A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O COMPROMETIMENTO COM A VERDADE

As pequenas mentiras costumam ser recrutadas nas relações que nascem e sobrevivem na fina camada da aparência e cumprem um papel na manutenção dos relacionamentos.

O comprometimento com a verdade

Os puxões de orelha levados na infância ensinam que, para que a franqueza não seja interpretada como rispidez, algumas mentirinhas se fazem necessárias. Isso fica mais claro à medida que percebemos os próprios sentimentos feridos com a sinceridade alheia, o que torna a troca de mentiras não apenas aceita, como desejada em muitas situações.

Os exageros, falsas confirmações e elogios fazem parte de uma bajulação superficial que sustenta vaidades – prática aparentemente inofensiva e frequentemente usada no amparo de uma autoestima mal construída.

Aprendemos que as pequenas mentiras não nos fazem menos honestos, pois cumprem um papel na manutenção dos relacionamentos. No entanto, é possível que a função da mentira nesses casos seja superestimada: há evidências de que mentir geralmente não é uma boa estratégia nem mesmo quando a intenção e as expectativas nos levam a crer que sim.

Uma série de pesquisas da Universidade de Chicago constatou que a sinceridade tem mais valor do que costumamos dar a ela e torna a comunicação mais eficaz. Em um dos experimentos, os participantes foram divididos em três grupos. Um deles recebeu instruções para agir da forma mais sincera possível em interações sociais durante alguns dias. Outro, para simplesmente ser agradável com as pessoas e o terceiro grupo foi instruído a apenas prestar atenção nas próprias atitudes. Depois, todos avaliaram seu próprio desempenho e o impacto de seu comportamento.

Surpreendentemente, eles perceberam maior conexão social nas interações guiadas pela honestidade. Não era o que esperavam. Os participantes predisseram que isso seria prejudicial às relações, como foram levados a acreditar a vida inteira. Os resultados se repetiram na segunda parte da pesquisa, em que a instrt1ção era ser honesto com alguém próximo em perguntas pessoais e normalmente difíceis de responder abertamente. Assim conseguiram verificar o impacto da verdade tanto em situações em que pode ser vista como o oposto de gentileza ou simpatia, quanto naquelas em que se opõem a segredos.

Em todas as circunstâncias, a honestidade parece sair em vantagem. Para os pesquisadores, ao evitar a verdade perdemos oportunidade de criar relações mais próximas e significativas.

Existem outras pesquisas indicando que a expressão das emoções está relacionada a níveis mais saudáveis de pressão sanguínea e ao desenvolvimento de graus mais altos de intimidade e que, por outro lado, o hábito de guardar segredos pode ser negativo para a saúde.

Para Art Markman e Bob Duke, autores de Two Guys in Your Head, a honestidade é desnecessária apenas nos casos em que ela não faria diferença à outra pessoa – como confessar que não gostou da roupa de seu parceiro depois que ele já está na festa. Logicamente, não é válida se usada como forma de ofensa e sim quando achamos que uma pessoa pode se beneficiar da informação – o que pode ser feito em um breve exercício de empatia.

Em geral, a honestidade nos salva dos pequenos danos e das irrecuperáveis destruições que a mentira provoca. Sua injusta má reputação está muito mais relacionada à forma como a verdade é dita do que ao conteúdo em si.

Não mentir pode ser um exercício bastante difícil e doloroso. Um dos adeptos da verdade acima de tt1do é o filósofo e neurocientista Sam Harris. Ele tomou a decisão de evitar qualquer tipo de mentira depois de estudar análise ética e constatar que infinitas formas de sofrimento e vergonha poderiam ser evitadas com o uso da verdade. Ele concluiu que mesmo as mentiras consideradas inofensivas, frequentemente ditas com a intenção de não desagradar o outro, são associadas à pouca qualidade dos relacionamentos. “Muitos de nós passamos a vida marchando em direção ao arrependimento, remorso, culpa e decepção. E em nenhuma outra circunstância essas feridas parecem mais autoinfligidas, ou a dor que criamos mais desproporcional às necessidades do momento, que quando mentimos aos outros. A mentira é a principal estrada para o caos”, escreveu em seu livro Lying (Mentindo, em kindle e-book), em que narra suas próprias experiências a partir da decisão de viver da forma mais transparente possível.

