAMENTO PÚBLICO 

A corrida para estar na vanguarda dessa tecnologia não se limita ao setor privado. O governo dos Estados Unidos anunciou, em dezembro do ano passado, que vai disponibilizar US$ 1,2 bilhão para financiar pesquisa quântica no país. A Comissão Europeia desembolsou, em 2016, US$ 1,1 bilhão para o mesmo propósito. Mas a China lidera a corrida ao aportar US$ 10 bilhões para a construção de um laboratório de Ciência da Informação Quântica com previsão para ser inaugurado em 2020. O Brasil ainda não tem uma linha específica de financiamento. “Os países que dominarem antes essa tecnologia terão indústrias mais avançadas com a produção de materiais químicos melhores e maior quantidade de produtos inovadores”, diz Mello, da IBM. A vantagem competitiva será quântica.

GESTÃO E CARREIRA

AS CARÊNCIAS MAIS SENTIDAS PELOS MILENNIALS

Profissionais jovens percebem em si mesmo falta de habilidades relacionadas à inteligência emocional e pensamento crítico.

Carências mais sentidas pelos millenials

Brasileiros jovens entram no mercado de trabalho e se ressentem de um déficit de habilidades fundamentais para a vida profissional. Uma pesquisa recente da empresa de educação online Udemy colheu respostas de mais de mil profissionais com idade entre 21 e 35 anos. Para quase dois terços deles, o que mais faz falta não são conhecimentos técnicos, e sim capacidades que deveriam ser treinadas na escola e na universidade, relacionadas a inteligência emocional, comunicação, gestão do tempo e pensamento crítico – todas fundamentais para a produtividade e para os ambientes de trabalho mais competitivos de hoje. Além das deficiências óbvias em transmissão de conhecimento, o sistema educacional brasileiro falha também no desenvolvimento dessas habilidades, diz Sérgio Agudo, diretor da Udemy no Brasil. O executivo lembra que esse tipo de ponto fraco é hoje considerado problema grave num profissional e pode prejudicar carreiras seriamente. Um quarto dos jovens também se ressentiu de falta de habilidades de liderança, o que é facilmente compreensível em profissionais na primeira metade da carreira. Cerca de 95% dos respondentes consideram que existe uma lacuna de habilidades profissionais no país.

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ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 30: 7-9

Alimento diário

A ORAÇÃO DE AGUR

 

V. 7 a 9 – Depois da confissão e do credo de Agur, aqui temos a sua litania, onde podemos observar:

I – O prefácio à sua oração: Duas coisas te pedi, ó Deus! Antes de orar, é bom considerar o que necessitamos, e quais são as coisas que temos que pedir a Deus. O que o nosso caso exige? O que os nossos corações desejam? O que desejamos que Deus faça por nós? para que não tenhamos que procurar a nossa súplica quando deveríamos estar apresentando-a. Ele implora, “não mas negues, antes que morra”. Na oração, devemos pensar em morrer, e orar de maneira apropriada. “Senhor, dá-me perdão, e paz, e graça, antes que eu morra, antes que eu me vá daqui e não mais exista; pois, se eu não for renovado e santificado antes de morrei; esta obra não será feita depois; se eu não prevalecer na oração antes de morrer, orações posteriores não prevalecerão, Senhor. Não há nada desta sabedoria ou destas obras na sepultura. Não me negues a tua graça, pois, se o fizeres, morrerei, perecerei; se te silenciares comigo, serei como aqueles que descem à cova (Salmos 28.11. “Não me negues, antes que morra”: enquanto eu permanecer na terra dos vivos, deixa-me continuar sob a condução da Tua graça e boa providência.

 

II – A oração propriamente dita. As duas coisas que ele pede são graça suficiente e alimento apropriado.

1. Graça suficiente para a sua alma: “Afasta de mim a vaidade e a palavra mentirosa”; livra-me do pecado, de todos os princípios, práticas e sentimentos corruptos, do erro e do engano, que estão no fundo de todos os pecados, do amor ao mundo e das coisas do mundo, que são apenas vaidade e mentira. Alguns entendem que esta é uma oração que pede o perdão do pecado, pois quando Deus perdoa o pecado, Ele o remove. Ou melhor, é uma oração com o mesmo objetivo que aquela: “Não nos induzas à tentação”. Nada nos é mais prejudicial do que o pecado, e por isto, não há nada contra o que devemos orar mais fervorosamente. para que não façamos o mal.

2. Alimento apropriado para o seu corpo. Tendo orado pedindo as operações da graça divina, aqui ele implora os favores da Providência divina, mas os que possam trazer o bem, e não o prejuízo, da alma.

(1) Ele ora para que da generosidade de Deus ele possa receber uma porção adequada das boas coisas desta vida: “Mantém-me do pão da minha porção acostumada”, o pão que julga res adequado para mim. Quanto a todos os dons da divina Providência, devemos recorrer à sabedoria divina. Ou, “o pão que é adequado para mim, como homem e chefe de família, aquilo que está de acordo com a minha posição e condição no mundo”. Pois assim como é o homem, também é a sua competência. O nosso Salvador parece se referir a isto, quando nos ensina a orar, “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”, como isto parece se referir ao voto de Jacó, em que ele não desejava nada mais do que pão para comer e vestes para vestir’. O alimento conveniente para nós é aquele com que devemos nos contentar, ainda que não tenhamos delícias, manjares, ou algo supérfluo – o que é para suprir a necessidade, embora não tenhamos para o prazer ou para o ornamento; e isto é aquilo que podemos, com fé, pedir em oração, e em tudo isto podemos depender de Deus.

(2) Ele ora para que possa ser guardado de cada condição da vida que possa ser uma tentação para ele.

[1] Ele ora contra as situações extremas de abundância e necessidade: “Não me dês nem a pobreza nem a riqueza”. Com isto, ele não pretende aconselhar a Deus, nem ensiná-lo qual é a condição que Ele lhe deverá destinai; nem ora contra a pobreza ou a riqueza de modo absoluto, como sendo más em si mesmas, pois ambas, pela graça de Deus, podem ser santificadas e convertidas em um meio que nos trará o bem; mas, em primeiro lugar, com isto ele deseja expressar o valor que os homens bons e sábios dão a um estado intermediário de vida, e, com submissão à vontade de Deus, deseja que este possa ser o seu estado – nem uma honra excessiva, nem um grande desprezo. Nós devemos aprender como controlar as duas coisas (como o apóstolo Paulo, Filipenses 4.12), porém desejar estar sempre entre essas duas coisas. Em segundo lugar, com isto, ele indica o santo zelo que tinha consigo mesmo, o temor de que não conseguisse resistir às tentações, fosse em uma situação de aflição ou de prosperidade. Outros podem preservar a sua integridade em qualquer dessas duas situações, mas ele receia as duas, e por isto a graça o ensina a orar contra as riquezas tanto quanto a natureza o ensina a orar contra a pobreza; mas a vontade do Senhor será feita.

[2) Ele apresenta uma razão piedosa para a sua oração (v. 9). Ele não diz, “Que eu não seja rico, e sobrecarregado de preocupações, e invejado por meu próximo, e devorado por uma multidão de servos”, nem “Que eu não seja pobre e humilhado e forçado a trabalhar duro e ganhar pouco”; mas “para que eu não seja rico e peque, ou pobre, e peque”. O pecado é aquilo que um homem bom deve temer em cada condição e sob cada circunstância; veja Neemias (Provérbios 6.13), para me atemorizar, e para que eu assim fizesse e pecasse. Em primeiro lugar, ele receia as tentações de uma condição próspera, e por isto até mesmo a menospreza: Para que, porventura, de farto te não negue” (como Jesurum, que engordou e deu coices e deixou a Deus que o fez, Deuteronômio 32.15), e não diga, como Faraó, no seu orgulho: “Quem é o Senhor cuja voz eu ouvirei?” A prosperidade faz que as pessoas se assoberbem e se esqueçam de Deus, como se não tivessem necessidade dele e não tivessem nenhuma obrigação com Ele. O que o Todo-Poderoso pode fazer por elas? (Jó 22.17). E, por isto, não desejam fazer nada por Ele. Mesmo os homens bons receiam os piores pecados, tão enganosos julgam que podem ser os seus próprios corações; e sabe m que os maiores ganhos deste mundo não compensarão a menor culpa. Em segundo lugar, ele receia as tentações de uma condição de pobreza, e por esta razão, e nenhuma outra, a menospreza: “Que, empobrecendo, venha a furtar”. A pobreza é uma forte tentação à desonestidade, e domina muitas pessoas que estão prontas a pensar que isto será a sua desculpa, mas não os defenderá no tribunal de Deus. nem no tribunal dos homens, dizer, “roubei porque era pobre”; mas se um homem roubar para satisfazer a sua alma, quando tinha fome, o tribunal poderá decidir que se trata de um caso de compaixão (Provérbios 6.30), e algo a que podem ser levados até mesmo aqueles que têm alguns princípios de honestidade. Mas observe por que Agur receia isto, não porque se colocaria em perigo, mas ‘”para que não venha a furtar, e seja enforcado por isto, açoitado ou torturado, ou vendido como cativo”, como era o caso dos ladrões pobres entre os judeus, que não tinham com que fazer a restituição; mas para que não desonrasse a Deus com isto; “para que [não] venha a furtar e lance mão do nome de Deus, isto é, refute a minha profissão de religião por práticas que não condizem com ela”. Ou, “Para que eu [não] venha a furtar, e, quando acusado, negue sob juramento”. Portanto, ele teme apenas um pecado, porque este o levaria a outro pecado, pois o caminho do pecado é descendente. Observe que ele chama Deus de seu Deus, e por isto teme fazer alguma coisa que o ofenda, por causa do relacionamento que tem com Ele.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OBSESSÕES E COMPULSÕES

Obsessões e compulsões

Preocupar-se excessivamente com higiene; lavar as mãos a todo momento; checar diversas vezes se portas, janelas ou a torneira do gás estão fechadas antes de se deitar; não usar roupas de determinada cor; não passar em lugares com receio de que algo ruim possa acontecer; guardar coisas inúteis; ficar aflito caso os objetos sobre a mesa não estejam dispostos de determinada maneira; fazer contagens desnecessárias… Esses são alguns exemplos de ações chamadas no senso comum de “manias”. Quando exageradas, porém, indicam sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo, o TOC.

O distúrbio de ansiedade mostrado na mídia em filmes como Melhor impossível, com Jack Nicholson, e no curta brasileiro A janela aberta, dirigido por Philippe Barcinski, ou na bem-humorada série Monk tem manifestações que podem parecer curiosas para quem não as enfrenta. O TOC, porém, é um problema de saúde mental grave e muitas vezes incapacitante, em algumas situações associado à depressão.

No Brasil, estima-se que atinja quase 4 milhões de pessoas, prejudicando o paciente e influindo diretamente na rotina familiar. A desinformação e a vergonha dos pensamentos infundados e ações compulsivas que assaltam o paciente fazem com que ele resista à ideia de buscar atendimento profissional. Há quem padeça por décadas, sem saber que medicação e acompanhamento psicoterápico adequados podem aplacar – ou eliminar – os sintomas em cerca de 70% dos casos.

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RITUAIS QUE APRISIONAM

Será que eu tenho TOC? Eis uma pergunta que muitas pessoas já se fizeram alguma vez. Com certeza ouviram em algum programa de rádio ou TV ou leram em alguma reportagem de jornal, revista ou internet que lavar as mãos seguidamente, evitar segurar-se no corrimão do ônibus ou usar as toalhas de mão utilizadas por outras pessoas, não conseguir tocar o trinco da porta de banheiro público, ter receio de passar perto de cemitérios, de deixar o chinelo virado, assim como outros comportamentos semelhantes, podem, na verdade, revelar sintomas de TOC.

De um lado, a família implica com a demora no banho ou nas arrumações, de outro, a pessoa exige que os objetos sejam alinhados de certa maneira. Os amigos comentam que “é chata com algumas coisas”. Mas é provável que, em sua casa, durante muito tempo a maioria desses  comportamentos sejam considerados normais, e que pais, avós ou irmãos apresentem as mesmas  manias. Afinal, medos e preocupações fazem parte do nosso dia a dia. Aprendemos a conviver  com eles tomando certos cuidados. Fechamos as portas à noite, lavamos as mãos antes das refeições ou depois de usar o banheiro, desligamos o celular no início da sessão de cinema e verificamos periodicamente o saldo de nossa conta bancária. Essas mesmas ações e preocupações, entretanto, podem se tornar claramente excessivas quando repetidas inúmeras vezes em curto espaço de tempo – e são acompanhadas de grande aflição. É comum que, pelo tempo que tomam, comprometam rotinas e o desempenho profissional. De acordo com o Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-IV), publicado pela Associação Psiquiátrica Americana, o TOC é um transtorno mental de ansiedade. Está classificado ao lado das fobias (medo de altura, lugares fechados, elevadores, pequenos animais como ratos, lagartixas, lesmas, insetos ); da fobia

social (medo de expor-se em público ou diante de outras pessoas); do transtorno de pânico (crises súbitas de ansiedade e medo de frequentar os locais onde ocorreram os ataques, como lugares fechados e aglomerações de pessoas); e da ansiedade generalizada (apreensão e tensão permanentes).

Os sintomas do TOC envolvem alterações do comportamento (rituais ou compulsões, repetições, evitações), dos pensamentos (obsessões como dúvidas, preocupações excessivas, pensamentos de conteúdo impróprio ou “ruim”) e das emoções (medo, desconforto, aflição, culpa, depressão). Os rituais ou compulsões são realizados em razão dos medos ou da aflição que aparecem sempre que a mente é invadida por uma obsessão, como a de contaminar-se ou de contrair doenças, de cometer falhas ou de ser responsável por acidentes ou acontecimentos negativos graves. As evitações, embora não específicas do TOC, são, em grande parte, responsáveis pelas limitações que o transtorno acarreta.

