A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O LADO BOM DO ESTRESSE

Ao contrário do que muitos pensam, uma vida sem nenhum nível de estresse não é a mais saudável. É possível encarar essa reação cerebral com mais positividade e aprender com ela.

O lado bom do estresse

Ao serem perguntadas sobre o que é estresse, muitas pessoas responderiam que é algo que faz mal e que deve ser evitado. Mas a psicóloga americana e professora da Universidade de Stanford Kelly McGonigal propõe uma visão menos maléfica. Durante anos, ela pesquisou o tema e percebeu que se trata de um assunto complexo. Enquanto alguns efeitos do estresse podem aumentar os riscos de desenvolver doenças e ser prejudiciais à saúde, outros apontam melhoras no funcionamento do cérebro e aumento da resiliência, que é a capacidade de se recuperar e de se adaptar à mudanças, por exemplo.

Em seu livro The Upside of Stress (Avery Publishing Group) – O Outro Lado do Estresse, em tradução livre, sem edição em português), Kelly recupera um estudo de 1998 em que perguntou a 30.000 pessoas sobre os níveis de estresse que tinham enfrentado no ano anterior. Os participantes também foram questionados se achavam o estresse danoso para a saúde ou não. Oito anos mais tarde, os estudiosos checaram quantos dos participantes haviam morrido. O resultado: altos níveis de estresse aumentavam as chances de falecimento em 4.396. Mas a questão que merece mais atenção é que esse risco só se aplicava a quem havia respondido que o estresse era prejudicial à saúde. Os que haviam vivido situações de estresse no ano anterior, mas que não encaravam isso como algo negativo, não estavam mais propensos a morrer. “Os pesquisadores concluíram que não era apenas o estresse que estava matando as pessoas. Era a combinação do estresse e da crença de que ele é prejudicial”, diz um trecho do livro.

A visão é compartilhada por Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR) e co-presidente na Divisão de Saúde Ocupacional da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA), de Porto Alegre. “O estresse nada mais é do que qualquer situação que requer nossa adaptação, e essa situação pode ser positiva ou negativa”, diz Ana. Ou seja, é uma resposta orgânica do corpo e não tem juízo de valor a princípio. Isso, na verdade, depende da percepção de quem vivencia aquele determinado fato. Segundo Ana, o estresse do bem (chamado pelos especialistas de “eustresse”) nos impele para a ação, para a resolução do problema e para o domínio da situação. É aquela sensação boa de se deparar com um desafio. Já o estresse ruim, é responsável por toda a fama de mau do termo (o “distresse” foca na eternidade, no sofrimento, na falta de controle e na frustração.

Essa dualidade mostra que os momentos de desconforto positivo podem gerar aprendizado, significado e ser, sim, prazerosos. Há alguns eventos que, em geral, são estressares positivos, como iniciar um novo trabalho, se casar, aprender um novo hobby, ser promovido, mudar de casa, ou se aposentar”, afirma Alberto Ogata, médico e presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), de São Paulo. “Por outro lado, algumas situações, classicamente, são geradoras de estresse negativo, como a morte de um parente, se divorciar, ficar doente ou ter algum parente doente, perder o emprego ou romper um relacionamento amoroso”, completa.

TERMO CONTAMINADO

O risco de ter doenças é apenas um dos aspectos do estresse, mas, com o passar do tempo, isso contaminou todo o seu significado e causou repulsa em quem passou a acreditar que a melhor estratégia é evitá-lo ­ sempre. Mas essa visão precisa ser transformada, caso se queira desenvolver a inteligência emocional e, principalmente, adotar uma postura mais inovadora, que gera estresse naturalmente, mas que é fundamental para se sair bem em momentos de crise como o que vivemos.

Para mudar essa mentalidade, é preciso, primeiro, entender como você encara o termo. A psicóloga Alia Crum, da Columbia Business School, nos Estados Unidos, acostumada a estudar os efeitos placebo e, por associação, o poder da mente humana, definiu duas maneiras pelas quais as pessoas costumam encarar o estresse. Para ela, existem duas visões: a de que ele é algo prejudicial que esgota a saúde e a de que é algo positivo que fortalece a vitalidade. Sua pesquisa indicou que pessoas que acreditam no estresse do bem levam muita vantagem sobre quem tem uma visão negativa. Elas são menos deprimidas e mais satisfeitas com a própria vida, têm mais energia e menos problemas de saúde. Além disso, são mais felizes e produtivas. Isso porque há a percepção de que o estresse é um desafio, e não uma sobrecarga. Assim, são mais confiantes no lidar com essas situações. “É preciso ter desafios, metas e projetos que exijam envolvimento mental, busca de novos conhecimentos e habilidades. Tudo isso traz motivação que nos enche de energia e, consequentemente, melhoram nosso desempenho”, diz Alberto.

