A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VOCÊ SE CONECTA ALÉM DA CONTA?

As descobertas científicas a seguir vão ajudar a repensar sua relação com a tecnologia

Você se conecta além da conta

“Nossa missão é tornar o mundo mais aberto e conectado”, apregoa a página oficial do Facebook, rede social que caiu no gosto de mais de 1 bilhão de usuários em todo o planeta. Correr os olhos pelo feed, a página que se atualiza a cada nova postagem dos contatos, induz a sensação de que estamos abraçando as novidades, seja das nossas mídias preferidas, seja do cotidiano de nossos amigos, próximos ou não. Tal conectividade, no entanto, tem seus custos psicológicos – é o que vários estudos revelam. Como, então, aproveitar as redes sociais e outros meios de entretenimento tecnológico de forma mais equilibrada? Não há regras, mas prestar atenção ao tempo dedicado às interações virtuais e se questionar sobre a qualidade delas pode ser um começo.

1 – FACEBOOK PIORA O HUMOR.

De acordo com um trabalho da Universidade de Michigan, por exemplo, quanto mais se usa a rede social, menor a satisfação com a própria vida. Os pesquisadores enviaram cinco mensagens de texto por dia ao longo de duas semanas para 82 adultos jovens, questionando como se sentiam naquele exato momento e quão contentes estavam com a própria vida. “Quanto mais acessavam o Facebook em determinado momento, relatavam se sentir pior na mensagem seguinte que recebiam. O declínio dos níveis de satisfação ao longo do tempo foi proporcional à intensidade de uso da rede social”, relatam os autores em artigo publicado na Plos One. Eles não encontraram nenhuma evidência para duas possíveis explicações para a constatação de que o Facebook diminui a sensação de bem-estar. As pessoas não tendiam a acessar a rede quando se sentiam mal. Embora fossem mais propensas a logar quando sós, a solidão não se revelou um fator relevante para se sentirem pior depois de usar a rede. “Num primeiro olhar, o Facebook parece um ótimo recurso para satisfazer a necessidade humana de interação social. No entanto, em vez de induzir ao bem-estar, parece ter efeito contrário”, escrevem os autores. “A interação ‘direta’ com outras pessoas não prediz esses efeitos negativos.”

2 – SMARTPHONE PODE CAUSAR SENSAÇÃO SIMILAR À PROVOCADA POR DROGAS.

Hoje em dia, 71% das trocas sociais acontecem por meio dos telefones celulares, assim como 86% dos jogos e 90% das mensagens instantâneas, segundo especialistas em análise de sistemas da ComScore (empresa de pesquisa de mercado que fornece dados de marketing e serviços relacionados à internet). E há uma boa razão para isso. Estudos sugerem que o uso de mídias sociais, videogames e outras tecnologias digitais pode provocar “uma sensação similar à provocada por algumas drogas”, segundo o professor de psicologia aplicada a negócios Tomas Chamorro-Premuzic, da Universidade College de Londres, que estuda referências de mídia e de consumo.

“Pesquisas mostram maior disparo de neurotransmissores dopaminérgicos nesses momentos. Isso significa que o cérebro experimenta a interação como altamente prazerosa e responde com uma intensa necessidade de praticá-la”, explica Chamorro-Premuzic.

3 – GATILHO DE ANSIEDADE.

Verificar o e-mail ou o celular o tempo todo em busca de eventuais mensagens é desgastante- mas muitas vezes é difícil resistir. Em pesquisa encomendada em 2012 pela instituição britânica Anxiety, cientistas da Universidade de Salford entrevistaram 300 pessoas sobre seus hábitos virtuais e a relação com seus gadgets (termo que abrange aparelhos portáteis, como celulares e smartphones). Mais de metade, 55%, relataram se sentir “preocupadas ou incomodadas” quando por algum motivo não conseguiam acessar a conta de e-mail ou perfil nas redes sociais, como Facebook e Twitter. Outro dado que chama a atenção é que mais de 60% afirmaram não resistir em checar novas atualizações – era preciso desligar os aparelhos para que conseguissem ignorá-lo. “Se você é predisposto à ansiedade, as pressões tecnológicas funcionam como um gatilho, fazendo-o se sentir mais inseguro e sobrecarregado”, diz Nicky Lidbetter, coordenadora da Anxiety.