Obsessões são pensamentos ou impulsos que invadem a mente de forma repetitiva e persistente. Podem surgir como imagens, palavras, frases, números, músicas etc. Sentidas como estranhas ou impróprias, geralmente são acompanhadas de angústia e culpa. Mesmo desejando ou se esforçando, o indivíduo não consegue afastá-las. Apesar de serem reconhecidas como absurdas ou ilógicas, causam ansiedade e desconforto. Na tentativa de neutralizar o mal-estar, a pessoa realiza rituais (bater um número específico de vezes em algum móvel, por exemplo) ou evita situações (deixando de tocar determinados objetos ou se afastando de certos lugares).

A mente humana é invadida permanentemente por pensamentos involuntários, também chamados de pensamentos intrusivos, intrusões ou pensamentos automáticos. Essas “invasões” constituem um fenômeno universal e fazem parte da atividade psíquica normal e ocorrem espontaneamente e, da mesma forma que surgem, desaparecem.

Como para a maioria das pessoas não acarretam preocupação, facilmente são esquecidas. Entretanto, para alguns indivíduos, a ocorrência desses pensamentos (de contaminação, responsabilidade, de conteúdo agressivo, obsceno ou sexual) é interpretada como indicativa de algum risco: à sua saúde ou à de sua família, de que pode estar deixando de prevenir algum desastre ou de que é capaz de cometer atos criminosos ou moralmente inaceitáveis. Acredita-se que a interpretação errônea e catastrófica desses pensamentos aflitivos faz com que intrusões normais se transformem em obsessões, levando a pessoa a agir para afastar os “maus pensamentos”.

Compulsões ou rituais são comportamentos ou atos mentais voluntários e repetitivos, executados em resposta a obsessões – ou para atender regras (criadas pelo próprio paciente), que devem ser seguidas rigidamente. Entre as mais citadas pelos pacientes estão a repetição de palavras ou frases (consideradas especiais), orações, rememoração de cenas ou imagens, contagem ou repetição de números, marcação de datas e listas, tentativa de afastar pensamentos indesejáveis, substituindo-os por ideias contrárias. Essas práticas costumam aliviar a ansiedade apenas momentaneamente, levando o indivíduo a repeti-las e ampliá-las toda vez que sua mente é “invadida” – em vez de enfrentar seus medos, o que acaba por perpetuá-los. Assim, a tentativa de se libertar transforma-se, com o tempo, em prisão. Nem sempre as compulsões apresentam conexão realística com o que desejam prevenir ( por exemplo, alinhar os chinelos ao lado da cama antes de deitar não garante que nada de ruim aconteça no dia seguinte; dar três batidas em uma pedra da calçada ao sair de casa não manterá pessoas da família com saúde perfeita). A “lógica distorcida” das obsessões que sustentam os rituais se embasa em pensamento de conteúdo mágico e segue mecanismo muito semelhante ao que prevalece nas superstições.

NUNCA ERRAR

Da mesma forma, as evitações estão necessariamente associadas ao receio de contrair doenças ou ao medo de contaminação Alguns pacientes relatam que evitam tocar em certos objetos – como carne, leite, gelatina, colas, urina, sêmen – apenas por nojo ou repugnância, sem que sejam invadidos por algum pensamento catastrófico específico. O interessante é que esses sintomas também podem desaparecer com abordagem terapêutica – a terapia de exposição e prevenção de rituais – utilizada para o tratamento dos demais sintomas do TOC.

Uma das preocupações mais comuns no TOC se relaciona com a possibilidade de falhar e, em consequência, ocorrer algum desastre ou prejuízo (incêndio, inundações etc.) Tal preocupação se manifesta sob a forma de intolerância à incerteza – que leva a pessoa a realizar verificações repetidamente.

Quando o sofrimento associado à dúvida é muito intenso, a pessoa com TOC simplesmente se esquiva de situações de responsabilidade. Prefere não sentir a necessidade de realizar constantes checagens, evitando, por exemplo, sair por último do local de trabalho, não sendo, assim, atribuída a ela a função de desligar os equipamentos ou fechar as portas. Certas características de personalidade, como senso exagerado de responsabilidade e receio de cometer falhas, perfeccionismo e elevado nível de exigência desempenham papel importante no surgimento do transtorno.

Nos quadros de TOC também costumam surgir ideias e impulsos de conteúdo agressivo ou violento – como o ímpeto de atirar crianças pequenas pela janela; atropelar pedestres; empurrar escadaria abaixo ou dar um soco em alguém que cumprimenta; envenenar os filhos etc. Para fugir dessas “tentações”, é comum que o paciente tome medidas práticas como colocar telas nas janelas; evitar comparecer a eventos sociais ou cumprimentar pessoas; checar várias vezes os armários para ver se não há algum veneno com o qual possa contaminar seus filhos.

São comuns também as obsessões de conteúdo sexual, como fixar os olhos nos genitais de outras pessoas, molestar sexualmente crianças, arrancar a roupa de alguém, manter relações sexuais incestuosas, ou praticar sexo violento ou perverso (com animais, por exemplo). Em vez de desejo, excitação ou prazer, essas fantasias despertam angústia e medo. Muitos recorrem a confissão, orações e até castigos físicos ou privações (jejum, por exemplo) para dissipar esses pensamentos.

MACACO VERDE

Um paciente tinha obsessões por mosquitos. A primeira coisa que fazia ao chegar em casa era revistar o seu quarto (atrás da cama, dentro dos armários, atrás dos livros) à procura desses insetos. Chegou triunfante a uma sessão: “Matei 102 ontem à noite. E o curioso é que, em minha casa, sou sempre a primeira pessoa que os vê”. Não por acaso ela encontrava os insetos – sua atenção estava voltada para eles.

Atualmente, sabe-se que manter­ se excessiva e frequentemente atento aos próprios pensamentos e atitudes aumenta a frequência e a intensidade das obsessões. Assim, os esforços constantes feitos pela pessoa com TOC para neutralizar as obsessões, focar a atenção em certos temas ou vigiar de forma constante objetos, situações, lugares ou pessoas que nela desencadeiem desconforto psíquico podem, por vezes, surtir efeito contrário: fazem com que os “pensamentos ruins” ocorram de forma ainda mais intensa. É como diz o ditado: “Não pense no macaco verde”. E é aí que ele aparece.

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MEDICAMENTO E PSICOTERAPIA PARA REDUZIR SINTOMAS

Os medicamentos mais eficazes no combate dos sintomas do TOC são antidepressivos, eficientes para cerca de 50% dos pacientes. Seu uso é recomendado principalmente quando existem outros problemas associados ao transtorno, como depressão e ansiedade- o que é bastante comum. Também é usual essa prescrição quando os sintomas são muito graves ou incapacitantes e o paciente não tem condições de seguir a terapia. Mas há inconvenientes: alguns efeitos colaterais e a redução apenas parcial dos sintomas. Uma modalidade terapêutica bastante usada para controlar sintomas do TOC (embora não seja a única) é a terapia cognitivo-comportamental (TCC), da qual foram adaptadas algumas técnicas específicas para tratar o transtorno. Cerca de 70% dos que se submetem à terapia obtêm redução satisfatória ou até a eliminação completa dos sintomas. Ela é efetiva especialmente quando predominam rituais, não existem outras condições psiquiátricas graves e os pacientes se envolvem efetivamente nas tarefas propostas para serem realizadas em casa, as quais constituem parte fundamental dessa forma de tratamento. Outras abordagens, como as de orientação psicanalítica, buscam não só a eliminação imediata dos sintomas, mas seus significados dentro do contexto da história do paciente. Por isso, costumam levar mais tempo, mas com a vantagem de aprofundar a experiência psíquica, possibilitando a elaboração de várias questões associadas direta ou indiretamente ao distúrbio.

Estudos recentes demonstram que a redução dos sintomas com a psicoterapia, sobretudo quando predominam compulsões, costuma ser maior do que a diminuição que se obtém com o uso dos medicamentos e, aparentemente, as recaídas são menos frequentes. Também tem sido observado que pacientes que não respondem às medicações podem apresentar boa resposta à TCC. Uma vez que tanto os medicamentos como a terapia têm suas limitações, recomenda-se associá-los, embora não esteja evidente se essa junção é mais vantajosa do que o uso isolado de apenas uma modalidade de tratamento.

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DESINFORMAÇÃO E VERGONHA DIFICULTAM DIAGNÓSTICO

Considerado raro há até pouco tempo, sabe-se hoje que se trata de um distúrbio mental bastante comum: acomete um em cada 40 ou 50 indivíduos. No Brasil, estima-se que existam entre 3 milhões e 4 milhões de pessoas com TOC. E embora tenham a vida gravemente comprometida, muitas delas nunca foram diagnosticadas e tampouco tratadas. Talvez a maioria desconheça que esses sintomas constituem uma patologia, para a qual já existem tratamentos bastante eficazes. O que muitas vezes dificulta a busca por acompanhamento terapêutico é o fato de que muitos têm vergonha de seus pensamentos intrusivos, absurdos ou impróprios.

Temendo ser ridicularizadas, algumas pessoas chegam a se esconder para realizar atos que elas mesmas consideram sem sentido. Imaginam que têm algum desvio moral ou de caráter, ou que podem colocar em prática tais impulsos ou pensamentos, o que aumenta o medo, a autocrítica e o sentimento de culpa. Acreditam, ainda, que ninguém poderá compreendê-las, razão pela qual não procuram ajuda. Um estudo realizado nos Estados Unidos constatou que os pacientes demoravam em média dez anos entre o início dos sintomas e a busca de tratamento, o que pode ser atribuído, em parte, ao constrangimento que vivem. Outro levantamento constatou que leva 17 anos entre o aparecimento dos sintomas e a obtenção de tratamento adequado. No Brasil, muitos dos pacientes atendidos pela primeira vez sofrem do problema há mais de 20 anos.

O TOC é considerado uma doença mental grave. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), está entre as dez principais causas de incapacitação das pessoas e é a quinta psicopatologia mais frequente em mulheres com idade entre 15 e 44 anos nos países em desenvolvimento e desenvolvidos. O início após os 40 anos é raro; o transtorno acomete preferencialmente indivíduos no fim da adolescência – e, muitas vezes, começa ainda na infância. Seu curso geralmente é crônico e, se não tratado, se mantém por toda a vida, raras vezes desaparecendo por completo. Em aproximadamente 10% dos casos, os sintomas são graves e tendem a agravar-se de forma progressiva, podendo incapacitar os portadores para o trabalho e acarretar limitações significativas ao convívio social, além de submetê-los a um sofrimento intenso e permanente.

Para as pessoas que convivem com o paciente a situação também é delicada. A doença altera rotinas domésticas, exige que a família se acomode aos sintomas. É comum a restrição ao uso de sofás, camas, roupas, toalhas, louças e talheres, bem como ao acesso a determinados locais da casa. Outros problemas típicos são a demora no banheiro e as lavagens excessivas das mãos, das roupas e do piso.

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TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) parte do pressuposto de que crenças e pensamentos equivocados podem influenciar emoções e comportamentos, determinando o aparecimento dos sintomas. A identificação de tais ideias distorcidas e sua correção por meio do raciocínio lógico e de técnicas cognitivas apropriadas podem eliminar sintomas.

Após seu uso para tratamento da depressão, algumas concepções e técnicas da TCC foram adaptadas para tratar outras psicopatologias, como os transtornos de ansiedade – fobia, pânico, transtorno obsessivo­ compulsivo, entre outros. O termo comportamental refere-se ao uso de métodos que têm por objetivo mudar atitudes e ações – no caso do TOC, os rituais, mesmo os encobertos, e os comportamentos evitativos, de esquiva – por meio de duas técnicas em especial: o enfrentamento gradual das situações ou o contato com objetos que provocam medo ou desconforto (exposição) e a abstenção e prevenção da execução de rituais que aliviam o desconforto.

O termo cognitivo refere-se a técnicas que auxiliam na “correção” de pensamentos exagerados ou mesmo errados, tão comuns em portadores do TOC, corno a supervalorização do poder do pensamento, do risco de contrair doenças, a necessidade de ter certezas na maior parte do tempo ou o perfeccionismo, por exemplo. Essas técnicas, introduzidas mais recentemente na abordagem do TOC, complementam a terapia de exposição e prevenção de rituais, constituindo o que se convencionou chamar de terapia cognitivo-comportamental, pois as duas modalidades são utilizadas de forma associada. O acréscimo do enfoque cognitivo enriquece a compreensão dos sintomas do TOC e reduz o grau de aflição desencadeado pelos exercícios de exposição e prevenção de rituais da terapia comportamental, o que parece favorecer a adesão dos pacientes.

Durante a TCC, o paciente aprende inicialmente a identificar suas obsessões, compulsões e evitações. Com o auxílio do terapeuta, são combinados exercícios graduais de exposição e prevenção de rituais – os quais a pessoa acredita ser capaz de realizar – para serem feitos em casa, no intervalo entre as sessões. O paciente também aprende várias técnicas que o auxiliam a corrigir suas crenças distorcidas e passa a usá-las ao mesmo tempo que faz os exercícios de exposição e prevenção de rituais. No início da terapia, em geral há aumento da ansiedade – perfeitamente suportável – seguido de redução na intensidade das obsessões e na necessidade de executar rituais. Em geral, são realizadas de dez a 15 sessões.

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A RELIGIÃO PARTICULAR DO NEURÓTICO OBSESSIVO

A denominação transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) vem da psiquiatria. Muito antes da adoção dessa classificação, porém, a patologia já aparecia como neurose obsessiva em textos de Sigmund Freud. O tema é apresentado em artigos como As psiconeuroses de defesa (1894), Rascunho K (Correspondência com Fliess) (1895), Novas observações sobre as neuropsicoses de defesa (1896), Caráter e erotismo anal (1908), Totem e tabu (1912), Predisposição à neurose obsessiva (1913), Inibições, sintomas e ansiedade (1926), entre outros.

No caso clínico conhecido como Homem dos Ratos, Freud diz que o erotismo anal domina a organização sexual do neurótico obsessivo, tendo como sustentação o ódio inconsciente e primitivo.

