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MATERNIDADE CONGELADA

Preservar os óvulos é tendência entre mulheres que se veem pressionadas pelo desejo de ser mãe e enfrentam incertezas na vida pessoal e profissional. Entenda o fenômeno e como as empresas estão se adaptando a ele.

Maternidade congelada

Um bom pacote de benefícios é um trunfo do empregador na hora de atrair e manter bons profissionais. Muitas empresas vêm se empenhando para oferecer vantagens que façam brilhar os olhos de seus funcionários. Em 2014, gigantes de tecnologia, como Apple, Facebook e Microsoft, levantaram polêmica ao anunciar que passariam a oferecer um subsídio de 20.000 dólares às funcionárias que quisessem congelar seus óvulos (A mesma iniciativa não faz parte da política dessas empresas aqui no Brasil). O procedimento consiste na coleta e na estocagem dos gametas femininos quando a mulher ainda está em idade fértil (até os 40 anos) para que possam ser usados no futuro quando ela achar oportuno. A preservação é feita em contêineres, em temperatura próxima a 200 graus negativos – dai o congelamento ou a criopreservação – e o material pode ser mantido por tempo indeterminado sem perda de qualidade, garantem os especialistas.

A indicação clássica do processamento é médica. “Mulheres que precisam passar por tratamento de saúde que pode comprometer a fertilidade (quimioterapia ou radioterapia, por exemplo) têm a chance de guardar seus óvulos para tentar uma gestação no futuro”’, afirma a ginecologista Maria do Carmo Borges de Souza, diretora médica do Fertipraxis Centro de Reprodução Humana. Os avanços nas técnicas e os bons resultados apresentados em trabalhos científicos fizeram com que a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva deixasse de considerar experimental o procedimento de congelamento de óvulos em 2013, Isso contribuiu para que, cada vez mais, pacientes quisessem se submeter a ele por motivos que não têm a ver com saúde, mas com a vida social e profissional – como mulheres jovens que desejam preservar a fertilidade e outras que se aproximam do limite da capacidade reprodutiva sem a certeza de querer filhos ou sem um parceiro disposto a ser pai.

Não há dados oficiais de procedimentos desse tipo realizados no Brasil – a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) monitora apenas o número de embriões criopreservados, o que não reflete exatamente o mesmo perfil de público nem motivações iguais. Mas, nas clínicas de reprodução assistida, a procura pela técnica mais do que dobrou nos últimos cinco anos. Na Fertipraxis, por exemplo, foram realizados 213 processos de congelamento de óvulos de 2015 a 2018, ante 102 de 2010 a 2014. A Huntington, uma das maiores clínicas de fertilização de São Paulo, conduziu 103 procedimentos em 2013 e 357 em 2018, um crescimento médio de pelo menos 10% na procura a cada ano.

CONGELAR POR QUE?

A iniciativa de Facebook, Apple e Microsoft ainda gera desconfiança quanto a real intenção por trás de bancar o congelamento de óvulos para as funcionárias. Críticos ao subsídio argumentam que se trata de uma estratégia disfarçada para que elas sigam trabalhando e deixem para pensar em maternidade depois. É que a falsa sensação de autonomia dada à mulher sobre a decisão do momento certo para ter filhos só reforça a ideia de que não dá para conciliá-los com uma carreira bem-sucedida. “É preciso olhar para as políticas de apoio à mãe durante os primeiros cuidados com a criança, como licença- paternidade e maternidade estendidas, horários flexíveis, creche. Esse é o período em que ela encontra a maior dificuldade para desempenhar bem os papéis de mãe e profissional”, diz Rita Monte, coach para mulheres e consultora em processos de mudança de cultura em empresas.

