A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

PERSONA: CARMITA HELENA NAJJAR ABDO

A psiquiatra ajudou a impulsionar a pesquisa sobre o comportamento sexual no Brasil, até então pouco valorizada pela medicina, e a diminuir preconceitos.

Persona - Helena Najjar Abdo

Se a sexualidade hoje ainda é repleta de mitos e tabus, discutir o assunto há 50 anos era uma tarefa ainda mais delicada. Mas ao atender alunos da Universidade de São Paulo (USP) na década de 70, a psiquiatra Carmita Abdo (na época praticamente com a mesma idade de seus pacientes) percebeu que esse aspecto prático da vida psíquica merecia ser compreendido. Era um tempo de intensas transformações sociais e culturais, em que já existia a pílula, mas o mundo ainda não tinha de se preocupar com a ameaça da aids. “A liberdade sexual havia se tornado muito maior, quase sem freios, mas essa era uma área pouco pesquisada, para a qual a medicina não estava suficientemente preparada. Então pensei: por que não estudar mais profundamente aquilo que vinha a mim quase como um apelo para que eu conhecesse mais e entendesse melhor?”, lembra.

Da convivência com esses alunos que Carmita acompanhava veio a inspiração para uma ideia que se concretizou no começo da década de 90: o Projeto Sexualidade no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, no qual realizou a maior pesquisa sobre a vida sexual no Brasil: Estudo do Comportamento Sexual, concluído em 2000, ampliado e atualizado em 2003, quando recebeu o nome de Estudo da Vida Sexual do Brasileiro. O trabalho foi publicado em 2004, com o título Descobrimento sexual do Brasil – Para curiosos e estudiosos, pela Summus.

Primeira de cinco irmãos, Carmita inaugurou uma geração de médicos na família. O pai era dentista, mas não exercia a profissão e a mãe era dona de casa. Para ela, a psiquiatria foi uma “escolha natural”. Era uma adolescente que adorava ler, em uma época em que o caráter interpretador da psicanálise estava em alta. “Eu fazia minhas próprias ‘análises selvagens’ daquilo que presenciava e que me chamava a atenção nas pessoas”, diz. Quando entrou na faculdade, o objetivo já era estudar psiquiatria. “Sempre quis conhecer as pessoas e sua intimidade, tinha fascínio pelas coisas não declaradas; a mente humana também sempre me encantou.” Os pais torceram um pouco o nariz para a opção, mas a oposição foi sutil.

Durante a residência, a psiquiatra interessou-se especialmente pelo estudo da sexualidade segundo a teoria psicodinâmica, que se contrapõe às então chamadas “teorias organicistas”. “Felizmente, mesmo sendo mulher e estudando um assunto polêmico, jamais sofri discriminação por parte de meus colegas”, afirma. A importância de haver naturalidade para debater assuntos em geral cercados de tabus levou Carmita a se interessar cada vez mais pela relação médico – paciente. Tanto que ela acabou dedicando sua livre-docência à teoria da comunicação. Em sua pesquisa acompanhou dez turmas de residentes de medicina e constatou em sua tese, Interações iatropatogênicas: uma contribuição ao estudo da psicologia médica, algo que muitos já intuíam: muitas vezes, por falta de preparo teórico ou experiência, quando não os dois, na relação com o paciente, o psiquiatra acaba aprisionado numa situação que não permite a comunicação saudável. A tese foi publicada pela Editora Lemos, com o título Armadilhas da comunicação – O médico, o paciente e o diálogo.