O olhar psicanalítico diverge da compreensão preponderantemente médica ou comportamental, tanto em relação à etiologia quanto à maneira de conduzir o tratamento do transtorno. Para a psicanálise, a neurose obsessiva compulsiva tem como origem um conflito psíquico infantil e uma fixação da libido ocorrida nos primeiros anos de vida. A proposta não é, portanto, simplesmente eliminar os sintomas – embora seja esperado que isso se dê ao longo do acompanhamento terapêutico -, mas sim compreender seus sentidos e desdobramentos.

Psicanalistas acreditam que sintomas escondem / revelam conflitos inconscientes. Sua manifestação resulta de um “trabalho psíquico” que tem o objetivo defensivo de transformar uma forte representação da experiência infantil em outra – mais suportável, enfraquecida e controlável, desligada (por meio desse estratagema) de sua verdadeira e dolorosa fonte.

Em 1907, no texto Atos obsessivos e práticas religiosas, Freud escreveu: “A neurose obsessiva parece uma caricatura, ao mesmo tempo cômica e triste, de uma religião particular”. Mais adiante, na mesma obra, complementou: “Podemos atrever-nos a considerar a neurose obsessiva o correlato patológico da formação de uma religião, descrevendo a neurose como uma religiosidade individual e a religião como uma neurose obsessiva universal”. A comparação se dá por causa dos cerimoniais que aparecem tanto na sintomatologia daqueles que sofrem de “afecções nervosas” quanto nas “práticas pelas quais o crente expressa sua devoção”.

Tanto nos rituais neuróticos quanto nos rituais sagrados se observam proibições compulsivas e fortes escrúpulos de consciência. “Além do mais, em ambos os casos, os atos levados a cabo são prenhes de um sentido simbólico que expressa a experiência psíquica daquele que os realiza. Via de regra, a força da pulsão recalcada é vivida como uma tentação perigosa, contra a qual o sujeito deve cercar-se de medidas de proteção. Na neurose obsessiva os sintomas – ações obsessivas – são, assim, uma formação cujo objetivo é conciliar moções pulsionais antagônicas, vividas como forças que induzem a atos contraditórios”, escreve o psicanalista Flávio Carvalho Ferraz, no artigo “A  religião particular” do neurótico: notas comparativas sobre a neurose obsessiva e a perversão”, publicado em Obsessiva neurose, organizado por Manoel Tosta Berlink.

 

OUTROS OLHARES

ODOR DE PARKINSON

Usando a habilidade de uma mulher com olfato aguçado, pesquisadores americanos criaram um marcador biológico da doença que poderá ser usado para o diagnóstico precoce.

Odor de Parkinson

O aguçado olfato da enfermeira escocesa Joy Milne, de 68 anos, foi o atalho para um dos mais recentes avanços nas pesquisas médicas relacionadas ao Parkinson, distúrbio do sistema nervoso central progressivo que afeta os movimentos e se caracteriza por tremores e rigidez. A história começou em 1974, quando Joy notou que sentia um cheiro diferente, forte e adocicado, toda vez que o marido, Les Milne, então saudável, se aproximava. Mais de uma década depois, ele foi diagnosticado com Parkinson.

A mulher passou a acompanhá-lo nos encontros com grupos de pacientes que também sofriam de Parkinson. Ela percebeu, nas outras pessoas, aquele mesmo cheiro que emanava do companheiro. Joy contou o caso a um grupo de cientistas e o relato chegou aos pesquisadores da Universidade de Manchester, no Reino Unido. Deu-se o início, ali, da descoberta deum marcador biológico do Parkinson, uma espécie de “perfume da doença”.

Agora, os estudiosos identificaram a origem do cheiro sentido por Joy. Notaram que ele era mais intenso na parte superior das costas e na testa, mas não nas axilas. Isso significa que o odor não era de suor, mas de sebo, substância produzida pelas glândulas sebáceas na pele. Sabe- se que os portadores de Parkinson apresentam uma concentração maior de compostos produzidos pelo sebo. A equipe coletou amostras repletas dessas substâncias das costas de 64 voluntários – alguns com a doença, outros não. No laboratório, pediram a Joy que cheirasse as amostras e sinalizasse toda vez que o odor característico aparecia. Em todos os casos havia coincidência entre a indicação da enfermeira e a presença do Parkinson nas “cobaias”. Ainda se desconhece porque pessoas com a doença exalam esse odor – algumas pesquisas sugerem que certos micróbios são mais comuns na pele dos pacientes.

O “perfume da doença”, divulgado na semana passada pela revista americana ACS Central Science, pode ser um atalho futuro para o diagnóstico precoce do Parkinson. A enfermidade acomete 10 milhões de pessoas no mundo, 200.000 delas no Brasil. Atualmente, não há nenhum teste definitivo para sua detecção. “O diagnóstico é clínico, quando a doença já está instalada”, diz o neurologista Renato Anghinah, professor da Universidade de São Paulo. O faro de Joy pode ter mudado para sempre essa história.

GESTÃO E CARREIRA

CARREIRAS MÚLTIPLAS

Atuar em mais de uma área acelera o desenvolvimento, aumenta a empregabilidade e ainda gera satisfação. Saiba o que fazer para conciliar várias tarefas e ingressar nesse novo time de profissionais.

Carreiras múltiplas

Se o LinkedIn, rede social para profissionais, existisse durante os anos do Renascimento, Leonardo da Vinci teria dificuldade em resumir, em seu perfil, tudo o que fazia. Afinal, o italiano era pintor, escultor, desenhista, cientista, engenheiro, anatomista, inventor, matemático, arquiteto, botânico, poeta, músico. Se quisesse pontuar todas as suas áreas de atuação, ele teria de lançar mão das barras – e colocá-las separando cada atividade. O desafio do gênio da Renascença não poderia ser mais atual.

Ter várias carreiras simultaneamente é uma tendência que, nos Estados Unidos, recebeu o nome de portfolio career, ou “carreira em portfólio”, na tradução literal para o português. O fenômeno está ganhando mais adeptos por causa da flexibilização do mercado, mas já era descrito no início da década de 90 pelo guru dos negócios Charles Handy. Ele disse que esse comportamento significa “perseguir um portfólio de atividades – algumas que fazemos por dinheiro, algumas por interesse, algumas por prazer, outras por uma causa”.

A movimentação em torno do tema tem crescido nos últimos anos e levou a americana Marci Alboher a criar mais um termo para o fenômeno: slash efect, ou “efeito barra”, símbolo do teclado que precisaria ser usado por Da Vinci em seu hipotético currículo “Percebi que as pessoas estavam com dificuldade em preencher o perfil no LinkedIn porque não tinham mais apenas uma profissão. E, então, adotaram a barra para descrever seu portfólio de atividades”, diz Marci, autora do livro One Person / Multiple Careers (“Uma Pessoa / Múltiplas Carreiras”, ainda sem edição brasileira, e-book por 12,49 reais na Amazon).

Segundo especialistas, esse tipo de atuação não é mero bico. Isso porque se caracteriza como um projeto de vida que é construído em torno de uma coleção de habilidades e interesses em comum. “Bico é quando as pessoas usam o tempo livre para ganhar um troco a mais, sem frequência. Mas, quando você investe seu tempo com paixão e propósito, está construindo uma nova carreira”, diz Marcelo Veras, co- fundador da Inova Escola de Negócios.

EQUAÇÃO EQUILIBRADA

Você pode estar pensando: “Duas carreiras? Eu já fico esgotado investindo em uma só”. No entanto, para muitos, a dupla – ou tripla – jornada tem sido a recarga de combustível que faltava para dar aquele gás à vida profissional. “Vivemos em uma época de busca por propósito e identidade. Encaramos o trabalho como uma arena de realização pessoal, e não apenas como uma fonte de renda”, explica Mônica Barroso, coach e também diretora de aprendizagem da The School of Life Brasil, escola com sede em São Paulo que se dedica a desenvolver a inteligência emocional.

Para essa turma, quando existe equilíbrio entre trabalhar por dinheiro e trabalhar para perseguir interesses pessoais, há mais felicidade. Prova disso é um estudo realizado em 2017 pela And Co, empresa criadora de um aplicativo para autônomos, que revelou que 68% das pessoas sentem ter mais qualidade de vida quando gerenciam diversos projetos ao mesmo tempo. Além disso, 94% dos entrevistados disseram ter escolhido conscientemente viver dessa maneira – e têm a pretensão de continuar nesse esquema para sempre.

Embora no Brasil ainda não existam estudos específicos sobre o assunto, a sensação dos especialistas é que a tendência vai crescer por aqui, considerando a aptidão das próximas gerações para o autogerenciamento. De acordo com um levantamento global desenvolvido pelo europeu Grupo Sage, 66% dos millennials não querem emprego formal. Entre os brasileiros, o número salta para 71%. “É uma geração que busca o propósito e o bem-estar e que nem sempre encontra isso no mercado corporativo. Por esse motivo, passaram a buscar a realização em paralelo a uma carreira formal”, diz Alexandre Attauah, gerente sênior de recrutamento da consultoria executiva Robert Half.

MUITAS RAZÕES

As motivações para ter mais de uma carreira são diversas. Do ponto de vista pessoal podem variar da vontade de atuar numa área complementar ao desejo de aprender coisas novas e à necessidade de encontrar maneiras de ampliar os ganhos financeiros em atividades que gerem satisfação. Do ponto de vista do mercado, é inteligente se preparar para uma realidade na qual trabalhar por projeto e com contrato flexível será a regra. ”À medida que a economia avançar para contratos de curto prazo e projetos freelances, será útil cultivar mais de uma maneira de ganhar a vida. Assim você poderá se movimentar conforme as mudanças das condições de mercado”, diz a americana Marci. “Uma pessoa que tem uma vivência diversa possui mais repertório e pode ampliar suas f rentes de atuação”, diz Henrique Dias, diretor de planejamento da consultoria Box 1824.

Além de aumentar o escopo de trabalho, um profissional múltiplo fortalece sua empregabilidade, pois desenvolve habilidades altamente demandadas, como o poder de adaptação, a agilidade frente às mudanças e a boa e velha resiliência. “Essas são qualidades bem-vistas por qualquer empresa.”, diz Alexandre.

PERFIL ESPECÍFICO

Mas esse tipo de carreira não é para todo mundo (faça o teste no final do post). Aqueles que forem apegados à rotina e à estabilidade financeira provavelmente serão infelizes atuando em mais de uma frente, a não ser que consigam conciliar um trabalho de meio período com as atribuições de outra carreira. As características mais importantes para se sentir realizado nesse esquema são: gostar de desenvolver vários projetos ao mesmo tempo, ter aptidão para criar relacionamentos, sentir vontade de desbravar um novo mercado, ter certa tolerância ao risco e, claro, ser curioso. “Quem descobre que uma segunda profissão faz sentido já pesquisou e experimentou vários tipos de trabalho. Sabe que o mundo está rodando e que precisa rodar junto”, afirma Eduardo Migliano, um dos fundadores da 99 Jobs, plataforma que conecta profissionais a empresas.

Criatividade e organização também são essenciais. “Essas pessoas têm vontade e energia acima da média, porque a dupla jornada requer maior esforço e disciplina, já que é preciso lidar com duas ou mais agendas”, diz Alexandre, da Robert Half.

Os atributos podem até parecer excessivos. Mas não se desespere: ninguém precisa ser um gênio da Renascença para trabalhar desse jeito. Tudo é uma questão de perfil. Por isso, antes de encarar a jornada, lance mão de uma boa dose de auto­conhecimento para entender se esse estilo tem, ou não, a ver com você. Afinal, só vale a pena entrar numa tendência se ela realmente fizer sentido para sua vida. Se parecer que essa não é sua praia, faça testes e reflita sobre os resultados. Essas são duas das verdadeiras habilidades dos gênios. Certamente Leonardo da Vinci aprovaria a atitude.

 

MULTIPLIQUE-SE

Destacamos atitudes que ajudam a encontrar (e a equilibrar) mais de uma área de atuação.

 PENSE NO QUE DÁ PRAZER

Avalie seus hobbies e interesses. Invista tempo refletindo sobre as atividades que lhe dão mais satisfação. Quando não está trabalhando, como gosta de passar o tempo? O que lhe daria muito prazer em fazer mesmo que não ganhasse dinheiro?

CRIE UMA LISTA

Anote todas essas atividades em um bloco de papel e considere se alguma delas poderi ser transformada em fonte de renda.

REFLITA SOBRE SI MESMO

Identifique no que você é bom e quais atividades fazem seus olhos brilhar. Quais são seus valores? Com que tipo de pessoa você deseja interagir? Quais projetos ou clientes o ajudarão a criar o impacto que deseja no mundo?

AMPLIE SEU REPERTÓRIO

Concentre-se em dominar algumas habilidades que se alinham com seus pontos fortes. Se necessário, busque conhecimento por meio de cursos extras e especializações.

REÚNA COMPETÊNCIAS

Quando pensar em quais carreiras seguir, prefira as que se complementam – tanto do ponto de vista das competências quanto dos possíveis clientes. Alguns exemplos são: executivo e consultor corporativo, jornalista e escritor de um blog especializado, advogado e professor.

USE O TEMPO LIVRE

Comece devagar com projetos que realmente o empolgam e que possam ser feitos em seu horário vago, como trabalhar ao lado de um amigo ou atuar como voluntário.

PRECIFIQUE CORRETAMENTE

Não negocie tempo por dinheiro. É melhor cobrar por projeto, e não por hora trabalhada. Caso contrário, você se verá trabalhando exaustivamente e correrá o risco de perder a flexibilidade.

REDISTRIBUA AS ATIVIDADES

Se puder, reduza seu trabalho principal para focar o crescimento de sua nova carreira. Um fisioterapeuta, por exemplo, que atende na própria clínica pode atuar três dias no consultório e usar os outros dois para a outra atividade.

TRABALHE COM EQULLÍBRIO

Organize sua agenda. Lembre-se de que ter mais de uma carreira não significa dormir menos horas, mas equilibrar as atividades e o tempo. Trabalhar 2 horas a mais por dia (pela manhã e à noite) e fazer um almoço mais rápido são algumas saídas.

