A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A NEUROCIÊNCIA DO SUICÍDIO

Nova pesquisa discute a angústia criada quando alguém põe fim à própria vida.

A neurociÇencia do suicídio

Em 1994, dois dias depois de voltar das férias com a família, minha mãe, com 57 anos, apontou o revólver para o seio esquerdo e disparou, abrindo um buraco perfeito e letal no coração – e, metaforicamente, no coração da família inteira. Era mais ou menos meia-noite de um sábado de julho, mês com o mais elevado índice de suicídios do Hemisfério Norte, como eu soube mais tarde. Meu padrasto estava em casa, mas não escutou o único tiro. Quando entrou no quarto, ela estava caída, quase sem vida. Tentou lhe dizer alguma coisa, mas ele não conseguiu entender. Enquanto tudo acontecia, eu estava dormindo a mais de 300 km. Acordei às 2 da manhã com o interfone. Era minha cunhada. Minhas primeiras palavras quando abri a porta foram, “É a mamãe, não é?

Nossa família tem companhia demais nessa agonia de perder um ente querido por suicídio. Anualmente, 30 mil pessoas tiram a própria vida nos Estados Unidos. Porque fazem isso?

Como entre 60% e 90% dos suicidas americanos, minha mãe sofria de uma doença mental. No seu caso era depressão maníaca, também chamada de transtorno bipolar. A menos que estejam tomando medicação apropriada – e reagindo bem a ela – a depressão maníaca faz com que as pessoas com a doença oscilem entre abismos de desespero e picos de euforia ou agitação. A maioria das pessoas que põe fim à própria vida tem histórico de depressão ou depressão maníaca, mas aquelas com depressão grave diferem em sua propensão ao suicídio.

Os cientistas estão descobrindo indícios e explorando pistas que levem a diferenças anatômicas e químicas do cérebro dos suicidas. Se puderem ser detectadas por escaneamento de imagens, ou por meio de exames de sangue, talvez algum dia se consigam identificar pessoas que correm maior risco de cometer suicídio – e, também, de evitar que a tragédia aconteça.

O LEGADO DE MINHA MÃE

A questão do que levou minha mãe a seu ato desesperado ocupa o segundo lugar entre as experiências que acho mais difíceis de aceitar. Desde sua morte, não se passou praticamente um dia sem que eu não tenha sofrido a angústia de querer saber o que a levou a se matar, sem falar na culpa avassaladora em relação ao que eu poderia ter feito – ao que deveria ter feito, ao que teria feito – para impedi-la. O mais difícil é aceitar que nunca vou saber a resposta. Mas, no futuro, algumas partes de sua história deverão tornar-se menos misteriosas. Ao menos aquela velha questão – saber se a tendência a cometer suicídio é inata ou o resultado de um acúmulo de experiências infelizes – parece mais perto de uma resposta.

Embora os debates sobre genética e ambiente cultural ainda sejam acalorados, a maioria dos pesquisadores que estuda o suicídio acredita que o resultado seja uma fusão dessas situações. “Você precisa de várias coisas para enguiçar de vez!”, explica Victoria Arango, do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York. “Não estou dizendo que o suicídio seja puramente biológico, mas ele tem como base um problema fisiológico. “As experiências de vida, stress agudo e fatores psicológicos, todos eles desempenham um papel. Porém, envolvido com o mistério do suicídio, está um sistema nervoso cujas linhas de comunicação emaranharam-se em nós insuportavelmente dolorosos.

Arango e J. John Mann estão à frente deum trabalho para desatar esses nós e desvendar a neuropatologia do suicídio. Reuniram o que em geral é considerada a melhor coleção de exemplares de cérebros de suicidas nos Estados Unidos. Vinte e cinco congeladores em seus laboratórios guardam 200 desses cérebros, agora examinados em busca de alterações neuroanatômicas, químicas ou genéticas que possam ser específicas. Todo cérebro é acompanhado de uma “autópsia psicológica” -, um compêndio de entrevistas com familiares e amigos, que procura descobrir o estado de espírito e o comportamento da pessoa que passou ao ato final. Um cérebro de suicida é comparado a um cérebro de controle de uma pessoa deprimida do mesmo sexo, e que morreu com a mesma idade de outra causa.

Contidas na massa gelatinosa de cerca de 1,5 kg do cérebro humano estão as células e moléculas que estiveram inextricavelmente ligadas ao que aquele indivíduo pensou um dia – ao que ele foi, na verdade. A pesquisa de Mann e Arango concentra-se em parte no córtex pré-frontal, a porção do cérebro protegida pelo osso da testa. Essa estrutura é a sede das funções executivas do cérebro, entre as quais está o censor interno que impede as pessoas de deixar escapar o que realmente pensam em situações delicadas, ou de agir levadas por impulsos potencialmente perigosos.