4 – USO POSITIVO DAS REDES.

Apesar dos muitos estudos que evidenciam efeitos negativos do uso excessivo de gadgets, em especial das redes sociais, outros trabalhos mostram que esse hábito moderno pode ter suas vantagens. Cientistas da Universidade da Califórnia em San Diego sugerem, em estudo publicado este ano na Plos One, que o uso de mídias sociais pode “espalhar felicidade”. Postagens de conteúdo positivo incentivam outros usuários a fazer o mesmo, constataram em um estudo que analisou mais de 1 bilhão de atualizações de status anônimas de mais de 100 milhões de usuários do Facebook entre 2009 e 2012. A triagem dos textos foi feita com a ajuda do software Linguistic lnquiry Word Count, que avalia o “conteúdo emocional” nas postagens. “Status de conteúdo positivo são mais contagiosos que os negativos e parecem influir nas expressões emocionais de outros contatos”, diz o autor do estudo James Fowler, da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia. “Podemos estar subestimando drasticamente a utilidade das redes para melhorar a saúde física e mental. Elas podem ser ferramentas úteis para pensar estratégias para difundir bem­ estar”, diz fowler.

OUTROS OLHARES

EMAGRECER NA FACA

O Brasil já é o segundo país que mais realiza a cirurgia bariátrica, nome do procedimento que reduz o tamanho do estômago. E concorre para se tornar o primeiro do mundo. Por quê?

Emagrecer na faca

Passado o Carnaval, voltemos à dura realidade. De cada 100 brasileiros, cinquenta estão fora do peso – ou melhor, acima do peso. Levam no corpo cerca de 15 quilos a mais, tomando-se como referência uma pessoa com 1,70 metro de altura. Desses cinquenta, dezesseis estão empenhados numa guerra contra a balança, mas não conseguem voltar à forma nem mudar seus hábitos alimentares. E, ainda dentro dos cinquenta, há 32 milhões de brasileiros que vivem uma situação dramática em termos de peso – são obesos, com pelo menos 30 quilos extras. Por desajustes biológicos, propensão genética ou maus hábitos alimentares, esses homens e mulheres tentam de tudo na academia e à beira da mesa, e, no entanto, nunca obtêm êxito em melhorar a silhueta e a própria saúde. O que fazer?

A alternativa, que ganha cada vez mais tração na sociedade brasileira, é a cirurgia bariátrica, nome esquisito para um procedimento que consiste na redução da dimensão do estômago e do intestino e vem sendo adotado desde o início da década de 90. É uma saída radical. Nos últimos anos, com o avanço das técnicas de operação e o desenvolvimento de medicamentos que permitem uma convivência mais saudável com o novo corpo, deu-se uma explosão de busca pela cirurgia bariátrica. Em apenas cinco anos, a procura pelo procedimento aumentou 47%, de acordo com as estatísticas da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. É um crescimento superior ao de cirurgias mais simples, como a extração de vesícula (subiu 38%) ou de tireoide (6%).

Com esse salto, o Brasil pulou para o topo do ranking mundial da redução de estômago – perdendo apenas para os Estados Unidos, o império mundial da obesidade. O país, no entanto, não é o segundo lugar em obesidade no mundo – ocupa o quinto posto, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde. Mas o cenário nacional vem piorando em ritmo acelerado. Em 1980, apenas 7% da população brasileira era obesa. Em 2015, eram 18% – um aumento semelhante ao observado nos Estados Unidos. Mas, considerando-se apenas a última década, a taxa de obesidade no Brasil cresceu em ritmo superior ao da taxa americana. A continuar assim, estima-se que em cerca de dez anos os brasileiros possam estar tão obesos quanto os americanos.