MEÇA SEU DESEMPENHO

Trate sua outra carreira com a importância que dá a um grande cliente ou projeto. Elenque as prioridades e faça métricas de seus resultados.

IMAGINE O FUTURO

Tenha um plano para os próximos anos. É importante pensar sobre quais são os possíveis empregadores e clientes e em que local você teria de trabalhar caso a segunda carreira crescesse muito.

TROQUE IDEIAS

Use seu networking. Converse regularmente com as pessoas em sua rede sobre tendências em suas empresas e setores, especialmente no que se refere à terceirização e ao processo de contratação de consultores ou contratados independentes. E não se esqueça de expandir sua rede à medida que você entrar em novas áreas.

MANTENHA O NÍVEL

Cuide de sua reputação. Ela é a alma de quem está buscando novas atuações, pois são as indicações de clientes e colegas que vão ajudá-lo a encontrar novos projetos.

ESCOLHA A DEDO

Aprenda a dizer não. Ter uma carreira múltipla não significa fazer vários trabalhos como freelance por um tempo, mas construir fortes possibilidades de atuação em mais de uma área.

 

 SERÁ QUE É PARA VOCÊ?

Escolha uma das alternativas nas questões abaixo e saiba se seu perfil é adequado a desenvolver múltiplas carreiras.

1 – EM UMA ENTREVISTA DE EMPREGO, QUANDO O RECRUTADOR PERGUNTA SE HÁ ALGUMA DÚVIDA SOBRE A EMPRESA, O QUE VOCÊ QUESTIONA?

A – Como é o pacote de benefícios, a remuneração e os bônus

B – Se há possibilidade de home office e jornada flexível

2 – VOCÊ FICA MAIS FELIZ QUANDO É DESIGNADO PARA LIDERAR UM GRANDE E LONGO PROJETO OU PREFERE VÁRIAS ENTREGAS NO CURTO PRAZO?

A – projeto único

B – várias entregas

3 – EM RELAÇÃO A ASSUMIR RISCOS, VOCÊ SE SENTE:

A – confortável.

B – muito confortável.

4 – SE PUDESSE, FARIA MAIS HORAS EXTRAS PARA GANHAR MAIS DINHEIRO?

A – sim! quanto mais melhor

B – não troco minha qualidade de vida por grana extra

5 – Seu chefe dos sonhos seria:

A – Um líder inspirador que recompensa financeiramente seu esforço

B – vários contratantes de diferentes empresas

 

GABARITO

Conte suas escolhas

 MAIS LETRA A

Você é mais tradicional quando se trata de carreira e prefere manter o foco em uma área de atuação num único empregador. Não hã nenhum problema nisso, mas, caso queira ter mais flexibilidade, comece a pensar em quais de suas habilidades poderiam ser usadas para exercer uma nova atividade.

MAIS LETRA B

Suas respostas demonstram que você não teme o risco, que valoriza mais flexibilidade do que um pacote de benefícios associado à estabilidade de um emprego formal e que qualidade de vida e inovação estão entre suas prioridades. Você está mais alinhado ao estilo de vida de quem atua em múltiplas carreiras.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 29: 21-27

Alimento diário

MÁXIMAS DIVERSAS

 

V. 21 – Observe:

1. É imprudente que um senhor se apegue demais a um servo, que o promova com excessiva rapidez, e permita a excessiva familiaridade com ele, que aceite que ele se intrometa na sua dieta, e no seu modo de vestir e se alojar, e desta maneira o crie delicadamente, por ser um servo favorito e agradável; o senhor deve se lembrar de que ele é um servo, e, sendo assim gratificado, será arruinado para qualquer outra função. Os servos devem suportar as dificuldades.

2. É algo muito ingrato em um servo, mas muito comum, comportar-se de maneira insolente, porque foi tratado com carinho. O humilde filho pródigo se julga indigno de ser chamado de filho, e se concentra em ser um servo: o jovem mimado se julga bom demais para ser chamado de servo, e por derradeiro quererá ser um filho. tomará sua liberdade, se julgará igual ao seu senhor, e talvez tenha pretensões à herança. Que os senhores deem a seus servos aquilo que é justo e adequado a eles, nem mais, nem menos. Isto se aplica ao corpo, que é um servo da alma; os que tratam o corpo com delicadeza. que o mimam e cuidam excessivamente dele, verão que, no final, ele esquece o seu lugar, e se torna um filho, um senhor, um perfeito tirano.

 

V. 22 – Veja aqui o dano que se origina de uma índole irada, inflamada, furiosa.

1. Os homens se provocam, uns aos outros: o homem iracundo levanta contendas, é incômodo e briguento na família e com os outros, alimentando as brasas das contendas, e até mesmo força a urna briga os que desejariam viver tranquilamente ao seu lado.

2. Os homens provocam a Deus: o furioso, que se casa com o seu temperamento e com as suas paixões, não pode deixar de multiplicar as transgressões. A ira indevida é um pecado que causa muitos outros pecados; não somente impede que os homens invoquem o nome de Deus, mas faz com que praguejem, e amaldiçoem, e profanem o nome de Deus.

 

V. 23 – Isto está de acordo com o que Cristo disse, mais de uma vez:

1. Que aqueles que se exaltam serão humilhados. Os que pensam conquistar respeito, exaltando-se acima de sua posição, apresentando-se como nobres, falando de maneira importante, apresentando-se como elegantes e aplaudindo a si mesmos, ao contrário, somente se exporão ao desprezo, perderão a sua reputação, e provocarão a Deus, que tomará providências humilhantes para abatê-los e derrubá-los.

2. Os que se humilham, serão exaltados, e estabelecidos em sua dignidade: o humilde de espírito obterá honra; a sua humildade é a sua honra. e os tornará verdadeiramente e seguramente excelentes, e os recomendará à estima de todos os que são sábios e bons.

 

V. 24 – Veja aqui em que pecado e ruína se envolvem os que são arrastados pela sedução dos pecadores.

1. Eles trazem para si mesmos uma grande culpa: faz isto o que tem parte com o ladrão, que rouba e engana, e lança sua sorte entre eles (Provérbios 1.11, e versículos seguintes). O receptor é tão ímpio quanto o ladrão; e, sendo levado a unir-se a ele, na comissão do pecado, não pode deixar de se unir a ele, no encobrimento do pecado, ainda que seja com os mais terríveis perjúrios e execrações. Ele ouve maldições. quando deveria dizer toda a verdade, e não o denuncia.

2. Eles se precipitam à total ruína: odeiam as suas próprias almas, pois voluntariamente farão o que será a sua destruição inevitável. Veja os absurdos de que os pecadores são culpados; amam a morte, o que há de mais terrível, e odeiam as suas próprias almas, o que há de mais precioso.

 

V. 25 – Observe aqui:

1. Nós somos advertidos a não temer o poder dos homens, nem o poder de um príncipe nem o da multidão; ambos são suficientemente formidáveis, mas o receio servil a qualquer deles é um laço, isto é, expõe os homens a muitos insultos (alguns se orgulham de aterrorizar os temerosos), ou melhor, expõe os homens a muitas tentações. Abraão, por temor ao homem, negou sua esposa, e Pedro, o seu Mestre, e muitos negam o seu Deus e a sua religião. Não devemos recuar do dever, nem cometer pecado, para evitar a ira do homem, e nem devemos nos inquietar com temor, ainda que a vejamos aproximando-se de nós (Daniel 3.16; Salmos 98.6). O homem é mortal (Isaias 51.12) e pode apenas matar o nosso corpo (Lucas 12.5).

2. Nós somos encorajados a confiar no poder de Deus, que nos guardará de todo aquele receio do homem que causa tormento ou tentação. Quem depositar a sua confiança no Senhor, em busca de proteção e provisão, no caminho do dever, será posto em alto retiro, acima do poder dos homens e acima do receio desse poder. Uma santa confiança em Deus engrandece e tranquiliza o homem, e o capacita a olhar com gracioso desprezo os mais formidáveis desígnios do inferno e da terra contra ele. “Eis que Deus é a minha salvação; eu confiarei e não temerei”.

 

V. 26 – Veja aqui:

1. Qual é o caminho comum que os homens tomam para progredir e enriquecer, e se enaltecer: eles buscam a benevolência do governante, e, como se todo o seu juízo procedesse dele, a ele fazem toda a corte. Salomão era um governante, e sabia com que diligência os homens o buscavam, alguns em uma tarefa, outros em outra, mas todos buscavam a sua benevolência. O caminho do mundo consiste sempre em buscar o melhor relacionamento possível com os grandes homens e esperar muito dos sorrisos que têm segundas intenções, e que, no entanto, são incertos, e frequentemente desapontam os homens. Muitos se esforçam buscando a benevolência do governante, e não conseguem obtê-la; muitos podem tê-la por algum tempo, mas não conseguem se conservar nela. em um momento ou outro incorrem no seu desprazer; muitos a têm, e a conservam, mas ela não corresponde à sua expectativa, eles não conseguem aproveitá-la como pensavam que poderiam. Hamã teve a benevolência do governante, mas isto não lhe serviu de nada.

2. Qual é o caminho mais sábio que os homens podem tomar, para ser felizes. Devem olhar para Deus, e buscar o favor do Príncipe dos príncipes; pois o juízo de cada homem vem do Senhor. Conosco, não é como o príncipe quiser; o seu favor não pode nos fazer felizes, e a sua reprovação não nos torna infelizes. Mas tudo está sob a vontade de Deus; cada criatura é, para nós, o que Deus a criou para ser. nem mais, e nem diferente. Ele é a primeira Causa, da qual todas as segundas causas dependem; se o Senhor não ajudar, ninguém poderá fazê-lo (2 Reis 6.27; Jó 34.29).

 

V. 27 – Isto expressa não somente a oposição inata que existe entre a virtude e a maldade, como entre a luz e as trevas, o fogo e a água, mas também a antiga inimizade que sempre existiu entre a semente da mulher e a semente da serpente (Genesis 3.15).

1. Todos os que são santificados têm uma antipatia enraizada pela iniquidade e pelos ímpios. Eles têm boa vontade com as almas de todos (Deus tem, e não deseja que ninguém pereça), mas odeiam os caminhos e procedimentos dos que são ímpios com relação a Deus, e ofensivos aos homens; eles não podem ouvir falar deles, nem falar deles, sem santa indignação; eles odeiam a sociedade dos ímpios e injustos, e temem a ideia de estimulá-los, mas fazem tudo o que podem para trazer a um fim a impiedade dos ímpios. Assim, os homens injustos se tornam odiosos para os justos, e contribui para a sua vergonha e punição o fato de que os homens bons não conseguem suportá-los.

2. Todos os que não são santificados têm uma antipatia igualmente enraizada pela santidade e pelas pessoas piedosas: aquele que é de retos caminhos, que se importa com o que diz e faz, é uma abominação para os ímpios, cuja iniquidade talvez seja suprimida e restringida ou, pelo menos, envergonhada e condenada pela retidão dos retos. Assim aconteceu com Caim, que foi um demônio para o seu pai. A iniquidade dos ímpios é o fato de que odeiam aqueles a quem Deus ama, e, além disso, são também infelizes, pois odeiam aqueles a quem verão, em breve, em eterna bem-aventurança e honra, e que terão domínio sobre eles na manhã (Salmos 49.14).

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BIBLIOTECAS PARA BEBÊS

Livros estimulam os sentidos e despertam o gosto dos pequenos pela leitura e pela escrita

Bibliotecas para bebês

Os sons e as palavras estão presentes desde a remota infância. Mais do que isso, precedem nossa entrada no mundo. Antes de nascer, já estamos imersos no universo da linguagem: fazemos parte de uma história, plena de significados a serem descobertos e construídos simbolicamente. O recém-nascido, antes mesmo de enxergar com clareza o ambiente, responde com o corpo e com vocalizações à fala prosódica dos adultos que dele cuidam e aos ruídos ao seu redor

Cantigas, histórias, cores e texturas são fundamentais nesse processo – estímulos necessários ao desenvolvimento cognitivo, que se inicia no cérebro e se completa nas interações com o meio, numa fina articulação dos sentidos com a memória, a atenção, o raciocínio, as representações e a linguagem.

Um instrumento que começa a ser utilizado agora no Brasil, para aprimorar esse processo e ainda despertar o gosto futuro pela escrita e leitura, são as bibliotecas para bebês e crianças em idade pré-escolar, também conhecidas como bebetecas. Algumas experiências já estão sendo realizadas com sucesso em escolas públicas e particulares. O Centro Municipal de Educação Infantil Cavalinho de Pau, na cidade de Castro, Paraná, é pioneiro nessa iniciativa, atendendo cerca de 130 crianças com idade entre zero e 5 anos, em uma perspectiva de desenvolvimento global.

Para isso, a escola disponibiliza aos pequenos e ávidos “leitores” não apenas livros que exploram os sentidos e a imaginação, mas também bonecos, jogos e vídeos. As mães podem participar, contando história aos filhos. Experiências semelhantes têm sido feitas no Centro de Educação Infantil Hilca Piazero Schnaider, em Blumenau, Santa Catarina; e no Colégio Objetivo, de Sorocaba, São Paulo.

Hoje se sabe que desde muito cedo os bebês já se lembram de coisas e comparam suas características. Aos 7 meses, conseguem diferenciar classes de objetos; aos 9, têm um aumento considerável no tempo de retenção na memória de informações ligadas a eventos; e aos 18 são capazes de compreender as figuras apenas representação de algo real, tudo isso, eles têm muito a se beneficiar com projetos como esse, que visa estimular o desenvolvimento da memória, da linguagem oral e escrita, do raciocínio, da capacidade de concentração, bem como promover  interações sociais. Mais informações: no site http://www.viva leitura.com.br

OUTROS OLHARES

PRECISAMOS FALAR DE SEXO

Especialista em medicina sexual, o carioca Alexandre Miranda alerta para o perigo de informar- se sobre o tema pela internet e aponta mitos que ainda persistem na sociedade.