O papel de inibição dos impulsos desempenhado pelo córtex pré-frontal interessa particularmente a Mann e Arango. Durante décadas, os cientistas estudaram a impulsividade como indicador de possibilidade de suicídio. Embora algumas pessoas planejem meticulosamente a própria morte -deixando bilhetes, testamentos e até seguro-funeral -, para muitos, inclusive minha mãe, o suicídio parece ser espontâneo, uma decisão péssima num dia péssimo. Por isso, os pesquisadores procuram nesses cérebros pistas para a base biológica da impulsividade. Um dos focos concentra­ se nas variações da serotonina.

A serotonina é um neurotransmissor, uma das moléculas que saltam os espaços minúsculos entre os neurônios, conhecidos como sinapses, para retransmitir um sinal que uma dessas células cerebrais envia para outra. Bolhas membranosas diminutas chamadas vesículas são expelidas toda vez que um sinal é enviado de um neurônio (ou neurônio pré-sináptico), liberando serotonina na sinapse. Os receptores dos neurônios pós-sinápticos ligam-se ao neurotransmissor e registram alterações bioquímicas na célula. Depois de algum tempo, as células pré-sinápticas reabsorvem a serotonina usando esponjas moleculares batizadas de transportadores de serotonina. De algum modo, a serotonina tem um efeito calmante sobre o cérebro. Prozac e drogas antidepressivas semelhantes atuam ligando-se aos transportadores de serotonina e evitando que os neurônios pré-sinápticos absorvam muito rapidamente a serotonina produzida, permitindo-lhe demorar-se um pouco mais na sinapse e continuar transmitindo sua mensagem calmante.

Mais de duas décadas de pesquisas associaram níveis baixos de serotonina no cérebro à depressão, ao comportamento agressivo e à tendência à impulsividade, mas os indícios têm sido particularmente confusos em relação ao suicídio. Vários estudos revelaram reduções de serotonina no cérebro de suicidas, mas outros não, e alguns observaram falta de serotonina numa parte do cérebro, mas não em outras. Outros registraram um aumento no número de receptores de serotonina ou de déficits na cadeia de eventos químicos que transmitem o sinal da serotonina daqueles receptores para um neurônio. Apesar das incongruências, a maior parte das evidências aponta claramente para um problema no cérebro dos suicidas relativo ao sistema da serotonina. Essa linha de raciocínio foi corroborada pelas descobertas de Arango e Mann.

INDICIOS DE SOFRIMENTO

Num laboratório em Manhattan, a assistente de Arango abaixa-se diante de um congelador aberto para usar uma máquina chamada micrótomo e cortar uma fatia finíssima de um cérebro congelado, doado por parentes de um suicida. Usando uma escovinha, ela varre a superfície do tecido para uma lâmina de vidro do tamanho de um bloco de recados de telefone. Com o calor corporal de suas mãos enluvadas, descongela a fatiazinha do cérebro.

Os pesquisadores dividem os cérebros em hemisfério esquerdo e direito e então cortam cada lado em dez ou 12 blocos da frente para trás. Depois de congelados e colocados no micrótomo, cada bloco fornece cerca de 160 fatias mais finas que um fio de cabelo humano. A principal vantagem desse procedimento é que os grupos podem realizar testes bioquímicos diferentes na mesma fatia cerebral e saber a localização anatômica exata das variações que descobrem. Ao juntar outra vez os pedaços, montam um modelo geral de como essas anormalidades podem trabalhar em conjunto e afetar um comportamento complexo.

Em 2001, Arango mostrou que o cérebro de pessoas deprimidas que morreram por suicídio continha menos neurônios no córtex pré-frontal. Além disso, no cérebro de suicidas, essa área tinha um terço do número de transportadores pré-sinápticos de serotonina, mas cerca de 30% a mais de receptores pós-sinápticos de serotonina.

Em conjunto, esses resultados sugerem que o cérebro dos suicidas tenta aproveitar ao máximo cada molécula de serotonina que tem, aumentando o equipamento molecular para captar o neurotransmissor, enquanto diminui o número de transportadores que o reabsorvem.  “Acreditamos que exista uma deficiência no sistema serotonérgico”, conclui Arango. “Ele pode estar tão mal que o Prozac não consegue ajudá-lo. Inibir a reabsorção da serotonina nem sempre basta para evitar um suicídio: não bastou no caso de minha mãe, que morreu apesar de tomar 40 mg de Prozac diariamente.

A equipe de Mann tenta criar uma tomografia à base de emissão de pósitrons (TEP) que um dia venha a ajudar médicos a determinar quais, entre seus pacientes deprimidos, têm o circuito de serotonina mais problemático – e, por conseguinte, os que correm maior risco de se suicidar. As varreduras feitas com a TEP mostram a atividade do cérebro, determinando quais regiões consomem mais glicose do sangue.