Por quê? Porque, além de questões biológicas ou genéticas, estamos comendo mais em resposta aos apelos de uma indústria que incentiva o consumo de alimentos hipercalóricos, vende porções de fast- food cada vez mais robustas e espalha máquinas automáticas de alimentos em todos os cantos. O mecanismo da obesidade é comparável ao vício porque envolve o sistema cerebral de recompensa. Por isso tudo, a cirurgia bariátrica tem virado uma preferência nacional – que vai aumentar ainda mais. Em uma decisão recente, o Conselho Federal de Medicina ampliou a indicação do procedimento. Antes, a bariátrica era recomendada apenas a adultos com obesidade mórbida – ou seja, com índice de massa corporal, o IMC, acima de 40.

Agora, é indicada também para adolescentes e, para aqueles com IMC a partir de 30 e com diabetes descontrolado.

“Quanto antes for feita a cirurgia, melhor”, diz Almino Ramos, presidente da Federação Internacional para Cirurgia de Obesidade e Transtornos Metabólicos. “O cálculo é simples: quanto mais tempo uma pessoa se mantiver obesa, menor será seu tempo de vida.” Os quilos a mais ainda na juventude provocam aumento da pressão arterial e alterações importantes na estrutura do coração. É um perigo. Adultos com obesidade grave desde a infância vivem até dez anos menos do que quem manteve a linha. O desequilíbrio prematuro faz aumentar em três vezes o risco de diabetes do tipo 2. “Somente 10% das pessoas conseguem perder muito peso e manter essa condição por mais de cinco anos só com estilo de vida”, diz o endocrinologista Walmir Coutinho.

Atualmente, há 5 milhões de brasileiros elegíveis para emagrecer na faca. Repetindo: 5 milhões. As mulheres adultas, com idade de 25 a 35 anos, são as que mais recorrem ao tratamento – elas são 70% dos pacientes. Há poucos meses, a consultora de telemarketing Sarah Cortez de Sousa, 34 anos e 105 quilos, submeteu-se à bariátrica em um hospital de São Paulo. O procedimento foi feito a partir de cinco microcortes na região abdominal com menos de 1 centímetro cada um. Por eles entraram pinças, um grampeador de titânio e uma micro­ câmera. Controlados por um cirurgião, os instrumentos passaram por uma camada de 8 centímetros de gordura, até chegar ao estômago. O órgão foi então grampeado e passou a ter 10% de seu tamanho original. Em oito meses, ela perdeu 43 quilos.

O Brasil também é um dos campeões mundiais em outra área da medicina – a das cirurgias plásticas, quase sempre atreladas a preocupações estéticas, sobretudo com a redução da gordura corporal aparente. Não se pode comparar a plástica com a bariátrica, que invariavelmente nasce de um problema de saúde, e não de um padrão de beleza. Há, no entanto, uma ponte de comunicação entre as duas práticas. Em um país tropical, mais da rua do que da casa, o culto ao corpo faz diferença. Os gordos sofrem preconceito, os mais magros ganham elogios – é o que se vê desde cedo. “O bullying pode fazer inclusive com que a pessoa coma até como forma de automutilação”, diz a endocrinologista Claudia Cozer Kalil, coordenadora do núcleo de obesidade e cirurgia bariátrica do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Por tudo isso, somado ao aperfeiçoamento das técnicas cirúrgicas, a bariátrica só cresce. Quando foi criada, na década de 80, apresentava um índice de mortalidade de 1,5%. Hoje, ele caiu para 0,1%. As operações duravam três horas. Hoje, apenas uma. O paciente tinha alta cinco dias depois. Agora, deixa o hospital em 24 horas.

Há dois tipos mais comuns de cirurgia bariátrica. A de Sarah, que perdeu 43 quilos em oito meses, é a mais frequente. Chamada de by-pass gástrico, caracteriza­ se pela redução do estômago por meio de grampeamento do órgão. A segunda variante é a gastrectomia vertical, que reduz o estômago para aproximadamente um terço do tamanho original. Essa técnica é recomendada para pessoas que precisam perder menos peso. Independentemente do tipo de operação, o paciente consegue seu objetivo, emagrecer, e porque perde a fome radicalmente – a quantidade de comida consumida cai a um quarto, em média, por falta de espaço de armazenamento. É esse o grande trunfo da bariátrica: reduzir a vontade de comer.