Precisamos falar de sexo

Sempre que se reúne com os amigos em algum bar da Zona Sul do Rio de Janeiro, onde mora, o médico Alexandre Miranda vira o centro das atenções. Todos querem saber um pouco mais sobre seu trabalho e, às vezes, aproveitam para uma consulta disfarçada. “Garanto que, se fosse oftalmologista, não iria despertar tanto interesse”, brinca ele. Miranda, de 42 anos, é especialista em medicina sexual, formado pelo St Catherines College da Universidade de Oxford, na Inglaterra, e aprovado no exame do Comitê Europeu de Medicina Sexual (um dos três únicos brasileiros a ter essa certificação). À frente do setor de andrologia e urologia reconstrutora do Hospital Federal de Ipanema, Miranda acompanha de perto as dúvidas sexuais de homens e mulheres, uma área sobre a qual a seu ver, ainda se fala muito pouco.  “O sexo precisa ser tratado de maneira mais natural, sem tabus. É uma questão de saúde pública”, diz. Em entrevista, ele iluminou temas pouco discutidos.

SEXO E INTERNET

“O consumo de pornografia aumentou muito com a popularização da internet e dos smartphones. A educação sexual que os jovens recebem hoje, em principalmente dos vídeos a que eles assistem cada vez mais cedo. Isso tem criado expectativas pouco realistas, com sérios efeitos colaterais. O rapaz olha para si mesmo, compara-se com o ator e se sente inferior. Pensa que o ato sexual tem de durar uma hora para ser bom e se frustra. A mulher acredita que precisa se submeter a tudo para satisfazer o parceiro. A euforia cenográfica torna uma relação normal menos interessante. São noções muito erradas, que prejudicam a autoestima de todos”.

TEMPO AO TEMPO

“O intervalo médio entre a penetração e a ejaculação masculina é de cinco minutos e trinta segundos. Para muitas mulheres, cinco minutos não é o suficiente para alcançar a excitação. Costumo usar a seguinte comparação: enquanto ele é um forno elétrico, ela é um forno a lenha. Por outro lado, a mulher conta com a grande vantagem de ser capaz de ter um, dois, três orgasmos seguidos. Para todo mundo ficar satisfeito, o homem precisa investir no antes ou no depois da mulher. E não custa lembrar: também precisa ter conhecimento da anatomia feminina. Isso é informação básica.”

NÃO É DOCUMENTO

“Quando pergunto a meus pacientes qual o tamanho médio de um pênis ereto, a resposta-padrão é ’18 centímetros’. Errado. Na verdade, está longe disso: 13 centímetros. Pode parecer pequeno, mas é assim que ele se encaixa melhor na anatomia feminina – sem falar que, nela, as principais terminações nervosas, como o clitóris, estão do lado de fora. O que faz diferença na relação sexual definitivamente, não é o tamanho do pênis.”

CADÊ O ORGASMO?

“É mais comum do que se pensa a mulher fingir orgasmo. Não existe estudo que crave um percentual, mas os pesquisadores trabalham com a estimativa de 40 % no mundo. Eu desconfio que seja mais. Muitas mulheres nunca tiveram um orgasmo na vida e não conseguem tocar no assunto com o parceiro. É como se sentissem culpa por não conseguir e chamassem a responsabilidade unicamente para si. A emancipação feminina é um fato, mas no sexo elas se conhecem pouco e são muito reservadas em relação a seus problemas.”

PRAZO DE VALIDADE

“Uma pesquisa do University College London, chamada “Base neural do amor romântico”, mostrou a casais uma foto do parceiro em diversas fases do relacionamento e mapeou suas reações cerebrais através de ressonância dinâmica. No início, as imagens fizeram com que várias partes do cérebro, principalmente as mais primitivas, reagissem. Três anos depois, as mesmas regiões não apresentaram estímulo. Daí a conclusão de que a paixão dura três anos e depois dá lugar a novos sentimentos ou a um novo relacionamento. Uma das explicações é genética: mantendo relações curtas, as mulheres têm filhos de pais diferentes, e para a espécie a variedade de DNA é mais interessante”.

MÍNIMO É MUITO

“Um estudo publicado no The Journal of Sexual Medicine mostrou que o casal que contabiliza ao menos quatro relações sexuais por mês tem menos probabilidade de se separar. Não existe um número ideal, mas eu diria que esse é o mínimo em um relacionamento saudável. Pode parecer pouco, mas as pesquisas também revelaram que o homem casado faz mais sexo que o solteiro, porque é prático, seguro e confortável”.

RAZÃO E TRAIÇÃO

“Os índices de infidelidade masculino e feminino são bem diferentes: 60% e 25%, respectivamente. Do ponto de vista fisiológico, a explicação para tanta discrepância está na testosterona, o principal hormônio sexual masculino. Prova disso é que os percentuais de traição entre homossexuais do sexo masculino são muito maiores do que entre homem e mulher ou entre duas mulheres. É claro que o hormônio não serve de desculpa para a traição. Digo e repito aos meus pacientes: você não é macaco, você é um cara racional.  A racionalização pode vencer o instinto. O ser humano sempre consegue ser do contra. Nós modificamos a natureza todos os dias”.

APRENDE-SE NA ESCOLA

Nenhum país é mais evoluído hoje em dia em matéria de educação sexual do que a Holanda – o que é curioso, porque a sociedade holandesa é bastante conservadora. Lá a educação sexual é disciplina ensinada desde cedo na escola e isso faz toda a diferença, como comprovam os baixos índices de doenças sexualmente transmissíveis, de gravidez indesejada e de abortos clandestinos. Não se trata de invadir a crença das famílias, ir contra o que prega a Igreja ou masturbar bebês – a insanidade que a ministra Damares Silva chegou a propagar em pelo menos uma ocasião. Educação sexual é um conjunto de informações técnicas que precisam ser divulgadas. E, quanto mais cedo aprendermos a falar sobre o assunto de maneira natural, melhor todo mundo vai lidar com ele”.

GESTÃO E CARREIRA

MESTRE EM SUPERAÇÃO

Primeira professora com síndrome de Down no Brasil, Débora Seabra de Moura lutou para conquistar seu espaço no mercado de trabalho. Hoje, ela é uma referência na inclusão de pessoas com deficiência.

Mestre em superação

“O que será que essa professora ensina?” Esse foi o comentário que a desembargadora Marília Castro Neves, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, fez no Facebook quando soube que o Brasil tinha uma educadora com síndrome de Down. A fala dizia respeito à Débora Seabra de Moura, que desde 2005 é auxiliar de uma classe de ensino fundamental em Natal (RN). A profissional não se intimidou como preconceito e respondeu sobre seu trabalho em uma carta aberta: “Estudo planejamento, participo das reuniões, dou opiniões, conto histórias acompanho aulas de inglês, música e educação física e muitas outras coisas”. O amor pelos livros começou na infância, quando Débora pôde estudar numa escola que não era específica para quem tem Down. Isso gerou uma sensação de acolhimento e estimulou sua vontade de trabalhar na área. Para conquistar o objetivo, entrou no magistério da Escola Estadual Luiz Antônio e, mais uma vez, enfrentou o preconceito. Alguns colegas foram intolerantes e o coordenador do curso teve de intervir. Com a ajuda da mãe, que a auxiliava nos estudos, ela superou os obstáculos e conquistou o diploma. Formada, bateu à porta de uma escola particular de Natal e se voluntariou como educadora auxiliar. “As professoras me ajudaram a aprender o trabalho.” Mas suas tarefas não se limitam aos quadros-negros. Débora é vice-diretora da regional do Nordeste da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down, função que a Ieva à viajar pelo Brasil e para o exterior – já ministrou palestra até na sede da ONU em Nova York. Além disso, é autora de um livro de fábulas infantis sobre superação e amizade.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 29: 18-20

Alimento diário

MÁXIMAS DIVERSAS

 

V. 18 – Veja aqui:

I –  A infelicidade do povo que não tem um ministério estabelecido: onde não há visão, nenhum profeta que explique a lei, nenhum sacerdote ou levita que ensine o bom conhecimento do Senhor, nenhum meio de graça, a Palavra do Senhor é escassa, não há visão manifesta (1 Samuel 3.1), então o povo perece; isto tem vários significados, alguns dos quais serão expostos aqui.

1. As pessoas são despidas de seus ornamentos, e assim, expostas à vergonha, privadas de sua armadura, e assim, expostas ao perigo. Quão desolado é um lugar sem Bíblias e ministros, e que presa fácil é, para o inimigo das almas!

2. As pessoas se rebelam, não somente contra Deus, mas contra o seu príncipe; a boa pregação fará das pessoas boas súditas, mas, quando esta falta, elas se tornam turbulentas e facciosas, e desprezam os domínios, por­ que não têm conhecimento.

3. As pessoas são ociosas ou brincam como tendem a fazer os alunos quando o mestre está ausente; não fazem nada com bons propósitos, mas ficam ociosas o dia inteiro, e se divertem no mercado, por falta de instrução sobre o que fazer, e como fazê-lo.

4. As pessoas se dispersam, como ovelhas que não têm pastor, por falta dos mestres das assembleias, para chamá-los e mantê-los juntos (Marcos 6.34). Elas se afastam de Deus e do seu dever por apostasias, e se afastam umas das outras por divisões; Deus é provocado e as dispersa pelos seus juízos (2 Crônicas 15.3,5).

5. Elas perecem, são destruídas pela falta de conhecimento (Oseias 4.6). Veja quantas razões temos para ser gratos a Deus pela abundância de visões manifestas de que desfrutamos.

 

II – A felicidade de um povo que não tem somente um ministério estabelecido, mas bem-sucedido, entre eles, as pessoas que ouvem e observam a lei, entre as quais a religião é o principal; bem-aventurado é este povo, e cada pessoa entre eles. Não é ter a lei, mas obedecer a ela, e viver de acordo com ela, que nos dá direito à bem-aventurança.

 

V. 19 – Aqui está uma descrição de um servo inútil, preguiçoso, ímpio, um escravo que não serve com consciência ou amor, mas puramente por temor. Que aqueles que têm servos como estes tenham paciência, para suportar a irritação e não se atormentar por isto. Veja o seu caráter.

1. Palavras racionais não funcionarão com eles; eles não se emendarão, nem se modificarão, nem serão trazidos às suas atividades, nem curados de sua preguiça e ociosidade, seja por meios agradáveis, seja por palavras ásperas; até mesmo o mais gentil senhor será forçado a usar de severidade com eles; nenhuma razão servirá, pois são irracionais.

2. Nenhuma palavra racional se obterá deles. Eles são teimosos e obstinados, e, ainda que entendam as perguntas que você lhes faz, não lhe darão uma resposta; ainda que você explique claramente o que espera deles, não prometerão corrigir o que está errado, nem cuidar de seu trabalho. Veja a tolice dos servos cuja boca, pelo seu silêncio, pede maus tratos; eles poderiam ser corrigidos por palavras e dispensar os golpes, mas não o serão.

 

V. 20 – Aqui, Salomão mostra que há pouca esperança de trazer à sabedoria um homem que é precipitado, seja:

1. Por impulsividade e irreflexão: Tens visto um homem precipitado nos seus assuntos, que tem uma inteligência desordenada, que parece fazer uma coisa rapidamente, mas a faz somente pela metade, que estuda um livro ou ciência, mas não tem tempo par a digerir o que leu, não tem tempo para fazer uma pausa ou meditar sobre um negócio? Há mais esperança de fazer um estudioso e sábio de alguém que é tolo e lento em seus estudos, do que de alguém que tem uma inteligência veloz e não consegue se fixar.

2. Por orgulho e arrogância: tens visto um homem precipitado nas suas palavras, que fala sobre todos os assuntos iniciados, e se apressa para falar primeiro, para iniciá-lo e concluí-lo, para julgá-lo como se fosse um oráculo? Maior esperança há de um tolo modesto, que conhece a sua tolice, do que dele. que é arrogante.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A PRODUÇÃO DO SILÊNCIO

O filme um lugar silencioso enfatiza como nossa humanidade está inscrita pela capacidade de comunicação que nos remete à construção do simbólico que sustenta a subjetividade.

A produção do silêncio

“É preciso ouvir palavras que jamais foram ditas, que ficaram no fundo dos corações (perscrute o seu coração: elas estão lá); é preciso fazer com que os silêncios da história falem” (Citação de Joyce McDougall no livro Teatros do Corpo O Psicossoma em Psicanálise)

Filme dirigido por John Krasinski, que também atua nele e participou do roteiro. Há notícias que antes de sua entrada na produção do filme havia sequências com diálogos em forma de lembranças antes da invasão alienígena.

No filme que chega aos cinemas não há maiores pistas de onde vêm os monstros que ameaçam, e  todo o clima de medo e terror ocorre pela necessidade absoluta de a família Abbott (Lee, Evelyn, Regan, Marcus e Beau) ter que permanecer sem produzir qualquer som para que não atraiam o ataque dos invasores predadores. O suspense é dado por cada quebra dessa regra, com consequência para Beau (Cade Woodward), que a desobedece. À primeira vista, a produção poderia parecer destituída de capacidade de prender o espectador, mas o que vemos é que alcançou com eficácia esse objetivo. Sua bilheteria já bateu a marca de 340 milhões de dólares e a história já tem previsão de produzir um segundo filme que contaria, segundo declarou Krasinski, a história da origem desse monstro que teria vindo de um planeta onde não havia luz e se desenvolvido aqui até se tornar uma máquina assassina quase perfeita.

A tensão permanente no filme faz pensar em muitas questões e traz ao espectador uma estranha angústia. Entendemos quanto o ato de comunicar-se pela fala faz parte das necessidades mais básicas do humano. A vida produz sons, e quanto mais barulhenta, mais viva! Um parque de crianças nos dá essa dimensão, um bebê que chega ao mundo é puro barulho já na sua capacidade de se comunicar. No longa, esse aspecto toma um tom apavorante. Somos, ao longo da existência, ao mesmo tempo que ensinados a falar, também ensinados a calar, a construir maiores áreas de silêncio, do que não se deve dizer. No caso desse intrigante roteiro, não produzir sons é mesmo questão de sobrevivência, como é avisado no trailer de divulgação, que diz: “silêncio é sobrevivência”, entregando o mote da produção.