Mann e colaboradores afirmam ter encontrado uma relação entre a atividade do córtex pré-frontal de pessoas que tentaram suicídio e a eficiência da tentativa. Aqueles que recorreram aos meios mais perigosos – tomando grande número de comprimidos ou pulando de um lugar alto – tinham menos atividade com base na serotonina no córtex pré-frontal. “Quanto mais letal a tentativa de suicídio, tanto maior a anormalidade”, observa Mann.

A hipótese da serotonina não exclui contribuições importantes de outros neurotransmissores. A serotonina é apenas uma molécula da intrincada rede bioquímica batizada de eixo hipotálamo – hipófise-supra-renais (HHSR), em que o hipotálamo e a hipófise comunicam-se com as glândulas supra- renais. O HHSR é responsável pela reação de lutar ou fugir, exemplificada pela aceleração dos batimentos cardíacos e palmas das mãos suadas. Em particular, a liberação de corticotrofina pelo hipotálamo nos momentos de tensão faz com que a hipófise anterior fabrique o hormônio adrenocorticotrópico, que produz glicocorticoides como o cortisol. O cortisol prepara o corpo para o stress aumentando a concentração de açúcar no sangue, acelerando os batimentos cardíacos e inibindo a reação exagerada do sistema imunológico.

A serotonina faz parte do eixo HHSR por modular o início da estimulação. A equipe de Charles B. Nemeroff, da Escola de Medicina da Universidade Emory está mostrando como experiências extremamente adversas nos primeiros anos de vida, como abuso infantil, podem desequilibrar o eixo HHSR, deixando literalmente marcas bioquímicas no cérebro que o tornam vulnerável à depressão ao reagir exageradamente à tensão mais tarde.

Em 1995, o grupo de Pandey afirmou ter encontrado indicações de que as anormalidades do circuito de serotonina, presentes naqueles que correm o risco de se suicidar, podem ser detectadas por meio de um exame de sangue simples. Ao comparar o número de receptores de serotonina nas plaquetas (células coagulantes) do sangue de suicidas com os de não-suicidas, observaram que os indivíduos que pensaram em suicídio tinham muito mais receptores de serotonina. A equipe concluiu que o aumento do número de receptores reflete um aumento semelhante no cérebro de indivíduos com tendência ao suicídio – numa vã tentativa de acumular tanta serotonina quanto possível. Para provar essa associação, Pandey quer saber se ela existe em pessoas que chegam a tirar a própria vida.

GERAÇÕES AMALDIÇOADAS

Até que sejam criados testes para prever quem corre maior risco de se matar, os médicos podem concentrar esforços nos pacientes biológicos das vítimas de suicídio. Estudos indicam que filhos de pessoas que tentam o suicídio têm risco seis vezes maior de se matar que filhos de pais que nunca tiveram essa intenção. A ligação parece estar, em parte, na genética, mas as pesquisas para detectar um gene ou genes que indiquem a predisposição ainda não deram respostas simples.

Essas estatísticas servem de advertência para mim e para outros com vínculos biológicos com o suicídio. Num vasinho em meu quarto, guardo uma bala da mesma caixa que continha aquela que matou minha mãe. A polícia pegou o revólver depois que ela morreu e eu mesma joguei fora as balas restantes. Mas gosto de pensar que guardo aquela única bala fria como lembrete da fragilidade da vida e de como um ato impulsivo pode ter enormes consequências e desdobramentos. Talvez algum dia a ciência venha a compreender melhor a base desses atos pungentes e para que famílias como a minha sejam poupadas.

A neurociÇencia do suicídio. 2

OUTROS OLHARES

SIM, TEMPO É DINHEIRO

Não basta saber como planejar o orçamento para alcançar a prosperidade econômica: existe uma forte associação entre a perspectiva temporal e a facilidade (ou dificuldade) de lidar com aspectos financeiros. Estudo realizado em seis países, incluindo brasil, mostra o que pessoas de diversas nacionalidades levam em conta na hora de comprar e investir.

Sim, tempo é dinheiro

A maioria das pessoas gostaria de lidar melhor com os próprios recursos materiais. Não por acaso, a educação financeira tem sido ampla­ mente divulgada e discutida nos últimos tempos.

Formuladores de política lamentam o pouco acesso a esse conhecimento, e grandes corporações financiam programas para aprimorá-lo. Nos Estados Unidos existe até um mês, abril, dedicado à divulgação de informações nessa área. E de fato aprender a calcular taxas de juros e seu impacto sobre a poupança e sobre os empréstimos, compreender as especificidades dos diferentes investimentos e criar planilhas para controle do próprio orçamento pode até ser útil. Mas saber lidar com dinheiro pode não ser suficiente para melhorar as finanças. Afinal, a relação com bens materiais costuma abarcar bem mais que aspectos objetivos.