O momento pós-cirúrgico é um dos maiores desafios. Mesmo com a fome suprimida, não é simples habituar-se a pouca comida. Na primeira semana, somente líquidos são permitidos, e em quantidade pífia. Os operados consomem 50 mililitros de água (o equivalente a um copinho de café) a cada 15 minutos. Na segunda semana, a alimentação é cremosa. Na terceira, permite-se a textura de purê, mais consistente. Só a partir da quarta semana alguns alimentos são introduzidos na dieta sólida. Para o resto da vida os pacientes devem repor nutrientes, como vitaminas, sais minerais e proteínas.

Quatro meses depois da cirurgia, perdem-se, em média, 20% do peso total. O objetivo da operação é ficar com 40% a menos dos quilos originais em dois anos. “A cirurgia bariátrica não se resume ao emagrecimento, no entanto. Ela deflagra uma sinfonia de reações”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica, o cirurgião Caetano Marchesini. Ao mexer na arquitetura do intestino e do estômago, a orquestra hormonal desregulada se rearranja. É como se redefinisse o ponto de ajuste, o pontapé inicial para o corpo voltar a funcionar – a tal da nova chance. Após a cirurgia, pelo menos dez hormônios produzidos sobretudo pelo estômago e intestino e relacionados à obesidade são alterados de modo a promover o emagrecimento. E o caso do freio na grelina (composto responsável pela sensação de fome), da leptina (substância da saciedade) e da dopamina (ligada ao bem-estar). O impacto da cirurgia nas doenças associadas ao excesso de peso é brutal. “Na primeira semana, a pressão arterial já está controlada e o diabetes também”, diz Ricardo Cohen, coordenador do Centro de Cirurgia Metabólica do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo. A longo prazo, o risco de derrame cai 80%, o de apneia do sono, 85%. Os níveis de colesterol baixam 70%.

Apesar dos avanços técnicos e das facilidades, a cirurgia está longe de ser uma intervenção simples. Seu impacto biológico e comportamental é enorme, tanto que se recomenda, em alguns casos, acompanhamento psicológico. Em outras palavras, a silhueta muda, mas a cabeça também.

Há relatos de abuso de álcool. Um grupo de trabalho da Universidade Pittsburgh, nos Estados Unidos, acompanhou homens e mulheres em dez hospitais ao longo de sete anos após a cirurgia bariátrica. Resultado: antes do procedimento, 7% abusavam de álcool. Depois da cirurgia, o índice saltou para 16%. Algumas hipóteses foram consideradas para esse aumento de consumo. A alteração fisiológica na absorção pelo intestino das bebidas e alimentos leva mais rapidamente à sensação de entorpecimento, com poucos goles. “Uma segunda possibilidade é o aumento do risco de substituição da fonte de prazer: da comida para o álcool”, diz Maurício Serpa, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da USP.

Ao lado dos desafios psicológicos, há também vantagens psicológicas. A melhora na autoestima é uma delas. Quem se submete à cirurgia bariátrica tem maior probabilidade de mudar o status de relacionamento, de acordo com um estudo sueco publicado na JAMA Surgery. Segundo os resultados, há um aumento de 15% no índice de divórcios entre os pacientes casados. Entre os solteiros, verificou-se um aumento de 21% no índice de casamentos ou de novos relacionamentos nos primeiros quatro anos depois de submetidos ao método. A cirurgia emagrecedora muda o corpo e a mente, e os depoimentos das pessoas que já se submeteram ao procedimento são um testemunho disso. Nos primeiros dias, os pacientes escondem a cirurgia, mas depois, com a redução do peso, passam a celebrá-la como uma vitória pessoal que antes soava inalcançável. É uma reviravolta extraordinária, como mostra exemplo radical – e assustador – de dom Sancho (932 – 966), rei da Península Ibérica.