O comprometimento com a verdade dá aos outros a segurança de saber que você não fala pelas costas, que aquilo que diz é de fato o que pensa e que seus elogios não são bajulações vazias. Tudo isso, lembra Harris, ao custo de um desconforto de curto prazo, que pode ser suavizado se nos colocarmos no lugar da pessoa que recebe a informação na hora de se comunicar com sinceridade.

As mentiras são como escudos dos fracos – vêm aos montes e de todos os tamanhos, multiplicam-se rapidamente. ‘A medida que surgem empurram para um futuro temido e assombroso a colisão com a realidade, provocando estragos em seu caminho ao enfraquecerem e distanciarem as relações.

A verdade, por outro lado, vem sempre no singular – ninguém pede para ouvir “as verdades”. E única e poderosa.

Figura antipática e às vezes temida, ela não gosta de adulações nem de meias palavras. Pode vir com um leve desconforto ou uma dor intensa e por isso requer coragem de quem revela e de quem enxerga. Mas sempre tem o poder de nos fazer melhores.

O comprometimento com a verdade. 2

MICHELE MÜLLER – é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências, Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no site www.michelemuller.com.br

OUTROS OLHARES

ALÉM DA MÚSICA

Os serviços de streaming, como Spotify e Deezer, investem cada vez mais nos podcasts e fazem renascer esses programas de rádio online que surgiram na década passada. Agora, a expectativa é criar mais um mercado bilionário.

Além da música

Há pouco mais de uma década, uma revolução teve início na indústria de áudio. Mas, se o leitor pensou em serviços de streaming, como o sueco Spotify ou o francês Deezer, errou. A mudança foi motivada por um movimento da americana Apple, que, em 2005, abriu sua plataforma de músicas iTunes para um novo formato de áudio, o podcast. Uma espécie de programa de rádio para ouvir na hora que quiser, o podcast crescia graças ao antigo tocador de música iPod. Mas ainda não havia um sistema que centralizasse as produções que surgiam na internet. Era preciso baixar os episódios nos sites de cada programa e ouvi-los no computador ou transferi-los para o iPod. A decisão da Apple veio para facilitar o acesso aos podcasts e deu um impulso aos programas. Mas a realidade é que, mesmo depois desse tempo todo, os podcasts nunca chegaram a se popularizar de fato. Por isso, é no mínimo uma surpresa que em 2019 a indústria de tecnologia esteja, de novo, apostando nos podcasts. No começo de fevereiro, o serviço de música Spotify anunciou duas grandes aquisições de empresas que atuam na área: a Gimlet Media, produtora que faz uma série de podcasts, e o aplicativo Anchor, que agiliza a produção e a publicação dos programas. Ao todo, o Spotify pagou 300 milhões de euros (aproximadamente,1,2 bilhão de reais) pelas duas empresas.

As compras não foram um tiro no escuro. Lançado em 2014, o Anchor vinha ganhando espaço como uma ferramenta de criação e publicação. Só nos últimos três meses de 2018 processou mais de 15 bilhões de horas de áudio. Já a Gimlet Media ficou conhecida por fazer podcasts de sucesso, como o Homecoming, que virou até uma série de TV. As duas empresas eram perfeitas para o plano do Spotify de aumentar sua atuação e expandir as receitas. De 2013 a 2018, o faturamento dos podcasts com publicidade saltou de 45 milhões para 650 milhões de dólares, nas contas da consultoria britânica PwC. A expectativa é que o número suba para 1,6 bilhão de dólares até 2022. Ainda é uma fração do faturamento do rádio tradicional (45 bilhões de dólares em 2018), mas o aumento é reflexo de um interesse cada vez maior das pessoas por esse for­ mato. Na previsão da empresa de análise de dados britânica Ovum, 1,3 bilhão de pessoas deverão ouvir podcasts em 2022, o dobro de hoje. “O formato está evoluindo e, ainda que o podcast seja um merca­ do pequeno, vejo um potencial enorme de crescimento para o setor e para o Spotify”, escreveu Daniel Ek, fundador do serviço. “É seguro presumir que, com o tempo, mais de 20% do conteúdo ouvido no Spotify será não musical.”

