A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NO LIMIAR ONÍRICO

Produto da ativação autônoma do cérebro, os sonhos também trazem consigo toda a complexidade da história afetiva e emocional do sonhador.

No limiar onírico

No ano passado comemoraram-se 64 anos da descoberta do sono REM, um evento que revolucionou nossa concepção do fenômeno e abriu às neurociências a porta do sonho, mantida rigorosamente trancada até 1953. Muito antes dessa data, já em 1895, Sigmund Freud entreabrira essa porta com Projeto de uma psicologia, para em seguida explorar, na interpretação dos sonhos os meandros dos processos oníricos. Desde então, e por 64 anos, o sonho permaneceu domínio da psicanálise, que construiu o conceito do inconsciente e sua teoria da mente em toro do fenômeno.

Em contrapartida, o sono e suas fases sempre foram matéria de interesse fisiológico antes que psicológico. Até os anos 50, o sono era visto como um fenômeno caracterizado por atividade eletroencefalográfica sincrônica com ondas lentas de alta voltagem, e as diversas fases do sono do homem definidas como mais ou menos profundas de acordo com a maior ou menor sincronização dos ritmos eletroencefalográficos (EEG). Desde o adormecimento até a fase do sono profundo, sabia-se que os ritmos são progressivamente mais lentos e sincronizados. Uma fase particular do sono no homem, porém, paradoxalmente similar à vigília, não recebeu a atenção devida, apesar de ter sido descrita no gato por A. J. Derbyshire e colaboradores, em 1936. Somente muitos anos depois, em 1953, Eugene Aserinsky e Nathaniel Kleitman descreveram essa fase “paradoxal” na criança. Mais tarde, em 1962, Michel Jouvet estudou suas características fisiológicas, demonstrando que aquela fase do sono (atualmente conhecida como sono REM) é, de fato, do ponto do vista eletroencefalográfico, parecida com a vigília, pois apresenta uma dessincronização do eletroencefalograma. Além disso, envolve uma queda completa do tônus muscular, movimentos oculares rápidos, ondas monofásicas ponto genículo occipitais (PGO), arritmias cardíacas e respiratórias, variações da pressão arterial e secreção de diversos hormônios (particularmente da tireoide e das supra- renais). O quadro abaixo ilustra as estruturas e as vias cerebrais envolvidas nessas manifestações do sono REM.

Foram justamente as observações realizadas por Aserinsky e Kleitman em 1953 que abriram caminho para a pesquisa neurocientífica do sonho. De fato, esses autores descreveram fenomenologicamente o sono REM, o que permitiu o estudo da atividade mental durante as várias fases do sono. Dessa forma, foi possível descobrir, em 1957 -, com a contribuição de William Dement, entre outros-, que uma porcentagem muito alta de pessoas acordadas durante ou no final de um episódio de sono REM era capaz de descrever uma experiência feita de representações visuais (alucinações) e auto- representações, acompanhadas por um forte componente emocional ou por uma alteração da realidade em termos de espaço e tempo. Tudo isso podia ser claramente definido como sonho.

No limiar onírico. 2

A CONSTRUÇÃO DOS SONHOS

Se, ao contrário, o despertar ocorresse fora da fase REM ou em plena fase não-REM, a experiência relatada seria mais próxima do pensamento e seus conteúdos associados à realidade, sem auto- representações ou participação emocional da história vivida. Nascia, assim, um modelo dicotômico de sono REM e não-REM que representava o equivalente fisiológico da diferença na atividade mental verificada durante o sono: de tipo onírico na fase REM, mais próximo da realidade na fase não-REM.

Essas experiências permitiram pensar o sono REM como a “moldura neurobiológica dentro da qual o sonho pode organizar-se e, portanto, ser narrado. Isso é possível por causa da dessincronização EEC, como expressão de uma ativação neocortical, e da atividade teta hipocampal, como expressão de uma ativação das estruturas límbicas do cérebro. Assim como os movimentos oculares e as ondas ponto genículo occiptiais, esses processos neurofisiológicos foram considerados a expressão de uma atividade de decodificação e leitura das informações que nascem no interior do sistema nervoso e são vividas pelo sujeito como uma história entremeada por fatos bizarros, emoções e alucinações visuais. Uma história que, enfim, pode ser contada.