Um de nós, Nick Clements, cofundador da MagnifyMoney.com (uma ferramenta de comparação financeira que educa e auxilia consumidores a encontrar ofertas de acordo com seus recursos), passou quase 15 anos se dedicando à criação e à promoção de produtos financeiros para pessoas de todo o mundo, mas sempre duvidou que álgebra e educação econômica pudessem, por si sós, favorecer o orçamento pessoal. Embora esses produtos estejam estreitamente relacionados ao dinheiro, as táticas usadas para vendê-los, não raro, abordam a questão por outros caminhos. As taxas de juros de cartões de crédito ou de empréstimos aparecem em letras quase imperceptíveis nos comerciais publicitários. O que enxergamos claramente são imagens de pessoas sorridentes e felizes. A mensagem que tentam passar é de que podemos emprestar dinheiro de forma rápida ou até mesmo instantaneamente.

O fato é que nossa saúde financeira depende de inúmeras decisões que se acumulam durante a vida. E essas escolhas raramente são feitas com base em planilhas e listas de comparação de produtos enquanto estamos sentados à mesa da cozinha. Pelo contrário, fazemos isso no calor do momento – é a emoção que nos move.

Para entender por que tomamos decisões econômicas inadequadas, precisamos compreender como fazemos escolhas. O que nos influencia na hora da compra? Várias evidências têm demonstrado que, quando se trata de dinheiro, nem sempre optamos racionalmente, mesmo que tenhamos as ferramentas e os conhecimentos necessários para isso. Então, se a matemática não interfere tanto nessas situações, o que poderia nos ajudar na hora de decidir?

Clements e eu (Zimbardo), procuramos encontrar uma explicação melhor do motivo de fazermos escolhas financeiras que podem nos prejudicar.

PARADOXO DO TEMPO

Um de nós (Zimbardo) estuda a perspectiva temporal há mais de 40 anos. A hipótese da pesquisa é que esse elemento seja a chave para compreender como tomamos decisões financeiras e como podemos agir de maneiras que nos permitam fazer melhores escolhas.

No livro O paradoxo do tempo (Objetiva, 2009), Zimbardo e o psicólogo clínico John Boyd revelam como nossas atitudes em relação ao tempo influenciam as decisões que tomamos. Para tanto, os autores focam naquilo que já vivemos, no que experimentamos no momento atual e naquilo que está por vir:

O PASSADO: nossas atitudes em relação ao que ficou para trás importam mais do que os eventos em si. A maneira como nos lembramos do que ocorreu pode afetar significativamente nossas decisões no presente. Os mais otimistas, em geral, procuram resgatar da memória momentos agradáveis com a família, realizações pessoais e aquilo que dá prazer. Esses sentimentos calorosos favorecem a percepção de bem-estar e segurança.

Os mais pessimistas, não raro, encaram o que passou com sofrimento, arrependimento e sensação de fracasso. Ter uma visão excessivamente negativa sobre o que foi vivido pode nos deixar ressentidos, com menor autoestima, além de contribuir para o surgimento de uma depressão. Por outro lado, olhar o passado com excesso de otimismo também não é saudável: pode fazer com que fiquemos presos a ele e nos acomodemos, o que interfere na disposição para assumir riscos e ampliar possibilidades de experiências.

O PRESENTE: para alguns só interessa o aqui e agora. Podemos desfrutar do imediato (atitude hedonista) ou nos sentir presos a ele (fatalista). A primeira opção parece interessante, pelo menos a priori. Pessoas com esse perfil costumam ser alegres, festeiras e bons amigos. Mas em casos extremos podem apresentar comportamentos descuidados, de risco, e se envolver com jogo patológico ou drogas, diferentemente de pessoas que focam o futuro. Já os fatalistas sentem como se sua vida fosse ditada por influências fora de controle; é o caso daqueles que na maior parte do tempo se sentem sem opção, presos a situações que encaram como um fardo pesado demais, pautado pela falta de recursos não só materiais, mas também psíquicos. A resignação, o pensamento imediatista e o cinismo sobrepujam a esperança e o otimismo.

O FUTURO: o mantra de uma pessoa orientada para o amanhã é “meu prazo de entrega acaba em um dia, portanto vou concluir minhas obrigações antes de fazer qualquer coisa que me dê prazer”. A expectativa de uma recompensa sempre postergada abastece as decisões e ações de hoje. Sem exageros, a gratificação adiada em troca de maior recompensa futura pode ser uma aposta vantajosa: é como trocar um pássaro na mão por um bando amanhã. Ou seja: de maneira equilibrada, comportar­ se assim em relação ao futuro pode ajudar a planejar melhor a alimentação, fazer exercícios regularmente, cuidar da saúde e investir na carreira. Em excesso, porém, o foco no ama­ nhã pode ocupar o espaço do aqui e agora. Em troca dos objetivos, muitos sacrificam a família, os amigos e a vida sexual. Não é difícil identificar esse tipo de pessoa: na maior parte das vezes está cansada e mantém uma longa lista de afazeres.