Além da música. 2

O podcast voltou a ganhar corpo nos Estados Unidos ainda em 2014, com o lançamento de Serial, uma série policial em áudio nascida do programa de rádio This American Life. O programa atraiu uma avalanche de audiência. Só no primeiro ano foram 40 milhões de downloads da primeira temporada Os episódios contam histórias reais de casos de crimes em julgamento e terminam sempre com um elemento surpresa. Esse modelo ajudou na popularidade. Mas o momento também foi propício. ”A explosão de interesse por podcasts coincidiu com a maior facilidade para encontrar, baixar e ouvir os programas nos smartphones por causa das redes 4G mais rápidas e de aplicativos feitos para isso”, diz Andrew Whitacre, produtor dos podcasts do Massachusetts Institute of Technology e diretor de comunicação da universidade.

Os produtores de rádio tradicional, que foram os pioneiros no formato, também passaram a adaptar melhor seus programas para o meio digital. O efeito foi nítido: uma pesquisa da agência de publicidade americana McKinney mostrou que, entre os ouvintes atuais, 23% nunca tinham escutado um podcast. Desses, metade passou a ouvir conteúdo no formato semanalmente. A popularidade motivou o surgimento de novas produções. Hoje, a emissora National Public Radio (NPR), líder de audiência em podcasts nos Estados Unidos, tem 47 programas. Só no mês de janeiro eles foram ouvidos por quase 18 milhões de pessoas no país, segundo a empresa de análise de dados Podtrac.

O Brasil não teve ainda um podcast como o Serial. Só que a maior facilidade para ouvir os programas também tem aumentado o interesse das pessoas por aqui. Além do acesso fácil a smartphones e da velocidade maior da internet, apps como o Pocket Casts e o Google Podcasts ocuparam um vácuo do iTunes (exclusivo dos iPhones) nos celulares com o sistema Android, que são os mais populares no país. Os serviços de streaming de música, como o Spotify e o Deezer, também passaram a desempenhar um papel importante quando incluíram os podcasts em seus catálogos para atrair mais usuários. “É uma evolução natural: os serviços que tinham apenas música estão virando plataformas de streaming de áudio em geral”, diz Thiago Rangel, editor de conteúdo não musical da Deezer. “As pessoas querem simplificar a vida e ter todo o conteúdo de áudio em um lugar só.” O tempo que os brasileiros passam ouvindo podcasts cresceu 130% no ano passado, segundo dados do Deezer. No Spotify, o número de ouvintes subiu 330% de abril de 2017 a abril de 2018.

Manter um negócio saudável é um desafio. A receita com anúncios tem aumentado, mas ainda deve ficar centrada nos Estados Unidos. O programa The Daily, do jornal The New York Times, hoje o podcast mais popular do mundo, é um

existem programas sustentáveis e outros não. No Brasil, não há números de faturamento do setor, já que a maioria dos podcasts é produzida por blogueiros, e sua fonte de renda são os anúncios em seus sites, e não nos programas de áudio. Há quem tenha mais sucesso, como o Nerdcast e o Rapaduracast, dois programas que existem há mais de uma década. Outros, como o Anticast, recorrem a campanhas de doação para levantar fundos. Eles aproveitam o fato deque 64% dos ouvintes brasileiros, na maioria jovens e com curso superior, estão dispostos a pagar para ter benefícios, segundo uma pesquisa da Associação Brasileira de Podcasters. “Ainda falta maturidade ao mercado. Os anunciantes e os podcasts ainda não chegaram a um modelo de receitas perto do ideal. Agora é o momento de inventar um”, diz Miguel Genovese, diretor de criatividade e inovação da PwC Brasil.