A produção do silêncio. 2

SINTONIA DA FAMÍLIA

A ameaça aos membros dessa família virá caso eles produzam qualquer espécie de som. Para sua proteção, desenvolvem toda uma dinâmica para se relacionar e conviver sem produzir perigo, estudam e se falam através da linguagem desenvolvida para surdos, e assim permanecerem unidos sem precisar abrir mão da necessidade vital de se comunicar. O clima de pavor diante de qualquer ação que produza ruído toma o espectador, a fera está sempre à espreita e corre para destruir com precisão. Podemos nos atrever um pouco e estender então a fórmula do roteiro afirmando que produzir silêncio é garantir a continuidade da vida. De quantos silêncios a vida de cada um é feita? Esse aspecto é fundamental para o fazer psicanalítico, fazer falar o que se oculta e que ainda assim produz ação na tentativa de comunicar.

A filha do casal Lee (John Krasinski) Evelyn (Emily Blunt), a adolescente Regan (Millicent Simmonds), traz a todo momento, com sua natural rebeldia da idade, risco para a família, que precisa atender cada regra que impôs em seu funcionamento para que possam todos sobreviver dentro da fazenda onde se refugiaram, no meio oeste americano. Dessa maneira, o burburinho do questionar que um adolescente costuma trazer ao funcionamento da família fica ainda mais sublimado com tensão. A culpa que cada um sente pela perda de Beau ganha fala através dos vigorosos questionamentos de Regan, inclusive a própria culpa que ela sente por ter rompido com um dos combinados, e assim colocar Beau em risco, por sua inocência e ainda incompleta compreensão dos porquês dos combinados, cedendo a um simples desejo e curiosidade, ele é capturado pelo monstro. Aqui podemos nos aventurar em outra incursão curiosa e traçar um paralelo do quanto vemos na clínica a criança como “sintoma da família”, a forma como tenta trazer para o manifesto aquilo que se esconde, muitas vezes paga um alto preço por assim ser, sofre e evidencia uma angústia que carrega o peso de muitas “transferências cruzadas”. Aquele ser tão indefeso é um gigante ao ter derramado sobre si uma incontável quantidade de expectativas, amores e dores.

O filme sem dúvida mobilizou bastante um grande público. Podemos auferir isso pela bilheteria que acabou alcançando. O espectador se mobiliza talvez sem muita consciência do quanto o filme fala de algo muito intimamente ligado a ele mesmo. Mexer com os silêncios de cada um é uma tarefa sempre muito delicada. Cada divã conhece a sutileza que há no abrir uma área protegida de ruídos, onde aquilo que se cala finalmente ganha voz sem chamar o assustador perigo. O silenciar que um dia protege toda uma dinâmica psíquica precisa romper esse pacto em algum momento para o pleno desenvolvimento do sujeito, e isso contempla uma análise, ao que precisa ser dito em voz alta, abandonando assim a obscura zona do não dito.

A produção do silêncio. 3

RUÍDOS PROTEGIDOS

Outra porta de análise possível sai do âmbito individual para alcançar o coletivo. Pensamos que aquele que viveu sob algum regime de exceção ficará ainda mais tocado com o encaminhamento dos fatos a que assiste. O medo de falar, de produzir o som que não pode existir frente ao que oprime, a censura à manifestação livre da vontade são das mais terríveis vivências sutis, portanto, enlouquecedoras, porque já trazem com seu fim o próprio ato que operam. Qualquer censura cala duplamente. Nomear, dar lugar de existência ao falar. Escolher uma palavra é escolher toda uma narrativa, jamais é algo acidental, porque simboliza toda uma experiência. Algumas vivências são tão absurdas que se tornam indizíveis, acabam em grito, esse mecanismo tão animal e fundamental. A palavra, aquilo que nos separa das feras, ou nos transforma nelas. Lee e Evelyn, enquanto mantenedores das regras que censuram os sons, são os que impõem e ao mesmo tempo os que sofrem da impossibilidade da livre comunicação. Evelyn está grávida, uma nova vida chegará sem que se possa impedir, a não ser entregando-a ao monstro, que ela grite suas necessidades. Sabendo disso, preparam um local para isolar o som quando esse bebê chegar, mas nada estará assim tão sob controle.

O filme se torna interessante para nossa análise a partir do momento que nos lança a quase duas horas de sustos e angústia frente a quase nenhuma palavra, um filme sem som, mas não necessariamente sem comunicação, como é quase todo conteúdo psíquico formador de ansiedade, que comunica muitas vezes por sintomas repletos de dor, mas que oculta uma quantidade de realização que, enquanto não vista como tal, resistirá à transformação e a novas possibilidades. Há muita vida ocorrendo sob o manto do silêncio. Uma fórmula que a produção buscou, um tanto quanto ousada, pensamos que antes de aplicá-la, a certeza de dar certo era quase nenhuma, mas intuitivamente talvez, em tempos de muitas vozes sem conteúdo ou afetada ligação, talvez eles tenham entendido que os nossos medos contemporâneos sejam mesmo mais bem representados pelo silêncio. Chegando então a essa nova fórmula, que já tem similares que não conseguiram sustentar o que esse filme sustenta, o diálogo praticamente totalmente ausente. No momento de elaboração desse texto, uma nova produção indo na mesma onda que a de Krasinski entrou para o catálogo de um serviço de streaming, o filme The Silence (2019), mas que embora busque a mesma fórmula não alcançou (ou não compreendeu) a sutileza que faz de Um Lugar Silencioso um roteiro que vale a pena olhar com mais profundidade.

A produção do silêncio. 4

ROMPER SILÊNCIOS

No final do filme, que prometeu entregar uma continuação, vemos Evelyn e Regan obrigadas a enfrentar o predador com arma em punho e a certeza de que é preciso enfrentar o que atemoriza.

É no mínimo interessante pensar que o jeito de chamar para a armadilha fatal esse monstro seja produzir barulho, assim parece que, embora aterrorizante, não seria tão difícil assim enfrentá-lo de forma a extinguir o perigo, talvez a fórmula do Bird Box (2018), em que o que realmente não pode ocorrer é olhar para os monstros, seja mais desalentadora, menos comprometida com a possibilidade de compor novas formas de preservação. Pensamos que é muito provável que uma grande parcela dos espectadores termine de assistir sentindo uma angústia meio sem fácil explicação, afinal trata-se apenas de mais um filme de suspense/ficção. Mas talvez a questão que ele toca sobre a da impossibilidade de produzir os sons, hábito que acontece naturalmente na vida humana, uma necessidade que, de tão natural, pouco falamos sobre ela, acabe por remeter a detalhes muito mais caros à subjetividade e mesmo à cidadania.

A censura e o conceito de recalque, em termos psicanalíticos, têm toda uma questão como origem  de pânico e angústia. Mas, sem dúvida, em qualquer ponto que paremos para analisar, individualmente ou coletivamente, sabemos que é preciso que a vida produza seus sons e que se possa falar, gritar e chorar para que ela siga seu curso livremente.

Como sobreviverá a nova vida, o bebê de Evelyn, em um mundo onde seus sons naturais, sua tentativa de comunicar-se o ameaçam de extinção? Como podemos suportar tantos silêncios em torno de coisas que oprimem e ameaçam? O filme de Krasinski situa-se em uma área entre um bom entretenimento e uma metáfora que os filmes de arte costumam erguer com beleza. Nessa linha divisória, terminou por produzir um cinema interessante, um bom filme que mobiliza sem grandes pretensões. Romper silêncios foi sempre uma tarefa cara à Psicanálise, que constrói caminhos possíveis para que o que atemoriza ganhe uma fala, linguagem, possibilidade de compor novas alternativas menos ameaçadoras e quem sabe mais vivas.

OUTROS OLHARES

A MATERNIDADE ADIADA

O poder de decisão da mulher sobre a hora de ter um filho e o aprimoramento da ciência fizeram crescer a procura pelo congelamento de óvulos.

A maternidade adiada

“Congele seus óvulos aos 30 anos e eles não envelhecerão com você”. “Congelamento de óvulos pelo preço de um lanche” – frases como essas viajam pelas redes sociais nos Estados Unidos. Elas vendem um negócio que nos últimos anos tem conquistado milhares de adeptas: o congelamento de células sexuais femininas, procedimento feito em clínicas de fertilização. No Brasil, o movimento dá sinais de decolar. Não existem estatísticas oficiais, mas clínicas ouvidas calculam que, nos últimos cinco anos, houve um crescimento de cerca de 200%. “As mulheres estão cada vez mais no controle da hora de ter filhos, tenham ou não um parceiro”, diz Edson Borges, diretor médico da Fertility Medical Group, em São Paulo.

Seja qual for o motivo, profissional ou sentimental, as mulheres têm preferido adiar a maternidade. De acordo com o IBGE, o porcentual de mães que dão à luz pela primeira vez aos 30 anos passou de 22.5%, em 2000, para 30,2 %, em 2012, segundo os dados mais recentes disponíveis. A intenção de virar mãe mais tarde se choca com uma realidade: a chance de engravidar naturalmente diminui muito cedo, de 25% a possibilidade de uma mulher de 25 anos, no auge da fertilidade, engravidar ao longo de cada ciclo menstrual. Cai para 8% no caso de uma mulher de 40 anos, ainda em pleno vigor físico. Diz Márcio Coslovsky, diretor da Clínica Primordia, no Rio de Janeiro. “A queda da fecundidade é causada, sobretudo, pelo envelhecimento dos óvulos”. As mulheres já nascem com o total de células sexuais que o organismo terá a vida inteira. Com o passar dos anos, o ovário libera óvulos em menor quantidade e de menor qualidade.

Em cada ciclo menstrual, na faixa em que a mulher tem entre 18 e 35 anos, sob estimulo da medicina o ovário libera mais facilmente a quantidade de óvulos considerada adequada pelos médicos: dezesseis. “O grande volume é crucial porque nem todo óvulo saudável consegue ter bons resultados na hora de formar um embrião”, diz Cláudia Gomes Padilla, diretora-médica do Grupo Huntington, em São Paulo. O valor médio de um procedimento de congelamento gira em torno de 15.000 reais. Para manter os óvulos armazenados, pagam-se 1.000 reais anuais. Eles duram para sempre.

Além da mudança de comportamento, o avanço científico ajudou a aumentar o interesse em conservar óvulos. A técnica tradicional que usava mecanismos de congelamento lento, com duração de mais uma hora, danificava muitas células. Essa demora deflagrava a formação de cristais de gelo que agrediam os óvulos. Agora, trabalha-se com outro recurso, a vitrificação. Por meio dela, o óvulo é congelado em segundos, o que impede a formação dos cristais. A vitrificação faz com que nove em cada dez óvulos fiquem ilesos. Antes, apenas seis em cada dez prosperavam. Pesquisadores de Brigham and Women’s Hospital, em Boston, desenvolveram uma tabela que calcula a taxa de sucesso na gestação de um bebê a partir do congelamento de óvulos. Até os 35 anos, chega a espantosos 85%. Em tese, a mulher que armazenar suas células sexuais nessa etapa da vida, quando for implantá-las de volta, para engravidar, terá essa mesmíssima probabilidade de fecundação em qualquer idade posterior. É a ciência a serviço das mudanças de comportamento. A paulista Andréa de Carvalho Knabe, uma anestesista de 36 anos, decidiu congelar seus óvulos aos 32anos. “Achei que não era hora de ter um bebê, apesar da vontade do meu marido. Não hesitei. Hoje tenho dezesseis óvulos guardados, saudáveis, à espera do melhor momento”.

A maternidade adiada. 2

GESTÃO E CARREIRA

AS REGRAS VÊM AÍ

Até aqui, as empresas de tecnologia têm vivido uma espécie de paraíso libertário: não há regulamentação que limite suas ações. Mas esse tempo já está acabando.

As regras vêm aí

É comum elogiar as novas empresas de tecnologia chamando-as de “disruptoras”, no sentido de que ameaçam as concorrentes estabelecidas não por combatê-las de frente, mas por mudar as regras do jogo. A ideia da ruptura é, mais do que vencer os competidores, torná-los irrelevantes –   como aconteceu com as companhias de iluminação a gás quando surgiu a luz elétrica, ou com as carruagens quando apareceu o automóvel. Essa imagem, porém, é incompleta: as rupturas não se limitam ao mercado em disputa. Em seu conjunto, elas têm afetado a própria compreensão de como funciona (ou deveria funcionar) nossa sociedade. Um dos primeiros pontos de transformação é o mercado de trabalho. Quando as empresas se definem como plataformas, que em vez de empregar diretamente as pessoas dão a elas a oportunidade de prestar serviços a outros clientes, chacoalham-se as normas estabelecidas para um ambiente de dicotomia entre capital e trabalho. O novo profissional não está em nenhum dos campos. É um misto de empreendedor e empregado, de autônomo e funcionário, de subordinado e cliente. Como regular o horário de trabalho de um motorista de aplicativo, para impedir que ele cumpra jornadas exaustivas, se é ele mesmo quem liga ou desliga a máquina que o torna disponível? De um lado, os trabalhadores dessa nova economia são completamente independentes, na escolha dos clientes a quem servir e dos horários a cumprir. De outro lado, porém, a empresa não é uma plataforma neutra de encontro entre um prestador e um tomador de serviço: ela controla o preço, manipula incentivos para obter os comportamentos que deseja e, principalmente, pode “demitir” seus operários sem nem ao menos o desgaste psicológico de ter de chamá-los a uma sala e dar-lhes a notícia – faz isso bloqueando­ lhes o acesso ao aplicativo, no momento que lhe aprouver.