Luciane Infanti, de 40 anos, diretora executiva da Accenture, não tem medo de situações assim. Em sua rotina, trabalha com inovação e dá consultoria para a área de saúde. Parte do trabalho é entender as necessidades dos clientes, da cadeia e do mercado. Propor novas soluções é uma constante obrigação – e algo que pode gerar ansiedade. Para ela, o ponto de estresse é o momento quando é desafiada e precisa defender uma decisão. “Em um primeiro contato, essa situação constrange”, diz. Mas, quando consigo absorver as variáveis e pensar sobre elas para reforçar minhas ideias ou me reposicionar, isso traz uma sensação de conquista maravilhosa”, afirma Luciane. Antes de entrar na consultoria, a executiva teve sua própria empresa e trabalhou durante 12 anos em hospitais, experiência que a ajudou a moldar sua rápida capacidade de adaptação e de resolução de problemas. Há pouco mais de dois anos na consultoria, ela diz que este é um período em que os profissionais serão desafiados e terão sua saúde mental testada. “Temos de ter discernimento de que este é um momento de muitos desafios”, afirma. “O estresse é positivo como alavanca de crescimento, mas é negativo quando fere os valores da pessoa.

CORAGEM DE ENCARAR

Abraçar o estresse é uma das propostas de ensino da Hyper lsland, escola sueca de inovação que não tem provas; nem professores. Eles acreditam que as pessoas talentosas do futuro serão “learners”, ou seja, gente curiosa e com facilidade de aprendizado, e não “knowers”, especialistas e detentores de conhecimento. A escola parte de uma abordagem construtivista de aprendizagem. “Acreditamos que os seres humanos constroem o conhecimento e o significado a partir de suas experiências, por isso incentivamos o aprendizado pela prática”, diz Alex Neuman, designer de aprendizado em pesquisa e desenvolvimento da Hyper Island. A educação consiste em ensinar pessoas a alcançar o seu próprio potencial, mas também a fazer isso ao trabalhar em equipe. E tudo isso pode causar nervosismo. Afinal, aprender sozinho, com os próprios erros, e prestando atenção mais na jornada do que no resultado, pode ser estressante. Não à toa, os três pilares da educação da Hyper lsland são: fricção, frustração e fracasso.

Nas dinâmicas da escola, é possível identificar rapidamente quando o estresse entra em cena. Queremos que os estudantes pisem fora do que é confortável e familiar, além de fazer descobertas. Isso significa, inevitavelmente, assumir riscos, lidar com a incerteza e experimentar o

desconhecido”, afirma Alex. Esse é o momento em que o aprendizado mais acontece, eles chamam de “zona de estiramento”. “Ao mesmo tempo, nós não queremos empurrar os alunos para longe demais, até a ‘zona de pânico’, na qual o estresse ou a pressão tornam-se tamanhos que a aprendizagem não acontece”, diz.

Para esse tipo de abordagem, em que a pessoa percebe a situação como desafio e não como ameaça, Kelly cunhou o termo “biologia da coragem”. Durante um curso para executivos realizado em São Paulo em 2014, Mikael Ahlstõm, um dos sócios da Hyper Island, contou que eles adoram quando grupos entram em colapso e fracassam. “Quando algo assim acontece numa empresa, a tendência das pessoas é esconder qualquer tipo de conflito ou fracasso, afirmou Mikael. “Mas justamente nesses momentos que ocorre o aprendizado, e eles devem ser abraçados e discutidos o máximo passível.” Então, da próxima vez que o estresse surgir – o que deve acontecer logo, – tente fazer o exercício da positividade. Isso vai ajudá-lo a encarar os desafios com mais alegria e vontade de aprender.

COMO VOCÊ LIDA COM O ESTRESSE?

Alia Crum, psicóloga da Columbia Business School, estabeleceu dois modos ­ padrão pelos quais as pessoas costumam enxergar o termo. Veja com qual você se identifica mais.

O lado bom do estresse. 2

Passar por estresse…

…esgota minha saúde e vitalidade.

…debilita minha performance e produtividade.

…inibe meu aprendizado e crescimento.

…tem efeitos negativos e deveria ser evitado.

O lado bom do estresse. 3 

Passar por estresse…

…melhora minha performance e produtividade.

…melhora minha saúde e vitalidade.

…facilita meu aprendizado e crescimento.

…tem efeitos positivos e deve ria ser utilizado.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.