O movimento tem acontecido aos poucos no segmento. “Estamos vendo marcas como Gatorade e Mastercard começando a investir em podcasts para ter uma relação mais próxima com a audiência e construir a marca, e não só para vender produtos”, diz Cristiano Dias, sócio- fundador da produtora de podcasts Ampere. Em 2017 e 2018, as duas marcas (Gatorade e Mastercard) lançaram programas próprios com até seis episódios que falam sobre esporte e dinheiro. Ambas as companhias produziram o conteúdo em parceria com a mesma empresa: a Gimlet Media, aquela comprada pelo Spotify. O caso ilustra o potencial que o aplicativo de música tem. Acompanhar o mercado de perto e se antecipar à demanda, às vezes, é a chave para o sucesso.

Além da música. 3

GESTÃO E CARREIRA

O VAZIO PROFISSIONAL E A OCIOSIDADE

A perspectiva de um futuro desemprego ou mesmo da aposentadoria – aos quais estamos sujeitos – deve ser objeto de preocupação de todos, independentemente da questão financeira que ambas as situações possam acarretar

Senior Man Relaxing In Hammock

Jean Louis Cianni* chama de “vazio profissional” a inatividade não desejada. É a falta de ocupação provocada por desemprego inesperado ou pela aposentadoria. O seu significado está próximo do “vazio existencial”, como foi definido por Viktor Frankl**. Segundo Frankl, o vazio existencial provocado pela falta de ocupação útil do tempo, refere-se a falta de sentido na vida. Conceitualmente trata-se de uma condição mais ampla, porém, os seus efeitos podem ser similares aos do vazio profissional.

Não devemos generalizar afirmando que todas as pessoas desempregadas ou aposentadas estão sujeitas aos efeitos do vazio profissional. Há, por exemplo, os que se aposentam e, conscientemente, assumem a ociosidade como uma situação desejada e vivem perfeitamente bem durante e depois da transição da “gravata para o pijama”. Regra geral, estas pessoas já comemoraram mais de meio século de vida e, provavelmente, têm poupança que lhes permite entremear a ociosidade com programas prazerosos, como curtir a casa, os netos, viagens, hobbys.

Neste artigo nossa preocupação é com aqueles que não chegaram ainda a esse “mar de rosas” e que poderão enfrentar momentos difíceis, sem ter com o que se ocupar, com dificuldades para tocar a vida, de conviver bem com sua família, sem auferir rendimentos e tendo pela frente perspectivas pouco favoráveis.

Como Cianni nos lembra, as empresas não são apenas “um lugar onde se produzem bens e serviços. Nela, as pessoas se relacionam, se aproximam, convivem, falam, discutem, se amam ou se detestam”. É o local onde as horas passam sem que se deem conta de que isso está acontecendo; onde sonhos se concretizam ou frustram as pessoas; onde nos sentimos úteis, mesmo tendo que suportar líderes despreparados, arrogantes e autoritários; onde podemos ser reconhecidos por nossa competência e desempenho, ser promovidos, receber bônus e ser notícia no jornal interno da empresa. Em resumo, trabalhar numa empresa possibilita ter uma identidade profissional e esta é uma maneira de elevar nossa autoestima, muito importante para enfrentar os desafios da vida.

Antônio Vidal Filho, nos alerta para o fato de que “para as novas gerações o emprego não é algo desejado como antigamente. O trabalho tem assumido tantas formas que o velho emprego, chefe e local de trabalho não são, de longe, a opção mais desejada. No entanto, há parcela considerável de pessoas que apreciam e preferem o velho modelo”.

Vale considerar, também, o comentário de Vicenzo Lasalvia, expert em coaching: ”muitos caem na armadilha de ter a atividade profissional como um fim em si, ignorando as outras dimensões da sua vida, dentre elas o convívio familiar, os relacionamentos externos, lazer, cuidados com a saúde, entre outros”.

A rotina: todas as manhãs saímos de casa com destino àquele lugar onde serviremos para alguma coisa, onde faremos coisas úteis, ajudaremos uns e seremos ajudados por outros. O dia será repleto de trabalho e cobranças. O tempo passará rapidamente, mas logo estaremos em casa, cansados, vendo a família por alguns momentos, ansiosos para voltar para a cama… Assim se resume os dias atuais dos “colaboradores”: excesso de pressão e stress.