Dois de nós, Clements e Zimbardo, procuramos criar uma definição aprimorada e mais útil de educação financeira e estudar como e por que tomamos decisões econômicas inadequadas. A pesquisa foi feita em seis países: Brasil, Estados Unidos, China (Hong Kong), Itália (Sicília), Reino Unido e Alemanha.

Selecionamos acadêmicos de várias partes do mundo para nos ajudar a concluir o experimento. No Brasil, o estudo foi conduzido pela psicóloga social Umbelina Rego Leite (que também assina este artigo). No total, mais de 3 mil pessoas participaram da pesquisa. Fizemos as seguintes perguntas:

1. Você se considera alfabetizado financeiramente? Qual a sua percepção sobre o tema? Pedimos que avaliassem o grau da própria educação econômica em uma escala de 1 a 7.

2. Você sabe fazer cálculos de orçamento? Distribuímos um questionário sobre matemática financeira. Solicitamos que calculassem o impacto dos juros compostos sobre a dívida do cartão de crédito e comparassem produtos de diferentes custos e durações. Basicamente, a ideia era testar a capacidade de avaliar o melhor negócio.

3. Qual o seu grau de saúde financeira? Pessoas estabilizadas economicamente geralmente conhecem as taxas de sua hipoteca, entendem os juros sobre suas contas e são capazes de responder perguntas básicas sobre finanças que traduzem um conflito que implicam decisões como abrir mão de uma coisa para privilegiar outra. É improvável que esses indivíduos acumulem parcelas em atraso, tenham aberto falência ou o imóvel retomado por falta de pagamento. Já aqueles com dificuldades financeiras, não raro, adiam a quitação da hipoteca, pagam multas por atraso e acumulam juros no cheque especial ou cartão de crédito. Muitas vezes, acordam pela manhã com grande arrependi­ mento da noite anterior. Esses, provavelmente vão “quebrar” e recorrer ao crédito bancário ou a empresas de empréstimo.

Na sequência, aplicamos o Inventário de Perspectiva Temporal Zimbardo (ZTPI), uma ferramenta mundialmente validada para compreendermos a perspectiva temporal. Os dados do estudo confirmaram em grande parte nossa hipótese: aqueles com alta pontuação nos testes tradicionais relacionados a cálculos de orçamento não são mais propensos à prosperidade econômica. Em outras palavras, há pouca correlação entre uma coisa e outra. Identificamos, porém, uma forte associação entre a perspectiva temporal e saúde financeira. Veja a seguir.

PASSADO NEGATIVO: é comum observar pessoas que já passaram por grandes dificuldades econômicas em excelente saúde financeira atualmente. À primeira vista, isso pode surpreender, mas muitos já sofreram prejuízos no passado (ou pelo menos acreditam nisso). Talvez tenham feito um mau investimento ou sido enganados. O lado bom é que essa sensação de perda pode ajudar a manter distância de apostas arriscadas. Equilíbrio econômico é sinônimo de falta de dívidas e distância das consequências negativas que elas trazem. Pessoas com esse perfil podem não ser as mais divertidas em uma festa, mas tendem a preservar sua conta bancária.

PASSADO POSITIVO: assim como uma visão excessivamente negativa do passado, um olhar muito otimista em relação ao que já foi pode nos estagnar. Surpreendentemente, porém, isso pode nos ajudar a gastar menos e impedir grandes apostas financeiras. Como resultado, é provável que sejamos mais saudáveis financeiramente. Esse tipo de pessoa acredita que “é melhor prevenir do que remediar”. Mesmo que não entenda conceitos financeiros complicados ou não consiga acumular muito dinheiro, tende a não gastar mais do que tem, economizando para os dias difíceis.

PRESENTE E HEDONISMO: em nosso estudo, observamos uma correlação inversa entre foco no prazer momentâneo e prosperidade econômica. Em outras palavras, é bem provável que pessoas com esse perfil tenham dificuldades relacionadas a falta de dinheiro. É um dos tipos que mais enfrenta problemas dessa ordem. Os resultados apontaram que muitos não fazem reservas financeiras. Gastar excessivamente com álcool, drogas e sexo, por exemplo, ou mesmo roupas, passeios e objetos supérfluos em geral pode custar bem caro. Alguns até conseguem manter esse estilo de vida por algum tempo, mas, em dado momento, a festa acaba e isso costuma ser emocionalmente bastante desestruturante, vivido como um luto, do qual muitas vezes é bastante difícil se recuperar.