De certa forma, a realidade se adiantou à reforma trabalhista aprovada durante o governo Michel Temer. As normas rígidas de relação entre empregados e empresas têm sido curvadas pelo aumento do número dessa nova classe que poderíamos chamar de “empreendegados”, empreendedores – empregados. Como assegurar-lhes direitos sem eliminar a oportunidade de trabalho? Nos Estados Unidos, Alan Krueger, professor de economia na Universidade Princeton, e Seth Harris, ex-secretário do Trabalho no governo Obama. propõem que a legislação se adapte para contemplar esses trabalhadores autônomos, concedendo-lhes muitas das garantias, mas não todas, de um trabalhador usual – como o direito de organizar-se coletivamente em sindicatos para negociar taxas e condições de trabalho ou permitir que as empresas contribuam para sua aposentadoria sem caracterizar um vínculo empregatício que as leve a arcar com onerosas obrigações.

Como se as complicações trabalhistas já não fossem o bastante, as novas empresas digitais impõem um desafio crescente para diversas normas civis. As inovações representam um desafio regulatório em quatro casos diferentes, de acordo com uma pesquisa de Sarah Light, professora de estudos legais e ética na Escola de Negócios Wharton, da Universidade da Pensilvânia, em colaboração com outros três acadêmicos. A primeira forma de impacto é quando uma empresa presta um serviço semelhante ao de uma companhia existente, mas alega que as regras não se aplicam a ela. É o caso da Uber e de seus congêneres, que argumentam não ser empresas de táxi e dizem que, portanto, seus motoristas não precisam de licenças municipais.

O segundo desafio é quando cidadãos são isentos de seguir normas exigidas para as empresas – mas um app torna possível reunir esses cidadãos num conjunto que se comporta como uma companhia. Assim como a luz pode ser tratada como uma onda ou como um feixe de partículas, é difícil definir se a regulação a ser aplicada é a das pessoas físicas ou a das jurídicas. O exemplo mais claro é do Airbnb: hotéis não podem discriminar que tipo de hóspedes aceitam, mas em sua casa você pode convidar ou não deixar entrar quem você quiser. Se uma pessoa manifesta intenção de alugar uma casa maravilhosa, mas o dono da casa a recusa, seja por alguma reclamação postada no site, seja pela cor de sua pele, a quem ela vai apelar?

Um terceiro desafio regulatório, de acordo com Sarah, é quando um serviço inovador não está previsto nas normas. É o caso das entregas com drones ou dos carros sem motorista. Há que se decidir de quem é o espaço aéreo ou de quem é a responsabilidade em caso de acidente. Finalmente, um quarto desafio é o das tecnologias que resolvem algum grave problema, mas esbarram em normas feitas para outras situações. É o caso das placas solares, que já permitiriam às casas não apenas dispensar o uso da energia da rede, mas também agir como fornecedoras da rede…se houvesse um mercado regulamentado.

A esses quatro desafios é preciso acrescentar a questão das externalidades: os efeitos que um contrato entre duas partes provocam em terceiros, alheios ao negócio. Uma externalidade negativa do serviço de entregas de comida é o aumento de custos para ambulâncias e hospitais, devido aos acidentes com motociclistas. Uma segunda é o excesso de patinetes estacionadas na rua, em alguns casos atrapalhando o tráfego de pedestres. Outra externalidade negativa é para os vizinhos de um apartamento transformado por seu dono em hospedaria. Fica claro que o empreendedor que quiser de antemão resolver todas as pendengas que sua inovação possa provocar não criará coisa alguma. É daí que se explica um dos ditados preferidos do Vale do Silício, o berço da cultura digital. “É melhor pedir desculpas do que pedir licença”. Ou seja, pecados de comissão são mais leves do que os de omissão. No cômputo geral, as inovações têm saldo positivo não apenas na conta bancária dos empreendedores, mas também na vida das pessoas.

As regras vêm aí. 2

NICHO LIBERTÁRIO

Uma consequência dessa postura é o posicionamento ideológico radicalmente contra a regulação. O Estado é comumente definido, para quem está imerso nesse ambiente, como um incômodo e um freio ao progresso. Não à toa, durante décadas o Vale do Silício foi identificado como um nicho libertário dentro dos Estados Unidos. Libertarianismo é, em essência, a crença de que o mercado pode até não ser perfeito, mas é melhor do que qualquer alternativa: o controle estatal, até mesmo em áreas como saúde e segurança pública, provoca ineficiências e abre espaço para a corrupção ou o fortalecimento de uma casta parasitária (os controladores da máquina estatal), que, além de não produzir riqueza, absorve a de quem criou.

Nas décadas de 70 e 80, a propaganda libertária era intensa. O slogan de John Kennedy (“Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país”) era comumente reinterpretado como “Não pergunte o que o país pode fazer por você, faça você mesmo”. Até a virada do milênio, o libertarianismo reinava. Mas, embora ainda haja libertários famosos, como o empreendedor serial Peter Thiel cofundador do PayPal, essa já não é a ideologia reinante no Vale do Silício.

Um estudo conduzido em 2017 pelos professores de economia política David Broockman e Neil Malhotra, da Universidade Stanford, e pelo jornalista Greg Ferenstein, com 600 fundadores e executivos ­chefes de empresas de tecnologia, revelou que seus valores são quase totalmente identificados com o ideal progressista do Partido Democrata. Não é de espantar, visto que 97% das doações para campanhas políticas na região vão para candidatos democratas. Há, porém, duas divergências cruciais em relação ao credo progressista. Eles compreensivelmente atribuem muito mais valor à atividade empreendedora (em vez da ênfase no dirigismo estatal) e são muito desconfiados em relação a sindicatos e à regulação estatal.

 O termo que melhor os define, de acordo com os acadêmicos Brink Lindsey e StevenTeles, é “liberaltarianismo”, um amálgama do credo liberal (no sentido que os americanos lhe dão, de progressista com preocupações sociais) como credo libertário. Isso explica outra expressão cara à cultura empreendedora do Vale do Silício, com ecos aqui no Brasil: todos querem como defendeu Steve Jobs num célebre discurso à universitários, colocar sua marca no universo, fazer algo que tenha impacto positivo na vida das pessoas. A tendência. porém, é que a elite tecnológica perca a briga contra a regulação. Em grande parte, porque a classe se desgastou com tantos conflitos e, quando teve de pedir desculpas e reparar algumas de suas ações ousadas, ficou devendo. Eles ainda são vistos como heróis, mas também como gente mimada, ciosa de seus privilégios.

Em segundo lugar, e não menos importante, os governos estão ficando mais espertos em relação à regulação. São Francisco, por exemplo, proibiu o uso de patinetes elétricas nas ruas, mas desde meado do ano passado a prefeitura está conduzindo um programa-piloto para averiguar que limites pode dar ao serviço de forma que ele funcione como auxiliar do trânsito sem provocar externalidades insuportáveis. Da mesma forma, a cidade de Nova York estabeleceu limites ao número de motoristas de Uber que podem circular pela cidade, mas as regras estão sujeitas a reavaliação daqui a um ano, quando houver mais dados para decidir a intensidade e a direção das regras.

Não é mera coincidência que o cofundador e executivo-chefe do Facebook, Mark Zuckerberg, tenha se tomado um defensor da regulação. No dia 30 de março, ele publicou no jornal The Washington Post um artigo em que defende intervenção em quatro áreas: conteúdo malicioso, integridade das eleições, privacidade e o direito de portabilidade dos dados entregues a uma empresa. Não é que ele tenha se convertido. É que entendeu que a regulação – como mostra o avanço das regras e punições a empresas de tecnologia na Europa – é inevitável e quer pelo menos influenciar o modo como ela será definida.

As regras vêm aí. 3

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 29: 15-17

Alimento diário

A DISCIPLINA DOS PAIS

 

V. 15 – Os pais, na educação de seus filhos, devem considerar:

1. O benefício da correção apropriada. Não somente os pais devem dizer aos seus filhos o que é bom e mau, como devem repreendê-los, e corrigi-los e puni-los também, se necessário for, quando negligenciarem aquilo que é bom ou fizerem o que é mau. Se uma repreensão servir, sem a vara, muito bem, mas a vara não deve ser usada nunca sem uma repreensão racional e séria; e então, embora possa haver um desconforto momentâneo para o pai e também para o filho, ainda assim dará ao filho sabedoria. O filho receberá a advertência, e desta maneira, obterá sabedoria.

2. O erro da indulgência indevida: um filho que não é reprimido nem repreendido, mas é deixado à própria sorte, como Adonias, para seguir as suas próprias inclinações, pode fazer o que desejar, mas, se decidir enveredar por maus caminhos, ninguém o impedirá; é praticamente garantido que seja uma desgraça para a sua família, e traga sua mãe, que o minou e lhe permitiu a sua devassidão, à vergonha, à pobreza, à reprovação, e talvez ele mesmo a maltrate e insulte.

 

V. 16 – Observe:

1. Quanto mais pecadores existirem, mais pecado existirá: quando os ímpios, tolerados pelas autoridades, se multiplicam, e circulam por toda parte, não é de admirar que se multipliquem as transgressões; é como o caso de uma praga no campo: diz-se que ela aumenta quando mais e mais se infectam por ela. A transgressão fica mais atrevida e ousada, mais imperiosa e ameaçadora, quando há muitos que a estimulam. No mundo antigo, quando os homens começavam a se multiplicar, começavam a se degenerar e a se corromper, sim, tanto a si mesmos como uns aos outros.

2. Quanto mais pecado existe, mais próxima está a destruição ameaçada. Que os justos não tenham a sua fé e a sua esperança chocadas pelo crescimento do pecado e pelo aumento dos pecadores. Que não digam que lavaram em vão suas mãos, ou que Deus abandonou a terra, mas que esperem pacientemente; os transgressores cairão, a medida da sua iniquidade será total, e então cairão de sua dignidade e poder, e cairão em desgraça e destruição, e os justos terão a satisfação de ver a sua queda (Salmos 37.34), talvez neste mundo, certamente no juízo do grande dia, quando a queda dos inimigos implacáveis de Deus será a alegria e o triunfo dos santos glorificados. Veja Isaías 66.24; Gênesis 19.28.

 

V. 17 – Observe:

1. É algo muito feliz quando os filhos mostram ser a consolação de seus pais. Os bons filhos o são; eles lhes dão descanso, sossego, e os livram das muitas preocupações que tiveram, a seu respeito; eles dão delícias às almas de seus pais. É um prazer para os pais, um prazer que ninguém conhece, exceto os que recebem a bênção de poder desfrutá-lo, ver o feliz fruto da boa educação que deram aos seus filhos, e ter uma amostra do bem que eles farão, para os dois mundos; é um prazer proporcional às muitas inquietudes de coração que preocuparam os pais.

2. Para isto, os filhos devem ser educados sob rígida disciplina, e não devem ter permissão de fazer o que bem desejarem, nem deixar de ser repreendidos, quando fizerem algo errado. A tolice existente em seus corações deverá, pela correção, ser expulsa, quando são jovens, ou irromperá, para sua própria vergonha, bem como a de seus pais, quando já forem crescidos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS NOVOS TRANSTORNOS DO DSM-5

Os problemas mentais acrescidos na nova edição do manual são os transtornos de acumulação, escoriação, disfórico, pré-menstrual, abstinência de cafeína e cannabis. Vamos entendê-los melhor.

Os novos transtornos do DSM-5

As psicopatologias seguem o modelo médico instituído desde o tempo de Hipócrates, o diagnóstico segue bases empíricas e muito pouco se modificou até hoje. A formulação de diagnóstico se baseia em observação, descrição e categorização das patologias por meio de sintomas característicos que levam à identificação da causa e da evolução da doença para, então, se estabelecer uma direção de tratamento. O diagnóstico passa por uma análise de comportamentos considerados não adequados para tal situação, sendo assim classificados em categorias.

O modelo de classificação das patologias ganhou repercussão mundial dentro da área médica. A Associação Psiquiátrica Americana criou o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DMS, que já está na sua quinta edição e é um instrumento de classificação de patologias que orienta o diagnóstico e o tratamento.

A classificação das patologias por meio da compreensão dos comportamentos considerados inadequados para determinadas situações fica um pouco limitante, pois a topografia de um comportamento não é suficiente para determinar o funcionamento de um sujeito, segundo a óptica de outras ciências, como a Psicologia e a Psicanálise. Existem outros fatores imprescindíveis que determinam o comportamento humano. A Psicologia, por exemplo, aponta a necessidade de se fazer uma análise funcional para a planificação de um tratamento.

A Psicanálise, uma abordagem terapêutica focada na existência do inconsciente, propõe um tratamento focado nas representações inconscientes, que se constituem na primeira infância do sujeito. Freud coloca que existe um determinismo psíquico que comanda os comportamentos. São áreas diferentes, mas todas estão empenhadas em tratar o sofrimento humano, sejam conflitos do cotidiano, doenças psicossomáticas ou transtornos mentais.

Hoje, a modernização da cultura, emoldurada pelo avanço tecnológico que permite um aceleramento em todos os campos sociais, traz também em seu bojo o avanço das novas patologias, o que requer um diálogo mais aproximado das ciências. Nesse sentido faremos uma reflexão sobre a inclusão de novos transtornos mentais proposta no DSM-5, com algumas considerações sobre a visão psicanalítica desses transtornos.

Os transtornos mentais acrescidos no manual e apontados nesta reflexão são os transtornos de acumulação, escoriação, disfórico pré-menstrual, abstinência de cafeína e cannabis.

ACUMULAÇÃO

De acordo com o DSM-5, o transtorno de acumulação (TA) é uma síndrome recentemente acrescida. Trata-se de uma psicopatologia caracterizada pela compulsão de acumular objetos desnecessários e pela dificuldade de se desfazer da posse destes, gerando uma desorganização no ambiente, prejudicando o sujeito e os que estão a sua volta pela condição não salutar de viver.

Os acumuladores tendem a guardar objetos aleatórios, acreditando que servirão no futuro. Há um excesso de coisas guardadas, não conseguem evitar o impulso de acumular, deixando o ambiente atulhado e com odores insuportáveis. Em casos graves, as pessoas ficam impedidas de desempenhar suas atividades básicas, como higiene e alimentação, não cuidam do local nem de si mesmas, permanecendo isoladas e em grande sofrimento, mas não conseguem evitar tal comportamento.

