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SIM, TEMPO É DINHEIRO

Não basta saber como planejar o orçamento para alcançar a prosperidade econômica: existe uma forte associação entre a perspectiva temporal e a facilidade (ou dificuldade) de lidar com aspectos financeiros. Estudo realizado em seis países, incluindo brasil, mostra o que pessoas de diversas nacionalidades levam em conta na hora de comprar e investir.

Sim, tempo é dinheiro

A maioria das pessoas gostaria de lidar melhor com os próprios recursos materiais. Não por acaso, a educação financeira tem sido ampla­ mente divulgada e discutida nos últimos tempos.

Formuladores de política lamentam o pouco acesso a esse conhecimento, e grandes corporações financiam programas para aprimorá-lo. Nos Estados Unidos existe até um mês, abril, dedicado à divulgação de informações nessa área. E de fato aprender a calcular taxas de juros e seu impacto sobre a poupança e sobre os empréstimos, compreender as especificidades dos diferentes investimentos e criar planilhas para controle do próprio orçamento pode até ser útil. Mas saber lidar com dinheiro pode não ser suficiente para melhorar as finanças. Afinal, a relação com bens materiais costuma abarcar bem mais que aspectos objetivos.

Um de nós, Nick Clements, cofundador da MagnifyMoney.com (uma ferramenta de comparação financeira que educa e auxilia consumidores a encontrar ofertas de acordo com seus recursos), passou quase 15 anos se dedicando à criação e à promoção de produtos financeiros para pessoas de todo o mundo, mas sempre duvidou que álgebra e educação econômica pudessem, por si sós, favorecer o orçamento pessoal. Embora esses produtos estejam estreitamente relacionados ao dinheiro, as táticas usadas para vendê-los, não raro, abordam a questão por outros caminhos. As taxas de juros de cartões de crédito ou de empréstimos aparecem em letras quase imperceptíveis nos comerciais publicitários. O que enxergamos claramente são imagens de pessoas sorridentes e felizes. A mensagem que tentam passar é de que podemos emprestar dinheiro de forma rápida ou até mesmo instantaneamente.

O fato é que nossa saúde financeira depende de inúmeras decisões que se acumulam durante a vida. E essas escolhas raramente são feitas com base em planilhas e listas de comparação de produtos enquanto estamos sentados à mesa da cozinha. Pelo contrário, fazemos isso no calor do momento – é a emoção que nos move.

Para entender por que tomamos decisões econômicas inadequadas, precisamos compreender como fazemos escolhas. O que nos influencia na hora da compra? Várias evidências têm demonstrado que, quando se trata de dinheiro, nem sempre optamos racionalmente, mesmo que tenhamos as ferramentas e os conhecimentos necessários para isso. Então, se a matemática não interfere tanto nessas situações, o que poderia nos ajudar na hora de decidir?

Clements e eu (Zimbardo), procuramos encontrar uma explicação melhor do motivo de fazermos escolhas financeiras que podem nos prejudicar.

PARADOXO DO TEMPO

Um de nós (Zimbardo) estuda a perspectiva temporal há mais de 40 anos. A hipótese da pesquisa é que esse elemento seja a chave para compreender como tomamos decisões financeiras e como podemos agir de maneiras que nos permitam fazer melhores escolhas.

No livro O paradoxo do tempo (Objetiva, 2009), Zimbardo e o psicólogo clínico John Boyd revelam como nossas atitudes em relação ao tempo influenciam as decisões que tomamos. Para tanto, os autores focam naquilo que já vivemos, no que experimentamos no momento atual e naquilo que está por vir:

O PASSADO: nossas atitudes em relação ao que ficou para trás importam mais do que os eventos em si. A maneira como nos lembramos do que ocorreu pode afetar significativamente nossas decisões no presente. Os mais otimistas, em geral, procuram resgatar da memória momentos agradáveis com a família, realizações pessoais e aquilo que dá prazer. Esses sentimentos calorosos favorecem a percepção de bem-estar e segurança.

Os mais pessimistas, não raro, encaram o que passou com sofrimento, arrependimento e sensação de fracasso. Ter uma visão excessivamente negativa sobre o que foi vivido pode nos deixar ressentidos, com menor autoestima, além de contribuir para o surgimento de uma depressão. Por outro lado, olhar o passado com excesso de otimismo também não é saudável: pode fazer com que fiquemos presos a ele e nos acomodemos, o que interfere na disposição para assumir riscos e ampliar possibilidades de experiências.

O PRESENTE: para alguns só interessa o aqui e agora. Podemos desfrutar do imediato (atitude hedonista) ou nos sentir presos a ele (fatalista). A primeira opção parece interessante, pelo menos a priori. Pessoas com esse perfil costumam ser alegres, festeiras e bons amigos. Mas em casos extremos podem apresentar comportamentos descuidados, de risco, e se envolver com jogo patológico ou drogas, diferentemente de pessoas que focam o futuro. Já os fatalistas sentem como se sua vida fosse ditada por influências fora de controle; é o caso daqueles que na maior parte do tempo se sentem sem opção, presos a situações que encaram como um fardo pesado demais, pautado pela falta de recursos não só materiais, mas também psíquicos. A resignação, o pensamento imediatista e o cinismo sobrepujam a esperança e o otimismo.