Pesquisas conduzidas por Mário Bertini e Cristiano Violani demonstraram que na fase REM do sono existe uma dominância de determinado hemisfério relativa aos diversos componentes do sonho: o hemisfério direito ocupa-se de sua organização geométrico – espacial e da ativação das emoções, enquanto o esquerdo tem a tarefa de lembrar e narrar o sonho.

Com base nesse modelo, muitas hipóteses foram formuladas para demonstrar a natureza essencialmente biológica do evento onírico, que prescinde da história pessoal, afetiva e emocional de quem sonha.

A entrada das neurociências na abordagem do sonho como fenômeno fisiológico necessariamente introduziu uma transição da análise de seu conteúdo para o estudo de sua forma. O principal protagonista dessa linha foi Allan Hobson, que se interessou particularmente pelas estruturas cerebrais capazes de gerar, emoções e percepções e que são ativadas de forma seletiva no sono REM. A hipótese de “ativação-síntese, formulada por ele e por Robert W. McCarley em 1977, sugere que a ativação das estruturas da ponte que induzem a fase REM solicitaria o cérebro produzindo informações que, projetadas no prosencéfalo e no sistema límbico, seriam elaboradas para a recuperação da memória, a construção da trama e a participação emocional do sonho.

Mais recentemente, Hobson considerou os principais aspectos cognitivos que o sonho modifica provocando a perda de consciência, de habilidade para a orientação, de pensamento direto, de raciocínio lógico e empobrecendo a memória durante e depois do sonho. Os quadros fisiológicos que podem explicar essa disfunção são, por um lado, a ativação seletiva das estruturas cerebrais responsáveis por emoções e percepções e, por outro, a inibição seletiva das estruturas das quais dependem a memória, a consciência auto- reflexiva e o raciocínio lógico.

Todos esses processos de ativação e inibição neuronal nascem no interior do cérebro e podem explicar as diversas funções mentais no sonho. Isso permitiu a Hobson radicalizar seu pensamento, afirmando que a mente no sonho nada mais é que o cérebro auto- ativado”.

O estudo com técnicas de imageamento evidenciou que durante a fase REM verifica-se no homem um aumento da atividade das seguintes áreas cerebrais: o tegmento da ponte, a amígdala bilateral, o tálamo de esquerda, o córtex do cíngulo e o opérculo parietal, região importante para a construção espacial. Como demonstraram Pierre Marquet e outros pesquisadores em 1996, a ativação límbica poderia representar, por outro lado, o substrato fisiológico da participação emocional do sonho.

Uma confirmação da ativação de determinadas áreas cerebrais – límbicas e paralímbicas, incluídas a ínsula, o córtex do cíngulo e o lobo temporal medial – durante as fases de sono REM veio de Allen R. Braun e colaboradores em 1997. Em seguida, os mesmos autores observaram, sempre durante o sono REM, um aumento de atividade do hipocampo e do giro para- hipocampal juntamente ao córtex extra- estriado. Em contrapartida, o córtex estriado aparece desativado durante essa fase do sono, assim como o córtex pré-frontal dorsolateral e orbital.

Isso poderia significar que a formação da alucinação visual requer a ativação do córtex visual associativo e a desativação da área específica da visão. A desativação do córtex pré­ frontal pode justificar a facilidade com a qual se esquecem os sonhos, que esvaecem de manhã sem deixar sinais.