PRESENTE E FATALISMO: encontramos forte correlação entre foco pessimista no aqui e agora e dificuldades financeiras. Indivíduos com essa característica sentem o futuro como ameaçador, por isso se prendem ao presente. Como resultado, são mais propensos a permanecer indefinidamente como clientes do mesmo banco, por exemplo, ainda que não tenham vantagens. Também têm maior tendência a responder a ofertas que saltam diante dos olhos em vez de comparar preços, já que quando acreditamos que não há melhores opções tendemos a pagar mais.

A INCÓGNITA DO FUTURO: pessoas que se preocupam com o amanhã e consequentemente costumam fazer planos tendem a se julgar alfabetizadas financeiramente. No entanto, isso não garante prosperidade econômica. Há outros fatores em jogo. As chances de sucesso e fracasso financeiro são as mesmas para esse grupo.

Quando nos focamos somente no futuro, na carreira, corremos o risco de nos esquecer de cuidar da vida pessoal, o que pode interferir nas relações. E também no orçamento. Muitos que fazem horas extras em excesso para garantir maior ganho e sucesso profissional ficam tão absortos em seu trabalho que se esquecem do mais simples, como pagar contas comuns. Costumam não apresentar despesas para reembolso a tempo, se esquecem de deixar os impostos em dia e, uma hora, acabam se atrapalhando com as finanças.

O Brasil teve o pior resultado (saúde financeira menor) comparado com os outros cinco da amostra (veja quadro abaixo).

Sim, tempo é dinheiro. 2 

Os dados podem ser explicados em razão do maior foco no prazer momentâneo e no baixo percentual de visão otimista sobre o que ficou para trás (passado positivo). O Brasil pontuou alto no quesito presente e hedonismo (22,4%). No Reino Unido, o país mais saudável financeiramente da amostra, marcou apenas 13,9%. Aproximadamente 72% dos britânicos acreditam que ontem foi melhor do que hoje (passado positivo), em comparação com 41,2% dos brasileiros. Sem esse suporte, o foco no prazer aqui e agora pode ficar ainda mais evidente.

O Brasil teve uma história turbulenta recente, com o regime militar antes de chegar à democracia. Durante a década de 2000, o país experimentou um enorme boom de crédito e consumo (veja quadro abaixo).

Sim, tempo é dinheiro. 3

É fácil para os bancos se aproveitarem de quem quer celebrar o presente, oferecendo crédito a juros altíssimos. Com isso, os brasileiros foram às compras. Os preços dos imóveis dobraram em apenas cinco anos. Financiamentos prontamente disponíveis incentivaram a aquisição de imóveis, e 2011 foi um ano recorde de vendas para a indústria automobilística.

Os brasileiros estavam comemorando o presente, com a crença de que o amanhã seria ainda melhor. Embora não haja limites para a expansão de crédito, infelizmente, a alegria não dura para sempre. Já começamos a observar isso no Brasil. Com uma crise na oferta de crédito, as dificuldades aumentam. Os próximos dez anos, porém, podem criar uma geração que, por ter enfrentado dificuldades no passado, se tornou mais preocupada com as finanças (passado negativo). Assim, essas pessoas serão menos propensas a comprar uma geladeira com a taxa de juros de 70%, como se vê atualmente.

ENTENDER, SENTIR, ESCOLHER

Nos últimos 15 anos, o setor de crédito ao consumidor teve enorme expansão. Produtos complexos se espalharam pelo mundo. Podemos comprar um Big Mac em Moscou com cartão de crédito – algo que antes seria impensável. No entanto, como resultado desse crescimento sem precedentes, milhões de pessoas se tornaram alvo do marketing das organizações financeiras. Respondemos a essa demanda usando produtos financeiros para comprar bens de consumo.

Mas será que estamos preparados isso? Realmente entendemos o poder (ou a tirania) dos juros compostos? A resposta esmagadora da elite de decisão política global tem sido aprimorar as competências econômicas. A ideia é garantir que sejamos capazes de entender os produtos financeiros e seus custos. Assim, poderíamos determinar se vale a pena ou não assumir uma hipoteca, por exemplo.

Acreditamos que a educação econômica é importante. De fato, é essencial. Para comprar uma casa ou um apartamento, precisamos entender a diferença entre as propostas de financiamento. No entanto, os resultados desse estudo mostram que isso não é suficiente. Não basta ter habilidades matemáticas, é preciso tomar decisões que resultam da experiência de vida, do que acreditamos, sentimos e queremos. E, em grande parte, da forma como somos impactados pela perspectiva temporal.