O FUTURO: o mantra de uma pessoa orientada para o amanhã é “meu prazo de entrega acaba em um dia, portanto vou concluir minhas obrigações antes de fazer qualquer coisa que me dê prazer”. A expectativa de uma recompensa sempre postergada abastece as decisões e ações de hoje. Sem exageros, a gratificação adiada em troca de maior recompensa futura pode ser uma aposta vantajosa: é como trocar um pássaro na mão por um bando amanhã. Ou seja: de maneira equilibrada, comportar­ se assim em relação ao futuro pode ajudar a planejar melhor a alimentação, fazer exercícios regularmente, cuidar da saúde e investir na carreira. Em excesso, porém, o foco no ama­ nhã pode ocupar o espaço do aqui e agora. Em troca dos objetivos, muitos sacrificam a família, os amigos e a vida sexual. Não é difícil identificar esse tipo de pessoa: na maior parte das vezes está cansada e mantém uma longa lista de afazeres.

Dois de nós, Clements e Zimbardo, procuramos criar uma definição aprimorada e mais útil de educação financeira e estudar como e por que tomamos decisões econômicas inadequadas. A pesquisa foi feita em seis países: Brasil, Estados Unidos, China (Hong Kong), Itália (Sicília), Reino Unido e Alemanha.

Selecionamos acadêmicos de várias partes do mundo para nos ajudar a concluir o experimento. No Brasil, o estudo foi conduzido pela psicóloga social Umbelina Rego Leite (que também assina este artigo). No total, mais de 3 mil pessoas participaram da pesquisa. Fizemos as seguintes perguntas:

1. Você se considera alfabetizado financeiramente? Qual a sua percepção sobre o tema? Pedimos que avaliassem o grau da própria educação econômica em uma escala de 1 a 7.

2. Você sabe fazer cálculos de orçamento? Distribuímos um questionário sobre matemática financeira. Solicitamos que calculassem o impacto dos juros compostos sobre a dívida do cartão de crédito e comparassem produtos de diferentes custos e durações. Basicamente, a ideia era testar a capacidade de avaliar o melhor negócio.

3. Qual o seu grau de saúde financeira? Pessoas estabilizadas economicamente geralmente conhecem as taxas de sua hipoteca, entendem os juros sobre suas contas e são capazes de responder perguntas básicas sobre finanças que traduzem um conflito que implicam decisões como abrir mão de uma coisa para privilegiar outra. É improvável que esses indivíduos acumulem parcelas em atraso, tenham aberto falência ou o imóvel retomado por falta de pagamento. Já aqueles com dificuldades financeiras, não raro, adiam a quitação da hipoteca, pagam multas por atraso e acumulam juros no cheque especial ou cartão de crédito. Muitas vezes, acordam pela manhã com grande arrependi­ mento da noite anterior. Esses, provavelmente vão “quebrar” e recorrer ao crédito bancário ou a empresas de empréstimo.

Na sequência, aplicamos o Inventário de Perspectiva Temporal Zimbardo (ZTPI), uma ferramenta mundialmente validada para compreendermos a perspectiva temporal. Os dados do estudo confirmaram em grande parte nossa hipótese: aqueles com alta pontuação nos testes tradicionais relacionados a cálculos de orçamento não são mais propensos à prosperidade econômica. Em outras palavras, há pouca correlação entre uma coisa e outra. Identificamos, porém, uma forte associação entre a perspectiva temporal e saúde financeira. Veja a seguir.

PASSADO NEGATIVO: é comum observar pessoas que já passaram por grandes dificuldades econômicas em excelente saúde financeira atualmente. À primeira vista, isso pode surpreender, mas muitos já sofreram prejuízos no passado (ou pelo menos acreditam nisso). Talvez tenham feito um mau investimento ou sido enganados. O lado bom é que essa sensação de perda pode ajudar a manter distância de apostas arriscadas. Equilíbrio econômico é sinônimo de falta de dívidas e distância das consequências negativas que elas trazem. Pessoas com esse perfil podem não ser as mais divertidas em uma festa, mas tendem a preservar sua conta bancária.

PASSADO POSITIVO: assim como uma visão excessivamente negativa do passado, um olhar muito otimista em relação ao que já foi pode nos estagnar. Surpreendentemente, porém, isso pode nos ajudar a gastar menos e impedir grandes apostas financeiras. Como resultado, é provável que sejamos mais saudáveis financeiramente. Esse tipo de pessoa acredita que “é melhor prevenir do que remediar”. Mesmo que não entenda conceitos financeiros complicados ou não consiga acumular muito dinheiro, tende a não gastar mais do que tem, economizando para os dias difíceis.