Sem emprego e sem esperança de encontrar outro ou não conseguindo identificar ocupação entre inúmeras possibilidades que existem fora do modelo clássico, estabelece-se o vazio profissional durante o qual tudo será complicado. Sensação de desamparo, isolamento, noites de insônia. Ao acordar de manhã, sem nenhum plano ou perspectiva, a primeira pergunta que virá à cabeça é: o que vou fazer hoje? Varrer a calçada, lavar o carro, passear com o cachorro, procurar os amigos…. Que amigos? Eles desapareceram. Depois que você deixou a empresa, agora sem sobrenome, ninguém mais o conhece. Um ou outro retorna a ligação ou responde ao seu e-mail. Ajuda? Nenhuma. Nem os melhores amigos dos bons tempos de empresa dão uma ligadinha para oferecer apoio ou conforto. O “capital social”, constituído durante anos, desapareceu…

Solitário, com o passar dos meses sem emprego, as coisas podem piorar, pois há possibilidade da pessoa se entregar à inatividade, o que poderá acarretar problemas de saúde. Além da insônia, dores de cabeça, alergias, tristeza e, pior de tudo, depressão, que tem como uma de suas causas a autoestima baixa ao sentir-se excluído, desprovido de valor e de reconhecimento. Daí o possível apelo ao álcool, ao abuso do tabagismo ou de drogas que trazem um ilusório conforto para enfrentar questões que não saem da cabeça: “o que fiz de errado?” “Por que tenho que passar por tudo isto” ? Assim tem início um processo de autodesvalorização que poderá exigir ajuda para ser superado.

No nosso dia a dia nos deparamos com pessoas nessa situação. Na maior parte dos casos, são pessoas com mais de 45 anos, com mais de 25 anos de atividade profissional, experiência, competência e saúde perfeitamente adequadas para continuar trabalhando. E o que acontece? Por que o mercado de trabalho clássico as tem rejeitado? Por que estas pessoas mantém o velho modelo mental de empresa/emprego e não buscam outras alternativas de trabalho e ocupação?

A bem da verdade, a experiência mostra que o mercado de trabalho não é totalmente avesso às pessoas que tenham 45 anos de idade, ou mais, dependendo do cargo a que se candidatam. Nessa faixa etária supõe-se que o profissional, nos empregos anteriores, ocupou cargos de liderança, gerência ou diretoria. Havendo semelhança entre nível do cargo e do salário com as vagas disponíveis, muitas empresas poderão aceitar estes profissionais porque eles têm background valioso, acumulado durante os anos de serviço e têm valor a agregar.

A partir dos cinquenta, a situação é mais complicada, ainda que estas pessoas apresentem todas as competências técnicas e pessoais exigidas pelos cargos disponíveis. Segundo Vidal, “profissionais de faixa etária avançada são requisitados para cargos de primeiro nível ou para cargos técnicos cujas competências e especializações não se encontram no mercado. São “moscas brancas”. Em passado recente, por exemplo, correções em programas do sistema financeiro, escritos em linguagem de informática em desuso ente os jovens, exigiu o retorno de veteranos. O mesmo ocorreu em outros segmentos, no caso, petróleo”.

Pensando bem, para cargos de nível médio as empresas têm dado preferência às pessoas mais jovens por apresentarem naturalmente melhores possibilidades de desenvolvimento e crescimento. E por acreditarem que elas estão mais distantes da zona de conforto…

Notem que até aqui não se está levando em conta que estamos passando por séria crise econômica e que o mercado de trabalho está sendo afetado duramente pela paralisia generalizada na vida das empresas empregadoras. Os índices de desemprego são alarmantes e a acreditar no que lemos e ouvimos diariamente, a situação tende não só piorar como demorar para retomar o equilíbrio.

E daí? Como enfrentar esse tsunami? Não será fácil. Como ensina Roberto Re***, a pessoa deverá tornar-se “líder de si mesmo”. Ou seja, deverá fazer prevalecer os seus atributos pessoais que, na minha opinião, são indispensáveis principalmente nesse momento da vida, dentre eles, a autoconsciência ou o conhecimento das próprias emoções, equilíbrio, força de vontade, pensamento positivo, otimismo, acreditar sempre afastando-se do pessimismo.