O monarca tinha problema com sua circunferência exagerada, que o impedia de andar a cavalo, atividade fundamental naqueles tempos medievais. As limitações o fizeram perder o trono. Acompanhado pela avó, desesperado, ciente de que não conseguia fechar a boca, dom Sancho viajou para Córdoba, na Espanha, para ser tratado por um famoso médico de origem judaica. A solução dada pelo especialista foi aterradora: suturar os lábios do rei, deixando apenas espaço para a entrada de um canudo, pelo qual passou a se alimentar de uma dieta líquida. Sancho sofreu com dores lancinantes, mas meses depois, perdera metade de seu peso. E assim, podendo se movimentar como os outros monarcas de seu tempo, recuperou, a galope, o cetro perdido.

Emagrecer na faca. 2

GESTÃO E CARREIRA

DIVERSOS E MELHORES

Analisamos 109 empresas que promovem a inclusão de mulheres, negros, pessoas com deficiência e LGBTI+. Conheça as 36 melhores. Com a diversidade, elas ganham em seus negócios – e contribuem para um mundo melhor.

Diversos e melhores

Quando ficou paraplégico depois de ter sido baleado em 2000, aos 19 anos, o paulistano Ricardo de Carvalho Silva recebeu do médico o conselho de se aposentar por invalidez, já que, segundo o profissional, o jovem nunca mais conseguiria trabalhar. Mas Silva não desistiu de ter uma carreira. Trabalhou em diferentes setores, formou-se em direito e gestão de recursos humanos e, há 12 anos, foi contratado pelo banco Santander como assistente administrativo. Na instituição financeira, ele participa ativamente de dois grupos de discussão com os quais se identifica, o de negros e o de pessoas com deficiência (PCD), criados para promover a diversidade. Ao fazer uma radiografia das PCDs ao longo de 2017 e 2018, o Santander descobriu que esses funcionários levam mais tempo do que a média para receber uma promoção – problema que o banco pretende atacar neste ano oferecendo mais oportunidades às pessoas com deficiência. “Ainda há muito a ser feito, mas vejo de perto a evolução”, afirma Silva, que hoje é assistente jurídico no banco.

Silva é um exemplo de funcionário que se engajou nas políticas de diversidade lançadas pelo Santander há dois anos, quando o banco percebeu a necessidade de ter práticas afirmativas e se tornar um reflexo da sociedade. “A diversidade é uma das bases de fomento à inovação e deve alimentar o propósito das empresas”, diz Sergio Rial, presidente do Santander. Promover a inclusão de negros e mulheres tornou-se meta para os 150 principais executivos. Muitas vezes, os profissionais que o banco gostaria de atrair já estavam no radar, mas não havia um acompanhamento próximo para que ocorressem a inclusão e o salto na carreira. Um exemplo são os 620 jovens aprendizes de 2018, entre os quais 70% eram meninas e 55% negras. “Passamos a pensar em formas de reter esses talentos”, diz Fátima Gouveia, superintendente de recursos humanos e responsável pelas ações de diversidade no Santander. Para a diversidade sexual, as iniciativas começaram em 2018, mas o tema já era abordado de forma natural. Rial, inclusive, demitiu um diretor que fez um comentário homofóbico durante uma reunião. “Não vemos nessa discussão nenhum fundo ideológico, mas humanista e respeitoso”, afirma Rial. “Buscamos criar um ambiente em que cada um possa encontrar e desenvolver a melhor versão de si mesmo.”

Com essas práticas e bons indicadores quantitativos, o Santander desponta como a Empresa do Ano de Diversidade. Apesar de serem recentes, as iniciativas estão estruturadas nos quatro pilares de diversidade e equidade – étnico – racial, LGBTI+, mulheres e pessoas com deficiência – analisados por este guia. Trata-se de uma iniciativa em parceria com o Instituto Ethos, que há 20 anos ajuda empresas a gerir seus negócios de forma socialmente responsável. “Essa parceria traz para o processo as mais importantes redes de atuação em diversidade nas empresas. O objetivo é fortalecer a agenda da diversidade e da inclusão social no meio empresarial”, diz Caio Magri, presidente do Ethos.