SONHOS ESQUECIDOS

Pesquisas neuropsicológicas realizadas em 1995 por Mark Solms em pacientes com lesões cerebrais demonstraram que os sonhos e o sono REM desenvolvem-se a partir de regiões anatômicas diferentes: os centros organizadores do sonho não são regulados apenas pelas estruturas da ponte, pois pacientes com lesões, até extensas, do tronco encefálico também sonham. Por outro lado, as lesões do cérebro anterior e das áreas associativas correspondentes impedem os sonhos. Se, porém, a lesão afeta o córtex associativo têmporo-ocipital, os sonhos não desaparecem, mas perdem seu componente alucinatório, enquanto os indivíduos cujas estruturas associativas límbicas estão comprometidas tornam-se incapazes de distinguir os sonhos da realidade e podem viver em situação praticamente contínua de sonho.

Solms reporta ainda várias observações que gerem uma possível dissociação entre o sonho e os vários estados de ativação cerebral. O sonho ocorre, de fato, quando entram em jogo os circuitos dopaminérgicos do cérebro anterior ventromedial, os mesmos que, provavelmente, são responsáveis pelas modificações no nível do aparato genital que se verificam no homem e na mulher durante o sono REM.

Recentemente, Claudio Bassetti notou que os pacientes que apresentam lesões localizadas nas áreas inferiores paretais médio-têmporo-occipitais ou bifrontais cessam de sonhar, e que os sonhos são alterados nos indivíduos com várias patologias límbicas ou do lobo temporal.

Considerados em seu conjunto, esses resultados levantam dúvidas sobre a hipótese, muito redutora, de McCarley: a da “ativação-síntese. Além disso, colocam ao mesmo tempo o problema do papel, durante o sono REM, de amplas áreas associativas (têmporo-parietais frontais e límbicas) que podem ser consideradas responsáveis pelas funções mnemônicas, semânticas, simbólicas e emocionais que caracterizam o pensamento onírico.

A pesquisa cognitivista sobre a atividade onírica se interessou muito pela maneira como o sonho se forma e se organiza, evidenciando a necessidade de que se verifiquem as seguintes condições para a produção do sonho, ativação do córtex cerebral, maturação do córtex associativo que preside a organização simbólica da experiência e possibilidade para o cérebro de criar uma experiência    “multimidial” comparável àquela da vigília. Também a hipótese formulada em 1991 por Rodolfo Llinás e Denis Pare alinha-se a esse modelo cognitivista, para esses autores o sonho que ocorre durante o sono REM é um estado de atenção dirigido ao interior e às lembranças.

A pesquisa psicofisiológica mais recente redimensionou a importância da fase REM para a produção do sonho. De fato, uma atividade mental comparável em tudo à que se registra na fase REM está presente também nas fases não-REM e no adormecimento. Existem, todavia, algumas diferenças, por exemplo, a estruturação espacial e o nível de auto participação do sonho, o número de palavras usadas para contá-lo e sua própria bizarria encontram- se mais presentes e mais bem definidos na fase REM em comparação com as outras. Isso porque nessa fase, as melhores condições de ativação cerebral garantem uma recuperação da memória que permite narrações de uma certa duração. Segundo Llinás e Urs Ribary, a atividade cortical rápida de 40 hetz, observada no sono REM, poderia sugerir uma maior disponibilidade dessa fase para uma atividade cognitiva e para uma organização linguística mais articulada.

Esses dados sugerem que a menor ativação cortical que caracteriza o sono não-REM pode comportar a produção de sonhos com uma menor elaboração das experiências memorizadas e uma menor capacidade narrativa. Todavia, em ambos os tipos de sono, existe uma atividade mental com características comuns que sugere a existência de um único sistema de produção da atividade onírica.

O SONHO E A PSICANÁLISE

A pergunta que podemos colocar aqui é que relação pode existir entre o sonho estudado pelos neurocientistas (e pelos cognitivistas) e o sonho estudado pela psicanálise. O próprio Freud colocou-se um problema análogo em 1895, quando apresentou um modelo de relação mente-cérebro em seu Projeto de uma psicologia. Nesse texto, Freud havia intuído o papel da inibição da motricidade e do afastamento da realidade na produção do sonho. Seguindo seu modelo pulsional, havia considerado a alucinação do sonho como a expressão da satisfação de um desejo removido e, com base nisso, havia definido o sonho como a satisfação alucinatória de um desejo removido na infância.