GESTÃO E CARREIRA

GERAÇÕES MILLENIUM E Z NA INDÚSTRIA 4.0

Gerações millenium e Z sentem-se despreparadas para a indústria 4.0, diz pesquisa

Gerações Millenium e Z na indústria 4.0

A Indústria 4.0. ou 4ª Revolução Industrial está relacionada às mudanças no mundo e no comportamento e hábito das pessoas, redesenhando modelos. No mercado de trabalho não é diferente. Surgem novas profissões, atividades, demandas e empresas. Para um mercado de trabalho altamente competitivo, será destaque aqueles que conseguirem enxergar e abraçar as possibilidades fornecidas por esta nova era.

Uma pesquisa da Deloitte publicada na terça-feira, 15 – com mais de 10 mil pessoas em 36 países – revelou que as gerações Millenium e Z – nascidos de 1980 a 2010 – sentem-se despreparadas para as mudanças da Indústria 4.0 e querem que os negócios os ajudem a desenvolver as habilidades necessárias para o sucesso. Apenas 36% dos Millennials e 42% da geração Z relataram que seus colaboradores os ajudavam a entender e se preparar para as mudanças associadas à nova Revolução Industrial.

Outro ponto importante abordado pelos jovens é a busca por orientação muito mais ampla do que o conhecimento técnico. Os jovens profissionais buscam especialmente ajudar na construção de habilidades mais flexíveis, como confiança, habilidades interpessoais e – particularmente para a Geração Z – aptidão ética/integridade.

No Brasil, empresas com cultura de startup já têm essa percepção e inovaram na forma de atrair e reter os talentos dessa geração. A FCamara, consultoria que desenvolve soluções tecnológicas para plataformas e e-commerces, por exemplo, desenvolve entre seus colaboradores, de forma contínua, workshops que visam criar uma rede de conhecimento compartilhada. Com temas que variam entre conhecimentos técnicos da área de tecnologia e aspectos filosóficos aplicados ao mundo dos negócios, os encontros promovem a troca de ideias e informações que são usadas no dia a dia do trabalho e que ajudam no repertório criativo desses profissionais.

“Além dos workshops, que oferecemos para todos os colaboradores com foco principal em liderança, filosofia e gestão, nós temos um culture code que dá diretrizes modernas e liberais, inspiradas nas empresas do Vale do Silício, no qual incentivamos a autorresponsabilização e execução de ideias para o desenvolvimento de inovações, diz Fábio Camara, CEO da empresa.

Diante de um mercado competitivo e dinâmico, em constantes transformações e adaptações, um dos maiores desafios das empresas é encontrar um talento ou reter outro. Proporcionar programas de formação é ferramenta estratégica para alcançar este objetivo. “Temos também um importante programa de formação no qual selecionamos e preparamos profissionais que se tornam referência na área no mercado. Temos o compromisso de ter esses profissionais em nossa empresa pelo mínimo de 2 anos, pois acreditamos que esse tempo é um investimento positivo para os dois lados – a empresa que conta com a excelência do trabalho do candidato treinado e o profissional que sabe que está inserido em um ambiente onde suas ideias serão ouvidas e que ele encontra boas oportunidades de crescimento e desenvolvimento”, explica Fábio Camara.

PROGRAMA DE FORMAÇÃO

No Programa de Formação da FCamara, novos talentos são selecionados para participar de um estágio remunerado de 3 meses, no qual são inseridos em projetos reais e solucionam desafios semelhantes ao que encontrariam na rotina de trabalho da empresa. Os trainees recebem treinamentos e orientações por meio de coaching filosófico ministrado por consultores da empresa e pelo próprio CEO. Os que finalizam o programa e se destacam são convidados a integrarem a equipe, sendo contratados efetivamente. Só no último semestre, mais de 1.000 jovens se inscreveram para o programa e cerca de 50 foram contratados.

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 23: 4-5

Alimento diário

ADVERTÊNCIAS CONTRA A LUXÚRIA E A COBIÇA

 

 V. 4 e 5 – Da mesma maneira como alguns são dados a apetites (v. 2), outros são dados à cobiça, e estes são aqui criticados por Salomão. Os homens se enganam, tanto quando desejam dinheiro (ainda que ele pareça muito substancial) como quando desejam manjares. Observe:

I – Como Salomão dissuade o homem cobiçoso, de lutar e se atormentar (v. 4). “Não te canses para enriqueceres”, para teres bens, e para tornares o que tens mais abundante do que já é. Nós devemos nos esforçar para viver de maneira confortável, e cuidar do sustento de nossos filhos e nossas famílias, conforme a nossa condição, mas não devemos desejar grandes coisas. Não seja como os que desejam ser ricos, que desejam a riqueza como seu bem principal e como seu mais supremo objetivo (1 Timóteo 6.9). Os homens cobiçosos pensam que é sensato imaginar que, se forem ricos alcançando certo ponto, serão completamente felizes. “Dá de mão à tua própria sabedoria”, isto é, não apliques nisso a tua inteligência, pois é um engano; a vida de um homem não consiste da abundância de coisas que ele possui (Lucas 12.15).