Diversos e melhores. 2

O VALOR DA DIFERENÇA

As empresas que promovem a diversidade e a inclusão não o fazem por mero bom-mocismo. Uma pesquisa da consultoria McKinsey, realizada globalmente com 1.000 companhias e divulgada no ano passado, revelou que empresas com diversidade de gênero no time executivo obtêm, em média, lucros 21% maiores do que as demais. Entre as que valorizam a diversidade racial, essa diferença sobe para 33%. “Não é mágica. É uma relação de causa e consequência”, diz Heloísa Callegaro, sócia e líder em diversidade da McKinsey. “Empresas com mais diversidade tomam decisões melhores para públicos mais amplos.” Não há uma pesquisa similar sobre o Brasil, mas mapeou-se os principais interesses das companhias que atuam no país. Os dados mostram que as empresas começam a ganhar consciência do poder da diversidade em seus negócios. Entre as 109 empresas inscritas, 95% acreditam que a diversidade gere resultados positivos nos negócios. Dessas empresas, 93% citam como benefícios da diversidade a melhoria no clima organizacional, 87% a retenção de talentos, 84% o aumento da produtividade e 58% a melhoria do desenvolvimento de produtos ou serviços. “As empresas sabem que a diversidade trará resultados positivos, mas a maioria delas ainda percebe isso de maneira inicial”, diz Ana Lucia de Melo Custódio, diretora adjunta do Ethos.

No Brasil, as empresas que dão atenção à questão da diversidade se encontram em diferentes graus de maturidade. Nesta primeira edição do guia, nenhuma das 109 inscritas obteve pontuação acima da média nos quatro pilares analisados. Contudo, é possível perceber algumas tendências entre as melhores empresas. O tema em que elas estão mais avançadas é o das mulheres, no que diz respeito à sua presença na força de trabalho e em programas de desenvolvimento de carreira e liderança. O segundo tema em que as companhias inscritas estão em estágio mais adiantado é o de pessoas com deficiência – a lei prevê, no mínimo, 5% de PCDs em empresas com mais de 1.000 funcionários. Segue-se o de diversidade étnico-racial, em que também há cotas – neste caso, para a admissão de jovens pretos e pardos em universidades. Por fim, há a promoção dos direitos do grupo LGBTI+. Nesse pilar, apenas 15 das 36 empresas destacadas neste guia obtiveram notas acima da média. Esse tema apresenta uma complexidade adicional, já que os funcionários não são obrigados a declarar sua orientação sexual e, portanto, as empresas não têm uma radiografia detalhada desse público. O que está claro é que as oportunidades são ainda mais restritas para travestis e transexuais, que vivem à margem da sociedade: grande parte deles está na prostituição, segundo estimativas. “O fim da discriminação está na agenda das empresas. O próximo passo é a promoção dos direitos”, diz Reinaldo Bulgarelli, secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+.

A análise das empresas que mais se destacam por promover a diversidade no Brasil revela diferenças significativas entre os setores de atividade. Naqueles conhecidos por ambientes predominantemente masculinos – geralmente fabris -, é menor o número de empresas que se classificaram entre as melhores. Os setores de agronegócio, auto indústria, bens de capital, construção civil, eletroeletrônico, siderurgia e mineração tiveram, cada um, apenas uma representante entre as melhores. Uma delas é a empresa de alimentos Cargill, onde ações afirmativas, como a inclusão de funcionários negros e trans no programa de jovens aprendizes, começam a gerar efeitos positivos, especialmente após a criação do comitê de diversidade em 2016. “Uma pesquisa de clima revelou que 85% dos funcionários sentem que podem ser eles mesmos na Cargill Brasil. Com isso, o engajamento tende a melhorar e os negócios também”, afirma Simone Beier, diretora de recursos humanos da Cargill. Outro exemplo é a Schneider Electric, do setor eletroeletrônico. Em 2011, com o apoio da então presidente Tania Cosentino, a subsidiária da multinacional francesa criou um grupo para ampliar as oportunidades de carreira para mulheres. O movimento ganhou força em 2014, quando a companhia assumiu compromissos globais junto à ONU Mulheres, braço das Nações Unidas focado na promoção da igualdade de gênero. Estabeleceu a meta de que, até 2020, 30% dos cargos de liderança sejam ocupados por mulheres. Em busca do objetivo, a empresa criou ações para envolver líderes e suas equipes. Em uma delas, adotou a regra de que, em todo processo seletivo, pelo menos uma mulher deve estar entre os candidatos finalistas para qualquer vaga. “Para ser uma empresa disruptiva, precisamos de pessoas diferentes e com ideias distintas”, diz Maristella Iannuzzi, diretora global da experiência digital e responsável pela área de diversidade e inclusão da Schneider Electric.