PRESENTE E HEDONISMO: em nosso estudo, observamos uma correlação inversa entre foco no prazer momentâneo e prosperidade econômica. Em outras palavras, é bem provável que pessoas com esse perfil tenham dificuldades relacionadas a falta de dinheiro. É um dos tipos que mais enfrenta problemas dessa ordem. Os resultados apontaram que muitos não fazem reservas financeiras. Gastar excessivamente com álcool, drogas e sexo, por exemplo, ou mesmo roupas, passeios e objetos supérfluos em geral pode custar bem caro. Alguns até conseguem manter esse estilo de vida por algum tempo, mas, em dado momento, a festa acaba e isso costuma ser emocionalmente bastante desestruturante, vivido como um luto, do qual muitas vezes é bastante difícil se recuperar.

PRESENTE E FATALISMO: encontramos forte correlação entre foco pessimista no aqui e agora e dificuldades financeiras. Indivíduos com essa característica sentem o futuro como ameaçador, por isso se prendem ao presente. Como resultado, são mais propensos a permanecer indefinidamente como clientes do mesmo banco, por exemplo, ainda que não tenham vantagens. Também têm maior tendência a responder a ofertas que saltam diante dos olhos em vez de comparar preços, já que quando acreditamos que não há melhores opções tendemos a pagar mais.

A INCÓGNITA DO FUTURO: pessoas que se preocupam com o amanhã e consequentemente costumam fazer planos tendem a se julgar alfabetizadas financeiramente. No entanto, isso não garante prosperidade econômica. Há outros fatores em jogo. As chances de sucesso e fracasso financeiro são as mesmas para esse grupo.

Quando nos focamos somente no futuro, na carreira, corremos o risco de nos esquecer de cuidar da vida pessoal, o que pode interferir nas relações. E também no orçamento. Muitos que fazem horas extras em excesso para garantir maior ganho e sucesso profissional ficam tão absortos em seu trabalho que se esquecem do mais simples, como pagar contas comuns. Costumam não apresentar despesas para reembolso a tempo, se esquecem de deixar os impostos em dia e, uma hora, acabam se atrapalhando com as finanças.

O Brasil teve o pior resultado (saúde financeira menor) comparado com os outros cinco da amostra (veja quadro abaixo).

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Os dados podem ser explicados em razão do maior foco no prazer momentâneo e no baixo percentual de visão otimista sobre o que ficou para trás (passado positivo). O Brasil pontuou alto no quesito presente e hedonismo (22,4%). No Reino Unido, o país mais saudável financeiramente da amostra, marcou apenas 13,9%. Aproximadamente 72% dos britânicos acreditam que ontem foi melhor do que hoje (passado positivo), em comparação com 41,2% dos brasileiros. Sem esse suporte, o foco no prazer aqui e agora pode ficar ainda mais evidente.

O Brasil teve uma história turbulenta recente, com o regime militar antes de chegar à democracia. Durante a década de 2000, o país experimentou um enorme boom de crédito e consumo (veja quadro abaixo).

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É fácil para os bancos se aproveitarem de quem quer celebrar o presente, oferecendo crédito a juros altíssimos. Com isso, os brasileiros foram às compras. Os preços dos imóveis dobraram em apenas cinco anos. Financiamentos prontamente disponíveis incentivaram a aquisição de imóveis, e 2011 foi um ano recorde de vendas para a indústria automobilística.

Os brasileiros estavam comemorando o presente, com a crença de que o amanhã seria ainda melhor. Embora não haja limites para a expansão de crédito, infelizmente, a alegria não dura para sempre. Já começamos a observar isso no Brasil. Com uma crise na oferta de crédito, as dificuldades aumentam. Os próximos dez anos, porém, podem criar uma geração que, por ter enfrentado dificuldades no passado, se tornou mais preocupada com as finanças (passado negativo). Assim, essas pessoas serão menos propensas a comprar uma geladeira com a taxa de juros de 70%, como se vê atualmente.

ENTENDER, SENTIR, ESCOLHER

Nos últimos 15 anos, o setor de crédito ao consumidor teve enorme expansão. Produtos complexos se espalharam pelo mundo. Podemos comprar um Big Mac em Moscou com cartão de crédito – algo que antes seria impensável. No entanto, como resultado desse crescimento sem precedentes, milhões de pessoas se tornaram alvo do marketing das organizações financeiras. Respondemos a essa demanda usando produtos financeiros para comprar bens de consumo.

Mas será que estamos preparados isso? Realmente entendemos o poder (ou a tirania) dos juros compostos? A resposta esmagadora da elite de decisão política global tem sido aprimorar as competências econômicas. A ideia é garantir que sejamos capazes de entender os produtos financeiros e seus custos. Assim, poderíamos determinar se vale a pena ou não assumir uma hipoteca, por exemplo.

Acreditamos que a educação econômica é importante. De fato, é essencial. Para comprar uma casa ou um apartamento, precisamos entender a diferença entre as propostas de financiamento. No entanto, os resultados desse estudo mostram que isso não é suficiente. Não basta ter habilidades matemáticas, é preciso tomar decisões que resultam da experiência de vida, do que acreditamos, sentimos e queremos. E, em grande parte, da forma como somos impactados pela perspectiva temporal.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.