1. Os que desejam grandes coisas enchem suas mãos com mais trabalho do que podem desempenhar, de modo que a sua vida é uma lida perpétua e uma pressa perpétua; mas não seja tão tolo; não trabalhe para ser rico. Seja senhor do que tiver, ou do que fizer, e não um escravo, como os que se levantam de madrugada, repousam tarde, e comem o pão da preocupação, e tudo isto para serem ricos. O trabalho moderado, para que possamos ter, para dar, é nossa sabedoria e dever (Efésios 4.28). O trabalho imoderado, para que possamos ter para acumular, é nosso pecado e tolice.

2. Eles enchem seus corações com mais projetos do que entendem, de modo que a sua vida é uma constante agitação, de cuidados e temor; mas não te preocupes desta maneira; dá de mão à tua própria sabedoria; pros­ segue tranquilamente pelo caminho do teu trabalho, sem planejar novos caminhos e sem dedicar a tua inteligência para descobrir novas invenções. Concorda com a sabedoria de Deus, e dá de mão à tua própria (Provérbios 3.5,6).

 

II –  Como Salomão dissuade o homem cobiçoso de trapacear e se enganar, por um amor desordenado e uma busca do que é vaidade e aflição de espírito, pois:

1. Não é substancial nem satisfatório: “Porventura, fitarás os olhos naquilo que não é nada?” Serás tolo a ponto de dirigir teus olhos, com ânsia e violência, ao que não é nada? Observe:

(1) As coisas deste mundo não são nada. Elas têm uma existência real na natureza, e são dádivas verdadeiras da Providência, mas no reino da graça, não são nada; não são uma felicidade para a alma, não são o que prometem ser, nem o que esperamos que sejam; elas são uma exibição, uma sombra, um engano à alma que confia nelas. Elas não são nada, pois em pouco tempo, não existirão, não serão nossas; perecerão no uso; a sua moda acaba.

(2) É, portanto, tolice que ponhamos os olhos sobre elas, que as admiremos como as melhores coisas, que nos apropriemos delas, como nossas boas coisas, e que as almejemos como aquilo que orientará todos os nossos atos, que voemos sobre elas como a águia sobre sua presa. Farás algo tão absurdo por si só? O que tu, uma criatura razoável, amarás cegamente nas sombras? Os olhos, aqui, significam os poderes racionais e intelectuais; você os desperdiçará, nestes objetos tão indignos? Colocar as suas mãos e os seus pés no mundo já é sufi­ ciente, mas não os olhos, os olhos da mente; eles foram criados para contemplar coisas melhores. Tu, meu filho, que professas religião, afrontarás dessa maneira o teu Deus (em quem os olhos sempre deveriam estar), e farás tal violência à tua alma?

2. Não é durável e permanente. As riquezas são coisas muito incertas; certamente, o são: “isso se fará asas, e voará”. Quanto mais fazemos que nossos olhos voem sobre elas, mais provavelmente elas voarão, afastando-se de nós.

(1) As riquezas nos deixarão. Os que as seguram, ainda que fortemente, não podem segurá-las por muito tempo; ou elas serão tiradas de nós, ou nós seremos tirados delas. Os bens são descritos como águas derramadas (Jó 20.28), aqui, voando como uma águia.

(2) Talvez elas nos deixem repentinamente, depois que tivermos feito muitos esforços por elas, começando a sentir grande orgulho e prazer nelas. O homem cobiçoso se senta, sobre a sua riqueza, chocando até que ela amadureça como os filhotes debaixo da galinha, e então ela voa e vai embora. Ou, como se um homem apreciasse o voo de uma águia selvagem que pousa no seu campo, e a chama de sua, porque ela está sobre o seu solo, e se tentar se aproximar dela, ela levantará voo imediatamente, indo para o campo de outro homem.

(3) As asas com que essas coisas voam são de sua própria criação. Elas têm, em si mesmas, os princípios de sua própria corrupção, a sua própria traça, a sua própria ferrugem. Elas se desgastam na sua própria natureza, e como um punhado de pó, que, se fosse agarrado, escorreria por entre os dedos. A neve durará algum tempo, e parecerá bela, se deixada sobre o chão onde caiu, mas se for recolhida e colocada junto ao seio, se dissolverá e desaparecerá imediatamente.

(4) Elas voarão, de maneira irresistível e irremediável, como uma águia que voa para o céu, que voa de maneira impossível de deter, e para fora de vista e fora do nosso alcance (não há como trazê-la de volta); assim as riquezas deixam os homens, e os deixam em angústias e tristezas, se tiverem se afeiçoado a elas.