PASSO A PASSO

Entre as companhias que se destacam por suas práticas de diversidade, é possível identificar um caminho em comum. O primeiro passo para a maioria das empresas é realizar a coleta de informações para traçar o retrato social que existe internamente. O próximo passo é envolver os funcionários nos processos e ouvir suas necessidades. Nessa etapa, muitas companhias criam os grupos de afinidade – uma equipe de funcionários, geralmente coordenada por até uma dezena de pessoas, que discutem e compartilham as ações. Para engajar o maior número possível de funcionários, os grupos costumam ser abertos. “Se não houver membros diferentes e que se respeitem mutuamente, a diversidade perde sentido.

Quando se discute a questão de gênero, por exemplo, é necessário ter o auxílio também dos homens”, diz Margareth Goldenberg, gestora executiva da organização Movimento Mulher 360. Quando essas equipes começam a dar resultados, 54% das empresas inscritas realizam um censo interno para análise do perfil e da trajetória dos empregados, obtendo os recortes de diversidade.

Outra ação adotada por muitas empresas é o engajamento da liderança e o treinamento de “vieses inconscientes”. Esses vieses ocorrem quando uma pessoa toma, sem perceber, uma decisão tendenciosa. Por exemplo, quando um gestor contrata um estagiário que estuda na mesma universidade em que ele se formou, por acreditar ser essa a melhor opção. Segundo estudos, os funcionários que percebem esse tipo de preferência ou preconceito de seus superiores têm quase três vezes mais probabilidade de pedir demissão. A consultoria Gallup estima que o desligamento de funcionários custa cerca de 500 bilhões de dólares por ano às empresas nos Estados Unidos. “As empresas gostam de abordar o tema de vieses inconscientes porque é um modo de tornar o ambiente mais inclusivo sem apontar o dedo para ninguém. Afinal, todo mundo tem vieses e pode trabalhar para diminuí-los”, diz Regina Madalozzo, professora na escola de negócios Insper, de São Paulo.

É um trabalho árduo e contínuo e sujeito a escorregões. O Grupo Carrefour, que tem cerca de 40.000 empregados no Brasil, aparece neste guia como destaque nos temas de diversidade étnico-racial e mulheres. Ainda assim, a rede varejista se viu envolvida em um episódio ocorrido em outubro de 2018 em uma loja em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Um cliente com deficiência física alegou ter sido vítima de racismo depois de ser agredido por um segurança por ter aberto uma lata de bebida dentro da loja. O Carrefour afastou o segurança. “O funcionário havia passado por treinamentos contra racismo, mas lidamos com muitas pessoas e temos a variável incontrolável dos sentimentos humanos”, diz Karina Chaves, gerente de diversidade do Carrefour. “Entendemos que o melhor a fazer seria desliga-lo e reforçar aos empregados os nossos valores.” A companhia também já passou por episódios em que precisou ensinar aos funcionários como explicar ao cliente por que uma pessoa trans estava usando um banheiro para determinado gênero. “As empresas precisam preparar os funcionários para lidar com o público sem discriminação. Com a conscientização da sociedade sobre seus direitos, temos um aumento no número de denúncias e a judicialização do tema”, diz Daniel Teixeira, diretor de projetos do Ceert, ONG que atua pela equidade racial e de gênero.