Os sintomas mais comuns são baixa autoestima, insegurança, falta de motivação, desleixo com cuidados pessoais, isolamento social e um estado de muita angústia, quando se sentem ameaçados em seu habitat. Geralmente recusam ajuda profissional. As vezes uma pessoa de seu convívio tem que interferir em busca de tratamento.

Nas descrições do DSM-5, o transtorno fica difícil de ser explicado devido à apresentação de outros sintomas associados, como esquizofrenia, autismo, demência e outras psicoses.

Pesquisas apontam que este transtorno de comportamento disfuncional pode ter início na infância ou na adolescência, intensificando-se os sintomas a partir da vida adulta.

Existem também os acumuladores de animais, que mantêm inúmeros bichos em espaços inadequados ou em condições insalubres. São movidos por um forte sentimento de compaixão para com o animal que está em situação de abandono e sofrendo maus tratos, mas também acabam não proporcionando condições saudáveis para eles.

ESCORIAÇÃO

Seguindo a linha da compulsão, será abordado o transtorno de escoriação (TE) – chamado de skin picking, também conhecido como escoriação neurótica, dermatotilexomania ou escoriação psicogênica. É caracterizado pelo comportamento de beliscar, arranhar, cutucar, cortar, escavar a pele, produzindo lesões. Os focos das escoriações são espinhas, pequenas irregularidades na pele e lesões pré-existentes.

A conduta de beliscar, cutucar, ocorre em resposta a prurido ou outras sensações na pele, como queimação, formigamento, ressecamento ou dor. As partes mais comuns são as de fácil acesso, como o rosto, as mãos e os braços, mas pode ocorrer em outras regiões.

O ato de escoriar a própria pele representa uma manifestação simbólica de conteúdo psíquico e uma manifestação somática de expressões verbais não formuladas. Pode representar, ainda, um desequilíbrio psicofisiológico, funcionando como um catalisador da energia de estresse gerado por tensões e adversidades, levando a pessoa a buscar o alívio por meio de gesto repetitivo de esfregar, coçar, arranhar, beliscar para arrancar a pele.

Os fatores desencadeadores deste transtorno, segundo Freitas, seriam que a pele, sendo o maior tecido do corpo humano e tendo a mesma origem embrionária do sistema nervoso central, apresenta alta sensibilidade às emoções. Tanto os problemas cutâneos quanto a pele podem manter contato estreito com os medos profundos, necessidades e desejos.

Observa-se que mesmo com as descrições classificatórias dos transtornos mentais bem delineadas, acaba-se esbarrando nos contextos emocionais que permeiam a constituição sintomática das síndromes. Dessa forma, cabe fazer uma reflexão sobre a visão psicanalítica, que é uma linha terapêutica que trabalha com as emoções e os sintomas dela oriundos.

Na visão psicanalítica, o diagnóstico é feito através das estruturas clínicas, cuja organização se dá na primeira infância (O a 9 anos), por meio da relação de um infante com um adulto cuidador. Esta longa relação de dependência desnaturalizará os instintos, nos tornando seres pulsionais, movidos pelos afetos. É o que determinará o funcionamento psíquico e o comportamento do ser humano. Essa organização se dá pelo desenvolvimento chamado por Freud de psicossexual (fase oral anal, fálica e genital), no qual as vivências serão fixadas no aparelho psíquico (id, ego e superego).

Nos casos específicos citados acima, os transtornos de acumulação e de escoriação, para a Psicanálise, são sintomas da organização neurótica que se originou pelas fixações excessivas na fase anal (1 ano e meio até 3 anos de idade).

O excesso de vivências nesta fase, principalmente as desprazerosas, deixará a criança presa na fase anal, adquirindo as características preconizadas para esta fase. Uma das formas de manifestação das vivências recalcadas seriam os sintomas, uma defesa para manter sua sobrevivência psíquica.

A criança nesta fase já começa a entender minimamente o que é um “não” e também já está instrumentalizada para exercer sua agressividade. Ela tem posição ativa e posição passiva, tem momentos de extrema fragilidade (passiva), mas também tem como expressar a sua raiva, como resmungar, xingar, bater, morder. A criança tem o cocô como seu primeiro produto, o que sai dela que pode doar para o outro. Não tem noção de que é um produto contaminado. Para ela, é de máximo valor, é uma dádiva que quer dar de presente para o cuidador. O adulto vai colocar as regras e os valores para este produto. Ele pode ser bom ou ruim, tudo que é excessivamente valorizado ou não, vai caracterizar o objeto cocô, ou seja, a libidinação do objeto. Aquilo que é vivenciado como uma experiência extremamente ruim, o ego recalca para o inconsciente e essa representação, mais tarde, definirá os comportamentos do sujeito.

Os transtornos de acumulação e de escoriação são organizações neuróticas obsessivas compulsivas que têm como pano de fundo um forte sentimento de agressividade inconsciente. Têm como característica principal ordem, parcimônia e obstinação. Os rituais são formas de o sujeito não entrar em contato com os conteúdos inconscientes, que são emoldurados por um forte sentimento de agressividade inconsciente. Ele sente um profundo desejo de morrer ou matar. O que importa para o sujeito desta estrutura não é o acumular, mas a ordem em que ele coloca os objetos. É isso que não pode ser mexido, é o que o deixa em um estado de intensa angústia. Ele tem medo dos seus sentimentos mortíferos. Os objetos acumulados o impedem de entrar em contato com seus afetos recalcados.

Um outro sentimento forte que toma conta do neurótico obsessivo é a culpa, gerando autopunição pelos pensamentos pecaminosos. O transtorno de escoriação, na visão psicanalítica, entra nesta categoria, uma forma de o sujeito se autopunir por ter inconscientemente sentimentos de ódio.

PRÉ-MENSTRUAL

Outro transtorno proposto pela nova classificação do DSM-5 é o disfórico pré-menstrual (TDPM), relacionado pela Associação Psiquiátrica com transtorno de humor, depressão e ansiedade. É caracterizado por uma constelação de sintomas emocionais e alterações comportamentais que se manifestam com padrão temporal cíclico em associação com o período pré-menstrual. O diagnóstico ocorre posteriormente à ovulação (fase lútea) e pode se manter até a primeira semana, fase folicular.

Para ser considerado transtorno disfórico pré-menstrual, o paciente precisa apresentar pelo menos cinco sintomas e pelo menos um tem de estar relacionado ao estado afetivo. Devem começar cerca de cinco dias antes da menstruação e se estender até quatro após o término.

Os principais sintomas são: humor deprimido, ansiedade, fadiga, falta de energia, alteração de apetite, excessos ou avidez, hipersônia ou insônia, sensibilidade, inchaço das mamas, cefaleia, dores nas articulações e musculares. Ocorre um conjunto de sintomas físicos, emocionais e comportamentais de caráter cíclico iniciado na semana anterior da menstruação, com alívio posterior.

A etiologia indicada pela visão médica é hormonal, mas existem estudos que não confirmam a correlação da TDPM com o excesso de estrógeno nem com o déficit de progesterona. Esses estudos apontam que o desequilíbrio hormonal não seria o desencadeador dos eventos bioquímicos relacionados ao TDPM no sistema nervoso central e em outros tecidos do corpo. A intervenção é por meio de medicação e mudanças no estilo de vida. As principais medicações são o uso de fluoxetina, sertralina, paraxetina.

Mesmo entre a classe médica não existe um acordo pontual quanto à etiologia do transtorno disfórico pré-menstrual como sendo um fator exclusivamente biológico. Acordam que existe um fundo emocional que perpassa o transtorno. Para a Psicanálise, este transtorno está relacionado com a estrutura neurótica histérica, para a qual o principal mecanismo psíquico de defesa seria a conversão, ou seja, o excesso de energia libidinal volta-se para o corpo, causando sintomas psicossomáticos.

ADICÇÃO

O transtorno relacionado a substâncias e adicção é outro ponto colocado pelo DSM-5, que exige dois ou mais critérios para considerar abuso e dependência. A classificação se dá de acordo com o número de critérios preenchidos, por exemplo: 2 ou 3 é um transtorno leve, 4-5, moderado e 6 ou mais é grave. Neste grupo de transtornos serão apontados aqui o de cafeína e o de cannabis. Esses transtornos têm em comum o uso excessivo da substância para ativar diretamente o sistema do cérebro, produzindo sensações de prazer, envolvendo um reforço nos comportamentos e na produção das memórias.

As drogas citadas são psicoativas e produzem dependência física e psíquica. O uso do café está arraigado na cultura brasileira, já a cannabis é considerada uma droga ilícita e é uma das mais consumidas no mundo, segundo pesquisas.

A síndrome do transtorno do uso da cafeína inclui cefaleia, fadiga, sonolência, angústia acentuada, náusea ou vômito, indisposição, alteração de humor, depressão, em alguns casos até alucinação olfativa.

Para ser considerado transtorno mental de abstinência de cafeína é necessário que o sintoma cefaleia apareça associado a um outro acima descrito. Os sintomas causam sofrimento significativo, podendo até causar prejuízos sociais ou ocupacionais. O aspecto essencial da síndrome é a crise de abstinência devido à cessação ou à redução abrupta do uso da substância. A abstinência costuma aparecer após 12 horas da última ingestão.

O tratamento se dá pela redução progressiva da substância e, em alguns casos mais graves, usa-se medicação. O transtorno mental por uso de cannabis inclui o uso da planta cannabis, conhecida como maconha, ou compostos sintéticos de química semelhante. Está entre as primeiras drogas utilizadas. Pode ser fumada, ingerida de várias maneiras em alimentos e inalada.

O início do transtorno pode ocorrer na pré-adolescência, adolescência e no começo da vida adulta. Desenvolve-se no decorrer de um longo período, embora a progressão seja muita rápida em adolescentes, principalmente naqueles que apresentam algum problema de conduta. O DSM-5 reconhece que a interrupção abrupta do uso diário resulta na síndrome de transtorno mental pela abstinência da substância cannabis. Os sintomas mais comuns são irritabilidade, raiva, agressividade, humor deprimido, inquietação, dificuldade para dormir, redução de apetite, boca seca, taquicardia, perturbação da percepção, alucinação com teste da realidade intacto ou ilusões auditivas, visuais e táteis. A abstinência causa intenso sofrimento, o que dificulta o abandono do hábito, ou recaídas para as pessoas que desejam parar com o uso.

O uso periódico e intoxicação podem afetar de forma negativa o funcionamento comportamental e cognitivo, interferindo no trabalho, escola, relações pessoais, riscos físicos que podem  comprometer a integridade do usuário e do outro (conduzir veículos, prática de esportes perigosos etc.).

Os critérios de diagnóstico apontados pelo manual são alterações comportamentais ou psicológicas, prejuízo na coordenação motora, euforia, angústia, sensação de lentidão do tempo, retraimento social. Duas horas após o uso observam-se sintomas como aumento de apetite, boca seca e taquicardia e, às vezes, alucinações. O tratamento indicado pela Associação Psiquiátrica é medicamentoso.

Para a Psicanálise, tanto o uso da cafeína quanto da cannabis está relacionado à fase da oralidade do desenvolvimento da sexualidade proposta por Freud. A fase oral é o período mais primário do desenvolvimento do bebê. O mundo externo e as sensações internas são sentidas visceralmente pelo seu corpo. As fixações na oralidade determinarão a estrutura clínica histérica e organizarão os sintomas de uma forma mais primária e corporal. O histérico tem um desejo sempre insatisfeito, é o que o faz desejar. Ele busca incansavelmente algo que é perdido para sempre. O adicto busca na substância o objeto excessivamente libidinizado como forma de êxtase, de completude, mesmo sendo algo destrutivo para o ego, pois a busca é inconsciente.

Os objetos em jogo estão relacionados à oralidade. O objeto externo é o seio materno e o interno são as mucosas orais do bebê, que codificarão as emoções vivenciadas pelo pequeno infante. As vivências podem ser boas ou ruins, e o excesso delas causará recalque, deixando a criança aprisionada nos traços orais, o que, na vida posterior, irá influenciar nos comportamentos e nos afetos. A necessidade de ingerir substâncias que, supostamente, irão satisfazer os traços orais inconscientemente recalcados será vivenciada como um êxtase infantil. O inconsciente goza com a substância e o ego padece pelos sintomas.

A forma de tratamento se dá pelo processo analítico. Por meio de técnicas de interpretação do inconsciente, o analista consegue trazer as representações para a consciência para, então, serem analisadas através de reflexões e transformadas, pela relação transferencial com o analista, em uma vivência melhor. Em casos graves há necessidade de medicação, mas sempre associada com um trabalho psíquico, pois as causas estão relacionadas com os afetos e o remédio não remove afetos. Os afetos só podem ser transformados e não extirpados farmacologicamente.

OUTROS OLHARES

O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO FAST FOOD

O desenvolvimento sustntável do fast food

A noite do dia 30 de março se tornou um evento à parte na atribulada rotina dos funcionários do McDonald’s no Brasil. Nessa data, das 20h30 às 21h30, apagam-se as luzes externas dos mais de 900 restaurantes brasileiros da Arcos Dorados, franqueadora master da maior rede de fast food do mundo. O ato é repetido religiosamente há 11 anos e representa um compromisso da empresa com a Hora do Planeta, iniciativa criada pela ONG World Wildlife Fund (WWF). Mas as ações do McDonald’s não param por aí. A companhia já utiliza embalagens 100% certificadas e dá destino correto aos resíduos plásticos e de óleo de cozinha, em parcerias com cooperativas de reciclagem. A rede ainda tem projetos de impacto social em comunidades que ficam no entorno dos restaurantes. “Uma empresa do nosso porte tem um grande impacto para a sociedade e o meio ambiente”, diz Leonardo Lima, diretor de desenvolvimento sustentável do McDonald’s no Brasil. “Por isso, nós temos uma estratégia arrojada em relação a iniciativas de conscientização dos nossos funcionários e da sociedade.”

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