João Marco Varella, especialista em resiliência, assegura que a “autoconfiança não pode ser perdida pois é fundamental para esses momentos de busca de emprego. A autoconfiança precisa ser alimentada pela autoestima o que se consegue convivendo com pessoas que lhe querem bem, que o admiram e confiam na sua competência”.

Como ouvinte de depoimentos de algumas pessoas que buscam emprego, acredito que o grande desafio é juntar e manter todos esses atributos, que serão importantes em todos os momentos, inclusive numa entrevista de emprego. O “caçador de talentos” experiente é especialista em leitura de emoções e nota, em poucos instantes, a turbulência emocional dos candidatos quando chegam para entrevista. Muitas vezes, tomados pela ansiedade, procuram tornar-se protagonistas e sobressair-se sobre os demais candidatos, geralmente de forma forçada e inadequada. O gasto dessa energia tende a ser negativo e a ansiedade descontrolada impressiona mal.

Como dissemos anteriormente, antes que a situação se complique durante o vazio profissional e a depressão pegue pesado, convém avaliar se é conveniente a busca de ajuda de um especialista em Terapia, Coaching ou Mentoring, que ajude a contornar os momentos difíceis e a manter a autoestima, transparência e otimismo, atributos convenientes em qualquer processo de seleção.

Finalizando, Lasalvia sugere que, “como não se pode prever o futuro, as empresas deveriam agir preventivamente, em conjunto com os profissionais durante o desenvolvimento da carreira, facilitando o autoconhecimento e mostrando a importância de todas as dimensões da vida de tal forma que havendo demissão inesperada ou aposentadoria eles tenham um leque de opções para se adequar ao novo momento”.

 

* JEAN LOUIS CIANNI – A filosofia como remédio para o desemprego. Editora Best Seller
** VIKTOR FRANKL – Em busca de sentido.
*** ROBERTO RE – Líder de si mesmo
**** JOÃO MARCOS VARELLA, VICENZO LASALVIA, ANTONIO VIDAL FILHO,  consultores em assuntos de RH e em Coaching

ALIMENTO DIÁRIO

PROVÉRBIOS 22: 24 – 29

Alimento diário

MÁXIMAS RELACIONADAS À PRUDÊNCIA

 

V. 24 e 25 – Aqui temos:

1. Uma boa advertência contra a amizade com um homem inflamado. É a lei da amizade, que nos ajustemos aos nossos amigos e estejamos prontos para servi-los; portanto, devemos ser sábios e cautelosos na escolha de um amigo, para que não nos envolvamos com alguém com quem seria tolo de nossa parte fazê-lo. Ainda que devamos ser civilizados com todos, ainda assim devemos tomar cuidado com quem adquirimos alguma familiaridade. E, entre outros, um homem que é fácil de provocar, que é sensível e se ressente de afrontas, que, quando inflamado, não controla o que diz ou faz, mas fica enfurecido, este homem não é adequado para ser nosso amigo ou companheiro, pois sempre se irritará conosco, e isto será um problema para nós, e fará com que nós, como ele, nos enfureçamos com os outros, e este será o nosso pecado.

2. Uma boa causa apresentada para esta advertência: “Para que não aprendas as suas veredas”. Nós somos propensos a nos tornar como aqueles com quem andamos. O nosso coração corrupto é tão inflamável que é perigoso conviver com os que atiram as fagulhas de sua paixão para os lados. Nós conseguiremos uma armadilha para as nossas almas, pois uma disposição à ira é uma grande armadilha para qualquer homem, e uma oportunidade para muitos pecados. Não nos é dito: “Para que não sejas insultado nem quebrem a tua cabeça”, mas, o que é muito pior: “Para que não o imites, não o adules, desta maneira adquirindo um mau hábito”.