Entre as 109 empresas inscritas no guia, 25 são de médio e três de pequeno porte. Nessas, assim como nas grandes companhias, o tema em estágio mais avançado é o da equidade entre homens e mulheres. No escritório de advocacia Trench Rossi Watanabe – que teve a melhor avaliação entre as PMEs -, as mulheres são 53% dos sócios. A existência de mulheres nessa posição é uma prática iniciada no escritório na década de 80. Mas ganhou impulso em 2016, quando foi criado um comitê de diversidade, que passou a estabelecer ações como a construção de uma sala para amamentação nos escritórios. Pequena ou grande empresa, o mapeamento feito mostra que esse é um assunto incipiente no Brasil e ainda há muito o que avançar. Por sorte, em muitas empresas, a promoção da diversidade tem sido impulsionada por suas matrizes em outros países, que estão mais avançados nessa seara. Nos Estados Unidos, questões de gênero e raça são tratadas há décadas. Na Europa, há países como a Noruega, onde, desde 2008, é obrigatório que as mulheres ocupem no mínimo 40% das cadeiras do conselho executivo das empresas, medida que está sendo copiada por países vizinhos. “Alguns pilares da diversidade estão mais bem resolvidos em alguns países, enquanto em outros, como o Brasil, ainda há um caminho a ser percorrido”, afirma a economista Sylvia Ann Hewllet, especialista em diversidade e professora na Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos. Mas ela ressalta um ponto positivo: “Quando o tema se torna uma preocupação das empresas, os indicadores começam a mudar e os resultados efetivos a aparecer”.

 

OBS.:

ESTE POST ABRE UMA SÉRIE SOBRE DIVERSIDADE E DEVERIA TER SIDO PUBLICADO ONTEM, POR DESCUIDO INVERTI A PUBLICAÇÃO …DESCULPEM*ME E BOA LEITURA!

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 25: 8 – 10

Alimento diário

MAS DE PRUDÊNCIA

 

I – Aqui há um bom conselho a respeito de recorrer à lei:

1. Não te apresse em iniciar uma ação judicial, antes de ter considerado a questão e ter consultado os teus amigos sobre isto. “Não te apresses a litigar”; não inicie uma ação judicial acaloradamente, ou na primeira impressão de direito do teu lado, mas pondere a questão deliberadamente , porque nós somos propensos a ser parciais na nossa própria causa; considere a certeza dos custos e a incerteza do sucesso, quanta irritação e preocupação resultarão da ação, e, afinal, a causa poderá se voltar contra você; certamente, então, não deveria ter se apressado a litigar.

2. Não inicie uma ação antes de ter tentado encerrar o assunto de maneira amistosa (v. 9): “Pleiteia a tua causa com o teu próximo mesmo”, e talvez vocês se entendam melhor, e vejam que não há motivos para recorrerem à lei. Nas disputas públicas, a guerra, que deve, por fim, terminar, poderia ter sido evitada através de um tratado de paz, e uma grande quantidade de sangue e recursos seria poupada. Assim é nas disputas privativas: não processe o seu próximo como um pagão e publicano, até que tenha dito a ele qual foi o seu erro, somente entre você e ele, e até que ele tenha se recusado a examinar o assunto ou de chegar a um acordo. Talvez o motivo da divergência seja um segredo, que não deve ser divulgado a ninguém, e muito menos trazido à presença da nação; portanto, encerre a questão em particular, para que não seja revelada. Não descubras o segredo de outro, segundo alguns. Por vingança, e para trazer desgraça ao seu adversário, não revele aquilo que deve ser mantido privado e que não pertence à causa.

 

II – Salomão apresenta duas razões pelas quais nós devemos ser cautelosos para iniciar ações judiciais:

1. Porque a causa poderá ter resultado contrário a você, e você não saberá o que fazer, quando o réu tiver se justificado naquilo de que você o acusou, e terá mostrado que a sua queixa era frívola e vergonhosa, e que você não tinha causa justa para a ação, e assim envergonhará você, forçando-o a pagar as custas, e tudo isto poderia ter sido evitado, ponderando um pouco a questão.

2. Porque será muito vergonhoso para você se for caracterizado como litigioso. Não somente o próprio réu (v. 8), mas também aqueles que ouvem a causa julgada envergonharão e criticarão você, expondo-o como um homem sem princípios, e a sua infâmia não diminuirá: você nunca recuperará a sua reputação.