É fato que a maternidade afasta as mulheres do mercado de trabalho. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que praticamente metade das profissionais brasileiras é demitida ou se demite no primeiro ano depois de dar à luz. As justificativas para a saída são várias e vão da opção de se dedicar à nova etapa da vida à dificuldade para criar urna estrutura que permita cuidar da criança sem precisar se dedicar menos ao trabalho. No entanto, a principal motivação de quem opta por congelar a fertilidade está menos na esfera profissional do que na pessoal. Em um estudo recente da Universidade Yale, nos Estados Unidos, com 150 mulheres que preservaram seus óvulos, 85% das entrevistadas apontaram a ausência de um parceiro adequado como determinante para a decisão. Índices semelhantes (sempre acima de 80%) foram revelados em trabalhos anteriores com pacientes belgas e australianas. Para a antropóloga Márcia Inhorn, autora da pesquisa de Yale e estudiosa dos impactos sociais da infertilidade e das tecnologias de reprodução assistida em vários países do mundo, o planejamento de carreira definitivamente não é a razão principal por que as mulheres estão congelando seus óvulos. “A maioria tem de 34 a 39 anos e já conquistou boa parte das metas que tinha para a educação e a carreira”, diz a especialista, frisando que esse mesmo perfil é claramente visto em outros países em que os casos de criopreservação de óvulos vêm aumentando. “Essas mulheres estão chegando ao limite da vida fértil sem um parceiro disposto e veem na tecnologia uma chance de realizar o sonho da maternidade”, diz.

Maternidade congelada. 2

MANUAL DE INSTRUÇÕES

A criopreservação de óvulos representa até 30% da demanda dos centros de reprodução assistida, de acordo com os especialistas consultados nesta reportagem. Entenda como o procedimento funciona.

 

PASSO A PASSO

EXAMES – A primeira etapa é passar por exames de dosagem hormonal para avaliar a reserva    ovariana e determinar que expectativas ter em relação ao procedimento.

 ESTÍMULO – Quando iniciar o ciclo menstrual (até o terceiro dia), a mulher começa um tratamento que dura de oito a dez dias de estimulação ovariana por meio de injeções de hormônios, afim de estimular o crescimento de folículos (estrutura onde o óvulo se desenvolve) e garantir uma boa quantidade de gametas para ser congelados (de 15 a 20 óvulos). É comum sentir cólica, inchaço abdominal, enjoo e indisposição.

COLETA – É feita com anestesia, sedação e uso de uma agulha acoplada a um aparelho de ultrassom transvaginal, que aspira os folículos para ser selecionados. são separados para congelamento os considerados maduros. Se nessa fase não for possível colher o número desejado de óvulos, será necessário repetir o ciclo.

ARMAZENAMENTO – Os óvulos saudáveis são identificados, armazenados em uma espécie de           canudo próprio e transferidos para um contêiner com nitrogênio líquido em temperatura próxima a 200 graus negativos. O material pode permanecer ali por tempo indeterminado sem perder a qualidade, segundo os especialistas – há casos de bebês nascidos de óvulos congelados hã mais de 20 anos. vale saber que no descongelamento é prevista uma perda de 5% a 10% dos gametas. Os sobreviventes passam por fertilização in vitro e, então, são implantados no útero. Como em todo o tratamento de reprodução assistida, a gestação não é garantida.

QUANTO CUSTA – De 15.000 a 20.000 reais (procedimento) mais taxa de manutenção anual de 1.000 reais, em média, para manter os óvulos na clínica.

QUEM PODE FAZER – Mulheres em idade fértil, embora o recomendado seja para aquelas de 30 a 40 anos.

RISCOS – A criopreservação é considerada segura. Já foram levantadas hipóteses de que, por causa do uso de hormônios para a estimulação ovariana, o procedimento poderia elevar o perigo de desenvolver câncer de mama e ovário ou menopausa precoce, mas não há evidências que comprovem a teoria. Na Europa, há relatos de casos de câncer em mulheres que se submeteram ao tratamento. Porém, as ocorrências se deram entre pacientes que vendem seus óvulos (o que é permitido em alguns países) e, por isso, repetiram vários ciclos de estimulação hormonal.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.