 

V. 26 e 27 – Aqui vemos, como muitas vezes antes, uma advertência contra a fiança, como algo muito imprudente e injusto.

1. Não devemos nos relacionar, e muito menos de modo mais próximo, com homens de fortunas e reputações arruinadas, que precisam que seus amigos sejam seus fiadores, e insistirão nisto, para que possam enganar o seu próximo, para alimentar seus desejos, desta maneira, causando, no final, mais danos aos que lhes deram crédito. Não estejas entre eles: não te relaciones com eles.

2. Não devemos roubar o dinheiro das pessoas, dando as mãos entre nós, nem nos tornando fiadores por outros, quando não temos como pagar. Se um homem, pela divina providência, está incapacitado de pagar as suas dívidas, deve ser alvo de piedade, e deve ser ajudado: mas aquele que toma o dinheiro ou os bens, ou que se compromete por outra pessoa, quando sabe que esta pessoa não tem recursos para pagar, ou que está em um lugar em que os credores não podem chegar, na verdade, rouba o dinheiro de seu próximo, e ainda que, em todos os casos, devamos usar de compaixão, ainda assim ele poderá agradecer somente a si mesmo, se a lei for cumprida e a sua cama for tirada de debaixo dele, como um penhor para garantir uma dívida (Êxodo 22.26,27). Pois se um homem parecer ser tão pobre que não tenha nada mais para dar como garantia, deve ser socorrido, e isto deve ser feito honestamente, para com ele; mas, para a quitação de uma dívida, isto parece ser feito pela rígida operação da lei.

3. Não devemos arruinar as nossas propriedades nem as nossas famílias. Cada homem deve ser justo, consigo mesmo, e com sua esposa e seus filhos: não o são os que vivem acima do que têm, que, pela má administração de seus próprios negócios. ou por se sobrecarregar em com as dívidas de outros, gastam tudo o que têm e acabam na pobreza. Podemos aceitar alegremente o roubo de nossos bens. se isto for útil para um testemunho de uma boa consciência; mas, se for pela nossa própria impulsividade e loucura, não poderemos deixar de receber isto com angústia e desagrado.

 

V. 28 – Aqui somos ensinados a não invadir os direitos dos outros, ainda que possamos encontrar maneiras de fazer isto de uma forma secreta e plausível, clandestinamente e por fraude, sem usar força alguma. Que os bens das pessoas não sejam usados, roubando os homens de suas liberdades e privilégios, ou por meio de quaisquer métodos justos de sustento. Não devemos nos envolver com as propriedades das pessoas. Os marcos divisores de propriedade são testemunhas do direito de cada homem: que não sejam removidos, pois disto surgem guerras, e batalhas, e disputas intermináveis; que não sejam removidos, para tirar do teu próximo para dar a ti mesmo, pois isto é roubá-lo, diretamente: assim se transmite a fraude à própria descendência.

1. Podemos, então, deduzir, que devemos ter consideração, em todas as questões civis, com os costumes antigos, que se originaram da mente e das constituições estabelecidas do governo, aos quais devemos aquiescer, e não tentar modificar, sob o pretexto de melhorá-los, com perigosas consequências.

 

V. 29 – Aqui temos:

1. Uma clara indicação de como é difícil encontrar um homem verdadeiramente diligente: “Viste um homem diligente na sua obra?” Não verás muitos, tão epidêmicas são a preguiça e a torpeza. Aqui é elogiado aquele que se dispõe a trabalhar, ainda que seja em uma esfera muito baixa e inexpressiva, e tiver que enfrentar muitas dificuldades, quando estiver fora dos negócios; sim, aquele que ama o trabalho, que é rápido e ativo, e o realiza, não somente com constância e resolução, mas com agilidade e prontidão, um homem de iniciativa, que sabe como realizar uma grande quantidade de trabalho em pouco tempo.

2. Um prognóstico moral da primazia desse homem; embora agora ele esteja diante de homens humildes, seja empregado por eles, e os sirva, provavelmente será posto perante reis, como um embaixador diante de reis estrangeiros ou primeiro ministro de estado do seu próprio rei. Viste um homem diligente na religião? Provavelmente ele se superará em virtude, e comparecerá diante do Rei dos reis.