Persona - Helena Najjar Abdo. 2

NOVOS FANTASMAS

Em 1993, Carmita criou o Núcleo de Medicina Sexual na Faculdade de Medicina da USP, que acabou incubando o Projeto Sexualidade (ProSex), no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. A equipe multidisciplinar conta hoje com psiquiatras, psicólogos, urologistas, ginecologistas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e educadores. O ProSex tem dois sites, o http://www.portaldasexualidade.com.br, com conteúdos específicos para o público em geral, profissionais de saúde e educação e médicos, e o www.museudosexo.com.br, que mostra parte da produção artística de todas as épocas, tendo a sexualidade como tema. Em um dos trabalhos mais recentes que coordenou, realizado durante quatro anos em uma escola pública na Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo, profissionais que participaram do projeto acompanharam o desenvolvimento sexual dos alunos ao longo de todo o ensino médio e conseguiram reduzir o número de gestações prematuras a zero e aumentar o uso de preservativos entre os alunos em 50%. “Foi um trabalho muito bonito, com jogos, palestras e atividades lúdicas para motivar esses estudantes, pais e professores a valorizar a educação sexual.” A pesquisa também rendeu uma cartilha, para ser utilizada em ações em outras escolas. O ProSex contou por oito anos com um Tele sexo, que respondia a dúvidas sobre o assunto. Hoje, porém, o serviço está temporariamente desativado, enquanto os dez atendentes passam por reciclagem. “Esperamos retomar o serviço em breve,” diz Carmita. Embora mitos ainda permaneçam, as dúvidas e os medos dos pacientes que procuram o ProSex são muito diferentes das preocupações dos alunos atendidos por ela na USP na década de 70. “A forma como se vive o sexo hoje é diferente da de 50 anos atrás. Naquela época, para aquela população jovem, a sexualidade era uma questão muito pouco assumida. A grande dúvida era: vou fazer ou não?” Apesar de já existir a pílula, ainda prevalecia a valorização da virgindade, do sexo só depois do casamento, e a mulher ainda era discriminada ao se permitir liberdade sexual.

Segundo Carmita, hoje esse assunto ainda é polêmico, mas as pessoas estão mais bem preparadas para fazer escolhas nessa área.

A vivência sexual ganhou identidade própria, desvinculando-se do amor, do compromisso e de um relacionamento de namoro, até mesmo para a mulher. “Hoje não se pode dizer que ela faz sexo porque ama ou que, por amar, fará sexo.” No entanto, segundo as pesquisas conduzidas pelo ProSex, 40 % das mulheres, especialmente as mais velhas que já tiveram relacionamentos estáveis, consideram que viver a sexualidade com compromisso é fundamental para que se sintam realizadas como mulheres. “O afeto completa a experiência sexual, diferenciando-a daquela atividade que serve só à descarga de tensão.”

Na opinião de Carmita, o grande tabu para a mulher de hoje é o orgasmo: entre as atendidas pelo serviço, 30% reconhecem que não conseguem atingi-lo. “Passamos de um extremo a outro: antes a mulher não se cobrava o prazer, mas a partir do momento em que ganhou essa possibilidade, para muitas o orgasmo se tornou uma obsessão. E isso as aprisiona.

O sexo fica mais prejudicado quando ele se torna refém de preconceitos, não importa quais sejam eles. E, em vez de produzir prazer, produz frustração e constrangimento. “Para os homens, a velha preocupação com o tamanho do pênis ainda é prevalente, assim como a dificuldade de ereção, que atinge 45% dos brasileiros. Somos um povo curioso e sensual, muito aberto, que encara o sexo de forma lúdica. A prática acaba sendo vista como um jogo em que uma série de recursos pode ser acionada. Mas isso não nos torna de maneira alguma isentos de dificuldades nesse campo. Sexo bom é sexo saudável, e isso depende de investimento em educação e na saúde geral.”

Persona - Helena Najjar Abdo. 3

CLAREZA PARA FALAR COM OS FILHOS

Para Carmita Abdo, falar sobre sexualidade em família, de forma saudável, não é questão de rigidez nem de liberalidade. É uma necessidade, já que o tema dificilmente pode ser evitado. “O que importa é que os pais tenham coerência na hora de conversar com os filhos. Quando você tem uma postura única, que obedeça a uma lógica, a criança aprende a administrar bem a situação; tudo fica mais difícil quando existem leis e regras contraditórias. A ambiguidade é extremamente prejudicial, bloqueia, confunde e prejudica o desenvolvimento”, afirma. Mãe de uma advogada e de uma juíza, a psiquiatra sugere que a sexualidade seja debatida abertamente na educação dos filhos, mas que a intimidade sexual de cada um seja preservada. “É comum que os pais fiquem curiosos, mas é fundamental respeitar a privacidade dos jovens”, ressalta.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.