Nos últimos 64 anos, essa teoria sofreu uma transformação profunda com a passagem de um modelo pulsional para um modelo relacional da mente que valorizou a história pessoal, afetiva e emocional do sujeito, a partir da relação primária que a criança tem com a mãe e com o ambiente em que cresce. Essas primeiras experiências são associadas à sensorialidade e ao corpo através do qual a mãe transmite ao recém-nascido afetos e emoções indispensáveis para seu crescimento mental. Estas, inclusive as traumáticas, são depositadas na memória, uma memória que definimos implícita, porque não podemos guardar a lembrança. As estruturas necessárias para a memória explícita ou autobiográfica não amadurecem, de fato, antes dos 2 – 3 anos de idade. Portanto, estas experiências que precedem a expressão verbal e simbólica formarão um núcleo inconsciente que condicionará a vida afetiva, emocional, cognitiva e até sexual do adulto e não será removido.

A experiência psicanalítica ensina que o sonho consegue dar uma forma simbólica a conteúdos vividos originalmente pré simbólicos, e, consequentemente, permite expressar com palavras aquilo que pertence à história anterior à expressão verbal. Em virtude desse processo, o sonho torna pensáveis, mesmo sem sua lembrança, emoções passadas depositadas na memória implícita e partes estruturais de um inconsciente não removido. O sonho torna-se, assim, um processo de dramatização de afetos e emoções enraizados na história do sujeito, que podem voltar à tona na situação analítica específica. Isso é possível graças à transferência, instrumento específico da psicanálise, que falta à investigação neurocientífica.

Ele é entendido seja como uma situação relacional transferida do passado ao presente, seja como uma projeção, no presente, da análise de objetos internos do indivíduo, isto é, de suas representações arcaicas carregadas de afetos. É em virtude da transferência que o sujeito pode representar no sonho o estado, mesmo de conflito, de suas figuras internas (a dimensão intra- psíquica do sonho) e suas relações com a realidade (a dimensão intersubjetiva do sonho). O drama onírico é, portanto, enraizado na história relacional do indivíduo e na estrutura de seu inconsciente (removido e não removido). Isso faz com que o sonho forneça um conhecimento que diz respeito ao mundo interno de quem sonha, especialmente em sua dimensão inconsciente relativa a experiências primárias, mesmo traumáticas, e, portanto, a fantasias e defesas depositadas na memória implícita, que, por isso, não é possível lembrar. A diferença entre o sonho estudado pela psicanálise e aquele estudado pela neurociência reside, essencialmente, na abordagem epistemológica.

Voltemos, agora, à hipótese reducionista de Hobson – que o sonho nada mais é que mero subproduto da atividade cerebral e, portanto, de interesse puramente fisiológico. Podemos confutar suas conclusões, dizendo que é justamente graças à intervenção do cérebro em suas várias componentes durante o sono que a atividade mental pode expressar-se sob a forma de sonhos. Todavia, essa atividade mental não é um processo fisiológico, mas uma representação pictográfica da mente, tornada possível – através de modalidades das quais, atualmente, não conhecemos as passagens mais íntimas – pela organização fisiológica específica do cérebro.

A experiência analítica ensina que o sonho é um processo de ativação interna só em aparência caótico: na realidade, denso de significados determinados pela história afetiva e emocional do sujeito. É produto do cérebro que, desconectado da realidade perceptiva, pode ativar-se autonomamente. Mas os pensamentos, as percepções e as emoções do sonho são específicos para cada indivíduo, permitindo-lhe fazer uma tramitação entre as mais arcaicas experiências da infância ativadas pela transferência, e as atuais presentes na transferência. Diversamente das neurociências, o sonho que interessa à psicanálise é uma história emocional que permite reconstruir, no decorrer do processo analítico, experiências e fatos vividos

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

2 comentários em “A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS”

    1. Essa é a sabedoria daqueles que sabem que coisas boas não acontecem ao acaso….sonhos e planos precisam ser preparados para que nossas expectativas de concretizem…abraços

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